8 de abril 2008

what can we bear

He was beginning to think that death was finally upon them and that they should find some place to hide where they would not be found. There were times when he sat watching the boy sleep that he would begin to sob uncontrollably but it wasn't about death. He wasn't sure what it was about, but he thought it was about beauty or about goodness. Things that he'd no longer any way to think about at all. They squatted in a bleak wood and drank ditch water strained through a rag. He'd seen the boy in a dream laid upon a cooling board and woke in horror. What he could bear in the waking world he could not by night and he sat awake for fear the dream would return.


Cormac McCarthy, The Road


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22 de março 2008

Guerra Civil de Espanha

As promoções e o proselitismo dos comunistas na frente alcançou níveis tais que antigos apoiantes comunistas entre os oficiais regulares estavam horrorizados. Prieto ficou abalado ao ser informado de que recusava tratamentos médico aos feridos não-comunistas. Os comandantes de batalhão que recusavam o convite para se inscreverem no Partido viam ser-lhes cortadas as substituições, as rações e até o pré dos seus soldados. Os que capitulavam ganhavam a prioridade sobre os não-comunistas. Eram promovidos e a sua fama enaltecida nas notícias e nos relatos da imprensa. Negava-se cooperação até aos mais notáveis oficiais não-comunistas. O coronel Casado, quando esteve no comando do Exército da Andaluzia, não foi autorizado a conhecer a localização dos aeródromos nem a disponibilidade da aviação na sua frente. Os comissários a quem a hierarquia do Partido marcava objectivos de recrutamento, não se poupavam a esforços para os atingir. Prieto declarou mais tarde que, nas unidades comunistas, os socialistas que recusavam aderir ao Partido eram com frequência fuzilados, falsamente acusados de cobardia ou deserção. Depois de Brunete (batalha de), 250 homens da divisão de El Campesino procuraram protecção nas fileiras da 14ª Divisão de Mera, por causa da forma como eram tratados por não quererem ser comunistas. Mera recusou entregá-los quando El Campesino se apresentou enfurecido no quartel-general. O general Miaja, embora oficialmente fosse comunista, deu-lhe o seu apoio com um membro do Partido.
Talvez os estragos mais graves no moral após meados meados de 1937 tenham ocorrido nas fileiras das Brigadas Internacionais, que tinham acabado de ser oficialmente incorporadas no Exército Republicano Espanhol. Sempre tinha avido não-comunistas nas suas fileiras, que recusavam aceitar a linha do Partido; mas agora mesmo os comunistas comprometidos questionavam a sua posição. No início de 1937, os Irlandeses estiveram perto de se amotinarem, após a derrota de Lopera, ao serem impedidos no último momento de formar a sua própria companhia. O motim norte-americano no Jarama, no princípio da Primaver, foi bem sucedido, embora tenha sido visto como uma aberração, que acabou por ser dominado. Os italianos do batalhão Garibaldi desertaram para se juntarem à coluna Giustizia e Liebertà, dos liberais e dos anarquistas. Durante a ofensiva de Segóvia, a XIV Brigada Internacional recusou-se a continuar os ataques frontais inúteis sobre La Granja, e os estrangeiros do batalhão penal da Brigada amotinaram-se quando receberam ordens de disparar sobre os desertores.

A raiva por causa dos massacres inúteis fez-se acompanhar por um crescente mal-estar, causado pela existência de campos de «reeducação», dirigidos por oficiais soviéticos e guardados por comunistas espanhóis, equipados com as mais recentes espingardas automáticas e balas dum-dum (termo da gíria militar: projécteis de armas de fogo que possuem a capacidade de se fragmentar ou expandir durante o impacto. A designação oficial é «munição de ponta oca» n.t.). Nestes campos o trabalho estava organizado numa base stakanovista, com distribuição de comida dependente do cumprimento ou não das normas de trabalho. Os prisioneiros, na sua maioria, eram os que desejam regressar a casa por diversos motivos e tinham visto recusado o seu pedido. (Durante muito tempo, não se soube que numerosos brigadistas nesta categoria foram encerrados em hospitais para doentes mentais.) Depois, em Brunete, houve inúmeras explosões de frustração e de raiva contida face à carnificina resultante da inépcia de oficiais superiores. Wally Tapsell, do batalhão britânico, sentindo-se insultado pela estupidez e pela negligência do coronel Gal com as vidas dos homens, afirmou que ele «não era competente para comandar uma trupe de meninas, muito menos um Exército Popular». Gal quis executá-lo in loco, mas Tapsel tinha a apoiá-lo as espingardas do batalhão. Também uma unidade francesa se revoltou durante a ofensiva de Brunete e, quando o coronel Krieger os mandou para trás da linha, os oficiais recusaram obedecer. Krieger matou pessoalmente um deles, o batalhão amotinou-se e as tropas comunistas espanholas tiveram de desarmá-los antes de serem levados para «reeducação».
A contínua agitação nas Brigadas teve origem também no facto de que os voluntários, a quem nunca tinha sido referida a obrigação do serviço, supunham ficar livres de partir após um determinado tempo. Os passaportes tinham-lhes sido retirados no acto de alistamento. Krivitsky afirmava que tinham sido enviados para Moscovo pela mala diplomática, a fim de serem utilizados pelos agentes do NKVD no estrangeiro. Os líderes de brigada, alarmados pelas histórias de agitação que transpareciam pelo país, impuseram medidas disciplinares cada vez mais apertadas. O correio era sujeito a censura e todo aquele que criticasse a competência dos líderes do Partido estava sujeito a ser internado nos campos de concentração ou até a enfrentar o pelotão de fuzilamento. As licenças foram canceladas e alguns voluntários que, sem autorização, prolongaram os dias a que tinham direito, foram fuzilados por deserção ao regressarem às suas unidades. A sensação de caírem em armadilhas montadas por uma organização com a qual não simpatizavam contribuiu para que muitos voluntários se passassem para o lado dos Nacionalistas. Outros recorreram a estratagemas pouco originais, como disparar um tiro no próprio pé quando estavam a limpar a arma (10 voluntário oram fuzilados por terem infligido ferimentos a si próprios).
Os organizadores do Comintern começaram a ficar alarmados, porque o relato das condições existentes nas brigadas começaram a travar o afluxo de voluntários provenientes do estrangeiro. Os novatos ficavam chocados com o cinismo dos veteranos, que troçavam do idealismo dos recém-vindos, recordando com amargura o seu próprios idealismo inicial. Alguns dos recém-chegados a Albacete eram literalmente narcotizados. Alguns estrangeiros especializados, ou mecânicos que tinham concordado em vir apenas com um objectivo específico, viram-se recrutados e ameaçados com castigos caso recusassem. Até marinheiros, de licença em terra, pertencentes a navios mercantes em portos republicanos, eram detidos como «desertores» das Brigadas e levados sob custódia para Albacete.
O maior abalo nas atitudes dos que se encontravam nas Brigadas Internacionais foi a perseguição do POUM. A versão dada pelo Partido daquilo que estava a passar-se era tão obviamente desonesta que só acreditavam nela os que tinham medo da verdade. Esta mentalidade está bem manifesta nas declarações de um brigadista, de que «a instituição de debates políticos obrigatórios uma vez por dia, por ordens superiores, é uma prova de que estamos a ser tratados mais seriamente do que é habitual». A maioria, porém, apercebendo-se de que tinham sido ludibriados, sentia o insulto feito à sua inteligência. Precisavam de refrear a língua enquanto se encontravam em Espanha, para não chamarem as atenções do SIM (Servicio de Investigación Militar). Depois, ao regressarem aos seus países, habitualmente mantinham-se silenciosos, para não prejudicarem a causa republicana no seu conjunto. Os que, como Orwell, falaram abertamente, viram fechar-se-lhes as portas dos editores de esquerda; os apoiantes pouco críticos da República eram obrigados a justificar a linha de Moscovo. Não obstante, a tentativa de exportar para Espanha a mentalidade dos julgamentos-fantoche ignorou o facto de que, por autoritário que fosse o governo de Negrín, não era totalitário. Como resultado, o labirinto selado de espelhos distorcidos que tinha substituído a realidade na União Soviética, não pôde duplicar-se em Espanha.
Em 1937, havia muitos motivos para se ser comunista, e entre os membros do partido podiam distinguir-se cinco categorias principais: os membros convencidos que acreditavam que só o Partido Comunista podia ajudar o proletariado internacional; os republicanos, que acreditavam simplesmente que a orientação comunista do esforço de guerra era vital para a vitória militar e para a restauração do sistema governamental; os arrivistas que viam que o poder do Partido lhes oferecia os meios mais seguros de promoção; os empresários ou os pequenos proprietários fundiários, desejosos de protecção contra a colectivização; e , finalmente, os apoiantes nacionalistas secretos, que desejavam a segurança proporcionada por um cartão de membro do Partido. Os que pertenciam à segunda categoria, como Prieto, começaram a perguntar-se, ao longo de 1937, se teriam razão. A lealdade dos oportunistas dependia simplesmente da continuação do poder do partido per se. As ambições dos comunistas espanhóis, porém, foram travadas pela política soviética, que exigia que o controlo do Partido fosse encoberto.


Antony Beevor, Guerra Civil de Espanha


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1 de fevereiro 2008

buñuelesco

Durante o mês de Agosto, as tropas da milícia que cercavam o Alcázar fizeram um juízo erróneo quer acerca da rapidez do avanço de Yagüe quer da capacidade de resistência dos defensores da fortaleza. Nas barricadas que rodeavam a Academia Militar havia uma atmosfera de descontracção, desperdiçando-se enormes quantidades de munições contra as suas espessas paredes. Só passado algum tempo trouxeram a artilharia e mesmo a peça de 175mm que por fim instalaram apenas derrubou as supra-estruturas. O Alcazár era como um icebergue. A sua força residia na rocha submersa. Havia no cenário qualquer coisa de buñuelesco; milicianos usando chapéus de palha contra o calor estendiam-se em colchões atrás das barricadas trocando insultos com os guarda-civis defensores. Duas vezes por dia, havia um cessar-fogo tacitamente acordado, quando um mendigo cego percorria a Calle de Cármen entre as linhas de fogo.


Antony Beevor, in A Guerra Civil de Espanha

© Bertrand
tradução de José Espadeiro Martins


Lido por dolphin.s às 23h02 | Comentários (2)

21 de janeiro 2008

Sindicatos

Em 1907, Malatesta tinha observado sobre o sindicalismo que «quanto mais poderoso se torna o movimento, tanto mais egoísta começa a tornar-se, mais conservador, preocupado exclusivamente com interesses a curto prazo, desenvolvendo uma burocracia interna que, como sempre, apenas estás interessada em crescer cada vez mais numerosa e forte».



Antony Beevor, in A Guerra Civil de Espanha

© Bertrand
tradução de José Espadeiro Martins


Lido por dolphin.s às 20h49 | Comentários (2)

14 de janeiro 2008

História

A corrupção politica e económica alastrava a partir de Madrid, de uma forma que ultrapassava tudo o que se tinha visto em séculos anteriores. Os tribunais eram manipulados de tal maneira que uma pessoa pobre não conseguia levar adiante um processo, muito menos obter que lhe fizessem justiça. Entretanto, embora nas províncias houvesse feroz rivalidade entre liberais e conservadores, na capital verificava-se praticamente um acordo de cavalheiros entre os líderes. Sempre que era necessário avançar com uma medida impopular, os conservadores retiravam-se e adiantavam-se os liberais que agora quase não se distinguiam dos seus adversários. Os dois partidos pareciam aqueles bonecos de madeira que saem alternadamente das suas casotas para indicar o tempo.



Antony Beevor, in A Guerra Civil de Espanha
(referindo-se à 2ª metade do século XIX)

© Bertrand
tradução de José Espadeiro Martins


Lido por dolphin.s às 21h19 | Comentários (3)

31 de dezembro 2007

Bom Ano Novo

A verdade é que eles não querem ser governados por iguais: pensam muito mal deles porque pensam mal a seu próprio respeito e a respeito dos seus mais próximos vizinhos. É «humano» amar o dinheiro e viver ao serviço dos seus interesses. Mas quando somos humanos, como os outros, não somos capazes de governá-los. O povo pede então o não humano, o sobre-humano, o Grande Homem, que será «honesto» por que está «acima dessas questões».



Simone de Beauvoir, A Força das Coisas


Lido por dolphin.s às 19h20 | Comentários (1)

7 de outubro 2007

Todas as Guerras

das mil maneiras com que se pode declarar um homem culpado, a observação que foi feita rapidamente num café e anotada por alguém, a frase rabiscada numa agenda, o facto de um primo se encontrar nas fileiras inimigas, e o estranho som que as próprias palavras causam nos ouvidos quando são citadas na acusação.

(...)

Põem-lhe um cigarro nos dedos e encaminham-no para o pátio para enfrentar seis homens que nunca tinha visto. Apontam. Esperam a ordem. Disparam.


Ignacio Martínez de Pison, Enterrar os Mortos
citando John Dos Passos
© Editorial Teorema
tradução de Jorge Fallorca




Lido por dolphin.s às 11h19 | Comentários (0)

20 de setembro 2007

Murder is a man thing.

The jury is still out on women police. On whether they can take it. Or for how long. On the other hand, maybe it's me: Maybe I'm just another fuckoff. New York PD, for instance, is now fifteen percent female. And all over the country women detectives continue to do outstanding work, celebrated work. But I'm thinking that these must be some very, very exceptional ladies. Many times, when I was in Homicide, I said to myself, Walk away girl. Ain't nobody stopping you. Just walk away. Murders are men's work. Men commit them, men clean up after them. Because men like violence. Women really don't figure that much, except as victims, and among the bereaved, of course, and as witnesses. Ten or twelve years back, during the arms buildup toward the end of Reagan's first term, when the nuclear thing was on everyone's mind, it seemed to me that the ultimate homicide was coming and one day I'd get the dispatcher's call alerting me to five billion dead: "All of them, except you and me." In full consciousness and broad daylight men sat at desks drawing up contingency plans to murder everybody. I kept saying out loud: " Where are the women?" Where were the women? I'll tell you: They were witnesses. Those straggly chicks on their tents on Greenham Common, England, making the military crazy with their presence and their stares — they were witnesses. Naturally, the nuclear arrangement, the nuclear machine, was strictly men only. Murder is a man thing.




Martin Amis, Night Train


Lido por dolphin.s às 14h31 | Comentários (3)

14 de setembro 2007

The Race

Allow me to apologize in advance for the bad language, the diseased sarcasm, and the bigotry. All police are racist. It's part of our job. New York police hate Puerto Ricans, Miami police hate Cubans, Houston police hate Mexicans, San Diego police hate Amerindians, and Portland police hate Eskimos. Here we hate pretty well everybody who's non-Irish. Or non-police. Anyone can become a police — Jews, blacks, Asians, women — and once you're there you're a member of a race called police, which is obliged to hate every other race.





Martin Amis, Night Train


Lido por dolphin.s às 19h13 | Comentários (3)

7 de setembro 2007

Cloacas

O Café des Amateurs era a cloaca da Rue Mouffetard, essa maravilhosa rua estreita, sempre coalhada de gente, por via do seu mercado, que desembocava na Place Contrescarpe. As retretes de agachar das velhas casa de apartamentos — havia uma em cada andar, ao princípio das escadas — com os seus relevos de cimento estriado em forma de sapato de cada lado da abertura, para evitar que algum locataire escorregasse — davam para as fossas que à noite eram esvaziadas por meio de uma bomba, para o interior de carros-tanques puxados por cavalos. No verão, o barulho da bomba entrava pelas janelas abertas, acompanhado de fortes emanações. Os carros-tanques eram pintados de amarelo e de cor de açafrão, e quando, à luz da Lua, eles trabalhavam na Rue Cardinal Lemoire, os cilindros puxados pelos cavalos faziam pensar em quadros de Braque.
Mas a cloaca do Café des Amateurs é que ninguém esvaziava, e o seu cartaz amarelecido, onde se liam os termos e as penalidades impostas pela lei contra a embriaguez pública, era tão desprezado e estava tão sujo das moscas como os clientes eram assíduos e mal cheirosos.


Ernest Hemingway, Paris é uma Festa
tradução de Virgínia Motta
Edição Livros do Brasil



Lido por dolphin.s às 15h12 | Comentários (4)

20 de agosto 2007

Pequenos equívocos sem importância

Sabe, às vezes, quando se está com uns copitos, a realidade simplifica-se, salta-se por cima dos buracos que há entre as coisas, tudo parece ajustar-se e dizemos: aí está. Como nos sonhos.
Mas a si, porque é que lhe interessavam as histórias dos outros? Também o senhor não deve ser capaz de encher as lacunas entre as coisas. Não lhe chegam os seus próprios sonhos?




Antonio Tabucchi, Charada
Pequenos equívocos sem importância
tradução de Helena Domingos
Editora Difel


Lido por dolphin.s às 18h25 | Comentários (5)

17 de agosto 2007

sigo andando

Estoy seguro de que, aunque se diera el caso de que fueran sólo verdades indefinidas, la búsqueda no carecerá de sentido. El viaje será largo, pero digamos que ya estoy fuera del teatro, en la callejuela real, húmeda, oscura y estrecha. Esa callejuela es el mejor atajo que conozco para llegar a la misteriosa calle única de mi vida. ¿Acaso es la verdad sobre mi vida lo que realmente quiero investigar? ¿O es la calle de la verdad la que me interesa? No sé, sigo andando por la callejuela húmeda y oscura. Y no olvido que para adentrarme en la verdad necesito desaparecer de verdad.






Enrique Vila-Matas, Doctor Pasavento
Editorial Anagrama





Lido por dolphin.s às 09h44 | Comentários (4)

15 de agosto 2007

consolo

Aunque te volvieras un hombre entrañable, alguien siempre preocupado por los otros, desprendido y amable hasta el infinito, simpático y no problemático, tampoco así te amarían. Estamos solos, cada uno consigo mismo y con su muerte propia y su vida solitaria y desastrosa, estamos muy solos todos. Pero te diré algo que quizás te consuele. La soledad es el afrodisíaco del espíritu, como la conversación lo es de la inteligencia.






Enrique Vila-Matas, Doctor Pasavento
Editorial Anagrama





Lido por dolphin.s às 11h13 | Comentários (10)

9 de agosto 2007

Los desaparecidos como yo

Y es que los desaparecidos como yo disponen de tantas horas libres que hasta les queda tiempo para reírse de ellos mismos. Es tan pavorosamente trágico que yo no tenga a nadie en este mundo que hasta le entran a uno ganas de reír y así al menos sentirse acompañado propria. Está el consuelo, eso sí, de saber que en realidad la soledad es la manera más pura de comunicarse, pero no me parece un consuelo perfecto.







Enrique Vila-Matas, Doctor Pasavento


Lido por dolphin.s às 21h35 | Comentários (3)

16 de julho 2007

ese hospital Miguel Bombarda

Desde el sofá cercano, me he dedicado a evocar el manicomio de Lisboa en el que escribe sus novelas Lobo Antunes. Las escribe todos los días en el hospital Miguel Bombarda de Lisboa, un conjunto arquitectónico del siglo XVIII que en sus pabellones alberga enfermos psiquiátricos con distintas características mentales. Durante años, Lobo Antunes trabajó como médico en ese hospital, y aunque hace años que dejó de pasar consulta sigue conservando allí su despacho y es en él donde escribe todas las mañanas cuando está en Lisboa.
He pensado en ciertos parecidos entre Lobo Antunes y el doctor Pasavento que en Napóles visitaba la residencia de Campo di Reca donde estaba Morante, es decir, he pensado en ese punto en común (de orden médico) que hay entre Lobo Antunes y yo. Me he quedado simulando que miraba hacia la calle, pero en realidad jugando a pensar que estaba controlando, en la medida de lo posible, los movimientos de Lobo Antunes, como si él fuera un paciente mío internado en el psiquiátrico de Lisboa, pero en libertad provisional aquí en París. Y me he puesto a evocar ese hospital Miguel Bombarda en el que nunca he estado, pero sobre el que he leído muchas cosas. Me he quedado recordando -como si hubiera estado de visita allí algún día- a todos esos enfermos que, como si desearan escaparse y salir a la calle, se agolpan, según me han contado, a la entrada del edificio principal, aunque también hay muchos deambulando por los jardines. Y he pensado en ese manicomio en el que escribe todas las mañanas Lobo Antunes y en el que muchos de los enfermos allí recluidos están inscritos con nombres y direcciones falsos, porque es la forma que tienen las familias de deshacerse de ellos y así no tener que volver nunca más a visitarles. Y, sentado ahí en el salón de entrada del Suède, a pesar de la crueldad de esos parientes, me ha entrado de pronto una profunda envidia de todos esos locos de Lisboa que, a diferencia de mí, al menos tienen familiares en el mundo, aunque éstos se hayan desentendido de ellos.




Enrique Vila-Matas, Doctor Pasavento
Editorial Anagrama



Lido por dolphin.s às 11h59 | Comentários (18)

2 de julho 2007

Y yo a quién me parezco?

Y yo a quién me parezco? Pues seguramente tengo algo equilibrista que, en una alameda del fin del mundo, está paseando por la línea del abismo. Y creo que me muevo como un explorador que avanza en el vacío. No sé, trabajo en tinieblas y todo es misterioso. Sólo sé que me fascina escribir sobre el misterio de que exista el misterio de la existencia del mundo, porque adoro la aventura que hay en todo texto que uno pone en marcha, porque adoro el abismo, el misterio mismo, y adoro, además, esa línea de sombra que, al cruzarla, va a parar al territorio de lo desconocido, un espacio en el que de pronto todo nos resulta muy extraño, sobre todo cuando vemos que, como si estuviéramos en el estadio infantil del lenguaje, nos toca volver a aprenderlo todo, aunque con la diferencia de que, de niños, todo nos parecía que podíamos estudiarlo y entenderlo, mientras que en la edad da la línea de sombra vemos que el bosque de nuestras dudas no se aclarará nunca y que, además, lo que a partir de entonces vamos a encontrar sólo serán sombras y tiniebla y muchas preguntas.




Enrique Vila-Matas, Doctor Pasavento
Editorial Anagrama




Lido por dolphin.s às 12h42 | Comentários (9)

23 de junho 2007

Now, the note.

Coherent or incoherent? Angry or forgiving? Malevolent or loving? High-flown or colloquial? With or without quotations from Shakespeare, Martin Buber, and Montaigne? Hallmark should sell a card. All the great thoughts he had not reached were beyond enumeration; there was no bottom to what he did not have to say about the meaning of his life. And something funny is superfluous - suicide is funny. Not enough people realize that. It's not driven by despair or revenge, it's not born of madness or bitterness or humiliation, it's not a camouflaged homicide or a grandiose display of self-loathing - it's the finishing to the running gag. He would count himself an even bigger washout to be snuffed out any other way. For anybody who loves a joke, suicide is indispensable. For a puppeteer particularly there is nothing more natural: disappear behind the screen, insert the hand , and instead of performing as yourself, take the finale as the puppet. Think about it. There is no more thoroughly amusing way to go. A man who wants to die. A living being choosing death. That's entertainment.




Philip Roth, in Sabbath's Theater


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17 de junho 2007

Everything subterranean

What is happiness? The substantiality of this woman. The compound she was. The wit, the gameness, the shrewdness, the fatty tissue, the odd indulgence in high-flown words,that laugh marked with life, her responsibility to everything, not excluding her carnality - there was stature in this woman. Mockery. Play. The talent and taste for the clandestine, the knowledge that everything subterranean beats everything terranean by a mile, a certain physical poise, the poise that is the purest expression of her sexual freedom. And the conspiratorial understanding with which she spoke, her terror of the clock running down... Must everything be behind her? No! No! The ruthless lyricism of Michelle's soliloquy: and no I said no I will No.






Philip Roth in Sabbath's Theater

Lido por dolphin.s às 11h51 | Comentários (5)

13 de junho 2007

Suicídios Ejemplares

Libro unitario de relatos en torno del tema del suicidio. Precedente claro de Bartleby y compañía en cuanto a narrar historias de personas que se retiran de una una actividad. Lo escribí para indagar cuáles eran mis relaciones con la vida y con la muerte, sobre todo con esta última, puesto que desde la ventana de mi sexto piso se ofrecía fácil la posibilidad del vuelo. Recuerdo que mientras trazaba las historias de se conjunto de relatos teniendo en cuenta que me identifico siempre con los personajes del libro que ando en aquel momento escribiendo, sentía un cierto temor a probar mis alas y matarme.


la muerte, únicamente





Enrique Vila-Matas, Breve Autobiografía Literaria in
Vila-Matas Portátil
, Un escritor ante la crítica
Edición de Margarita Heredia
Editorial Candaya



Lido por dolphin.s às 11h11 | Comentários (2)

10 de junho 2007

Autoficción

Enrique Vila-MatasSé, por ejemplo, que la autoficción es la autobiografia bajo sospecha. Y sé también que, mucho años antes de que oyera hablar de autoficción, escribí un libro que se llamó Recuerdos inventados, donde me apropiaba de los recuerdos de otros para construirme mis recuerdos personales. Todavía hoy sigo sin saber si eso era o no autoficción. El hecho es que con el tiempo aquellos recuerdos se me han vuelto totalmente verdaderos. Lo diré más claro: son mis recuerdos.
Tuve, eso sí, mis problemas cuando conocí a Antonio Tabucchi a quien le había robado en ese libro sus recuerdos de Porto Pim, en las Azores. Pero Tabucchi se lo tomó a bien y dio una doble vuelta de tuerca al asunto transformando los recuerdos que yo le había robado en unos recuerdos suyos inventados. Esta doble vuelta de tuerca no tiene por ahora ningún neologismo que la designe, y creo que es mejor que sea así.





Enrique Vila-Matas, Autobiografia Caprichosa in
Vila-Matas Portátil
, Un escritor ante la crítica
Edición de Margarita Heredia
Editorial Candaya



Fotografia: Jean-Luc Bertini

Lido por dolphin.s às 17h24 | Comentários (11)

5 de junho 2007

What if she'd married a zebra?

Philip Roth"My wife is a lesbian. Some asshole rabbi married her today to another woman."
"You don't know this for sure."
"My sister-in-law was there, Stella. My ex-wife stood under the chuppa with this broad, and when the time came she broke the glass. My wife is a shiksa. The two of them are lesbians. This is what Judaism has come to? I can't believe it!"
"Donald, be kind," said Sabbath. "Don't disparage the Jews for wanting to be with it. Even the Jews are up against it in the Age of Total Schlock. The Jews can't win," Sabbath said to Stella who looked to be Filipino and was, like himself, an older and wiser person. "Either they're mocked because they're still wearing their beards and waving their arms in the air or they are ridiculed by people like Donald here for being up-to-the-minute servants of the sexual revolution."
"What if she'd married a zebra?" Donald asked indignantly. "Would a rabbi have married her to a zebra?"
"Zebra or zebu?" asked Sabbath.
"What's a zebu?"
"A zebu is an east Asian cow with a large hump. Many women today are leaving husbands for zebus. Which did you say?"
"Zebra."
"Well, I think not. A rabbi wouldn't touch a zebra. Can't. They don't have cloven hooves. For a rabbi to officiate at the marriage of a person to an animal, the animal has to chew its cud and have a cloven hoof. A camel. A rabbi can marry a person to a camel. A cow. Any kind of cattle. Sheep. Can't marry someone to a rabbit, however, because even though a rabbit chews its cud, it doesn't have a cloven hoof. They also eat their own shit, which, on the face of it, you might think a point in their favor: chew their food three times. But what is required is twice. That's why a rabbi can't marry a person to a pig. Not that the pig is unclean. That's not the problem, never has been. The problem with the pig is, though it has a cloven hoof, it doesn't chew its cud. A zebra may or may not chew its cud—I don't know. But it doesn't have a cloven hoof, and with the rabbis, one strike and you're out. The rabbi can marry a person to a bull, of course. The bull is like a cow. The divine animal, the bull. The Canaanite god El—which is where the Jews got El-o-him—is a bull. Anti-Defamation League tries to downplay this, but like it or not, the El in Elohim, a bull! Basic religious Passion is to worship a bull. Damn it, Donald, you Jews ought to be proud of that. All the ancient religions were obscene. Do you know how the Egyptians imagined the origins of the universe? Any kid can read about it in his encyclopaedia. God masturbated. And his sperm flew up and created the universe."
The nurses did not look happy with the turn given to the conversation by Sabbath, and so the puppeteer decided to ad-dress them directly. "God's jerking off alarms you? Well, gods are alarming, girls. It's a god who commands you to cut off your foreskin. It's a god who commands you to sacrifice your firstborn. It's a god who commands you to leave your mother and father and go off into the wilderness. It's a god who sends you into slavery. It's a god who destroys—it's the spirit of a god that comes down to destroy—and yet it's a god who gives life. What in all of creation is as nasty and strong as this god who gives life? The God of the Torah embodies the world in all its horror. And in all its truth. You've got to hand it to the Jews. Truly rare and admirable candour. What other people's national myth reveals their God's atrocious conduct and their own? Just read the Bible, it's all there, the backsliding, idolatrous, butchering Jews and the schizophrenia of these ancient gods. What is the archetypal Bible story? story of betrayal. Of treachery. It's just one deception after an-other. And whose is the greatest voice in the Bible? Isaiah. The mad desire to obliterate all! The mad desire to save all! The greatest voice in the Bible is the voice of somebody who has lost his mind! And that God, that Hebrew God—you can't escape Him! What's shocking is not His monstrous features—plenty gods are monstrous, it seems almost to have been a prerequisite but that there's no recourse from Him. No power beyond His The most monstrous feature of God, my friends, is the totalitarianism. This vengeful, seething God, this punishment-ordaining bastard, is ultimate! Mind if I have a Pepsi?" Sabbath inquired Donald.


Philip Roth, in Sabbath's Theater

Lido por dolphin.s às 22h32 | Comentários (5)

27 de abril 2007

What he had to do

And this was the first time he realized or admitted what he had to do. The problem that was his life was never to be solved. His wasn't the kind of life where it is possible to say, "This is essential and that is not essential, this I will not do because I cannot endure it, and that I will do because I can endure it." There was no unsnarling an existence whose waywardness constituted its only authority and provided its primary amusement.


Philip Roth, in Sabbath's Theater


Lido por dolphin.s às 19h27 | Comentários (2)

2 de abril 2007

Monogamy

"One monogamous mate isn't enough for you?" he asked Drenka. "You like monogamy so much with him you want it with me too? Is there no connection you can see between your husband's enviable fidelity and the fact that he physically repels you?" Pompously he continued, "We who have never stopped exciting each other impose on each other no vows, no oaths, no restrictions, whereas with him the fucking is sickening even for the two minutes a month he bends you over the dinner table and does it from behind . And why is that? Matija is big, powerful, virile, a head of black hair like a porcupine. His hairs are quills. Every old dame in the country is in love with him, and not just for his Slavic charm. His looks turn them on. Your little waitresses are all nuts about the cleft in his chin. I've watched him back in the kitchen when it's a hundred degrees in August and they're waiting ten deep on the terrace for tables. I've seen him churning out the dinners, grilling those kebabs in his sopping T-shirt. All agleam with grease, he turns me on. Only his wife he repels. Why? The ostentatiously monogamous nature, that is why.


Philip Roth in Sabbath's Theater



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25 de março 2007

Desde que tivesse os olhos bem abertos

Mas foi só exteriormente e de um ponto de vista político que se evitou o descalabro radical naqueles primeiros anos do pós-guerra; a nível interno teve lugar uma revolução de grandes proporções — juntamente com os exércitos, algo mais tinha sido derrotado: a crença na infalibilidade das autoridades, crença essa na qual a nossa própria juventude tinha sido educada em espírito de excessiva submissão. Mas teria sido possível aos alemães continuarem a admirar o seu imperador que jurara lutar «até ao último sopro de homem e montada» e que, a coberto da noite e do nevoeiro, se escapulira para o outro lado da fronteira, ou os comandantes dos exércitos, os políticos ou os poetas que incessantemente tinham rimado Kríeg (guerra) com Sieg (vitória) e Not (necessidade) com Toa (morte)? O horror só agora se manifestava, agora que o fumo da pólvora se tinha dissipado sobre o país, agora que se tornava evidente a devastação causada pela guerra. Como poderia ainda ser considerado sagrado um mandamento moral que, ao longo de quatro anos, autorizara morticínios e pilhagens sob o epíteto de heroísmo e de requisição? Como havia um povo de acreditar nas promessas do Estado que se esquivara a todas as obrigações incómodas que tinha perante os cidadãos? E agora eram essas mesmas pessoas, essa mesma clique de velhos, daqueles a quem apelidavam de experientes, que conseguiam ainda ultrapassar a loucura da guerra com a sua paz mal amanhada. Hoje todos sabem — e alguns de nós, poucos, já o sabiam antes — que aquela paz tinha sido uma oportunidade, senão mesmo a maior oportunidade moral da história. Wilson reconhecera-o. Numa visão de grande alcance, tinha esboçado um plano para uma reconciliação verdadeira e duradoura em todo o mundo Mas os velhos generais, os velhos homens de Estado, os velhos interesses, tinham rasgado o grande projecto, reduzindo-o a pedaços de papel sem valor. A grande, a sagrada promessa feita a milhões de pessoas, de que aquela guerra seria a última, essa promessa, à qual os soldados, já meio desiludidos, meio desesperados e extenuados, ainda tinham ido buscar a sua derradeira energia, foi cinicamente sacrificada aos interesses dos fabricantes de armamento e à paixão do jogo alimentada pelos políticos que souberam pôr triunfalmente a salvo, contra a exigência sábia e humana de Wilson, a sua desastrosa táctica de acordos secretos e de conversações à porta fechada. Desde que tivesse os olhos bem abertos, todo o mundo via que tinha sido enganado.

Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu

tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim

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23 de março 2007

As massas

É muito perturbador o facto do regime totalitário, mal-grado o seu carácter evidentemente criminoso, contar com o apoio das massas. Embora muitos especialistas se neguem a aceitar esta situação, preferindo ver nela o resultado da força da máquina de propaganda e de lavagem ao cérebro, a publicação em 1965 dos relatórios originalmente sigilosos das pesquisas da opinião pública alemã dos anos 1939-1944, realizadas então pelos serviços secretos das SS (Meldungen aus dem Reich Auswahl aus den Geheimen Lageberichten des Sicherheitsdientes der S.S. 1939-1945 [Relatórios do Reich. Selecção de Relatórios Sigilosos Recolhidos pelo Serviço da Segurança das SS], Neuwied & Berlin, 1965), demonstra que a população alemã estava notavelmente bem informada sobre o que acontecia com os judeus ou sobre a preparação do ataque contra a URSS, sem que com isso se reduzisse o apoio dado ao regime.



Hannah Arendt in As Origens do Totalitarismo
prefácio à III parte - O Totalitarismo (nota de rodapé)

© Dom Quixote
tradução de Roberto Raposo


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22 de março 2007

La serenidad no está precisamente reñida con la alegria

El [padre de Victoria] fue el primero de la Sociedad de la Noche del Iris Negro en diseñar los límites de su existencia y también decidir que ya tenía bastante de este mundo. Precisamente él, que a todos nos calmaba cuando empezaba a rondarnos la idea de quitarnos la vida. «No tengáis prisa», solía decirnos, «sin la posibilidad del suicidio ya me habría matado hace mucho tiempo. El suicidio es un acto afirmativo, lo podéis hacer cuando queráis, qué prisa tenéis? Calmaos. Lo que hace soportable la vida es la idea de que podemos elegir cuándo escapar.» Y sin embargo tuvo que ser él precisamente el primero a cansarse de este mundo. In día, nos llamó a todos y nos comunicó que ya tenía bastante con lo que había vivido y que deseaba poner punto final a todo en compañía de sus amigos.
- Pero no me parece que hiciera honor a la regla más elemental de la Socied - he dicho.
- A qué te refieres?
- Pues a que saltar al vacío no es un acto excesivamente sereno.
- Lo es - Catón se ha mostrado tajante -. O al menos en su caso lo fue. Eligió el salto desde el campanario porque dijo que contenía una especie de rebelión hacia nuestra condición humana, tan privada de la posibilidad del vuelo. Dijo que era un acto maravilloso arrojarse al vacío porque tendía al espacio, a las grandes dimensiones, al horizonte. Una noble forma de muerte que podía practicarse con toda serenidad después de una reflexiva velada con los amigos. Eso dijo.



Enrique Vila-Matas in Suicidios Ejemplares
© Editorial Anagrama

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21 de março 2007

Desmesura

Si de algo él siempre había pecado era de un excesivo, casi brutal, dramatismo, siempre provocado por su incorregible tendencia a la desmesura. En todo exageraba. En su profunda aflicción, por ejemplo, por España, a la que veía hundida eternamente por nuestra congénita incompetencia en todo. Se avergonzaba tanto, por ejemplo, de nuestro pasado político que a veces, llevado por su exageración sin límites, había llegado a sentirse el responsable único de todos los desmanes de nuestra historia, lo que le llevaba a convertirse, claro está, en el ser más apesadumbrado de la tierra. Su bisabuelo, abuelo y padre habían sido diplomáticos o militares, pero eso no justificaba lo desmesurado de su actitud en esas ocasiones. Fernando era uno de esos tristes que de tarde en tarde se sienten de pronto responsables de nuestro nefasto pasado. Y, claro está, se hunden como nadie.



Enrique Vila-Matas in Suicidios Ejemplares
© Editorial Anagrama

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13 de março 2007

Liberdade!!

- Creo que deberíamos irnos - ha sugerido Catón mientras Victoria arrojaba un ramo de rosas sobre la destartalada lápida. Hemos tomado camino de la salida. Y una vez ya fuera de recinto, nos ha parecido ver una solitaria tumba junto a un ciprés no menos solitario. Una sepultura extramuros.
- Y aquella tumba? - hemos preguntado.
- Allí descansa Eceiza, el ateo del pueblo - se ha apresurado a decir Cáton -. El cura se negó a enterrarlo en camposanto, y ahí lo tenéis, feliz en la libertad del campo abierto.




Enrique Vila-Matas in Suicidios Ejemplares
© Editorial Anagrama

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8 de março 2007

La muerte, únicamente

-¿Que hay_para cenar? —preguntó un exigente Bernd desde el sofá.
—La muerte - dijo ella -. La muerte, únicamente.
Lo dijo tan bajo, desde la soledad de su cocina, que ellos no alcanzaron a oírla, así como tampoco podían escuchar cómo en aquel momento era degollada una gallina. Y si no les era posible oírlo era porque esa gallina era su propia madre, que se imaginaba a sí misma de esa forma, degollada viva, y lo hacía para pensar en algo que la distrajera y la apartara de una peligrosa tentación que se le acababa de presentar en forma de nueva oportunidad para quitarse la vida. Abrir el gas y meter la cabeza en el horno. Una muerte horrible, se decía a sí misma mientras pensaba que lo peor de todo era que, si finalmente se decidía a inmolar su cabeza con el pelo estropajo incluido, sus hijos probablemente tardarían en darse cuenta. Seguirían allí en el salón discutiendo como cada día, por su ridicula parcela de poder en el sofá. Imbéciles. Desgraciados. Sólo cuando todo se hubiera consumado encontrarían ellos una cabeza de madre bien asada en lugar del lechón. Una muerte horrible, pensaba Rosa Schwarzer mientras trataba de apartar sin conseguirlo ' aquella tremenda tentación.
Le salvó la violenta llegada del marido. Su inconfundible manera de entrar en la casa -el fuerte portazo y la tos aquella de fumador empedernido— disolvió la feroz tentación del horno, porque de pronto cobró para ella mayor interés tomar un tarro de mermelada y estrellarlo en la cara del marido infiel. Una venganza por lo de la vecina y, sobre todo, por tantos años de indiferencia y constante humillación. Merecía la pena dejar a un lado la idea del horno y gozar fugazmente de la expresión de horror y sorpresa de su marido cuando, por primera vez en treinta años, la viera rebelarse contra la sofocante violencia de su gran indiferencia. Pero antes de arrojarle el tarro, se dijo que apagaría las luces de la casa y los aterraría a los tres. No por el apagón sino porque con su voz ronca de gaviota chillaría en la oscuridad su nombre. Y así lo hizo, aunque finalmente no apagó las luces y se limitó al grito:
—Rosaaaaaa Schwaaaaaarzer.
Bajaron incrédulos el volumen del televisor, y entonces volvió a oírse el nombre, pero esta vez pronunciado en forma de eco veloz y muy sincopado, casi sofocado, como si estuviera en pleno ataque de hipo. Cuando todo pasó, se la oyó a ella respirar profundamente, con gran alivio y felicidad.
—Pero ¿te has vuelto loca, mamá Rosa? —intervino el marido sujetándola violentamente por el brazo-. ¿Qué te sucede?
Una excelente oportunidad para morir, pensó ella. Esta ocasión sí que no voy a dejar pasarla, le sacaré de quicio, lo cual es fácil, y estoy segura de que me dirá que me va a matar, y entonces forzaré las cosas para que me mate de verdad.
-Bonita manera de preparar la cena -le dijo el marido-. Pero ¿puede saberse qué te pasa?
Respondió arrojándole el tarro de mermelada a la cara, pero no dio en el blanco, y el tarro fue a estrellarse contra el reloj de la cocina, que dejó de funcionar en el acto, lo que a Rosa Schwarzer la dejó muy satisfecha, pues pensó que al menos en la cocina el tiempo ya se había detenido y que con un poco de suerte se detendría para siempre si, como esperaba, el marido se decidía a matarla. Y el marido parecía tener esa intención, pues tenía la mano en alto y la amenazaba deciéndole precisamente que iba a matarla. Había que procurar que esta vez la frase no quedara, como de costumbre, en agua de borrajas. No podía ella dejar pasar aquella ocasión inmejorable, aquella inigualable oportunidad —quién lo iba a decir, la sexta en un solo día— de alcanzar la muerte.




Enrique Vila-Matas in Suicidios Ejemplares
© Editorial Anagrama

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23 de fevereiro 2007

la topografia de la ciudad

Suicidios EjemplaresHace unos años comenzaron a aparecer unos grafitti misteriosos en los muros de la ciudad nueva de Fez, en Marruecos. Se descrubió que los trazaba un vagabundo, un campesino emigrado que no se había integrado en la vida urbana y que para orientarse debía marcar itinerarios de su propio mapa secreto, superponiéndolos a la topografia de la ciudad moderna que le era extraña y hostil.


Enrique Vila-Matas in Suicidios Ejemplares
© Editorial Anagrama

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19 de fevereiro 2007

Liberdade


Aquilo que «actua» sobre mim só actua porque eu o escolhi como actuante. Não é porque alguém me ofenda que eu reajo violentamente, mas sim porque escolho tal ofensa como «móbil» da minha reacção. Tal escolha, porém, de um móbil, posso não reconhecê-la senão depois de se manifestar. Assim são normalmente os meus actos que me esclarecem sobre o que realmente sou, sobre aquilo que realmente escolhi, sobre a minha liberdade.
Mas isso não significa que eu seja «inconsciente», já que, segundo Sartre, o homem é consciência de ponta a ponta, em todos os seus aspectos. Simplesmente, há consciência posicional, reflectida, e consciência não-posicional, não reflectida. A minha liberdade é de facto consciente, mas só os meus actos claramente ma revelam. Em qualquer situação portanto, eu «sou consciência de liberdade». Assim a minha liberdade é o estofo do meu ser.

Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Liberdade


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17 de fevereiro 2007

Incompreensão

De todas as mudanças de língua que tem de enfrentar o viajante em terras longínquas, nenhuma iguala a que o espera na cidade de Hipácia, porque não diz respeito às palavras mas sim às coisas. Entrei em Hipácia uma manhã, um jardim de magnólias reflectia-se em lagunas azuis, eu andava por entre os canteiros seguro de descobrir belas e jovens damas a tomar banho: mas no fundo das águas os caranguejos mordiam os olhos das suicidas de pedra atada ao pescoço e cabelos verdes de algas.
Senti-me defraudado e pretendi pedir justiça ao sultão. Subi as escadarias de pórfiro do palácio de cúpulas mais altas, atravessei seis pátios de azulejos com repuxos. A sala no meio estava barrada por grades: os forçados com negras correntes amarradas aos pés içavam pedras de basalto de uma mina que se abria debaixo da terra.
Só me restava interrogar os filósofos. Entrei na grande biblioteca, perdi-me entre as estantes que vergavam sob o peso das encadernações de pergaminho, segui a ordem alfabética de alfabetos desaparecidos, subi e desci corredores, escadas e pontes. No mais remoto gabinete dos papiros, numa nuvem de fumo, apareceram-me os olhos apatetados de um adolescente deitado numa esteira, que não tirava os lábios de um cachimbo de ópio.
— Onde está o sábio? — O fumador indicou-me a rua pela janela. Era um jardim com jogos infantis: os jogos de paulitos, os baloiços, o escorrega. O filósofo estava sentado na relva. Disse: — Os sinais formam uma língua, mas não a que julgas conhecer. — Compreendi que devia libertar-me das imagens que até aqui me haviam anunciado as coisas que procurava: só então conseguiria entender a linguagem de Hipácia.
Agora basta que oiça relinchar os cavalos e zunir os chicotes e logo me assalta uma trepidação amorosa: em Hipácia tive de entrar nas cavalariças e nas oficinas dos ferradores para ver as belíssimas mulheres que montam nas selas de coxas nuas e polainas nas pernas, e que mal se aproxima um jovem estrangeiro o deitam sobre montes de feno ou de serradura e o apertam com os rijos mamilos.
E quando a minha alma não pede outro alimento e estímulo que não seja a música, sei que tenho de procurá-la nos cemitérios: os tocadores escondem-se nos túmulos; de uma cova para outra correspondem-se trinados de flautas e acordes de harpas.
Decerto mesmo em Hipácia também chegará o dia em que o meu único desejo será partir. Sei que não deverei descer ao porto mas sim subir ao pináculo mais alto da fortaleza e esperar que passe um navio lá por cima. Mas passará alguma vez? Não há linguagem sem engano.



Italo Calvino in As Cidades Invisíveis
© Editorial Teorema
tradução de José Colaço Barreiros


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7 de janeiro 2007

Definições de Inferno

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos de não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.





Italo Calvino in As Cidades Invisíveis
© Editorial Teorema
tradução de José Colaço Barreiros


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5 de janeiro 2007

As cidades e os sinais

o homemO homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo do caminho, pergunta-se como será o palácio real, o quartel, o moinho, o teatro, o bazar. Em todas as cidades do império cada um dos edifícios é diferente e disposto segundo uma diferente ordem: mas assim que o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança os olhares para o meio daquela pilha de pagodes e trapeiras e celeiros, seguindo os gatafunhos de canais hortas lixeiras, distingue logo quais são os palácios dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a estalagem, a prisão, a judiaria. Assim — há quem diga — confirma-se a hipótese de que cada homem traz na mente uma cidade feita só de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, e são as cidades particulares que a preenchem.





Italo Calvino in As Cidades Invisíveis
© Editorial Teorema
tradução de José Colaço Barreiros


Lido por dolphin.s às 22h34 | Comentários (12)

30 de dezembro 2006

Despedida

Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.


José Saramago, in As Pequenas Memórias
© Editorial Caminho

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22 de dezembro 2006

Que palavra dirá então?

Cai a chuva, o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo se esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mas expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma coisa em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida. É um homem como tantos outros nesta terra, neste mundo, talvez um Einstein esmagado sob uma montanha de impossíveis, um filósofo, um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria que não pode ser nunca. Recordo aquelas noites mornas de Verão, quando dormíamos debaixo da figueira grande, ouço-o falar da vida que teve, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia, do gado que criava, das histórias e lendas da sua infância distante. Adormecíamos tarde, bem enrolados nas mantas por causa do fresco da madrugada. Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a eterna interrogação dos astros. Que palavra dirá então?


Adeus


José Saramago, in As Pequenas Memórias
© Editorial Caminho



Lido por dolphin.s às 21h52 | Comentários (3)

15 de dezembro 2006

amor

Entre os bacorinhos acabados de nascer aparecia de vez em quando um ou outro mais débil que inevitavelmente sofreria com o frio da noite, sobretudo se era Inverno, que poderia ser-lhe fatal. No entanto, que eu saiba, nenhum desses animais morreu. Todas as noites, me avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na sua própria cama. Aí dormiriam juntos, as mesmas mantas e os mesmos lençóis que cobririam os humanos cobririam também os animais, minha avó num lado da cama, meu avô no outro, e, entre eles, três ou quatros bacorinhos que certamente julgariam estar no reino dos céus...


José Saramago, in As Pequenas Memórias
© Editorial Caminho


porque me fez recordar histórias tuas.




Lido por dolphin.s às 20h54 | Comentários (3)

31 de outubro 2006

Barcelona



That night McNair, Cottman, and I slept in some long grass at the edge of a derelict building-lot. It was a cold night for the time of the year and no one slept much. I remember the long dismal hours of loitering about before one could get a cup of coffee. For the fisrt time since I had been in Barcelona I went to have a look at the Sagrada Familia – a modern church, anod one of the most hideous buildings in the world. It had four crenellated spires exactly hte shape of hock bottles. Unlike most of the churches in Barcelona it was not damaged during the revolution – it was spared because of its 'artitisc value', people said. I think the Anarchists showed bad taste in not blowing it up when they had the chance, though they did hang a red and black banner between its spires.
  Sagrada Familia
Sagrada FamiliaSagrada Familia
Sagrada FamiliaSagrada Familia



George Orwell in Homage to Catalonia
© Penguin Classics

Lido por dolphin.s às 22h29 | Comentários (4)

12 de setembro 2006

banda visual contínua

Pode dizer-se que a fuga terminou, mas também que continuas de viagem em tua casa, pela estrada perdida.
O mundo converteu-se-te, após o teu lento regresso, num país estrangeiro, onde já não existe a necessidade de fugir dele nem tão-pouco a de voltar a casa.
Antes de o mundo se tornar um país estrangeiro, a literatura era uma viagem, uma odisseia. Havia duas odisseias, uma era a clássica, uma epopeia conservadora que ia desde Homero a James Joyce e onde o indivíduo regressava a casa com uma identidade reafirmada, apesar de todas as dificuldades, pela viagem através do mundo e também pelos obstáculos encontrados no caminho: Ulisses, com efeito, regressava a Ítaca, e Leopold Bloom, o personagem de Joyce, também. No seu caso fazia-o numa espécie de viagem circular de repetição elíptica. A outra odisseia era a do homem sem atributos de Musil, que se movia, ao contrário de Ulisses, numa odisseia sem retorno e onde o indivíduo se lançava para diante, sem nunca voltar a casa, avançando e perdendo-se continuamente, trocando a sua identidade em vez de a reafirmar, desagregando-a naquilo que Musil chamava «um delírio de muitos».
Agora vives uma dupla odisseia num país estrangeiro e vais caminhando por uma das suas estradas perdidas ao entardecer, entre a neblina, à procura de Musil. Às vezes vês Emily Dickinson, que foge de algo e vai sussurrando a palavra bruma enquanto passeia o cão. E às vezes não a vês, porque está a coser em casa e é Penélope da epopeia conservadora.
Avanças e perdes-te continuamente e mudas a tua identidade em vez de a reafirmares, e desagregas-te num delírio de muitos pela estrada perdida, na sala da tua casa, entre a bruma, sob a neve, com a televisão ligada mas sem o audio, de maneira que de vez em quando levantas os olhos e distingues uma imagem sem a reter, uma espécie de banda visual contínua, de fundo, como antes a música fazia de fundo sonoro.



perdes-te continuamente

Enrique Vila-Matas, in O Mal de Montano
© Teorema
tradução de Jorge Fallorca

Lido por dolphin.s às 20h56 | Comentários (4)

5 de setembro 2006

Uma ostra

Uma manhã, pões-te a andar de repente, sem deixares um bilhete. Não levas nada, apenas o teu diário pessoal. Vestes um fato escuro e caminhas pelas ruas catalãs sob a chuva: as árvores, os passeios, alguns transeuntes. Quando chegas a uma praça, vês um autocarro. Aceleras o passo, atravessas a avenida a correr e sobes atrás dos outros passageiros. O autocarro arranca. Sentas-te na parte de trás para veres melhor a paisagem humana. Contemplas a chuva nos vidros. Umas horas mais tarde, atravessas o Sena, também de autocarro, caminhas pela ponte de Austerlitz e em cada paragem observas as pessoas que sobem. E já em Orly passas um leve controlo da polícia, nem sequer levas bagagem de mão, apenas o teu diário pessoal. Apanhas um avião que rasga o ar e aterra em Santiago do Chile, onde apanhas um táxi para Valparaíso, e, uma vez ali, corres para a esplanada do Hotel Brighton, onde notas que não tardará a chover e em qualquer caso não cais na imbecilidade de te interrogares o que estás ali a fazer, assim como não te interrogas se porias a secar o teu cachecol em cima do radiador do teu quarto no caso de teres — que não tens — cachecol, radiador e quarto.
Depois recordas Tongoy nessa mesma esplanada, o ano passado, todo o barulho horrível com aquela mosca que afogou em álcool, aquela festa de fim de século nesta mesma esplanada, hoje deserta, terrivelmente vazia, sem ninguém. O hotel parece fechado. Impressiona ver um lugar tão animado na tua imaginação e tão morto no mundo da realidade. Mas não é o momento para te deixares impressionar. Bem vistas as coisas, tu é que procuraste a tremenda solidão desta esplanada, outrora cheia de alegria para ti. Seria absurdo lamentares-te agora de nada. Dizes isto e de imediato aparece um empregado. Sentes uma certa decepção, tinhas começado a gostar da ideia de andares a passear sozinho por um espaço que é um dos eixos centrais do teu diário, tanto no que se refere à tua vida real como à tua imaginação. Mas, em contrapartida à decepção, apercebes-te de que se te abrem possibilidades interessantes e uma delas é pedires um pisco sour, que é o que fazes. Pouco depois, enquanto to servem, pensa; na vida e sentes-te orgulhoso de ti, interrogas-te em que é que te converteste depois da tua fuga. E respondes-te: sou um ocioso, um sonâmbulo uma ostra. Estás só a brincar, sentes-te contente, a felicidade do fugitivo.


Enrique Vila-Matas, in O Mal de Montano
© Teorema
tradução de Jorge Fallorca

Lido por dolphin.s às 19h24 | Comentários (1)

25 de agosto 2006

Festas, muitas festas!

Não gosto nada de pessoas contentinhas. Se dependesse delas, a literatura já tinha desaparecido da face da terra. No entanto, as pessoas «normais» são muito apreciadas em todo o lado. Todos os assassinos são, para os seu vizinhos, tal como se vê sempre na televisão, pessoas satisfeitas e normais. As pessoas normais são cúmplices do mal de Montano da literatura. Pensei nisso hoje ao meio-dia, no táxi do Pico, enquanto me lembrava de uma frase que Zelda costumava dizer ao marido, Scott Fitzgerald: «Ninguém mais do que nós tem o direito de viver, e eles, os filho-da-puta, estão a destruir o nosso mundo.»
Odeio esta grande parte da humanidade «normal» que dia a dia destrói o meu mundo. Odeio as pessoas que são de uma grande bondade porque ninguém lhes deu a oportunidade de saber o que é o mal e poderem então escolher livremente o bem; pareceu-me sempre que esse tipo de gente bondosa é gente de uma maldade extraordinária em potência. Detesto-os, penso muitas vezes como Zelda e vejo-os como uns filhos-da-puta.


Enrique Vila-Matas, in O Mal de Montano
© Teorema
tradução de Jorge Fallorca

Lido por dolphin.s às 13h19 | Comentários (8)

22 de agosto 2006

As maçãs

Nicholson levantou os olhos para ele e deteve-o. "O que faria você se pudesse modificar o sistema de ensino?", perguntou com um ar ambíguo. "Alguma vez pensou no assunto, por acaso? Responda só a esta pergunta", pediu Nicholson. "O ensino é a minha mania pessoal... é isso que ensino e é por isso que pergunto."
"Bem... Não tenho bem a certeza do que é que fazia", disse Teddy. "Sei é que com certeza não começava pelas coisas que normalmente se dão primeiro." Cruzou os braços e pensou um momento. "Acho que primeiro reunia as crianças todas e lhes mostrava como se medita. Tentava mostrar-lhes o que se deve fazer para perceber quem somos, não só os nomes e essas coisas..., acho eu, mas, mesmo antes disso, levava-os a esvaziar a cabeça de tudo que os pais e todas as outras pessoas lhes tivessem dito. Quer dizer, mesmo que os pais só lhes tivessem dito que um elefante é grande, eu obrigá-los-ia a tirar isso da cabeça. Um elefante só é grande quando está ao pé de outra coisa qualquer — um cão ou uma mulher, por exemplo." Teddy tornou a pensar um momento. "Nem mesmo lhes dizia que os elefantes têm tromba. Pode ser que lhes mostrasse um elefante, se tivesse um à mão, mas deixava-os aproximar-se do elefante sem saber mais sobre o elefante do que o elefante sabe sobre eles. Fazia o mesmo com a erva e as outras coisas. Nem sequer lhes dizia que a erva é verde. Cores são só nomes. Quer dizer, se você lhes diz que a erva é verde, isso faz com que comecem à espera que a Nicholson levantou os olhos para ele e deteve-o. "O que faria você se pudesse modificar o sistema de ensino?", perguntou com um ar ambíguo. "Alguma vez pensou no assunto, por acaso? Responda só a esta pergunta", pediu Nicholson. "O ensino é a minha mania pessoal... é isso que ensino e é por isso que pergunto."
"Bem... Não tenho bem a certeza do que é que fazia", disse Teddy. "Sei é que com certeza não começava pelas coisas que normalmente se dão primeiro." Cruzou os braços e pensou um momento. "Acho que primeiro reunia as crianças todas e lhes mostrava como se medita. Tentava mostrar-lhes o que se deve fazer para perceber quem somos, não só os nomes e essas coisas..., acho eu, mas, mesmo antes disso, levava-os a esvaziar a cabeça de tudo que os pais e todas as outras pessoas lhes tivessem dito. Quer dizer, mesmo que os pais só lhes tivessem dito que um elefante é grande, eu obrigá-los-ia a tirar isso da cabeça. Um elefante só é grande quando está ao pé de outra coisa qualquer — um cão ou uma mulher, por exemplo." Teddy tornou a pensar um momento. "Nem mesmo lhes dizia que os elefantes têm tromba. Pode ser que lhes mostrasse um elefante, se tivesse um à mão, mas deixava-os aproximar-se do elefante sem saber mais sobre o elefante do que o elefante sabe sobre eles. Fazia o mesmo com a erva e as outras coisas. Nem sequer lhes dizia que a erva é verde. Cores são só nomes. Quer dizer, se você lhes diz que a erva é verde, isso faz com que comecem à espera que a erva tenha um determinado aspecto—o aspecto que você quer que ela tenha — em vez dum outro qualquer que pode ser igualmente bom ou muito melhor... não sei. Obrigava-os a deitar cá para fora toda a data de maçã que os pais deles e toda a gente os tinham obrigado a engolir."
"Não corria o risco de criar uma pequena geração de ignorantes?"
"Porquê? Não seriam mais ignorantes do que um elefante ou um pássaro ou uma árvore", asseverou Teddy. "Só porque uma pessoa é duma certa maneira, em vez de se comportar de uma certa maneira, não quer dizer que seja ignorante."
"Não?"
"Não", disse Teddy. "Além disso, se eles quisessem aprender todas essas outras coisas — nomes, cores, etc. — podiam fazê-lo, se lhes apetecesse, mas mais tarde, quando fossem mais velhos. Mas gostava que começassem por aprender a maneira verdadeira de olhar para as coisas- e não apenas a maneira como os outros apreciadores de maçã as olham — isso é que me interessa." Aproximou-se mais de Nicholson e estendeu-lhe a mão. "Tenho de ir. A sério. Gostei muito..."


Salinger in Nove Contos - Teddy
© Livraria Bertrand
tradução de Vasco Pulido Valente


sonhos


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12 de agosto 2006

god is afraid

Em toda a terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Ora, emigrando para Oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Sennaar e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: «Vamos fazer tijolos e cozamo-los no forno». Utilizaram o tijolo em vez da pedra e o betume serviu-lhes como argamassa. E disseram depois: «Vamos construir uma cidade e uma torre cuja extremidade alcance os céus. Assim, tornar-nos-emos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a face da Terra».
O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam a edificar. E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta forma, nada os impedirá que no futuro realizem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles para que não se entendam uns aos outros». E o Senhor dispersou-os dali para toda a face da terra e eles deixaram de construir a cidade. Por isso lhe foi dado o nome de Babel, por ter sido ali que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra e foi também dali que o Senhor dispersou os homens por todos os lados.


babel


Génesis, 11, 1-9
excerto tirado de A História do Ateísmo, George Minois
© Teorema
tradução de Serafim Ferreira

Lido por dolphin.s às 17h42 | Comentários (5)

5 de agosto 2006

Um erro

Estou aqui devido a um erro — não nesta cadeia especificamente — mas em todo este mundo terrível, às riscas; um mundo que parece não um mau exemplo de amadorismo, mas que é, na realidade, horror, calamidade, loucura, erro, e vede, o achado raro, intrigante, mata o turista, o gigantesco urso esculpido abate o seu martelo de madeira sobre mim. E no entanto, desde a mais tenra infância, tive sonhos... Nos meus sonhos, o mundo tinha nobreza, espiritualidade; as pessoas que em estado de vigília tanto temia nele apareciam numa refracção fremente, como se estivessem embebidas, envoltas nessa vibração de luz que em tempo de calor confere vida aos próprios contornos dos objectos; as suas vozes, os seus passos, as expressões dos seus olhos e mesmo das suas roupas adquiriam um significado comovente; em termos mais simples, nos meus sonhos o mundo ganhava vida, tornando-se tão captivantemente majestático, livre e etéreo que depois era opressivo respirar a poeira dessa vida decalcada. Mas também há muito que me afiz a ideia de que aquilo a que chamamos sonhos é uma semi-realidade, a promessa de realidade, um vislumbre e um bafo, ou seja, os sonhos contêm, num estado diluído, muito vago, mais realidade genuína do que o nosso decantado estado de vigília que, por sua vez, é um semi-sono, uma modorra maligna na qual penetram, grotescamente deformados, os sons e as imagens do mundo real, fluindo para lá dos limites da consciência, como quando se ouve durante o sono um conto horrorosamente insidioso porque o ramo duma árvore está a arranhar uma vidraça, ou nos vemos a afundar-nos na neve porque o lençol está a escorregar. Mas como receio acordar!



Vladimir Nabokov, in Convite para uma Decapitação
© Assírio & Alvim

Lido por dolphin.s às 18h29 | Comentários (1)

15 de maio 2006

F U M A R M A T A

Dulce Maria Cardoso - Os meus sentimentos(...) procuro o maço de cigarros na carteira, fumar mata, em letras enormes, de um lado, do outro, fumar causa o envelhecimento da pele, se por um acaso não morrer, se me der para ser eterna, tenho direito a uma indemnização já que me asseguram que fumar mata, desde quando é que todas as coisas desataram a falar, a estrada, conduza com prudência, respeite a margem de segurança, se conduzir não beba, imagino que qualquer dia o hall de um prédio, se tiver uma vizinha boazona por favor não a apalpe, ou, apalpar vizinhas depende da autorização prévia do condomínio que reserva o direito de, outro aviso, quando pisar merda de cão na rua não limpe os sapatos no capacho do vizinho, procure antes os capachos de outros prédios, acendo o cigarro, hoje à tarde o banco, subscreva um plano poupança habitação, um plano poupança reforma, qualquer dia o banco, subscreva um plano infalível de assalto à mão armada, pode ainda subscrever os complementos, especial perversidade, ou fuga para país tropical, a farmácia onde ontem fui comprar pingos para o nariz, já não se usa morrer de amor, use preservativo, vigie o seu colesterol, meça a sua tensão, beba um litro e meio de água por dia, evite as gorduras, faça exercício, a farmácia estranhamente calada quando a mando à merda, a farmácia e o rol dos conselhos, não acho bem que as estradas, os bancos, as farmácias, as roupas, tenham desatado a falar, os disparates dos falantes tradicionais chegavam (...)


Dulce Maria Cardoso, in Os meus sentimentos
© Edições ASA

Lido por dolphin.s às 11h58 | Comentários (0)

11 de maio 2006

inesperadamente

inesperadamente

não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,

     inesperadamente paro

a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

     são tão maçadoras as lengalengas

durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada, devo ter caído muito longe da auto-estrada, a chuva estala no metal do carro, as rodas rolam em seco, gri-gri, gri-gri, grilos, não, não podem ser grilos, tic-tac, os quatro piscas, dentro da gota de água, são apenas os olhos que não se conseguem desviar, são apenas os olhos, o meu carro capotado num baldio, o meu saco de viagem preso num arbusto, as embalagens das ceras, os brindes das clientes e o caderno das contas espalhados na lama, um sapato num charco mais distante, os faróis mantêm-se acesos, a chuva, fios de pirilampos que esvoaçam até morrerem no chão, gri-gri, não podem ser grilos, em todo o lado pedacinhos de vidro que brilham muito, cristais que afugentam a noite,

     não devia ter saído de casa

o líquido quente que escorre da minha boca é sangue, reconheço o sabor, a minha boca uma massa, quente, demasiado quente, enjoativa, quero mexer-me, libertar-me do cinto de segurança, as mãos não me obedecem, dois atrapalhos inábeis, as minhas pernas, duas ausências, e os olhos pousados, inertes, na gota de água cheia de luz, uma gota inundada de luz, quase a apanhar-me, a vencer-me, resisto, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

     inesperadamente

não sinto dores, não tenho medo, os meus olhos afogados na gota de luz, os meus ouvidos um albergue de grilos,

     neste momento posso já não existir aqui

     este momento pode já não existir para mim


Dulce Maria Cardoso, in Os meus sentimentos
© Edições ASA

Lido por dolphin.s às 23h15 | Comentários (8)

7 de abril 2006

A um passo da ruína

Nunca mais esquecerei, por exemplo, uma récita na Ópera naqueles dias de extrema penúria. Avançava-se às apalpadelas pelas ruas quase escuras, porque a iluminação teve de ser reduzida devido à falta de carvão; pagava-se o lugar na geral com um maço de notas de banco que noutros tempos teria chegado para uma assinatura anual num camarote de luxo. Ficava-se com o casaco vestido, porque a sala não era aquecida, e cada espectador encostava-se ao vizinho do lado para se aquecer; e como era triste, como era cinzenta aquela sala que já cintilara com uniformes e com trajos dispendiosos! Ninguém sabia se seria possível continuar com as representações na semana seguinte, caso a desvalorização do dinheiro se mantivesse e as remessas de carvão viessem a ser suspensas uma só semana que fosse; tudo era duplo desespero naquela casa do luxo e da pompa imperial. Os músicos da Orquestra Filarmónica ocupavam o seu lugar frente à estante de música, também eles sombras cinzentas nos seus fraques velhos e gastos, enfraquecidos e extenuados por todas as privações, e nós próprios fantasmas também naquela casa agora tornada fantasmagórica. Mas então o maestro erguia a batuta, a cortina abria-se e tudo era tão magnífico como nunca. Cada cantor, cada músico dava o mais que podia, pois todos sentiam que talvez fosse aquela a última vez que se encontravam na amada sala. E nós escutávamos de ouvidos bem alerta, mais receptivos do que nunca, pois talvez fosse aquela a última vez. E assim íamos vivendo todos nós, milhares, centenas de milhar; cada um de nós deu o máximo das suas energias naquelas semanas, naqueles meses, naqueles anos, a um passo da ruína. Nunca como então senti num povo e em mim próprio uma tão grande vontade de viver, numa altura em que estava em jogo aquilo que nos restava: a existência, a sobrevivência.

Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu

tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim

Lido por dolphin.s às 15h57 | Comentários (1)

5 de abril 2006

As nossas infelicidades

ao fim e ao cabo e em alguma medida, por infinitesimal que fosse, todos trazíamos as nossas próprias desgraças, ou as forjávamos, ou nos prestávamos as padecê-las, ou consentíamos talvez nelas. «A infelicidade inventa-se», cito às vezes com o pensamento.



Javier Marías in O teu rosto amanhã

tradução de J. Teixeira de Aguilar
© Publicações D. Quixote

Lido por dolphin.s às 10h35 | Comentários (5)

1 de abril 2006

Sem pensar duas vezes

As pessoas vão e contam irremediavelmente e contam tudo cedo ou mais tarde, o interessante e o fútil, o privado e o público, o íntimo e o supérfluo. O que deveria permanecer oculto e o que tem de ser difundido, a mágoa e as alegrias e o ressentimento, os agravos e a adoração e os planos para a vingança, o que nos orgulha e o que nos envergonha, o que parecia um segredo e o que pedia sê-lo, o consabido e o inconfessável e o horroroso e o manifesto, o substancial - o enamoramento - e o insignificante - o enamoramento. Sem pensar duas vezes. As pessoas relatam sem cessar e narram sem sequer se darem conta do que estão a fazer, dos incontroláveis mecanismos de insídia, equívoco e caos que põem em movimento e que se podem tornar funestos, falam sem parar dos outros e de si mesmas, e também dos outros ao falarem de si mesmas e também de si mesmas ao falarem dos outros. Esse contar constante é percebido às vezes como uma transacção, embora se disfarce sempre com êxito de dádiva (porque em todas as ocasiões tem alguma coisa disso), e seja antes amiudadas vezes um suborno, ou a liquidação de alguma dívida, ou uma maldição que se lança a um destinatário concreto ou talvez ao acaso para que este construa estouvadamente fortuna ou desgraça, ou a moeda que compra relações sociais e favores e confiança e até amizades, e evidentemente sexo.

at the end of the day...

photo@

Javier Marías in O teu rosto amanhã

tradução de J. Teixeira de Aguilar
© Publicações D. Quixote

Lido por dolphin.s às 12h06 | Comentários (2)

27 de março 2006

Os bebedores de cerveja

Os bebedores de cerveja da Baviera consultavam dia a dia a tabela de câmbios, calculando se a desvalorização da coroa lhes permitiria beber cinco ou seis ou dez litros de cerveja na região de Salzburgo pelo preço que em casa teriam de pagar por um só litro. Não era possível imaginar uma tentação mais irresistível; e bandos de habitantes provenientes das localidades vizinhas de Freílassing e de Reichenhall, na companhia de mulheres e filhos, acorreram até cá, para se entregarem ao luxo de emborcar tanta cerveja quanta o estômago pudesse comportar. Todas as noites a estação exibia um autêntico pandemónio de hordas humanas embriagadas, vozeando, arrotando, cuspindo; muitos, que se haviam excedido, tinham de ser levados até às carruagens em carros que serviam habitualmente para o transporte de malas, e só nessa altura o comboio, ressoando com gritarias e cantorias báquicas, fazia a viagem de regresso ao seu país. Na verdade, os bávaros folgazões nem suspeitavam que uma vingança terrível os esperava, pois assim que a coroa estabilizou e o marco, pelo contrário, sofreu uma queda de proporções astronómicas, foram os austríacos que partiram daquela mesma estação para, por seu lado, irem embebedar-se do lado de lá a baixo preço. E o mesmo espectáculo aconteceu segunda vez, agora na direcção contrária. Esta guerra da cerveja, no meio de duas inflações, faz parte das lembranças mais singulares que me ficaram, porque, na sua grotesca plasticidade, mostra claramente em pequena escala todo o desvario daqueles anos.


os bebedores de cerveja

photo@

Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu

tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim

Lido por dolphin.s às 11h49 | Comentários (21)

24 de março 2006

Propaganda

Numa época de paz, em que ainda se não tinha usado e abusado da propaganda, os povos, apesar das mil e uma decepções, ainda consideravam como verdadeiro tudo o que estava impresso. E assim, o entusiasmo dos primeiros dias, entusiasmo puro, belo, disposto a todos os sacrifícios, transformou-se a pouco e pouco numa orgia dos piores e dos mais estúpidos sentimentos. «Combatia-se» a França e a Inglaterra em Viena e Berlim, na Ringstrasse e na Friedrichstrasse, o que era significativamente mais cómodo. As inscrições em francês e inglês afixadas nas lojas tiveram de desaparecer, até um convento chamado Zu den Englischen Fräulein * teve de mudar de nome, porque o povo, ignorando que englisch significava angélico e não anglo-saxão, se insurgiu. Nos envelopes das cartas, honestos comerciantes colavam ou carimbavam a divisa Gott strafe England (Deus castigue a Inglaterra), senhoras da alta sociedade juravam (e escreviam-no em cartas aos jornais) que nunca mais na vida pronunciariam uma palavra em francês. Shakespeare foi banido dos palcos alemães, Mozart e Wagner das salas de concerto francesas e inglesas; os professores alemães explicavam que Dante era um germano, os franceses, que Beethoven era um belga; sem quaisquer escrúpulos, reclamava-se os tesouros culturais dos países inimigos, como se se tratasse de cereais ou de minério. Como se não bastasse que milhares de pacíficos cidadãos desses países se matassem diariamente uns aos outros na frente de combate, caluniava-se e enxovalhava-se os mortos ilustres dos países inimigos que há centenas de anos jaziam em silêncio nos seus túmulos.A confusão de espírito tomava proporções cada vez mais absurdas. Junto ao seu fogão, a cozinheira, que nunca saíra da sua cidade e que, desde o tempo da escola, nunca mais tinha aberto um atlas, estava persuadida que a Áustria não poderia existir sem o «Sandschak» (uma pequenina área fronteiriça algures na Bósnia). Os cocheiros discutiam na rua o montante da indemnização de guerra que se devia exigir à França, se cinquenta, se cem mil milhões, sem saberem quanto são mil milhões. Não havia cidade nem grupo que não tivesse sucumbido àquela pavorosa histeria de ódio. Os padres pregavam dos seus altares, os sociais-democratas, que ainda no mês anterior tinham estigmatizado a guerra como sendo o maior dos crimes, conseguiam fazer, se possível, mais barulho do que os outros para não serem classificados de «homens sem pátria», segundo a terminologia do Imperador Guilherme. Era a guerra de uma geração que não tinha suspeitas, e o maior perigo consistia exactamente nessa fé inabalável e unilateral que os povos depositavam na sua justa causa.


* Zu den Englischen Fraukm (Na Casa das Meninas Angelicais) o termo «Englischen» («angelicais») foi confundido com o seu então homógrafo e homofono «Englischen», que quer dizer inglesas (N T)


Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu

tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim

Lido por dolphin.s às 11h00 | Comentários (0)

22 de março 2006

a primeira frase

É-me impossível não recordar com muita simpatia — escrevi-a quando já tinha todo o livro acabado — a primeira frase de La asesina ilustrada: «As situações de riso e de pranto encontram-se tão misturadas e entrelaçadas na minha vida, que me é impossível recordar sem bom humor o penoso incidente que me empurrou para a publicação destas páginas.»
Esta longa primeira frase não só me parece um bom começo como, além do mais — juntamente com as do perigoso manuscrito criminoso que está no centro do romance —, é das poucas que actualmente reconheço como minhas. É que quase todas as outras frases me parecem muito artificiosas ou distantes ou foram copiadas de outros autores. Curiosamente, essa longa frase inicial com que hoje tanto me identifico recusei-me primeiramente a incluí-la porque dizia para comigo que não podia começar o meu livro com algo tão pouco ajustado à minha vida real, pois nunca me tinha acontecido algo daquele estilo, algo que tivesse as lágrimas e o riso entrelaçados.
Mas vi logo que essa frase podia acabar por ser do pouco que, com o tempo, acabaria por reconhecer como autenticamente meu. Vi-o graças a Vicky Vaporú, que me disse que a vida muitas vezes acaba por imitar a arte e que eu podia vir a viver a experiência de ver como com o tempo acabava por ser responsável absoluto daquela primeira frase e em contrapartida não me sentir o autor de muitas das outras do meu criminoso livro.
E, bom, assim foi. Tiveram de passar, isso sim, bastantes anos — mas dou-os por bem empregues — para que se tenha convertido em certo algo tão incerto como aquela primeira frase do meu primeiro livro. O que é um facto é que com a passagem do tempo se entrelaçaram na minha vida os momentos de riso e de pranto e que, por exemplo, hoje me é impossível recordar sem bom humor o estado mental com que escrevi os meus mais recentes romances, esse estranho estado mental que me leva a chorar de pena com o meu próprio humorismo e a rir-me a bandeiras despregadas quando os meus personagens morrem. É assim a vida e é assim a arte. A longo prazo, se nos armamos de paciência, comprovamos que, assim como o riso e o pranto, vida e arte têm a tendência para acabar por se misturarem e se entrelaçarem para compor uma imagem única, cómica e trágica ao mesmo tempo (...).


Enrique Vila-Matas, in Paris nunca se Acaba
Editorial Teorema
tradução de Jorge Fallorca

Lido por dolphin.s às 10h40 | Comentários (8)

18 de março 2006

Morte


Mao - a história desconhecidaOs seres humanos são dotados do sentimento de curiosidade. Porque haveriamos de tratar a morte de forma diferente? Não queremos experimentar coisas estranhas? A morte é a coisa mais estranha, que nunca experimentaremos se continuarmos a viver... Alguns têm medo dela porque a mudança vem de forma demasiado drástica. Mas penso que é a coisa mais maravilhosa: em que outro sítio neste mundo podemos encontrar uma mudança tão fantástica e drástica?



Jung Chang e Jon Halliday citando Mao, in Mao - A História Desconhecida

tradução de Inês Castro
© Bertrand Editora



Lido por dolphin.s às 11h17 | Comentários (10)

13 de março 2006

Paris

Stefan ZweigParis só conhecia contrastes em paralelo, nem superiores, nem inferiores; entre as artérias luxuosas e as passagens imundas que lhes eram contíguas não existia uma fronteira visível, e por todo o lado reinava a mesma animação e jovialidade. Nos pátios dos arredores tocavam os músicos de rua, das janelas saía o canto das midinettes no seu trabalho; em toda a parte havia sempre um riso no ar ou um chamamento bondoso e amigável. Quando aqui e ali dois cocheiros se cobriam um ao outro de insultos, logo acabavam por apertar as mãos, indo beber juntos um copo de vinho, enquanto abriam algumas ostras — baratíssimas — a acompanhar. Nada era complicado ou rígido. Era fácil estabelecer relações com mulheres e era fácil desfazê-las, cada tacho com seu testo, cada jovem com uma namorada prazenteira e liberta de qualquer pudor. Ah, como era leve a vida de Paris, como era boa, sobretudo quando se era jovem! O mero flanar representava por si só um verdadeiro prazer e também uma lição constante, porque tudo estava ao nosso alcance — e podia-se entrar num alfarrabista e ficar um quarto de hora a folhear os livros sem que o dono resmungasse ou rabujasse. Podia-se ir às pequenas galerias e apreciar em pormenor tudo o que havia nas lojas de bric-à-brac, podia-se levar vida de parasita nos leilões do Hotel Drouot e cavaquear nos jardins com as governantas; não era fácil fazer uma pausa — a partir do momento em que se começava a flanar, a rua exercia um poder magnético e mostrava um constante caleidoscópio de novidades. Quando se ficava fatigado, podia-se descansar no terraço de um dos dez mil cafés a escrever cartas em papel de carta fornecido gratuitamente e deixar ao mesmo tempo que os vendedores de rua mostrassem toda a tralha de objectos extravagantes e supérfluos. Só uma coisa era difícil: ficar em casa ou ir para casa, principalmente quando a Primavera irrompia, a luz prateada e suave brilhava sobre o Sena, as árvores dos boulevards começavam a cobrir-se de rebentos verdes e as raparigas passavam, cada uma com o seu raminho de violetas de um sou; mas na realidade não era preciso ser Primavera para se estar bem disposto em Paris.


Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu

tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim

Lido por dolphin.s às 10h15 | Comentários (2)

11 de março 2006

Ser moral


Mao - a história desconhecidaNão concordo com a ideia de que para se ser moral, o motivo das nossas acções tenha de ser beneficiar os outros. A moralidade não tem de ser definida em relação a outros... Pessoas como eu querem... satisfazer os nossos corações ao máximo e ao fazê-lo automaticamente temos os códigos morais mais valiosos. Claro que há pessoas e objectos no mundo, mas estão lá todas apenas para mim.



Jung Chang e Jon Halliday citando Mao, in Mao - A História Desconhecida

tradução de Inês Castro
© Bertrand Editora



Lido por dolphin.s às 16h03 | Comentários (1)

2 de março 2006

Passado/Futuro

Em geral, o senhor faz declarações políticas optimistas, mesmo quando em privado está muito pessimista.

— Sim, estou. E as minhas declarações nunca são muito optimistas, porque para cada acontecimento social que nos importa, que nos toca, sou sensível às contradições manifestas ou ainda pouco aparentes; vejo os erros, os riscos, tudo o que pode impedir uma situação de evoluir num sentido favorável à liberdade. E aí sou pessimista, porque os riscos serão efectivamente enormes. Veja Portugal, onde o tipo de socialismo que pretendemos tem hoje uma pequena possibilidade que não tinha de modo nenhum antes de 25 de Abril, e que contudo corre os maiores riscos de ser ainda repelido por muitíssimo tempo. Se me colocar num plano geral, penso: ou o homem está lixado — e neste caso não apenas está lixado como nunca existiu: os homens não terão sido mais do que uma espécie, como as formigas — ou então o homem far-se-á ao realizar o socialismo libertário. Quando considero os factos sociais em especial, tenho tendência a pensar que o homem está lixado. Mas se considero o conjunto de todas as condições necessárias para que o homem seja, penso que a única coisa a fazer é sublinhar, salientar e apoiar com todas as forças o que nas situações políticas e sociais específicas pode conduzir a uma sociedade de homens livres. Se não fizermos isto, aceitamos que o homem seja um monte de esterco.

Era o que dizia Gramsci: «É preciso lutar com o pessimismo da inteligência e com o optimismo da vontade.-»

— Não seria exactamente assim que eu formularia isso. É preciso lutar, isso é verdade. Mas não se trata de voluntarismo. Estivesse eu convencido de que toda a luta pela liberdade está necessariamente votada ao fracasso, e lutar não teria qualquer sentido. Não, se não estou completamente pessimista é em primeiro lugar porque sinto em mim exigências que não são apenas minhas, mas que em mim são as de todos os homens. Por outras palavras, é a certeza vivida da minha própria liberdade, na medida em que é liberdade de todos, que me dá ao mesmo tempo a exigência de uma vida livre e a certeza de que essa exigência é — de forma mais ou menos clara, mais ou menos consciente — a de cada um.


Jean-Paul Sartre, in Situações X - Politica e Autobiografia
Entrevista de Michel Contat, Junho 1975

Edições António Ramos
Tradução de Pedro Tamen

Lido por dolphin.s às 10h44 | Comentários (2)

23 de fevereiro 2006

Boas Férias :)

Uma manhã de Inverno, passeava com Arrieta pelo Jardin du Luxembourg quando numa alameda secundária vislumbrámos um pássaro negro e solitário, quase imóvel, a ler o jornal. Era Samuel Beckett. Vestido rigorosamente de preto dos pés à cabeça, estava ali numa cadeira, muito quieto, parecia desesperado, metia medo. E até quase parecia mentira que fosse ele, que fosse Beckett. Nunca tinha previsto que pudesse encontrá-lo. Sabia que não era um clássico morto, mas sim alguém que vivia em Paris, mas imaginara-o sempre como uma escura presença que sobrevoava a cidade, nunca como alguém que encontramos a ler desesperado um jornal num velho parque frio e solitário. De vez em quando mudava de página, e fazia-o com uma espécie de nojo tão grande e uma energia tão intensa, que se o Jardin du Luxembourg inteiro tivesse tremido não nos teria surpreendido nada. Quando chegou à última página, ficou entre absorto e ausente. Metia mais medo do que antes. «É o único que teve a coragem de mostrar que o nosso desespero é tão grande, que nem palavras temos para o exprimir», disse Arrieta.


Enrique Vila-Matas, in Paris nunca se Acaba
Editorial Teorema
tradução de Jorge Fallorca

Lido por dolphin.s às 19h12 | Comentários (8)

19 de fevereiro 2006

Caridade Cristã

 A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón— Não há direito, não senhor — comentou Merceditas, postada à porta da livraria, longe das mãos de Fermín. — Pobrezito, ele que é bom como o pão e não se mete com ninguém! Gosta de se vestir de fúfia e andar por aí a cantar? E que mais dá? A gente sempre é muito má!
Don Anacleto mantinha-se calado, com o olhar baixo.
— Má, não — objectou Fermín. — Imbecil, o que não é a mesma coisa. O mal pressupõe uma determinação moral, intenção e um certo pensamento. O imbecil ou bruto não pára para pensar nem para raciocinar. Age por instinto, como animal de estábulo, convencido de que está a fazer o bem, de que tem sempre razão, e orgulhoso por andar a lixar, com vossa licença, todo aquele que se lhe afigura diferente dele próprio, seja na cor, na crença, no idioma, na nacionalidade ou, como no caso de don Federico, nos seus hábitos de lazer. O que é preciso no mundo é mais gente verdadeiramente má e menos casmurros limítrofes.
— Não diga disparates. O que é preciso é um pouco mais de caridade cristã e menos mau feitio, que isto parece um país de alimárias — atalhou Merceditas. — Muita ida à missa, mas a Nosso Senhor Jesus Cristo aqui nem Deus liga.
— Não mencionemos a indústria do missal, que é parte do problema e não da solução, Merceditas.
— Já cá faltava o ateu. Que mal é que lhe fez a si o clero, pode-se saber?
— Vamos, não se peguem — interrompeu o meu pai. — E você, Fermín, vá ter com don Federico e veja se ele precisa de alguma coisa, que se vá à farmácia ou que se lhe compre alguma coisa no mercado.
— Sim, senhor Sempere. E para já. E que a mim a oratória perde-me, o senhor bem sabe.
— O que o perde a si é a pouca vergonha e a irreverência que tem no pêlo — apostilou Merceditas. — Blasfemo! Do que precisava era que lhe limpassem a alma com ácido clorídrico.
— Olhe, Merceditas, é só porque me consta que a senhora é uma boa pessoa (se bem que um tanto curta de entendimento e mais ignorante que um lorpa), e neste momento estamos na presença de uma emergência social no bairro perante a qual é preciso dar prioridade a certos esforços, porque senão eu ia esclarecer-lhe um par de pontos cardeais.
— Fermín! — clamou o meu pai.
Fermín fechou o bico e saiu a correr pela porta. Merceditas observava-o com ar reprovador.
— Esse homem vai meter os senhores em sarilhos no dia em que menos esperem, tome atenção ao que eu lhe digo. No mínimo é anarquista, maçon e até judeu. Com aquele narigão...
— Não lhe ligue importância. Ele faz tudo aquilo por espírito de contradição.


Carlos Ruiz Zafón, in A Sombra do Vento
Publicações D. Quixote
tradução de J. Teixeira de Aguilar

Lido por dolphin.s às 12h55 | Comentários (2)

9 de fevereiro 2006

Democracia

Jean-Paul SartreNa verdade, tudo é claro, ao reflectirmos e chegarmos à conclusão de que a democracia indirecta é uma mistificação. Pretende-se que a Assembleia eleita é a que melhor reflecte a opinião pública. Mas não há opinião pública a não ser a serial. A imbecilidade dos mass media, as declarações do Governo, a maneira parcial ou truncada corno os jornais reflectem os acontecimentos, tudo isso nos vem procurar na nossa solidão serial e nos enche de ideias de pedra, feitas do que pensamos que os outros pensarão. Sem dúvida que existem no fundo de nós próprios exigências e protestos, mas, por não serem reflectidos pelos outros, esmagam-se deixando-nos «nódoas negras na alma» e uma sensação de frustração. Assim, quando nos chamam a votar, eu, eu-Outro, tenho a cabeça recheada de ideias petrificadas, que a imprensa ou a televisão nela amontoaram, e são essas ideias seriais que se exprimem pelo meu voto, mas não são as minhas ideias. O conjunto das instituições da democracia burguesa desdobram-na: sou eu e todos os Outros que me dizem que eu sou (francês, soldado, trabalhador, contribuinte, cidadão, etc.). Este desdobramento faz-nos viver no que os psiquiatras chamam uma crise de identidade perpétua. Afinal de contas, quem sou eu? Um outro idêntico a todos os outros e habitado por aqueles pensamentos de impotência que nascem por toda a parte e em nenhuma parte são pensamentos — ou eu próprio? E quem vota? Já não me reconheço.


Jean-Paul Sartre, in Situações X - Politica e Autobiografia
Edições António Ramos
Tradução de Pedro Tamen

Lido por dolphin.s às 11h45 | Comentários (8)

7 de fevereiro 2006

Surrealismo

Por seu lado, Giacometti repetia esta frase com indignação; a seu ver, ninguém tinha ainda conseguido talhar ou modelar uma representação válida do rosto humano; era preciso partir do nada. Um rosto, dizia-nos ele, é um todo indivisível, um sentido, uma expressão; mas a matéria inerte —mármore, bronze, gesso—, pelo contrário, separa-se do infinito; cada parcela isola-se, contradiz o conjunto e destrói — o. Tentava assimilar a matéria até aos limites mais extremos do possível; deste modo, chegara a modelar estas cabeças quase sem volume, onde se inscrevia, pensava ele, a unidade do rosto humano, tal como este se oferece a um olhar realmente vivo. Talvez encontrasse um dia um outro meio de a arrancar à vertiginosa dispersão do espaço: por agora, não soubera inventar senão aquilo. Sartre, que desde a juventude se esforçava por compreender o real na sua verdade sintética, ficou singularmente impressionado com esta procura; o ponto de vista de Giacometti juntava-se ao da fenomenologia, visto que ele pretendia esculpir um rosto em situação, na sua existência em relação a outrem, à distância, ultrapassando assim os erros do idealismo subjectivo e os da falsa objectividade. Giacometti nunca tinha pensado que a arte se pudesse limitar a fazer brilhar as aparências; em compensação, a influência dos cubistas e dos surrealistas tinha-o arrastado, assim como a muitos artistas da época, a confundir o imaginário e o real: durante tempos ele trabalhara não para mostrar a realidade através de uma analogia material mas para fabricar coisas. Agora, criticava nos outros e nele próprio esta aberração. Falava de Mondrian, que, uma vez que as suas telas eram planas, se recusava a nelas inscrever imaginariamente as três dimensões: «Mas», dizia Giacometti com um sorriso cruel, «quando duas linhas se cruzam, há sempre uma que passa por cima da outra: os quadros dele não são planos!» Nunca ninguém tinha ido tão longe neste impasse como Mareei Duchamp, de quem Giacometti gostava muito. A princípio pintava quadros — entre outros o célebre Mariée mise à nu par sés célibataires, même. Mas um quadro só existe pelo olhar que o anima; Duchamp queria que as suas criações se mantivessem de pé sem nenhum auxílio; pôs-se a fazer, em mármore, cópias de bocados de açúcar; estes simulacros não o tinham satisfeito; fez objectos usuais, completamente reais, entre outros um xadrez; depois contentou-se em comprar pratos ou copos e assiná-los. Acabou por cruzar os braços.


Simone de Beauvoir in A Força da Idade

Lido por dolphin.s às 10h23 | Comentários (3)

1 de fevereiro 2006

Guerra



3 de Outubro

Vivem-se uns momentos estranhos. Ninguém pode aceitar a paz de Hitler; mas que guerra é que se vai fazer? Que significa precisamente a palavra «guerra»? Há um mês, quando foi impressa em letras enormes nos jornais, era um horror informe, qualquer coisa de confuso, mas forte. Agora já não está em parte nenhuma, nem é nada. Sinto-me descontraída e vaga, espero nem sei bem o quê. Parece que toda a gente está à espera. Aliás, é isso que impressiona logo, através dos livros de Pierrefeu, na história da guerra de 14: é uma espera de quatro anos, intercalada de massacres completamente inúteis; dir-se-ia que é o tempo que trabalha e só ele.



Simone de Beauvoir in A Força da Idade

Henri Cartier-Bresson;- Simone de Beauvoir, Paris, 1947

© Henri Cartier-Bresson

Lido por dolphin.s às 10h30 | Comentários (1)

29 de janeiro 2006

Simone de Beauvoir



Sei hoje que, para me descrever, devo dizer primeiro: «Sou uma mulher»; mas a minha feminilidade nunca foi para mim um incómodo nem um álibi. De qualquer maneira, é um dos dados da minha história e não uma explicação.



Simone de Beauvoir in A Força da Idade

Elliot Erwitt - Simone de Beauvoir, Paris, 1949

© Elliot Erwitt

Lido por dolphin.s às 13h22 | Comentários (2)

16 de dezembro 2005

O odradek de Dali

Man Ray Violin, by WitkinO odradek* de Salvador Dalí tinha um notório ar festivo e musical e, além disso, era absolutamente erótico: um violino masturbador chinês ou instrumento melódico provido de um apêndice vibratório, destinado a ser introduzido de forma repentina e brusca, no ânus; mas também, e de preferência, na vagina. Depois de introduzido, um músico perito fazia deslizar o arco sobre as cordas do violino, não tocando a primeira coisa que lhe viesse à cabeça, mas sim uma partitura expressamente composta para fins masturbatórios; o músico conseguia, mediante a sábia dosagem dos frenesins intercalados com momentos de calma, que as vibrações amplificadas pelo apêndice provocassem o orgasmo da beneficiária dos instrumento no preciso e sincronizado momento em que a partitura atacava as notas do êxtase.

*inquilinos negros, que se hospedaram nos labirintos interiores de todos os autores portáteis.


Enrique Vila-Matas, in História Abreviada da Literatura Portátil
© Assírio & Alvim

Lido por dolphin.s às 14h53 | Comentários (11)

5 de dezembro 2005

as mãos

(...) as mãos são dois livros abertos, não pelas razões, supostas ou autênticas, da quiromancia, com as suas linhas do coração e da vida, da vida, meus senhores, ouviram bem, da vida, mas porque falam quando se abrem ou se fecham, quando acariciam ou golpeiam, quando enxugam uma lágrima ou disfarçam um sorriso, quando se pousam sobre um ombro ou acenam um adeus, quando trabalham, quando estão quietas, quando dormem, quando despertam, e então a morte, terminada a observação, concluiu que não é verdade que o antónimo da presunção seja a humildade, mesmo que o estejam jurando a pés juntos todos os dicionários do mundo, coitados dos dicionários, que têm de governar-se eles e governar-nos a nós com as palavras que existem, quando são tantas as que ainda faltam, por exemplo, essa que iria ser o contrário activo da presunção, porém em nenhum caso a rebaixada cabeça da humildade, essa palavra que vemos claramente escrita na cara e nas mãos do violoncelista, mas que não é capaz de dizer-nos como se chama.


José Saramago, in As Intermitências da Morte
© Editorial Caminho

Lido por dolphin.s às 10h41 | Comentários (7)

1 de dezembro 2005

Balística

Boas noites, senhor primeiro-ministro, Boas noites, eminência, Telefono-lhe para lhe dizer que me sinto profundamente chocado, Também eu, eminência, a situação é muito grave, a mais grave de quantas o país teve de viver até hoje, Não se trata disso, De que se trata então, eminência, É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja, O diabo, Não percebi o que acaba de dizer, repita, por favor, Estava calado, eminência, provavelmente terá sido alguma interferência causada pela electricidade atmosférica, pela estática, ou mesmo um problema de cobertura, o satélite às vezes falha, dizia vossa eminência que, Dizia o que qualquer católico, e o senhor não é uma excepção, tem obrigação de saber, que sem ressurreição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afirmá-lo é uma ideia absolutamente sacrílega, talvez a pior das blasfémias, Eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio fim, De facto, por essas exactas palavras, não, mas admitiu a possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de deus, não será preciso ser-se doutorado em lógica transcendental para perceber que quem diz uma coisa, diz a outra, Eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística, Estou desolado, eminência, No seu lugar também o estaria.


José Saramago, in As Intermitências da Morte
© Editorial Caminho

Lido por dolphin.s às 11h07 | Comentários (0)

16 de novembro 2005

Delírios

— Não percebes que a velhice e a escrita se parecem muito. São a única possibilidade de transformar a vida, que é uma doença.
— Uma doença? — perguntou com visível alarme enquanto voltava a aproximar de mim o guarda-chuva.
— Sim. Uma doença da matéria.
— Nunca tinha ouvido um disparate igual.
— A velhice e a escrita são os únicos remédios contra essa doença. Não percebes que somos todos uns inúteis, que a vida também é inútil. E se somos todos uns inúteis, o homem velho ainda o é mais. O homem velho é o inútil por excelência.
Não achou graça nenhuma que eu tivesse dito isto, mas eu prossegui mais imperturbável que nunca.
— Será que não vês? — disse-lhe. — O homem velho tem a vantagem de estar completamente fora de jogo, fora de todos esses esforços tão incómodos a que vivem aferrados, por exemplo, aqueles que sentem que devem ser alguém na vida. O homem velho já está longe desses esforços tão grosseiros. Apenas o sonho expulsa alguma coisa desse delírio de prestígio ao qual nos vemos agarrados quando acabamos os nossos estudos.


Enrique Vila-Matas, in Filhos sem Filhos
tradução de José Agostinho Baptista
© Assírio & Alvim


Lido por dolphin.s às 19h34 | Comentários (4)

15 de outubro 2005

As Cigarras

Saí para a rua e pus-me a pensar nisso em que levo o dia inteiro a pensar. Nas cigarras. Digo a mim própria que as cigarras têm toda a razão e que não sei quem foi o estúpido que um dia disse o contrário, não sei quem se lembrou de propor que as cigarras mudassem. Grande parvoíce. As formigas é que deviam mudar, pois, coitadas, são tão parvas. Dizer que uma cigarra deve trabalhar foi uma imbecilidade repetida durante séculos. As formigas sim, deviam ser cigarras, fazia-lhes bem o ócio, nenhuma formiga devia privar-se de uma sensação tão maravilhosa como a de saber dizer não, mandar ao inferno de uma vez por todas o seu feliz e pesado ninho laborioso.


Enrique Vila-Matas, in Filhos sem Filhos
tradução de José Agostinho Baptista
© Assírio & Alvim




às Madamas Alis e Margaretas :)

a nós, as férias!

Lido por dolphin.s às 16h39 | Comentários (7)

The Collection

recuperamos este post para homenagear Harold Pinter, o Nobel da Literatura 2005.

JAMES: [Confidentially] When you treat my wife like a whore, then I think I'm entitled to know what you've got to say about it.

BILL: But I don't know your wife.

JAMES: You do. You met her at ten o'clock last Friday in the lounge. You fell into conversation, you bought her a couple of drinks, you went upstairs together in the lift. In the lift you never took your eyes from her, you found you were both on the same floor, you helped her out, by her arm. You stood with her in the corridor, looking at her. You touched her shoulder, said goodnight, went to your room, she went to hers, you changed into your yellow pyjamas and black dressing gown, you went down the passage and knocked on her door, you'd left your toothpaste in town. She opened the door, you went in, she was still dressed. You admired the room, it was so feminine, you felt awake, didn't feel like sleeping, you sat down on the bed. She wanted you to go, you wouldn't. She became upset, you sympathized, away from home, on business, horrible life, especially for a woman, You Comforted her, you gave her solace, you stayed.

[Pause]

BiLL: Look, do you mind... just going off now. You're giving me a bit of a headache.

JAMES: You knew she was married... why did you feel it necessary... to do that?

BILL: She must have known she was married too. Why did she feel it necessary... to do that?



excerto de The Collection, de Harold Pinter

Lido por jm às 16h20 | Comentários (431)

17 de setembro 2005

Ideia de Direito

Bom... vamos então aplicar uma gota de ácido à ideia de direito. Mesmo entre os antigos, havia alguns mais maduros que sabiam ser a força a fonte do direito, ser o direito uma função de força. Suponhamos dois pratos duma balança. Num está um grama, noutro está uma tonelada; naquele, Nós; neste, o Estado Único. Não é nítida a ideia de eu ter alguns direitos em relação ao Estado e a ideia de um grama poder contrabalançar uma tonelada; não é nítido que essas duas ideias se reduzam à mesma única ideia. Há que distinguir: os direitos para a tonelada, os deveres para o grama, e o percurso natural para se passar da nulidade à grandeza é esquecermo-nos de que somos um grama e sentirmos que somos a milionésima parte duma tonelada.


Zamiatine, in Nós
tradução de Manuel João Gomes, Antígona

Lido por dolphin.s às 09h23 | Comentários (1)

5 de setembro 2005

falar de nada

Pois só há uma maneira de falar de nada, é falar de nada como se fosse alguma coisa, tal como só há uma maneira de falar de Deus, é falar dele como se fosse um homem, o que, é claro, ele foi, em certo sentido, por uns tempos, e só há uma maneira de falar do homem, e isso até os nossos antropólogos perceberam, é falar dele como se fosse uma térmita.

Samuel Beckett, in Watt

tradução de Manuel Resende

Lido por jm às 22h28 | Comentários (11)

21 de junho 2005

O homem é angústia:

Jean-Paul Sartre, 1905-2005O homem ligado por um compromisso e que se dá conta de que não é apenas aquele que escolhe ser, mas de que é também um legislador pronto a escolher, ao mesmo tempo que a si próprio, a humanidade inteira.
Certamente muitas pessoas acreditam que ao agirem só se implicam nisso a si próprias, e quando se lhes diz: e se toda a gente fizesse assim?, elas dão de ombros e respondem: nem toda a gente faz assim. Ora a verdade é que devemos perguntar-nos sempre: que aconteceria, se toda a gente fizesse o mesmo?, e não podemos fugir a este pensamento inquietante a não ser por uma espécie de má fé.
Quem mente e se desculpa declarando: nem toda a gente faz assim, é alguém que não está à vontade com a sua consciência; porque o facto de mentir implica um valor universal atribuído à mentira. Ainda quando a disfarcemos, a angústia aparece.


Jean-Paul Sartre, in O Existêncialismo é um Humanismo

Lido por dolphin.s às 12h08 | Comentários (15)

19 de junho 2005

You

Sarah KaneAnd I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy's and talk about the day and type your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you're sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the the programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breasts your arse your

and sit on the steps smoking till your neighbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you're late and be amazed when you're early and give you sunflowers and go to your party and dance till I'm black and be sorry when I'm wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I'd known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you're angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you're gorgeous and hug you when you're anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I'm next to you and whimper when I'm not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don't and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I'm rejecting you when I'm not rejecting you and wonder how you could think I'd ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don't believe me and have a feeling so deep I can't find words for it and want to buy you a kitten I'd get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid of the roaches and buy you presents you don't want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don't mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it's empty without you and want want you want and think I'm losing myself but know I'm safe with you and tell you the worst of me and try to give you the best of me because you don't deserve any less and answer your questions when I'd rather not and tell you the truth when I really dont' want to and try to be honest because I know you prefer it and think it's all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it's a beautiful learning to know you and well worth the effort and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overwhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you.


Sarah Kane, in Crave

Lido por dolphin.s às 00h31 | Comentários (5)

28 de maio 2005

Comédia

Thomas BernhardPara onde quer que olhemos hoje neste país, é sempre para uma fossa da ridículo que olhamos, disse Reger. Loucura das massas, catastrófica, disse ele. Todos são mais ou menos depressivos, sabe, e nós temos com a Hungria a mais elevada taxa de suicídios de toda a Europa. Pensei muitas vezes ir para a Suíça, mas a Suíça seria para mim ainda muito pior. Você não pode imaginar como eu gosto do nosso país, disse Reger, mas detesto profundamente este Estado actual; não quero, de futuro, ter nada a ver com este Estado, que tão asqueroso é, um dia e outro dia. Todas as pessoas que hoje neste Estado põem e dispõem, governados e governantes, têm caras horríveis, de um primitivismo idiota, o que se vê neste país em situação de bancarrota é apenas um monte de lixo de fisionomias assustadoras, disse ele. Tanto que nós pensamos e que falamos e julgamos que somos competentes e na verdade não somos, essa é a comédia, e quando perguntamos, como é que vai ser agora? é a tragédia, meu caro Atzbacher.


Thomas Bernhard in Antigos Mestres
tradução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim


Lido por dolphin.s às 11h34 | Comentários (8)

4 de maio 2005

Nuance

"Politics is the great generalizer," Leo told me, "and literature the great particularizer, and not only are they in an inverse relationship to each other—they are in an antagonistic relationship. To politics, literature is decadent, soft, irrelevant, boring, wrongheaded, dull, something that makes no sense and that really oughtn't to be. Why? Because the particularizing impulse is literature. How can you be an artist and renounce the nuance? But how can you be a politician and allow the nuance? As an artist the nuance is your task. Your task is not to simplify. Even should you choose to write in the simplest way, à la Hemingway, the task remains to impart the nuance, to elucidate the complication, to imply the contradiction. Not to erase the contradiction, not to deny the contradiction, but to see where, within the contradiction, lies the tormented human being. To allow for the chaos, to let it in. You must let it in. Otherwise you produce propaganda, if not for a political party, a political movement, then stupid propaganda for life itself—for life as it might itself prefer to be publicized. During the first five, six years of the Russian Revolution the revolutionaries cried, 'Free love, there will be free love!' But once they were in power, they couldn't permit it. Because what is free love? Chaos. And they didn't want chaos. That isn't why they made their glorious revolution. They wanted something carefully disciplined, organized, contained, predictable scientifically, if possible. Free love disturbs the organization, their social and political and cultural machine. Art also disturbs the organization. Literature disturbs the organization. Not because it is blatantly for or against, or even subtly for or against. It disturbs the organization because it is not general. The intrinsic nature of the particular is to be particular, and the intrinsic nature of particularity is to fail to conform. Generalizing suffering: there is Communism. Particularizing suffering: there is literature. In that polarity is the antagonism. Keeping the particular alive in a simplifying, generalizing world— that's where the battle is joined. You do not have to write to legitimize Communism, and you do not have to write to legitimize capitalism. You are out of both. If you are a writer, you are as unallied to the one as you are to the other. Yes, you see differences, and of course you see that this shit is a little better than that shit, or that that shit is a little better than this shit. Maybe much better. But you see the shit. You are not a government clerk. You are not a militant. You are not a believer.


Philip Roth, in I Married a Comunist


Lido por dolphin.s às 10h00 | Comentários (6)

27 de abril 2005

Merely an ear

Philip RothOccasionally now, looking back, I think of my life as one long speech that I've been listening to. The rhetoric is sometimes original, sometimes pleasurable, sometimes pasteboard crap (the speech of the incognito), sometimes maniacal, sometimes matter-of-fact, and sometimes like the sharp prick of a needle, and I have been hearing it for as long as I can remember: how to think, how not to think; how to behave, how not to behave; whom to loathe and whom to admire; what to embrace and when to escape; what is rapturous, what is murderous, what is laudable, what is shallow, what is sinister, what is shit, and how to remain pure in soul. Talking to me doesn't seem to present an obstacle to anyone. This is perhaps a consequence of my having gone around for years looking as if I needed talking to. But whatever the reason, the book of my life is a book of voices. When I ask myself how I arrived at where I am, the answer surprises me: "Listening."
Can that have been the unseen drama? Was all the rest a masquerade disguising the real no good that I was obstinately up to? Listening to them. Listening to them talk The utterly wild phenomenon that is. Everyone perceiving experience as something not to have but to have so as to talk about it. Why is that? Why do they want me to hear them and their arias? Where was it decided that this was my use? Or was I from the beginning, by inclination as much as by choice, merely an ear in search of a word?


Philip Roth, in I Married a Comunist


Lido por dolphin.s às 10h38 | Comentários (3)

20 de abril 2005

Míope ao Gratin

O míope assemelha-se ao presbíope, só que tem os olhos maiores e uma risca ao meio. É preciso tirar-lhe os óculos para que possa cair no gratin. Prepara-se como o badejo.


in A Cozinha Canibal, Roland Torpor

Lido por dolphin.s às 15h33 | Comentários (3)

12 de abril 2005

Brotherhood of man

Goldstine's wife and his kids were away with the in-laws for the afternoon, and we sat together in his kitchen drinking soda while Goldstine, a wiry little guy with the haughty, knowing air of a street-corner sharpie, laughed and sneered at everything Ira said. His explanation for his turnabout? "Didn't know shit from shinola. Didn't know what I was talking about." To me Goldstine said, "Kid, don't listen to him. You live in America. It's the greatest country in the world and it's the greatest system in the world. Sure, people get shit on. You think they don't get shit on in the Soviet Union? He tells you capitalism is a dog-eat-dog system. What is life if not a dog-eat-dog system? This is a system that is in tune with life. And because it is, it works. Look, everything the Communists say about capitalism is true, and everything the capitalists say about Communism is true. The difference is, our system works because it's based on the truth about people's selfishness, and theirs doesn't because it's based on a fairy tale about people's brotherhood. It's such a crazy fairy tale they've got to take people and put them in Siberia in order to get them to believe it. In order to get them to believe in their brotherhood, they've got to control people's every thought or shoot 'em. And meanwhile in America, in Europe, the Communists go on with this fairy tale even when they know what is really there. Sure, for a while you don't know. But what don't you know? You know human beings. So you know everything. You know that this fairy tale cannot be possible. If you are a very young man I suppose it's okay. Twenty, twenty-one, twenty-two, okay. But after that? No reason that a person with an average intelligence can take this story, this fairy tale of Communism, and swallow it. "We will do something that will be wonderful . . .' But we know what our brother is, don't we? He's a shit. And we know what our friend is, don't we? He's a semi-shit. And we are semi-shits. So how can it be wonderful? Not even cynicism, not even skepticism, just ordinary powers of human observation tell us that is not possible.
"You want to come down to my capitalist factory and watch a mattress being made the way a capitalist makes a mattress? You come down and you'll talk to real working guys. This guy's a radio star. You're not talking to a workingman, you're talking to a radio star. Come on, Ira, you're a star like Jack Benny—what the hell do you know about work? The kid comes to my factory and he'll see how we manufacture a mattress, he'll see the care we take, he'll see how I have to stand over the whole operation every step of the way to see they don't fuck up my mattress. He'll see what it is to be the evil owner of the means of production. It's to work your ass off twenty-four hours a day. The workers go home at five o'clock—I don't. I'm there till midnight every night. I come home and I don't sleep 'cause I'm doing the books in my head and then I'm there again at six in the morning to open the place up. Don't let him fill you full of Communist ideas, kid. They're all lies. Make money. Money's not a lie. Money's the democratic way to keep score. Make your money—then, if you still have to, then make your points about the brotherhood of man."


Philip Roth, in I Married a Comunist


Lido por dolphin.s às 10h04 | Comentários (2)

31 de março 2005

É um perigo deixá-los ir sozinhos para o jardim

«Como me sinto inquieta», pensou Clementina, debruçada à janela.
O jardim doirava-se ao sol.
Não sei onde eles estão, o Noël, o Joël ou o Citroën. Podem, entretanto, ter caído ao poço, ou comido alguns frutos envenenados, ou apanhado com alguma seta num olho, se algum outro miúdo anda a brincar no meio da estrada com um arco, ou podem ter sido contaminados pela tuberculose, se algum bacilo de Koch se meteu de permeio, ou terem perdido os sentidos, se cheiraram alguma flor de perfume muito intenso, ou terem sido picados por um escorpião trazido pelo avô de algum garoto da aldeia, algum célebre explorador que tenha chegado há pouco da terra dos escorpiões, ou terem caído de uma árvore abaixo, ou corrido, depressa demais e partido uma perna, ou brincado com a água e afogado, ou descido a falésia e estampado e quebrado a espinha, ou arranhado nalgum arame ferrugento e apanhado o tétano; foram até ao fundo do jardim e viraram uma pedra, debaixo da qual havia uma pequena larva amarela que vai desenvolver-se num abrir e fechar de olhos, e voar em direcção à aldeia, e introduzir-se no estábulo de um touro bravo e picá-lo no focinho; o touro sai do estábulo, deita tudo abaixo, e ei-lo que mete pernas ao caminho, em direcção a esta casa, vem de lá como doido, deixa tufos de pêlo negro em cada curva, presos às moitas de uva-espim; e, mesmo em frente de casa, lança-se de cabeça baixa contra uma pesada carroça puxada por um cavalicoque meio cego. Com o choque, a carroça desmantela-se e um pedaço de metal é projectado no ar a uma altura incrível; possivelmente um parafuso, uma cavilha, uma porca, um prego,
um ferro do varal, um gancho de ligação, um rebite das rodas, que foram carpinteiradas e depois quebradas, e reparadas mediante cinchos de freixo talhados à mão, e esse pedaço de ferro sobe, silvando, em direcção ao azul do céu. Passa por cima do gradeamento do jardim, e oh meu Deus, vai cair, vai cair e, na queda, aflora a asa de uma formiga voadora, arrancando-lha, e a formiga, mal dirigida, perdida a estabilidade, vagueia por sobre as árvores como uma formiga que já não presta, e tomba, de repente, sobre a relva onde, Deus meu, está o Joël, o Noël e o Citroën, a formiga cai em cima da bochecha do Citroën e, deparando, possivelmente, com uns restos de doce, pica-o...
— Citroën! Onde estás tu?
Clementina precipitara-se para fora do quarto e gritava, fora de si, enquanto descia as escadas a galope. No vestíbulo, esbarrou com a criada.
—Onde ó que eles estão? Onde estão os meus filhos?
—Estão a dormir — respondeu a outra, com ar de espanto. — É a hora da sesta.
Pois é, ainda não foi desta; mas era perfeitamente plausível. Voltou para o quarto. Com o coração aos pulos. Não há dúvida de que é um perigo deixá-los ir sozinhos para o jardim.


Boris Vian, in O Arranca Corações

tradução de Luiza Neto Jorge, Editorial Estampa

Lido por dolphin.s às 11h49 | Comentários (0)

30 de março 2005

Venha chuva!

Mal o padre apareceu entre os dois alisares brancos de carvalho, houve um homem que trepou a um dos bancos e, numa voz altissonante, pediu silêncio. Diminuiu o rumor. Reinava agora, por toda a nave, urna calma atenta. Os olhos de Jaimemorto davam-se conta do sem-número de luzes que havia suspensas da abóbada, as quais lhe permitiam apreciar a amálgama de corpos entrelaçados uns nos outros, esculpidos ao longo do travejamento, e o vitral azul do altar.
— Venha chuva, ó padre! — disse o homem. A multidão repetiu em uníssono.
— Venha chuva!...
— O sanfeno está seco! — prosseguiu o homem.
— Venha chuva! — mugiu a multidão.
Jaimemorto, completamente ensurdecido, viu o padre estender o braço a pedir a palavra. Acalmaram-se os murmúrios. O sol matutino flamejava por detrás do vitral azul. Custava a respirar.
— Povo desta aldeia! — disse o padre.
A sua voz, imensa, parecia saída de todos os lados, e Jaimemorto adivinhou que só um sistema de amplificação lhe permitia atingir tal volume. As cabeças voltaram-se para a abóbada, para as paredes. Não havia qualquer aparelho à vista.
— Povo desta aldeia! — disse o padre. — Pedis-me chuva, pois não a tereis. Viestes hoje, altivos e arrogantes como leghornes, confiantes na vossa vida carnal. Viestes, como insolentes pedinchões, exigir o que não mereceis. Não, não choverá. Para o vosso sanfeno, está-se Deus nas tintas! Curvai o corpo, curvai a fronte, humilhai vossa alma e eu vos direi a palavra de Deus. Mas não conteis com uma só gota de água. Isto aqui é uma igreja, e não um chuveiro!
Perpassou pela multidão um murmúrio de protesto. Jaimemorto achava que o padre falava bem.
— Venha chuva — repetiu o homem empoleirado
no banco.
Depois da sonora tempestade da voz do padre, o seu grito pareceu irrisório, e a assistência, consciente da sua inferioridade temporária, calou-se.
— Pretendeis crer em Deus —tonitroou o padre — só porque vindes à igreja aos domingos, porque tratais com dureza o vosso semelhante, porque ignorais o que seja a vergonha, porque a vossa consciência vos não atormenta...
Mal o padre pronunciara a palavra vergonha, ergueram-se protestos daqui e dacolá, a que outros fizeram eco, acabando por rebentar tudo num grito arrastado.
Os homens, de punhos crispados, contorciam-se nos seus lugares. As mulheres, mudas, apertavam os lábios e olhavam para o padre com um olhar pérfido. Jaimemorto começava a perder o pé. Quando o tumulto se acalmou, o padre retomou a palavra.
— Que me importam a mim os vossos campos! Que me importam os vossos animais e os vossos filhos! —berrou ele.— Viveis, todos vós, uma vida material e sórdida. Ignorais o que seja o luxo!... Esse luxo, ofereço-vo-lo eu: ofereço-vos Deus... Mas Deus não gosta da chuva... Deus não gosta do sanfeno. Deus não quer saber do vosso chão, nem das vossas chãs aventuras. Deus, é uma almofada de brocado de oiro, é um diamante engastado no Sol, é Auteil, é Passy, é as sotainas de seda, as peúgas bordadas, os colares e os anéis, o inútil, o maravilhoso, as custódias eléctricas... Não, não choverá!
— Queremos chuva — berrou o orador, desta vez sustentado pela multidão, que desatou a trovejar como um céu tempestuoso.
— Voltem para as vossas quintas! —mugiu a múltipla voz do padre.— Voltem para as vossas quintas! Deus é a volúpia do supérfluo. E vós só pensais no necessário. Sois indivíduos perdidos, a seus olhos.


Boris Vian, in O Arranca Corações

tradução de Luiza Neto Jorge, Editorial Estampa

Lido por dolphin.s às 19h37 | Comentários (3)

21 de março 2005

Insónia

Laurie Lipton, Of What Will he DieFeliz aquele que dorme pacificamente num leito de penas, arrancadas ao peito do ganso, sem notar que se trai a si mesmo. Há já mais de trinta anos que não durmo. Desde o dia indizível em que nasci, votei às tábuas do sono irreconciliável ódio. Eu o quis; não acusem ninguém. Despojem-se depressa da suspeita abortada. Vedes na minha fronte essa pálida coroa? Foi a tenacidade que a entrançou com seus dedos magros. Enquanto nos meus ossos correr um resto de seiva ardente, como torrente de metal fundido, não dormirei nunca. Todas as noites, forço os olhos lívidos a fitarem as estrelas através dos vidros da minha janela. Para ficar mais seguro de mim, coloco uma lasca de madeira a separar-me as pálpebras inchadas. A aurora, quando surge, encontra-me na mesma posição, com o corpo verticalmente apoiado, de pé, encostado ao gesso da fria parede. No entanto, acontece-me às vezes sonhar, mas sem que por um só instante perca a vivaz sensação da minha personalidade e a livre faculdade de me mexer: sabei que o pesadelo que se oculta nas esquinas fosfóricas da sombra, a febre que me tacteia a face com o coto do braço, cada um dos animais impuros que erguem suas garras sangrentas, sim, é a minha vontade que, para alimentar estavelmente a sua perpétua actividade, os faz andar à minha volta. Na verdade, átomo que se vinga na sua extrema fraqueza, o livre arbítrio não teme afirmar com poderosa autoridade que não conta o embrutecimento no número dos seus filhos: aquele que dorme é menos que um animal castrado de véspera. Embora a insónia arraste para as profundezas da cova estes músculos que exalam já um odor a cipreste, nunca a branca catacumba da minha inteligência abrirá seus santuários aos olhos do Criador. Uma secreta e nobre justiça, para cujos braços estendidos me lanço por instinto, manda-me que persiga sem tréguas esse ignóbil castigo. Temível inimigo da minha alma imprudente, à hora em que se acende uma lanterna na costa não deixo que os meus rins infortunados se deitem sobre o orvalho das relvas. Vencedor, rejeito os embustes da hipócrita dormideira. Por consequência, é coisa certa que o meu coração, por essa luta estranha, ergueu muros aos seus desígnios, como um esfomeado que se come a si mesmo. Impenetrável como os gigantes, eu vivi sempre com a largura dos olhos bem aberta. Pelo menos, está provado que, durante o dia, todos podem opor útil resistência ao Grande Objecto Exterior (quem não sabe o nome dele?); porque, então, a vontade vela pela sua própria defesa com notável afinco. Mas logo que o véu dos vapores nocturnos se estende, até sobre os condenados que vão ser enforcados - oh, então é ver o intelecto nas mãos sacrílegas de um estrangeiro. Um escalpelo implacável esquadrinha os seus densos silvedos. A consciência exala um longo estertor de maldição, pois o véu do seu pudor sofre cruéis rasgões. Humilhação! a nossa porta está aberta à curiosidade feroz do Celeste Bandido. Eu não mereci este suplício infame, ó horrendo espião da minha causalidade! Se existo, é porque não sou outro. Não admito em mim esta equívoca pluralidade. Quero morar sozinho no meu íntimo raciocinar. A autonomia... ou então transformem-me em hipopótamo.

Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi


Lido por dolphin.s às 10h44 | Comentários (4)

16 de março 2005

Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio

Laurie Lipton, ChildSe eu quisesse aproveitar-me da presente ocasião para subtilizar estas discussões poéticas, acrescentaria que até faço mais caso da palha do que da consciência; porque a palha é útil ao boi que a rumina, ao passo que a consciência apenas sabe mostrar as suas garras de aço. Estas sofreram uma penosa derrota no dia em que se me puseram à frente. Como a consciência tinha sido enviada pelo Criador, julguei conveniente não permitir que ela me impedisse a passagem. Se se tivesse apresentado com a modéstia e a humildade próprias da sua condição, e às quais nunca teria que renunciar, eu a teria escutado. Não me agradava o seu orgulho. Estendi uma das mãos e triturei-lhe as garras com os dedos; elas caíram feitas pó, sob a pressão crescente deste original almofariz. Estendi a outra mão e arranquei-lhe a cabeça. E depois, às chicotadas, expulsei de casa aquela mulher, e não mais a tornei a ver. Guardei a cabeça dela como recordação da minha vitória... Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, deixei-me ficar com uma perna erguida, como a garça real, à beira do precipício cavado nos flancos da montanha. Viram-me descer para o vale, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, nadei nos abismos mais perigosos, contornei os escolhos mortais e mergulhei mais ao fundo do que as correntes, para assistir, como estrangeiro, aos combates dos monstros marinhos; afastei-me da costa até a perder da minha vista penetrante; e as horrendas tremelgas, com seu paralisante magnetismo, rondavam-me os membros, que cortavam as vagas com robustos movimentos, sem ousarem aproximar-se. Viram-me voltar à praia, são e salvo, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, subi os ascendentes degraus de uma elevada torre. Cheguei de pernas cansadas à plataforma vertiginosa. Contemplei os campos, o mar; olhei o sol, o firmamento; empurrando com o pé o granito que não recuou, desafiei a morte e a vingança divina com uma suprema zombaria, e precipitei-me, como uma laje, na boca do espaço. Ouviram os homens o choque doloroso e retumbante que resultou do encontro entre o chão e a cabeça da consciência, que durante a queda tinha largado. Viram-me descer, com lentidão de pássaro, trazido por uma nuvem invisível, e apanhar a cabeça para a obrigar a ser testemunha de um triplo crime que ia cometer nesse mesmo dia, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, dirigi-me para o lugar onde se erguem os postes que sustém a guilhotina. Coloquei debaixo do cutelo a graça suave dos colos de três donzelas. Executor dos trabalhos importantes, larguei a corda com a aparente experiência de uma vida inteira; e, quando o ferro triangular desceu obliquamente, cortou três cabeças que me olhavam com doçura. Pus seguidamente a minha debaixo da pesada lâmina, e o carrasco preparou-se para cumprir o seu dever. Por três vezes o cutelo desceu pelas ranhuras com renovado vigor, e por três vezes a minha carcaça material, sobretudo no lugar do pescoço, foi abalada até aos alicerces, como quando em sonhos imaginamos ser esmagados por uma casa que desaba. O povo estupefacto deixou-me passar, ao afastar-me da praça fúnebre; viu-me abrir com os cotovelos as suas vagas ondulantes, e mover-me, cheio de vida, avançando de cabeça levantada, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Eu tinha afirmado que queria defender o homem desta vez; mas temo que a minha apologia não seja a expressão da verdade; por consequência, prefiro calar-me. Será com gratidão que a humanidade há-de aplaudir esta medida.

Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi


Lido por dolphin.s às 14h30 | Comentários (28)

14 de março 2005

Lâmpada de bico de prata

«Ó lâmpada de bico de prata, os meus olhos vêem-te nos ares, companheira da abóbada das catedrais, e buscam o motivo dessa suspensão. Dizem que os teus clarões iluminam de noite a multidão dos que vêm adorar o Todo-Poderoso e que mostras aos arrependidos o caminho do altar. Ouve: é muito possível; mas... terás tu necessidade de prestar tais serviços a quem nada deves? Deixa as colunas das basílicas mergulhadas nas trevas; e quando uma lufada da tempestade em que o demónio rodopia, transportada pelo espaço, penetrar com ele no lugar santo, espalhando o terror, em vez de lutares corajosamente contra a rajada do príncipe do mal, apaga-te de súbito ao seu sopro febril, para que ele possa, sem ser visto, escolher as suas vítimas entre os crentes ajoelhados. Se assim fizeres, ficarei a dever-te toda a minha felicidade, podes dizê-lo. Quando assim reluzes, derramando tuas claridades indecisas, mas suficientes, não ouso entregar-me às sugestões do meu carácter e fico-me no pórtico sagrado, olhando pelo portal entreaberto aqueles que escapam à minha vingança no seio do Senhor. Ó poética candeia! Tu, que serias minha amiga se pudesses compreender-me quando os meus pés pisam o basalto das igrejas nas horas nocturnas, porque te pões a brilhar duma maneira que, confesso, me parece extraordinária? Os teus reflexos ganham então as colorações brancas da luz eléctrica; a vista não te pode fixar; e iluminas com uma chama nova e poderosa os mais pequenos pormenores do canil do Criador, como que possuída por uma santa cólera. E quando, depois de ter blasfemado, me retiro, voltas a passar despercebida, modesta e pálida, certa de teres praticado um acto de justiça. Diz-me lá: será porque conheces o meandro do meu coração que, quando me acontece aparecer nos lugares onde velas, te apressas a denunciar a minha presença perniciosa e a chamar a atenção dos adoradores para o lado onde se vem mostrar o inimigo dos homens? Inclino-me para esta opinião; porque também eu começo a conhecer-te; e sei quem tu és, ó velha bruxa, que tão bem velas pelas mesquitas sagradas, onde se pavoneia, como crista de galo, o teu curioso senhor. Vigilante guardiã, tomaste para ti uma louca missão. Aviso-te: da primeira vez em que me denunciares à prudência dos meus semelhantes, aumentando os teus clarões fosforescentes, como não gosto deste fenómeno de óptica, que aliás não vem mencionado em nenhum livro de física, agarro-te pela pele do peito, colando as minhas garras às crostas da tua nuca tinhosa, e atiro-te ao Sena. Não pretendo que, não estando eu a fazer-te nada, te comportes deliberadamente duma maneira que me prejudique. Ali te deixarei brilhar o tempo que me apetecer; ali farás pouco de mim com um sorriso inextinguível, ali, convencida da incapacidade do teu azeite criminoso, hás-de uriná-lo amargamente.»

Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi


Lido por dolphin.s às 11h41 | Comentários (6)

10 de março 2005

Maldoror

Laurie Lipton, Love BiteQueira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois que, a não ser que utilize na sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro irão embeber-lhe a alma, como a água ao açúcar. Não convém que toda a gente leia as páginas que se seguem; só alguns hão-de saborear sem perigo este fruto amargo. Por consequência, ó alma tímida, antes de penetrares mais longe em tais domínios inexplorados, dirige os teus passos para trás e não para a frente. Ouve bem o que te digo: dirige os teus passos para trás e não para a frente, como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno; ou, antes, como a visão ao longe de friorentos grous em grande meditação, que, em tempo de Inverno, voam poderosamente através do silêncio, com todas as velas tensas, para um ponto determinado do horizonte, donde parte repentinamente um vento estranho e forte, precursor da tempestade. O grou mais velho, que por si só forma a vanguarda, ao ver isto, abana a cabeça como uma pessoa sensata, e com ela o bico com que dá estalidos, e não fica contente (como eu não ficaria, se estivesse no seu lugar), enquanto o seu velho pescoço, já sem penas e contemporâneo de três gerações de grous, se move em ondulações irritadas que pressagiam a tormenta que cada vez mais se aproxima. Depois de, com serenidade, ter olhado várias vezes para todos os lados com olhos plenos de experiência, prudentemente, é ele o primeiro (pois é ele que tem o privilégio de mostrar as penas da cauda aos outros grous inferiores em inteligência) que, com seu vigilante grito de melancólica sentinela para repelir o inimigo comum, vira com flexibilidade a ponta da figura geométrica (talvez seja um triângulo, mas não se lhe vê o terceiro lado formado no espaço por estas curiosas aves de arribação), ou para bombordo ou para estibordo, como um hábil comandante; e, manobrando com asas que não parecem maiores que as de um pardal, como não é estúpido, toma assim outro caminho filosófico e mais seguro.


Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi

Lido por dolphin.s às 16h32 | Comentários (5)

7 de março 2005

Cantos

Os Cantos pegam na estética romântica e exploram-lhe todos os clichés, ampliam-lhe todos os tiques, do ênfase ao melancólico, da grandiloquência ao preciosismo, dos sentimentos nobres ao macabro, num desejo de a levarem para lá dos seus limites, o corrosivo humor e a fina ironia dos comentários em permanente minagem da ficção a ser elaborada. Ora as metáforas participam desta vontade de levar o romantismo à auto-destruição, ridicularizando as suas pretensões metafóricas pela introdução de equivalentes estapafúrdios retirados do repertório de lugares comuns da medicina, das ciências naturais ou da quinquilharia doméstica. Isidore Ducasse escarnece assim de uma poesia sempre à procura dos belos efeitos e das comparações floreadas.
Foi também a passagem dos anos e das leituras que me foi dando consciência da fertilidade infinita dos Cantos, dos numerosos procedimentos textuais, visuais e mesmo sonoros que anteciparam, desde a escrita automática, em seguida desenvolvida pelos surrealistas, até ao plágio, que Isidore Ducasse virá mais tarde a defender como necessário (cfr. Poesias II), desde a prática do desvio, retomada depois pelos situacionistas, até à repetição reiterada, modular, circular, como o fazem hoje os samplers. Igualmente a colagem, o ready-made, o cut-up, a apropriação ou a mistura, encontram a sua legitimidade histórica na obra de Isidore Ducasse. E ainda as violências desfigurativas expressionistas, o nihilismo Dada, o No Future punk ou a cultura trash do final do século XX, que tiveram nos Cantos um antecedente em termos de atitude.
Mas mais do que estes ou outros achados formais, o importante é que Os Cantos de Maldoror, passados mais de cem anos da sua primeira edição e quase trinta desde que por eles me aventurei, mantêm intacto o seu poder de atracção. A sua energia continua intocada e com ela o prazer primitivo de derrubar o pai, o mestre, Deus, a autoridade, o prazer físico de transgredir o interdito, de soltar os desejos reprovados, o prazer intelectual de contemplar a escrita, de lhe sentir os avanços, os recuos, os desvios, o humor, o prazer alucinógeno de se deixar levar pelas suas dimensões oníricas, pelos espaços do sonho e da fantasmagoria. E a cada leitura há sempre novos pormenores a descobrir, novas ligações que se estabelecem - que mais podemos ansiar?

Adolfo Luxúria Canibal, in Prefácio para Os Cantos de Maldoror
Edições Quasi

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11 de janeiro 2005

A Condessa Sanguinária IV

A primeira vez que viu morrer, Erzsébet teve algum medo e contemplou o cadáver sem compreender muito bem o que estava a acontecer. Mas foi um pequeno sinal de remorso breve e passageiro. A partir daí, ficou mais interessada no longo tempo que demorava o estertor; e também na duração do prazer sexual necromântico.
Com uma espécie de presunção voluptuosa da sua impunidade lá nas profundezas das caves de Csejthe, foi-se entregando de alma e coração aos jogos com fogo, archotes e candelabros que, com os seus reflexos, tornavam ainda mais expressivas as várias fases de tão insano ritual. Uma forma de felicidade. Sob o último degrau do inconsciente batiam já as asas da loucura. Se assim não fosse, como poderia Erzsébet ter perpetrado tais actos?
Pode compreender-se qual a origem deste prazer sexual, enormemente potenciado pela penumbra atravessada pela vaga luz dos archotes, fora do mundo, quase no interior da terra e baseado na convicção de uma secreta impunidade. São inúmeras as seitas que se dedicaram a práticas eróticas em lugares tão inacessíveis que, depois de se entrar, nem sequer se sabia indicar bem a localização das portas.
Quanto ao prazer da feitiçaria propriamente dito, esse prazer que fez cair sobre Gilles de Rais a ira do tribunal eclesiástico, a que Erzsébet Báthory foi poupada, é o mais indestrutível dos dois. Enquanto o corpo pode fatigar-se e, por isso, chegar ao arrependimento, a mente prossegue o caminho que a pouco e pouco foi traçando como seu, dentro de uma lógica feita de fluidos e sangue. Os crimes nascidos das mais terríveis paixões do corpo podem ser absolvidos: durante o julgamento de Gilles de Rais, o crucifixo foi tapado, por razões de decência, e não voltou a ser referido. Mas que dizer desse círculo mágico que em si mesmo se encerra? Que esperança pode haver nesse universo criado a contrapelo dos antigos sinais vitais por assinaturas de carvão que, uma vez após outra, atingem e selam a mente de modo a convertê-la em cunho de natureza, tanto por alienação posterior como por origem inicial? Que dizer de Erzsébet Báthory, supersticiosa e depravada, com o nariz aquilino prolongando a direito a linha da testa e o queixo pesado e ligeiramente recolhido, evocando ao mesmo tempo a ovelha negra e a ave de rapina que a toma nas garras? Que dizer desta mulher cuja companhia, apesar de tudo, era sempre tão desejada? A verdade é que não é o agradável que fascina mas o insondável. Se um dia fosse possível amar esse género de seres com o conhecimento das causas profundas e reais do seu nascimento, sem os temer e sem temer as forças poderosas que decidiram a sua vinda ao mundo, então deixaria de haver lugar para a crueldade e para o medo.


Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose

tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim


Lido por dolphin.s às 13h51 | Comentários (2)

7 de janeiro 2005

A Condessa Sanguinária III

Castelo de CséjtheFoi Darvulia quem, logo no ano em que Ferencz Nádasdy morreu, iniciou Erzsébet nos jogos mais cruéis, tendo-lhe ensinado a olhar a morte e o sentido de saber olhar a morte.
A Condessa, até então apenas motivada pelo prazer de fazer sofrer e ver sangrar as suas criadas, refugiou-se sempre na necessidade de punir as faltas cometidas pelas suas vítimas. Agora, o sangue vertido era-o em função de ser sangue e nada mais e a morte era infligida apenas em nome da própria morte. Darvulia descia até às caves para escolher as raparigas que lhe pareciam mais bem alimentadas e resistentes. Ajudada por Dorkó, empurrava-as à sua frente pelas escadas e corredores mal iluminados que iam dar ao lavadouro, onde, muito rígida na sua alta cadeira trabalhada, a senhora se encontrava já, enquanto Ilona Jó e outras mulheres se ocupavam do lume, das ligaduras, das facas e das navalhas. As duas ou três raparigas que haviam sido escolhidas ficavam nuas, de cabelo completamente desgrenhado. Eram muito belas e tinham sempre menos de dezoito anos, algumas pouco mais de doze; Darvulia queria-as muito jovens, porque sabia que, se já tivessem experimentado o amor, o poder mágico do seu sangue ficaria irremediavelmente perdido. Dorkó atava-lhes os braços com muita força e alternava com Ilona Jó nos açoites com uma vara de freixo ainda verde que deixava sulcos profundos e horríveis na carne. Por vezes, era a própria Condessa a encarregar-se de prosseguir. Quando a rapariga já não era senão chaga tumefacta, Dorkó pegava numa navalha e golpeava onde lhe apetecia. O sangue saltava por todo o lado e as mangas brancas de Erzsébet Báthory empapavam-se de todo nesse dilúvio vermelho. Ficava de tal modo coberta de sangue que era obrigada a mudar de roupa. A abóbada e as paredes gotejavam. Quando, finalmente, a rapariga parecia estar prestes a morrer, Dorkó abria com tesouras as veias dos braços onde ainda havia algumas gotas de sangue. Em certos dias, estando farta dos gritos, a Condessa mandava coser as bocas para não ter de ouvir.


Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose

tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim


Lido por dolphin.s às 10h12 | Comentários (2)

4 de janeiro 2005

A Condessa Sanguinária II

Erzsébet BathóryOs banhos, os repastos e os bailes seguiam o seu curso. Não se ia à caça, porque os banhos fatigavam bastante e a tarde era passada a dormir nos quartos, dada a indolência quente e silenciosa que descia sobre o castelo. Mas, lá nos confins das caves, do outro lado das grossas paredes e dos corredores, um grupo de jovens criadas esfomeadas gemia. Desde há oito dias que Dorzó não lhes dava de comer; e, não contente com isso, ainda as arrastava durante as noites já frescas do Outono até ao exterior para lhes lançar água quase gelada sobre os corpos. Algumas morreram; as outras, de olhos esvaídos e já não podendo mover-se, olhavam através da grade da pequena abertura que dava para o jardim as altas coroas dos girassóis, cheias de sementes cujo gosto insípido imaginavam reconfortante. Na apertada divisão onde estavam encerradas, podiam ouvir os gritos da noite de Setembro nos campos e nos jardins; e, vindos de longe, do outro lado do castelo, os sons da música dos bailes. Dorkó colocou as primeiras raparigas mortas debaixo de uma cama e, apesar de ser o mês de Setembro, viu-se obrigada a arranjar peles de animais para poder cobri-las; ao mesmo tempo, para que ninguém desconfiasse, fazia questão em ser vista a transportar comida, como se as prisioneiras ainda estivessem vivas. O cheiro começava a ficar cada vez mais pestilento e Dorkó teve de valer-se de tudo e mais alguma coisa para persuadir um lacaio a enterrar os cadáveres.
Quando chegou o tempo de partir de novo, Erzsébet mandou chamar as criadas; mas as sobreviventes encontravam-se num tal estado de fraqueza que não podiam caminhar. Ficou muito irritada e acusou Dorkó de ter excedido as suas instruções: já não lhe bastava ter de viajar sem séquito e aborrecer-se todo o tempo da viagem até Csejthe? Entretanto, a menos depauperada de todas as raparigas foi empurrada para dentro da carruagem. Morreu na viagem. Com as outras não se preocupou; foram deixadas, moribundas, à guarda de Dorkó, que terá então passado um dos momentos mais desagradáveis da sua vida. Tinha já lançado alguns corpos nas valas em redor do castelo, mas, uma vez que vieram à superfície, teve de recolhê-los outra vez e procurar rapidamente um sítio onde pudessem ficar dissimulados. Acabou por escolher um pedaço de terra branda no quintal, que tinha cenouras plantadas e onde se amontoavam já outras raízes comestíveis destinadas a fazer face aos rigores do Inverno, e conseguiu convencer os lacaios a enterrarem os corpos aí. O cão de Miklós Zrinyi, um enorme galgo de focinho comprido, descobriu-os no decurso de um passeio com o dono, pondo-se aos pulos à sua volta, sabe Deus com que horrível pedaço de carne humana na boca. A partir daí, Zrinyi passou a olhar a sogra possuído de enorme horror, embora tenha permanecido em silêncio acerca da prova que a incriminava. Agora já não era possível procurar qualquer espécie de desculpa. A história desse cão maldito amedrontou os lacaios. Recusaram continuar a ajudar Dorkó, que não se atreveu a enterrar mais cadáveres enquanto os convidados não partissem. Teve de contentar-se em ir jogando cal sobre as mortas, que escondera num sítio de onde saía um cheiro tão horrível que os lacaios recusavam ir a essa zona do castelo. Quando, por fim, ficou só, andou cinco noites a cavar fossas no jardim e a transportar para lá os sinistros fardos.


Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose

tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim


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2 de janeiro 2005

A Condessa Sanguinária

A Condessa SanguináriaA partir de 1604, o ano da morte do conde Nádasdy, uma criatura misteriosa adquirira enorme poder sobre a mente de Erzsébet Báthory. Vinha do coração da floresta e a ela regressava, em certas noites, para uivar à lua; e, sempre seguida pelos seus gatos pretos, voltava novamente ao castelo e coroava-se de ervas escuras e prateadas, de artemísia e meimendro, dançava com a sua própria sombra nas clareiras entre as árvores e esconjurava as antigas divindades.
Ninguém a conhecia. Era a «feiticeira da floresta». Feiticeira desde sempre, vivera em tempos na região de Sárvár, onde tinha por hábito observar Erzsébet de longe, quando esta galopava pelos campos, destruindo as colheitas. Chamava-se Anna, mas por qualquer razão desconhecida tinha escolhido o nome de Darvulia. Era muito velha, colérica e sem coração: um verdadeiro e terrível monstro. Encontrara nos olhos de Erzsébet tudo o que havia de maléfico nos venenos da floresta e na insensibilidade desértica da Lua e adivinhara neles a escravatura psíquica própria de uma terra negra a explorar, disponível para aceitar as suas sementes. Era de húmus assim que extraía os seus poderes, feitos do instinto que liga irrevogavelmente a feitiçaria a tudo quanto é viperino, venenoso e l capaz de morte. Erzsébet, na sua passividade saturnina, abandonou-se a esses poderes; a sua megalomania e o seu gosto pelo vazio deixavam-na sempre disponível para receber e para aceitar tais poderes. E foi Darvulia quem lhe pôs à disposição os frutos maduros da loucura. Fê-lo por efeito da magia, mas também através dos meios mais sórdidos, suprimindo com eficácia todo e qualquer obstáculo exterior que a Condessa pudesse não ser capaz de ultrapassar. A Lua estava em Capricórnio e, por isso, era o momento certo para fazer o banho no meio da noite, enquanto se queimavam acres resinas ao som de um esconjuro interminável e monótono. Darvulia, na sala subterrânea e secreta como uma cripta, traçava, com a paciência própria dos feiticeiros, círculos e signos, ao mesmo tempo que desenrolava todo o seu grimório sem nunca se enganar no intrincado labirinto dos poderes negros. E, dominando-os e fazendo com que voltassem a acordar, vivia a sua própria magia perante a enfeitiçada Erzsébet, comungando com ela o único sacramento que desejava partilhar.


Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose

tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim


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27 de novembro 2004

He & he

Now the clocks chimed, first in relay, then in unison.
'If you could, Love,' said the King.
Against the wall on the landing's carpeted plateau stood a chiffonier the size of a medieval fireplace. This now began to turn, to slide outwards on its humming axis. And in came He Zizhen, greatgranddaughther of concubines.
Love bade her welcome.

When the clocks chimed again He began to undress. This would take her some time. The King, already naked, lay helplessly on the chaise-longue, like a child about to be changed. As she removed her clothers He caressed him with them, and then with what the clothes contained. He touched him. He touched He. He was hard. He was soft. He touched him and he touched He.
There came a ping, a vibration, from the chandelier.


Martin Amis, in Yellow Dog


Lido por dolphin.s às 11h09 | Comentários (2)

26 de novembro 2004

Jacques Moran descreve a terra de Molloy

Por terra de Molloy entendo a região bastante restrita que nunca franqueou, e verosimilmente nunca franqueará os limites administrativos, seja porque lhe esteja interdito, seja porque não tenha vontade de o fazer, seja, naturalmente, pelo efeito de um extraordinário acaso. Esta região estava situada a norte, relativamente àquela mais amena onde eu vivia, e era constituída por um aglomerado que alguns mimoseavam com o nome de vila e onde outros mais não viam do que uma aldeia e campos circunvizinhos. Esta vila, ou aldeia, digamo-lo já, chamava-se Bally, e ocupava, em conjunto com as terras na sua dependência, sensivelmente, uma superfície de cinco a seis milhas quadradas. Nos países evoluídos chama-se a isto uma comuna, creio, ou um cantão, não sei, mas entre nós não existe um termo abstracto e genérico para estas subdivisões do território. E para as expressar temos um outro sistema, de uma beleza e simplicidade excepcionais, e que consiste em dizer Bally (pois que se trata de Bally) quando se pretende dizer Bally e Ballyba quando se pretende dizer Bally mais as terras e aferentes e Ballybaba quando se pretende dizer as terras de Bally exclusivas da própria Bally. Eu, por exemplo, vivia, e, pensando bem, ainda vivo, em Shit, centro principal de Shitba. À tarde, quando ia passear, para apanhar ar fresco, em redor de Shit, era o ar de Shitbaba que apanhava, e não outro.



Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias

Lido por jm às 14h33 | Comentários (0)

24 de novembro 2004

Jacques Moran, por ter um imenso horror ao incerto

Que um homem como eu, simultaneamente meticuloso e calmo, atento tão pacientemente ao exterior como ao mais pequeno defeito, senhor da sua casa, do seu jardim, Samuel Beckettdas suas algumas pobres posses, executando fielmente e com habilidade um trabalho repugnante, detendo o seu pensamento nos limites do cálculo, por ter um imenso horror ao incerto, que um homem assim fabricado, porque eu era uma fabricação, se deixe assediar e possuir por quimeras, isso ter-me-ia parecido estranho, obrigando-me mesmo a colocar tudo em ordem, no meu próprio interesse. Isto não era nada. Não via nisto senão uma necessidade de eremita, necessidade certamente pouco recomendável, mas que deveria satisfazer, se quisesse manter-me solitário, e eu desejava-o, com tão pouco entusiasmo como às minhas galinhas ou à minha fé, mas com a mesma clarividência. Por outro lado, isso ocupava um espaço muito limitado na inenarrável marcenaria que era a minha existência, apenas a comprometia com os meus sonhos, mas também depressa se esquecia. Isolar o fogo antes da conflagração sempre me pareceu razoável. E eu poderia contar a minha vida que nunca teria feito alusão a estas presenças, e à do infortúnio de Molloy menos ainda que a qualquer outra. Porque havia outras, igualmente possíveis de agarrar.



Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias

Lido por jm às 11h57 | Comentários (3)

22 de novembro 2004

Molloy já não viaja

Não, nunca me evadi, e até os limites da minha terra eu ignorava. Mas acreditava-os bastante alargados. Mas esta crença não era baseada em nada de sério, era uma simples crença. Porque, se os limites da minha terra estivessem ao alcance dos meus passos, imagino que uma espécie de gradação mo teria feito pressenti-lo. Porque as terras não acabam bruscamente, que eu saiba, mas fundem-se, insensivelmente, umas nas outras. E eu nunca notei nada do género. Por muito longe que tenha ido, num sentido como noutro, este foi sempre o mesmo céu, a mesma terra, exactamente, dia após dia, e noite após noite. Por outro lado, se as terras se fundem, insensivelmente, umas nas outras, o que está por provar, é possível que tenha saído da minha muitas vezes, julgando estar sempre nela. Mas preferia agarrar-me à minha simples crença, aquela que me dizia, Molloy, a tua terra é de uma grande amplitude, nunca saíste nem nunca sairás dela. E por onde quer que erres, entre os seus longínquos limites, será sempre a mesma, precisamente. O que levava a crer que as minhas deslocações nada deviam aos lugares que elas faziam desaparecer, mas sim a outra coisa, à roda empenada que me conduzia, por imprevisíveis sacões, de fadiga em descanso, e inversamente, por exemplo. Agora já não erro, por lado nenhum, e até quase não me mexo e, no entanto, nada mudou. E os limites do meu quarto, da minha cama, do meu corpo estão tão longe de mim como os da minha terra, no tempo do meu esplendor.



Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias

Lido por jm às 22h07 | Comentários (9)

19 de novembro 2004

Flashing signs

Philip Roth, American PastoralSheila pretended to be listening intently to every word Dawn spoke. She had to be pretending. Not even she could have recovered so completely from the eruption in Dawn's study. If she had—well, it would be hard then to say what sort of woman she was. She was nothing like the one he had imagined. And that was not because she had been passing herself off with him as something else or somebody else but because he had understood her no better than he was able to understand anyone. How to penetrate to the interior of people was some skill or capacity he did not possess. He just did not have the combination to that lock. Everybody who flashed the signs of goodness he took to be good. Everybody who flashed the signs of loyalty he took to be loyal. Everybody who flashed the signs of intelligence he took to be intelligent. And so he had failed to see into his daughter, failed to see into his wife, failed to see into his one and only mistress—probably had never even begun to see into himself. What was he, stripped of all the signs he flashed? People were standing up everywhere, shouting "This is me! This is me!' Every time you looked at them they stood up and told you who they were, and the truth of it was that they had no more idea of who or what they were than he had. They believed their flashing signs too. They ought to be standing up and shouting, "This isn't me! This isn't me!" They would if they had any decency. "This isn't me!" Then you might know how to proceed through the flashing bullshit of this world.


Philip Roth, in American Pastoral

Lido por dolphin.s às 12h01 | Comentários (5)

16 de novembro 2004

drained of themselves

That people were manifold creatures didn't come as a surprise to the Swede, even if it was a bit of a shock to realize it anew when someone let you down. What was astonishing to him was how people seemed to run out of their own being, run out of whatever the stuff was that made them who they were and, drained of themselves, turn into the sort of people they would once have felt sorry for. It was as though while their lives were rich and full they were secretly sick of themselves and couldn't wait to dispose of their sanity and their health and all sense of proportion so as to get down to that other self, the true self, who was a wholly deluded fuckup. It was as though being in tune with life was an accident that might sometimes befall the fortunate young but was otherwise something for which human beings lacked any real affinity. How odd. And how odd it made him seem to himself to think that he who had always felt blessed to be numbered among the countless unembattled normal ones might, in fact, be the abnormality, a stranger from real life because of his being so sturdily rooted.


Philip Roth, in American Pastoral

Lido por dolphin.s às 21h24 | Comentários (3)

2 de novembro 2004

Other people

Philip RothYou fight your superficiality, your shallowness, so as to try to come at people without unreal expectations, without an overload of bias or hope or arrogance, as untanklike as you can be, sans cannon and machine guns and steel plating half a foot thick; you come at them unmenacingly on your own ten toes instead of tearing up the turf with your caterpillar treads, take them on with an open mind, as equals, man to man, as we used to say, and yet you never fail to get them wrong. You might as well have the brain of a tank. You get them wrong before you meet them, while you're anticipating meeting them; you get them wrong while you're with mem; and then you go home to tell somebody else about the meeting and you get them all wrong again. Since the same generally goes for them with you, the whole thing is really a dazzling illusion empty of all perception, an astonishing farce of misperception. And yet what are we to do about this terribly significant business of other people, which gets bled of the significance we mink it has and takes on instead a significance that is ludicrous, so ill-equipped are we all to envision one another's interior workings and invisible aims? Is everyone to go off and lock the door and sit secluded tike the lonely writers do, in a soundproof cell, summoning people out of words and then proposing that these word people are closer to the real thing than the real people that we mangle with our ignorance every day? The fact remains that getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong mat is living, getting mem wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting mem wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that—well, lucky you.


Philip Roth, in American Pastoral


Lido por dolphin.s às 11h02 | Comentários (17)

31 de outubro 2004

um momento

a voz cronometrar a voz não é minha o silêncio cronometrar o silêncio isso poderia ajudar-me hei-de ver fazer qualquer coisa qualquer coisa santo Deus

maldizer Deus nenhum som anotar mentalmente a hora e esperar meio-dia meia-noite maldizer Deus ou bendizê-lo e esperar relógio na mão mas os dias essa palavra de novo como fazer sem memória arrancar um bocado ao saco fazer nós ou a corda não tenho força


Samuel Beckett, in Como É

trad. Maria do Carmo Abreu

Lido por jm às 23h02 | Comentários (1)

22 de outubro 2004

Zachto?

There are several names for what happened in Germany and Poland in the early 1940's. The Holocaust, the Shoa, The Wind of Death. In Romani it is called the Porreimos - the Devouring. There are no names for what happened in the Soviet Union between 1917 and 1953 (although Russians refer, totemically, to 'the twenty million', and to the Stalinshchina - the time of Stalin's rule). What should we call it? The Decimation, the Fratricide, the Mindslaughter? No. Call it the Zachto? Call it the What For?


Martin Amis, in Koba, the Dread


Lido por dolphin.s às 14h50 | Comentários (9)

20 de outubro 2004

sem desculpas.

Dostoievsky escreve: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido. Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada não há desculpas para ele. não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.
Se deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas.


Jean-Paul Sartre, in O Existencialismo é um Humanismo

Lido por dolphin.s às 11h02 | Comentários (3)

18 de outubro 2004

Dói-me

Dói-me o calcanhar de aquiles, os cabelos de dalila e a próstata de salomão, dói-me o coração e as mãos, onde andam as minhas mãos sem as tuas? Andam em sacos de plástico, em cigarros, em guarda-chuvas, andam na minha cabeça, dois dedos de cada mão batem na minha cabeça — acorda o cavalo, o cavalo cresceu.



Nuno Moura, in CALENDÁRIO das dificuldades diárias

Lido por jm às 15h23 | Comentários (1)

14 de outubro 2004

exílio

ORESTES


Também para os meus, Júpiter. E até para a minha garganta que forma as palavras e para & minha língua que as modela à passagem; é com dificuldade que me compreendo a mim próprio. Ainda ontem tu eras como um véu sobre os meus olhos e um tampão de cera nos meus ouvidos; ontem eu tinha uma desculpa: eras tu a minha desculpa de existir, pois me tinhas posto no mundo para servir os teus desígnios e o mundo era uma velha alcoviteira que me falava de ti sem cessar. E de repente, abandonaste-me.


JÚPITER


Abandonar-te, eu?


ORESTES


Ontem, estava junto de Electra; toda a natureza, essa sereia, se agitava à minha volta, a cantar o Bem e a prodigalizar-me conselhos. Para me incitar à brandura, o dia escaldante suavizava-se como um olhar velado; para me pregar o perdão das ofensas, o céu estava tão calmo como uma absolvição. A minha juventude, obedecendo às tuas ordens, tinha-se erguido e aí estava ela diante dos meus olhos suplicante como uma noiva que se vai abandonar, pois era a última vez que eu a olhava. Mas de repente, sobre mim abateu-se a liberdade que me paralisou; recuou a natureza e foi como se já não tivesse idade. Sozinho fiquei no meio desse teu pequeno e doce mundo como alguém que tivesse perdido a própria sombra. E nada mais há no céu, nem o Bem nem o Mal, nem ninguém para me dar ordens.


JÚPITER


E então? Serei por acaso obrigado a apreciar a ovelha que a sarna faz expulsar do rebanho, ou o leproso encerrado no seu lazareto? Não te esqueças disto, Orestes: fizeste parte do meu rebanho e comeste a erva dos campos no meio das minhas ovelhas. A tua liberdade não passa duma sarna a fazer-te comichão, não é mais do que um exílio.


ORESTES


Dizeis a verdade: é um exílio.



Jean-Paul Sartre, in As Moscas


Lido por dolphin.s às 11h50 | Comentários (7)

11 de outubro 2004

Tudo depende.

Martin AmisRepare nisto: aos olhos dos assassinos comuns, os polícias não são de fiar. Para o pedófilo experimentado, o olhar ingénuo de uma criança é um olhar de luxúria voraz. Mais ou menos da mesma maneira, para os necrófilos activos, as pessoas vivas já estão mortas.
É muitas vezes uma grande prova de afecto deixarmos sozinhas as pessoas de quem gostamos. Quem já tenha chocado com um candeeiro sabe que qualquer velocidade acima de zero, não, obrigado.
Algumas pessoas olham para o pôr do Sol e só conseguem ver sangue no céu ameaçador. E quando, à tardinha, vêem aproximar-se um crucifixo aéreo vindo do ocidente, limitam-se a suspirar, ficando agradecidos por outro Avião ter escapado do inferno.
Se às vezes não se sentir um pouco louco, então acho que você deve estar doído. Todos os clichés são verdadeiros. Ninguém sabe o que há-de fazer. Tudo depende da maneira como se encara as coisas.


Martin Amis, in Os Outros

Lido por dolphin.s às 21h41 | Comentários (7)

29 de setembro 2004

Sofrimento - purificação do pecado

O argumento cristão habitual é que o sofrimento, neste mundo, constitui uma purificação do pecado, sendo assim, uma boa coisa. Tal argumento não passa, naturalmente de uma racionalização do sadismo; seja, porém, como for, é um argumento muito fraco. Eu convidaria qualquer cristão a que me acompanhasse ao pavilhão infantil de um hospital, a fim de observar o sofrimento que é lá suportado, para ver se continuaria a afirmar que aquelas crianças eram tão corruptas, moralmente, a ponto de merecerem o que estavam sofrendo. Para que possa dizer tal coisa, um homem tem que destruir em si mesmo todos os sentimentos de misericórdia e de compaixão. Deve, em suma, tornar-se tão cruel como o Deus em que crê. Homem algum que acredite ser para o bem tudo o que acontece neste mundo de sofrimento poderá manter intactos os seus valores morais, já que está sempre encontrando escusas para a dor e a miséria.


Bertrand Russell, in Porque não sou Cristão

Lido por dolphin.s às 11h31 | Comentários (18)

28 de setembro 2004

O medo - a base da Religião

A religião baseia-se principalmente e antes de tudo, no medo. É, em parte, o terror do desconhecido e, em parte, como já o disse, o desejo de sentir que se tem uma espécie de irmão mais velho que se porá do nosso lado em todas as nossas dificuldades e disputas. O medo é a base de toda essa questão: o medo do mistério, o medo da derrota, o medo da morte. O medo é a fonte da crueldade e, por conseguinte, não é de estranhar que a crueldade e a religião tenham andado de mãos dadas. O medo é a base dessas duas coisas.


Bertrand Russell, in Porque não sou Cristão

Lido por dolphin.s às 20h46 | Comentários (4)

27 de setembro 2004

Sacramento indissolúvel

Não é um facto agradável, mas as Igrejas nos obrigam a referir-nos a factos que não são agradáveis. Suponhamos que, neste mundo em que hoje vivemos, uma jovem inexperiente case com um homem sifilítico. Neste caso, a Igreja Católica diz: "Esse é um sacramento indissolúvel. Devem permanecer juntos por toda a vida". E nenhum passo deve ser dado por essa mulher no sentido de evitar que dê à luz filhos sifilíticos. Isso é o que diz a Igreja Católica. Quanto a mim digo que isso constitui uma crueldade diabólica, e ninguém cujas simpatias naturais não tenham sido embotadas pelo dogma, ou cuja natureza moral não esteja inteiramente morta a todo o sentido de sofrimento, poderia afirmar que é justo e certo que tal estado de coisas deva continuar.

Bertrand Russel, in Porque não sou Cristão


Lido por dolphin.s às 10h08 | Comentários (23)

26 de setembro 2004

O factor emocional

Como já disse, não creio que a verdadeira razão pela qual as pessoas aceitam a religião tenha algo que ver com argumentação. Aceitam a religião por motivos emocionais. Dizem-nos com frequência que é muito mau atacar-se a religião, pois que a religião torna os homens virtuosos. Isso é o que me dizem; eu jamais o percebi. Conheceis, por certo, a paródia desse argumento, tal como é apresentado no livro Erewhom Revisited, de Samuel Butler. Vós vos lembrais de que, em Erewhom, há um certo Higgs que chega a um país remoto e que, após passar lá algum tempo, foge do país num balão. Vinte anos depois, volta ao mesmo país e encontra uma nova religião, na qual é ele adorado sob o nome de "Filho do Sol", e na qual se afirma que ele subiu ao céu. Verifica que a Festa da Ascensão está prestes a ser celebrada, e ouve os Professores Hanky e Panky dizer entre si que jamais puseram os olhos no tal Higgs e que esperam não o fazer jamais — mas eles são os altos sacerdotes da religião do Filho do Sol. Higgs sente-se muito indignado e, aproximando-se deles, diz-lhes: "Vou desmascarar todo este embuste e dizer ao povo de Erewhom que se tratava apenas de mim, Higgs, e que subi num balão". Responderam-lhe: "Não deve fazer isso, pois toda a moral deste país gira em torno desse mito e, se souberem que você não subiu ao céu, todos os seus habitantes se tornarão maus". Persuadido disso, Higgs afasta-se do país silenciosamente.
Eis aí a ideia — a de que todos nós seríamos maus se não nos apegássemos à religião cristã. Parece-me que as pessoas que se apegaram a ela foram, em sua maioria, extremamente más. Tendes este fato curioso: quanto mais intensa a religião em qualquer época, e quanto mais profunda a crença dogmática, tanto maior a crueldade e tanto pior o estado de coisas. Nas chamadas idades da fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã em toda a sua inteireza, houve a Inquisição, com as suas torturas; houve milhares de infelizes mulheres queimadas como feiticeiras — e houve toda a espécie de crueldade praticada sobre toda a espécie de gente em nome da religião.
Constatareis, se lançardes um olhar pelo mundo, que cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor
tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo. Digo, com toda convicção, que a religião cristã, tal como se acha organizada em suas Igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso no mundo.


Bertrand Russell, in Porque não sou Cristão

Lido por dolphin.s às 19h03 | Comentários (10)

20 de setembro 2004

I'd just be the catcher in the rye

J. D. Salinger, in The Catcher in the Rye"You know what I'd like to be? I mean if I had my goddam choice?"
"What? Stop swearing."
"You know that song 'If a body catch a body comin' through the rye'? I'd like-"
It's 'If a body meet a body coming through the rye'!" old Phoebe said. "It's a poem. By Robert Burns."
I know it's a poem by Robert Burns."
She was right, though. It is "If a body meet a body coming through the rye." I didn't know it then, though,
"I thought it was 'If a body catch a body,'" I said. "Anyway, I keep picturing all these little kids playing some game in this big field of rye and all. Thousands of little kids, and nobody's around—nobody big, I mean—except me. And I'm standing on the edge of some crazy cliff. What I have to do, I have to catch everybody if they start to go over the cliff—I mean if they're running and they don't look where they're going I have to come out from somewhere and catch them. That's all I'd do all day. I'd just be the catcher in the rye and all. I know it's crazy, but that's the only thing I'd really like to be. I know it's crazy."
Old Phoebe didn't say anything for a long time. Then, when she said something, all she said was, "Daddy's going to kill you."


J. D. Salinger, in The Catcher in the Rye

Lido por dolphin.s às 15h21 | Comentários (0)

14 de setembro 2004

palavras

Em tempo de pouca imaginação está construída uma nova ciência: a ciência de formular o amor em frases; como um estudo experimental, em que se sabe já, com absoluta certeza, que efeitos práticos ou consequências morais têm certas frases no corpo de um homem ou de uma mulher, num sábado à noite.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Lido por dolphin.s às 13h48 | Comentários (2)

10 de setembro 2004

Trabalha-se por hábito

- Por que são a um tal ponto desdenhosos? - perguntou Chloé. - Trabalhar não é coisa assim tão boa...
- Disseram-lhes que é bom - respondeu Colin. - Em geral costuma achar-se que é bom. Mas a verdade é que ninguém pensa assim. Trabalha-se por hábito, justamente para não pensarmos nisso.
- De qualquer forma, é idiota fazer um trabalho que pode ser feito pelas máquinas.
- E preciso construir máquinas - disse Colin. - Quem o fará?
- Oh! Claro! - disse Chloé. - Para fazer um ovo é preciso uma galinha, e uma vez que haja galinha podemos ter uma porção de ovos. Portanto, mais vale começar pela galinha.
- Seria preciso saber o que impede a construção das máquinas - disse Colin. - É, com certeza, falta de tempo. As pessoas perdem tempo a viver, por isso já lhes não sobra nenhum para trabalhar.
- Não será antes o contrário? - disse Chloé.
- Não - disse Colin. - Se tivessem tempo para construir máquinas, depois já não seria preciso fazer mais nada. O que eu quero dizer é que trabalham para viver, em vez de trabalharem para construir máquinas que iriam levá-los a viver sem trabalhar.
- É complicado - concluiu Chloé.
- Não - disse Colin. - É muito simples. A coisa deveria dar-se progressivamente, bem entendido. Mas perde-se tanto tempo a fazer coisas que se gastam...
- Não acreditas que gostassem mais de ficar em casa a dar beijos à mulher, de ir à piscina e a divertimentos?
- Não - disse Colin -, porque não pensam nisso.
- Mas será culpa deles, se pensam que trabalhar é bom?
- Não - disse Colin -, a culpa não é deles. Foi porque lhes disseram: «O trabalho é sagrado, é bom, é belo, é o que acima de tudo conta, e só os que trabalham têm direito a tudo». Mas sucede que as coisas estão feitas para serem obrigados a trabalhar durante o tempo todo, e dessa forma não podem aproveitar o facto de terem trabalho.
- Serão afinal estúpidos? - disse Chloé.
- Sim, são estúpidos - disse Colin. - Por isso estão de acordo com quem lhes faz acreditar que o trabalho é o que há de melhor. Isto evita que reflictam e tentem progredir até não trabalhar.
- Falemos de outra coisa - disse Chloé. - São assuntos cansativos. Diz-me se gostas do meu cabelo...


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

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3 de setembro 2004

Outono

A mais suave, pacata e mole das estações, o Outono, suplanta a anterior e instala-se com sobressaltos medrosos, temporais enormes, manhãs escuras, turbilhões e massacres de folhas que fazem compreender quanta violência custa a maturidade.


Cesare Pavese, in O Ofício de Viver

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29 de agosto 2004

Justificação do suicídio

A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. A primeira diz à segunda: «Não me levas à certa; sei como te comportas, sigo-te e prevejo-te, gozo até ao ver-te agir, e roubo-te o segredo ao recriar-te em hábeis construções que travam o teu fluxo.»
À parte este jogo, a outra defesa contra as coisas é o silêncio em que nos recolhemos antes de dar o salto. Mas é preciso que sejamos nós a escolhê-lo, e não deixar que no-lo imponham. Nem mesmo a morte. Escolhermos um mal é a única defesa contra esse mal. Isto significa aceitar o sofrimento, Não resignação, mas força. Digerir o mal de uma só vez. Têm vantagem os que, por índole, sabem sofrer de um modo impetuoso e total: assim se desarma o sofrimento e o transformamos em criação, escolha, resignação. Justificação do suicídio.


Cesare Pavese, in O Ofício de Viver

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23 de agosto 2004

Saber / Sentir II

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962A dimensão do «eu» original é a dimensão do vívido, do sentido, que ou se não esclarece na razão ou, esclarecendo-se, guarda ainda um domínio que é precisamente o da evidência, da adesão absoluta, da convicção do sangue, do ver. Mas como implicar nisso um combate à razão? Além de tudo o mais, para inúmeras evidências do que nos não ê indiferente (e é dessas que falamos, não das evidências «indiferentes» como as da Matemática — se o são) para inúmeras evidências, a razão pode actuar com uma força flagrante, dominadora, ou ao menos como uma espécie de propedêutica da convicção. É «demonstrando-me» o crime do nazismo, do fascismo, que eu posso acabar por ver que a ditadura fascista é criminosa. É demonstrando-me as origens da vida, que a solução religiosa pode recuar diante de mim. Mas se tal demonstração valesse decisivamente por si, como explicar o crente tão informado como eu e tão capaz como eu? Se a verdade ou a mentira de uma doutrina política se demonstra por si, pelo exame aturado dos princípios e da sua aplicação, como explicar que essa doutrina seja uma evidência de justiça para uns e uma evidência de injustiça para outros? Há um limite na eficácia do acabar de «demonstrar» que é o limite da eficácia do começar a sentir.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Lido por dolphin.s às 19h10 | Comentários (6)

16 de agosto 2004

O Homem e o Entusiasmo

O homem é uma criatura que não pode viver sem entusiasmo. O entusiasmo é o estado em que todos os sentimentos e todos os seus pensamentos coincidem num mesmo espírito. Tu pensas quase o contrário, que seria o estado em que um sentimento é mais forte que todos os outros, sentimento único que arrasta todos os outros. Não, tu não querias dizer nada! No entanto, é assim. E também ó de outra maneira. Mas a força desse entusiasmo tem falta de apoio. Os sentimentos e os pensamentos apenas adquirem continuidade quando se apoiam uns nos outros, formando um todo; é preciso que estejam, por assim dizer, orientados no mesmo sentido, que se arrastem mutuamente. Servindo-se de todos os meios, os estupefacientes, as ilusões, a sugestão, a fé, a convicção, algumas vezes apenas graças ao poder simplificador da estupidez, o homem esforça-se por criar mm estado que se pareça com aquele. Acredita nas ideias não pelo facto de serem verdadeiras, mas sim porque deve acreditar. Porque deve fazer com que reine a ordem no seu coração. Porque tem de tapar, servindo-se de uma ilusão, esse buraco nas paredes da sua vida através do qual os seus sentimentos estão mortos por se escapar para todos os lados.

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

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10 de agosto 2004

Martelada nos pregos da Cruz

Cesare Pavese, O Ofício de ViverBlasfemar, para aqueles tipos à antiga que não estão perfeitamente convencidos de que Deus não existe, mas que, embora se estejam nas tintas para Deus, o sentem de vez em quando entre a carne e a pele, é uma bela actividade. Vem um acesso de asma, e o homem começa a blasfemar com raiva e tenacidade: com a intenção bem nítida de ofender esse Deus eventual. Pensa que, afinal de contas, se ele existe, cada blasfémia é uma martelada nos pregos da Cruz e um desgosto infligido a Deus. Depois, Deus vingar-se-á, é o seu sistema — fará o diabo a quatro, enviará mais desgraças, mandar-nos-á para o Inferno, mas, mesmo que ponha o mundo de pernas para o ar, ninguém o libertará do desgosto experimentado, da martelada sofrida. Ninguém! É uma bela consolação. E, é claro, isto revela que Deus não previu tudo. Vejam: é o patrão absoluto, o tirano, o tudo; o homem é uma merda, um nada e, no entanto, tem esta possibilidade de o irritar e aborrecer e de lhe estragar um instante da beata existência. É, na verdade, o meilleur témoignage que nous puissons donner de notre dignité. Como é que Baudelaire nunca fez uma poesia a este respeito?


Cesare Pavese, in O Ofício de Viver


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5 de agosto 2004

Que aconteceu aos fins felizes?

Douglas, Tom e Charlie vinham a arfar pela rua sem sombra.
— Tom, conta-me agora a verdade.
— Mas qual verdade?
— Que foi que aconteceu aos fins felizes?
— Estão a dá-los nas matinées dos sábados.
— Sim, mas e na vida?
— Tudo o que sei é que me sinto bem ao ir para a cama à noite, Doug. É um fim feliz, uma vez ao dia. Na manhã seguinte, acordo e pode ser que as coisas corram mal. Mas basta-me lembrar-me de que à noite irei para a cama e que só por eu estar deitado um bocado tudo ficará bem.
— Estou a falar do Sr. Forrester e da Sr.a Loomis.
— Não podemos fazer nada; ela está morta.
— Bem sei! Mas não achas que houve uma pessoa que cometeu um erro naquilo?
— Queres dizer o facto de ele pensar que ela tinha a idade do retrato quando, na verdade, já tinha um milhão de milhões de anos? Não, senhor, acho que estava muito certo!
— Muito certo porquê, que diabo?
— Nestes últimos dias, o Sr. Forrester contou-me alguma coisa agora, alguma coisa depois e eu acabei por juntar tudo... eh rapaz, o que eu chorei... Nem mesmo sei porquê. Não ia modificar as coisas nem um bocadinho. Se as modificássemos, de que haveríamos nós de falar? De nada. E além disso eu gosto de chorar. Depois de chorar um bom pedaço, é como se fosse manhã outra vez, começo o dia novamente.
— Agora já ouvi tudo.
— Mas a gente não confessa que gosta de chorar. Ora nós choramos um bocado e logo tudo se compõe. Aí está o teu fim feliz. Ficas em condições de voltar cá para fora e andar outra vez por aí com os outros. E isso é o princípio de sabe-se lá o quê! De modo que agora o Sr. Forrester vai pensar em tudo muito bem e vai ver que não há outro remédio senão um bom choro para depois olhar à sua volta e perceber que é outra vez manhã mesmo que já sejam cinco horas da tarde.
— Isso a mim não me parece um fim feliz.
— Uma boa noite de sono ou dez minutos de choro ou uma boa dose de gelado de chocolate, ou as três coisas juntas, são bons remédios, Doug. Quem to diz é o Dr. Tom Spaulding.


Ray Bradbury, in A Cidade Fantástica


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27 de julho 2004

Alma

Passa-se com a alma algo semelhante ao que acontece à água: flui. Hoje está um rio. Amanhã estará mar. A água toma a forma do recipiente. Dentro de uma garrafa parece uma garrafa.
Porém não é uma garrafa.


José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados

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26 de julho 2004

Saber / Sentir

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962E toda a questão do «racional» e «a-racional», toda a questão do chamado «irracionalismo» existencial (que dirá Sartre, o «cartesiano»?) assenta fundamentalmente nisto: em que saber é nada ou muito pouco para uma questão do sentir. Sei que a pessoa que sou, o carácter que tenho é talvez possível explicá-lo totalmente pela genética, pelo ambiente e educação e condicionalismo económico: mas no acto de ser o que sou, o que sou é incondicionado. Um modo de ser que eu tenha, um tique, se se quiser, descoberto por mim nos meus pais, não é menos meu, não é menos eu, incondicional, absoluto, no acto de ser esse tique, esse modo de ser: nenhum filho tem pais... Se um tique herdado o sinto como tal (dado que isso seja possível) é que me operei desdobramento e sinto em «má-fé». Que importa explicar-se o amor, a alegria, uma... dor de dentes? No amor, na alegria, sou eu amando, alegrando-me; e a dor de dentes só existe na medida em que eu a sou. Que importa demonstrarem-nos a exactidão de uma doutrina? Uma doutrina só me é exacta na medida em que a sinto, a vejo tal. E acaso se necessita sempre para isso de um argumento novo? Acaso os mesmos argumentos, exactamente os mesmos, sem que um novo esclarecimento os ilumine, não podem deixar-nos indiferentes ou queimar-nos de evidência? Que significa a explicação do globo ocular e de toda a estrutura fisiológica da vista para a compreensão do acto de ver?


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

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23 de julho 2004

Um excesso de passado

José Eduardo Agualusa, o Vendedor de Passados«Um exercício interessante», disse, «é tentar ver os factos através do olhar da vítima. Por exemplo, o peixe que estamos a comer... generoso pargo, não é?... Já tentou ver este nosso jantar na perspectiva dele?»
Félix Ventura olhou para o pargo com uma atenção que até ao momento o pobre peixe lhe não merecera; depois, horrorizado, afastou o prato. O outro prosseguiu sozinho:
«Julga que a vida nos pede compaixão? Não creio. O que a vida nos pede é que a festejemos. Voltemos ao pargo. Se fosse este pargo preferia que eu o comesse com desgosto ou com alegria?»
O albino ficou calado. Ele sabe que é um pargo (somos todos), mas prefere, creio, que não o comam nunca. O estrangeiro continuou:
«Uma ocasião levaram-me a uma festa. Um velho festejava o seu centésimo aniversário. Quis saber como é que ele se sentia. O pobre homem sorriu-me atónito, disse-me, não sei bem, aconteceu tudo demasiado rápido. Referia-se aos seus cem anos de vida e era como se estivesse a falar de um desastre, algo que sobre ele tivesse desabado minutos antes. Às vezes sinto o mesmo. Dói-me na alma um excesso de passado e de vazio. Sinto-me como esse velho.»


José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados

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21 de julho 2004

A biografia de um Homem

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph WalserPara Walser tornara-se evidente que uma existência era composta por uma sucessão de comportamentos dirigidos às coisas e aos outros homens, e que esses comportamentos, esse agir — por grosseiro que fosse — não era, objectivamente, mais do que um conjunto de movimentos muscularmente bem definidos, localizados facilmente num mapa anatómico. A biografia de um Homem era, no fundo, o que os seus músculos haviam feito.
Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido, mas assemelhado — era o sinal de igual, de idêntico, e não uma diminuição, não um roubo — poderia ser assemelhado, então, a um somatório de gestos, tal como uma máquina, por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas acções, não deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação às máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável. Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um somatório imortal de comportamentos. Ninguém, neste século, depois de sucessivas gerações terem desaparecido — e mesmo em plena guerra, onde a morte era mais visível que nunca —.deixava ainda de ser surpreendido (estava disso convencido Walser) pela sua própria morte. Somos sempre surpreendidos! Como se nos considerássemos no direito, depois de tantos dias de existência, de não sermos interrompidos.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

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20 de julho 2004

Absoluto/Relativo

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962É evidente que depende de mim, do que sou, da totalidade que me descubro, o sentir ou não o apelo de um Absoluto, por mais que eu admita que esse Absoluto não existe. Ê evidente que se eu sinto que a verdade a que me dou não é «a» verdade, me viverei indiferente em relação à verdade que me conhece. E neste caso, sim, o relativismo é-me um problema. Mas não mo é na medida em que eu adiro a uma verdade, à verdade que me conhece, e «sei» apenas que essa verdade de hoje será o erro de amanhã. Pois em relação a quê estabeleço eu já a mentira de agora? Em relação com a verdade de amanhã? Mas a verdade de amanhã será também o erro de depois... Ser relativista só porque se sabe que a verdade se altera, é adoptar simultaneamente um ponto de vista real de uma adesão e um ponto de vista ideal de não adesão. Aliás, rigorosamente, se não ê por «saber» que a minha verdade de hoje é o erro de amanhã, que eu sinto o «relativo» dessa verdade que me empolga — para o verdadeiro «relativista» o problema verdade-erro não existe simplesmente como tal. Se eu sinto que a minha verdade de hoje é o erro de amanhã, não sinto então tal verdade como verdade. Estou «situado» e é em função disso que me exprimo no que exprimo. Mas se eu me implico no que digo, só absurdamente, contraditoriamente, posso imaginar-me a exprimir um juízo que não tenha em conta a pessoa que sou como julgador: «Se tento imaginar marcianos ou anjos ou um pensamento divino, necessário é que este pensamento marciano, angélico ou divino figure no meu universo e o não faça explodir». Tal como para um problema de adesão estética— onde é evidente que a «universalidade» de um juízo de gosto é um «como se» — a verdade que me empolga sei-a um «como se» também; mas na medida em que a vivo, ela é um absoluto. Que me importa admitir (ou mesmo ter a certeza) de que a Guernica amanhã será menosprezada, se ela representa hoje para mim uma evidência de beleza? O absoluto para nós está no tempo, diz Jaspers, e portanto desaparecendo. Só pois numa dimensão intemporal é que o relativo existe, «por ser meramente geral, meramente exacto, meramente válido». É evidente que o conflito absoluto-relativo se estabelece sobretudo ou apenas no domínio das verdades que nos não são indiferentes, essas que jogam a nossa pessoa inteira, o nosso destino. Mas ê precisamente nestas que uma vez aceite uma, por mais que admitamos ser ela temporária, a vivemos como absoluta e a não imaginamos o erro de amanhã, exactamente porque não podemos imaginar a pessoa que não somos. Saber que uma obra de arte por mim hoje admirada será esquecida amanhã em nada pode alterar-me a adesão que me promove. Deste modo, adverte-nos ainda Jaspers, as verdades contradizem-se; mas para participar delas, para realmente saber o que elas são, tenho de identificar-me com uma e não conhecê-las a todas. De uma verdade que é nossa não podemos sair, não podemos pois vê-la de fora ou simplesmente «conhecê-la», já que não podemos sair dela. Porque sair dela seria cair no vazio. E exactamente porque não posso sair da minha verdade (porque seria sair de mim) eu não posso, a rigor, dizer sequer que há muitas verdades, que cada uma das outras é «verdadeira»: posso apenas tentar abordá-las pela «pergunta», tentar o que Kierkegaard chama a «comunicação indirecta». A verdade «existencial», que é a que me joga todo, a que vivo, a que sou, envolve pois o paradoxo de ser sentida como única, sabendo-se todavia que há outras verdades.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

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19 de julho 2004

Fealdade

Imagine-se: o casino era o sítio que estava na moda, e o facto de uma pessoa ser ali admitida constituía a prova de pertencer à elite mundana e rica da cidade. O fascínio que nele exercia a incrível estupidez daquela multidão acabava por o fazer acreditar numa ficção mórbida: aquilo não podia ser verdade. Ainda por cima, todas aquelas pessoas eram intoleravelmente feias; tinham uma espécie de fealdade definitiva e sem remédio que nenhum clarão de pensamento altruísta atenuaria. Nem sequer se divertiam; estavam para ali colados ao papel que deviam desempenhar, incrustados na lúgubre comédia que acontecia sem eles saberem. Que a humanidade era feia, disso estava Heikal convencido desde sempre; mas tocava as raias da provocação que o fosse tanto.


Albert Cossery, in A Violência e o Escârnio

Lido por dolphin.s às 10h07 | Comentários (7)

17 de julho 2004

definições de pessimismo

Eis ainda porque se pôde falar em pessimismo a propósito do pensamento existencialista: abandonado no mundo, desapoiado de Valores, tendo de construí-los e de assumi-los, o homem existencialista pôde ser julgado um pessimista, quando para Sartre a liberdade total confere-lhe a possibilidade de reagir sempre, de se inventar todos os caminhos, de recusar todos os limites, excepto os da impossibilidade de facto - confere-lhe, em suma, o direito ao optimismo.

Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

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15 de julho 2004

pâté de enguias

- Este pâté de enguias é notável - disse Chick. - Quem te deu a ideia de o fazeres?
- Foi o Nicolas quem teve a ideia - disse Colin. - Há (ou antes, havia) uma enguia que aparecia todos os dias, saída do cano da água fria, e ele encontrava no lavatório.
- É curioso - disse Chick. - E por que é que isso acontecia? '
- Punha a cabeça de fora e, fazendo pressão com os dentes, esvaziava o tubo de pasta dentífrica. Como Nicolas só usa pasta americana, de ananás, isso deve tê-la tentado.
- Como é que ele conseguiu apanhá-la? - perguntou Chick.
- Pôs um ananás inteiro no lugar do tubo. Quando ela engolia a pasta, conseguia deglutir e recolher depois a cabeça; mas com o ananás não conseguiu o mesmo resultado e, quanto mais ela puxava, mais os dentes se enterravam no ananás. O Nicolas...
Colin deteve-se.
- O Nicolas o quê? - perguntou Chick.
- Não sei se deva dizê-lo, talvez vá tirar-te o apetite.
- Continua -disse Chick-, já não tenho quase nenhum.
- Nesse momento o Nicolas apareceu e seccionou-lhe a cabeça com uma lâmina de barbear. Depois, abriu a torneira e o resto saiu.
- E tudo? - disse Chick. - Dá-me mais pâté. Espero que haja uma família numerosa dentro do cano.
- Agora o Nicolas pôs lá pasta de framboesa, para ver...


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

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14 de julho 2004

a moral II

Para ele, a moral não era nem dominação nem fria sabedoria, mas sim a totalidade infinita das possibilidades de vida. Acreditava numa possível gradação da moral, acreditava na existência de degraus no uso que dela se faz e não apenas, como é hábito, no conhecimento que dela se tem, considerando-a uma obra acabada para a qual os homens ainda não estivessem suficientemente puros. Acreditava ma moral, sem acreditar em nenhuma moral definida. Vulgarmente, entende-se por moral uma soma de normas policiais que servem para manter a ordem na vida; como nem sequer a vida lhes obedece, parecem impossíveis de observar à risca e, consequentemente, desta forma mesquinha, assimiláveis a um ideal. Mas não é necessário reduzir a moral a isso. A moral é imaginação. Era, isto que ele queria demonstrar a Ágata. E, também, que a imaginação não é o despotismo. Se confiamos a imaginação ao despotismo arrependemo-nos disso. As palavras vibravam na boca de Ulrich. Estivera prestes a evocar uma diferença demasiado imponderada, isto é, que as diversas épocas desenvolveram a inteligência à sua maneira, enquanto que, também à sua maneira, fixaram e paralisaram a imaginação moral.

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h30 | Comentários (4)

12 de julho 2004

multidão

A curiosidade das multidões é uma maravilhosa sequência de enjoo e perversão; em bicos de pés um homem alto empurra a mulher pequenina pois quer ficar triste primeiro, como se tivesse tirado antes a senha numa repartição pública; estica os pés já altos e espreita para corpos menos lógicos, pretos, mais distribuídos pelo espaço que o normal, um certo cheiro nervoso. As desgraças são benéficas para o aparecimento de Príncipes fraternos, disponíveis para exercer a civilização. Uma colossal bondade necessita de espectadores relevantes, um homem avança com gritos específicos dizendo-se médico. A multidão afasta-se, e o homem que é médico passa, orgulhoso de ter aprendido nomes secretos de medicamentos e modos exactos de segurar em instrumentos que beneficiam a cidade. Velocidade, carros buzinam, o trânsito procura o ângulo que melhor dá para os mortos, o céu minimiza os pássaros que parecem inexistentes ou mal-educados: ninguém tolera outras canções quando se está a tocar o hino ou a pensar nele, mesmo se os sons vêm de pássaros calmos, habituados à discrição e a colocar-se de lado quando os homens entre si trocam palavras fortes ou tiros.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser


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9 de julho 2004

liberdade

Aquilo que «actua» sobre mim só actua porque eu o escolhi como actuante. Não é porque alguém me ofenda que eu reajo violentamente, mas sim porque escolho tal ofensa como «móbil» da minha reacção. Tal escolha, porém, de um móbil, posso não reconhecê-la senão depois de se manifestar. Assim são normalmente os meus actos que me esclarecem sobre o que realmente sou, sobre aquilo que realmente escolhi, sobre a minha liberdade.
Mas isso não significa que eu seja «inconsciente», já que, segundo Sartre, o homem é consciência de ponta a ponta, em todos os seus aspectos. Simplesmente, há consciência posicional, reflectida, e consciência não-posicional, não reflectida. A minha liberdade é de facto consciente, mas só os meus actos claramente ma revelam. Em qualquer situação portanto, eu «sou consciência de liberdade». Assim a minha liberdade é o estofo do meu ser.

Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre


para ti e para ti. porque sim :)


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8 de julho 2004

dor e deus

(...) Sempre pensei, quando via pessoas que com a dor e o desgosto torciam as mãos ou lançavam acusações, que elas não compreendiam a gravidade da sua situação em toda a sua profundidade. Pois esqueciam-se completamente de que nada servia, ainda não tinham percebido que não tinham sido apenas abandonadas ou ofendidas por Deus, mas que não existia Deus nenhum e que o homem que gera tumultos numa ilha deserta é louco.


Bertolt Brecht
das Notas Autobiográficas, Revista Artistas Unidos nº10

tradução de Jorge Silva Melo e Vera San Payo de Lemos


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7 de julho 2004

Objectivo/Subjectivo

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962Porque um vício de raciocínio «objectivo» (que um Ponty chama «hipócrita») leva-nos a esquecermos que todo o pensar implica um ser pensante, que não observamos o mundo com o absoluto espírito divino, que toda a observação nos implica a nós observadores, que quando falamos em «objectividade» esquecemos que tal objectividade veio ao mundo através de nós, ou seja, de uma «subjectividade». A definição de verdade pela adaequatio implica que de um lado veríamos a inteligência como alheia, e do outro o objecto como alheio também, isto é, sem que nesse ser implicássemos que... o víamos, ou seja, o tínhamos já interpretado. E é exactamente porque já o interpretámos, é exactamente porque toda a percepção já é intelecção (visto que nós vemos decifrando, ajuizando) é exactamente por isso que a adaequatio já assenta num outro juízo anterior que nós estabelecemos com precisamente a decifração do mundo, a nossa orientação nele, que desde a hora mais remota da consciência nós fomos estabelecendo. Assim «da evidência predicativa (a que afirma reflexivamente um predicado de um sujeito) somos remetidos à evidência antepredicativa como condição da racionalidade do Logos» . Ao longo da nossa vida consciente mil formulações de juízos se nos foram sedimentando, passando do que fora uma «génese activa» a uma «génese passiva» , do que fora originariamente uma actividade consciente ou semiconsciente a qualquer coisa como a inconsciência. E é porque esquecemos essa formação originária que podemos formular juízos predicativos, tematizados, como se não assentassem em evidências primeiras, tão indiscutíveis (porque passadas ao nosso sangue) que as esquecemos como estabelecidas por nós em função de uma ordenação do mundo. Porque — será preciso dizê-lo? — somos nós que distribui-mos a «ordem» e é assim um pouco ingénua a afirmação de que o universo está maravilhosamente ordenado. Bergson o disse: se vivêssemos numa desordem, nós a interpretaríamos como ordem. E a experiência, por exemplo, da inversão das imagens com óculos que assiduamente usemos, mostra que tal inversão se converte em normalidade, em correcção, ao fim de algum tempo.
Assim, pois, em face da matéria insignificante, de um mundo sem significação, o homem levanta-se como de algum modo o seu criador.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

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6 de julho 2004

A dor

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph WalserÉ certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa 'coisa' repelente.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser


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30 de junho 2004

moral

— Não sei realmente — disse ele — por onde hei-de começar sem te aborrecer. Posso dizer-te o que entendo por moral?
— Certamente.
— A moral é a regulamentação da conduta no seio de uma sociedade, em particular das impulsões interiores, ou seja, dos sentimentos e dos pensamentos.
— Fizeste grandes progressos em poucas horas! — disse Ágata rindo. — Dizias ainda esta manhã que ignoravas o que era a moral!
— Certamente que o ignoro. Contudo posso dar-te uma dúzia de definições. A mais antiga é que Deus nos revelou a ordem da vida em todos os seus pormenores...
— Essa deve ser a mais bela!
— A mais verdadeira — precisou Ulrich—é que a moral, tomo todas as outras espécies de ordem, tem origem na coacção e na violência! Um grupo de homens que alcançam o poder apenas impõem aos outros prescrições e princípios que lhes asseguram o poder. Ao mesmo tempo, agarram-se àqueles que lhe deram o poderio. Tornam-se exemplares. Modificam-se em consequência das resistências. Naturalmente, é mais complicado do que aquilo que é possível explicar nalgumas palavras e, finalmente, visto que isso não se consegue sem a intervenção do espírito, nem mesmo graças a ele, mas sim pela prática, chega-se a um entrelaçado que se estende a perder de vista por cima de tudo, aparentemente tão autónomo como o céu de Deus. Daí em diante tudo se relaciona com esse círculo, mas esse círculo não se relaciona com nada. Isto é: todas as coisas são morais, excepto a própria moral!...


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

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28 de junho 2004

pianocktail

-Tomas um aperitivo? - perguntou Colin. - O meu pianocktail já está pronto, podias experimentá-lo.
- E funciona? - perguntou Chick. -Perfeitamente. Foi-me difícil afiná-lo, mas o resultado
ultrapassa as minhas expectativas. Obtive uma mistura verdadeiramente atordoante, a partir do Black and Tan Fantasy.
- Qual é o princípio da tua invenção? - perguntou Chick.
- A cada nota faço corresponder um álcool, um licor ou uma substância aromática - disse Colin. - O pedal-forte corresponde ao ovo batido e o pedal-surdina ao gelo. Para a água-de-seltz é preciso um trilo no registo agudo. As quantidades estão na razão directa das durações: a semifusa equivale à décima sexta parte da unidade, a semínima à unidade, a semibreve ao quádruplo da unidade. Quando se toca uma ária lenta começa a funcionar um sistema de registo, por forma a aumentar a percentagem de álcool em vez da dose - o que daria um cocktail demasiado abundante. E, querendo, através de um regulador lateral pode fazer-se variar o valor da unidade, consoante a duração da ária, reduzindo-a por exemplo à centésima parte, a fim de podermos obter uma bebida que entre em linha de conta com todas as harmonias.
- É complicado - disse Chick.
- O conjunto é comandado por contactos eléctricos e potenciómetros. Não dou pormenores, tu sabes como é. Aliás acontece que o piano, ainda por cima, funciona.
- É maravilhoso! - disse Chick.
- Só há uma coisa aborrecida - disse Colin -, é o pedal--forte do ovo batido. Tive de instalar um sistema de coordenação especial porque, mal se toca um trecho demasiado hot, caem pedaços de omeleta no cocktail e torna-se insuportável tragá-lo. Terei de modificar isso. Por enquanto basta ter cuidado. Ao sol grave corresponde o creme de natas.


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

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25 de junho 2004

Defender a causa do povo

Albert Cossery— Es muito jovem, comentou ele. Querias defender a causa do povo, não é verdade? E foste parar à cadeia.
Não era uma pergunta, era uma simples evidência. Quem quer que defendesse a causa do povo acabava na prisão.
— Naturalmente, respondeu Karim. Mas não o lamento. No fim de contas foi na prisão que me vi efectivamente ligado ao povo. Numa fábrica, como sabes, uma pessoa trabalha como uma besta de carga, sem nunca ter tempo para falar com os companheiros. De resto, as conversas referem-se todas ao trabalho, ao salário de miséria ou à doença que semeia o desastre nas famílias. Só se fala de assuntos penosos. Ao passo que na cadeia a gente dispõe de ócios, conversa pelo prazer de travar conhecimento. É curioso, mas uma prisão é menos sinistra do que qualquer local de trabalho. Sabes uma coisa? Antes de ir parar à cadeia, eu julgava que o povo era por natureza bisonho e só se comprazia no drama. Não sabia que era tão espirituoso, que tinha tanto humor. Só na prisão descobri, de repente, esta verdade fundamental do nosso povo. E também que todas as minhas ideias a seu respeito eram falsas.
Como todo o intelectual digno deste nome, Urfi também combatera, na juventude, pela causa do povo. No entanto, o seu ar apagado, a timidez e o receio de dar nas vistas tinham-no subtraído à atenção duma polícia mais preocupada com as aparências dos revolucionários do que com o seu real fervor pela revolução. Por isso não tinha estado na cadeia. A experiência de Karim, por conseguinte, poderia informá-lo de factos que ignorava. Com a curiosidade estimulada, acentuou a pressão que a sua mão exercia no ombro de Karim, como a animá-lo a prosseguir o relato.
— Conta-me lá isso.
— É simples, prosseguiu Karim, eu via o povo tal como desejava vê-lo, ou seja, cheio de ódio e a sonhar com a vingança. E eu, é claro, queria ajudá-lo nessa vingança. Julgava-o submetido à opressão, e dei-me conta de que ele era mais livre do que eu. Nem podes imaginar a mofa de que fui alvo, quando quis explicar-lhes que estava preso por causa das minhas ideias políticas. Foi um desastre, achavam que eu era um pobre diabo, um atrasado mental. Eu a pensar que bastava declarar-lhes a minha condição de revolucionário, de inimigo declarado do governo, para lhes inspirar respeito pela minha pessoa, e eles a reagirem daquela maneira! Que presunção a minha! O governo, para eles, era desde há muito tempo motivo de escárnio. E eu, com toda a minha inteligência, tinha levado o governo a sério. Senti-me um idiota chapado, com os meus ares de mártir da classe operária. Lá na cadeia era o único que levava a sério o governo.


Albert Cossery, in A Violência e o Escârnio

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24 de junho 2004

Exorcizar o Diabo e curar os possessos

Também te poderia provar que o que os médicos ateus imaginam ter inventado, não é mais do que aquilo que a Igreja tem feito desde os seus primeiros tempos; exorcizar o Diabo e curar os possessos. Tal semelhança verificou-se até aos mínimos pormenores no ritual do exorcismo, por exemplo, quando leniam por todos os meios levar o possesso a falar daquilo que traz dentro de si: a Igreja também ensina que é nesse momento que o Diabo se prepara pela primeira vez para atacar! Nós apenas nos descuidamos de adaptar a tempo esse rito às exigências actuais e de substituir os termos esterco e demónio pelas palavras psicose, inconsciente e outros modernismos.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Lido por dolphin.s às 10h17 | Comentários (0)

23 de junho 2004

indiferença...

Quando se tem vergonha daquilo que não se faz, as notícias sobre factos próximos são escutadas por ouvidos afastados; toda a capacidade auditiva é ocupada por técnicas cínicas, fingindo interesse. Não há fórmulas para a indiferença, pois há diversas maneiras de sobreviver e a neutralidade é uma delas.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Lido por dolphin.s às 14h16 | Comentários (4)

22 de junho 2004

"por não conseguir acreditar já em Deus"

E se pensar na infância e no que é simples e tranquilo lhe traz angústia e sofrimento, por não conseguir acreditar já em Deus que está em tudo isso, então pergunte-se, caro senhor Kappus, se terá mesmo perdido Deus. Não será muito mais correcto dizer que talvez nunca o tivesse tido dentro de si? Quando é que isso poderia ter acontecido? Acha que uma criança o pode segurar, a Ele, a quem os homens trazem apenas com muito esforço e cujo peso esmaga os velhos? Acha que aquele que O possua de verdade pode perdê-lo como quem perde uma pequena pedra, ou não acha o senhor que quem O possuísse já só poderia ser perdido por Ele? — Mas se o senhor reconhecer que ele não esteve na sua infância, e não esteve antes; quando pressentir que Cristo foi enganado pelo seu amor e Maomé pelo seu orgulho — e sentir, apavorado, que ele também não está agora, no momento em que falamos dele — o que lhe dá então o direito de sentir a falta de alguém que nunca esteve como se de uma pessoa ausente se tratasse e de O procurar como se O tivesse perdido?Rainer Maria Rilke

Porque não pensa antes Nele, como O que está para vir, o que está iminente desde a eternidade, o futuro, o fruto final de uma árvore cujas folhas somos nós? O que é que o impede de projectar o seu nascimento para os tempos que vêm e de viver a sua própria vida como um dia doloroso e belo na história de uma sublime gravidez? Será que o senhor não vê como tudo o que acontece é sempre um começo? Porque não poderia ser o começo Dele, quando começar é, em si, sempre algo de tão belo? Se Ele é o mais perfeito, não será precedido de algo mais pequeno para que possa retirar a sua substância do esplendor e da plenitude? — Não terá de ser Ele o último para tudo em si abarcar? E que sentido teríamos se aquele que procuramos já tivesse existido?



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Lido por jm às 12h13 | Comentários (1)

"acredite num amor"

(...); mas acredite num amor que está guardado para si como uma herança e acredite que nesse amor existe uma força e uma bênção que não tem de perder por mais longe que vá!



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Lido por jm às 01h01 | Comentários (2)

21 de junho 2004

"dentro de si"

Pense, caro senhor, no mundo que traz dentro de si e chame o que quiser a essa forma de pensar; seja isso uma recordação da própria infância ou talvez a saudade do próprio futuro — esteja apenas atento àquilo que está a surgir dentro de si, e coloque-o acima de tudo de que se aperceba à sua volta. O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, é isso que deve trabalhar sem desperdiçar demasiado tempo ou energia a tentar explicar a sua posição aos outros.



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Lido por jm às 13h13 | Comentários (2)

20 de junho 2004

"A voluptuosidade física"

A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, tal como o puro olhar ou a pura sensação com que um fruto se derrete na língua — é uma grande e infindável experiência que nos é proporcionada, um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria. Não é nessa experiência que está o mal; o mal está em quase todas estas experiências serem mal usadas e desperdiçadas e adoptadas nas fases aborrecidas da vida como excitantes e distracções em vez de concentração numa caminhada para o cume.



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Lido por jm às 21h23 | Comentários (1)

17 de junho 2004

a maldade

A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Lido por dolphin.s às 10h28 | Comentários (0)

16 de junho 2004

Tradições de Família

Boris Vian- Nicolas - disse Colin ao entrar -, apresento-lhe o meu amigo Chick.
- Boa noite - disse Nicolas.
- Boa noite Nicolas - respondeu Chick. - Não tem, por acaso, uma sobrinha chamada Alise?
- Tenho sim senhor - disse Nicolas. - Aliás uma bonita rapariga, se me atrevo a proferir tal comentário.
- É muito parecida consigo - disse Chick -, apesar de haver algumas diferenças a respeito do busto.
- Sou bastante largo - disse Nicolas - mas ela é mais desenvolvida no sentido perpendicular, se o senhor tiver a bondade de me permitir tal precisão.
- Claro que sim - disse Colin -, estamos quase em família. Não me contou que tinha uma sobrinha, Nicolas.
- Senhor, a minha irmã degenerou - disse Nicolas. - Andou a estudar filosóficas. Não são coisas que uma família orgulhosa das suas tradições goste de gabar...


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

Lido por dolphin.s às 10h33 | Comentários (6)

15 de junho 2004

a verdade

- Tu afirmavas que os seres que se gabam de explicar e de compreender o mundo são sempre incapazaes de o modificar?
- Sim - respondeu o mestre. - O Verdadeiro e o Falso são as escapatórias daqueles que se recusam sempre a tomar uma decisão. Porque a verdade é uma coisa sem fim.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Lido por dolphin.s às 14h53 | Comentários (4)

14 de junho 2004

"realizam uma obra séria e acumulam doçuras"

«A ideia de ser criador, de conceber, de dar forma» não é nada sem a sua grande e permanente confirmação e realização no mundo, nada sem a mil vezes concedida concordância dos objectos e dos animais — e o seu gozo só é tão indescritivelmente belo e rico porque está cheio de recordações herdadas da concepção e do nascimento de milhões de seres. Num único pensamento criador revivem milhares de noites de amor esquecidas que o tornam grande e sublime. E aqueles que se juntam e entrelaçam durante a noite, numa voluptuosidade embaladora, realizam uma obra séria e acumulam doçuras, profundidade e energia para o canto de um qualquer futuro poeta que se irá erguer para descrever indescritíveis venturas.


Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Lido por jm às 00h48 | Comentários (2)

12 de junho 2004

A espécie humana

Bertolt Brecht(..) Examinei sempre se existia uma falha momentânea em mim quando de repente não ficava satisfeito com os meus semelhantes. Às vezes não era esse o caso, que eu saiba, mas nesses momentos eu também não tinha nada de concreto a reprovar às pessoas, talvez porque a espécie humana, na sua totalidade, me parecia falhada. Acho que o homem é uma raça que não estava prevista no plano da criação e que este facto só foi reconhecido por uns poucos exemplares ao longo dos poucos milénios da sua existência - exemplares que aliás ainda não puderam chegar eles próprios ao nível do ictiossauro.


Bertolt Brecht

das Notas Autobiográficas, Revista Artistas Unidos nº10

tradução de Jorge Silva Melo e Vera San Payo de Lemos


Lido por dolphin.s às 15h30 | Comentários (8)

11 de junho 2004

Monotonia e desinteresse

O tempo de paz continua para o tempo de guerra e este tempo continuará mais tarde para outro tempo de paz E nada é interrompido. Nada de fundamental. O indivíduo não se interrompia na guerra, não havia tempos de interrupção: é sempre o Homem, não há outro, não há um 2° Homem, há apenas um, o 1°; e é esse — que é o mesmo de há séculos atrás, e será o mesmo no futuro — é esse que tudo atravessa com enfado até a guerra. Monotonia e desinteresse.
A existência humana, o seu essencial, não se deslocara um centímetro, trinta séculos depois de três mil conflitos.

Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser

Lido por dolphin.s às 20h41 | Comentários (0)

10 de junho 2004

sem título...


os últimos segredos,
o homem
regressando
com um livro,
o caçador tornando a casa
com um livro
o camponês
lavrando
com um livro


Pablo Neruda

Lido por dolphin.s às 12h42 | Comentários (4)

9 de junho 2004

Jean-Paul Sartre

O objecto para si próprio pode ser um animal, e o animal - o orangotango, por exemplo — pode ser, para si próprio, um bípede inteligente.
No fundo só és livre se segurares na tua mais pequena partícula e a colocares no bolso, com facilidade. Como ninguém o consegue somos sacos; e não quem carrega os sacos.
Se o amor fosse forte, à frente da bala faria da bala uma inútil máquina em miniatura. Mas é a bala que faz do amor um inútil sentimento em miniatura. Se duvidas, experimenta.



Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

Lido por jm às 11h03 | Comentários (3)

8 de junho 2004

Simone de Beauvoir

Uma mulher habita o colchão devido ao cansaço ou ao sexo.
A cama é um órgão que repousa. A mesa alimenta. O copo dá de beber. O chão permite os sapatos; o tecto alude ao chapéu.
Toda a arquitectura tem consequências na maneira de vestir, na maneira de pensar e na maneira como a frase, vinda do nada, surge, à superfície, numa conversa.
No armário as mulheres arrumam a História dos exércitos: milhões de soldados mortos; enquanto os homens organizam documentos sobre os chefes de cada invasão, não mais de cento e cinquenta desde há dois mil anos.



Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

Lido por jm às 22h09 | Comentários (4)

7 de junho 2004

Thomas Mann

Escreveu sete mil páginas sobre a alta sabedoria e seis páginas sobre uma mulher de estatura mediana. Ninguém tem necessidade de guerra nem de adjectivos. A criação é uma juventude.

Atravessei a grandeza evitando olhar para cima. Se atravessares a grandeza olhando em frente no final serás grande. E se ainda te lembrares do percurso terás uma metodologia.



Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

Lido por jm às 23h51 | Comentários (1)

4 de junho 2004

máquinas

— Veja esta fábrica: estamos perante o espanto sobrenatural. Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo.
Se a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Fala-se em máquinas de guerra, mas nenhuma máquina é pacífica, Walser.

Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Lido por dolphin.s às 10h41 | Comentários (2)

30 de maio 2004

A maldade

A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.


Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser


Lido por dolphin.s às 14h48 | Comentários (2)

21 de maio 2004

Desde que haja fé

Desde que haja fé, podemos precipitar um bom cristão ou um judeu piedoso do cimo de qualquer andar da esperança ou do bem-estar que cairá sempre, por assim dizer, sabre os pés da sua alma. Com efeito, todas as religiões haviam previsto, na explicação da vida que ofereçam aos homens, uma parte de irracional, incalculável, a que chamam os desígnios impenetráveis de Deus; se o mortal não conseguia chegar a um cálculo exacto, bastava-lhe recordar esse resto e o seu espírito podia esfregar as mãos de contente. Esta maneira de cair sobre os pés e esfregar as mãos chama-se uma «concepção do mundo»; e isso é uma coisa que o homem contemporâneo já não conhece. Ou então tem de renunciar a toda a reflexão acerca da vida, o que, para muitos, é o suficiente; de contrário cai nessa estranha contradição, que consiste em pensar, sem conseguir nunca uma satisfação completa. No decorrer da História tal contradição assumiu a forma, ora de uma descrença total, ora de uma nova e total submissão à crença. Hoje, na maioria dos casos, ela traduz-se pela ideia de que não poderia existir uma verdadeira vida humana sem a participação do espírito, mas que esta também não poderia subsistir se essa participação se tomasse demasiado activa. Toda a nossa civilização assenta neste princípio. Toma muito a peito subvencionar os estabelecimentos de instrução e de pesquisa, mas tem o cuidado em que essas subvenções não sejam exageradas e mantém uma modéstia decente em relação às somas que despende nos seus prazeres, nos seus automóveis, e nos seus armamentos. Deixa em tudo o caminho livre ao homem capaz, velando, porém, para que essa capacidade seja rendosa. Mediante uma certa resistência, acaba por admitir todas as ideias, no entanto essa resistência aproveita automaticamente, mais tarde, à ideia contrária. Poderíamos ver nisto, da sua parte, uma certa fraqueza, uma monstruosa indolência; trata-se também, sem dúvida, de ura esforço deveras consciente paira fazer compreender ao espírito que este não é tudo. Bastava que se tomasse bem a sério qualquer uma das ideias que influenciam a nossa vida, de modo que não subsistisse absolutamente nada da ideia contrária, para que a nossa civilização deixasse de ser aquilo que é!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 11h39 | Comentários (3)

17 de maio 2004

A vida

Robert MusilA vida é um estado de dureza e infelicidade durante o qual não se deve pensar de mais no dia de amanhã, porque o dia de hoje já é suficientemente difícil. Como pode alguém não perceber que o mundo humano não é uma coisa flutuante, antes tende para uma condenação máxima, porque a menor irregularidade o faz correr o risco de se desmantelar completamente? Mais ainda: como pode um observador deixar de reconhecer que essa mistura de preocupações, de instintos, de ideais que é a vida (a vida, que não utiliza nunca as ideias senão para abusar delas para seu proveito, ou para as transformar em excitantes), actua sobre essas ideias para lhes dar forma e coerência, e que é dela que as ideias recebem o movimento e a sua limitação natural? É certo que é da uva que se extrai o vinho, mas é muito mais bela a vinha, com a sua terra incomestível e as suas filas de cepas, do que jamais será uma dorna de vinho!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h13 | Comentários (12)

12 de maio 2004

Os homens ricos

Os homens ricos consideram a riqueza uma qualidade pessoal. O mesmo se dá com os pobres. Todos estão tacitamente convencidos disso. Apenas a lógica opõe algumas dificuldades a admiti-lo, afirmando que a posse do dinheiro pode, em rigor, obter certas qualidades paira a pessoa, mas nunca tornar-se por si numa qualidade. A mentira salta aos olhos. Não há nenhum nariz humano que não consiga farejar imediatamente, infalivelmente, o subtil perfume de independência, de hábito de comando, de hábito de escolher em toda a parte o que há de melhor, de leve misantropia, de responsabilidade consciente, que se exala de um rendimento sólido e considerável. Apenas pelo aspecto, adivinha-se o rico alimentado e quotidianamente reabastecido por uma selecção das melhores substâncias cósmicas. O dinheiro circula sob a sua pele como a seiva de uma flor; ali não há qualidades emprestadas nem hábitos adquiridos, nada que seja indirecto ou em segunda mão: suprima-se-lhe a conta no banco e o crédito e o homem rico, não só deixa de ter dinheiro, como se transforma numa flor murcha. Tão impressionante como era antes a qualidade de rico, surge agora nele a indescritível qualidade de nulo, com o cheiro a esturro da insegurança, da caducidade, da inactividade e da miséria. A riqueza é pois uma qualidade simples, pessoal, que se não pode analisar sem a destruir.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 11h18 | Comentários (18)

8 de maio 2004

a verdade final

Mas esta guerra, como todas as outras, ainda não é a verdade final do homem, ainda não é um elemento capaz de excluir por completo a possibilidade de mentira; a última guerra, a verdadeira, a que se afastará desta imitação, será aquela em que cada um combaterá todos os outros, em que cada homem será o início e o fim do seu exército; a guerra verdadeira, a guerra exacta, a guerra que demonstrará finalmente o que é um indivíduo, essa guerra, que ainda não veio, que jamais se viu em qualquer ponto, mas que virá, estou certo, essa guerra é aquela onde quaisquer dois corpos que se aproximem o farão por ódio. Toda a aproximação será para matar, ou ainda não estaremos perante verdadeiros Homens.



Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser

Lido por jm às 00h08 | Comentários (2)

7 de maio 2004

períodos em que existe medo

Os períodos em que existe medo são utilizados não apenas para sobreviver: também para as paixões efusivas. Mas se a qualidade de uma geração se mede pela qualidade das frases que quem seduz utiliza, então aquela era, sem dúvida, uma geração medíocre.




Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser

Lido por jm às 12h10 | Comentários (0)

Ministério da Normalidade

Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições acalmavam, só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte. Repetições de actos ou de pequenos gestos, de palavras ou de frases banais — repetições até de actos não visíveis, não registáveis pelos outros, como imagens e memórias do cérebro, tudo isso permitia a cada um sobreviver no meio da confusão, resistir no meio do reino da desordem, no meio daquilo que Klober costumava designar como século da imprevisibilidade, século não apenas contrário mas inimigo da repetição. Este não é um século normal, costumava dizer Klober, mas os homens deste século continuam a ser o que sempre foram. E era esta, a mistura: Homens que repetiam os actos essenciais das gerações anteriores e que eram invadidos — e esta é uma utilização exacta do termo pois descreve o fluxo e a velocidade dos movimentos — eram invadidos, então, ao mesmo tempo, por fenómenos absolutamente novos.



Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser

Lido por jm às 00h09 | Comentários (1)

5 de maio 2004

Teatro do mundo

Robert MusilO sistema actualmente em uso, o sistema da realidade, assemelhar-se-ia a uma peça de mau teatro. Não era por acaso que se falava de «teatro do mundo», porque na vida vamos sempre encontrar os mesmos papéis, as mesmas fábulas e as mesmas peripécias. Ama-se porque o amor existe, amamos segundo as fórmulas existentes; é-se orgulhoso como um índio, como um espanhol ou um leão; assassina-se, até, porque, na maioria dos casos, o assassinato passa por ser trágico e grandioso. Acrescentemos que os mais felizes dos modeladores políticos da realidade, pondo de parte as grandes excepções, têm muito de comum com os autores em voga; as intrigas vivas que eles suscitam aborrecem pela sua falta de inteligência e de novidade mas, por essa mesma razão, lançam-nos num estado de embrutecimento sem defesa dentro do qual tudo aceitamos desde que cheire a novidade. Compreendida deste modo, a História nasce da rotina das ideias, daquilo que nelas existe de mais indiferente; quanto à realidade, ela nasce principalmente do facto de nada fazermos no que respeita às ideias.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 12h08 | Comentários (1)

4 de maio 2004

Os Jornais

Por qualquer imponderável razão, os jornais não são aquilo que deveriam ser para satisfação de todos, ou seja os laboratórios e as estações de ensaio do espírito, mas sim, na maioria das vezes, bolsas e armazéns. Se Platão ainda vivesse (tomemos este exemplo, uma vez que ele, com mais uma dúzia de outros, é considerado dos maiores pensadores) sentir-se-ia sem dúvida encantado com um lugar em que cada dia pudesse ser criada, modificada, afinada, uma ideia nova, em que as informações confluem de todos os cantos da Terra com uma rapidez jamais conhecida e em que um estado-maior completo de demiurgos se encontra a postos para medir no próprio momento a sua consistência espiritual e a sua realidade. Ele teria adivinhado numa redacção de jornal esse topos ouranios, esse lugar celeste das ideias, cuja existência evocou tão intensamente, que ainda hoje todo o homem honesto se sente idealista quando fala aos seus filhos ou aos seus empregados. Se ele voltasse bruscamente à vida nos dias de hoje numa sala de redacção e conseguisse provar que era na verdade Platão, o grande escritor falecido há mais de dois mil anos, causaria, evidentemente, grande sensação e obteria excelentes contratos. Se em seguida se revelasse capaz de escrever no espaço de três semanas um volume de impressões filosóficas de viagem e um ou dois milhares das suas célebres notícias, talvez mesmo de adaptar paira o cinema uma ou outra das suas obras antigas, podemos estar certos de que os seus negócios prosperariam extraordinariamente durante algum tempo. Mas tão depressa passasse a actualidade do seu regresso à vida, se o senhor Platão insistisse em pôr em prática esta ou aquela das suas ideias célebres que nunca conseguiram vingar verdadeiramente, o redactor-chefe pedir-lhe-ia apenas para escrever sobre esse tema um lindo folhetim paira a página recreativa (num tom o mais leve e brilhante possível, num estilo menos complicado, em atenção aos leitores); e o redactor da dita página acrescentaria que, infelizmente, não podia aceitar colaboração daquele tipo mais do que uma vez por mês, visto existir um grande número de outros escritores de talento. Aqueles dois senhores teriam pois a sensação de terem feito muito por um homem que, embora se considerasse o Nestor dos publicistas europeus, nem por isso deixava de estar ultrapassado.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h29 | Comentários (1)

1 de maio 2004

E os Homens, como um todo, são inacessíveis.

E os Homens, como um todo, são inacessíveis. É uma espécie que se prolonga por todos os buracos do mundo, resistindo às temperaturas bruscas, às fortes bombas, à intensidade que o amor coloca em certos momentos em certos corpos; a espécie humana mantém o pescoço alto como um cisne inteligente, olha por cima dos muros; enquanto adolescentes que fingiam dar atenção às notícias sobre o país fingem afinal escorregar com o objectivo pacífico de espreitar por baixo das saias de raparigas que se fingem também distraídas com a pátria, e os seus problemas. Tudo mente.



Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser

Lido por jm às 00h46 | Comentários (4)

29 de abril 2004

Sois a sua coisa

Ser obrigado é ser explorado. Os felizes, os poderosos, aproveitam-se do momento em que estendeis a mão para lhe meterem um soldo, e do momento em que sois cobardes para vos tornarem escravos, e escravos da pior espécie, escravos de uma caridade, escravos forçados a amarem! Que infâmia! Que indelicadeza! Que surpresa para a nossa altivez! E está tudo acabado, aí estais condenados, perpétuamente, a achar bom aquele homem, bela aquela muulher, a ficar no segundo plano subalterno, a aprovar, a aplaudir, a admirar, a incensar, a prostar-vos, a pôr nas vossas rótulas o calo do ajoelhar, a açucarar as palavras, quando estais devorados pela cólera, quando mascais gritos de furor, e quando tendes em vós mais selvagem agitação e mais amarga espuma do que o oceano.
É assim que os ricos fazem prisioneiro o pobre.
Este visco da boa acção cometida para convosco suja-vos e enlameia-vos para sempre.
Uma esmola é irremediável. Reconhecimento é paralisia. O beneficio tem uma aderência viscosa e repugnante que vos tira a liberdade de movimentos. Os odiosos seres opolentos e gordos cuja piedade se abateu sobre vós bem o sabem. Está dito. Sois a sua coisa. Compraram-vos. Por quanto? Por um osso, que tiraram ao seu cão para vos oferecerem. Lançaram-vos este osso à cabeça. É o mesmo. Roestes o osso ou não? Também tivestes uma parte do nicho. Por isso agradecei. Agradecei para sempre. Adorai os vossos senhores. Genuflexão indefinida. O beneficio implica um subentendido de inferioridade aceite por vós. Exigem que vos sintais pobres diabos e que os sintais a eles deuses. A vossa diminuição aumenta-os. A vossa curvatura levanta-os. Têm no som da voz uma doce ponta de impertinência. Os seus acontecimentos de familia, casamentos, baptismos, a fêmea prenhe, os filhos que dá à luz, tudo isso é convosco. Nasce-lhes um lobozinho, bem, tereis de compor um soneto. Sois poetas para serdes chatos. Se não é para fazer cair o céu! Um pouco mais e far-vos-iam usar o seu calçado velho.
De resto se estais doentes, os senhores mandam-vos o médico. Não o seu. Nas ocasiões, informam-se. Não pertencendo à mesma espécia que vós e estando do seu lado o inacessível, são afáveis. O seu alcantilamento torna-os inabordáveis. Sabem que o nivelamento é impossível. À força do desdém, são bem educados. À mesa fazem-vos um pequeno sinal de cabeça. Algumas vezes sabem a ortografia do vosso nome. Só vos fazem sentir que são vossos protectores ao caminharem simplesmente sobre tudo quanto tendes de susceptível e delicado.Tratam-vos com bondade!


Victor Hugo, in O Homem que Ri


para o Simak ;)

Lido por dolphin.s às 10h09 | Comentários (0)

26 de abril 2004

Encontrar um sentido para a acção

A nossa época transporda de energia. Só conseguimos ver actos e nenhum pensamento. Esta energia terrível provém de não termos nada em que nos ocuparmos. Interiormente, quero eu dizer. Mas, afinal, o homem não faz anais do que repetir, durante toda a vida, um só acto: ingressa numa profissão e progride nela. É tão simples ter força para agir e tão difícil encontrar um sentido para a acção! Hoje muito pouca gente compreende isto. Por isso os homens de acção se assemelham a jogadores de berlinde que assumissem as posições de Napoleão para derrubar nove mecos de madeira! Não me admiraria até se acabassem por chegar a vias de facto, unicamente para ver passar por cima das suas cabeças este mistério incompreensível: ou seja que todas as acções do mundo nunca são suficiente!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h37 | Comentários (1)

23 de abril 2004

Segredo de Estado

Para lá dos medicamentos, também a alimentação e muitas outras coisas se tornaram segredo de Estado. Uma das mais fortes objecções contra a democracia, oriunda do tempo em que as classes proprietárias a formulavam, porque receavam ainda, não sem alguma razão, o que uma democracia verdadeira pudesse significar para elas, era a evocação da ignorância da maior parte das pessoas, um obstáculo efectivamente redibitório que impedia conhecerem e conduzirem as coisas que lhes dizem respeito. Hoje em dia, essas classes sentem-se mais descansadas devido às vacinas recentemente descobertas contra a democracia, no fundo pequenas doses residuais com que pretendem tranquilizar-nos: porque as pessoas desconhecem tanto o que lhes é posto no prato como os mistérios da economia, as negociações para a redução de armas estratégicas como as subtis «escolhas entre modelos de sociedade», propostas apenas para que o actual continue e tudo recomece mais uma vez.
Quando o segredo vai ao ponto de poder estar num prato à nossa frente, não é possível acreditar que toda a gente desconheça todas as coisas. Os especialistas, contudo, não querem contribuir, no interior do espectáculo, para fazer circular verdades tão perigosas. Calam-nas. Porque é aí que todos jogam os seus interesses. E o indivíduo real, assim isolado, já não confiando sequer no seu próprio gosto e nas suas próprias experiências, passa a confiar apenas numa farsa socialmente organizada. Essas verdades, poderiam os sindicatos dizê-las? Se o fizessem seriam considerados irresponsáveis - e revolucionários. Os sindicatos defendem, em princípio, os interesses dos assalariados no quadro do próprio salariado. Defendiam, por exemplo, o «direito ao bife». Mas era um bife abstracto (agora defendem, ou melhor, não defendem, uma coisa ainda mais abstracta, o «direito ao trabalho»). Apesar de o bife, nos dias de hoje, ser quase inexistente enquanto realidade concreta, os especialistas não deram, pelo menos oficialmente, pelo seu desaparecimento.
Isto porque o bife que ainda vai conseguindo existir clandestinamente, proveniente de animais criados sem produtos químicos, tem um preço obviamente mais elevado e porque a revelação da sua simples existência abalaria fortemente os alicerces do templo da «política contratual». Na nomenklatura ocidental sabe-se agora muito bem o que acontece para termos de pagar a peso de oiro alimentos saudáveis.


Guy Debord, in Enganar a Fome


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20 de abril 2004

A moral do nosso tempo

A moral do nosso tempo, digam lá o que disserem, é uma moral de produção. Justificam-se bem cinco falências mais ou menos fraudulentas desde que a quinta seja seguida de uma época de prosperidade e de benefícios. O êxito pode fazer com que se esqueça tudo. Quando se atingiu uma situação na qual se podem consentir subvenções e comprar obras de arte, do mesmo modo se consegue a indulgência do Estado. Neste tipo de contralto, existem cláusulas não expressas: quando alguém dá dinheiro em benefício da igreja, das obras ou dos partidos, bastar-lhe-á gastar um décimo, quando muito, do que deveria despender se resolvesse provar a sua boa vontade favorecendo as belas-artes. Além disso, há limites impostos ao êxito: não se pode obter o que quer que seja de qualquer jeito; certos princípios relacionados com a Coroa, a Nobreza e a Sociedade exercem sobre «o homem novo» uma espécie de travão. Por outro lado, na sua qualidade ser suprapessoal, o Estado adopta francamente o princípio de que se pode pilhar, massacrar e enganar se daí advier poder, glória e civilização.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 11h17 | Comentários (2)

19 de abril 2004

Quem sou?

Fernando PessoaDurei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse - de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta - tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio à beira-mar.
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio nocturno à beira-mar!


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

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15 de abril 2004

Vida privada

Clementina e Léon eram vítimas do preconceito segundo o qual dependiam um do outro quanto às suas paixões, aos seus caracteres, aos seus destinos e às suas acções. Na realidade, quase toda a existência é feita naturalmente, não de acções, mas sim de discursos de que assimilamos o ponto de vista, de opiniões e de contra-opiniões correspondentes numa palavra da acumulação impessoal de tudo quanto sabemos ou ouvimos. O destino desses dois esposos dependia quase inteiramente de uma estratificação tenaz, confusa e desordenada dos pensamentos, os quais tinham origem não nas suas opiniões pessoais, mas na opinião pública, e se modificaram ao mesmo tempo que esta sem que eles próprios pudessem defender-se disso. Comparada) a esta espécie de dependência, a sua dependência individual recíproca era uma coisa insignificante, um saldo absurdamente desprezado. Enquanto se persuadiam um ao outro de que tinham uma vida privada, e punham reciprocamente em causa os respectivos caracteres e vontades, a dificuldade sem esperança de tal conflito residia por inteiro na sua irrealidade, dissimulada por eles mesmos sob todas as contrariedades possíveis.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

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14 de abril 2004

Amanhã

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção -isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.
Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

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13 de abril 2004

Aquilo que desejou durante toda a vida

Quem não ficaria embaraçado se de repente acontecesse aquilo que desejou durante toda a vida? Por exemplo, se o reino de Deus se abatesse subitamente sobre os católicos, e o Estado do futuro sobre os socialistas? Mas talvez isso não prove nada; nós habituámo-nos a reivindicar e não podemos ficar de um momento para o outro em estado de realizar; pode ser que muito gente ache isso natural. Prosseguirei pois com as minhas perguntas: não há dúvida de que, para um músico, o essencial é a música e, para um pintor, a pintura; é provável que, para um especialista do betão, o essencial sejam as construções em betão. Acha que, para esse, o bom Deus será um técnico do betão armado e que os dois outros preferem um mundo pintado ou tocado em trompa? Com certeza julga esta pergunta absurda, mas o caso é que, muito a sério, seríamos obrigados a reivindicar coisas absurdas! E, sobretudo, não vá imaginar — prosseguiu ele com gravidade, voltando-se para ela — que cada um prefere o que é dificilmente realizável e despreza o que se pode realmente obter. Não, o que quero dizer é isto: que a realidade guarda em si um desejo absurdo de irrealidade!
Ulrich voltou-se e riu. — Você, minha cara prima, meteu-se numa coisa extremamente perigosa. Os homens sentem-se sempre infinitamente felizes quando os deixam na incapacidade de realizar as suas ideias!
— E que faria você — inquiriu Diotima, irritada — se lhe dessem por um dia o governo do mundo?
— Com certeza só me restaria abolir a realidade!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Lido por dolphin.s às 10h54 | Comentários (0)

12 de abril 2004

Viagem ao Coração dos Pássaros

Viagem ao Coração dos Pássaros, Possidónio CachapaLá fora, os carros continuam a rosnar. Homens e mulheres caminham de cabeça baixa, sem ver que debaixo dos seus pés existe um passeio construído com raciocínio e técnica. Que o homem que colocou aquelas pedras tinha uma família e que enquanto batia com o seu martelo de calceteiro e soltava nuvens esparsas de tabaco barato e pó branco, também ele próprio não tomava consciência dos materiais, ocupado em pensar na noite anterior em que o sexo lhe amolecera precocemente, na vagina da mulher. Não sendo isso a primeira vez e, por isso mesmo, se estava a tornar coisa preocupante; e que essa pedra tinha vindo de longe, de uma pedreira no Norte, situada no meio de um vale, onde um dia se tinham passeado homens a cheirar a bicho e antes deles bichos a cheirar a si próprios, ou, ocasionalmente, ao sangue ou às vísceras dos animais engolidos.
Por baixo das pedras talhadas, existe areia, que veio de um ribeiro que já não corre e por baixo dessa areia, encontra-se terra. Uma terra escura e sufocada pelo peso das coisas que carrega, mas, ainda assim, terra. E, por baixo de si, magma. E do magma não se passa, porque, ou se caminha para uma coisa transcendente, ou se morre tornado em chamas. E as chamas são luz e a luz sendo tanto, não é nada. Sobretudo, quando surge de um encontro, entre duas pessoas, numa casa perdida, de uma freguesia afastada de uma ilha no meio de um mar.

Possidónio Cachapa, in Viagem ao Coração dos Pássaros

Lido por dolphin.s às 11h04 | Comentários (3)

8 de abril 2004

...

Mas a grande pergunta a fazer é, evidentemente:
Quando amamos alguém, ou melhor, nos apaixonamos por alguém, por que é que nos apaixonamos verdadeiramente?
É uma ideia da pessoa amada, ou é a pessoa propriamente?
Talvez só sejamos capazes de viver com as nossas ideias. Talvez sejam sempre as nossas ideias que amamos.


Lars Gustafsson, in A Morte de um Apicultor

Lido por dolphin.s às 10h22 | Comentários (14)

7 de abril 2004

Viver hipoteticamente

Robert MusilDesde a mais tenra juventude, naqueles tempos em que ela começa a tomar consciência de si própria e cujos vestígios mais tarde se recordam comovidamente, ficara-lhe a lembrança de toda a espécie de imaginações que lhe eram caras, entre estas a ideia de «viver hipoteticamente». Estas duas palavras continuavam a evocar agora a coragem e a ignorância voluntária da vida, os tempos em que cada passo representa uma aventura, privada do apoio da experiência, o desejo de grandeza nas relações e esse sopro de revocabilidade que experimenta um jovem hesitante quando entra na vida. Ulrich pensava que não havia realmente nada aqui a aproveitar. O sentimento apaixonante de ser eleito fosse para o que fosse, eis a única coisa certa e bela que se reflecte no olhar daquele que avalia pela primeira vez o mundo. Se este é senhor das suas emoções, nada encontra a que possa dizer sim sem reserva; busca a bem amada possível, mas ignora qual ela é; tem capacidade de matar, sem estar seguro de que o deve fazer. O desejo de evoluir, próprio da sua natureza, impede-o de acreditar no facto realizado, mas tudo quanto vem a conhecer apresenta-se como se fosse já irrevogável. Pressente que esta ordem não é tão estável como parece; nenhum objecto, nenhuma pessoa, nenhum princípio é sólido, tudo está dependente de uma metamorfose invisível, mas nunca interrompida; há mais futuro no instável do que no estável e o presente não passa de uma hipótese que ainda não foi ultrapassada. Que poderia ele fazer de melhor do que conservar a sua liberdade em relação ao mundo, como um sábio que se mantém livre em relação aos factos que poderiam levá-lo a acreditar prematuramente em si? Por isso hesita em ser seja o que for; um carácter, um modo de vida, definido, uma profissão, não passam de representações sob as quais avulta já o esqueleto que será tudo quanto lhe resta no fim. Busca compreender-se por outros meios; com aquele apetite de que é dotado para tudo quanto pode vir a enriquecê-lo interiormente (mesmo para além dos limites da moral e do pensamento), experimenta a impressão de ser um passo, livre de seguir em todas as direcções, mas que vai sempre de um ponto de equilíbrio até ao seguinte, e sempre em frente.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h22 | Comentários (5)

6 de abril 2004

A punição domestica o homem

Friedrich NietzscheDurante milénios, os malfeitores submetidos à punição tiveram dos seus crimes a mesma impressão de que fala Espinosa: «inesperadamente qualquer coisa correu mal», e não «eu não devia ter feito isto»... Submetiam-se à punição como quem aceita uma doença, uma calamidade ou a morte, com o mesmo fatalismo corajoso e destituído de revolta com que, por exemplo, ainda hoje os Russos dispõem da vida, no que se superiorizam a nós, Ocidentais. Naqueles tempos, se existia crítica do acto, era uma crítica exercida por parte da inteligência: não haverá dúvidas de que o verdadeiro efeito da punição tem que ser procurado na agudização da inteligência, no prolongamento da memória, na vontade de agir futuramente com mais cautela, maior secretismo e desconfiança, na compreensão de que há muitas coisas para as quais se é definitivamente demasiado fraco, ou seja, numa espécie de correcção da avaliação que o indivíduo faz das suas capacidades. No geral, quer no homem quer nos animais, o que se alcança com a punição é o aumento do medo, o desenvolvimento da esperteza, o domínio sobre os desejos... Ora, desse modo a punição domestica o homem, mas não o torna «melhor»... Mais razões haveria para afirmar o contrário («aprende-se com os erros», diz o povo; na medida em que se aprende, fica-se também pior..., mas felizmente muitas vezes também se fica mais estúpido).


Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral

Lido por dolphin.s às 10h29 | Comentários (8)

5 de abril 2004

Um mundo onde reina a verdade

Lars GustafssonNo planeta número 3 do Sistema 13, em Aldebaran, existe uma civilização que se relaciona directamente com a realidade, sem símbolos intermediários.
A ideia de que, por exemplo, uma figura desenhada num papel representa alguma coisa mais do que ela própria é totalmente alheia aos miriápodes possuidores de uma força extraordinária que constituem o estádio civilizacional mais elevado do planeta.
A sua força invulgar pouco lhes adianta. Uma vez que o único símbolo de uma coisa que eles conhecem é a própria coisa, têm de transportar constantemente uma enorme quantidade de objectos. Neste planeta a expressão «uma retórica vigorosa» tem um significado real.
Por exemplo, quando se quer dizer «uma pedra aquecida pelo sol», só há uma maneira. É pôr uma pedra aquecida ao sol na mão, ou melhor, na pata daquele com quem se está a falar.
Se se quiser dizer «uma pedra gigantesca no alto de uma montanha», só há uma maneira de proferir essa frase. É carregar com uma pedra gigantesca para o cimo de uma montanha.
Produzir um poema, nestas circunstâncias, é uma prova de força que permanece, em toda a sua heróica evidência, por várias gerações.
A maior parte dos sonetos que esta civilização produziu parecem-se de certo modo com Stonehenge: formidáveis grupos de pedras alinhadas por heróicos antepassados, arquejando e gemendo, com as veias salientes, segundo um esquema ancestral.
Nesta civilização a mentira é, evidentemente, uma total impossibilidade. Se se quer dizer «amo-te» a alguém, só há uma maneira, que é fazê-lo. Se se quer dizer «não te amo», também só há uma maneira, que consiste em evitar fazê-lo. Se se for capaz.
Num mundo em que o símbolo é sempre coincidente com a própria coisa e esta não pode ser substituída por pequenos sons ridículos ou por fieiras de sinaizinhos bizarros desenhados num papel, sinais esses que nada têm a ver seja com o que for para além de uma frágil e transitória convenção, é claro que a verdade e o sentido, a mentira e o absurdo, serão coincidentes.
O único substituto da mentira que existe num mundo como este é, evidentemente, falar de forma tão incompreensível, tão absurda, que ninguém entenda.
A conversação normal, a conversa trivial, neste planeta, consiste em os seus habitantes tirarem de umas bolsas de couro que costumam trazer consigo uma quantidade de objectos muito pequenos, contas de vidro, pedrinhas de diversas cores, pauzinhos muito bem polidos — e trocarem-nos animadamente entre si.
O preço da verdade é elevado.
De todas as civilizações superiores da região dos velhos sóis, no centro da Via Láctea, não há nenhuma que viva tão isolada como esta.
A astronomia, naturalmente, é impossível. Não podemos falar de galáxias se for necessário transportá-las de um lado para o outro para nos referirmos a elas. Aliás, o próprio conceito de «planeta» é impensável.
Estes seres vivem numa planície avermelhada, delimitada por altas montanhas.
E nem para essa planície que, teoricamente, é o mesmo que «o mundo», eles têm um conceito.

(Caderno azul IV: 4)

Lars Gustafsson, in A Morte de um Apicultor

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2 de abril 2004

Trovoada

Este ar baixo e nuvens paradas. O azul do céu estava sujo de branco transparente.
O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel à roda do embrulho eterno...
«Como esta só me lembra de uma», comenta estatisticamente.
Um silêncio frio. Os sons da rua como que foram cortados à faca. Sentiu-se, prolongadamente, como um mal-estar de tudo, um suspender cósmico da respiração. Parara o universo inteiro. Momentos, momentos, momentos. A treva encarvoou-se de silêncio.


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego

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1 de abril 2004

Alma, razão e convicções

Um desses processos (que matam a alma mas que a põem em seguida de conserva para consumo corrente) tem sido desde sempre associá-la à razão, às convicções e à acção prática, tal como o têm feito com certo êxito todas as morais, filosofias e religiões do mundo. Como já dissemos, só Deus sabe o que pode ser uma alma! Não resta qualquer dúvida quanto ao facto de que o desejo ardente de só a ela darmos ouvidos nos deixa completamente livres para agirmos, o que desencadeia uma verdadeira anarquia, e ao longo da História não faltam exemplos em que algumas almas por assim dizer quimicamente puras chegam a cometer verdadeiros crimes. Em contrapartida, sempre que uma alma tem qualquer espécie de moral, de religião ou de filosofia, uma cultura burguesa profunda e certo número de ideais no domínio do dever e do belo, ela recebe em recompensa um sistema completo de prescrições, de condições, de regulamentos a que tem de se submeter mesmo antes de lhe ser possível aspirar a tornar-se uma alma superior; e o seu entusiasmo, como o ímpeto ardente de um alto-forno, acaba por se canalizar através de belos moldes de areia. No fundo, apenas restam alguns problemas de interpretação lógica, como o de se saber se um acto está ou não de acordo com este ou aquele mandamento; a alma apresenta o carácter serenamente panorâmico de um campo de batalha após o combate; os mortos conservam-se tranquilos, de forma que é possível observar imediatamente onde continua a palpitar um resto de vida, ou um gemido. Eis por que motivo o homem realiza esta transição o mais depressa possível. Quando o atormenta alguma dúvida acerca da sua fé, como por vezes acontece durante a juventude, ele passa imediatamente a perseguir os incrédulos; quando o amor o incomoda, ele transforma-o em casamento; e quando qualquer outro entusiasmo se apodera de si, furta-se à impossibilidade de viver durante muito tempo no íntimo do fogo que o consome, principiando a viver para esse mesmo fogo. Significa isto que ele preenche os numerosos instantes do seu dia, cada um deles necessitando de um conteúdo e de um impulso, não já com o seu próprio estado ideal, mas sim com a actividade que lhe possibilitará conquistar esse mesmo estado, ou, por outras palavras, mediante diversos meios, obstáculos e incidentes que lhe garantam que ele jamais necessitará de atingir o seu objectivo.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


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31 de março 2004

Agente de Seguros em sua Apólice

Extraiam as miudezas ao vosso agente e, se for necessário, façam-lhe um pequeno corte debaixo da cabeça para que não fique nada lá dentro. Limpem-no bem, esfreguem-no suavemente a fim de lhe poupar a pele, lavem-no até estar apresentável. Em seguida, ponham-no a cozer a lume brando. Se o agente for gordo, são precisas quatro horas de cozedura; se não, três horas chegam.
Para servir, disponham uma apólice de seguros sobre uma travessa comprida, enfeitem com moedas, cartões de identidade, flores, e acompanhem o agente com um longo assobio de admiração, que não lhe aquece nem arrefece, mas que vos fará sentir bem.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor

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30 de março 2004

Alma

Robert MusilQuer se fique imóvel ou se prefira caminhar, o essencial não é aquilo que temos na mossa frente, aquilo que vemos, ouvimos, queremos ou dominamos. Na nossa frente está um horizonte, um semicírculo; mas há uma corda que une as duas extremidades desse semicírculo e o plano dessa corda atravessa o mundo ao meio. Em nós, o rosto e as mãos apontam pana fora desse plano; as sensações e as aspirações vêm até nós através dele; e ninguém duvida de que aquilo que se faz nesse espaço seja sempre razoável ou pelo menos apaixonado; isso significa que as circunstâncias exteriores possuem uma maneira de condicionar as nossas acções que todos podem compreender; e mesmo quando, inspirados pela paixão, fazemos qualquer coisa de incompreensível, esse incompreensível possui ainda assim, ao cabo e ao resto, a sua característica. Mas, por muito compreensíveis e completas que nos pareçam todas as coisas, nem por isso deixa de subsistir em nós o sentimento de que nelas apenas existe uma semiplenitude, uma semicompreensão. O equilíbrio não é completo e o homem avança para não vacilar, como um dançarino sobre a corda-bamba. Como ele avança através da vida e deixa atrás de si o que foi vivido, isto e o que está por viver formam uma espécie de divisória e o caminhar do homem acaba por se assemelhar ao do caruncho na madeira: pode andar às voltas dentro dela, mas deixa sempre atrás de si um espaço vazio. É graças a esse sentimento terrível de um espaço cego e amputado atrás de todo o espaço cheio, a essa metade que permanentemente nos falta, mesmo quando alguma coisa forma um todo, que acabamos por nos dar conta daquilo a que se chama alma.

De resto, nós sentimo-la, pensamo-la, adivinhamo-la sempre sob a forma dos sucedâneos mais diversos e cada um de acordo com o seu temperamento. Na juventude ela corresponde a um sentimento muito nítido de incerteza em tudo aquilo que fazemos: seria aquilo que deveríamos fazer? Na velhice é o espanto de não termos feito mais coisas entre aquilo que nos propúnhamos fazer. Na meia-idade é o sentimento de sermos um tipo formidável, um tipo fantástico, ou simplesmente «um tipo», mesmo que nem sempre encontremos naquilo que fazemos só coisas justificáveis; ou então achamos que o mundo não é aquilo que deveria ser, de modo que, ao cabo e ao resto, tudo quanto não conseguimos fazer resume-se ainda num compromisso satisfatório; sem contarmos que muita gente imagina ainda, acima de todas as coisas, a existência de um Deus que guarda no bolso o bocado que faltava.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

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29 de março 2004

tempestade...

O tempo amainou. A tempestade passou. Já não sopra o vento. Ou talvez eu tenha aprendido a deslocar-me à velocidade do vento e por isso já não o sinta.


Lars Gustafsson, in A Morte de um Apicultor

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26 de março 2004

Imunização contra todos os prazeres

Assim, todos os prazeres dantes qualificados como «simples» tornam-se, por via do seu próprio desaparecimento, objecto de uma sábia museografía. A arquitectura moderna, por seu lado, também já suprimira, na vasta esfera de acção que é a sua, uma boa parte desses prazeres. E o certo é que, uma vez o prazer incluído na fruição espectacular, pode dizer-se que os consumidores são felizes se conhecerem as imagens do que perderam. A tão perigosa dialéctica, contudo, seguirá por outro caminho. Porque está bem à vista que tudo pode ser decomposto através das dominações sobre este mundo. Mesmo que a crítica possa ser indulgente em relação à sua gestão, todos os resultados a destroem. É a síndrome da doença fatal dos finais do século XX: a sociedade de classes e de especializações adquire, por via de um esforço constante e omnipresente, uma imunização contra todos os prazeres. Mas a derrocada das defesas imunitárias face aos venenos que ela própria produz será ainda mais total.


Guy Debord, in Enganar a Fome


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25 de março 2004

Concepção do mundo

A nossa concepção do mundo que nos rodeia, tal como a que temos de nós próprios, muda em cada dia que passa. Vivemos numa época de transição. Ela irá prolongar-se se não enfrentarmos, mais corajosamente do que até agora fizemos, as nossas tarefas essenciais, até ao fim do planeta. Contudo, quando se é relegado para a obscuridade, não podemos cantar com medo como fazem as crianças. Fingir que sabemos como deve ser o nosso comportamento aqui, é nada mais nada menos do que medo: rugidos que fazem tremer os alicerces do mundo, são apenas medo! Além disso galopamos, estou plenamente convencido disso! Estamos ainda muito longe dos objectivos, não nos aproximamos deles, nem sequer os avistamos, havemos de enganar-nos ainda muitas vezes no caminho, teremos muitas vezes ainda que mudar de cavalos; mas qualquer dia, depois de amanhã ou daqui a dois mil anos, o horizonte começará a deslizar e precipitar-se-á sobre nós, mugindo! O crepúsculo cairá.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h31 | Comentários (2)

24 de março 2004

Eco e abismo

Fernando PessoaCriei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio - uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar - todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada impressão indefinida.
Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 10h26 | Comentários (6)

23 de março 2004

Países ricos?

Os especialistas da fome no mundo (há muitos e trabalham em conjunto com outros especialistas empenhados em fazer-nos acreditar que vivemos num reino de abundantes delícias, embora nenhuma «grande farra» se vislumbre...) vêm comunicar-nos os seus cálculos: o planeta será capaz de produzir a quantidade suficiente de cereais para que ninguém passe fome, mas o que é perturbante nessa visão idílica é o facto dos «países ricos» consumirem abusivamente metade dos cereais, só para alimentação do seu gado. Mas quando se conhece o gosto desastroso da carne que nos chega dos matadouros, proveniente de engorda acelerada à base de cereais, poderá falar-se de «países ricos»? Certamente que não. Não é para nos fazer viver no sibaritismo que uma parte do planeta tem de morrer à fome: é para nos fazer viver na lama. O eleitor, contudo, adora ser lisonjeado quando lhe lembram que o seu coração pode estar a ficar um pouco insensível - ele a viver tão bem enquanto outros países contribuem, à custa dos cadáveres dos filhos, stricto sensu, para que vá engordando. O que agrada ao eleitor, neste discurso, é ouvir dizer que vive como um rico. Sente-se bem a acreditar nisso.


Guy Debord, in Enganar a Fome


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22 de março 2004

A ordem estabelecida

No fundo, poucos existem que ainda saibam, no meio da sua vida, a forma como puderam chegar a ser aquilo que hoje são, às suas distracções, à sua concepção do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas pressentem que pouco ou nada podem alterar isso. É até legítimo afirmar-se que eles foram enganados, pois nunca conseguimos descobrir uma razão suficiente para que as coisas se tenham tomado aquilo que são; teria sido perfeitamente possível encaminharem-se de outra forma; os acontecimentos só raras vezes foram a emanação dos homens, eles dependeram quase sempre de todas as espécies de circunstâncias, da disposição, da vida e da morte de outros homens, e apenas lhes caíram em cima em determinado instante. Durante a juventude, a vida deparava-se-lhes ainda como uma manhã inesgotável, repleta de possibilidades e de vazio, mas eis que ao meio-dia já algo surge diante de mós, algo que tem o direito de ser, a partir daí, a nossa vida, e causa também muita surpresa que no dia em que um homem está de súbito ali sentado, com quem nos correspondemos durante vinte anos sem o compreendermos nos surja tão diferente daquilo que imaginamos. Mas ainda o mais estranho é que a maioria dos homens não se aperceba disso; adoptam o homem que se aproximou deles, cuja vida se aclimatou nele, os acontecimentos da sua vida afiguram-se-lhes a partir daí expressão das suas qualidades, o seu destino é o seu mérito ou a sua pouca sorte. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com a fita mata-moscas: algo se colou a eles, apanhando aqui um pêlo, entravando-lhes além os movimentos, qualquer coisa os manietou, até que ficaram sepultados sob uma espessa cobertura que só muito remotamente corresponde à sua forma primitiva. A partir daí só muito obscuramente é que pensam nessa juventude em que neles existia uma força de resistência: essa outra força que sacode e sopra, que nunca está quieta e desperta uma avalancha de tentativas de fuga sem qualquer espécie de objectivos; o espírito trocista da juventude, o seu repúdio da ordem estabelecida, a sua disponibilidade perante qualquer espécie de heroísmo, tanto para o sacrifício como para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância, tudo isso não passa de tentativas de fuga.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


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18 de março 2004

A beleza de todas as coisas

Reparava mais uma vez na grande beleza de todas as coisas; porém assaltava-o claramente, nesse desejo em ebulição, o doloroso pressentimento de um cativeiro; inquietante sensação de que todo quanto julgamos atingir nos atinge a nós; a tenebrosa suspeita de que as afirmações falsas, feitas no ar, sem qualquer espécie de importância pessoal, acordarão sempre neste mundo um eco mais poderoso do que as mais verdadeiras e as mais singulares. Esta beleza (dizia então consigo), perfeita! Mas tratar-se-á realmente da minha beleza? E a verdade que me ensinam será a minha verdade? Os objectos, as vozes, a realidade, todas essas coisas sedutoras que nos atoem e nos guiam, que perseguimos e sobre as quais nos precipitamos... será isso no entanto a realidade autêntica, ou apenas se tratará de um sopro imponderável pairando acima da realidade proposta? O que mais excita a desconfiança) são as divisões e as formas convencionais da vida: a história, sempre a mesma, as coisas, já prefiguradas pelas gerações precedentes, a linguagem convencional, não apenas os nossos lábios, mas também as nossas sensações e sentimentos. Ulrich detivera-se diante de uma igreja. Meu Deus! se acaso uma gigantesca matrona ali estivesse sentada à sombra, com uma enorme barriga cheia de refegos, encostada às paredes das casas e muito lá em cima, o pôr do Sol lhe iluminasse o rosto cheio de rugas, de borbulhas e de verrugas... não teria ele exclamado na mesma? Meu Deus! que belo! Ninguém se quer furtar ao facto de que viemos ao mundo com o dever de admirar isto; mas, como acabámos de dizer, não seria impossível igualmente acharmos belas, numa respeitável matrona, as formas amplas, suavemente descaídas, e a filigrana das soas rugas; só que é muito mais simples dizer-se que ela é velha. Esta transição do momento em que achamos as coisas do mundo envelhecidas para aquele em que as consideramos belas é mais ou menos semelhante à que nos conduz desde as concepções dos jovens até à moral mais elevada do adulto, a qual continua a ser um ridículo bê-á-bá até ao dia em que, bruscamente, a fazemos nossa.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Lido por dolphin.s às 10h36 | Comentários (3)

17 de março 2004

Ilícito toleravel

O que há de nocivo no que se come para enganar a fome não se limita a tudo o que isso suprime, alastra também a tudo o que transporta consigo apenas pelo simples facto de existir, segundo um esquema que se aplica a cada nova produção do velho mundo. Os alimentos, que perderam todo o seu gosto, acabam por ser apresentados como higiénicos, dietéticos e saudáveis, por oposição às arriscadas aventuras das formas pré-científicas de alimentação. Mas é uma mentira cínica. Não só contêm inacreditáveis doses de veneno, de que é triste e célebre exemplo o caso da Union Carbide, empresa que fabricava os mais potentes produtos para aplicação na agricultura, como favorece toda a espécie de carências cujos efeitos, na saúde pública, só é possível medir após o mal feito: como dizia certo médico, dando ao óbvio eufemismo um sentido mais científico, «parece que a intensificação da produtividade agrícola se faz sem haver preocupação suficiente com uma ideia de qualidade que considere os oligo-elementos como factor importante». (H. Picard, Utilisation Thérapeu-tique dês Oligo-éléments) Na verdade, dá-se a incrível situação de o lícito ser acompanhado, na feitura dos alimentos, por um ilícito toleravel e por outro menos tolerável, que vai continuando a existir (doses de hormonas acima do permitido na carne de vitela, anti-gel no vinho, etc.). Sabe-se que o cancro mais frequente nos Estados Unidos não é o que consome os pulmões poluídos do fumador ou do habitante de cidades ainda mais poluídas mas o que corrói as tripas de um presidente como Reagan e de outros alarves como ele.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Lido por dolphin.s às 10h18 | Comentários (3)

16 de março 2004

Um homem que pensa

Robert MusilInfelizmente não há nada mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor, a quem perguntaram como conseguia ter tantas ideias novas, respondeu: «pensando constantemente nelas». Com efeito, bem podemos dizer que as ideias inesperadas só nos vêm porque já estávamos à espera delas. São, em grande parte, o merecido fruto de um carácter, de certas inclinações estáveis, de uma ambição tenaz, de uma incansável actividade. Como é que uma tal perseverança pode deixar de ser enfadonha? Vista por outro prisma, a solução de um problema intelectual é mais ou menos semelhante ao que acontece quando um cão pretende passar por uma abertura estreita levando um pau na boca; volta a cabeça para a direita e para a esquerda até que o pau passa de lado; nós fazemos precisamente o mesmo, só com a diferença que não tentamos ao acaso, antes sabemos mais ou menos, por uma questão de hábito, como havemos de manobrar. E muito embora seja natural que uma cabeça bem recheada tenha mais habilidade e experiência parai se mover do que uma cabeça vazia, nem por isso ela fica menos surpreendida quando consegue deslizar através da abertura; a coisa passa-se com rapidez e notamos nitidamente dentro de nós um certo espanto ao verificarmos que os pensamentos, em lugar de esperarem pelo seu autor, se fizeram sozinhos. A este sentimento de leve espanto, muita gente hoje em, dia deu o nome de «intuição», depois lhe haverem chamado «inspiração», e julgam ver aí algo de superpessoal, quando Se trata simplesmente de qualquer coisa de impessoal, ou seja a afinidade e a homogeneidade das próprias coisas que se encontram dentro de um cérebro.

Quanto melhor é esse cérebro menos visíveis são os seus actos. Por isso é que o acto de pensar, enquanto se prolonga, é um estado lamentável, uma espécie de cólica de todas as circunvoluções do cérebro; mas quando termina já perdeu a forma do pensar sob a qual viveu, para assumir a da coisa pensada; e essa forma é, lamentamos dizê-lo, impessoal, porque o pensamento entretanto voltou-se, para o exterior destinando-se à comunicação. Quando um homem pensa, torna-se por assim dizer impossível isolar o momento em que ele passa do pessoal para o impessoal e é exactamente por isso que os pensadores causam tantas dores de cabeça aos escritores que estes preferem evitar tal espécie de personagens.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h26 | Comentários (24)

15 de março 2004

Inconfortáveis

Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... É cedo ainda. Mas passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 10h06 | Comentários (14)

12 de março 2004

Somos água

Se analisarmos o nosso corpo só encontramos água e umas dezenas de de matérias que nela flutuam. A água sobe em nós exactamente como nas árvores. As criaturas animais, tal como as nuvens, são formadas de água. Acho isto um encanto. Portanto não sabemos muito bem o que havemos de pensar de nós. Nem aquilo que devemos fazer.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Lido por dolphin.s às 10h07 | Comentários (4)

9 de março 2004

A Estupidez

Robert MusilSe a estupidez, com efeito vista por dentro, não se confundisse com o talento, se, vista por fora, não tivesse todas as aparências do progresso, do génio, da esperança, ninguém desejaria ser estúpido e não existiria a estupidez. Pelo menos seria muito fácil combatê-la. O pior é que ela tem qualquer coisa de extraordinariamente natural e convincente. Por isso, quanto alguém considera um cromo mais artístico do que um quadro a óleo, este juízo comporta uma parte de verdade muito mais simples de demonstrar que o génio de Van Gogh. Da mesma forma se torna muito mais fácil e rentável ser-se um dramaturgo muito mais poderoso do que Shakespeare, um romancista mais igual do que Goethe; um bom lugar-comum é sempre mais humano que uma nova descoberta. Não surge um único pensamento importante do qual a estupidez não saiba imediatamente aproveitar-se, ela pode mover-se em qualquer direcção e assumir todos os trajes da verdade. A verdade, essa só tem um traje, um só caminho, por isso fica sempre de pior partido.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Lido por dolphin.s às 10h07 | Comentários (14)

3 de março 2004

Sonhadores

Fernando PessoaUma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável.

Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e activos na vida sorriem dos poetas e dos artistas. Nem sempre o fazem, como crêem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. Mas é sempre como quem acarinha uma criança, alguém alheio à certeza e à exactidão da vida.
Isto irritava-me antigamente, porque supunha, como os ingénuos, e eu era ingénuo, que esse sorriso dado às preocupações de sonhar e dizer era um eflúvio de uma sensação íntima de superioridade. É somente um estalido de diferença. E se antigamente eu considerava esse sorriso como um insulto, porque implicasse uma superioridade, hoje considero-o como uma dúvida inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas crianças uma agudeza de espírito superior à própria, assim nos reconhecem, a nós que sonhamos e o dizemos, uma qualquer coisa diferente de que eles desconfiam como estranha. Quero crer que, muitas vezes os mais inteligentes deles entrevejam a nossa superioridade; e então sorriem superiormente, para esconder que a entrevêem.
Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção.
Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o roamance antes que ele lhes seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajes da corte para escrever bem em segredo.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

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2 de março 2004

Sentirmo-nos justificados por existirmos

Jean-Paul SartreDesejamos que o ser amado nos ame para o podermos preencher com a nossa existência. Mas essa generosidade é interesseira: essa existência que a partir de agora sentimos ser invocada perde aos nossos olhos a sua facticidade, pretendemos motivar-nos, nós próprios e livremente, à existência, para satisfazer o desejo de uma consciência livre. Estas queridas veias nas nossas mãos, é por bondade que elas existem. Como somos bons por termos olhos, cabelos, sobrancelhas e os prodigalizarmos incansavelmente num excesso de generosidade a esse desejo incansável de outrem. Enquanto, antes de sermos amados nos preocupávamos com essa protuberância injustificada que era a nossa existência, que se desenvolvia em todas as direcções, eis que agora essa própria existência é retomada e desejada nos seus múltiplos pormenores por uma liberdade análoga à nossa — uma liberdade que nós próprios queremos juntamente com a nossa. É essa a essência da felicidade amorosa: sentirmo-nos justificados por existirmos. No fundo, não o estamos de forma nenhuma, apenas perdemos a nossa solidão, o ser que nos ama absorve-nos nele e nós escondemos a cabeça no seu peito, como o avestruz esconde a sua debaixo da terra. Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável. Nenhum amor pode justificar a nossa existência. Na realidade, é essa inautenticidade que eu censuro nas pessoas que tratam de ser amadas mas não amam. Ora, justamente, fui muitas vezes uma dessas pessoas. O que geralmente me atraía mais numa aventura era a necessidade de me revelar «necessário» a uma consciência, à maneira de uma obra de arte. Como um maná que se tivesse produzido por si próprio para a satisfazer. Mas devo dizer que quando se ama também, seja qual for o amor que o ser amado nos testemunhe, sai-se da solidão.


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra

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1 de março 2004

A História foi, mas já não é

A burguesia já o tinha dito há muito: «A História foi, mas já não é.» (Marx) A partir do momento em que burocratiza o seu domínio, acrescenta mais isto: «O gosto foi, mas já não é.» E nunca mais deverá voltar a haver a possibilidade de uma história individual através da qual se descobriam e formavam os gostos. É-se obrigado a aceitar tudo o que é colocado, sem distinção, perante os nossos olhos, sem que seja possível fazer comparações que estabeleçam um qualquer critério de gosto. Passam só a valer as proclamações de especialistas que, por exemplo, nos mostram o radioso futuro do legume irradiado e asseguram mesmo que «os legumes nunca foram tão bons». (L'Express, 6-12 de Setembro de 1985) Neste novo «look» da sociedade do espectáculo, cada «look» individual, por mais diversificado que se apresente, acaba sempre recuperado por ela; porque é ela que detém todas as fontes. E assim esta «mistela de carne», que é aquilo com que o assalariado pobre engana a fome, e que ele ingere de pé, num cenário de quiosques de gare, pode até afirmar-se sinal de um modernismo de ponta, mais escolhido do que suportado, por parte dos que comem McDonald's e pensam Actuel.


Guy Debord, in Enganar a Fome


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27 de fevereiro 2004

Autenticidade

Jean-Paul SartreA autenticidade adquire-se em bloco, é-se ou não se é autêntico. Mas isso não significa de modo nenhum que se adquira a autenticidade de uma vez para sempre. Já afirmei que o presente nada pode sobre o futuro, nem o passado sobre o presente. Segundo Gide, em moral, tal como no romance, não se «tira proveito do impulso adquirido». E a autenticidade do impulso anterior em nada nos protege contra um queda no inautêntico, no instante seguinte. Quando muito, poderemos dizer que é mais fácil conservar a autenticidade do que adquiri-la. Mas, na verdade, poderemos mesmo falar de «conservar». O instante que está para vir é novo, a situação é nova; é necessário inventar uma autenticidade nova. De qualquer forma, dir-se-á, a recordação do autêntico deve proteger-nos um pouco da inautenticidade.
Isto leva-me a precisar também aquilo que disse sobre o desejo de autenticidade. No inautentico, podemos ter um certo desejo de autenticidade. É costume considerar que esse desejo de autenticidade é «apesar de tudo qualquer coisa. É melhor do que nada». Assim se restabelece, lentamente e por caminhos ínvios, a continuidade que à partida fora posta de lado. Distinguiremos então os inautênticos atolados na sua inautenticidade, depois daqueles que nesse atoleiro são atormentados por um desejo já meritório, e por fim aqueles que participam no autêntico. É preciso dizê-lo; da duas uma: ou o desejo do autêntico nos atormenta no seio da inautenticidade - e nesse caso ele próprio é inautêntico - ou então ele é já a autenticidade toda inteira, mas que se ignora, que ainda não está recenseada. (...)
A autenticidade adquirida através de uma transformação livre manifesta-se primeiro sob a forma de uma desejo de autenticidade. Este não faz então mais do que exprimir que a causa está ganha. (...)
O desejo de adquirir a autenticidade não é afinal senão um desejo de compreendê-la melhor e não a perder.


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra


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26 de fevereiro 2004

O que é ser-se estrangeiro?

Jorge Fallorca, Al Khaïma— Pois bem, começo pelo que, talvez por ser tão evidente, me parece que nunca ninguém reparou, ou quis reparar. A primeira, foi a mania da vanguarda, um mito provinciano de que padecem os espíritos tíbios ansiosos por protagonismo. Assim, ainda as pátrias ibéricas estavam longe de se encontrarem definidas, e resolvemos desatar a berrar por independência, inaugurando uma avalanche de movimentos de autonomia, libertários, emancipadores, chame-lhes como quiser, que culminou com a suposta independência de um país que se encontra num estado, desculpe-me a expressão, que até para cagar tem de pedir licença ao vizinho, para lhe fornecer o papel higiénico, não é verdade? Depois, como se um azar já não bastasse, decidimos lançar-nos na empresa épica — é assim que os compêndios continuam a referi-los, não é? —, dos descobrimentos. Não conseguimos roubar um terço do que roubaram todos os outros que se nos seguiram, como pretende o nosso ego de candeia que julgava que ia na frente, e quando chegou a hora, tardia, tardia, como sabe, de darmos às de vila diogo, fomos acusados de roubar o triplo, de chacinas que transformaram todas as outras em simples acidentes de um percurso corrigido a tempo. Antes de sermos devolvidos à procedência donde — na minha modesta opinião — nunca deveríamos ter saído, depois de Ksar-El-Kebir, quando nos foi dada uma última oportunidade de voltarmos a integrar o conjunto das pátrias ibéricas de que fazemos parte, não parámos enquanto não nos encontrássemos outra vez orgulhosamente sós, e a levar porrada de toda a comunidade civilizada. É assim que se diz não é, civilizada? Coisa estranha, num país que se habituou a não fazer nada e a dar cabo de tudo o que por artes mágicas ainda lhe vão dando, e que passa a vida a choramingar baba e ranho por investimento estrangeiro — pudera, que outro poderia ele pedir se tudo aquilo em que alguma vez investiu só deu merda? —, sem no entanto ter a coragem e a honestidade de dizer: bom, estrangeiro, mas não castelhano. Esquisito, não acha? Ou será que afinal, bem, bem lá no fundo, não os consideram estrangeiros? Ou será tão grande a demência, o ódio, que nem estrangeiros os consideram? Deixo-lhe a si a resposta... E já agora, o amigo, insisto, que estou certo que é uma pessoa inteligente e culta, se for capaz, agradeço-lhe que me explique o que é ser-se estrangeiro.


Jorge Fallorca, in Al Khaïma

Lido por dolphin.s às 10h12 | Comentários (14)

20 de fevereiro 2004

O guerreiro

Belo prefácio de Giono nos Carnets de Moleskine.
«Quando não se tem coragem suficiente para se ser pacifista é-se guerreiro. O pacifista está sempre só.
O guerreiro tem a certeza de estar de acordo com a maioria. Se é uma questão de maioria, pode estar tranquilo, faz parte dela... Se tem necessidade de grandeza, como toda a gente, é no trivial que lhe é reconhecida uma grandeza 'à sua medida'. Tudo está preparado para ele à partida. Se um homem teme ser um dia obrigado a ultrapassar o homem, que deixe de temer e que se torne guerreiro, ou, mais simplesmente ainda, que não se preocupe, que se deixe conduzir, pois colocá-lo-ão no serviço de guerreiros... todo o jogo da guerra se apoia na fraqueza do guerreiro... O simples soldado: nem bom nem mau, alistado nela porque não é contra. Sofrerá, com toda a normalidade, a sorte dos guerreiros até ao dia em que, como o herói de Faulkner, descobrir que 'qualquer pessoa pode cair inadvertidamente, cegamente, no herísmo, como se cai numa abertura de esgoto, escancarada no meio do passeio'... É absurdo sustentar que um exército, constituido por milhões de homens, é a personificação da coragem: é a conclusão da facilidade.»


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra

Lido por dolphin.s às 14h33 | Comentários (5)

18 de fevereiro 2004

A nossa condição

Somos homens, não somos deuses nem pedras. Se a grandeza que nos coube foi essa ao menos de saber, conquistemo-la até onde, nos limites das evidências primeiras, ela se nos anuncia. E se o «absurdo» é a face desses limites, assumamo-lo como quem não rejeita nada do que é ainda nós próprios. A cobardia não está em assumir esses limites, mas em recusá-los, como o não está em reconhecer uma doença, mas em não fitá-la de frente. Só se é justo, corajoso, pela assunção consciente do que nos ameaça e por isso o bruto não é heróico. O «para quê» que nos antepõem todos os homens sensatos implica um programa utilitário de todo o instinto prático e animal. Mas nós, contra tudo o que povoa a terra, temos o fulminante poder de sabermos quem somos. É aí que cabe a nossa condição, é aí que cabe a nossa interrogação, fascinante e sem limite.

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 11h11 | Comentários (9)

17 de fevereiro 2004

Tempo conquistado para não viver

Antigamente, quando os meses se contavam à semana, havia um tempo para cada coisa: hoje, falta-nos ao mesmo tempo a realidade do tempo e das coisas. E os sentidos mais directamente práticos são os mais sacrificados: o sabor, o cheiro e o tacto são abolidos em benefício de engodos que traem constantemente a vista e o ouvido. Sendo a utilização de certos sentidos tão maltratada (o melhor, quando se vive numa grande cidade, é mesmo perder o sentido do cheiro...) e a dos restantes sentidos igualmente adulterada, assiste-se a um recuo geral da sensualidade, que acompanha o inusitado recuo da lucidez intelectual; o qual começa logo nos primeiros tempos de vida, com a perda da leitura e da maior parte do vocabulário. Para o eleitor que tem carro e vê televisão, o gosto, seja ele qual for, já não tem a menor importância: é por isso que o podem mandar comer Findus ou votar Fabius, tragar Fabius ou eleger Findus. Na verdade, as suas importantes actividades, a sua passividade cada vez maior, não lhe deixam tempo para adquirir e desenvolver os gostos que nem sequer a própria produção mercantil consegue satisfazer em tempo oportuno: esta maravilhosa adequação entre a ausência do uso e o uso da ausência define bem a actual perda de qualquer critério de valor. E assim voltamos à mais significativa questão do tempo, deste nosso tempo que está em todo o lado e é conquistado para não viver.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Lido por dolphin.s às 11h34 | Comentários (20)

12 de fevereiro 2004

Autenticidade

Jean-Paul SartreA autenticidade exige que se aceite sofrer, por fidelidade a si próprio, por fidelidade ao mundo. Porque nós somos livres-para-sofrer e livres-para-não-sofrer. Somos responsáveis pela forma e pela intensidade dos nossos sofrimentos. É muito fácil perder a cabeça, muito fácil também ser estóico. Mas nestes últimos tempos sinto que é quase impossível aguentar a autenticidade. Compreendo agora o discurso de um personagem de Stevenson que afirma ser um especialista do medo, porque o medo é a emoção mais intensa, mais intensa do que o amor. Melhor seria dizer: a mais autêntica.


Jean Paul Sartre, in Cadernos de Guerra

Lido por dolphin.s às 12h06 | Comentários (10)

11 de fevereiro 2004

Eu quem sou?

Fernando PessoaQuando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre orfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego


Lido por dolphin.s às 10h45 | Comentários (15)

10 de fevereiro 2004

A Solidão Final

Vergílio FerreiraDepois de todas as negações, depois da falência de todas as formas de uma pacificação, o homem descobre enfim que está só. Todos os brinquedos da nossa infância milenar jazem por terra com as tripas mecânicas de fora, e depois do prazer com que os desventrámos, olhamos, aterrados, por não termos mais brinquedos para desventrar... As horas ressoam no céu deserto onde só o silêncio responde ao nosso pobre pavor.

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 10h42 | Comentários (33)

9 de fevereiro 2004

Vidas falhadas

Jean-Paul SartreMistler vem procurar-me. «Queria fazer-te uma pergunta sobre os soldados-pais.» — «Diz lá.» — «Reparei, como tu, que todos eles afirmam sentir mais falta dos filhos do que das mulheres. Porque será?» — «Para disfarçarem o fracasso da sua vida conjugal. A partir da declaração de guerra, podem colocar um traço sob a sua vida passada e fazer o balanço final. Está tudo morto, pode fazer-se um exame e dizer-se: qual foi o meu mérito? Bom, as suas relações com as respectivas mulheres surgem-lhes tal como elas são: medíocres e falhadas. Então eles afastam-se delas e entretêm-se a pensar nos filhos. O filho ainda não é nada, não há um balanço a fazer. Pelo contrário, ele é o futuro. O futuro deles, bem como o seu: é o pós-guerra, um pós-guerra que é o seu, visto que eles fizeram o filho. É uma maneira de pensar: a minha vida ainda não está acabada, o balanço ainda não está feito, há uma prorrogação. O filho é a única prorrogação dessa vida morta.» — «Mas», diz Mistler, «não haverá cataclismos individuais em plena paz que possam induzir um indivíduo a pensar dessa maneira?» — «talvez, mas nesse caso é diferente. Em tempo de paz há um sistema individual, a vida de um homem e as suas coordenadas: a época. O sistema individual pode variar, mas as coordenadas permanecem fixas. Ele varia em relação às coordenadas. Portanto, não há nunca essa paragem total da vida. Pelo contrário, logo que surge a guerra, faz-se o traço, não é apenas o sistema individual que pára e estagna, são também as coordenadas. Tudo cai no passado, pode-se analisar a vida, a época e a vida, pois esta é construída com materiais fornecidos pela época. Seria a altura ideal de serem livres, mas eles não querem. Evitam a liberdade total em relação a essa vida falhada através do amor paternal.»


Jean Paul Sartre, in Cadernos de Guerra


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6 de fevereiro 2004

Destruir, Construir

Vergílio FerreiraSim: gritar, protestar é bom. Destruir a evidência de um erro é sentir a utilidade das mãos que destroem, é exaltar as forças do espírito na maravilha indizível da descoberta - desde criança o sabemos; por isso os brinquedos que nos davam só eram bem nossos, só nós éramos bem nós em face deles, depois de lhes tentarmos o segredo pela destruição... As pessoas sensatas, essas que sabiam não haver senão morte para lá da beleza aparente, aconselhavam-nos a sua sensatez. Mas nós tínhamos as nossas mãos desocupadas e a angústia da interrogação. Destruir, negar. As mãos que desmantelam a ordem envelhecida são ainda a nossa própria vida, transmitem-nos a certeza de que há um mundo e nós no meio dele, identificam a inteira verdade do nosso corpo que age e é eficaz; e o rumor dos nossos gritos afoga as vozes obscuras e importunas, a nossa voz derradeira, ilude-nos a resposta à interrogação que nos espera, inventa-nos no NÃO essa ilusão de plenitude que nós buscamos no SIM.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 10h25 | Comentários (2)

5 de fevereiro 2004

Dizem que não custa nada

Victor Hugo, O Último Dia de um CondenadoDizem que não custa nada, que não se sofre, que é um fim suave, que a morte desta maneira está muito simplificada.
Ei! O que é então esta agonia de seis semanas e este estertor de um dia inteiro? Que são as angústias deste dia irreparável, que se escoa tão lentamente e tão depressa? Que escala de tortura é esta que conduz ao cadafalso?
Aparentemente não se trata de sofrimento.
As convulsões não são as mesmas, quer o sangue se esgote gota a gota, ou a inteligência se extinga ideia após ideia?
E depois, não se sofre, têm a certeza? Quem lhes disse? Alguém contou que uma cabeça cortada se tenha erguido, ensanguentada, do cesto de verga, e tenha gritado ao povo: — Não custa nada!
Já algum morto lhes veio agradecer e dizer: foi uma boa invenção. Fiquem por aqui. E uma boa máquina.
Terá sido Robespierre? Ou Luís XVI?...
Não, nada! Menos de um minuto, menos de um segundo e é coisa feita. — Alguma vez se puseram, só em pensamento, no lugar de quem ali está no momento em que o pesado cutelo se abate sobre a carne, rasga os nervos, quebra as vértebras... Mas quê! Meio segundo! A dor é escamoteada... Horror!


Victor Hugo, in O Último Dia de um Condenado


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4 de fevereiro 2004

Desejos cumpridos

Jean-Paul SartreSó há vontade num ser lançado no mundo. É o mundo que liberta a consciência investida pelos seus próprios objectivos para além de um real que torna a sua realização imediata impossível. Ela define-se pelo desfasamento necessário entre o objectivo e a concepção de objectivo. Só pode haver vontade se o mundo inteiro se intercalar entre a minha consciência e os seus fins. Se um génio me der o poder de realizar imediatamente os meus desejos, fico apático, por não poder mantê-los à distância, por não poder impedir que eles se realizem. Foi o que perceberam obscuramente os narradores que nos contam histórias de desejos cumpridos e que acabam mal.


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra

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2 de fevereiro 2004

A eterna ladainha

Fausto:

Fausto, GoetheEm nenhum hábito deixarei de sentir
A dor da vida estreita que levar.
Sou muito velho para só querer brincar,
E muito novo para sem ânsia existir.
Que tem o mundo hoje para me oferecer?
A renúncia! Deves renunciar:
É essa a eterna ladainha
Que a todos nos ouvidos ecoa
E que, uma vida inteirinha,
Uma voz rouca sem fim apregoa.
Acordo de manhã numa agonia,
E lágrimas amargas só me traz
O tempo que decorre, e em cada dia
Nem um desejo só me satisfaz;
Até do prazer o antegozo
Me estraga com espírito invejoso,
E do sopro criador da alma activa
Com mil esgares hostis também me priva.
E depois, quando a noite nos envolve
E eu no leito caio, angustiado,
Também então a inquietação revolve
Os sonhos que me deixam aterrado.
A divindade que em meu peito mora
Pode agitar-me a alma até ao fundo;
Em minhas forças manda, mas lá fora
Não tem poder sobre as rodas do mundo.
E assim a existência me é um peso,
A morte ansiada, a vida um ódio imenso.


Goethe, in Fausto

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29 de janeiro 2004

Espírito de síntese

Jean-Paul SartreA Revolução Francesa foi uma revolução analítica e crítica, no sentido de que encarava uma sociedade como um contracto entre indivíduos. O espírito de síntese reaparece com Maistre e Bonald. Opõe-se ao espírito crítico afirmando que a análise destrói aquilo que desmembra. Por exemplo, é o espírito de análise que verá num rei um homem num trono. O espírito conservador responder-lhe-á que, com essa análise, ele destrói precisamente aquilo que constitui o rei: a realeza. O triunfo teórico do espírito de síntese sobre o espírito de análise traduz-se politicamente num triunfo do pensamento conservador sobre o pensamento revolucionário. A sociedade torna-se uma hierarquia de formas indecomponíveis. Se a força revolucionária pôde derrubar as instituições monárquicas foi porque, anteriormente, o espírito analítico as havia dissolvido, destruindo o seu significado. Porque reduzir uma instituição aos seus elementos é ignorar o seu significado, que reside na sua totalidade indecomponível. Sob a influência destas doutrinas oficiais dá-se entre os reformadores e os revolucionários uma dissociação entre o espírito de análise e o espírito de revolução. Os móbiles para modificar a estrutura social permanecem e agravam-se, mas convém mudar de motivos. O espírito de análise está destruído e o que dele resta é açambarcado por velhos liberais voltairianos. É ao espírito de síntese que a nova oposição irá reivindicar os seus motivos. Os conservadores utilizam o espírito de síntese quando declaram que um todo não é redutível aos seus elementos - portanto, que a sociedade não pode reduzir-se ao indivíduos. Assim, o revolucionário já não pensará como em 1879, em reivindicar direitos de indivíduo. Abandona esta concepção do mundo ultrapassada, a Weltanschauung * analítica, que perdeu a sua eficácia de instrumento. Já não irá opor ao todo os seus elementos, à sociedade os indivíduos. Procurará, pelo contrário, uma síntese mais vasta, que englobará em si as diversas sociedades, de forma a poder criticar cada um destas por se revelarem contra essa totalidade, tal como os conservadores criticam os indivíduos por se rebelarem contra a totalidade colectiva.


* Termo alemão: visão ou concepção do mundo. (N. T.)


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra (1939-1940)


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26 de janeiro 2004

Basta fazer-nos esquecer tudo

Observemos com um pouco mais de atenção a composição desses raviolis tão apreciados ou do hambúrguer congelado que se comprou no supermercado: uma embalagem banal, com a imagem de um bife grelhado repousando de forma atractiva sobre folhas de alface» Uma carne igual às outras? Nem por isso, se se for ler o que está escrito na caixa: 69% (podendo por vezes descer a 65%) de carne de vaca picada, "temperada" com proteínas vegetais. Na verdade, esses 31% de proteínas vegetais são tudo menos temperos, antes constituindo uma espécie de sucedâneo adicional à verdadeira carne.» (Cosmopolitan, Junho de 1985).
Mas a lógica que nos vai lembrando tudo o que temos de engolir nem sequer tem necessidade de ser enunciada de forma tão franca para se impor como coacção: basta fazer-nos esquecer tudo o que já não temos possibilidade de degustar.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Lido por dolphin.s às 20h57 | Comentários (14)

24 de janeiro 2004

A importância das coisas...

Simone de BeauvoirPensei, hoje, que é na verdade uma asneira criar cabelos brancos, a propósito de tudo e de nada. As coisas nunca tiveram importância suficiente para isso; mudam, terminam e, sobretudo, no fim de contas, todo o mundo morre. Isso resolve tudo.
— Ah! Isso é apenas uma maneira de fugir aos problemas! — disse Robert.
Interrompi-o:
— A não ser que os problemas não sejam mais do que uma maneira de fugir à verdade. Evidentemente — acrescentei—, quando decidimos que é a vida que é verdadeira, a ideia da morte parece uma fuga. Mas reciprocamente...
Robert sacudiu a cabeça:
— Há uma diferença. Prova-se que escolhemos acreditar na vida, vivendo; se acreditarmos sinceramente que a morte é a única verdade, deveríamos matar-nos. Na realidade, nem sequer os suicidas o fazem com essa ideia.
— Talvez continuemos a viver por estarmos aturdidos e sermos cobardes — disse eu. — É o mais fácil. Mas não prova nada.
— Primeiro, é importante que o suicídio seja difícil — disse Robert. — E, depois, continuar a viver não é apenas continuar a respirar. Ninguém consegue instalar-se na indiferença. Tu gostas de coisas, detestas outras, indignas-te, admiras: isso implica que reconheces o valor da vida. — Sorriu: — Sinto-me tranquilo. Ainda não terminámos a nossa discussão sobre os campos nem sobre tudo o resto. Sentes-te impotente, como eu, como toda a gente, perante certos factos que te acabrunham, e então refugias-te num cepticismo generalizado; mas não é nada de grave.
Não respondi. Evidentemente, amanhã discutiria de novo sobre muitas coisas: isso provaria que elas deixariam de me parecer insignificantes?


Simone de Beauvoir, in Os Mandarins

Lido por dolphin.s às 23h40 | Comentários (1)

21 de janeiro 2004

Consequências

Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.


José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira

Lido por dolphin.s às 19h05 | Comentários (3)

19 de janeiro 2004

Oportunidades?

Herberto HelderÀs vezes deixava-me estar sob a chuva a senti-la correr pela cabeça e as mãos, encharcar-me o fato, entrar na carne. Murmurava: é a chuva. Ficava extasiado, louco de dedicação por esta terra feroz e sumptuosa que eu nunca entenderia bem. Depois tudo foi desaparecendo. Uma noite, só, sentado num quarto vazio, subitamente compreendi. Nunca mais deixei de ser inteligente. Você com certeza supõe que sou uma pessoa ferida, extorquida, amarga. Perdi as belas — isso — as belas e afortunadas oportunidades. Oportunidades? Tudo são oportunidades em tamanha ignorância. Ninguém as perde, impossível. Não perdi nada. Sou apenas lúcido. Digo: só, desprovido, crítico, bastante. O mal é bastar-se. Não preciso de ninguém. Nem sequer dos pequenos mitos de mim próprio.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Brandy

Lido por dolphin.s às 20h06 | Comentários (6)

16 de janeiro 2004

Morrer dentro de poucas horas

Victor HugoO relógio acaba de bater horas. Não sei quantas. Ouço mal as pancadas do relógio. Sinto nos ouvidos o som de um órgão; são os zumbidos dos meus últimos pensamentos.
Naquele momento supremo em que me refugio nas minhas recordações, revejo, horrorizado, o meu crime; mas gostaria de me sentir ainda mais arrependido. Sentia mais remorsos antes da condenação; agora, creio que só há lugar para pensamentos de morte. Gostava, todavia, de me sentir muito arrependido.
Depois de pensar por uns momentos no que a minha vida tem de passado, e de regressar ao golpe de cutelo que daqui a pouco lhe vai pôr termo, arrepio-me como perante algo de novo. Bela infância a minha! Bela juventude a minha! Uma peça de tecido dourado cuja extremidade se ensanguenta. Entre o passado e o presente corre um rio de sangue, o sangue do outro e o meu.
Se alguém ler a minha história, não poderá acreditar que tantos anos de inocência e felicidade tenham conduzido a este ano execrável, que começa com um crime e termina num suplício; a história afigura-se desconexa.
E, no entanto, miseráveis leis e miseráveis homens, eu não era um malvado!
Oh! Morrer dentro de poucas horas, e pensar que há um ano, neste mesmo dia, era livre e puro, dava os meus passeios de Outono, vagueava sob as árvores, e caminhava sobre as folhas caídas!

Victor Hugo, in O Último Dia de um Condenado


Lido por dolphin.s às 10h32 | Comentários (10)

15 de janeiro 2004

A importância que nos damos


Simone d eBeauvoir«Tomamo-nos muito a sério. Para dizer a verdade, os nossos actos não têm muita importância; este nosso inundo não tem muita importância; é fibroso, poroso, sem consistência.» Os transeuntes pareciam apressados, através da bruma, como se fosse importante chegar um pouco mais cedo aqui ou ali. Vão acabar por morrer e eu também; isto torna a vida uma coisa efémera. Nada se pode contra a morte; portanto, nada se pode fazer por ninguém, nada se deve a ninguém. É inútil envenenar a própria existência.


Simone de Beauvoir, in Os Mandarins

Lido por dolphin.s às 14h37 | Comentários (8)

Chorava por todas as coisas que ele fez

Ray BradburyQuando era rapaz, o meu avô morreu, e era um escultor. Também era um homem afável, que tinha muito amor para dar ao mundo, e ajudou a limpar o bairro de lata na nossa cidade; e fazia-nos brinquedos e fez um milhão de coisas na vida; estava sempre a trabalhar. E, quando morreu, percebi repentinamente que não chorava por ele, mas por todas as coisas que ele fez. Chorei porque nunca mais voltaria a fazê-las, nunca mais esculpiria um pedaço de madeira nem nos ajudaria a criar pombas e pombos no quintal, nem tocaria violino como costumava fazer, nem nos contaria anedotas. Ele fazia parte de nós e, quando morreu, todas as acções pararam e não havia ninguém que as fizesse como ele fazia. Era particular. Era um homem importante. Nunca recuperei da sua morte. Penso muitas vezes que nunca mais nascerão esculturas maravilhosas porque ele morreu. Quantas piadas faltam neste mundo e quantos domésticos que não são tocados pelas suas mãos. Ele moldou o mundo. Ele fez coisas ao mundo. O mundo ficou sem dez milhões de boas acções na noite em que ele morreu.


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Lido por dolphin.s às 10h32 | Comentários (7)

14 de janeiro 2004

Palavras

Herberto HelderFico deitado tardes inteiras, fumando interminavelmente. Bach. Cinco páginas do Hamlet, 2° acto, 2ª cena. A ficção da loucura por parte de Hamlet é dúbia. Polónio por seu lado submete-se às regras do perigosíssimo jogo. Nesta atmosfera nem a ficção da loucura é gratuita, nem a lucidez casual. Mas eis toda a verdade no espaço rápido e fechado. As leis do fingimento são secretas, intraduzíveis. Perfeito. Nelas reside o segredo total. Quarto do castelo em Elsenor. A ficção (ou fingimento) é o único caminho para a verdade? — Que ledes, meu senhor? — Palavras! Palavras! Palavras! — Mas de que se trata, meu senhor? — Entre quem? E Bach ao fundo. Concerto Brandeburguês n.°5 pela Orquestra de Estugarda. Transferi tudo. Eis como funcionam estas minhas admiráveis virtudes humanas. E a pobre rapariga levanta-se, depois de recusar o cigarro, e aproxima-se com o seu desgraçado sorriso, vulnerável assim entre a última humilhação e uma espécie de momentânea ressurreição do valor da vida e da pessoa. Tudo isso à minha frente, entre os belos sons de cravo de Bach e as palavras de uma trágica e tão significativa comicidade de Shakespeare. Entre quem? Ora aí está: deveria ser entre mim e ela, e não palavras, palavras, palavras — mas um grande assunto. O assunto de um empenhamento, uma devoção humana. Não gosto de ninguém, mas pergunto: não tenho eu obscuras, calorosas e ricas faculdades? Ela avança para dar-me um beijo. Recebo-o na boca e — fácil! — retribuo. Enoja-me a saliva que me fica nos lábios, e confundo-a depressa com a minha, passando a língua por cima. Pois eu tenho muita saliva, muita abjecção onde afundar a abjecção dos outros. Estou deitado e, pela cidade adiante, caminha a prostitutazinha.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Duas Pessoas

Lido por dolphin.s às 14h47 | Comentários (0)

Coxas de Meninas de Pernas ao Léu


Cozinha CanibalTirem-lhes as meias e lavem-nas numa bacia cheia de água fria com um sabonete perfumado (de preferência a cheirar a violetas). Depois enxuguem-nas.
Metam numa panela uma boa porção de manteiga, deixem-na derreter a fogo lento e em seguida coloquem as coxas de menina por cima, depois de tê-las salteado. Acrescentem um púcaro de leite. Mexam tudo bem mexido e temperem com sal, pimenta, salsa, cebola picada, alho, pimentos moídos. Espevitem um pouco o lume e ao fim de uma hora tirem a panela do fogão e deitem o conteúdo para dentro das meias. Sirvam bem quente, com as meias suspensas do tecto por elásticos. É um prato muito alegre, bom para saborear entre amigos. As pernas sobem e descem por cima da mesa, e tentar apanhá-las depressa se torna um jogo. Mas atenção às nódoas suspeitas na roupa!

Roland Torpor, in A Cozinha Canibal


Lido por dolphin.s às 10h40 | Comentários (4)

13 de janeiro 2004

Leis feitas assim!

Talvez esses infelizes nunca tenham reflectido sobre a lenta sucessão de torturas que a fórmula expeditiva de uma condenação à morte encerra? Alguma vez se terão debruçado sobre a ideia pungente de que o homem condenado possui uma inteligência, uma inteligência que contou com a vida, uma alma que não se preparou para a morte? Não. Em tudo isto, não vêem mais do que a queda vertical de um cutelo triangular, e pensam com certeza que, para o condenado, não há antes nem depois.
Estas páginas desenganá-los-ão. Se porventura vierem a ser publicadas, despertarão por alguns momentos o seu espírito justamente para o sofrimento do espírito, pois é esse que ignoram. Exultam por poderem matar quase sem sofrimento do corpo. Oh! é mesmo disso que se trata! O que é a dor física frente à dor moral? Horror e piedade, leis feitas assim!


Victor Hugo, in O Último dia de um Condenado


Lido por dolphin.s às 10h42 | Comentários (8)

12 de janeiro 2004

Definição primária

Por natural misantropia ou demasiadas decepções na vida, qualquer céptico comum, conhecedor dos pormenores da vida desta mulher, insinuaria que a bonitez do sorriso não passava de uma artimanha de ofício, afirmação maldosa e gratuita, porque ele, o sorriso, já tinha sido assim nos tempos não muito distantes em que a mulher fora menina, palavra em desuso, quando o futuro era uma carta fechada e a curiosidade de abri-la ainda estava por nascer. Simplificando, pois, poder-se-ia incluir esta mulher na classe das denominadas prostitutas, mas a complexidade da trama das relações sociais, tanto diurnas como nocturnas, tanto verticais como horizontais, da época aqui descrita, aconselha a moderar qualquer tendência para juízos peremptórios, definitivos, balda de que, por exagerada suficiência nossa, talvez nunca consigamos livrar-nos. Ainda que seja evidente o muito que de nuvem há em Juno, não é lícito, de todo, teimar em confundir com uma deusa grega o que não passa de uma vulgar massa de gotas de água pairando na atmosfera. Sem dúvida, esta mulher vai para a cama a troco de dinheiro, o que permitiria, provavelmente, sem mais considerações, classificá-la como prostituta de facto, mas, sendo certo que só vai quando quer e com quem quer, não é de desdenhar a probabilidade de que tal diferença de direito deva determinar cautelarmente a sua exclusão do grémio, entendido como um todo. Ela tem, como a gente normal, uma profissão, e, também como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfações às necessidades, as particulares e as gerais, Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí todo o prazer que pode.


José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira

Lido por dolphin.s às 14h32 | Comentários (8)

Quem sou...

Visto-me de preto, falo pouco, não escrevo e tudo isto me compõe uma figura e os outros vêem-na. Não sou ninguém, é fácil de dizer: sou eu. Quem é? Aonde encontrar-me? Seria preciso estar do outro lado de todas as portas, mas sou eu quem bate, eles calar-se-ão. Senti de repente que o rosto me queimava, teria querido arrancá-lo.


Simone de Beauvoir, in Os Mandarins

Lido por dolphin.s às 10h41 | Comentários (14)

8 de janeiro 2004

Choveu todo o dia

Acordo na desolação da casa desabitada.
Choveu. Choveu todo o dia sobre a cidade.
Digo:
- Esta chuva limpa a morte dos dias.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Lido por dolphin.s às 15h00 | Comentários (5)

A marcha do progresso

Cada passo na marcha do progresso, derrubadas o que os especialistas do «enganar a fome» chamam as nossas «barreiras mentais», isto é, a antiga experiência de uma qualidade e de um gosto, permite avançar ainda mais na industrialização. E assim a congelação e a passagem rápida à descongelação serviram antes do mais para comercializar «coxas de aves», por exemplo, compostas de matéria triturada e reconstituídas artificialmente. Neste estádio, a matéria em questão ainda tem relação com o seu nome, «ave», o qual só é usado como evocação do que podia ter sido realmente uma ave que tivesse escapado à indústria pecuária. Assim, uma vez aceite a forma, é possível alterar o conteúdo mais facilmente: o exemplo chega de novo do Japão - ex Oriente lux - onde as «patas de caranguejo» e os «camarões» são, na verdade, produzidos industrialmente a partir de peixe de baixo preço, depois reconstituído com aquela aparência.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Lido por dolphin.s às 10h47 | Comentários (5)

7 de janeiro 2004

Individualidade

Os jornais, por via das notícias, produzem um barulho fixo. Um barulho que se mantém enquanto alguém o lê. Mas na notícia acontece isto: os sofrimentos individuais e as alegrias íntimas desaparecem, tudo se torna propriedade colectiva: o jornal como teoria geral da inexistência do indivíduo. Só existe pessoa-acontecimento se existir pessoa-espectador: a privacidade absoluta, verdadeira, a individualidade pura, não são acontecimentos, são não-acontecimentos, isto é, à letra: a individualidade (a de zero espectadores) não acontece. Quase que se poderia afirmar que a existência individual e privada será uma invenção, precisamente, individual. Como provar a existência de momentos puramente íntimos, não testemunhados por ninguém, a não ser pela consciência do próprio? Não podemos provar, só acreditar. Acredito que o outro existe enquanto indivíduo, acredito: crença; não sei: não é um conhecimento. Mas de mim próprio sei: conheço os meus momentos individuais, e apenas posso esperar que os outros acreditem na existência de tal coisa. Toda a parte da nossa vida que é testemunhada constitui o modelo do jornal: vejam o que acontece ou aconteceu. E só isso existe na História. E o que fica de fora são os indivíduos.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 13h34 | Comentários (3)

6 de janeiro 2004

E ficarão felizes...

Não se pode construir uma casa sem pregos nem madeira. Se não queremos que se construa uma casa, escondemos os pregos e a madeira. Se não queremos um homem politicamente infeliz, não lhe damos duas respostas a uma pergunta que o preocupem; damos-lhe uma. Melhor ainda, não lhe damos nenhuma. Deixamos que se esqueça que existe uma coisa como a guerra. Se o Governo é ineficiente, desequilibrado e louco por impostos, é melhor que sejam essas pessoas a preocupar-se com isso. Paz, Montag. Temos de dar concursos às pessoas que elas ganhem, recordando as letras das canções mais populares ou os nomes das capitais dos estados ou quanto cereal produziu lowa no ano passado. Temos de as encher com dados não combustíveis, atravancá-las com tantos «factos» até se sentirem empanturradas, mas absolutamente «brilhantes» com informação. Então, sentirão que estão a pensar, terão uma sensação de movimento sem se moverem. E ficarão felizes, porque os factos deste tipo não mudam. Não se lhes pode dar matéria escorregadia como filosofia ou sociologia para relacionarem as coisas. Isso causa melancolia. Qualquer homem que seja capaz de desmontar uma parede com ecrã de TV e a montar de novo, e a maioria dos homens é capaz, nos nossos dias, é mais feliz do que qualquer homem que tenta avaliar, medir e equacionar o Universo, que não será medido e equacionado sem tornar o ser humano bestial e solitário. Eu sei, eu tentei; que se dane. Por isso introduzamos clubes e festas, acrobatas e mágicos destemidos, carros a jacto, helicópteros, sexo e heroína, tudo o que estiver relacionado com reflexo automático. Se o drama for mau, se o filme não disser nada, se a peça de teatro for vazia, piquem-me, ruidosamente. Pensarei que estou a reagir à peça, quando não passa de uma reacção à vibração. Mas não me importo. Gosto de diversão genuína.


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Lido por dolphin.s às 13h58 | Comentários (3)

Consciência moral

José SaramagoA consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.


José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira

saboreando uma releitura há muito prometida :)

Lido por dolphin.s às 10h35 | Comentários (10)

5 de janeiro 2004

Esses que nada podem recusar

Guy Debord, Enganar a FomeA extrema degradação da alimentação é uma evidência que, à semelhança de outras, é em geral suportada com resignação: uma fatalidade, um resgate a pagar por um progresso que não é possível travar, como bem sabem todos os que ele esmaga a cada dia que passa. E uma questão acerca da qual toda a gente se cala. Os de cima, porque não querem, os de baixo, porque não podem. A imensa maioria da população, que suporta tal degradação, não quer olhar de frente uma realidade tão incómoda, mesmo que haja as maiores suspeitas. De facto, não é agradável admitir que se é objecto de trapaça e por isso os que puseram de parte o bife - e a reivindicação do bife - por troca com a sua miragem «restruturada», não estão mais dispostos à admitir o que perderam com a troca do que aqueles que acreditaram poder aceder ao conforto aceitando um ersatz semelhante no seu habitat. Regra geral são os mesmos, esses que nada podem recusar, sob pena de desmentirem tudo o que deixaram fazer das suas vidas.


Guy Debord, in Enganar a Fome

Lido por dolphin.s às 10h45 | Comentários (2)

2 de janeiro 2004

Os homens estão todos condenados à morte


Victor Hugo, in O Último dia de um CondenadoCondenado à morte!
Pois bem, por que não? Os homens, recordo-me de o ter lido não sei em que livro onde só havia isso de certo, os homens estão todos condenados à morte a mais ou menos longo prazo. Que haverá então de diferente na minha situação?
Desde que a minha sentença foi proferida, quantos dos destinados a uma longa vida terão morrido! Quantos dos que, jovens, livres e sãos, esperavam ir ver rolar a minha cabeça na praça de Greve! Até lá, quantos dos que caminham e respiram ao ar livre, entram e saem à sua vontade, me precederão ainda!


Victor Hugo, in O Último dia de um Condenado

Lido por dolphin.s às 13h30 | Comentários (3)

31 de dezembro 2003

Se os homens fossem seres imóveis

Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas. Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem altamente inteligente, mas imóvel. Se, de repente, numa hipótese totalmente absurda, todos os humanos sofressem um acidente como Clako, a espécie humana desapareceria rapidamente numa geração. Numa única geração desapareceriam, então, a matemática e a lógica do mundo. E a geometria. E a literatura.
Se a matemática fosse assim tão divina e universal, como conceber que a eliminação de uma única espécie — o Homem — de entre biliões de espécies existentes pudesse eliminar por completo essa lógica dos números em toda a superfície do planeta? Se o que se encontra disseminado por mais seres da natureza tem o nome de divino, então divino é o movimento e a capacidade de procriação; e a matemática apenas a especialidade de uma minoria.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 14h00 | Comentários (0)

Não nos consola a morte

Simone de BeauvoirQuando se ama a vida, a imortalidade, quer a imaginemos celeste ou terrena, não nos consola a morte.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Lido por dolphin.s às 10h32 | Comentários (7)

30 de dezembro 2003

por um triz

Sebastião Alba, Uma pedra ao lado da evidênciaTodas as noites me despeço
de mim. O dorso afunda-se.
O bulício, os relógios
prosseguem por fora.
Nenhum antegosto
ou prelúdio do fim.
Minha energia
aflui, reune-me? Na órbita
do sono, some-se e resplandece
a máscara mortuária


Sebastião Alba, in Uma Pedra ao lado da Evidência

Lido por dolphin.s às 13h49 | Comentários (10)

Um cubículo de metal

O coração não é só uma víscera tenra. Há um sistema moral algures na parte mole do corpo. E um sistema é uma coisa grossa, que permanece fortemente no lugar: uma pedra. Um cubículo de metal.
Os tribunais privados, íntimos, impõem mais respeito do que a montanha. Não consegues olhar de frente para aquilo que te constitui e se mantém espesso apesar das grandes mudanças. És tu que decides quantos talheres colocas em cima da realidade. Escolhes o instrumento, e escolhes a ponta que salva e a ponta que mata.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 10h34 | Comentários (4)

29 de dezembro 2003

A morte de Deus

Ora de todas as evidências que nos habitaram, eis que a mais necessária se nos nublou e desfez. Que Deus tenha morrido, meu amigo, é uma surpresa tão extraordinária, que poucos de nós se deram ainda conta disso. Sim, sim, muitos sabem-no já, mas por ouvirem dizer, como é por ouvirem dizer que muitos outros acreditam que Deus está vivo para sempre. Que admira? Só sabemos, normalmente, que alguém nos morreu quando o sabemos de cor... Recuperar a vertigem da iniciação é um raro milagre de raros instantes apenas. Porque o que importa não é saber: o que importa é ver. A história das religiões é a história das formas aparentes de uma mesma certeza: os deuses tomam o aspecto dos desejos dos homens, corporizam os modos da sua pacificação—pelo terror, pela alegria, pela prosternação ou pela fraternidade. A cada irredutível e novo modo de se ser humano, os deuses respondiam com um novo modo de governo. O regime mudava, mas não o soberano, e as lutas religiosas eram assim pequenas lutas partidárias com um sonho pequeno de emendas à Constituição...


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 14h13 | Comentários (0)

28 de dezembro 2003

Não peças garantias

Não peças garantias, não peças segurança, esse animal nunca existiu. E se existisse, seria relacionado com a enorme preguiça que se pendura de cabeça para baixo numa árvore durante todo o dia e todos os dias, passando a vida a dormir. Isso que vá para o Inferno!», disse. «Abana a árvore e atira a enorme preguiça ao chão.»


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Lido por dolphin.s às 15h52 | Comentários (5)

27 de dezembro 2003

Condenado à morte!

Condenado à morte!
Victor Hugo, O Último dia de Um CondenadoHá cinco semanas que vivo com este pensamento, sempre sozinho com ele, sempre gelado pela sua presença, sempre curvado sob o seu peso!
Outrora, pois parece-me que passaram anos e não semanas, era um homem como os outros. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha o seu significado. O meu espírito, jovem e rico, estava repleto de fantasias. Divertia-se a apresentar-mas umas a seguir às outras, sem ordem e sem fim, bordando inesgotáveis arabescos neste tosco e curto tecido da vida. Eram jovens donzelas, magníficos paramentos de bispo, batalhas ganhas, teatros cheios de rumores e de luz, e outras vez jovens donzelas e obscuros passeios à noite debaixo dos frondosos ramos dos castanheiros. A minha imaginação vivia sempre em festa. Podia pensar no que quisesse, era livre.
Agora estou cativo. O meu corpo está agrilhoado num cárcere, o meu espírito está preso a uma ideia. Uma horrível, uma sangrenta, uma implacável ideia! Só tenho um pensamento, uma convicção, uma certeza: condenado à morte!
Faça eu o que fizer, ele está sempre presente, este pensamento infernal, como um espectro de chumbo ao meu lado, sozinho e cioso, impedindo qualquer distracção, de frente para um miserável que sou eu, e sacudindo-me com as duas mãos geladas quando quero desviar a cabeça ou fechar os olhos. Disfarça-se sob todas as formas a que o meu espírito gostaria de se subtrair, imiscui-se como um horrível estribilho em todas as palavras que me dirigem, agarra-se comigo às abjectas grades do meu cárcere; obsidia-me acordado, espia-me o sono convulsivo, e reaparece-me em sonhos sob a forma de cutelo.
Acabo de acordar em sobressalto, perseguido por ele e dizendo-me: — Ah! não passa de um sonho! Pois bem, ainda antes dos meus olhos terem tempo de se entreabrir o suficiente para ver este fatal pensamento inscrito na horrível realidade que me rodeia, na laje encharcada e exsudada da minha cela, nos pálidos raios da minha lâmpada de presença, na trama grosseira do tecido das minhas vestes, no rosto moreno do soldado de guarda, cuja cartucheira reluz através das grades do cárcere, julgo ouvir uma voz segredar-me ao ouvido:
— Condenado à morte!

Victor Hugo, O Último dia de Um Condenado

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23 de dezembro 2003

A jovem ebriedade do alpinista

A minha vida dispõe de algumas testemunhas carrancudas que não me perdoam nada; surpreendem-me muitas vezes a reincidir nas mesmas rotinas. Dizem-mo, eu creio nelas e, no último momento, felicito-me: ontem, estava cego; o meu progresso de hoje é ter compreendido que já não progrido. Às vezes, sou eu próprio a minha testemunha de acusação. Dou-me conta, por exemplo, de que, dois anos antes, escrevi uma página que poderia servir-me. Procuro-a e não a descubro; tanto melhor: cedendo à preguiça, ia introduzir uma velharia numa obra nova: escrevo hoje muito melhor, portanto vou refazê-la. Quando termino o trabalho, um acaso põe-me entre as mãos a página extraviada. Pasmo: exceptuando algumas vírgulas, eu exprimia a mesma ideia nos mesmos termos. Hesito e depois atiro para o cesto o documento prescrito, guardo a nova versão: ela tem um não sei quê de superior à antiga. Em suma, é um truque: desiludido, engano-me para sentir ainda, apesar do envelhecimento que me deteriora, a jovem ebriedade do alpinista.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

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19 de dezembro 2003

A Neve Preta

"Porquê?", pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: "Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu".


José Saramago in "História de um muro branco e de uma neve preta"

na Antologia de Vasco Graça Moura - Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal

(ontem, dia 18, na colecção do Público)

Lido por dolphin.s às 14h00 | Comentários (17)

Nós suportamos a sua vontade

Gustave Flaubert por Mike MosherCavagnac declinava. A guarda móvel tornou-se suspeita. Ledru-Rollin estava perdido, até na opinião de Vaucorbeil. Os debates sobre a Constituição não interessaram a ninguém; e a 10 de Dezembro todos os chavignolleses votaram a favor de Bonaparte.
Os seis milhões de votos arrefeceram Pécuchet a respeito do povo; e Bouvard e ele estudaram a questão do sufrágio universal. Sendo de toda a gente, não pode ter inteligência. Um ambicioso ganhará sempre, e os outros obedecerão como um rebanho, pois os eleitores nem sequer são obrigados a saber ler; por isso é que, segundo Pécuchet, houvera tantas fraudes na eleição presidencial.
—Não houve nenhuma—replicou Bouvard—acredito mais da tolice do povo. Pensa em todos aqueles que compram a Revalescière, a pomada Dupuytren, a água das castelãs, etc.! Esses patetas formam a massa eleitoral e nós suportamos a sua vontade. Porque é que não podemos fazer com coelhos três mil libras de rendimento? É que uma aglomeração excessiva é causa de morte. Do mesmo modo, simplesmente devido à multidão, os germes de estupidez que ela contém desenvolvem-se, e daí resultam efeitos incalculáveis.


Gustav Flaubert, in Bouvard e Pécuchet
Ilustração de Mike Mosher

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18 de dezembro 2003

Não há animais injustos

Não há animais injustos, não sejas imbecil. Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade. A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não. Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da Natureza.
Os homens quiseram introduzir na Natureza coisas inventadas pelos fracos: foram os fracos que inventaram a injustiça para mais tarde poderem inventar a compaixão. Nem a água dócil percebe o que é isso de injustiça. Queres ser mais bondoso que uma substância química que se escreve tão simplesmente como isto: H2O? Não sejas imbecil: olha para os tanques: dispara com eles, ou contra eles. A vida em guerra só tem dois sentidos: com eles ou contra eles. Se não queres morrer beija as botas do mais forte, é isto.

Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 13h34 | Comentários (16)

Estreito espaço para a ilusão

Antes, em voo ousado, a imaginação
Subia até aos céus, plena de alento:
Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
Se afundar nos abismos do tempo.
Logo o cuidado se aninha bem dentro
Do peito e traz secreto sofrimento;
Balança inquieto, estorva prazer e paz,
São sempre novas as máscaras que traz:
É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
E tu tremes com medo do que nunca virá,
E choras sem cessar aquilo que não perdes.


Goethe, in Fausto

Lido por dolphin.s às 10h35 | Comentários (70)

17 de dezembro 2003

As minhas interrogações servem apenas de aguilhão para mim mesmo

As minhas interrogações servem apenas de aguilhão para mim mesmo. Só quero ser estimulado pelo silêncio que se ergue à minha volta como resposta derradeira. «Até quando conseguirás suportar o facto de que o mundo dos cães, tal como demonstram cada vez com mais evidência as tuas pesquisas, está para sempre votado ao silêncio? Até quando conseguirás suportar esta ideia?» Esta, esta é que é a verdadeira grande interrogação da minha vida, uma interrogação perante a qual as outras interrogações se tornam totalmente insignificantes. Uma interrogação que diz respeito apenas a nós próprios e a mais ninguém. Infelizmente, posso responder a esta interrogação com mais facilidade do que às interrogações específicas: aguentarei, provavelmente, até ao meu fim natural. A serenidade da velhice irá formando uma resistência cada vez maior a todas as interrogações inquietantes. Tudo indica que hei-de morrer em silêncio e rodeado de silêncio, na verdade até de forma específica, e antevejo isso com uma certa tranquilidade. Um coração admiravelmente resistente, pulmões que é impossível ficarem fracos prematuramente, foram-nos dados a nós, cães, como que por ironia. Assim, sobrevivemos a todas as interrogações, inclusive àquelas que colocamos a nós próprios, como autênticas fortalezas de silêncio que somos.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Lido por dolphin.s às 10h33 | Comentários (124)

16 de dezembro 2003

A culpa de sobreviver

Simone de Beauvoir Quando alguém que nos é querido desaparece, pagamos com mil pungentes remorsos a culpa de sobreviver. A sua morte descobre-nos a sua singularidade única, esse alguém torna-se vasto como o mundo que a sua ausência destruiu para ele, e que a sua presença fazia existir todo inteiro; parece-nos que devia ocupar mais lugar na nossa vida: uma totalidade sem margens. Arrancamo-nos a esta vertigem: não era senão um indivíduo entre outros. Mas como não fazemos nunca por ninguém tudo o que está ao nosso alcance — mesmo dentro dos limites possíveis que nos são fixados — restam-nos ainda muitas censuras a dirigir-nos.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Lido por dolphin.s às 10h40 | Comentários (21)

15 de dezembro 2003

A música...

A música é um sinal forte da humilhação. Se quem chegou impõe a sua música é porque o mundo mudou, e amanhã serás estrangeiro no sítio que antes era a tua casa. Ocupam a tua casa quando põem outra música.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 14h00 | Comentários (6)

Nunca mais o Lembraremos

(..) havia nele dois mistérios insolúveis: viver e escrever. E ambos estavam tão intimamente ligados que, provavelmente, se conseguisse desvendar um deles, o outro sê-lo-ia também.
Mas acontece que tinha tentado fazer da sua vida uma obra tão intensa quanto a obra escrita. Por vezes diluíam-se
uma na outra, confundiam-se, tão próximas ou afastadas estavam. E tanto na vida como na escrita, um mesmo desejo o animava: caminhar em direcção à sabedoria última do silêncio - a memória total do mundo.
O pior é que sempre que avançava alguns passos na direcção certa, desiludia-se. A harmonia com o mundo e com o seu próprio corpo continuava inacessível; e outras ignorâncias surgiam, outras trevas o cegavam. O que parecia estar perto, repentinamente, ficava fora do alcance.
Apesar de tudo, com o avançar lento da idade pressentia, algures dentro de si, um ser de lume - um anjo mudo que o iluminava, revelando-lhe aquilo que devia ou não silenciar.
E quando esse ser o fazia sentir árvore ou pássaro, todo o talento da árvore e o nocturno voo do pássaro escorriam em si. E se a sensação de mar lhe era transmitida, ele sabia que era um mar muito mais remoto e vasto que aquele que diante de si se movia.
Respirava fundo, tinha medo, e escrevia como uma condenação — e nessa condenação encontrava um breve alívio para a dor das coisas vivas e mortas que o rodeavam. E o corpo, sempre apaixonado, tremeluzia quando o estranho anjo mudo lhe punha uma voz no coração.
Talvez seja por tudo isto que um dia nunca mais o lembraremos, nunca mais. Mas neste preciso instante ele acabou de acordar, abre os olhos, arde, é jovem ainda, e diz-me a sorrir:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Lido por dolphin.s às 10h22 | Comentários (66)

13 de dezembro 2003

Burros e Idiotas

Os livros servem para nos lembrar que somos burros e idiotas. São a guarda pretoriana de César, a sussurrar, enquanto a parada brada pela avenida abaixo. «Lembra-te, César, tu és mortal.» A maioria de nós não pode precipitar-se para um e outro lado, falar com a toda a gente, conhecer todas as cidades do mundo, mas a única forma de o cidadão comum poder ver noventa e nove por cento delas é num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo em nada, seja pessoa, máquina ou biblioteca. Faça a sua própria salvação e, se se afogar, pelo menos morrerá sabendo que se dirigia à costa.


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Lido por dolphin.s às 15h45 | Comentários (25)

12 de dezembro 2003

O futuro mais real que o presente

Jean-Paul SartreQuando as testemunhas desaparecem, o passamento de um grande homem deixa para sempre de ser um golpe fulminante, o tempo converte-o em traço de carácter. Um velho defunto está morto por constituição, como está no baptismo tanto quanto na extrema-unção; a sua vida pertence-nos, entramos nela por uma ponta, pela outra, pelo meio, descemos, subimos o seu curso à vontade: é que a ordem cronológica explodiu; é impossível reconstituí-la: essa personagem já não corre qualquer risco e nem espera que as cócegas na narina o levem à esternutação. A sua existência oferece as aparências de um desenrolar, mas, quando se queira infundir-lhe um pouco de vida, recai na simultaneidade. Debalde tentaríamos colocar-nos no lugar do desaparecido, fingir que lhe partilhamos as paixões, as ignorâncias, os preconceitos, fingir que ressuscitamos resistências abolidas, um quê de impaciência ou de apreensão: não poderíamos impedir-nos de lhe apreciar a conduta à luz de resultados que não eram previsíveis e de informações de que ele não dispunha, nem de atribuir particular solenidade a eventos cujos efeitos mais tarde o marcaram, mas que ele viveu negligentemente. Eis a miragem: o futuro mais real que o presente. O que não é de espantar: numa vida acabada, é o fim que se toma pela verdade do começo. O defunto fica a meio caminho entre o ser e o valor, entre o facto bruto e a reconstrução; a sua história torna-se uma espécie de essência circular que se resume em cada um dos seus momentos.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Lido por dolphin.s às 12h35 | Comentários (2)

11 de dezembro 2003

Indizível realidade do nosso ser

A verdade e o erro do que nos põe em causa o destino são o saldo indistinto de uma indistinta procura do nosso equilíbrio interior. As razões que os justificam são como a desculpa de quem é apanhado em flagrante: as suas raízes mergulham onde já as não sabemos. Só serão «objectivas», meu amigo, as verdades indiferentes, essas em que nada de nós está comprometido. Mas quantas são as verdades que nos não comprometem? Que a verdade de Copérnico seja o erro de Ptolomeu, que a Terra gire em torno do Sol e não o Sol em torno da Terra, pode pagar-se ao preço máximo que é o preço de uma vida. Um problema de verdade-e-erro só é nosso quando o sangue o reconhece.
E no entanto — ou por isso, porque nos afectam a vida — são essas verdades sem estalão visível para aferi-las, as que mais profundamente nos afirmam ou mais radicalmente recusamos: tais verdades não se aferem por um estatuto, mas são antes a nossa própria carne, a tessitura do que somos, a indizível realidade do nosso ser — e nada há mais evidente que a nossa própria pessoa.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 13h52 | Comentários (1)

Odeias pela ponta dos dedos

As mãos e os olhos eram o fundamento da guerra: sem mãos é impossível odiar, odeias pela ponta dos dedos, como se estes fossem o canal habitual e único de uma certa substância química má. As mãos nos bolsos são um processo de educar o ódio, processo lento quando comparado com aquele bem mais forte que é a amputação dos braços. Mas só com as mãos nos bolsos os homens já acalmam.
Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno — isso mesmo —, o obsceno que é o homem que na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra é acto corajoso e, por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 10h35 | Comentários (8)

10 de dezembro 2003

O poder dos objectos

Simone de BeauvoirQueríamos distribuir recordações às pessoas da sua intimidade. Diante do saco de palha, cheio de novelos de lã e dum tricot inacabado, diante da sua pasta, das suas tesouras, do seu dedal, a emoção submergiu-nos. É sabido o poder dos objectos: a vida petrifica-se neles, torna-se mais presente que em nenhum dos seus instantes. Jaziam sobre a mesa, órfãos, inúteis, esperando transformar-se em coisas sem préstimo, ou encontrar um outro estado civil: o meu estojo, que herdei da tia Francisca. Destinámos o seu relógio a Marta. Ao tirar o cordão preto, Poupette pôs-se a chorar: «É idiota, não me sinto fetichista, mas não posso deitar fora esta fita. —Guarda-a». É inútil pretender integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face duma coisa que o não é: que cada um se desembarace à sua maneira na confusão dos seus sentimentos. Compreendo todas as últimas vontades, e também que não se tenha nenhuma; que se apertem nos braços as ossadas, ou que se abandone o corpo amado à vala comum. Se a minha irmã tivesse querido vestir a mamã ou desejado guardar a aliança, teria admitido as suas reacções tanto como as minhas.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Lido por dolphin.s às 19h29 | Comentários (31)

O Boné de Carbovari

Sobre o piano vertical tcheco (é assim que devemos começar uma frase, às
vezes, por humildade, numa espécie de homenagem à nossa estupidez) vi um objecto que seria teu.
Peguei-lhe e pousei-o logo, como quem o sacode. Não era fetichismo.
Alguém viu; apercebi-me logo de que tinha sentido o que eu sentia.
A sua escola é a do olhar (a minha também, mais próxima, talvez, de Flaubert que de Beckett; a propósito, lê as primeiras páginas de "Madame Bovary", repara bem na descrição daquele chapéu).
E o que ele pensou foi: "este gajo anda com o pavor de ceder à ternura, a família perdida, os amigos já quase intemporais. O leite da ternura humana, como diria Shakespeare, coalhou nele. Qualquer dia, não traz mais livros ou pássaros a nossa casa."


Sebastião Alba, in Albas

Lido por dolphin.s às 13h55 | Comentários (16)

Um livro é uma arma carregada

Ray Bradbury, Fahrenheit 451Sempre tememos o desconhecido. Certamente que te recordas do rapaz da tua turma que era excepcionalmente brilhante, recitava e respondia quase sempre, enquanto os outros ficavam sentados como muitos ídolos pesados, odiando-o. E não foi este rapaz brilhante que escolheste para punir e torturar? Claro que foi. Devemos ser todos parecidos. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos foram tornados iguais. Cada homem é a imagem de todos os outros; depois todos ficam felizes, porque não há montanhas que os obriguem a aninhar-se, a julgar-se. Assim! Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queima-se. Tira-se a bala da arma. Abre-se uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser o alvo de um homem letrado?


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Lido por dolphin.s às 10h40 | Comentários (26)

9 de dezembro 2003

Uma violência indevida

Simone de BeauvoirTodos os homens são mortais: mas para cada homem a morte é um acidente e, mesmo que ele o saiba e consinta nisso, uma violência indevida.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Lido por dolphin.s às 21h10 | Comentários (7)

8 de dezembro 2003

Onde é que existe o país?

Para mim a História terminou. Se me fecham numa sala durante anos, onde é que existe o país? Nenhum país veio para me salvar, cuspo no país e o país não é um lobo que te morde, é uma paisagem estúpida e subserviente que aceita: podes mijar para cima da cabeça do teu país como fazes aos cães bem domesticados, que ele aceita bem: vai abanar a cauda.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 15h45 | Comentários (8)

7 de dezembro 2003

A Consciência da Culpa II

Friedrich NietzsceComo seria inteiramente de esperar depois do que ficou dito, o facto de se trazerem à luz do dia essas relações contratuais desperta a mais ampla desconfiança e oposição contra a antiga humanidade que as criou ou tolerou. É precisamente aí que ocorre uma promessa; é precisamente nessas relações que se trata de fazer uma memória para aquele que promete; é aí precisamente que reside — nada nos impede de suspeitar que assim seja — uma mina rica em crueldade, dureza e sofrimento. O devedor, para inspirar confiança relativamente à sua promessa de reembolso, para oferecer uma garantia da seriedade sagrada da sua promessa, inclusivamente para reforçar na sua própria consciência a obrigação, o dever do reembolso, empenha ao credor — por força de um contrato que será aplicado no caso de não haver pagamento — uma outra coisa que «possua», sobre a qual exerça algum poder, por exemplo, o corpo, ou a mulher, ou a sua liberdade pessoal, ou mesmo a vida (ou, dentro de determinados pressupostos religiosos, a própria salvação da alma e até a paz da sepultura, como acontecia no Egipto, onde o credor não dava sossego no túmulo ao cadáver do devedor — e é preciso acrescentar que os Egípcios atribuíam uma importância especial a esse sossego). O credor podia nomeadamente infligir ao corpo do devedor toda a espécie de humilhações e de torturas, por exemplo, cortar bocados na quantidade que lhe parecesse apropriada ao tamanho da dívida... E, para estes efeitos, em tempos recuados, havia por toda a parte, com força de direito, avaliações rigorosas dos diferentes membros e partes do corpo, descendo às vezes aos pormenores mais atrozes.
A equivalência é estabelecida na medida em que, em vez de uma vantagem que compensasse directamente o prejuízo (portanto, em vez de uma compensação em dinheiro, em terra ou quaisquer outros bens), o credor recebe como reembolso e indemnização uma espécie de satisfação interior, a satisfação de, sem remorso, poder exercer o seu poder sobre um impotente, a volúpia «de faire le mal pour le plaisir de le faire»*, o gozo de violentar, gozo este que é tanto mais apreciado quanto mais baixo o credor estiver na escala social, ou seja, quanto mais aos olhos deste surgir como deliciosa pitada que lhe permite provar o sabor do poder das classes superiores. Por intermédio do «castigo» aplicado ao devedor, o credor toma parte no direito dos senhores: enfim, ei-lo chegado, ao menos uma vez, ao sentimento exaltante de poder desprezar e maltratar alguém como «inferior» — ou, pelo menos, de o poder ver desprezado e maltratado (nos casos em que o poder de aplicação, de execução das penas já está delegado na «autoridade»). A compensação consiste, portanto, numa autorização, numa atribuição do direito à crueldade...


Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

Lido por dolphin.s às 20h45 | Comentários (7)

Um veneno

Franz KafkaCompreendo os meus semelhantes, sou carne, da sua miserável, sempre renovada, sempre ansiosa carne. No entanto, não são apenas a carne e o sangue que temos em comum, mas sim também o conhecimento, e não só o conhecimento mas ainda o segredo para o alcançar. Por mim, não possuo esse segredo, a não ser em comum com todos os outros; não posso tê-lo sem a sua ajuda. Os ossos mais duros, que contêm o tutano mais precioso, só podem ser vencidos se forem trincados por todos os dentes de todos os cães em conjunto. Isto, evidentemente, é apenas uma figura de retórica; se todos os dentes estivessem afiados, nem sequer precisariam de trincar, os ossos estalariam por si mesmos e o tutano estaria facilmente ao alcance mesmo dos cães mais fracos. Se permanecer fiel a esta metáfora, então o objectivo das minhas investigações parecerá, decerto, monstruoso. Pois dessa forma quero levar todos os cães a reunirem-se, quero que os ossos se abram debaixo dessa pressão colectiva e depois quero mandá-los embora para a vida banal que eles amam, enquanto que, entregue a mim próprio, totalmente só, sorvo o tutano. Isto tem a aparência de uma coisa monstruosa, é quase como se eu quisesse comer o tutano de toda a própria raça canina. Mas isto é apenas uma metáfora. O tutano de que estou a falar aqui não é comida; pelo contrário, é um veneno.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Lido por dolphin.s às 14h40 | Comentários (1)

6 de dezembro 2003

Esta massa não é cinzenta

DIRECTOR:

Fausto, GoetheEssa censura a mim pouco me afecta:
Quem quiser atingir a sua meta
Tem de servir-se da melhor ferramenta.
Lembrai-vos que esta massa não é cinzenta,
Pensai, ao escrever, a quem fazeis assédio!
Alguns vêm trazidos pelo tédio,
Outros comeram que nem animais,
E quem me parece mais sem remédio
São os que vêm de ler os jornais.
Vêm por vir, como para as mascaradas,
Só a curiosidade os faz voar;
As damas pavoneiam-se, enfeitadas,
E representam sem se fazer pagar.
Com que sonhais nos píncaros da poesia?
Que vos alegra na casa cheia de gente?
Vede os mecenas! Desta fidalguia
Metade é bronca, metade é indiferente.
Depois da peça, este quer jogar cartas,
Outro, uma noite louca com uma pega.
E para tal gente ides bater às portas
Das musas, pobres tolos? Já chega!
Ouvide bem: dai mais e sempre mais,
E assim o alvo não ireis errar.
Procurai confundir, que contentar
Os homens não conseguireis...
Que é isso agora? Arrebatamento ou dor?


Goethe, in Fausto
O Director tenta convencer o Poeta, relutante em apenas entreter o público

Lido por dolphin.s às 21h21 | Comentários (23)

Eu encontrara a minha religião

Jean-Paul SartreEu encontrara a minha religião: nada me pareceu mais importante do que um livro. Na biblioteca eu via um templo. Neto de sacerdote, vivia sobre o telhado do mundo, no sexto andar, empoleirado no mais alto galho da Árvore Central: o tronco era o poço do elevador. Eu ia e vinha pela varanda; atirava a quem passava um olhar de alto; cumprimentava, através da grade, Lucette Moreau, minha vizinha, que tinha a minha idade, os meus cachos loiros e minha tenra feminilidade, reentrava na cella ou no pronaos e nunca descia daí em pessoa: quando a minha mãe me levava ao Jardim do Luxemburgo — isto é, diariamente—, eu emprestava o meu farrapo às baixas regiões, porém o meu corpo glorioso não abandonava o seu poleiro; creio que ainda por lá anda. Todo o homem tem o seu lugar natural; nem o orgulho nem o valor lhe fixam a altitude: a infância é que decide. O meu é um sexto andar parisiense com vista para os telhados. Por muito tempo sufoquei nos vales, as planícies prostraram-me; arrastava-me sobre o planeta Marte, a gravidade esmagava-me; bastava-me subir a uma toca para recuperar a alegria: reconquistava o meu sexto andar simbólico, voltava a respirar o ar rarefeito das Belas Letras, o Universo escalonava-se a meus pés e toda a coisa solicitava humildemente um nome; atribuir-lho era ao mesmo tempo criá-la e toma-la. Sem essa ilusão capital, eu nunca teria escrito.
Hoje, 22 de Abril de 1963, corrijo este manuscrito no décimo andar de uma casa nova: pela janela aberta diviso um cemitério, Paris, as colinas azuis de Saint-Cloud. É dizer a minha obstinação. Tudo mudou, no entanto. Criança, quisesse eu merecer esta posição elevada, cumpriria ver no meu gosto pelos pombais um efeito da ambição, da vaidade, uma compensação da minha pequena estatura. Mas não; o problema não era trepar à minha árvore sagrada: eu já lá estava, recusava-me a descer; não se tratava de me colocar acima dos homens: eu queria viver em pleno éter entre os simulacros aéreos das Coisas. Mais tarde, longe de me agarrar a balões, pus todo o meu zelo em ir ao fundo: foi preciso calçar solas de chumbo. Por sorte, aconteceu-me às vezes roçar, sobre areias nuas, por espécies submarinas cujo nome me competia inventar. Outras vezes, nada a fazer: uma irresistível leveza retinha-me à superfície. Por fim, escangalhou-se-me o altímetro: sou, ora ludião, ora escafandrista, e, amiúde, ambas as coisas juntas, como convém em nossa especialidade: moro no ar por hábito e foço o chão sem muita esperança.

Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Lido por dolphin.s às 17h09 | Comentários (1)

Escultura

Avançamos sobre a geografia, estamos ainda no sítio antes da geografia, na pré-geografia. Depois da História não há geografia.
O país está inacabado como uma escultura: vê a geografia de um país: falta-lhe terreno, escultura inacabada: invade o país vizinho para finalizares a escultura. Guerreiro-escultor.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Lido por dolphin.s às 14h17 | Comentários (0)

5 de dezembro 2003

Cartas

Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um Sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim. Um fio de luz coalha na saliva do lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão. O dia cresce, sem luz — e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a ultima vez...
O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E, quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria - mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas o olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Lido por dolphin.s às 14h03 | Comentários (10)

Génese

Sebastião AlbaHá muitos anos um oficial do exército de ocupação, em Moçambique, disse-me, na parada, enquanto eu, perfilado, tremia de medo: "você, nessa cabeça tem só merda!" Eu acreditei!
Quando poetas me dizem: "o teu lugar é aqui, entre nós", como se alguém estivesse a tirar-nos uma fotografia, acredito logo.
Porque não sei o que pensar de mim, se vocês me desprezarem, sentir-me-ei desprezível; se me estimarem, estimável. Sou quem os que amo (ou detesto) pensam de mim. Pouco mais. Sublinhei algumas palavras para que vocês notem que não há uma sinfonia, um poema, nem sequer "aquela cartinha" que escrevemos a alguém que não sejam conduzidas por qualquer ideia.
Temática. Insistente. Obcecante.


Sebastião Alba, in Albas

Lido por dolphin.s às 10h26 | Comentários (3)

4 de dezembro 2003

Um regaço para chorar

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes - penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...


Bernardo Soares in Livro do Desassossego


a uma amiga...

Lido por dolphin.s às 13h52 | Comentários (7)

A Pessoa Una

Vergílio FerreiraO sangue que nos aquece e nos inventa a vida, é o ar que respiramos, dá aos sonhos as formas dessa presença invisível de tudo o que nos cerca. Um modo de pensar, de sentir, organiza-se nos limites das raízes indistintas, transforma-se aí obscuramente, enquanto as nossas mãos distraídas continuam a moldar o pó dos sonhos mortos. Somos a carne e a presença do todo que nos cerca. As células vivas de um espírito que não morre vão expulsando as que já se corromperam. Lentamente, uma evidência nova habita-nos os nervos, corporiza-se connosco, é a nossa pessoa. E um dia descobrimo-nos uma unidade miraculosa, uma certeza de sermos, o puro acto da nossa identidade — no que afirmamos ou negamos. Muita gente, meu amigo, nos explica que tal modo de sermos unos, de habitar-nos a evidência que nos coube, é o fruto da erosão ou da sedimentação do que isto ou aquilo corroeu ou semeou em nós. Sim. Mas a pedra que a água desgastou, se pudesse conhecer-se, ignorava como vã a explicação da água e do tempo, sabia-se inteira, irredutível, na sua condição de pedra mutilada. Ela seria apenas a verdade absoluta de ser pedra com desgaste, no instante em que se reconheceu assim.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 10h36 | Comentários (22)

3 de dezembro 2003

Pobre Gente

Dostoievski, antes de ser deportado para a Sibéria, escreveu um livrinho com o título "Pobre Gente".
Só depois vieram "Crime e Castigo", "Os Irmãos Karamasov". O poeta Necrassov, quando acabou de lê-lo, foi ter com Dostoievski e perguntou-lhe; "sabe o que escreveu?"
Não sei se ele respondeu ou não. Agora a minha costela dialéctica: dêem-no a ler, as minhas filhas já o leram. É uma obra-prima. E Fedor ainda não era epiléptico. Isso aconteceu-lhe só depois da partida (o simulacro de fuzilamento). Oiçam os especialistas: "ele escrevia mal o russo; Tolstoi, bem", i Ai sim? A minha mágoa é não termos em língua portuguesa um escritor como qualquer desses.
O que lixou Tolstoi foi a "Sonata a Kreutezer" de Beethoven. Excedia-o, não aguentou aquilo.
Quando lhe apresentei "Pobre Gente", a filha mais nova, depois de o ler, disse-me:
- Papá, a vida pode ser assim entre duas pessoas que se querem tão bem?
- Pode, meu amor. E pior.
Relê-o quando tiveres tempo. É um monumento à humildade humana que o Czar lhe fez...
O pai de Dostoievski, médico e proprietário, foi liquidado por servos dele esmagaram-lhe a cabeça com pedras.
Era Dostoievski que escrevia: "todo o filho deseja a morte do pai". Eu não e também tu, creio-o. Mas o dele...


Sebastião Alba, in Albas


prenda para o Sr. Citador ;)


Lido por dolphin.s às 13h42 | Comentários (48)

Familiaridade com os mortos

Jean-Paul SartreConservo ainda hoje esse vício menor, a familiaridade. Trato esses ilustres defuntos como caloiros: acerca de Baudelaire, de Flaubert, expresso-me sem rodeios e, quando me recriminam por isso, tenho sempre vontade de responder: «Não se metam nos nossos assuntos. Eles pertenceram-me, os vossos génios, tive-os nas minhas mãos, amei-os apaixonadamente, com toda a irreverência. Vou então trazê-los nas palminhas?» Mas do humanismo de Karl, desse humanismo de prelado, livrei-me no dia em que compreendi que todo o homem é o homem
todo. Como são tristes as curas: a linguagem é desencantada; os heróis da pena, meus antigos pares, despojados dos seus privilégios, retornaram às fileiras: visto luto por eles duas vezes.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Lido por dolphin.s às 10h19 | Comentários (25)

2 de dezembro 2003

Definitivamente só

Um dia, em frente ao mar, ele pensou:
Se me apagasse neste preciso instante, o mundo pouco se importaria com isso. No entanto, deixaria de ser o mesmo: seria um mundo com todas as coisas que conheci e toquei, mas sem mim. E eu, algures na morte, é pouco provável que levasse comigo alguma coisa do mundo. Seria um homem morto, sem mundo, definitivamente só.


Al Berto, in O Anjo Mudo, Nunca mais o Lembraremos

Lido por dolphin.s às 20h52 | Comentários (31)

As minhas estranhas dores

Samuel BeckettNessa altura eu não percebia as mulheres. Aliás, agora também não. Nem os homens. Nem os animais. O que percebo melhor, e não é dizer muito, são as minhas dores. Penso-as todas, todos os dias, não demora muito, o pensamento corre tão depressa, mas não estão todas no pensamento, nem todas. Sim, há momentos, especialmente à tarde, em que fico todo sincretista, à la Reinhold, Que equilíbrio! Aliás, também as percebo mal, às minhas dores. Deve ser por causa de eu não ser todo dor. Eis o estorvo. Então elas recuam, ou eu, até que me enchem dê surpresa e espanto, vistas de um planeta, melhor. Não muitas vezes, mas não peço mais. Não é parva nenhuma, a vida. Não ser senão dor, como simplificaria as coisas! Omnidolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. No entanto hei-de falar-vos delas um dia, se me lembrar, se puder, das minhas estranhas dores, em pormenor, distinguindo entre os diferentes géneros, para maior clareza, as do entendimento, as do coração ou afectivas, as da alma (mais bonitas não há) e finalmente as do corpo propriamente dito, primeiro as internas ou latentes, depois as da superfície, começando pelo cabelo e couro cabeludo e descendo metodicamente, sem pressas, até aos adorados pés, lugar dos calos, caibras, frieiras, joanetes, unhas encravadas, pústulas, gangrena, pé boto, pé de pato, pé-de-galo, pé-de-cabra, pé chato, pé de atleta e outras bizarrias. E, aos que tiverem a gentileza de me ouvir, falarei também, na mesma ocasião, de acordo com um sistema inventado já não me lembro por quem, daqueles instantes em que, sem se estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada.

Samuel Beckett in Primeiro Amor

Lido por dolphin.s às 13h40 | Comentários (72)

Que tudo se apague

Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo.
O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu.
A pouco e pouco o seu olhar reinventa um rosto, devassa um coração - a noite põe-se a pulsar, sangra - e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o definitivo silêncio.



Apenas deseja que no momento em que parar o coração -e num movimento derradeiro se confundir ao estrume da terra — tudo se apague: manuscritos, livros impressos, fotografias, cartas, bilhete de identidade, registo de nascimento, etc.
E da sua passagem nada reste, absolutamente nada. Nem mesmo a impressão digital sobre o rosto que o acaso da paixão o fez tocar.


Al Berto, in O Anjo Mudo


Lido por dolphin.s às 10h32 | Comentários (2)

1 de dezembro 2003

Ser homem é saber que se não compreende

Fernando PessoaA metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arredores. Basta-nos, se pensarmos, a incompreensibilidade do universo; querer compreendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que se não compreende.
Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem que o aceite, mas que o não abra. Trazem-me a ciência, como uma faca num prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa se ela não tem senão pó?
Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade alheios conforme as exigências da emoção. Se a emoção é clara e fatal, falo, naturalmente, dos deuses e assim a enquadro numa consciência do mundo múltiplo. Se a emoção é profunda, falo, naturalmente, de Deus, e assim a engasto numa consciência una. Se a emoção é um pensamento, falo, naturalmente, do Destino, e assim a encosto à parede.
Umas vezes o próprio ritmo da frase exigirá Deus e não Deuses: outras vezes, impor-se-ão as duas sílabas de Deuses e mudo verbalmente de universo; outras vezes pesarão, ao contrário» as necessidades de uma rima íntima, um deslocamento do ritmo, um sobressalto de emoção e o politeísmo ou o monoteísmo amolda-se e prefere-se. Os Deuses são uma função do estilo.

Bernardo Soares in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 18h13 | Comentários (5)

Porque criticas os que estão silenciosos

Franz Kafka, Investigações de um CãoPoder-se-ia dizer: atormentas-te por causa dos teus semelhantes, por causa do seu silêncio sobre questões cruciais. Afirmas que eles sabem mais do que reconhecem saber, mais do que consideram válido, e que esse silêncio e a razão misteriosa pela qual é, como é óbvio, tacitamente mantido, envenenam a existência e tornam-na insuportável para ti, de tal forma que tens ou de a mudar ou mesmo de a abandonar. Sim, talvez. Mas como poderias fazer isso, se és um cão e, portanto, também tens toda a sabedoria canina em cima de ti? Sendo assim, deixa de só fazeres perguntas, formula também respostas. Se assim fizeres, quem pensas que se vai opor a ti? O grande coro da espécie canina irá juntar-se ao teu latir, como se tivesse estado à espera de ti desde sempre. Então, terás clareza, verdade, confissão, terás tudo isto sempre que queiras. O tecto desta miserável existência, da qual dizes tanto mal, abrir-se-á, e todos nós, cães, ao lado uns dos outros, ascenderemos ao reino supremo da liberdade. E mesmo que não atinjamos esta meta final, mesmo que as coisas se tornem ainda piores do que anteriormente, se a verdade completa for mais insuportável do que a meia verdade, se se provar que os silenciosos é que têm razão como guardiães da existência, se a frágil esperança que ainda possuímos der lugar a um desespero total, mesmo assim, a tentativa só por si vale a pena, dado que não desejas viver da maneira a que és levado a viver. Portanto, porque criticas os que estão silenciosos quando tu próprio te manténs silencioso? É fácil de responder: porque sou um cão. Portanto, essencialmente, tão encolhido em silêncio como os outros, obstinadamente opondo resistência às minhas próprias interrogações, paralisado pelo medo.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Lido por dolphin.s às 13h21 | Comentários (8)

30 de novembro 2003

Arena


Sebastião Alba- De Pessoa, há uma fotografia, do ano da sua morte, que me vem perseguindo. Matar-se já não é um gesto irrepetível, individual (dirigido contra si próprio). O suicídio começa a ser colectivo, nosso contemporâneo.
- Os pobre-diabos deste mundo (e os donos deles sentam-se ao lado uns dos outros, à nossa vista) só têm uma solução: organizar-se inteligentemente. Ou morrem. Agradeço ao escritor norte-americano Jack London (aventureiro e suicida) o cão de trenó que me deu. É infalível. Quando há uma fenda (neste mundo gelado) estaca, eu aproximo-me dele para ver o que há, e ficamos os dois ali a pensar na rota e na puta da vida.
A vida está com os cornos desembolados; enquanto grandes toureiros a enfrentam, na arena, eu, na fasquia, observo como ela marra. Quero aprender, com eles, a voltear bem a capa, ou a colhida é certa.


Sebastião Alba, in Albas

Lido por dolphin.s às 18h23 | Comentários (19)

da Madeira

Manuel Teixeira GomesEsta pavorosa depressão geológica encerra no círculo das suas muralhas de granito negro, à profundidade de muitas centenas de metros, um vastíssimo e deslumbrante tapete de tintas fundidas a primor em culturas variadas e prósperas. Tal é a surpresa de encontrar assim entregue à monstruosa aglomeração de rochas bravias a guarda daquela maravilhosa alfaia, cujo desenho e colorido somente se explicariam nas combinações duma arte reflectida e consumada, que não sopeamos a fantasia e, à incitação do conjunto fabuloso, para ali trasladamos instintivamente quadros mitológicos, imaginando que ali mesmo se congregaram os exércitos de titãs para ocultar o seu paládio, antes de acometer o céu.



Manuel Teixeira Gomes, in Cartas Sem Moral Nenhuma

àquele que nos trouxe tinto e paio

Lido por jm às 17h47 | Comentários (5)

Envy is an abstraction

hakim beyEnvy is an abstraction because it wants to "take away from." The Evil Eye is its weapon in the psychic/physical world. Against it, then, must stand not another abstraction (such as morality) but the solidest of fleshy realities, the over-abundant power of birth, of fucking, of azure breezes. The amulet we fashion against an entire society of the Evil Eye can be no more & no less than our own life, adamantine as stone & horn, soft as sky.


Hakim Bey, in Evil Eye

Lido por jm às 14h56 | Comentários (3)

Os Livros

Jean-Paul SartreA vida quotidiana era límpida: visitávamos pessoas assentes que falavam alto e bom som, que baseavam as suas certezas em princípios sadios, na sabedoria das nações, e não se dignavam distinguir-se do comum a não ser por um certo maneirismo da alma ao qual eu estava perfeitamente habituado. Apenas emitidas, as suas opiniões convenciam-me por uma evidência cristalina e simplória; se queriam justificar a sua conduta, forneciam razões tão enfadonhas que só podiam ser verdadeiras; os seus casos de consciência, complacentemente expostos, perturbavam-me menos do que me edificavam: eram falsos conflitos resolvidos de antemão, sempre os mesmos; as suas faltas, quando as reconheciam, quase não pesavam: a precipitação, certa irritação legítima, mas sem dúvida exagerada, alterara-lhes o juízo; por felicidade, haviam percebido a tempo; os erros dos ausentes, mais graves, nunca eram imperdoáveis: a maledicência era banida, entre nós, mas verificavam-se, na aflição, os defeitos de um carácter. Eu escutava, compreendia, aprovava, achava tais palavras tranquilizadoras e não estava errado, já que se destinavam a tranquilizar: nada é irremediável e, no fundo, nada se mexe, as vãs agitações da superfície não devem ocultar-nos a calma mortuária que é o nosso quinhão.
As nossas visitas despediam-se, eu ficava só, evadia-me deste cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura nos livros. Bastava-me abrir um deles para redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de uma ideia a outra tão depressa que eu largava a presa cem vezes por página, deixando-a escapulir, aturdido, perdido. Eu assistia a acontecimentos que meu avô julgaria inverosímeis e que, não obstante, possuíam a deslumbrante verdade das coisas escritas.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Lido por dolphin.s às 14h12 | Comentários (0)

28 de novembro 2003

Memória e Recordação

Vergílio FerreiraA memória fácil do homem é apenas a sua recordação. Ela começa para cada um de nós naquilo que desde a infância lhe referenciou a vida. Mas a outra, a memória pura e que é apenas a vertigem das eras, eco de uma voz que transcende os limites do tempo, recuperando-se talvez aí, nesses pontos de referência, instala-nos todavia, porque o momento é de milagre, num passado e num futuro sem limites, reinventa-nos um acorde único, essa música milenária de estrelas e de nada, abre-nos à aparição da vida onde somos um breve ponto perdido, e a memória é assim uma pura vibração para os quatro cantos do mundo, uma pura expectativa de uma interrogação submersa. É então possível vencer a muralha concreta que nos cerca, a realidade imediata, os factos conhecidos ou relembrados, e acordar à distância ilimitada o eco dessa voz que nos transcende. Sim, toda a realidade imediata, mesmo bela, breve perde a beleza: com óculos cor-de-rosa, só se vê o mundo cor de rosa, enquanto dura a lembrança do outro, do que o não era: ao fim de pouco tempo com óculos cor-de-rosa, a cor de rosa não existe...


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 10h41 | Comentários (2)

27 de novembro 2003

Vivemos um entreacto com orquestra

Penso se tudo na vida não será a degeneração de tudo. O ser não será uma aproximação - uma véspera, ou uns arredores.
Assim como o Cristianismo não foi senão a degeneração bastarda do neoplatonismo abaixado, a judaização do helenismo pelo romano, assim nossa época, senil e cancerígena, é o desvio múltiplo de todos os grandes propósitos, confluentes ou opostos, de cuja falência surgiu a era com que faliram.

Vivemos um entreacto com orquestra.

Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas estas sociologias. Tudo isto é-me sonho, como as princesas da Babilónia, e o ocuparmo-nos da humanidade é fútil, fútil - uma arqueologia do presente.

Sumir-me-ei entre a névoa, como um estrangeiro a tudo, ilha humana desprendida do sonho do mar e navio com ser supérfluo à tona de tudo.

Bernardo Soares in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 15h05 | Comentários (57)

Multidão perfeita

Franz KafkaPorque não se deve supor que, apesar de todas as minhas particularidades, aliás bem à vista, estou, seja no que for, isento das leis da minha espécie. De facto, quando penso nela, e tenho tempo e disposição e capacidade suficientes para tal, vejo que a espécie canina é, em todos os sentidos, uma instituição maravilhosa. Além de nós, cães, há todas as espécies de criaturas no mundo, criaturas miseráveis, insignificantes, mudas, criaturas que não têm outra linguagem além de gritos mecânicos: muitos de entre nós, cães, estudam essas criaturas, dando-lhes nomes, tentando ajudá-las, educá-las, elevá-las, etc. Por mim, sou absolutamente alheio a essas criaturas, excepto quando elas tentam perturbar-me, confundo-as umas com as outras, ignoro-as. Porém, uma coisa é demasiadamente óbvia para me ter escapado: como essas criaturas são pouco inclinadas, em comparação connosco, cães, à união, à confraternização, como passam umas pelas outras silenciosamente, indiferentemente e até com uma curiosa hostilidade, como são grosseiros os interesses que bastam para as ligar pouco tempo, numa união conflituosa e como, com frequência, esses interesses provocam ódio. Repare-se, pelo contrário, em nós, cães: pode dizer-se que formamos uma multidão perfeita, todos nós, apesar de sermos diferentes uns dos outros devido às modificações inumeráveis e profundas que se deram entre nós com o decurso do tempo. Todos em bando! Somos atraídos uns pelos outros, e nada pode impedir que satisfaçamos esse impulso comunal. Todas as nossas leis e todas as nossas instituições, as poucas que ainda agora conheço e as muitas que já esqueci, correspondem a essa ânsia da maior bem-aventurança de que somos capazes; o conforto caloroso de estarmos juntos. Todavia, atentem agora no outro lado do quadro. Que eu saiba, não há criaturas que vivam em tão vasta dispersão como nós, cães, mais nenhumas têm tantas distinções de classe, de raça, de ocupação, distinções demasiado numerosas para serem apreendidas assim de repente.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Lido por dolphin.s às 11h20 | Comentários (2)

26 de novembro 2003

Não sou um chefe


Jean-Paul Sartre - Les MotsNão sou um chefe, nem aspiro a sê-lo. Comandar e obedecer dão no mesmo. O mais autoritário comanda em nome de outro, de um parasita sagrado - seu pai -, e transmite as abstractas violências de que padece. Nunca na minha vida dei ordens sem rir, sem fazer rir; é que não estou roído pelo cancro do poder; não me ensinaram a obediência.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras


Lido por dolphin.s às 13h40 | Comentários (21)

Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio

Samuel BeckettA coisa que mais me interessava no meu reino sem súbditos, em relação à qual a disposição da minha carcaça era o mais distante e fútil dos acidentes, era a supinação cerebral, o embotamento do ser e daquele resíduo de bugigangas irritantes a que se chama o não-ser, ou até, por preguiça, o mundo. Mas mesmo hoje em dia, aos vinte e cinco anos, o homem está à mercê de uma erecção, fisicamente também, uma vez por outra, é o que cabe a cada um, nem eu estava imune, se é que se pode chamar àquilo uma erecção. Ela naturalmente apercebeu-se, as mulheres cheiram um falo no ar a mais de dez quilómetros e perguntam-se: Como é que ele me conseguiu ver dali? Um tipo deixa de ser ele próprio, nessas alturas, e é doloroso não ser ele próprio, ainda mais doloroso do que quando o é, digam o que disserem. Porque, quando se é, sabe-se o que é preciso fazer para ser menos, mas, quando já não se é, é-se um tipo qualquer, irremediavelmente. Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio, com um postal de casa de vez em quando, eis o meu pensamento para esta noite.

Samuel Beckett in Primeiro Amor

Lido por dolphin.s às 10h45 | Comentários (20)

25 de novembro 2003

Nada sei de quem me amou

Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida — e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício — a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris — só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.
E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta

Lido por dolphin.s às 13h36 | Comentários (11)

Incêndio

O dia afoga-se, lentamente, na treva do mar.
Deitas-te, então, ao lado do morto que ainda não és. E dele se liberta um anjo mudo que vem habitar o teu corpo.
A vida, como sabes, tem o tempo da areia que se escapa por entre os dedos. Areia rápida e branca. Esvoaçante.
Agora, a ausência - a tua - é um rosto silencioso. E a tua mão está enterrada no tesouro das horas.
Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue. Nada se move dentro ou fora de ti, excepto o vento no interior dos ossos...
Corpo aéreo, azulínea música rente à claridade da pele.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Lido por dolphin.s às 10h31 | Comentários (60)

24 de novembro 2003

Uma ligeira sensação de desconforto

Franz Kafka, Investigações de um CãoComo a minha vida mudou e, no entanto, como se manteve imutável! Quando recuo em pensamento e evoco o tempo em que ainda era um membro da comunidade canina, partilhando de todas as suas preocupações, o tempo em que era um cão entre cães, descubro, se me detenho a examinar mais de perto, que senti sempre uma certa divergência, um certo mal-estar, uma certa inadaptação, algo que causava em mim uma ligeira sensação de desconforto que nem as mais edificantes funções públicas conseguiam eliminar. Mais, às vezes, às vezes não, frequentemente, o mero olhar de qualquer companheiro do círculo que frequentava e de que me orgulhava, o simples facto de deparar com ele, como se o visse pela primeira vez na vida, enchia-me de nervosismom perturbava-me a tal ponto que até me sentia indefeso e com medo, chegando mesmo a desesperar. Esforçava-me por aquietar as minhas apreensões o melhor que podia e os amigos a quem as confessei ajudaram-me. Vieram tempos de maior tranquilidade. Tempos em que, é certo, não faltavam essas súbitas surpresas, mas em que as aceitava mais filosoficamente, em que se integravam na minha vida de uma maneira mais imparcial, provocando talvez uma certa melancolia e uma certa letargia, mas mesmo assim permitindo-me continuar a ser um cão bastante normal, se bem que frio, retraído, inibido e calculista. Como teria podido, aliás, sem esses intervalos de convalescença, atingir a idade de que presentemente gozo? Como teria podido alcançar esta serenidade com que agora contemplo os terrores da juventude e suporto os terrores da velhice?


Franz Kafka in Investigações de um Cão

Lido por dolphin.s às 10h43 | Comentários (12)

23 de novembro 2003

Biblioteca pessoal

um homem chegado à maturidade já extraiu dos livros tudo o que é possível tirar deles: a ilusão e a dúvida. Não se pode andar eternamente com a biblioteca às costas, como um caracol; a única biblioteca pessoal que um homem pode ter é a da memória - a quintessência, o resíduo.


Danilo Kiss in Enciclopédia dos Mortos, O Livro dos Reis e dos Tolos

Lido por dolphin.s às 13h56 | Comentários (9)

22 de novembro 2003

Longe do olhar dos outros

Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.
Desce ao âmago desta cela. Debruça-te para o interior do meu vazio.
Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo — porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte.
Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado. O teu corpo fundiu no silêncio do meu.
Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo. Abandonamos a alma. Esquecemo-nos.
Nada sentimos, nenhum acto se realiza. Nenhuma alegria ou tristeza. Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.
Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos. Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade.
Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela. Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Lido por dolphin.s às 15h56 | Comentários (36)

21 de novembro 2003

E são sombras

Fernando PessoaRemoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos vêem desatentamente, e construo cm mim essa imagem áquea que, melhor que qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.
Ao escrever esta última frase, que para mim exactamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das «Errata» umas «Não-Errata», c dizer: a frase «a este incerto movimentos», na página tal, é assim mesmo, com as vozes adjectivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros eléctricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. Á roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos.
E são sombras, sombras...


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 10h39 | Comentários (1)

20 de novembro 2003

Instalado em Indiferença

Vergílio FerreiraO mistério e o seu alarme são o tecido de tudo. Mas como o ignoramos! Estamos instalados na vida como se nós próprios não existíssemos, como se fôssemos o próprio mundo que existe, a própria realidade que é, a sua presença absoluta de estar sendo. E a simples reflexão de que é o mundo que depende de nós, de que a sua maravilha está suspensa, para nós, do nosso olhar, dá-nos vertigens. Que admira que uma pequena invenção técnica nos perturbe, nos abra a velha interrogação? Eis que depois de abarcarmos a terra, de a colocarmos na mão como a pequena bola de um deus poderoso, depois de nos confrontarmos nas nossas raças, nos nossos sonhos milenariamente solitários, depois de esgotarmos a nossa procura mútua, eis que acabamos de rasgar os espaços até lá de onde a nossa imaginação descobre o vazio que nos circunda, descobre, num arrepio, o nosso pobre globo perdido na poeirada dos astros, recorda, com uma nova evidência, a infinitude das distâncias que o unem ao universo. E uma vez mais a velha angústia de um Lucrécio, de um Pascal, em face da eternidade da noite, nos desvaira de aflição. Possivelmente, meu amigo, quando esta carta te chegar às mãos, se chegar, estarás tu já instalado em indiferença no meio de quanta nova invenção que não sabemos nem imaginamos.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 14h00 | Comentários (9)

Declaração Divina

Certas noites dava uma volta por Pigalle e estudava miudamente os cartazes nas casas de strip-tease. Absorvia a nudez retratada das actrizes como se absorve um plasma forte. Elas eram intérpretes de Deus. Via nesses corpos uma declaração divina, e o jogo espectacular do que chamam vícios era uma espécie de escrita manifesta, uma alusiva visibilização de Deus. E tudo isso me era dado como um caminho de conhecimento, uma complexa viabilidade. Todas as putas de Pigalle eram minhas mães; a carne fotografada, tornada viva em mim pelo enredo da comoção, era a carne--mãe, a matéria fundamental da terra. Deus instigava-me e amparava-me na descoberta e, posteriormente, na magnificação e glorificação do mundo.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta

Lido por dolphin.s às 10h36 | Comentários (55)

19 de novembro 2003

Quarto de pensão

Al BertoHá quanto tempo viajamos? Para quê? se já não reparamos nas paisagens.
Atravessámo-las da mesma maneira que a solidão nos obrigou a percorrer essas outras paisagens de cinza que sobrevivem na memória.
Viajamos porque é necessário enfrentarmos o desamparo dos dias, ao mesmo tempo que procuramos um lugar para descansar e nele ansiarmos por um regresso.
Um nome, um nome apenas, evocando alguém, um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente para avançar pela noite dentro, esperar a morte, ou iniciarmos o regresso...
Alugámos um quarto. Pernoitaremos aqui. Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar, existe uma ilha. Vê-la-emos ao amanhecer.
Chegámos à aldeia ao lusco-fusco. Entrámos nela por um largo onde uma rua se abre em direcção ao mar.
A enseada que serve de porto de abrigo avança pela terra adentro. Fecha-se como uma mão à tempestade. É um lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma.
Mas não há lágrimas na verdadeira tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria fundas, escuras, como as minas escavadas, ano após ano, para procurar um veio de ouro.
Lá fora, nas ruas e nos largos, uma luminosidade diáfana coalha, suavemente, nas mãos antigas das mulheres.
— Quem chega, etéreo, do outro lado da linha do horizonte? Quem toca as minhas pálpebras fechadas? Onde se ergue o silêncio dos dias queimados pela paixão? Quem está sobre a minha boca, com este ardor a sal?
Ouve-se o mar, longe daqui, e eu digo:
- Andei tempo a mais pelas ruas. Vivi nelas ao sabor do vento. Dormi em casas abandonadas, e nunca conheci ninguém que me amasse.
Encostando-se ao vidro da janela, a Helena diz:
— E se nos calássemos enquanto a memória se esvazia. Está tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, terá um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas. Não sei... está tudo ainda por acontecer.


Al Berto, in O Anjo Mudo (© Assírio & Alvim)

Lido por dolphin.s às 17h35 | Comentários (4)

18 de novembro 2003

Devagar...

Devagar, ele sentia que a imagem do rosto dela era como a linha que, devagar, desenha os montes de encontro ao céu na hora em que a última luz é o contorno das montanhas. Ela, devagar, sentia que a imagem do rosto dele era como uma montanha, o corpo gigante e seguro de uma montanha, desenhado de encontro ao céu pela última luz. Durante um momento de terra, de sol e de julho, ele e ela sentiram que eram tocados por qualquer coisa grandiosa. E cada um levou esse instante dentro de si.


José Luís Peixoto, in Antídoto

Lido por dolphin.s às 16h01 | Comentários (26)

Estou só no mundo

Fernando PessoaVista de perto, toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luís de Sousa escrevia «o comum com singularidade». Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim para aqui sem razão, como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas que para aqui o oculta. O céu é ide um azul humidamente esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado oriental da Praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê, é assim a frase que me transmite aquele som. É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica.
De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam - só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 10h32 | Comentários (28)

17 de novembro 2003

Aparição da verdade

Vergílio FerreiraHá uma distância infinita entre a aparição da verdade, a imediata evidência de seja o que for, e até mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evidência pela segunda vez, já ela está alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque nós ignoramos ou esquecemos depressa a face do que há de estranho nos factos mais banais: no da vida, da morte. Assim nos surpreendemos até ao absurdo, até à incredibilidade, quando nos morre um parente, um conhecido, ou seja, de algum modo, uma fracção de nós; e só admitimos que ele tenha de facto morrido quando definitivamente se afastou para o passado, saiu do nosso mundo, deste mundo estável, harmónico, regular, e faz já parte das sombras indistintas de outrora, é, em suma, uma ficção: só entendemos a morte quando a sabemos de cor, quando ela não significa já a aniquilação de uma vida como a nossa, mas é apenas as margens desta vida e que a prolongam, o nada que nunca a ela pode aceder, a pode pôr em causa, quando ela é o contorno que lhe não altera a sua (a nossa) perenidade.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro (© Bertrand)

Lido por dolphin.s às 16h00 | Comentários (12)

16 de novembro 2003

Inspiradora solidão nocturna

Herberto HelderComecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta

Lido por dolphin.s às 17h16 | Comentários (5)

15 de novembro 2003

As sombras da cidade

Al Berto

Caminho, as sombras da cidade vão revelando, pouco a pouco, rostos que despertam para a noite, gestos cúmplices, corpos, atrevimentos inesperados, danças, seduções...
Caminho pela cidade que se oferece à voluptuosidade do olhar. Ao fundo das ruas e das escadinhas, no âmago da noite, o Tejo - essa presença invisível que, por vezes, nos aflora os ossos com seu canto de ternas neblinas.
E vou de beco em beco, de bar em bar, de aroma em aroma, de olhar em olhar - conheço a cidade como conheço as linhas das minhas mãos.
Percorro-a, há anos, como se esperasse não sei bem o quê - como se nessa espera, um dia, acabasse por se me revelar uma outra cidade, ou um rosto se me incendiasse nos dedos, ou uma ruela apercebida ao fundo de um sonho se chamasse Travessa da Espera, ou uma paixão qualquer, ali ao Príncipe Real, me magoasse o coração...


Al Berto, in O Anjo Mudo, Lisboa (© Assírio & Alvim)

Lido por dolphin.s às 18h57 | Comentários (4)

Sonhar de sonhar

Fernando PessoaNão sei que vaga carícia, tanto mais branda quanto não é carícia, a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à compreensão. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.
Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranquilidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro subitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem continuação.
Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objectividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efectivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele.
Tudo quanto amamos ou perdemos - coisas, seres, significações - nos roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder perder tudo esplendidamente.


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego


Lido por dolphin.s às 16h00 | Comentários (5)

Realidade Imediata

Ah, a realidade imediata reconforta, nem que seja a realidade de uma pedra que nos atirem. Porque uma pedra é consistente, conhece-se, sem alarme, na dureza com que nos cria as próprias mãos, nos define, sem sombras, a cabeça que nos feriu, o sangue que nos inundou a face. As pedras constroem-nos a rua que pisamos e onde podemos sentir-nos vivos dessa vida imediata que sabe o donde e o para onde, dessa vida articulada como engrenagem certa de relógio, a cujo rumor compassado pode até apetecer dormir...

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 12h33 | Comentários (16)

14 de novembro 2003

O Prazer de fazer Sofrer

Friedrich NietzsceÉ nesta esfera, ou seja, no direito de obrigações, que nasceu o mundo dos conceitos morais: «culpa», «consciência», «obrigação», «carácter sagrado do dever».
E não será de acrescentar que esse mundo dos conceitos morais afinal nunca mais deixou de ter um certo cheiro a sangue e a tortura?... Assim acontece até no velho Kant: o imperativo categórico cheira a crueldade... Foi nessa esfera, também, que pela primeira vez se urdiu a trama sinistra que liga — talvez inextricavelmente — «culpa e sofrimento». Perguntemos uma vez mais: em que medida pode o sofrimento constituir uma compensação das «dívidas»? Precisamente na medida em que fazer sofrer proporciona um grau elevado de satisfação, isto é, na medida em que o lesado trocava o seu prejuízo — incluindo o desprazer provocado por esse prejuízo — por um contraprazer invulgar: o de fazer sofrer...


Friedrich Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral (© Relógio d'Água)

Lido por dolphin.s às 19h55 | Comentários (2)

Todos nós somos, por vezes, estúpidos

Todos nós somos, por vezes, estúpidos; por vezes também, somos constrangidos a agir cegamente ou semicegamente, sem o que o mundo se deteria; e se alguém retirasse dos perigos da estupidez esta regra: "Abstém-te de julgar e de decidir cada vez que te faltam informações", ficaríamos imobilizados! Mas essa situação hoje muito generalizada, recorda outra que conhecemos há muito, no domínio intelectual. Com efeito, como o nosso saber e o nosso poder são limitados, estamos reduzidos, em todas as ciências, a enunciar juízos prematuros; mas desde que estejamos atentos, como nos ensinaram, para manter este defeito em certos limites e corrigindo-o logo que possível, isso restitui ao nosso trabalho uma certa exactidão. Nada, com efeito, se opõe à possibilidade de transferir para outros domínios esta exactidão e esta orgulhosa humildade do juízo e da acção; e eu acredito que o preceito: "Age tão bem como possas e tão mal como tem de ser, permanecendo consciente das margens de erro da tua acção!" representa já, no caso de ser seguido, metade do caminho em direcção a uma reforma verdadeiramente fecunda da nossa vida.

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 14h32 | Comentários (5)

13 de novembro 2003

O Sentido da vida

Herberto Helder— Ele pareceu não entender a alusão. Voltou para mim o rosto irónico e perguntou:
— A que se referia?
— À morte — respondi.
— Sim, eu também falava da morte. Mas surpreendeu-me que você estivesse a pensar no mesmo.
— Pensamos todos no mesmo a partir de certa altura.
— Talvez — murmurou, e a voz tinha uma ponta de orgulho. — Mas nem todos de igual maneira. Sou forte. Por isso é que penso nela. Detesto a fraqueza que se remedeia na imaginação, nas hipóteses. Não creio em nada. Não desejo crer em nada.
— Pensa que vai morrer quando quiser?
Olhou-me em cheio, sorriu. Tinha uma viva e nobre cabeça de homem antigo. Parecia saber muito. Não devia acreditar em nada. Notava-se no olhar culto e virilmente triste.
— É isso. Trabalho na minha morte. Um homem verdadeiro tem direitos e deveres para com a sua morte. Sabe que estou a construir uma casa?
— Sim, já mo disse.
— Conhece o sítio? — E as palavras subentendiam ramificações de sentido, outras intenções. Mas a voz era imperturbável. Este homem morreria da sua morte, dentro dela.
— Conheço. Fica na outra costa da Ilha. Há a montanha sem árvores. Pedras e urzes. Pavoroso. Defronte fica o mar. O mar lá é bravio.
— É água cinzenta e branca. E atrás há a grande montanha por onde só andam cabras. Mas na planície, à direita, crescem as árvores onde o vento do mar vem bater. De noite tudo aquilo vibra e uiva. E a terra arenosa estende-se pelo outro lado fora. Quando há tempestade é de uma beleza diabólica. Bom para nos sentirmos sós, para saber se ainda existe o orgulho do medo.
— Compreendo que construa aí a sua casa.
— Construo a casa muito devagar. É a minha última tarefa. Forço os operários a trabalhar lentamente. Estão espantados. O capataz supõe que sou louco. Nunca custou tão caro uma casa de um só piso. Quando ficar pronta já nada mais terei a fazer. Seria estúpido procurar sobreviver-me. Sou um homem sensato. É de sangue. Meu avô correu mundo e veio morrer na cama onde nascera. Meu pai andou pelas guerras depois de me ter gerado, e lá morreu. Homens que fizeram uma tarefa e nela puseram o sentido da sua vida. E deram-se por cumpridos, e regressaram ou morreram. Sabedoria, não é?

Herberto Helder, in Os Passos em Volta, O Quarto

Lido por dolphin.s às 13h32 | Comentários (33)

12 de novembro 2003

O dinheiro será o imperador

Montanha MágicaDo facto de que todo o poderio e todo o governo pertenciam primitivamente ao povo, e que este transmitiu o seu direito de legislação e a totalidade de seu poder ao Estado, ao Príncipe, conclui a sua escola, antes de mais nada, que o povo tem o direito de rebelar-se contra a realeza. (...)
—Nós, porém—continuou Naphta—talvez não sejamos menos revolucionários do que o senhor. Sempre concluímos desse facto, em primeiro lugar, a supremacia; da Igreja sobre o Estado secular. Porque, se a origem não divina do Estado não estivesse escrita na sua testa, bastaria recordar precisamente o facto histórico dele derivar da vontade do povo e não, como a Igreja, de uma fundação de Deus, para demonstrar que ele é, se não uma obra do Demónio, pelo menos um produto da emergência e da imperfeição pecaminosa.
—O Estado, senhor...
—Já sei o que o senhor pensa do Estado nacional. «Acima de tudo o amor à Pátria e o infinito desejo de glória!» A frase é de Virgílio. O senhor corrige-o com o acréscimo de um pouco de individualismo liberal, e surge a Democracia. Mas isso não modifica em princípio as suas relações com o Estado. O senhor não parece chocar-se com a circunstância, de que a alma do Estado é o dinheiro. Ou tenciona, acaso, desmenti-la? A Antiguidade era capitalista, devido ao seu culto do Estado. A Idade Média cristã percebeu com toda a clareza o capitalismo imanente do Estado secular. «O dinheiro será o imperador», é uma profecia do século xi. O senhor nega que ela já se cumpriu integralmente e que a vida se tornou, em si mesma, demoníaca?


Thomas Mann, in Montanha Mágica

Lido por dolphin.s às 10h36 | Comentários (7)

11 de novembro 2003

A estupidez honesta

Robert MusilNa vida de todos os dias entende-se geralmente por homem estúpido alguém que é "um tanto fraco da cabeça". Mas existe uma grande variedade de anomalias intelectuais e psíquicas capazes de entravar, contrariar, desencaminhar até uma inteligência naturalmente intacta, que se chega finalmente, mais uma vez, a qualquer coisa para a qual a linguagem não dispõe ainda, uma vez mais, de outra palavra que não a de estupidez. Este termo engloba, pois, duas espécies no fundo muito diferentes: uma estupidez honesta, simples, e uma outra que, muito paradoxalmente, pode mesmo ser um sinal de inteligência. A primeira diz respeito sobretudo a uma fraqueza geral do entendimento, a segunda a uma fraqueza deste em relação a um objecto particular; é, de longe, a mais perigosa.
A estupidez honesta é um pouco lenta em compreender, não tem a "compreensão fácil", como se diz. Pobre em representações e em vocabulário, não sabe muito bem como se servir dele. Prefere o banal, cuja frequência torna a assimilação mais fácil; e quando assimila qualquer coisa, não tem muita predisposição para consentir que lha retirem logo em seguida, nem para permitir que a analisem, ou para jogos de ambiguidade em relação a ela. Tem, de resto, uma boa parte das "faces felizes" da vida! Parece sem dúvida muitas vezes confusa na sua reflexão, facilmente paralisada por qualquer nova experiência; de imediato, agarra-se ao que é acessível aos sentidos, àquilo que ela pode, de algum modo, contar pelos dedos. Numa palavra, é a brava "pura estupidez"; e se ela não se mostrasse por vezes desesperadamente crédula, confusa e incorrigível, seria um fenómeno absolutamente agradável.

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 14h22 | Comentários (31)

Prisão de ventre

Samuel BeckettUm dia, ao voltar da casa-de-banho, encontrei o meu quarto fechado à chave e as minhas coisas empilhadas em frente da porta. Isto pode dar-vos uma ideia da prisão de ventre com que eu estava na altura. Estou agora convencido que era por causa da ansiedade. Mas estaria eu realmente com prisão de ventre? Não acredito. Calma, calma. No entanto devia estar, senão como justificar aquelas longas, aquelas atrozes sessões na retrete? Nessas alturas eu nunca lia, nem nas outras; não me punha a divagar ou a meditar, limitava-me a olhar distraído para o almanaque pendurado num prego à minha frente, com a imagem a cores de um rapaz de barbas rodeado de ovelhas. Devia ser Jesus; afastava as nádegas com as duas mãos e fazia força: um! hmm! dois! hmm!, com movimentos de remador, e só com uma ideia na cabeça, voltar ao meu quarto e deitar-me de costas. Era mesmo prisão de ventre, ou não? Ou estou a confundir com diarreia? Tudo se mistura na minha cabeça, campas e núpcias e os diferentes tipos de evacuações. Com os meus parcos haveres tinham feito um montinho, no chão, encostado à porta. Parece que ainda o estou a ver, naquela espécie de recanto cheio de sombra que separava o corredor do meu quarto. Foi neste espaço estreito» resguardado apenas de três lados, que tive de mudar de roupa, ou seja, trocar o robe e a camisa de noite pelo meu fato de viagem, ou seja, sapatos, meias, calças, camisa, casaco, sobretudo e chapéu, espero não me estar a esquecer de nada. Experimentei outras portas, rodando a maçaneta e empurrando, ou puxando, antes de sair de casa, mas nenhuma cedeu. Se tivesse encontrado uma aberta acho que me tinha barricado lá dentro, só com gás é que me tiravam dali. Sentia a casa apinhada como de costume, mas não via ninguém. Imaginei-os fechados nos respectivos quartos, de ouvidos bem atentos. Depois todos a correr para as janelas, um pouco a medo, escondidos pelos cortinados, com o barulho da porta da rua a fechar-se; devia tê-la deixado aberta. E então são portas que se abrem e toda a gente sai, homens, mulheres, crianças, cada um do seu quarto, e as vozes, os suspiros, os sorrisos, as mãos, as chaves nas mãos, um alívio enorme, e depois o recapitular das precauções, se isto então aquilo, mas se aquilo então isto, uma autêntica festa, todos perceberam, p'rá mesa, p'rá mesa, a desinfestação pode esperar.


Samuel Beckett, in Primeiro Amor
tradução de Fracisco Frazão, © Ambar

Lido por dolphin.s às 10h34 | Comentários (6)

10 de novembro 2003

O mais poderoso instrumento da mnemónica

Friedrich Nietzsche«Para que uma coisa permaneça, aplica-se com ferro em brasa! Só fica na memória o que não pára de doer.» Eis um dos princípios da mais antiga psicologia (e também da mais duradoura, infelizmente). Dir-se-ia mesmo que, neste mundo, onde quer que encontremos, na vida de um homem ou de um povo, alguma coisa de solene, de grave, de secreto, debaixo de sombrias cores, é porque aí continua a agir algo do terror com que noutros tempos em toda a parte se praticava o acto de prometer, de empenhar a palavra, de jurar. Cada vez que a nossa atitude se torna «grave», é o passado que nos inspira e se agita dentro de nós, o passado mais longínquo, mais profundo e mais doloroso. Sempre que o homem entendeu que era preciso constituir memória, nunca o conseguiu fazer sem sangue, sem martírio, sem sacrifício. Os votos ou sacrifícios mais aterradores (nomeadamente o sacrifício dos primogénitos), as mutilações mais repugnantes (por exemplo, as castrações), os rituais mais cruéis que integram todos os cultos religiosos (e as religiões são todas elas, no seu fundamento mais radical, sistemas de crueldade), tudo isso tem origem nesse instinto que encontrou na dor o mais poderoso instrumento da mnemónica.
Quanto pior a «memória» dos homens, mais horrível o aspecto dos seus costumes: em particular a dureza de um código penal permite avaliar o grau de esforço aplicado para chegar ao triunfo sobre o esquecimento e para manter presentes — aos olhos dos escravos do momento, do afecto e do desejo imediato — algumas exigências primitivas do viver social.
Os Alemães, usando de terríveis meios, constituíram uma memória para poderem dominar os seus instintos plebeus básicos, brutais e grosseiros: pense-se nos antigos suplícios alemães, por exemplo, a lapidação (já a lenda falava de uma mó que esmagava a cabeça do culpado), a roda (a mais original invenção, autêntica especialidade do génio alemão no reino das punições), a empalação, o esquartejamento e o esmagamento por cavalos, a imersão do condenado em azeite ou vinho a ferver (ainda utilizada nos séculos xiv e xv), os apreciados esfolamentos, a excisão das carnes do peito, a exposição do malfeitor ao sol escaldante e às moscas depois de coberto de mel. Com o auxílio de tais procedimentos e imagens fazia-se com que se conservassem na memória cinco ou seis ideias do tipo «não quero isto», relativamente às quais ficava feita uma promessa que permitia ao indivíduo viver dentro das vantagens da sociedade... A realidade é esta: foi com o auxílio desta espécie de memória que acabou por se chegar à «razão»!... Ah! A razão, a gravidade, o domínio sobre os afectos, esta coisa sombria a que se chama «reflexão», toda esta panóplia de privilégios pomposos que o homem detém... que preço exigiram! Quanto sangue, quanto horror está na base de todas as «coisas boas»!


Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

Lido por dolphin.s às 13h45 | Comentários (10)

9 de novembro 2003

Sinto com o pensamento

Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar.
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la. A paisagem, tão admirável como quadro, é em geral incómoda como leito.

Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 20h24 | Comentários (13)

O teu cabelo

Herberto Helder

Eu digo: o teu cabelo. Ela está agachada junto à cama, procurando um sapato que se extraviou. Ergue a cabeça, de lado, e os olhos lentos e confusos parecem indagar desamparadamente. Estas pequenas prostitutas ficam diante de mim desprovidas quase de qualidades humanas. Possuem o corpo, máquina de algum talento, enquanto a minha solidão continuamente se exerce e cria uma zona intensa, extrema, atravessada por outras presenças, estranhas criaturas calorosas que aparecem e desaparecem, que se substituem, sem atingirem nunca uma forma definitiva. Criaturas incertas, mas verdadeiras. Expressões de uma nebulosa aspiração. Que alcançariam as palavras num dia suposto. Ou me tocariam à noite, ao pé de uma lâmpada íntima, e deste modo provocariam em mim, pela memória, densas associações, frémitos, o sentimento da alegria ou da proximidade da morte. O meu cabelo? — pergunta ela. Está ainda nua. Os joelhos, os seios, os ombros, os sombrios olhos atónitos — são realmente belos. E eu sorrio como se me desculpasse. Devo dizer: não sou puro. Talvez deva dizer: quando murmurei essa frase que se poderia confundir com um apelo ou um repentino e insustentável movimento da emoção («o teu cabelo»), não pensava, não sentia nada. Eis a verdade: sou uma criatura devastada pelo egoísmo.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Duas Pessoas (© Assírio & Alvim)

Lido por dolphin.s às 16h01 | Comentários (26)

Chove

Vergílio FerreiraChove. A fúria do vento não cessa. Batida pela sua vergasta, a chuva esparrinha na vidraça, varre a rua de lembranças concretas. E uma memória antiga, pesada de augúrio, levanta-se-me no seu clamor, memória escura, anterior à vida. Assim o que relembro não tem face nem nome, é a forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição. Num longe imaginado, passam os ventos em linha, massas de névoa deslizam sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa. O que é certo e imediato, o que me vem à boca e tem nome, o que é exacto e mensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio, porque a voz obscura que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação. Nesta hora absoluta, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo...

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 12h30 | Comentários (20)

8 de novembro 2003

Que é a vida se lhe tirardes os prazeres? (Fala a Loucura)

Erasmo de RoterdãoNa realidade, que é a vida, se lhe tirardes os prazeres? Merece, então, o nome de vida? Aplaudi-me, meus amigos. Ah! eu sabia que éreis demasiadamente loucos, isto é, demasiadamente sábios, para não serdes da minha opinião... Os próprios estóicos amam o prazer; não o saberiam odiar. Bem dissimulam, bem tentam difamar a volúpia aos olhos do vulgo, cobrindo-a das injúrias mais atrozes, mas isso não passa de simples esgares, pois tratam de afastar os outros, para eles próprios a poderem gozar com maior liberdade. Mas, em nome de todos os deuses, dizei-me, então, qual é o instante da vida que não é triste, aborrecido, enfadonho, insípido, insuportável, se não for misturado com o prazer, isto é, com a loucura. Podia contentar-me com o testemunho de Sófocles, esse grande poeta, jamais suficientemente louvado, e que de mim fez um tão belo elogio, quando disse: A vida mais agradável é a que se vive sem espécie alguma de prudência. Mas examinemos o caso pormenorizadamente.
Antes de mais nada, quem negará a verdade, de que a infância, essa primeira idade do homem, é a mais alegre e a mais encantadora de todas as idades? Amam as crianças, beijam-nas, abraçam-nas, acarinham-nas, tomam cuidado com elas; o próprio inimigo não poderá deixar de as socorrer. Como explicar tudo isto? É que, desde o instante em que nascem, a natureza, essa mãe prudente, espalha à sua volta uma atmosfera de loucura, que encanta os que as criam, os liberta das suas mágoas, e atrai sobre estes pequeninos seres a generosidade e a protecção que necessitam.
E a idade que sucede à infância, que encantos não tem aos olhos das gentes? Com que ardor se interessam por favorecê-la, ajudá-la, socorrê-la! Ora, quem dá, a essa idade encantadora, as graças que a fazem tão querida? Quem lhas dá, senão eu? Afasto dos jovens a sabedoria importuna, e espalho sobre eles o encanto sedutor dos prazeres. E, para que vos não convenceis que estou a falar um tanto no ar, considerai os homens, depois de terem atingido todo o seu crescimento, e quando a experiência das lições sofridas começou a incutir-lhes certa prudência. Assim que a beleza começa a fanar-se, a alegria acaba, as forças diminuem, as graças passam. À medida que se vão afastando de mim, a vida abandona-os, cada vez mais, até que, por último, chegam a essa velhice tão triste que é encargo para o próprio e para os outros.
E, na verdade, não há mortal algum que possa suportar essa velhice, se as misérias da humanidade não me fizessem, uma vez mais, ir em seu auxílio. Tal como os deuses dos antigos poemas, que, quando os mortais estão prestes a perder a vida, os favorecem com qualquer metamorfose, eu também modifico os velhos que estão à beira do túmulo, e arrasto-os, tanto quanto me é possível, para a feliz idade da infância.
Se há alguém que queira saber por que processos opero esta metamorfose, não faço disso mistério algum. Levo-os à nascente do Letes, que é nas Ilhas Afortunadas (porque nos Infernos corre só um pequeno afluente deste rio); aí, faço-os beber, a largos tragos, o esquecimento de todas as misérias desta vida. As suas inquietações e as suas tristezas dissipam-se, a pouco e pouco, e assim rejuvenescem.
Mas, dir-me-eis, talvez, que pode acontecer que eles se excedam, que façam asneiras. Sem dúvida. E é a isso que se chama recair no estado infantil. Fazer disparates, fazer tolices, não é voltar de novo à infância?
Não é pela falta de razão que esta idade nos diverte e nos encanta? Na realidade, uma criança que fosse tão prudente como um homem já feito, não seria detestada por todos, não seria em toda a parte tida como um monstro? O provérbio tem razão, quando diz: Detesto nas crianças a seriedade prematura.
Quem poderia suportar a convivência de um velho que tivesse tanta presença de espírito como reflexão e experiência? Sou eu, portanto, que concedo ao velho o delírio que o faz disparatar; mas, ao mesmo tempo, é um delírio feliz que o afasta para longe de todas as inquietações, de todas as tristezas que atormentam o homem prudente. Agradável conviva, ele ainda sabe, com um copo na mão, festejar os seus amigos. Vive com alegria e mal sente o fardo da existência, que os mais robustos com dificuldade suportam.

in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Lido por dolphin.s às 16h43 | Comentários (4)

Como o sangue...

Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.


José Luís Peixoto, in Antídoto, Dentro e Sobre os Homens

Lido por dolphin.s às 12h00 | Comentários (9)

7 de novembro 2003

Consciência da Culpa

Friedrich NietzscheMas então como é que veio ao mundo essa outra «coisa sombria» que é a consciência da culpa, tudo aquilo a que se chama «má consciência»?... (...)Será que esses senhores que até hoje têm vindo a ocupar-se da genealogia da moral já alguma vez imaginaram que, por exemplo, um conceito tão importante no âmbito da moral, como é o de «culpa» [Schuld], deve a sua proveniência a um conceito intimamente ligado à vida material que é o de «dívidas» [Schulden]? Ou que a noção de castigo, enquanto compensação, se desenvolveu totalmente à margem de qualquer pressuposto relativo à liberdade ou à não-liberdade da vontade?...
Durante a maior parte da história do homem, os castigos não eram aplicados por se considerar que o malfeitor fosse responsável pelo seu acto, ou seja, não pressupunham a ideia de que só se castiga alguém que é culpado. Pelo contrário, à semelhança dos castigos que ainda hoje os pais aplicam aos filhos, punia-se alguém por cólera provocada por um prejuízo sofrido, cólera essa que era descarregada sobre o agente do prejuízo..., mas colocando-a ao mesmo tempo dentro de limites, modificando-a por intermédio da ideia de que qualquer prejuízo tem algures um equivalente, de modo que pode sempre ser compensado, nem que seja através de uma dor infligida ao autor do prejuízo. E onde será que essa ideia de equivalência entre um prejuízo e uma dor — ideia tão antiga, tão fundamente enraizada, talvez ainda hoje inextirpável — foi buscar o poder que exerce? A resposta já está indicada: foi buscá-lo à relação contratual entre o credor e o devedor, tão velha como a existência de «pessoas jurídicas» e que por seu turno remete novamente para essas formas fundamentais que são a compra, a venda, a troca, em suma, as transacções.

Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

Lido por dolphin.s às 13h52 | Comentários (58)

A mais perigosa das doenças de espírito

Não existe um único pensamento importante que a estupidez não saiba imediatamente utilizar; pode mover-se em todas as direcções e assumir todas as aparências da verdade. A verdade, essa, só tem uma aparência, um único caminho: está sempre prejudicada à partida." A estupidez de que se trata aqui não é uma doença mental; nem por isso deixa de ser a mais perigosa das doenças de espírito, pois ameaça a própria vida.

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 10h48 | Comentários (21)

6 de novembro 2003

Vida e Obra de um Poeta

Herberto HelderNão descuido a minha obra. Deve-se velar por aquilo que conseguiu ascender, entre riscos e ameaças, às condições da realidade. Mas serão os meus poemas uma realidade concreta no meio das paisagens interiores e exteriores? Não possuo um só dos papéis que enchi; interessa-me a forma acabada das minhas experiências, e suas significações, mantida numa espécie de memória tensa e límpida. Os papéis, esses, estão em França (Paris ou Marselha), na Holanda, na África do Sul. Encontram-se nas mãos de conhecidos, desconhecidos, amigos, inimigos — e cada qual saberá usar deles de modo particular e, suponho, exemplar. Tirarão daí indeclináveis razões para a moralidade dos seus pensamentos com relação a mim e a eles mesmos. Não, não sei de cor as pequenas composições de palavras. Retenho a fantasia, a objectividade delas — ponto onde me apoio para saber que sou sólido, e tenho (ou sou) uma obra.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta

Lido por dolphin.s às 13h45 | Comentários (3)

Pode narrar-se o tempo?

Thomas MannPode narrar-se o tempo, o tempo em si mesmo, como tal e em si? Não, na verdade seria uma empresa louca. Uma narração onde se dissesse: «O tempo passava, fluía, o tempo seguia o seu curso», e assim por diante, nunca um homem de espírito são poderia considerá-la história. Seria mais ou menos como se alguém tivesse a ideia barroca de manter durante uma hora uma e a mesma nota, ou um só acorde e quisesse que isso fosse considerado música. Porque a narração parece-se com a música no sentido de que ela «realiza» o tempo, «enche-o convenientemente», «divide-o» e faz que «se passe qualquer coisa nele», para citarmos, com a melancólica piedade que se devota às palavras dos defuntos, algumas expressões habituais do saudoso Joachim, palavras que foram proferidas há muito; nem sabemos se o leitor dá claramente conta de quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narração, assim como é o elemento da vida: está-lhe inseparavelmente ligado, como aos corpos no espaço. O tempo é também o elemento da música, a qual mede e divide o tempo, tornando-o, simultaneamente, interessante e precioso, no que, como já foi dito, se assemelha à narração que, ela também (e de maneira muito diferente da presença imediata e brilhante da obra plástica, que só está ligada ao tempo como corpo), não é mais do que uma sucessão, é incapaz de apresentar-se senão como uma fluência, e tem necessidade de recorrer ao tempo ainda que tente ser inteiramente presente num dado momento.


Thomas Mann, in Montanha Mágica

Lido por dolphin.s às 10h32 | Comentários (6)

5 de novembro 2003

Solidão e Espectáculo

Vergílio FerreiraA morte espectacular numa acção de heroísmo pode inventar o espectáculo ainda quando o não houver. Pode inventá-lo na memória da união fácil, que perdura, com o mundo habitado. Todo o homem morre só; mas nem todos o sabem. Recuperar em cada acto a solidão original de uma morte verdadeira é o profundo acto humano de quem se não quiser perder, de quem deseja eliminar essa zona que se interpõe entre a mentira de tudo e a verdade iluminada de nós próprios, essa zona que é o baldio para os outros e com a qual se constrói a «psicologia das multidões»...

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 13h47 | Comentários (4)

Tirania não é República

Ficou já dito que a tirania não é república, pois não passa de uma enorme família composta por um amo e muitos escravos. «Vir bone servorurm nulla est unquam civitas — diz o velho poeta — Uma caterva de escravos não é uma cidade»; ou seja, enquanto esse monstro for vivo, não somos membros de qualquer república, não passaremos de coisas e de instrumentos nas mãos dele, a que ele dá a utilização que mais lhe apraz. «Servi tua est fortuna, ratio ad te nihil—afirma outro—A tua condição é a de um escravo e não te cabe teres razão», e não devemos pensar que é possível continuarmos muito tempo a viver nesta condição de escravos sem degenerarmos e descambarmos no modo de viver próprio e natural desta condição: as nossas almas acabarão por ser aviltadas, à semelhança da nossa condição e, habituados a viver como escravos, passaremos a não querer outra vida que não seja a da servidão. «Etiam fera animalia, si clausa teneas, virtutis obliviscuntur — diz Tácito — Os mais ferozes animais perdem a fereza depois de um longo cativeiro». E o cavaleiro Francis Bacon diz que a bênção de Issacar e de Judá não pode descer sobre um povo que se verga como os burros ao peso da carga (...)


Edward Sexby, in Matar não é Crime (© Antígona)

Lido por dolphin.s às 10h34 | Comentários (4)

4 de novembro 2003

Dentro e sobre os homens

AntídotoDentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria das águas, que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele. Sabemos que nos conheces. Em algum instante da tua vida, enchemos-te e envolvemos-te com a imagem da nossa voz, a imagem do nosso significado, o silêncio e as palavras. Num instante que escolhermos podemos voltar a encher-te e a cobrir-te. Sabemos que conheces o frio e a solidão à margem das estradas quando a noite é tão escura, quando a lua morreu, quando existe um deserto de negro à margem das estradas. Olha para dentro de ti e encontrar-nos-ás. Olha para o céu, depois das nuvens, e encontrar-nos-ás. Nunca poderás esconder-te de nós. Esse é o preço por caminhares sobre a terra onde, um dia, entrarás para sempre. As últimas pás de terra a cobrirem-te serão as nossas pálpebras a fecharem-se. Só então poderás descansar.

José Luís Peixoto, in Antídoto,

Lido por dolphin.s às 10h30 | Comentários (14)

3 de novembro 2003

Ódio Eterno

Friedrich NietzscheNa fé em quê? No amor a quê? Na esperança de quê?... Estes fracos, não tenhamos dúvidas, também querem chegar um dia a ser eles os fortes. Um dia, dizem, há-de chegar o seu «reino»... Repita-se, o «reino de Deus», como eles tão simplesmente dizem..., tão humildes que são, em tudo! Só para chegar a viver isso já é preciso viver muito, viver para lá da morte... É mesmo necessário que disponham da vida eterna para — eternamente e no «reino de Deus» — poderem ressarcir-se desta passagem pelo mundo, vivida «na fé, no amor, na esperança». Mas ressarcir-se de quê e por intermédio de quê?... Quer-me parecer que Dante cometeu um erro grosseiro ao colocar sobre a porta do seu Inferno, com uma ingenuidade que mete medo, aquela parte da inscrição: «... também eu sou criação do eterno amor.»* Com melhores razões poderia estar sobre a porta de entrada para o paraíso cristão e para a respectiva «beatitude eterna» uma inscrição dizendo: «também eu sou criação do ódio eterno...»


* Dante, A Divina Comédia, «Inferno» III, 5-6

Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

Lido por dolphin.s às 19h38 | Comentários (1)

Intervalo doloroso

Fernando PessoaTudo me cansa, mesmo o que me não cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.

Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.

Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.

Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? e quem é triste não pode esforçar-se.
Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me.

Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.

Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.

A minha vida é como se me batessem com ela.



Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 13h31 | Comentários (142)

Pessoalmente não tenho nada contra os cemitérios

Miguel Borges, Artistas Unidos - Primeiro Amor n'A CapitalCostumo associar, com ou sem razão, o meu casamento à morte do meu pai, no tempo. Que haja outras ligações, a outros níveis, entre estas duas coisas, é possível. Já me custa bastante dizer aquilo que eu acho que sei. Fui visitar, não há muito tempo, a campa do meu pai, disso tenho a certeza, e anotei a data da sua morte, apenas a da morte, porque a do nascimento não tinha para mim qualquer interesse, nesse dia. Parti de manhã e à noite estava de volta, depois de comer qualquer coisa no cemitério. Mas uns dias mais tarde, quando quis saber com que idade morreu, tive de voltar à campa, para anotar a data do seu nascimento. Apontei então estas duas datas-limite num pedaço de papel, que agora trago comigo. Estou portanto em condições de afirmar que eu devia andar pelos vinte e cinco anos quando me casei. Porque a data do meu próprio nascimento, repito, do meu próprio nascimento, nunca a esqueci, nunca foi preciso anotá-la, continua-me gravada na memória, pelo menos o ano, em algarismos que a vida dificilmente apagará. Até o próprio dia me ocorre, quando faço um esforço, e comemoro-o muitas vezes, à minha maneira, não direi sempre que me ocorre, porque me ocorre vezes de mais, mas muitas vezes.
Pessoalmente não tenho nada contra os cemitérios, até gosto de lá ir arejar, se calhar mais do que a outros sítios, quando arejar é preciso. O cheiro dos cadáveres, que distingo nitidamente por baixo do da erva e do húmus, não me é desagradável, talvez um pouco adocicado de mais, um pouco inebriante, mas mil vezes preferível ao dos vivos, dos seus pés, dentes, sovacos, cus, prepúcios peganhentos e óvulos frustrados. E, quando os restos do meu pai colaboram, ainda que modestamente, quase que me vêm as lágrimas aos olhos. Bem podem lavar-se, os vivos, bem podem perfumar-se! Cheiram mal. Sim, como sítio para passear, quando passear é preciso, deixem-me a mim os cemitérios e fiquem — vocês — com os vossos jardins públicos e paisagens campestres. A minha sanduíche, a minha banana, sabem-me melhor sentado numa campa, e quando chega a altura de mijar, e chega várias vezes, tenho por onde escolher, Ou então vagueio, de mãos atrás das costas, por entre as lápides, deitadas, inclinadas ou direitas, a colher inscrições. Nunca me desiludiram, as inscrições, há sempre três ou quatro tio engraçadas que tenho de me agarrar à cruz, ou à esteia, ou ao anjo, para não cair. Já compus a minha há muito tempo e ainda estou satisfeito com ela, razoavelmente satisfeito. As outras coisas que escrevi, mal secam, repugnam-me logo, mas continuo contente com o meu epitáfio, Há infelizmente poucas hipóteses de que algum dia se erga acima do crânio que o concebeu, a menos que o Estado tome o assunto em mãos. Mas para ser exumado têm primeiro de me encontrar, e temo que esses senhores tenham tanta dificuldade em encontrar-me morto como vivo. Portanto, apresso-me a registá-lo aqui e agora, antes que seja tarde de mais;

Quem aqui jaz daqui tanto fugiu
Que foi só agora que daí livre se viu.



Samuel Beckett, in Primeiro Amor
tradução de Fracisco Frazão, © Ambar

Lido por dolphin.s às 10h31 | Comentários (10)

2 de novembro 2003

On mourra seul

Vergílio FerreiraToda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final. A máscara que nos defende não tanto contra os outros como contra nós próprios (porque se nós a montamos não é tanto para que os outros nos identifiquem por ela, como para que nós acabemos de por ela nos identificarmos), essa máscara que é de comédia, ainda quando de tragédia, é bem vã nos instantes derradeiros de qualquer situação, porque então os olhos que nos vêem não nos vêem de fora mas de dentro. Ah, estar só é terrível. E difícil: a própria solidão do espírito inventa a memória da fraternidade corpórea, relembra a presença dos outros, as opiniões dos outros, o seu olhar que nos fita e nos espera do lado de lá da provação. Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta e perdida. Pascal: On mourra seul... Sim. Mas a mentira conhece todos os caminhos, mesmo os que nós ignoramos.

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 17h00 | Comentários (11)

Todos nós pertencemos à terra

Montanha MágicaJoachim caminhava a seu lado, com a cabeça baixa. Tinha os olhos fixos no solo, como se contemplasse a terra. Era muito esquisito: ali andava ele, correcto e asseado, saudando os transeuntes com a sua maneira cavalheiresca, cuidava do exterior e da sua bienséance como sempre—e pertencia à terra. Meu Deus, todos nós lhe pertenceremos, mais cedo ou mais tarde; mais amargo e incompreensível para um Hans Castorp que sabe, e que caminha ao lado dele, do que para o próprio homem da terra, cujo saber reticente e discreto e, em suma, de uma natureza muito académica, e dele não tem, no fundo, mais do que uma realidade muito enfraquecida e parece dizer-lhe menos respeito a ele do que aos outros: com efeito, a nossa morte é um assunto para os sobreviventes, mais do que para nós mesmos. Quer a conheçamos, quer não, conserva pleno valor para a alma aquela sentença de um sábio espirituoso que disse: enquanto existimos, não existe a morte, e quando ela existe, nós já deixámos de existir; por conseguinte, entre nós e a morte, não há nenhuma relação real; é uma coisa que para nós não tem interesse de modo algum e que, quando muito, diz respeito ao Mundo e à Natureza; motivo por que todas as criaturas a contemplam com grande calma, com indiferença, uma irresponsabilidade e inocência egoístas.


Thomas Mann, in Montanha Mágica

Lido por dolphin.s às 12h57 | Comentários (5)

1 de novembro 2003

Duas ou Três coisas que me contou Lucrécia L.

Estou sempre de luto e tenho a idade desta ilha. Agora olhe para as minhas mãos. Parecem limpas, não é? E no entanto já mataram, por paixão e por vingança.
Por paixão porque aquilo que não me pode pertencer não pertencerá a mais ninguém; e por vingança porque às vezes o sangue limpa a dora da alma, e a honra...
Sou dona do dia e da noite, e deste mar que nos há-de levar.
Vá! Prove estas uvas envenenadas.
Foi com elas que a minha avó acabou com o marido, e a minha mãe matou o meu pai, e eu enveneno os homens que me querem possuir.
Sou dona do dia e da noite, e do veneno destas uvas. Ninguém me pode possuir.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Lido por dolphin.s às 13h24 | Comentários (9)

31 de outubro 2003

Robot

Mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção — ou não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez. Eu o reconheço de novo, a esse dom» nesta hora de chuva em que escrevo. Na rua deserta, ouço-a cair, expulsar da cidade os robots da ilusão, a grandes brados de um vento sideral. Dirás tu, meu amigo, ou alguém ao pé de ti, que são eles precisamente quem me constrói o mundo onde a «aparição» é possível, este mundo do conforto de um fogão que me aquece, de um telhado que me abriga. Também tenho a minha parte de robot e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à sua entrevista — essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer. Os robots da loucura é que a ignoram, porque o mundo deles é o da transacção imediata, um mundo táctil, de objectos, como o das crianças. Eu os vejo agora, passando desorientados pela rua abandonada, fugindo, espavoridos, à invasão do silêncio. De guarda-chuvas abertos, golas dos casacos erguidas, refugiam-se nas guaritas como animais acossados, aí ficam à espera de que o inimigo passe. Sim, eles conhecem a «fraternidade» e erguem-na corno bandeira da sua redenção. Mas da fraternidade eles sabem apenas a fácil estratégia das palavras trocadas, dos braços que se apoiam uns nos outros contra o medo. Mas a profunda fraternidade — tu o saberás, meu amigo— não é uma cadeia de braços, mas uma comunhão do silêncio, uma comunhão do sangue.

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

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30 de outubro 2003

Juízos da vida quotidiana

Robert MusilOs juízos da vida quotidiana e da sua antropologia acertam muitas vezes no vinte, mas passam também, com certa frequência, ao lado. Não foram formados tendo em vista uma verdadeira doutrina; representam, de facto, apenas movimentos de concordância ou de recusa do espírito. Qualquer coisa pode ser estúpida sem o ser necessariamente, que o significado da palavra muda com o contexto, e que a estupidez está estreitamente relacionada com outra coisa sem por isso ultrapassar de nenhum modo o fio que permitiria, se se puxasse por ele, desfazer de uma só vez todo o tecido. A própria genialidade está indissoluvelmente ligada à estupidez; e a interdição, sob risco de se passar por estúpido, de falar demasiado de si foi contornada pela humanidade de modo original: inventando o escritor. Ele tem o direito, em nome do sentido do humano, de contar que comeu bem, que o sol brilha no céu, tem o direito a exteriorizar, a divulgar segredos, a fazer confidências, a apresentar brutalmente balanços pessoais — pelo menos muitos deles fazem-no! —; tudo isso como se a humanidade se autorizasse nesse caso excepcionalmente aquilo que se proíbe em todos os outros. Desse modo, ela fala incansavelmente de si própria e contou já, milhões de vezes, graças aos escritores, as mesmas histórias e as mesmas aventuras, sem com isso obter o menor progresso ou acréscimo de sentido. Não seria ela, no uso que faz da sua literatura e na docilidade que revela em relação a esse uso, suspeita afinal de contas de estupidez? Quanto a mim não considero isso absolutamente impossível!

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 12h20 | Comentários (2)

Dormimos a vida

Fernando PessoaQuando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha
adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo. (...)
Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes - tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 10h34 | Comentários (5)

28 de outubro 2003

É tudo mentira...

Herberto HelderRepeti: —Avó — e a mão agitou-se, sem eu saber o que significava isso quanto à eficácia das vozes e à existência dessa tal atenção que se reconduziria, etc. — Quer que chame o padre?
Sim, decerto: já expliquei. Ela frequentava o culto, mandava celebrar missas pelos seus mortos, confessava-se e comungava. Já disse: com que distracção, intenções, etc., etc. Bem: vejo-me assim a servir os poderes que ignoro, a realidade que ignoro, a ficção, as ficções que ignoro. Papel próprio para a juventude. E agora há mais forças. Estou cercado por forças de que mal vislumbro a natureza e a acção. Cada vez mais forças, pois estou diante da idade e ela chama novos poderes, sombrios poderes, sombrios enigmas. E depois, com a ideia de que lá fora a estação é de alto esplendor, de convite à pura exaltação, à inexperiência, à inocência — fico ainda mais inepto.
A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:
— É tudo mentira...
Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas — fulgurante e estúpida.
Assim é porventura a sabedoria: vil, esmagadora. O único tempo que lhe pertence deve ser a idade, mas quando dela se aproxima um jovem fascinado que a si mesmo impôs a condição de mensageiro, como se quisesse tocar no gelo, convencido — ele! — de que o calor dos poucos anos poderá fundir o gelo, então o gelo agarra a idiota mão quente, e queima-a.
A Avó morreu nesse mesmo dia.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Equação

Lido por dolphin.s às 15h01 | Comentários (19)

Arte e Emoção Estética

Templo de DianaLembro-me perfeitamente, meu amigo, de quando pela primeira vez vi o Templo de Diana. Era em Setembro, eu viera fazer exames, conhecia o Templo dos livros, das fotografias. Ignoro ainda se o monumento se alinha entre as belas obras de arte, essas perante as quais estamos todos autorizados a comover-nos. Ignoro-o, porque hoje sei que o milagre pode surgir quando menos o suspeitamos: uma frase musical de um tocador ambulante, o assobio de quem passa, um talo de erva que irrompe de uma juntura de pedras, podem alvoroçar-nos como a mais pura e evidente aparição de beleza. Subi a rua que vai da Praça, mal reparei então na Sé, obscurecida a um canto, cheguei enfim à acrópole onde se ergue o Templo. Catorze colunas nuas levantam-se para os astros banhadas da lua quente que iluminava o largo. Viam-se as estrelas por entre elas, o espaço habitava a sua irrealidade, irradiava essa mão de pedra à sua infinitude. Suspenso de memória e de uma obscura interrogação, ali fiquei algum tempo, tocado dessa indistinta surpresa que é o halo do limiar da vida, a anunciação das origens. Tenho visitado o Templo a outras horas de lua; mas jamais o alarme me visitou assim puro e fulminante, talvez porque o sabê-lo, o procurá-lo, lhe velava uma pouco a face - talvez porque ele só reconhece a verdade de quem não está prevenido, de quem vem desarmado dos combates diurnos.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Lido por dolphin.s às 10h30 | Comentários (6)

27 de outubro 2003

Monopolizar a sabedoria

Evidentemente que o que é proscrito quando a ordem reina são as intenções desmesuradas e à margem dos costumes. E depois de termos falado da vaidade que os povos e os partidos exibem hoje à força de se pensarem esclarecidos, é preciso agora acrescentar que a maioria epicuriana — exactamente como o indivíduo megalómano nos seus sonhos despertos — monopolizou não apenas a sabedoria, mas ainda a virtude, e considera-se corajosa, nobre, invencível, piedosa e bela; tanto mais que os homens, no mundo actual, têm tendência, desde que sejam em grande número, a permitir-se tudo o que lhes é proibido enquanto indivíduos. Imediatamente, ao ver estes privilégios do "nós" que se tornou enorme, tem-se a impressão que o trabalho de civilização e domesticação crescentes do indivíduo deve ser compensado por uma descivilização proporcional das nações, dos estados e das confrarias políticas (...)

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 13h31 | Comentários (0)

Viajo para escrever

Al BertoA escrita exige mais escrita. Escrever, o acto de escrever, exige continuidade.
Talvez seja essa a razão de viajar. A verdade é que viajo para escrever. Faço assim a minha aprendizagem de escritor. Aprendizagem lenta do movimento sinuoso do mundo. E talvez não haja melhor sítio para entender esse movimento do que esta ilha, onde mal cresce a erva - e tudo parece morto.
Caminho às cegas, obsessivamente, de palavra em palavra - e sei que as palavras não valem nada. Estão ocas. Atraiçoam-me. Mas apesar de tudo, continuo a fingir que acredito nelas. Uso-as com a convicção firme de quem acaba de descobrir qualquer coisa e dela se apropria. É tudo mentira, claro.


Al Berto, in O Anjo Mudo, Baunei/Dórgalo/Nuoro

Lido por dolphin.s às 10h40 | Comentários (19)

26 de outubro 2003

O cansaço de todas as ilusões

O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 20h49 | Comentários (13)

Fabricação dos Ideais

Friedrich Nietzsche— Haverá alguém com vontade de mergulhar um pouco nos segredos da fabricação dos ideais? Quem tem coragem?... Pois bem! Eis uma perspectiva sobre essa oficina tenebrosa. O caro Sr. Curioso e Temerário fará o favor de esperar apenas um momento, para que os olhos se possam habituar a esta luz cintilante e falsa... Pronto! Já chega! Podeis falar agora! Que se passa lá em baixo? Dizei-me, vós, que sois homem da mais arriscada curiosidade, dizei-me o que vedes... Agora sou eu que escuto...
— Nada vejo, mas em compensação ouço muito bem. Ouço um murmúrio, gente que sussurra baixinho, por todos os cantos, com a prudência da traição. Quer-me parecer que é gente que mente: os sons têm todos uma brandura melíflua... Sim, sem dúvida... Querem fazer passar a fraqueza por um mérito! Tal como havíeis dito...!
— Mais!
— E querem fazer passar a impotência, incapaz de ripostar, por «bondade»; e a baixeza timorata por «humildade»; e a submissão aos odiados por «obediência» (obediência sobretudo a alguém que dizem que lhes ordena a submissão e a quem chamam «Deus»). E a inofensividade do fraco, a própria cobardia em que ele é pródigo, aquele seu hábito incontornável de ficar à porta, de ter que esperar, tudo isso recebe aqui nomes positivos, por exemplo, «paciência». Chamam-lhe mesmo «a virtude»! O não-poder-vingar-se chama-se «não-querer-vingar-se», talvez mesmo «perdão» («porque eles não sabem o que fazem*... só nós sabemos o que eles fazem!»). E falam também de «amor para com os inimigos»**... E transpiram quando falam nisso...
— Mais!
— São miseráveis, sem dúvida, estes moedeiros falsos, sempre a segredar pelos cantos..., miseráveis, por muito que se aqueçam uns aos outros, de tão juntos que se acocoram... Mas dizem-me agora que a sua miséria é o sinal de que foram escolhidos, eleitos por Deus, porque dá-se mais pancada aos cães de que mais se gosta... E que esta sua miséria talvez seja uma preparação, uma prova, uma aprendizagem, ou talvez ainda mais... uma experiência que terá um dia a sua recompensa com juros enormes, uma retribuição em ouro... Não! Em felicidade! E a isto chamam «bem-aventurança».
— Mais!
— Agora querem dar-me a entender que, não só são melhores do que os poderosos, do que os senhores do mundo que eles têm de bajular (não por medo, de modo algum!... apenas porque Deus manda honrar as autoridades), mas que também «estão melhor servidos», ou que pelo menos um dia estarão melhor servidos... Mas já me chega! Chega! Já não aguento! Este ar pestilento! Este cheiro! Sinto que toda esta oficina em que se fabricam ideais cheira a podre, a podridão da mentira completa!
— Não! Um momento mais! Nada me haveis dito ainda sobre a obra-prima destes prestidigitadores, que é a capacidade de transformarem tudo o que é negro em branco, em leite, em inocência... Não haveis notado a perfeição que atingem, o refinamento de que são capazes, aquela arte de manipulação da mais elevada ousadia, delicadeza, espirituosidade e da mais profunda mentira? Tomai atenção! Estes animais subterrâneos, cheios de ódio e de desejo de vingança, que fazem eles precisamente com esse ódio e essa sede de vingança? Haveis-Ihes ouvido tais palavras? Se confiásseis nas palavras que dizem, suspeitaríeis que estivésseis perante homens do mais completo ressentimento?
— Estou a perceber. Vou abrir de novo os ouvidos (mas, ai, ai, o nariz não abro). Só agora ouço o que eles já repetiram tantas vezes: «Nós, os bons... nós somos os justos.» E o que eles exigem, não lhe chamam «desforra» chamam-lhe «triunfo da justiça». E o que eles odeiam não é o inimigo, não, dizem antes que odeiam a «injustiça», a «impiedade». E aquilo em que acreditam, em que depositam as suas esperanças, não é desejo de vingança, não é a embriaguez deliciosa da vingança («mais doce do que o mel», já dela dizia Homero***), chamarn-lhe antes o «triunfo de Deus», do Deus da justiça sobre os infiéis. E o que lhes resta amar neste mundo não são os que com eles se irmanam no ódio, dizem que são pelo contrário os seus «irmãos no amor», todos «os bons e justos do mundo».
— E que nome dão àquilo que lhes serve de consolação para todos os sofrimentos da vida... essa fantasmagoria que antecipa uma beatitude futura?
— Como? Será que ouço bem? Chamam-lhe o «último juízo», dizem que será a vinda do seu reino, do «reino de Deus»..., e que, até lá, vivem «na fé», «no amor», «na esperança».
— Basta! Basta!

* Lucas: 23, 34
** Mateus: 5, 44
*** Homero, Ilíada, 18, 109

in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 17h41 | Comentários (3)

25 de outubro 2003

Chove muito

Chove muito, mais, sempre mais... Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro...
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração actual.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Lido por dolphin.s às 17h41 | Comentários (6)

A maior de todas as divindades (Fala a Loucura)

Os EstoicosSe é com razão que se diz: Ser deus é fazer bem aos homens, se é com justiça que elevaram à categoria de Imortais os que inventaram o pão, o vinho, ou que conseguiram para o seu semelhante qualquer outro beneficio desta espécie, não devo eu ser considerada como a maior de todas as divindades, eu que espalho sobre os mortais, sem distinção, as maiores mercês e os maiores bens?
Depois dos deuses, os estóicos são, pelo menos, segundo a sua própria opinião, os mais sublimes de todos os seres. Pois bem, dêem-me um estóico, seja ele três ou quatro rnil vezes mais estóico do que todos os estóicos juntos, a ver se consigo que corte as barbas, que considera como o símbolo da sabedoria, se bem que esse símbolo tenha qualquer coisa de comum com os bodes. Mas, pelo menos, forçá-lo-ei a abandonar o seu ar tristonho, apagar-lhe-ei as rugas da fronte, fazê-lo-ei renunciar aos seus severos princípios; entregar-se-á, durante certo tempo, ao prazer, à extravagância, à loucura. Resumindo: por mais prudente que possa ser, se quiser procurar os prazeres do mundo, é a mim, e só a mim, que terá de recorrer.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Lido por dolphin.s às 13h47 | Comentários (0)

24 de outubro 2003

Meu amigo:

Vergilio FerreiraEscrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos... É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de acaso, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobre tudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam. Ouço as vozes subterrâneas à alegria mecânica, aos passos cronometrados, à azafama de nervo e esquecimento que adivinho ao longe, numa metrópole-síntese construída em arame e cimento, e é bom que essas vozes ressoem na minha boca

Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro

uma prenda! :)))

Lido por dolphin.s às 20h43 | Comentários (16)

O principio da Liberdade gastou-se em quinhentos anos

A Democracia não tem outro sentido a não ser o de um correctivo individualista de toda a forma de absolutismo do Estado. A Verdade e a Justiça são as insígnias reais da moral individual, e no caso de um conflito com os interesses estatais talvez assumam até a aparência de potências inimigas do Estado, posto que, na realidade, visem o seu bem superior, digamo-lo: o bem supra-terreno do Estado. O Renascimento como origem da idolatria do Estado! Que lógica bastarda! As conquistas—emprego essa palavra no sentido literal!—as conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu caro senhor, chamam-se a Personalidade, os Direitos do Homem, a Liberdade!
Os ouvintes soltaram a respiração que haviam contido durante a grande réplica do sr. Settembrini. A seguir, porém, ambos se voltaram para o interlocutor que acabava de ser vitoriosamente rechaçado. Hans Castorp fê-lo com tamanha impaciência, que fincou o cotovelo na mesa e o queixo no punho mais ou menos na posição de quem desenha um porquinho, e fitou o sr. Naphta de muito perto e com imensa atenção.
Este achava-se sentado, calmo e cortante, apoiando as mãos magras sobre os joelhos. Disse:
—Tento introduzir um pouco de lógica na nossa discussão e a sua resposta baseia-se em frases generosas. Que o Renascimento deu à luz tudo aquilo que se chama liberalismo, individualismo, humanismo burguês é um facto que eu não desconhecia. Mas o seu «sentido literal» deixa-me frio. A idade «conquistadora», heróica, dos seus ideais há muito que passou; esse ideal está morto ou pelo menos agonizante, e aqueles que lhe darão o golpe de misericórdia já se acham próximos. Se não me engano, o senhor arvora-se em revolucionário. Mas se acredita que o resultado das revoluções futuras será a Liberdade, iludiu-se redondamente. O principio da Liberdade cumpriu o seu destino e gastou-se em quinhentos anos. Uma pedagogia que pretende ser ainda hoje a filha do Racionalismo e vê os seus meios formativos na crítica, na libertação e no culto do Eu, na destruição de formas de vida determinadas de um modo absoluto — tal pedagogia pode obter hoje ainda triunfos passageiros, porém o seu carácter atrasado é óbvio para os espíritos avisados. Todas as organizações verdadeiramente educadoras souberam sempre o que na realidade deve ser o último objectivo da pedagogia: a autoridade absoluta, uma disciplina de ferro, o sacrifício, a renúncia do Eu, a violação da personalidade. Em última análise, é desconhecer e não amar a juventude pensar que ela sente prazer na Liberdade. O seu prazer mais profundo é a obediência.
Joachim empertigou-se. Hans Castorp corou. O sr. Settembrini, agitado, torcia nervosamente o belo bigode.
—Não—prosseguiu Naphta.—O segredo e a exigência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do Eu. O de que ela necessita, o que deseja, o que criará é o Terror.


in a Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 10h32 | Comentários (9)

23 de outubro 2003

Nós, os fracos, somos de facto fracos

Friedrich NietzscheQuando os oprimidos, os esmagados, os violentados, do fundo da sua astúcia vingativa, se põem a dizer: «Sejamos diferentes dos malvados! Sejamos, portanto, bons! Bom é aquele que não violenta, que não ofende ninguém, que não ataca, que não retalia, que entrega a vingança a Deus, aquele que, como nós, permanece na obscuridade, que evita o mal e que muito pouco exige da vida, como nós que somos pacientes, humildes e justos...», o que isto significa, observado friamente e sem preconceito, é afinal apenas o seguinte: «Nós, os fracos, somos de facto fracos; é bom que não façamos nenhuma daquelas coisas para as quais não somos suficientemente fortes...» Mas esta constatação crua, esta prudência da mais baixa ordem, que até os insectos mostram possuir (quando, em situações de maior perigo, se fingem mortos, para não fazerem nada «em demasia»), graças à falsificação e ao auto-engano que são próprios da impotência, mascarou-se com as roupagens pomposas da virtude que sabe renunciar e esperar em total quietude, como se a fraqueza do fraco — ou seja, afinal a sua essência, o seu modo de agir, a sua realidade única, inelutável, inalienável — fosse ela própria algo de livremente escolhido, algo resultante da vontade, um acto, um mérito. Esta espécie de homens, por via de um instinto de sobrevivência e de auto-afirmação que consegue santificar todas as mentiras, precisa da crença na liberdade de escolha de um sujeito neutro. É por isso que o sujeito (ou, em termos mais populares, a alma) é talvez o melhor dogma até hoje surgido no mundo, uma vez que veio abrir à multidão de mortais, de fracos e de oprimidos de toda a espécie a possibilidade de se enganarem a si próprios com a sublime mentira que interpreta a fraqueza como liberdade e o facto de serem assim como um mérito.


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 14h12 | Comentários (10)

22 de outubro 2003

O medo de parecer estúpido

Robert MusilO medo de parecer estúpido tal como o de ferir as conveniências faz com que inúmeros homens se pensem inteligentes evitando dizê-lo. E se forem constrangidos, apesar de tudo, a falar disso, recorrem a perífrases do género: "Não sou mais estúpido que qualquer outro." Mas em geral prefere dizer-se, num tom tão neutro e objectivo quanto possível, o seguinte: "Creio poder dizer que tenho uma inteligência normal." Outras vezes, a convicção de ser inteligente surge de viés, como na seguinte frase idiomática: "Não me deixo passar por estúpido!" A coisa é tanto mais notável quanto não é apenas o indivíduo privado que se julga, no segredo do seu coração, extraordinariamente inteligente e bem dotado, mas ainda o homem público que diz e faz dizer dele, mal tenha poder para isso, que é supremamente inteligente, esclarecido, nobre, soberano, gracioso, eleito de Deus e votado a um destino histórico. Chega mesmo ao ponto de o dizer de outro, desde que o reflexo dele aumente o seu próprio brilho. Encontramos vestígios fossilizados e quase definitivamente mortos disso em títulos como Vossa Majestade, Vossa Eminência, Vossa Excelência ou Vossa Graça; mas isso readquire plena vitalidade hoje, sempre que um homem fala na qualidade de massa. Sobretudo uma certa camada inferior das classes médias — intelectual e moralmente falando — exibe a este respeito uma pretensão absolutamente indecente desde que, manifestando-se ao abrigo de um partido, de uma nação, de uma seita ou mesmo de uma tendência artística, se sente autorizada a dizer "nós" em vez de "eu".

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 16h00 | Comentários (7)

A Origem (Fala a Loucura)

Agora, auditores muito, muito... como hei-de eu dizer?... auditores muito loucos? Porque não? É o título mais honroso que a Loucura pode dar aos seus iniciados. Pois muito bem, então, auditores muito loucos, agora já sabeis qual é o meu nome. Mas como há muitas pessoas que ignoram a minha origem, vou tentar dá-la a conhecer, mediante o auxílio das Musas*.
Meu pai não me concebeu no seu cérebro, como outrora Júpiter concebeu essa vilã e impertinente Minerva; mas deu-me por mãe Neotete, a Juventude, a mais alegre, a mais bela, a mais viva de todas as ninfas. Também não sou fruto do fastidioso dever conjugal, como o coxo do Vulcano; nasci, como disse o bom Homero, dos deliciosos arrebatamentos do amor. E para que vos não iludais, não foi quando já estava velho e quase cego, como o descreve Aristófanes, que Pluto me engendrou; mas outrora, quando se sentia em todo o vigor da sua idade, quando o fogo da juventude lhe ardia nas veias, e num desses agradáveis momentos, em que o néctar, bebido à mesa dos deuses, o enchera de bom humor.
Quereis, por ventura, que vos diga, também, qual o local do meu nascimento, porque hoje em dia acredita-se que o lugar em que uma criança viu pela primeira vez a luz do sol, é muito importante para a sua nobreza. Dir-vos-ei, no entanto, que não nasci nem na ilha flutuante de Delos, nem sobre as ondas do mar, nem nas profundas cavernas; vi o dia nas Ilhas Afortunadas, país encantador, onde a terra, sem ser cultivada, produz os mais ricos frutos. O trabalho, a velhice, as doenças são ignoradas naqueles felizes campos. Ali não se vê crescer, nem malvas, nem tremoços, nem fava, nem nenhuma dessas outras plantas que não servem senão para as terras vulgares. O moli, a panaceia, o nepentes, a manjerona, as rosas, as violetas e os jacintos encantam por toda a parte o olfacto e a vista, e fazem, desses maravilhosos lugares, jardins mil vezes mais encantadores do que os jardins de Adónis.
Aparecida no meio deste ambiente maravilhoso o meu nascimento não foi anunciado com as minhas lágrimas; assim que nasci, viram-me sorrir graciosamente para minha mãe. Faria muito mal se invejasse Júpiter, por ter sido amamentado por uma cabra, pois as duas mais graciosas ninfas do mundo, Meteia, a Embriaguez, filha de Baco, e Apoedia, a Ignorância, filha de Pã, foram as minhas amas. Vê-las-eis, aqui, entre as minhas companheiras, no meio do meu séquito.
Mas, já que falei do meu séquito, é preciso que vo-lo apresente. Aquele que vos olha com um ar arrogante é o Amor-Próprio. Aquela, de rosto gracioso e mãos sempre prontas a aplaudir, é a Lisonja. Ali, podeis ver a deusa do Esquecimento, que se deixa dormir a cada instante, e parece já estar a pegar no sono. Mais além, a Preguiça, de braços cruzados e encostada aos cotovelos. Não reconheceis a Volúpia, pelas grinaldas, pelas coroas de rosas e pelas essências deliciosas com que se perfuma? Não reparais naquela que passeia por toda a parte os seus olhares descarados e impudentes? E a Demência. Aquela outra, cuja pele é tão lustrosa, e o corpo tão gordo e tão rubicundo, é a deusa das Delícias. Mas, entre todas estas deusas, também encontrareis deuses. Um é Comos, outro é Morfeu.
Com o auxílio destes fiéis servidores, submeto ao meu domínio tudo quanto existe no universo. É com eles que governo os que governam o mundo.


* Erasmo considera esta obra como uma ficção poética.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Lido por dolphin.s às 10h28 | Comentários (0)

20 de outubro 2003

Onde fica a Verdade?

Thomas MannOnde fica a Verdade, senhor, que anda intimamente ligada à liberdade, e cujos mártires, longe de insultarem a Terra, como o senhor pensa, permanecerão o eterno ornamento deste astro?
O sr. Settembrini tinha uma maneira vigorosa de interrogar. Estava sentado, muito erecto, e deixava cair sobre o pequeno Naphta as suas palavras honestas. (...)
—Caro amigo, não existe conhecimento puro. É indiscutível a legitimidade da concepção religiosa da Ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: «Creio para que possa conhecer». A Fé é o órgão do conhecimento; o intelecto é secundário. A sua ciência sem premissas não passa de um mito. Há sempre uma fé, uma concepção do Mundo, uma ideia, numa palavra: uma vontade, e cabe à Razão explicá-la e comprová-la sempre c em todos os casos, Trata-se de chegar ao «Quod erat demonstrandum» A simples ideia da prova contém, psicologicamente considerada, um nítido elemento voluntarista. Os grandes escolásticos dos séculos XII e XIII eram unânimes na convicção de que na Filosofia não podia ser verdade o que era falso perante a Teologia. Deixemos de lado a Teologia, se assim o quiser; mas uma humanidade que não reconhecesse que nas Ciências Naturais não pode ser verdade o que é falso perante a Filosofia, não seria uma humanidade. A argumentação do Santo Ofício contra Galileu reduziu-se a isto: os seus princípios eram filosoficamente absurdos. Não pode haver argumentação mais incisiva.
—Ora, ora! Os argumentos do nosso pobre e grande Galileu mostraram-se mais sólidos. Não, professore, falemos seriamente! Diante destes dois jovens tão atentos responda-me à seguinte pergunta: acredita o senhor numa Verdade, verdade objectiva e científica, que a lei suprema de toda moralidade nos manda procurar, e cujos triunfos sobre a autoridade formam a história gloriosa do espírito humano?
Hans Castorp e Joachim voltaram os seus rostos de Settembrini para Naphta, o primeiro mais rapidamente do que o segundo. Naphta respondeu:
—Tal triunfo não é possível, porque a autoridade é o Homem, o seu interesse, a sua dignidade, a sua salvação, e entre ela e a verdade não pode haver conflito. Confundem-se.
—A verdade seria, por conseguinte...
—É verdadeiro o que convém ao Homem. Nele se acha concentrada toda a natureza; apenas ele foi criado em toda a natureza, toda a natureza só para ele foi feita. Ele representa a medida das coisas, e a sua salvação é o o critério da verdade.


in a Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 13h35 | Comentários (4)

A noite desce sobre a cidade

Al BertoA noite desce sobre a cidade. Faz calor. A lua mergulha no espelho negro dos asfaltos, acende-se no fundo do rio.
Procuro-te nos rostos que passam. Sei que todos eles abrigam a tua morte. Nenhum deles evoca o sorriso que te pertenceu.
Qual deles, ao ser tocado, se metamorfoseará em vidro? E se quebrará nas minhas mãos.
Qual deles leva teu nome escondido nos lábios?
Qual deles oferecerá ou venderá o corpo?
Qual deles, como tu, acordará um dia esquecido de que está vivo?
A noite esvazia-se. Nenhuma música enche a tua morte.
Caminho desamparado, embora saiba que uma aragem te acordará em mim e, o álcool ajudando, a terra ser-te-á leve...
Qual deles venderá o corpo?
Qual deles ousará pousar a mão na minha lepra?
Caminho desamparado.
A noite abre-se, imensa, e o tempo passa sobre o rosto como um fogo que tudo apaga.
Os meus passos vão no sentido contrário ao teu sossego.
Os dias avançam sem paixão. Os dias recuam e não encontro ninguém.


in O Anjo Mudo, Al Berto

Lido por dolphin.s às 10h34 | Comentários (10)

19 de outubro 2003

A minha revolução não dá um passo

Herberto HelderOs dias longos, as noites no meio do mar. Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo. E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento. Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo. Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. Literatura. Merda. Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-da-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe. Posso especular sobre a revolução, evidentemente. Que revolução? A revolução, claro. Pois é: a minha revolução não dá um passo.


in Os Passos em Volta - Como se vai para Singapura, Herberto Helder

Lido por dolphin.s às 12h57 | Comentários (12)

Estou liberto e perdido

Quantas vezes, presa da superfície e do bruxedo, me sinto homem. Então convivo com alegria e existo com clareza. Sobrenado. E é-me agradável receber o ordenado e ir para casa. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me qualquer coisa orgânica. Se medito, não penso. Nesses dias gosto muito dos jardins.
Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização - uma modificação anónima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas - ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente.
Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre recantos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertence a ela.
Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.
Mas a ilusão não dura muito, tanto porque não dura como porque a noite vem. E a cor das flores, a sombra das árvores, o alinhamento de ruas e canteiros, tudo se esbate e encolhe. Por cima do erro e de eu estar homem abre-se de repente, como se a luz do dia fosse um pano de teatro que se escondesse para mim, o grande cenário das estrelas. E então esqueço com os olhos a plateia amorfa e aguardo os primeiros actores com um sobressalto de criança no circo.
Estou liberto e perdido.
Sinto. Esfrio febre. Sou eu.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares


Lido por dolphin.s às 02h35 | Comentários (4)

18 de outubro 2003

Roubo!

E depois, meu amigo, enquanto temos um instrumento na mão, não sabemos que temos um instrumento na mão... Todo o gesto, enquanto tal, enquanto se executa, limita-se em si mesmo, esquece a sua origem: toda a acção trai a força que a gerou, porque ela é em si própria um princípio e um fim.

Vergílio Ferreira, in "Carta ao Futuro"


roubo, foi o que fiz ao Citador ao copiar este excerto de um post ;)
não resisti...

Lido por dolphin.s às 17h08 | Comentários (13)

Presas mais fáceis

Mas a estupidez — é uma objecção que aqui se torna inevitável — longe de apaziguar sempre, pode mesmo irritar. Para sermos sucintos, digamos que ela excita habitualmente a impaciência, mas também, em circunstâncias extraordinárias, a crueldade; e os excessos odiosos desta crueldade doentia que habitualmente se designa por sadismo, mostra muitas vezes, no papel de vítimas, os imbecis. Isso resulta evidentemente do facto de eles serem para os seres cruéis as presas mais fáceis; mas parece estar igualmente associado ao facto de que a incapacidade de resistir que emana de toda a sua pessoa excita a imaginação como o odor do sangue o animal feroz, e arrastando-o para uma espécie de deserto onde a crueldade "vai muito longe" devido ao facto, ou quase só ao facto, de não esbarrar em quaisquer limites. Existe um traço de sofrimento naquele que inflige o sofrimento, uma fraqueza inserida na sua brutalidade; e mesmo que a indignação privilegiada da compaixão impeça geralmente que se veja, a verdade é que a crueldade, tal como o amor, necessita de dois parceiros que se ajustem! Analisar isso seria certamente uma tarefa importante para uma humanidade tão atormentada como a actual pela sua "indiferente crueldade para com os fracos"

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 13h20 | Comentários (11)

17 de outubro 2003

Espírito altruísta

(...) foi com um espírito altruísta que trabalhou a máquina por meio da qual a Convenção expurgou o Mundo de maus cidadãos. Todos os castigos da Igreja, inclusive a fogueira, inclusive a excomunhão, foram impostos para salvar as almas da pena eterna, o que não pode dizer-se do entusiasmo exterminado dos jacobinos. Permito-me observar que toda a justiça inquisitorial e capital que não brote da fé num Além é uma estupidez animal. E quanto ao aviltamento do Homem, a sua história coincide exactamente com a do espírito burguês. O Renascimento, o Século das Luzes, as Ciências Naturais e as doutrinas económicas do século xix não se esqueceram de ensinar nada, absolutamente nada, que fosse próprio para favorecer esse aviltamento, começando pela nova astronomia, em virtude da qual o centro do Universo, o magnífico cenário onde Deus e o Diabo disputavam a posse da criatura, foi transformado num insignificante planetazinho, e que pôs fim, provisoriamente, à grandiosa posição do Homem no Cosmos, sobre a qual, de resto, se fundava igualmente a astrologia.


Naphta, o jesuíta in a Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 19h49 | Comentários (0)

Poetic Terrorism

Weird dancing in all-night computer-banking lobbies. Unauthorized pyrotechnic displays. Land-art, earth-works as bizarre alien artifacts strewn in State Parks. Burglarize houses but instead of stealing, leave Poetic-Terrorist objects. Kidnap someone & make them happy. Pick someone at random & convince them they're the heir to an enormous, useless & amazing fortune--say 5000 square miles of Antarctica, or an aging circus elephant, or an orphanage in Bombay, or a collection of alchemical mass. Later they will come to realize that for a few moments they believed in something extraordinary, & will perhaps be driven as a result to seek out some more intense mode of existence.

extracto do texto homónimo, por Hakim Bey

Lido por jm às 03h00 | Comentários (0)

16 de outubro 2003

Encolher de Ombros

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.
Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo - que não tenho sentimentalidade para aparar -, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares


Lido por dolphin.s às 20h33 | Comentários (0)

Inteligência - imodéstia, insolência, malícia

A inteligência é sem dúvida apreciada no homem servil, mas na condição de estar associada a um devotamento absoluto. A partir do momento em que este certificado de boa conduta lhe falte e que deixe de ser absolutamente certo que ela sirva os interesses do senhor, mais do que inteligência, será designada por imodéstia, insolência, malícia; e dir-se-á muitas vezes então que ofende pelo menos a honra e a autoridade do senhor, mesmo quando realmente não ameaça a sua segurança. Isto é muito visível na escola, onde se trata mais rudemente um aluno dotado mas indócil do que um submisso apático. Em moral isso levou à concepção de que uma vontade é tanto pior quanto melhor for a consciência contra a qual actua. A própria justiça não ficou inteiramente ao abrigo deste preconceito pessoal: um crime cometido com inteligência é mais severamente condenado, por ser "refinado" e "cruel". Em política, finalmente, qualquer pessoa pode ir procurar os seus exemplos onde os puder encontrar.

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 14h56 | Comentários (0)

15 de outubro 2003

O Mito da Criação

Ishmael"À semelhança de todos os outros, também tu recebeste a explicação de como o mundo veio a ser o que é — só que aparentemente ela não te satisfaz. Ouviste-a desde a infância, mas não conseguiste engoli-la nunca. Tens a sensação de algo ter sido deixado de fora, encoberto. Tens a sensação de te haverem contado uma mentira e, caso possível, gostarias de saber qual ela é — razão por que te encontras nesta sala".
"Estou confuso. Não sei de história alguma. Não sei de uma história única".
"É uma história única e perfeitamente unificada. Basta pensar mitológicamente".
"Como assim?"
"Estou a falar da mitologia da tua cultura, é claro. Pensei que fosse óbvio".
"Para mim não é".
"Qualquer história explicando o sentido do mundo, as intenções dos deuses e o destino do homem é forçosamente mitologia".
"Será, mas não conheço nada de semelhante. Tanto quanto sei, não existe nada na nossa cultura passível de ser designado de mitologia, a não ser que te refiras à mitologia grega, nórdica ou algo assim".
"Estou a falar de mitologia viva. Que não se encontra registada em qualquer livro, e sim na mente das pessoas da tua cultura. Neste exacto instante, ela está a ser encenada em todas as partes do mundo".
"Repito: tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante".
Ismael franziu a testa escura e lançou-me um olhar de divertida exasperação. "Isso é por tu achares que mitologia é um conjunto de fábulas fantásticas. Os gregos não encaravam desta forma a sua mitologia. Sei que o entendes. Caso te dirigisses a um homem da Grécia homérica e lhe perguntasses quais eram as fábulas fantasiosas sobre os deuses e os heróis do passado que contava aos filhos, ele não te entenderia. A sua resposta seria idêntica à tua: 'Tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante'. Um nórdico teria dito o mesmo".(...)
"Dir-to-ei então com todas as letras. Tu andas à procura do mito da criação da tua própria cultura".
Olhei-o desanimado. "Não temos um mito da criação," disse. "Até aí é certo".(...)
"Não temos um mito da criação," repeti. "A não ser que te refiras ao mito do Génese".
"Não sejas absurdo. Caso um professor do secundário te convidasse a explicar como tudo começou, lerias à turma o primeiro capítulo do Génese?"
"Claro que não".
"Que explicação darias tu então?"
"Poderia dar uma explicação, mas não seria decerto um mito".
"Tu não a considerarias um mito, como é natural. Nenhuma história da criação é um mito para as pessoas que a contam. É apenas a história".
"De acordo, mas a história a que me refiro não é decerto um mito. Suponho que partes dela sejam ainda questionáveis, e que pesquisas futuras possam introduzir algumas revisões, mas não é decerto um mito".
"Liga o gravador e começa. Então saberemos".
Olhei-o reprovadoramente. "Queres realmente que eu... hã..."
"Que contes a história, sim".
"Não posso desfiá-la assim, sem mais nem menos. Preciso de tempo para a organizar".
"Tempo é coisa não falta. A cassete é de noventa minutos".
Suspirei, liguei o gravador e fechei os olhos.

"Tudo começou há muito tempo, há dez ou quinze mil milhões de anos," principiei, minutos depois. "Não estou actualizado sobre qual é a teoria dominante, se a do estado fixo ou a do big-bang, mas em ambos os casos o universo começou há muito tempo".
Nesse ponto, abri os olhos e enviei um olhar interrogativo a Ismael.
Ele retribuiu-me o olhar e perguntou, "É isso? É essa a história?"
"Não, estava só a confirmar". Fechei os olhos e recomecei. "Então, creio que há uns seis ou sete mil milhões de anos — formou-se o nosso sistema solar... Tenho uma imagem na cabeça, retirada de alguma enciclopédia infantil, com bolas de matéria espalhando-se ou aglutinando-se... eram os planetas. Os quais, ao longo de milhares de milhões de anos, foram arrefecendo e solidificando... Deixa cá ver. A vida apareceu no caldo químico dos nossos antigos oceanos há cerca de — há quantos anos, cinco mil milhões?"
"Três mil milhões e meio ou quatro".
"Certo. As bactérias e os microorganismos evoluíram até formas superiores, mais complexas, as quais evoluíram por sua vez para formas mais complexas ainda. Aos poucos a vida estendeu-se até à terra firme. Não sei... houve o limo nas margens dos oceanos, os anfíbios... Os anfíbios ocuparam a terra, evoluíram e tornaram-se répteis. Os répteis evoluíram e tornaram-se mamíferos. Há quanto tempo foi isto? Mil milhões de anos?"
"Há apenas duzentos e cinquenta mil milhões de anos".
"Certo. Seja como for, os mamíferos... Não sei bem. Pequenas criaturas em pequenos nichos — agachadas sob os arbustos, empoleiradas nas árvores... Dessas criaturas nas árvores provieram os primatas. Depois, não sei — talvez há dez ou quinze milhões de anos, um ramo dos primatas deixou as árvores e..." Esgotei o fôlego.
"Isto não é nenhum exame," disse Ismael. "As linhas gerais bastam — quero apenas a história corno ela é vulgarmente conhecida por motoristas de autocarro, camponeses e políticos".
"Está bem," disse eu, e voltei a fechar os olhos. "Uma coisa levou a outra. Surgiu uma espécie após outra e, finalmente, surgiu o homem. Quando foi isso? Há três milhões de anos?"
"Ê uma estimativa fiável".
"Certo".
"É isso?" inquiriu Ismael.
"Em linhas gerais, é".
"Trata-se da história da criação como ela é contada na tua cultura".
"Isso mesmo. Até onde a conhecemos actualmente".
Ismael meneou afirmativamente a cabeça e disse-me para desligar o gravador. Depois, recostou-se com um suspiro que ribombou pelo vidro como se de um vulcão distante se tratasse, cruzou as mãos sobre a barriga e lançou-me um olhar longo e imperscrutável. "E tu, uma pessoa inteligente e moderadamente culta, queres fazer-me acreditar que não se trata de um mito".
"O que tem ela de mítico?"
"Eu não disse que ela tinha algo de mítico. Disse que era um mito".
Acho que ri com nervosismo. "Talvez eu desconheça o teu conceito de mito".
"É idêntico ao teu. Estou a usar a palavra no sentido corrente".
"Então não é um mito".
"Decerto que é um mito. Ouve-a". Ismael disse-me para rebobinar a cassete e passá-la de novo.
Após ter ouvido a gravação, fingi estar pensativo para manter as aparências. Depois disse: "Não é um mito. Caso fosse um texto científico para o oitavo ano, creio que nenhuma escola objectaria — à excepção dos criacionistas".
"Concordo plenamente. Não disse eu tratar-se de uma história ubíqua na tua cultura? As crianças absorvem-na através de muitos canais, incluindo textos escolares sobre ciência".
"O que estás então tu a tentar dizer? Estás a sugerir não se tratar de uma explicação factual?"
"Factos não lhe faltam, claro, mas o seu ordenamento é puramente mítico".
"Não sei do que estás tu a falar".
"Desligaste a tua mente, é óbvio. A canção da Mãe Cultura adormeceu-te".
Olhei-o com seriedade. "Estás a dizer que a evolução é um mito?"
"Não".
"Estás a dizer que o homem não evoluiu?"
"Não".
"O que estás tu a dizer, então?"
Ismael olhou-me sorridente, encolheu os ombros e ergueu as sobrancelhas. Olhei para ele e pensei: Um gorila está a gozar comigo. Não adiantou.
"Ouve de novo " disse-me ele.
Ouvi a gravação até ao fim e disse: "Certo, ouvi uma coisa, a palavra surgiu. Eu disse que finalmente surgiu o homem. É isso?"
"Não é nada disso, não. Não estou a implicar com uma palavra. O contexto torna claro que a palavra surgiu é apenas um sinónimo para evoluiu".
"De que raio se trata, então?"
"Vejo que não estás mesmo a fim de pensar. Recitaste uma história que ouviste milhares de vezes e agora ouves a Mãe Cultura murmurar ao teu ouvido: 'Pronto, pronto, meu pequenino, não há nada em que pensar, nada com que te preocupares, não fiques agitado, não dês ouvidos a esse animal malvado, isto não é um mito, nada do que eu te digo é um mito, donde que não há em que pensar, nada com que te preocupares, ouve apenas a minha voz e dorme, dorme, dorme...'".
Mordi o lábio durante algum tempo e disse, "Não adiantou".
"Está bem," disse ele. "Vou contar uma história minha, e talvez isso adiante". Mordiscou por algum tempo um ramo frondoso, cerrou os olhos e começou.

Esta história (continuou Ismael) aconteceu há quinhentos milhões de anos — uma época inconcebivelrnente distante, quando este planeta ter-te-ia sido totalmente irreconhecível. Sobre a terra nada se movia, a não ser o vento e a poeira. Nenhuma folha de relva balouçava ao vento, nenhum grilo saltava, nenhum pássaro vogava pelo céu. Seres que tais encontravam-se ainda dezenas de milhões de anos no futuro. Até mesmo os mares eram sinistramente imóveis e silenciosos, pois também os vertebrados se encontravam dezenas de milhões de anos no futuro.
Havia, é claro, um antropólogo de serviço. Que espécie de mundo seria sem um antropólogo? Muito deprimido e desiludido andava porém esse antropólogo, pois percorrera o planeta todo procurando alguém para entrevistar, e as cassetes que carregava na mochila continuavam tão vazias quanto o céu. Mas um dia, enquanto caminhava desanimado pela borda do oceano, viu nas águas rasas próximas à margem o que parecia ser uma criatura viva. Não era lá grande coisa, apenas uma espécie de bolha gelatinosa, uma alforreca. Mas, em se tratando da única oportunidade que lhe surgira em todas as suas viagens, avançou pela água rasa até onde a criatura balançava ao sabor das ondas.
Cumprimentou delicadamente a criatura e foi de igual modo bem recebido, e em breve os dois eram já bons amigos. O antropólogo explicou o melhor que pôde que estudava estilos de vida e costumes, solicitando tais informações do seu novo amigo, o qual correspondeu prontamente. "E agora," concluiu o antropólogo, "gostaria de gravar, nas tuas próprias palavras, algumas histórias que contais entre vós".
"Histórias?" estranhou a bolha.
"Sim, como o vosso mito da criação, se é que tendes um".
"O que é um mito da criação?"
"Ah, tu sabes," respondeu o antropólogo. "As lendas fantasiosas que contais aos vossos filhos sobre a origem do mundo".
Ao ouvir isso, a criatura empertigou-se indignada — ou pelo menos tão bem quanto uma bolha inchada consegue fazê-lo —, e respondeu não ter o seu povo qualquer lenda fantasiosa.
"Queres então dizer que não explicais a criação?"
"Decerto que explicamos a criação," declarou a bolha. "Mas não se trata seguramente de um mito".
"Não, decerto que não," disse o antropólogo, lembrando-se finalmente do treino que havia recebido. "Ficar-te-ia imensamente grato se o partilhasses comigo".
"Muito bem," disse a criatura. "Mas quero que entendas que, como tu, nós somos um povo estritamente racional e não aceitamos nada que não se baseie em observação, lógica e método científico".
"Claro, claro," concordou o antropólogo.
A criatura começou enfim o seu relato. "O universo," disse, "surgiu há muitos e muitos anos, talvez há dez ou quinze mil milhões de anos. O nosso sistema solar — esta estrela, este planeta e todos os outros — parecem ter começado a existir há cerca de dois ou três mil milhões de anos. Durante muito tempo, não houve aqui qualquer forma de vida. Mas então, após mil milhões de anos, a vida surgiu".
"Perdão," interrompeu o antropólogo. "Disseste que a vida surgiu. Onde é que isso aconteceu, segundo o vosso mito — isto é, segundo a vossa explicação científica?"
A criatura pareceu ficar aturdida com a pergunta, e empalideceu. "Em que local específico, queres tu dizer?"
"Não, quero saber se isso aconteceu na terra ou no mar".
"Terra?" perguntou a bolha. "O que é terra?"
"Oh, tu sabes," disse o antropólogo, apontando na direcção da margem. "A extensão de solo e pedras que ali começa".
A criatura empalideceu ainda mais e retrucou, "Não faço a menor ideia de que disparate estás tu a falar. O solo e as rochas que ali estão são apenas a borda da imensa bacia que contém o oceano".
"Entendo o que estás a dizer, sim" disse o antropólogo. "Perfeitamente. Continua".
"Muito bem," disse o outro, "Durante muitos milhões de séculos, os únicos seres existentes no mundo eram microorganismos flutuando ao acaso num caldo químico. Mas, aos poucos, formas mais complexas surgiram: criaturas unicelulares, fungos, algas, pólipos e por aí fora.
"Até que, finalmente," disse a criatura, enrubescendo de orgulho ao chegar ao ápice da sua narrativa. "Até que, finalmente, surgiu a alforreca!"


in Ishmael, Daniel Quinn

Lido por dolphin.s às 13h17 | Comentários (7)

14 de outubro 2003

Entra o Empresário

Detesto amarelo. Detesto todos os sinais da Primavera. Não sabes que só estou feliz quando estou deprimida? Não sabes que só estou feliz quando me visto de negro? Que só estou feliz à noite. Sim. Sou uma criatura da noite. Vejo-te chegar ao meu bairro com o teu carro novo, a tua dentadura nova e a tua camisa em sólidos tons pastel limão verde-vómito verde-pálido rosa alperce, que vai bem com qualquer outra peça, e visitas os saldos enquanto avanças, tendo a Gap por mascote. Bom, eu vim aqui para te dizer que a Gap é o demónio. Dar a toda a gente o aspecto mais inofensivo possível, fazer com que toda a gente se acomode o mais possível — apesar de quem veste aquela roupa ser por dentro tão ofensivo quanto possível. Tu queres que toda a gente tenha o mesmo aspecto, para que venham talvez a sentir o mesmo e se tornem então mais fáceis de controlar, de dominar.
Vens pois até ao meu bairro, até às nossas vidas de etnicidade, de diferença, de pobreza, de expressão artística, e vens até ao meu bairro para tentares cooperar, para tentares condominimizar as nossas vidas de modo a poderes fazer um grande negócio imobiliário. Bom, eu serei a tua consciência.

Por isso tomei demasiados comprimidos para dormir e nada aconteceu.
Por isso apontei uma arma à cabeça e nada aconteceu.
Por isso pus a cabeça no forno e nada aconteceu.
Por isso fodi-te a noite toda e nada aconteceu.
Por isso comecei a fazer dieta e nada aconteceu.
Por isso tornei-me macrobiótica e nada aconteceu.
Por isso fui a todas as casas de diversão nocturna da Cidade Grande e nada aconteceu.
Por isso tentei entrar na cena artística, fui para o Soho, e nada aconteceu.
Por isso fui para a universidade e nunca paguei aquele empréstimo para estudantes, porque já sabia que nada iria acontecer.
Por isso larguei a bebida e as drogas mas nunca aconteceu nada.
Por isso tornei-me a modos que política - trabalhei para a ERA, votei no Jesse Jackson - mas nunca aconteceu nada.
Por isso decidi tornar-me doméstica — limpei, cozinhei e servi em hotéis rascas - mas nunca aconteceu nada, nada.
Por isso abaixo-assinei, revoltei, aterrorizei e organizei, porque eu vou fazer com que algo aconteça.

Não vou deixar que voltes a fazer de mim um alvo de violação colectiva, sr. Yuppie, sr. Homem-de-Negócios, sr. Empresário. Não vou deixar que leves as minhas ruas, as que construí com a minha alma, a minha criatividade, o meu espírito. Em toda a minha arte, sr. Milhões, tu vês apenas mais uma oportunidade de investimento. O meu suor, a minha música, a minha moda, são para ti apenas mais um esquema para fazer dinheiro. Tu és a razão pela qual as bolachas David's e o McDonald's são os símbolos da minha cultura. Tu és a razão pela qual a fast food é a única indústria em crescimento nesta nação.

Por isso vens até ao meu bairro, após o teu emprego das nove às cinco, e aos fins-de-semana, à procura da experiência artística. Para que possas voltar ao trabalho e exibir a tua experiência da boêmia. Terei todo o gosto em mostrar-te a experiência artística. Sou a rapariga indicada para o serviço.

Por isso pego em ti, sr. Empresário, sr. Yuppie, sr. Sim-senhor, e amarro-te a toda a tua moda, ao teu Calvin Klein, ao teu Ralph Lauren, também à tua Anne Klein, ao teu Bloomingdale's, ao teu Macy's, e ato-te a tudo isso, ato-te a todas as tuas camisas de algodão em tons pastel lilás e verde-menta, e, sabes que mais? Tu gostas. E o sr. Yuppie diz «É isto a experiência artística?» E eu sorrio e ele gosta, ele gosta.

(...)

Eu sei que queres experimentar a inspiração da artista.
Por isso pego no teu corpo de yuppie e arrasto-o pela Avenida B e deixo que a tua língua se desenrole ao longo da rua a lamber a merda e o mijo, o suor e o sangue de mim, e, sabes que mais? Tu gostas. Tu gostas. Depois faço-te lamber os pneus do teu BMW. Depois deixo-te à esquina e roubo-te o BMW, porque sei que não vai acontecer nada.

Por isso conduzo rua abaixo a toda a velocidade. Aterrorizo todos os que pareçam deter um cargo político, todos os que pareçam possuir propriedades privadas (eu mostro-vos o fardo que é a propriedade privada), e todos os que andem vestidos com fato. Porque, segundo o sr. Andy Somma, os fatos são coisa que não combina com o rock'n'roll.
Conduzo até Wall Street e irrompo pela Bolsa de Valores adentro. Vou-me a todos os corretores e corto-lhes os tomates. Não sai deles sangue algum, somente uns cifrões de dólar.(...)
Oh, eu vingo-me. Oh, eu vingo-me.
Senhor, Deus das alturas, por que não surges agora diante de mim?
Será por seres homem?
O que aconteceu à Fada Madrinha? O que aconteceu ao Coelhinho da Páscoa? O que aconteceu ao Andy Warhol?
Estão mortos, miúda. Mortos.
Sei que vivo numa época sem saída. Sei que tenho uma casa sem saída, que há um futuro sem saída para os meus filhos, sei que tenho um emprego sem saída. Tenho uma cultura sem saída, é um mundo sem saída. Eu sei, eu sei que é um longo, longo caminho sem saída.


in Tratamento de Choque, Karen Finley

Lido por dolphin.s às 16h27 | Comentários (0)

Definir-me, seria limitar-me, e a minha força não tem limites (Fala a Loucura)

A Cabeça de MidasDe mim não esperem, nem definições, nem frases declamatórias. Nada pareceria mais deslocado. Definir-me, seria limitar-me, e a minha força não tem limites. Dividir-me, seria distinguir os diferentes cultos que me prestam, e eu sou igualmente adorada por toda a Terra. E, além disso, de que servina dar-vos com uma definição, um retrato ideal de mim própria, que não se pareceria mais comigo do que a minha própria sombra, visto que na vossa presença tendes o original? Sou, portanto, como vedes, a verdadeira doadora de bens*, essa Loucura a que os latinos chamavam Stultitia e os gregos Mona Mas haverá necessidade de o proclamar? A minha fisionomia não me torna assaz conhecida? e houvesse alguém que quisesse sustentar que eu era Minerva ou a Deusa da Sabedoria, teria necessidade de lhe pôr a nu a minha alma, com os meus discursos? Não lhe bastaria olhar-me, um instante só que fosse, para se convencer do contrário? Em mim, não pode haver nem arrebiques, nem dissimulações, e nunca o meu rosto traduz um sentimento que eu não traga no coração. Enfim, sou de tal modo semelhante a mim própria, que ninguém me saberia ocultar, nem mesmo os que pretendem representar o papel de doutos e que mais desejam passar por tal. Apesar de todos os seus esgares, parecem-se com macacos revestidos de púrpura, ou com burros cobertos com a pele do leão. Bem podem disfarçar-se, haverá sempre um pedacinho da orelha que revelará, por fim, a cabeça de Midas.
Para dizer a verdade, esta espécie de homens é muito ingrata para comigo. São os mais fiéis dos meus súbditos, e, no entanto, tem tanta vergonha de em público usarem o meu nome, que chegam a censurar os outros, como se fora uma desonra ou uma infâmia. Mas estes loucos varridos, que querem que os julguem tão prudentes como Tales, não merecem que lhes chamem Morósofos, isto é, ajuizados-loucos? Porque desta vez irei imitar aqui os retóricos da nossa época, que se julgam pequenos deuses, e, tal como a sanguessuga**, servem-se das suas línguas, concordando que é maravilhoso intercalar, a torto e a direito, num discurso latino, certas palavras gregas que o tornam de todo enigmático. Se não conhecem nenhuma língua estrangeira, arrancam, de qualquer livro bolorento, quatro ou cinco palavrões velhos com que espantam o leitor. Os que os compreendem, lisonjeiam-se de encontrar um motivo de deleite com a sua própria erudição; e quanto mais ininteligíveis parecem, os que os não compreendem mais admirados ficam. Porque é um pequeno prazer, para os meus amigos, admirar muito as coisas que lhes são inacessíveis. Se entre os últimos houver algum que tenha a vaidade de passar por sábio, um sorrisinho de satisfação, um sinalzinho de aprovação, um abanar de orelha, à maneira dos burros, bastará para salvar, aos olhos do próximo, a sua ignorância.


* Deusa. Homero chamava aos seus deuses «doadores de bens».
** Plínio dizia que a sanguessuga tinha a língua bifurcada.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Lido por dolphin.s às 12h57 | Comentários (1)

13 de outubro 2003

Estamos cansados do homem...

Que coisa me é insuportável, a mim, em particular? Com que coisa não consigo lidar de modo nenhum? O que é que me não deixa respirar e me destrói? O ar pestilento! O ar pestilento! É-me insuportável a proximidade de coisas fracassadas..., ter que cheirar as entranhas de uma alma fracassada!... Quantas coisas não há que suportar: privações, necessidades, mau tempo, enfermidades, sacrifícios, isolamento! No fundo, lidamos com tudo isto, nascidos que somos para uma existência de luta subterrânea. Mas há sempre um dia em que subimos, em que chegamos à luz. Há sempre momentos dourados, horas de triunfo... E aí, eis-nos tal qual nascemos, inquebrantáveis, resistentes, prontos para o que vier de novo, de mais difícil, de mais distante, tensos como o arco que à necessidade responde com maior tensão ainda... Mas, de tempos a tempos, concedei-me — supondo que para lá do bem e do mal existem divindades capazes de tais concessões —, concedei-me a possibilidade de entrever, de lançar um breve olhar sobre uma coisa perfeita, completa, conseguida com felicidade, uma coisa poderosa e triunfante perante a qual haja razão para sentir temor! Um breve olhar sobre um homem que justifique o homem! Sobre um feliz exemplar, capaz de complementar e redimir o homem, e assim dar-nos motivo para conservar a fé no homem!... Porque a nossa situação actual é esta: o grau de aviltação e de nivelamento a que chegou o homem europeu traz consigo o maior perigo que nos ameaça, porque este espectáculo só nos dá cansaço... Não vemos nada que queira ser maior e pressentimos que o que vemos vai continuar a descer, sempre mais para baixo, em direcção ao que houver de mais inconsistente, de mais inofensivo, de mais prudente, de mais acomodado, de mais medíocre, de mais indiferente, de mais chinês, de mais cristão... E o homem, não haja dúvidas, torna-se cada vez «melhor»... É precisamente aqui que reside a fatalidade da Europa: ao perdermos o temor perante o homem, deixámos também de ter amor e respeito por ele, esperança nele, e até mesmo a vontade que conduz a ele. Doravante, o espectáculo deste homem só pode provocar cansaço. O que é hoje o niilismo, senão isto mesmo?... Estamos cansados do homem...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Lido por dolphin.s às 23h05 | Comentários (8)

12 de outubro 2003

Visões do Progresso

Thomas Mann—Sr. engenheiro, não lhe convém cismar e devanear - interrompeu-o Settembrini.—Cumpre-lhe confiar-se decididamente aos instintos dos seus anos e da sua raça, que devem obrigá-lo actividade. A sua formação científica também deve associá-lo à ideia do progresso. O senhor vê como em períodos indeterminados a vida realizou uma evolução que a elevou desde o infusório até o homem. Perante isso não pode duvidar de que existam ainda infinitas possibilidades de aperfeiçoamento à disposição do homem. Mas, se o senhor insistir na matemática, conduza a sua marcha circular de perfeição em perfeição e conforte-se com o conceito do século xviii, segundo o qual o homem, originalmente bom, feliz e perfeito, foi depravado e corrompido somente pelos era sociais e, graças a um trabalho crítico sobre a estrutura da Sociedade, voltará a ser bom, feliz e perfeito...
—O sr. Settembrini deixa de acrescentar—aparteou Naphta —que o idílio de Rousseau é uma trivialização racionalista da doutrina eclesiástica da fase primitiva, em que o homem era livre do Estado e do pecado, a fase inicial da proximidade de Deus e d relação filial com Ele, que nos incumbe reencontrar. O restabelecimento da Cidade de Deus, porém, após a dissolução de todas as formas terrenas, acha-se situado no ponto em que se tocam a Terra e o Céu, o que é acessível aos sentidos e o que os ultrapassa. A salvação é transcendental, e quanto à sua república universal capitalista, meu caro doutor, é bastante estranho ouvi-lo falar d «instinto», referindo-se a ela. A tendência instintiva toma inteira mente o partido do nacionalismo, e o próprio Deus implantou nos homens o instinto natural que induz os povos a separarem-se uns dos outros, formando Estados diferentes. A guerra...
—A guerra—gritou Settembrini—até a guerra, meu caro, já teve que servir o progresso, como o senhor não pode deixar de admitir, ao lembrar-se de certos acontecimentos da sua época preferida; falo das Cruzadas. Essas guerras civilizadoras favoreceram de modo sumamente feliz as relações entre os povos, no que diz respeito ao intercâmbio económico e político-comercial. Reuniram a humanidade ocidental sob o signo de uma ideia.
—O senhor mostra-se muito tolerante para com essa ideia. Em compensação, empregarei muita cortesia numa pequena rectificação: as Cruzadas, assim como a intensificação comercial que produziram, não exerceram de modo algum uma influência internacionalista. Pelo contrário, ensinaram os povos a distinguirem-se entre si e estimularam fortemente o desenvolvimento da ideia do Estado nacional.
—É exacto, no que se refere à relação entre os povos e o clero. Sim, nessa época começou a firmar-se a consciência do Estado nacional, contra a presunção hierárquica...
—E todavia, isso a que o senhor chama presunção hierárquica é apenas a ideia da união dos homens sob o signo do Espírito.
—Já conhecemos esse espírito. Não precisamos dele, obrigado.
—É lógico que o senhor, com a sua mania nacionalista, abomine o cosmopolitismo da Igreja, que triunfa sobre o Mundo. Gostaria apenas de saber como tenciona conciliar com isso o horror que sente em relação à guerra. O seu culto do Estado, à maneira antiga, deve fazer do senhor um paladino da concepção positiva do Direito, e como tal...
—Chegamos a falar do Direito? No direito dos povos, meu caro senhor, continua viva a ideia do direito natural e da razão universalmente humana...
—Qual! O seu direito dos povos é outra trivialização rousseauniana do jus divinum, que nada tem que ver com a Natureza nem com a Razão, mas que se baseia na revelação...
—Deixemos de discutir questões de palavras, sr. professor! Continue o senhor tranquilamente a chamar jus divinum àquilo que eu respeito sob os nomes de direito natural e direito dos povos. O essencial é que acima dos direitos positivos dos Estados nacionais se eleva um outro direito, superior e geral, permitindo resolver, mediante arbitragem, as questões de interesses em litígio.
—Arbitragens! Ora essa! Um tribunal de árbitros burgueses, que decide acerca das questões da vida, descobre a vontade de Deus e determina o curso da História! Bem, aí temos os pés das pombas. Onde ficam as asas das águias?
—A moralidade burguesa...
—Olhe, a moralidade burguesa não sabe o que quer. De um lado gritam pelo combate à diminuição da natalidade e exigem que se reduzam as despesas necessárias para a educação dos filhos e para a sua preparação profissional. E por outro lado, estamos a sufocar no meio da multidão; todas as profissões estão de tal modo abarrotadas, que a luta pelo pão de cada dia ofusca os horrores de todas as guerras passadas. Praças arborizadas e cidades ajardinadas! Fortalecimento da raça! Mas, para que serve o fortalecimento, quando a civilização e o progresso desejam que não haja mais guerras? A guerra seria o remédio contra tudo e para tudo. Para o fortalecimento e até contra a diminuição da natalidade.

in A Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 19h38 | Comentários (4)

A estupidez adormece a desconfiança

Robert MusilComecemos pois não importa como, mas de preferência talvez pelo problema inicial, que é o de quem quiser falar da estupidez ou tirar algum benefício de tais intenções dever partir da hipótese de que ele próprio não é estúpido; quer dizer, proclamar que se julga inteligente, ainda que isso passe geralmente por um sinal de estupidez! Ora, se nos perguntarmos porque é que as coisas são assim, a primeira resposta que nos vem ao espírito parece coberta por uma camada de poeira doméstica ancestral, já que ela afirma que a prudência aconselha que não se demonstre ser inteligente. Esta prudência desconfiada, hoje à primeira vista quase incompreensível, data provavelmente de um tempo em que era realmente mais inteligente, para o mais fraco, não ser considerado como tal! A estupidez, pelo contrário, adormece a desconfiança; ela "desarma", como ainda hoje se diz. Encontram-se alguns traços deste género de esperteza em certas relações de dependência onde as forças são de tal modo desiguais que o mais fraco experimenta resolver os problemas fazendo-se passar por mais estúpido do que é; assim, por exemplo, naquilo que se chama as espertezas da Normandia, o comércio dos criados com os seus senhores mais hábeis em falar, as relações do soldado com o oficial, do aluno com o professor e do filho com os pais. O fraco que não pode, irrita menos o detentor do poder que aquele que não quer. A estupidez leva-o mesmo "ao desespero", o que é inegavelmente um estado de fraqueza!

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 13h17 | Comentários (15)

11 de outubro 2003

O ambiente é a alma das coisas

O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria, e essa expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a intersecção de três linhas, e essas três linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo como interpretamos, e o ambiente em que está. Esta mesa, a que estou escrevendo, é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste quarto. A minha impressão desta mesa, se a quiser transcrever, terá que ser composta das noções de que ela é de madeira, de que eu chamo àquilo uma mesa e lhe atribuo certos usos e fins, e de que nela se reflectem, nela se inserem, e a transformam, os objectos em cuja justaposição ela tem alma externa, o que lhe está posto em cima. E a própria cor que lhe foi dada, o desbotamento dessa cor, as nódoas e partidos que tem - tudo isso, repare-se, lhe veio de fora, e é isso que, mais que a sua essência de madeira, lhe dá a alma. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora, que é a personalidade.
Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir alma às coisas que chamamos inanimadas. Ser uma coisa é ser objecto de uma atribuição. Pode ser falso dizer que uma árvore sente, que um rio «corre», que um poente é magoado ou o mar calmo (azul pelo céu que não tem) é sorridente (pelo sol que lhe está fora). Mas igual erro é atribuir beleza a qualquer coisa. Igual erro é atribuir cor, forma, porventura até ser, a qualquer coisa. Este mar é água salgada. Este poente é começar a faltar a luz do sol nesta latitude e longitude. Esta criança, que brinca diante de mim, é um amontoado intelectual de células - mais, é uma relojoaria de movimentos subatómicos, estranha conglomeração eléctrica de milhões de sistemas solares em miniatura mínima.
Tudo vem de fora e a mesma alma humana não é porventura mais que o raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.


in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 19h11 | Comentários (4)

10 de outubro 2003

Confiança

O homem não consegue viver sem uma confiança constante em qualquer coisa de indestrutível que exista em si, sendo que tanto a coisa indestrutível como a confiança podem permanecer constantemente ocultas para ele. Uma expressão possível desse permanecer oculto é a fé num Deus pessoal.

in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 20h20 | Comentários (7)

Vergonha da Humanidade

Friedrich NietzscheSupondo verdadeira a ideia, na qual hoje muitos crêem como se fosse «a verdade», de que o sentido de toda a cultura é precisamente fazer da fera-«homem» um animal manso e civilizado, um animal doméstico, então seria indubitavelmente necessário considerar que os verdadeiros instrumentos da cultura teriam sido todos aqueles instintos de reacção e ressentimento que serviram afinal para humilhar e derrotar as aristocracias e os respectivos ideais... O que, aliás, não significaria ainda que os portadores desses instrumentos fossem simultaneamente os representantes da cultura... O contrário não me parece apenas ser mais provável... Não! O contrário é hoje evidente! Os portadores dos instintos de rebaixamento e de desforra, os descendentes de todos os escravos europeus e não europeus, em especial as populações pré-arianas, esses representam o recuo da humanidade! Os ditos «instrumentos da cultura» são uma vergonha da humanidade e acabam por se tornar um motivo de desconfiança, um argumento contra a «cultura». Pode haver boas razões para se continuar a temer a besta loira que habita no fundo de todas as raças aristocráticas e para se tomarem precauções... Mas haverá quem não prefira cem vezes mais temer e ao mesmo tempo poder admirar, do que não temer e ao mesmo tempo não poder ver-se livre do espectáculo nauseabundo imposto pelos falhados, pelos diminuídos, pelos atrofiados, pelos envenenados? E não será esta a nossa fatalidade? que coisa provoca esta nossa aversão pelo «homem»?... Porque, disso não há dúvida, o homem tornou-se para nós motivo de sofrimento... Não é o temor. Pelo contrário, é o facto de já nada termos a temer no homem, o facto de o verme-«homem» fervilhar à nossa frente, com o maior destaque, o facto de o «homem manso», irremediavelmente medíocre e insuportável, já ter aprendido a achar que é ele o «homem superior», o objectivo, a coroação e o sentido da história...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Lido por dolphin.s às 16h15 | Comentários (0)

História explicativa

"Podes passar o resto do dia tentando descobrir qual a história que as pessoas da tua cultura têm vindo a encenar no mundo nos últimos dez mil anos. Lembras-te do que versa ela?"
"Do que versa a história?"
"Ela versa o sentido do mundo, as intenções divinas no mundo e o destino humano".
"Bem, posso contar-te histórias sobre essas coisas, mas não conheço uma história única".
"É a única história que todos na tua cultura conhecem e aceitam".
"Não creio que isso ajude muito".
"Talvez ajude se eu te disser que se trata de uma história explicativa, do género 'Como o elefante obteve a sua tromba' ou 'Como o leopardo obteve as suas manchas'".
"Está bem".
"E, imaginas tu, esta vossa história explica o quê?"
"Santo Deus, não faço a menor ideia".
"Isso já deveria ser claro a partir do que eu te disse. Ela explica como o mundo veio a ser o que é. Desde o início até hoje".
"Entendo," disse eu, e olhei pela janela durante alguns instantes. "O facto é que não tenho consciência de conhecer uma história que tal. Como eu disse, conheço histórias, mas nada que se pareça com uma história única".
Ismael reflectiu um pouco. "Uma aluna minha, dentre os discípulos que mencionei ontem, sentiu-se na obrigação de me explicar o que procurava ela. Perguntou-me: 'Ninguém fica alarmado porquê? Ouço as pessoas falarem sobre o fim do mundo na lavandaria, e não parecem mais alarmadas do que se estivessem a comparar detergentes. Falam da destruição da camada de ozono e da destruição total da vida. Falam da devastação das florestas tropicais, da poluição mortal que permanecerá connosco durante milhares e milhões de anos, da extinção diária de dezenas de espécies; do fim do próprio processo de desenvolvimento das espécies. E parecem de uma calma olímpica'.
"Eu disse-lhe: 'É isso então que desejas saber — por que razão as pessoas não ficam alarmadas com a destruição do mundo?' Ela pensou um pouco e respondeu: 'Não, eu sei por que razão não se alarmam elas. Não se alarmam por acreditarem no que lhes contaram'".
"Como assim?" perguntei.
"O que é que contaram às pessoas que as impede de se alarmarem, que as mantém relativamente calmas enquanto assistem aos danos catastróficos que estão a infligir ao planeta?"
"Não sei".
"Contaram-lhes uma história explicativa. Deram-lhes uma explicação de como o mundo veio a ser o que é, e isto silencia o seu alarme. Esta explicação é totalmente abrangente, incluindo a deterioração da camada de ozono, a poluição dos oceanos, a destruição das florestas tropicais e até a extinção humana — e isso satisfá-las. Ou talvez seja mais correcto dizer que as pacifica. Participam da engrenagem durante o dia, narcotizam-se com drogas ou com televisão à noite e tentam não pensar muito seriamente sobre o mundo que estão a deixar para os seus filhos enfrentarem".


in Ishmael, Daniel Quinn

Lido por dolphin.s às 12h22 | Comentários (7)

9 de outubro 2003

Fala a Loucura

Fala a LoucuraQue digam de mim tudo o que quiserem (porque eu não ignoro como a Loucura é, todos os dias, reduzida a pedaços, mesmo por aqueles que são, ainda de todos, os mais loucos) mas, no entanto, sou eu, eu só, que, com a minha influência divina, distribuo a alegria pelos deuses e pelos homens.
Com efeito, desde que apareci nesta numerosa assembleia, desde que me dispus a falar, não vi logo brilhar nos vossos olhos uma alegria nova e extraordinária? Não vi os vossos rostos desanuviarem-se? E as gargalhadas que de toda a parte se ouviram, não anunciaram a doce alegria que penetrou nos vossos corações, e o prazer que experimentastes com a minha presença? Agora, quando vos olho, parece-me ver os deuses de Homero, ébrios de néctar e de nepentes: em vez de estardes, como ainda há pouco, tristes e inquietos, como pessoas que acabavam de sair do antro de Trofónio.

(...)

Tal como o brilhante astro do dia, mal os seus primeiros raios dissipam as trevas que cobrem o horizonte, ou como a primavera, depois de um rigoroso inverno, leva atrás de si o louco rebanho dos doces zéfiros, e, imediatamente, tudo se modifica sobre a Terra, um colorido mais brilhante embeleza as coisas, e a natureza rejuvenescida apresenta, aos nossos olhos, um espectáculo mais agradável e mais risonho; do mesmo modo, a minha presença entre vós produziu uma mudança bem feliz, O que os grandes oradores têm enorme trabalho em realizar, com infindáveis estudados discursos, esta minha única presença fê-lo num instante: vistes-me, e imediatamente todas as vossas inquietações se dissiparam.
Sabei, antes de mais nada, que pouco me importam esses sábios que lá porque um homem se louva a si próprio, lhe chamam tolo e impertinente. Que lhe chamem louco, vá; mas concordem, ao menos, que procedendo assim se conduzem de maneira inteiramente conforme com esta qualidade. Na realidade, haverá coisa mais natural do que ver a Loucura exaltar os seus próprios méritos, e cantar ela, em pessoa, os seus louvores? Quem poderia, melhor do que eu, descrever-me tal como sou? A não ser que surja alguém que pretenda conhecer-me melhor do que a mim própria me conheço.
Além disso, agindo assim, creio conduzir-me muito mais modestamente que o comum dos sábios e dos grandes. Dominados por uma má vergonha não se atrevem a louvar-se a si próprios, mas geralmente chamam para junto de si um panegirista enjoativo, qualquer poeta palrador, que por dinheiro se compromete a louvá-los, isto é, a vender mentiras. No entanto, o herói pudibundo empertiga-se como um pavão, ergue arrogantemente a crista, assim que o seu gabador impudente se atreve a igualar aos deuses o mais desprezível dos tartufos. Quando propõe, como modelo perfeito de todas as virtudes, aquele que sabe que está cheio de todos os vícios, quando enfeita a gralha com as penas do pavão, quando tenta branquear a pele de um negro, quando se esforça por fazer passar uma mosca por um elefante... Enfim, faço o que diz o provérbio: «Se ninguém te louva, louva-te tu, a ti próprio».


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Lido por dolphin.s às 16h57 | Comentários (4)

Não cesso de me criar

Jean-Paul Sartre - Les MotsNão cesso de me criar; sou o doador e a doação. Se meu pai vivesse, eu conheceria os meus direitos e os meus deveres; ele está morto e eu ignoro-os: não tenho direitos, pois o amor sacia-me; não tenho deveres, pois dou por amor. Um só mandato: agradar, tudo para fazer vista. Na nossa família, que dissipação de generosidade: meu avô faz-me viver e eu faço-lhe a felicidade; minha mãe dedica-se a todos. Quando penso nisso, hoje, só esta dedicação me parece verdadeira: mas nós tínhamos tendência para nos calarmos a esse respeito. Não interessa: a nossa vida é apenas uma série de cerimónias e esgotámos o tempo a prodigalizar-nos homenagens. Eu respeito os adultos com a condição de que me idolatrem; sou franco, aberto, doce como uma menina. Penso bem, inspiro confiança às pessoas: todos são bons, pois que todos estão contentes. Considero a sociedade uma rigorosa hierarquia de méritos e poderes. Os que ocupam o topo da escala dão tudo quanto possuem aos que se encontram abaixo. Não penso, no entanto, em situar-me no mais alto escalão: não ignoro que o reservam a pessoas severas e bem intencionadas que fazem reinar a ordem. Mantenho-me num pequeno poleiro marginal, não longe delas, e a minha radiação alastra de alto a baixo da escala. Em suma, faço todos os esforços para me afastar do poder secular: nem abaixo, nem acima, sim alhures. Neto de clerc*, sou, desde a infância, um clerc: tenho a unção dos príncipes da Igreja, uma jovialidade sacerdotal. Trato os inferiores como iguais: é uma piedosa mentira que lhes prego a fim de torná-los felizes e com a qual convém que sejam enganados até certo ponto. À minha empregada, ao carteiro, à minha cadela, falo com voz paciente e temperada. Neste mundo em ordem existem pobres. Existem também carneiros de cinco patas, irmãs siamesas, acidentes de caminhos de ferro: tais anomalias não são culpa de ninguém. Os bons pobres não sabem que a sua função é exercitar a nossa generosidade; são pobres envergonhados, passam rentes às paredes; saio a correr, passo-lhes rapidamente uma moeda de dois soldos e, acima de tudo, dou-lhes de presente um belo sorriso igualitário. Acho que têm um ar estúpido e não gosto de tocá-los, mas forço-me a fazê-lo: é uma provação; além disso, cumpre que gostem de mim; esse amor embelezar-lhes-á a vida. Sei que carecem do necessário e apraz-me ser-lhes o supérfluo. Aliás, qualquer que seja a sua miséria, jamais poderão sofrer tanto como o meu avô: quando era pequeno, acordava de madrugada e vestia-se no escuro; no Inverno, para se lavar, precisava de quebrar o gelo na bilha da água. Felizmente, as coisas depois melhoraram: meu avô crê no Progresso, eu também: o Progresso, esse longo e árduo caminho que leva até mim.


* Usado com o duplo sentido de letrado e clérigo

in As Palavras, Jean-Paul Sartre

Nota pessoal: este livro apareceu-me hoje à frente num alfarrabista de rua. Depois de acreditar que nunca o veria, dei pulos de alegria! ;))

» Edição de maio de 1974

Lido por dolphin.s às 01h00 | Comentários (20)

8 de outubro 2003

A vaidade e a estupidez crescem no mesmo ramo

Robert MusilExiste desde sempre entre estupidez e vaidade um estreito laço — o que nos fornece talvez uma indicação. O estúpido parece muitas vezes vaidoso até pelo facto de não ter inteligência para o ocultar; mas isso não seria necessário, no fundo, porque o parentesco entre vaidade e estupidez é directo: um vaidoso dá a impressão de produzir menos do que poderia fazer — como uma máquina cujos vapores escapam pelo sítio errado.
O velho adágio: "A vaidade e a estupidez crescem no mesmo ramo", quer dizer precisamente isso, tal como a expressão a vaidade "cega". Aquilo que associamos à noção de vaidade é a expectativa de uma produção menor (um certo sentido da palavra "vão" está muito próximo de "inútil"). E esta menor produção é esperada mesmo onde existe, de qualquer modo, produção: vaidade e talento também estão muitas vezes ligados; mas temos então a impressão de que a produção poderia ser superior, se o próprio vaidoso não fosse um obstáculo a isso. Esta representação, tão persistente, de uma produção inferior aparecerá, de resto, mais adiante como a representação mais geral que fazemos da estupidez.
Mas se o comportamento vaidoso é evitado, isso não é, como sabemos, porque pode ser estúpido, é sobretudo porque choca as conveniências sociais. "Aquele que se louva enlameia-se", diz um velho provérbio; isso significa que ser fanfarrão, falar demasiado de si e vangloriar-se excessivamente é considerado não apenas pouco inteligente, como inconveniente. Se não estou enganado, as exigências que isso fere fazem parte das numerosas e diversas recomendações destinadas a gerir o contentamento de uma pessoa consigo própria, pressupondo que este é tão grande nos outros como no próprio. Mas estas recomendações sobre as distâncias a observar condicionam igualmente o uso de palavras demasiado directas, regulam as formas de saudação, proíbem contradizer alguém sem pedir desculpa ou começar uma carta pela palavra "eu"; resumindo, exigem o respeito de certas regras a fim de evitar demasiada familiaridade — quer dizer, de proximidade*. Têm por tarefa aplainar e harmonizar os contactos, facilitar o amor por si como pelo próximo e assegurar, nas relações entre os homens, qualquer coisa como uma temperatura média; este género de prescrições encontra-se em todas as sociedades, mais ainda até nas primitivas que nas muito civilizadas, e não são sequer ignoradas pela sociedade muda dos animais, como é fácil verificar em muitas das suas cerimónias. Ora, uma tal preocupação de manter a distância proíbe não só que alguém se elogie a si próprio, mas também que se elogie qualquer outro excessivamente. Dizer a alguém, frente a frente, que é um génio ou um santo seria uma enormidade quase tão grande como fazê-lo de si próprio; pintar a cara ou levantar cabelo não seria muito melhor, para o nosso gosto actual, que insultar outra pessoa. Em geral, as pessoas contentam-se em insinuar que não são mais estúpidas ou piores que os outros, como já referimos!

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 14h05 | Comentários (0)

7 de outubro 2003

Futebol

Quer-nos parecer que começa a ser tempo de o intelectual ou o artista irem perguntando a si próprios por que motivo o público que lhes falta esgota lotações dos estádios, num país subdesenvolvido do Ocidente ou numa república popular, pelo maduro prazer de assistir, durante noventa minutos, às aparentemente loucas correrias de um punhado de homens atrás de uma caprichosa bola de couro.


Ruy Belo, Futebol e jornais desportivos têm muito público... Porquê?, in A Bola, 6-Jan-1972

Lido por jm às 13h36 | Comentários (8)

Então o que é que te faz feliz?

Então o que é que te faz feliz?

A fantasia de que a bolsa de valores pudesse mesmo falir.

Karen FinleyEscute, minha senhora. Já acabou. A festa já acabou. Mas a minha parte só agora começou. Cá por mim, que se foda a IBM. Cá por mim, que se foda a General Electric. Cá por mim, que se fodam a companhia do gás, a companhia da electricidade. Já não há mais relatórios para fotocopiar porque já não há mais empresas, o que significa que acabaram as multinacionais, o que significa que acabou a burocracia, o que significa que já não há mais tretas! As únicas empresas que não se foram abaixo foram treze firmas de preservativos, um mercado coreano e uma barraca de cachorros quentes. Os bónus em acções, os condomínios, as férias de luxo, foi-se tudo. Os dois carros, as piscinas, desapareceram. Os BMWs, os Cadillacs e os Audis também. Nem cheguei a vê-los. Os restaurantes com comida do Terceiro Mundo a preços de yuppie, levaram sumiço. Não é a morte da Baixa! E a morte da Alta!

E sabem quem é que, muito em segredo, adora a ideia de que acontecesse realmente um crash, uma recessão ou depressão? Os nossos avós e os nossos pais. Então sim, poderiam finalmente desenterrar todas as suas histórias da Grande Depressão.

Eles acreditam mesmo que se passássemos por um verdadeiro martírio económico levaríamos vidas tão salutares quanto as deles. E lá vêm as histórias: caminhei quinze quilómetros para chegar à escola descalço debaixo da neve que caía, depois de ter estado toda a noite a trabalhar numa padaria acartando sacas de cinquenta quilos de farinha com o meu corpo de trinta quilos. O único alimento que conseguia eram as varreduras do chão. Tivemos de queimar toda a mobília para nos mantermos quentes. Tive de andar a correr atrás dos carros do carvão para apanhar os carvões que iam caindo. A minha mãe esteve tuberculosa. Toda a gente tinha poliomielite. Toda a gente receava as piscinas. Receber uma laranja como presente de Natal era algo de importante. Receber um novo par de peúgas, isso então era o máximo. Depois veio o new deal. E no meio disto tudo fui um aluno de 20 valores. Mas veio a guerra. Nunca consegui ser aquilo que queria, que era ser artista, músico, filósofo. Em vez disso, tornei-me dentista.

Toda a minha vida foi uma infelicidade. Quando era criança não tinha dinheiro e depois, quando adulto, tinha dinheiro mas continuava a não ser feliz. Foi por isso que a tua mãe e eu te tivemos a ti. Tu devias vir a ter tudo o que nós não tivemos, ser tudo o que não pudemos ser. Um espírito livre. Uma nova geração de experiência do mundo e da vida. Havias de viajar, de conhecer outras pessoas, de estudar para algo mais do que uma mera carreira. Queríamos que te expandisses como não foi permitido à nossa geração. Poderias ter um emprego de que gostasses, para o qual tivesses talento e pelo qual te respeitassem. Queríamos que os nossos filhos fossem os novos guardadores do império. E iriam acabar com as guerras.

DEVERIAS VIR A SER TU TODA A NOSSA EXPERIÊNCIA EMOCIONAL PARA O MUNDO.

Mas enquanto andávamos a dar-te tudo esquecemo-nos do teu coração, e agora é tarde.


in Tratamento de Choque, Karen Finley

Lido por dolphin.s às 12h42 | Comentários (11)

6 de outubro 2003

O Imenso Possível do Abismo de Tudo

A personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas a tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras... Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim.
A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.
Quantas vezes eu mesmo, que rio de tais seduções da distracção, me encontro supondo que seria bom ser célebre, que seria agradável ser ameigado, que seria colorido ser triunfal! Mas não consigo visionar-me nesses papéis de píncaro senão com uma gargalhada do outro eu que tenho sempre próximo como uma rua da Baixa. Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre como guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser conhecido? Mas o caso passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são um obstáculo. Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O aplauso chega ao quarto andar onde moro e colide com a mobília tosca do meu quarto barato, com o reles que me rodeia, e me amesquinha desde a cozinha ao sonho. Não tive sequer castelos em Espanha, como os grandes espanhóis de todas as ilusões. Os meus foram de cartas de jogar, velhas, sujas, de um baralho incompleto com que se não poderia jogar nunca; nem caíram, foi preciso destruí-los, com um gesto de mão, sob o impulso impaciente da criada velha, que queria recompor, sobre a mesa inteira, a toalha atirada sobre a metade de lá, porque a hora do chá soara como uma maldição do Destino. Mas até isto é uma visão improfícua, pois não tenho a casa de província, ou as tias velhas, a cuja mesa eu tome, no fim de uma noite de família, um chá que me saiba a repouso. O meu sonho falhou até nas metáforas e nas figurações. O meu império nem chegou às cartas velhas de jogar. A minha vitória falhou sem um bule sequer nem um gato antiquíssimo. Morrerei como tenho vivido, entre o bric-à-brac dos arredores, apreçado pelo peso entre os pós-escritos do perdido.
Leve eu ao menos, para o imenso possível do abismo de tudo, a glória da minha desilusão como se fosse a de um grande sonho, o esplendor de não crer como um pendão de derrota - pendão contudo nas mãos débeis, mas pendão arrastado entre a lama e o sangue dos fracos, mas erguido ao alto, ao sumirmo-nos nas areias movediças, ninguém sabe se como protesto, se como desafio, se como gesto de desespero. Ninguém sabe, porque ninguém sabe nada, e as areias engolfam os que têm pendões como os que não têm. E as areias cobrem tudo, a minha vida, a minha prosa, a minha eternidade.
Levo comigo a consciência da derrota como um pendão de vitória.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 21h37 | Comentários (0)

Feras à solta

(...) aqueles homens que, inter pares, se encontram rigorosamente limitados pela moral, pela veneração, pelos costumes ou pela gratidão, e mais ainda pelo controlo mútuo e pela inveja, e que ao mesmo tempo, nas relações que mantêm entre si, se revelam tão inventivos no que toca às atenções, ao autodomínio, à delicadeza, à fidelidade, ao orgulho e à amizade, são os mesmo que, para fora, a partir da fronteira onde começa o estranho, onde começa tudo o que é estrangeiro, se mostram pouco melhores do que feras à solta. Nesse momento gozam de liberdade relativamente ao constrangimento social, libertam-se, como se estivessem numa selva, da tensão resultante do prolongado aprisionamento, do sequestro a que a paz social os submeteu, regressam à inocência do animal selvagem, quais monstros triunfantes, vindos talvez de uma terrível sequência de assassinatos, destruições, violações e torturas, com aquela serenidade orgulhosa de quem acha que tudo não passou de uma brincadeira de estudantes e se convence de que finalmente os poetas voltam a ter matéria para longas celebrações nos seus versos.


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 15h15 | Comentários (2)

5 de outubro 2003

Ser estúpido....

contentar-nos-emos em reter, no essencial, que pode ser estúpido pretender-se inteligente, mas nem sempre é inteligente passar por estúpido. Não há meio de se poder fazer uma qualquer generalização; a única coisa admissível é a de que a atitude mais inteligente que podemos adoptar neste mundo é a de nos fazermos notar o menos possível!

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 15h00 | Comentários (18)

4 de outubro 2003

Quem sou quando sinto?

Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
Estas páginas, em que registo com uma clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou?
Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa.
É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.
Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares


Lido por dolphin.s às 13h38 | Comentários (2)

3 de outubro 2003

O Sentido da Vida III

O núcleo e valor último da vida só pode residir em estados que existem em função de si próprios e que contêm em si próprios a satisfação que proporcionam. . . . Ora, a vida significa movimento e acção, e se desejamos descobrir um sentido nela devemos procurar actividades que contêm o seu valor e propósito em si próprias, independentemente de quaisquer objectivos exteriores; actividades, portanto, que não são trabalho, no sentido filosófico do termo. . . . Existem realmente tais actividades. Para sermos consistentes, devemos chamar-lhes jogos, já que este é o nome para a acção livre e sem propósito, isto é, para a acção que na verdade contém em si o seu propósito. . . .

Jogar, como entendemos a noção, é qualquer actividade que decorre inteiramente em função de si própria, independentemente dos seus efeitos e consequências. Não há nada que impeça esses efeitos de serem de um tipo útil ou valioso. Se forem, tanto melhor; a acção continua a ser jogo, pois já contém o seu valor em si própria. Bens valiosos podem proceder dela, tal como da actividade intrinsecamente não aprazível em que se procura atingir um propósito. Por outras palavras, também o jogo pode ser criativo; o seu resultado pode coincidir com o do trabalho. . . .

Olhemos à nossa volta: onde encontramos jogo criativo? O exemplo mais brilhante (que ao mesmo tempo é mais do que um simples exemplo) encontra-se na criação do artista. A sua actividade, que consiste em dar forma ao seu trabalho através da inspiração, é ela própria um prazer, e em parte é por acidente que valores duradouros resultam dela. Enquanto trabalha, o artista pode não pensar no benefício desses valores, pode nem pensar na sua recompensa, já que de outro modo o acto de criação ficará corrompido. O prémio que abundantemente recompensa não é a corrente de ouro, mas a canção que brota do coração! Assim se sente o poeta, e também o artista. E quem se sente assim naquilo que faz é um artista.

Considere-se, por exemplo, o cientista. Conhecer, também, é um puro jogo do espírito, a procura da verdade científica é um fim em si mesmo para ele. O cientista adora medir os seus poderes contra os enigmas que a realidade lhe propõe, independentemente dos benefícios que possam de alguma maneira resultar da sua actividade. . . .

Toda a nossa cultura terá que se concentrar num rejuvenescimento do ser humano, rejuvenescimento no sentido filosófico, de tal maneira que todas as nossas actividades se libertem gradualmente do domínio dos propósitos, que até as acções necessárias para a vida se transformem em jogo. . . .

Toda a educação deverá encarregar-se de que nada da criança se perca no homem à medida que este amadurece, de que a separação entre a adolescência e a idade adulta vá desaparecendo gradualmente, de tal forma que o homem permaneça um rapaz até aos seus últimos anos, e a mulher uma rapariga, apesar de ser uma mãe. Se precisamos de uma regra de vida, que seja esta: «Preserva o espírito da juventude!». Pois este é o sentido da vida.


Excertos de um texto de Moritz Schlick traduzido por Pedro Galvão
Na Intelectu

Lido por dolphin.s às 15h17 | Comentários (17)

Takers & Leavers

IshmaelEscolhamos alguns nomes, para não precisarmos mais de falar de 'pessoas da tua cultura' e de 'pessoas de todas as outras culturas'. (...) Então, daqui por diante, chamarei Takers às pessoas da tua cultura e Leavers às pessoas de todas as outras culturas".
"Hum... tenho uma objecção".
"Diz".
"Não vejo como é possível agrupar todas as pessoas do mundo nessas categorias".
"É assim que se faz na tua cultura, com a diferença de serem usados um par de termos fortemente conotados em vez destes termos relativamente neutros. Vocês chamam-se civilizados e todos os outros são primitivos. O acordo é universal quanto a estes termos; quero eu dizer que os povos de Londres, Paris, Bagdade, Seul, Detroit, Buenos Aires e Toronto, todos o sabem. A despeito de tudo quanto os separa, estão unidos no facto de serem civilizados e distintos dos povos da Idade da Pedra espalhados pelo mundo fora; consideram ou reconhecem que — a despeito das diferenças que os separam — os povos da Idade da Pedra estão igualmente unidos no facto de serem eles primitivos".

(...)

"A Mãe Cultura, cuja voz fala aos teus ouvidos desde o dia em que nasceste, deu-te uma explicação de como o mundo veio a ser o que é. Tu conhece-la bem; todos na tua cultura a conhecem bem. Esta explicação não te foi porém transmitida de uma vez só. Nunca ninguém pegou em ti ao colo e te disse: 'Eis como o mundo veio a ser o que é, desde há dez ou quinze mil milhões de anos a esta parte até ao presente'. Em vez disso, tu reuniste esta explicação como se de um mosaico se tratasse: a partir de um milhão de informações apresentadas de várias formas por outros que partilham dessa explicação. Montaste-a a partir da conversa dos teus pais à mesa, de desenhos animados a que assististe na televisão, de aulas de catequese, dos teus livros escolares e dos teus professores, de telejornais, filmes, romances, sermões, peças de teatro, jornais e tudo o resto. Estás a acompanhar-me?"
"Acho que sim".
"É ubíqua na tua cultura esta explicação de como o mundo veio a ser o que é. Todos a conhecem e todos a aceitam sem questionar".
"Certo".
"Ao longo desta nossa viagem, reexaminaremos algumas peças-chave desse mosaico. Retirá-las-emos do vosso mosaico e encaixá-las-emos noutro completamente diferente, numa explicação inteiramente diversa de como o mundo veio a ser o que é".
"Certo".
"E, quando terminarmos, tu possuirás uma compreensão totalmente nova do mundo e de tudo quanto nele aconteceu. E não fará a menor diferença que te lembres ou não da forma como foi montada tal compreensão. A viagem em si é que irá transformar-te".

(...)

"Em terceiro lugar, definições," disse Ismael. "São palavras que terão um sentido especial no discurso que aqui desenvolveremos. Primeira definição: história. Uma história é um cenário interrelacionando o homem, o mundo e os deuses".
"De acordo".
"Segunda definição: encenar. Encenar uma história é viver de forma a torná-la realidade. Por outras palavras, encenar uma história é esforçar-se por torná-la verdadeira. Como tu reconheces, foi isto o que os alemães fizeram sob o domínio de Hitler. Tentavam tornar realidade o Reich dos Mil Anos. Tentavam tornar realidade a história que Hitler contava".
"Certo".
"Terceira definição: cultura. Uma cultura é um povo encenando uma história".
"Um povo encenando uma história. E uma história é..."
"Um cenário interrelacionando o homem, o mundo e os deuses".
"Certo. Dizes pois que as pessoas da minha cultura estão a encenar a sua própria história sobre o homem, o mundo e os deuses".
"Exactamente".
"Continuo porém sem saber de qual história se trata".
"Lá chegarás, não te rales. De momento, tudo quanto precisas de saber é que duas histórias fundamentalmente diferentes foram aqui encenadas no decurso da vida do homem. Uma começou a ser aqui encenada há dois ou três milhões de anos pelo povo que acordamos em chamar de Leavers, e continua a ser encenada por eles hoje, com tanto sucesso como sempre. A outra começou a ser aqui encenada há dez ou doze mil anos pelo povo que acordamos em chamar de Takers e, tudo o indica, apresta-se a terminar em catástrofe".
"Ah," disse eu, significando não sei bem o quê.

"Se a Mãe Cultura apresentasse uma descrição da história humana usando estes termos, ela diria algo assim: 'Os Leavers foram o primeiro capítulo da história humana — um capítulo longo e desprovido de eventos. Este capítulo da história humana terminou há cerca de dez mil anos, com o surgir da agricultura no Médio Oriente, evento esse que marcou o início do segundo capítulo, o capítulo dos Takers. Existem ainda, é certo, Leavers vivendo no mundo, mas eles são fósseis, anacronismos — povos vivendo no passado, povos que não há forma de entenderem haver terminado o seu capítulo na história humana'".
"Certo".
"É esta a forma geral da história humana tal como ela é vista na tua cultura".
"Diria que sim".
"Como virás a entender, o que eu afirmo é bem diferente. Os Leavers não são o primeiro capítulo de uma história na qual os Takers são o segundo capítulo".
"Importas-te de repetir?"
"Di-lo-ei de outra forma. Os Leavers e os Takers estão a encenar duas histórias separadas, baseadas em premissas totalmente diversas e contraditórias.


in Ishmael, Daniel Quinn

Lido por dolphin.s às 10h50 | Comentários (3)

2 de outubro 2003

Autodomínio

Ao autodomínio não aspiro. Autodomínio significa querer agir sobre um ponto casual das infinitas emanações da minha existência espiritual. Se, no entanto, tiver que traçar tais círculos à minha volta, é preferível fazê-lo de um modo inactivo, simplesmente através do olhar pasmado para o enorme complexo, e levar apenas para casa o fortalecimento que, no entanto, esta contemplação me dá.

in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 21h20 | Comentários (18)

No terreno do homem oprimido

Friedrich NietzscheOs indivíduos «bem nascidos» sentiam que eram «os felizes»; não precisavam de construir artificialmente a sua felicidade por intermédio de um olhar lançado sobre os seus inimigos, não precisavam de se persuadir dessa felicidade, de mentir a si próprios quanto à existência dessa felicidade (como cuidam de fazer os homens de ressentimento). E, porque eram integralmente homens, plenos de força e, portanto, necessariamente activos, também sabiam não separar a felicidade da acção... Para eles, a actividade é parte necessária e integrante da felicidade... Tudo em total oposição à ideia de «felicidade» no plano dos impotentes, no terreno do homem oprimido que vive roído pelos sentimentos venenosos e pela hostilidade, para quem ela é essencialmente narcose, atordoamento, quietude, paz, sabat, repouso do ânimo e das pernas, ou seja, numa palavra, passividade. Enquanto o homem aristocrático vive numa atitude de confiança e de franqueza para consigo próprio, pelo contrário, o homem de ressentimento não é franco, nem ingénuo, nem tão-pouco frontal e sério perante si mesmo. A alma deste homem olha de través, o seu espírito gosta de recantos, de caminhos tortuosos e de portas das traseiras, encanta-se com tudo o que é recôndito, porque é esse o seu mundo, a sua segurança, o seu conforto. É especialista em calar-se, não esquecer, esperar, e em amesquinhar-se ou humilhar-se provisoriamente. Uma raça assim, composta por homens de ressentimento, acabará por ser necessariamente mais prudente do que uma raça aristocrática. Dispensará à prudência honras muito especiais, atribuir-lhe-á o papel de uma condição i de existência de primeira ordem, ao passo que para o homem aristocrático a prudência facilmente adquire uma coloração de luxo e de refinamento, porque para este ela é muito menos essencial do que a perfeita segurança do funcionamento regulador dos instintos inconscientes, e mesmo menos importante do i que uma certa imprudência, por exemplo, o acto de se lançar temerariamente para o perigo ou contra o inimigo, ou aquele rasgo súbito e entusiástico de cólera, de amor, de respeito, de gratidão ou de vingança, no qual sempre se reconheceram as almas mais nobres. Mesmo o ressentimento do homem aristocrático, quando ocorre, corporiza-se e esgota-se numa reacção imediata e, portanto, não envenena. Para além de que não chega sequer a ocorrer em inúmeras situações em que nos indivíduos fracos e impotentes seria totalmente inevitável. Não poder levar a sério por muito tempo os inimigos, as adversidades e mesmo as culpas próprias, é o sinal que distingue os indivíduos de natureza forte e inteira, nos quais há uma superabundância de força plástica que tem efeitos regeneradores e curativos e que consegue também fazer esquecer (um bom exemplo, no mundo moderno, é o de Mirabeau, que não tinha memória nem para os insultos nem para actos infames dirigidos contra si, e que não podia perdoá-los pela simples razão de que... já os esquecera). Um indivíduo assim, quando se sacode, consegue ver-se livre de inúmeros vermes que noutros se instalam longamente.

in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 14h38 | Comentários (5)

1 de outubro 2003

On the Sufferings of the World IV

Arthur SchopenhauerHowever varied the forms that human happiness and misery may take, leading a man to seek the one and shun the other, the material basis of it all is bodily pleasure or bodily pain. This basis is very restricted: it is simply health, food, protection from wet or cold, the satisfaction of the sexual instinct; or else the absence of these things. Consequently, as far as real physical pleasure is concerned, the man is not better off than the brute, except in so far as the higher possibilities of his nervous system make him more sensitive to every kind of pleasure, but also, it must be remembered, to every kind of pain. But then compared with the brute, how much stronger are the passions aroused in him! what an immeasurable difference there is in the depth and vehemence of his emotions! - and yet, in the one case, as in the other, all produce the same result in the end: namely, health, food, clothing, and so on.
The chief source of all this passion is that thought for what is absent and future, which, with man, exercises such a powerful influence upon all he does. It is this that is the real origin of his cares, his hopes, his fears - emotions which affect him much more deeply than could ever be the case with those present joys and sufferings to which the brute is confined. In his powers of reflection, memory and foresight, man possesses, as it were, a machine for condensing and storing up his pleasures and his sorrows. But the brute has nothing of the kind; whenever it is in pain, it is as though it were suffering for the first time, even though the same thing should have previously happened to it times out of number. It has no power of summing up its feelings. Hence its careless and placid temper: how much it is to be envied! But in man reflection comes in, with all the emotions to which it gives rise; and taking up the same elements of pleasure and pain which are common to him and the brute, it develops his susceptibility to happiness and misery to such a degree that, at one moment the man is brought in an instant to a state of delight that may even prove fatal, at another to the depths of despair and suicide.
If we carry our analysis even farther, we shall find that, in order to increase his pleasures, man has intentionally added to the number and pressure of his needs, which in their original state were not much more difficult to satisfy than those of the brute. Hence luxury in all its forms: delicate food, the use of tobacco and opium, spirituous liquors, fine clothes and the thousand and one things that he considers necessary to his existence.

On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer

Lido por dolphin.s às 15h55 | Comentários (0)

29 de setembro 2003

Mensageiros ou Reis

Foi-lhes dado escolher entre serem reis ou mensageiros reais. À maneira das crianças quiseram todos ser mensageiros. É por isso que só há mensageiros. Correm pelo mundo e, uma vez que não há reis, gritam uns para os outros as mensagens que entretanto perderam o sentido. Bem gostariam de pôr um fim às suas vidas miseráveis, mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram.

in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 21h00 | Comentários (31)

Envenenar

Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares


Lido por dolphin.s às 15h59 | Comentários (19)

Bela Estupidez

Robert MusilDesconfiei sempre que esta resistência multiforme de um povo, que tem pretensões a amar a arte, à criação e a toda a delicadeza de espírito era apenas estupidez, talvez uma variedade particular de estupidez, uma estupidez estética e talvez também afectiva; manifestando-se de tal modo, em todo o caso, que aquilo a que nós chamamos "bel esprit" poderia também ser qualificado de "bela estupidez"; hoje ainda, não vejo muitas razões para mudar de opinião. Sem dúvida, que não podemos reduzir à estupidez tudo o que altera um desígnio tão plenamente humano como o da arte; é preciso também — as experiências destes últimos anos mostraram-no particularmente — reconhecer o papel desempenhado pelas diversas variedades de frouxidão. Não se deve, contudo, objectar que o conceito de estupidez nada tem a ver com isto a pretexto que ele diz respeito ao entendimento e não aos sentimentos de que a arte, em contraste, releva. Seria um erro. Mesmo o prazer estético é ao mesmo tempo julgamento e sentimento. E permitir-me-ão não apenas lembrar, que o grande axioma de Kant fala de uma capacidade de julgamento estético e de julgamentos de gosto, mas ainda repetir a antinomia a que, desse modo, ele chega:
Tese: O julgamento do gosto não se baseia sobre conceitos porque em tal caso seria possível discuti-lo (decidir através da prova).
Antítese: Ele baseia-se em conceitos, pois de outro modo não se poderia sequer discuti-lo (procurar uma unanimidade).
Aqui chegado, desejo colocar uma questão: não existirá, na base da política e do caos da vida em geral, um juízo e uma antinomia análogas? E não deveremos esperar encontrar, ali onde o julgamento e razão estão em casa, as suas irmãs e irmãzinhas, as diferentes formas de estupidez?

in Da Estupidez, Robert Musil

Lido por dolphin.s às 10h31 | Comentários (4)

28 de setembro 2003

Tenho a náusea física da humanidade vulgar

Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Um dos meus passeios predilectos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.
E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... «E então ela disse...» e o tom diz da intriga dela. «Se não foi ele, foste tu...» e a voz que responde ergue-se no protesto que já não oiço. «Disseste, sim senhor, disseste...» e a voz da costureira afirma estridentemente «Minha-mãe diz que não quer...» «Eu?» e o pasmo do rapaz que traz o lunch embrulhado em papel-manteiga não me convence, nem deve convencer a loura suja. «Se calhar era...» e o riso de três das quatro raparigas cerca do meu ouvido a obscenidade. «E então pus-me mesmo diante do gajo, e ali mesmo na cara dele - na cara dele, hein, ó Zé...» e o pobre diabo mente, pois o chefe do escritório - sei pela voz que o outro contendor era chefe do escritório que desconheço - não lhe recebeu na arena entre as secretárias o gesto de gladiador de palhinhas. «... E então eu fui fumar para a retrete...» ri o pequeno de fundilhos escuros.
Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer - não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse - o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direcção involuntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos. Não ouso porque, quando se provoca o vómito, é preciso provocar só um.
«O gajo estava tão grosso que nem via a escada.» Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Passa-me a náusea. Vejo o gajo. Vejo-o fotograficamente. Até o calão inocente me anima. Bendito ar que me dá na fronte - o gajo tão grosso que nem via que era de degraus a escada - talvez a escada onde a humanidade sobe aos tombos, apalpando-se e atropelando-se na falsidade regrada do declive aquém do saguão.
A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 21h07 | Comentários (38)

Essa é então a esperança que devemos ter

Ishmael"Uma vez, andava eu na faculdade, redigi um trabalho para uma cadeira de filosofia. Não me lembro bem qual era o seu teor — tinha algo a a ver com epistemologia. A ideia do trabalho, grosso modo, era a seguinte: Sabem uma coisa? Os nazis, afinal, não perderam a guerra. Ganharam-na e prosperaram. Conquistaram o mundo e eliminaram até ao último os judeus, os ciganos, os negros e os índios orientais e americanos. Terminada esta etapa, acabaram com os russos, os polacos, os boémios, os morávios, os búlgaros, os sérvios e os croatas — os eslavos todos. Viraram-se depois para os polinésios, coreanos, chineses e japoneses — todos os povos da Ásia. Isto levou muito, muito tempo, mas, quando terminaram, todos no mundo eram cem por cento arianos e todos eram muito, muito felizes.
"Naturalmente, os livros escolares deixaram de mencionar qualquer raça excepto a ariana, qualquer língua excepto a alemã, qualquer religião excepto o hitlerismo, qualquer sistema político excepto o nacional-socialismo. Não havia necessidade de o fazerem. Após algumas gerações assim, ninguém conseguiria escrever nos livros o que quer que fosse de diferente, mesmo que o desejasse fazer, pois ninguém mais sabia algo que fosse diferente.
"Um dia, porém, dois jovens estudantes conversavam na Universidade de Nova Heidelbergue, em Tóquio. Eram ambos bem parecidos, como o são habitualmente os arianos, mas um deles parecia vagamente preocupado e infeliz. Era o Kurt. O seu amigo perguntou: 'O que é que se passa, Kurt? Estás com essas trombas porquê?' Kurt respondeu: 'Eu digo-te, Hans. Algo está a preocupar-me — a preocupar-me profundamente'. O amigo perguntou do que se tratava. 'É o seguinte,' disse Kurt. 'Não consigo livrar-me desta sensação maluca de nos andarem a mentir sobre alguma coisa'.
"E era assim que o trabalho terminava".
Ismael assentiu pensativamente. "E o teu professor, o que pensou ele disso?"
"Quis saber se eu tinha a mesma sensação maluca de Kurt. Quando respondi que sim, quis saber qual era a mentira que, achava eu, andavam a contar-nos. Eu disse: 'Como posso eu saber? A minha situação não é melhor que a de Kurt'. É claro que ele não achou que eu falasse a sério. Pensou tratar-se apenas de um exercício de epistemologia".
"E continuas a perguntar-te se te mentiram?"
"Sim, mas não tão desesperadamente quanto então"
"Não tão desesperadamente? Mas porquê?"
"Por ter descoberto que, na prática, não faz qualquer diferença. Quer nos contem mentiras ou não, devemos ainda assim acordar e ir para o trabalho e pagar as contas e tudo o resto".
"A não ser, é claro, que todos vós começásseis a desconfiar que vos andavam a mentir — e todos descobrísseis qual a mentira era".
"Como assim?"
"Caso fosses tu o único a descobrir qual a mentira é, então provavelmente terias razão — não faria grande diferença. Mas, caso todos vós descobrísseis qual a mentira é, pode presumir-se que faria de facto uma grande diferença".
"Lá isso é verdade".
"Essa é então a esperança que devemos ter".


in Ishmael, Daniel Quinn

Lido por dolphin.s às 14h30 | Comentários (14)

27 de setembro 2003

Sobre o mérito e demérito da História

Nietzsche - Da Utilidade e Incovenientes da História para a Vida«De resto, é-me odioso tudo quanto me serve apenas de informação, sem aumento da minha actividade e sem imediatamente a impulsionar». Isto são palavras de Goethe, com as quais, qual «ceterum censeo» corajosamente expresso, as nossas considerações sobre o mérito e demérito da história poderão iniciar-se. E precisamente nelas há-de mostrar-se porque é que a erudição sem vida, o saber como inibitório da acção, a história como luxo precioso e super-abundância de conhecimentos nos têm, com toda a seriedade, segundo Goethe, de ser odiosas: - é que carecemos ainda do estrictamente necessário, e o supérfluo é inimigo do necessário. Por certo, precisamos da história; mas precisamos dela de maneira diferente da do ocioso mal habituado nos jardins do saber, muito embora, este se digne contemplar, com ar de grande superioridade, as nossas rudes e desgraciosas necessidades e penúrias. Isto é, precisamos dela para a vida e para a acção, e não para cómodo afastamento da vida e da acção ou ainda para contestação de uma existência egoísta e de uma actuação covarde e má. Apenas enquanto a história serve a vida queremos nós servi-la; mas há determinado grau no dedicarmo-nos à história e certa apreciação da mesma que levam à corrupção e degenerescência vital: - fenómeno, cuja verificação em determinados sintomas do nosso tempo se torna tão necessária quanto dolorosa.


in Da Utilidade e Incovenientes da História para a Vida, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 16h15 | Comentários (7)

Aqui não lanço a âncora

Franz KafkaEste sentimento: «Aqui não lanço a âncora». E sentirmos logo à nossa volta a maré agitada que nos puxa!

Uma viragem. À espreita, com medo e cheia de esperança a resposta anda em torno da pergunta, perscruta desesperada o seu semblante impenetrável, segue-a nos caminhos que menos sentido têm, ou seja, naqueles que se afastam o mais possível da resposta.


in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 12h00 | Comentários (3)

25 de setembro 2003

O Amor é o sangue do sol dentro do sol

O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na voltade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.
Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.


in Uma Casa na Escuridão, José Luis Peixoto
Memória da margem

Lido por dolphin.s às 13h33 | Comentários (27)

Cativeiro

IshmaelDa primeira vez que li o anúncio, até me engasguei; praguejei, cuspi e atirei o jornal ao chão. Como nem isso parecesse bastar, apanhei-o de novo, marchei até à cozinha e enfiei-o no balde do lixo. Feito isto, aproveitei para preparar uma pequena refeição matinal e concedi-me algum tempo para acalmar. Comi e pensei em assuntos inteiramente diversos. Essa é que é essa, De seguida retirei o jornal do lixo e voltei a abri-lo na secção dos classificados pessoais, só para me certificar se o maldito anúncio lá continuava, da forma como eu me lembrava dele. Continuava, sim.

PROFESSOR procura aluno. Deve ter um desejo fervoroso de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.

[...]


"E ensinas o quê?"
Ismael seleccionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o por um momento e começou a mordiscá-lo, olhando-me languidamente. Por fim, respondeu: "Com base na minha história, que matéria dirias estar eu mais qualificado para ensinar?"
Pestanejei e disse-lhe que não sabia.
"Sabes, é claro. A matéria que ensino é: cativeiro".
"Cativeiro".
"Exacto".
Fiquei calado por um minuto, dizendo então: "Estou a tentar imaginar o que tem isto a ver com salvar o mundo".
Ismael pensou um pouco. "Dentre as pessoas da tua cultura, quais são as que querem destruir o mundo?"
"Quais são as que querem destruir o mundo? Tanto quanto sei, ninguém quer especificamente destruir o mundo".
"E no entanto destrui-lo, cada um de vós. Cada um de vós contribui diariamente para a destruição do mundo".
"É verdade, sim".
"E não parais porquê?"
Encolhi os ombros. "Francamente, não sabemos como".
"Sois cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos vos compele a prosseguirem com a destruição do mundo de forma a continuarem a viver".
"É o que parece, sim".
"Sois portanto cativos — e fizestes do próprio mundo um cativo. É isso que está em jogo, não é? — o vosso cativeiro e o cativeiro do mundo".
"É verdade, sim. Só que nunca o pensara desta maneira".
"A teu modo, tu mesmo és um cativo não és?"
"Como assim?"
Ismael sorriu, revelando uma grande parede de dentes brancos como mármore. Até então eu não o sabia capaz de sorrir.
"Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que motivo tenho eu tal impressão," disse eu.
"Faz alguns anos — à época devias ser tu criança, talvez não estejas recordado —, muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingénuo e desorganizado para escaparem do cativeiro, mas acabaram por fracassar, por não terem sido capazes de encontrar as grades da jaula. Se não descobrirmos o que nos está a prender, a vontade de sair em breve se torna confusa e ineficaz".
"Foi essa a sensação que tive, sim"
Ismael assentiu.
"Mas, insisto, como está isto relacionado com a salvação do mundo?"
"O mundo não sobreviverá por muito mais tempo como cativo da humanidade. Carece de explicação, isto?"
"Não. Pelo menos para mim, não".
"Acho que dentre vós muitos existem que gostariam de libertar o mundo do seu cativeiro".
"Concordo".
"O que é que os impede de o fazer?"
"Não sei".
"Eis o que os impede: São incapazes de encontrar as grades da jaula".


in Ishmael, Daniel Quinn

Lido por dolphin.s às 10h33 | Comentários (29)

24 de setembro 2003

O Sentido da Vida II

Moritz SchlickQual é a razão para a estranha contradição que consiste no facto de o sucesso e a satisfação não se fundirem num sentido apropriado? Não parece prevalecer aqui uma lei inexorável da natureza? O ser humano estabelece objectivos para si próprio, e enquanto os persegue apoia-se na esperança, é verdade, mas ao mesmo tempo vive atormentado pela dor do desejo insatisfeito. Logo que atinge o objectivo, no entanto, depois da primeira sensação de triunfo segue-se inevitavelmente um sentimento de desolação. Permanece um vazio, que aparentemente só pode culminar com a emergência dolorosa de novas ambições, com o estabelecimento de novos objectivos. Assim recomeça o jogo, e a existência parece estar condenada a ser uma oscilação incansável entre dor e aborrecimento que termina com o nada que é a morte. Esta é a célebre linha de pensamento que está na base da visão pessimista da vida de Schopenhauer. Não haverá uma maneira de lhe poder escapar?

Na verdade, nunca encontraremos um sentido último na vida se a virmos apenas sob o aspecto do propósito.

Não sei, no entanto, se o fardo dos propósitos pesou alguma vez mais sobre a humanidade do que no momento presente. O presente idolatra o trabalho. Mas trabalho significa actividade dirigida para objectivos, direcção para um propósito. Supõe que estás no meio da multidão numa rua agitada de uma cidade e imagina-te a parar os transeuntes, um por um, para lhes perguntares: «Onde é que vais tão depressa? Que assunto importante tens de resolver?». E se, depois de conheceres o objectivo imediato, perguntasses depois pelo propósito desse objectivo, e depois pelo propósito desse propósito, acabarias sempre por chegar ao seguinte propósito depois de poucos passos na sequência: manter a vida, ganhar o próprio pão. E manter a vida porquê? Para esta questão dificilmente conseguirias extrair uma resposta inteligível a partir da informação obtida.


Excertos de um texto de Moritz Schlick traduzido por Pedro Galvão
Na Intelectu

Lido por dolphin.s às 13h38 | Comentários (11)

Não se pode comer um bolo sem o perder

Fernando PessoaQuando, como uma noite de tempestade a que o dia se segue, o cristianismo passou de sobre as almas, viu-se o estrago que, invisivelmente, havia causado; a ruína, que causara, só se viu quando ele passara já. Julgaram uns que era por sua falta que essa ruína viera; mas fora pela sua ida que a ruína se mostrara, não que se causara.
Ficou, então, neste mundo de almas, a ruína visível, a desgraça patente, sem a treva que a cobrisse do seu carinho falso. Ás almas viram-se tais quais eram.
Começou, então, nas almas recentes aquela doença a que se chamou romantismo, aquele cristianismo sem ilusões, aquele cristianismo sem mitos, que é a própria secura da sua essência doentia.
O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos.
É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

«Não se pode comer um bolo sem o perder.»

Na esfera baixa da política, como no íntimo recinto das almas - o mesmo mal.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 10h35 | Comentários (15)

23 de setembro 2003

A primeira Idolatria

Franz KafkaA primeira idolatria foi sem dúvida o medo das coisas, mas, em ligação com ele, também medo da necessidade das coisas e, em ligação com este, medo da responsabilidade pelas coisas. Esta responsabilidade parecia tão gigantesca que ninguém se atreveu sequer a atribuí-la a um único ser sobre-humano, porque mesmo através da mediação de um ser a responsabilidade humana não teria sido suficientemente aliviada e o contacto com um único ser ainda estaria demasiado manchado pela responsabilidade. Foi por isso que a cada coisa foi dada a responsabilidade por si mesma; mais ainda, a cada coisa foi também dada uma relativa responsabilidade pelos homens.


in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 19h32 | Comentários (8)

As casas respiram

As casas respiram. Podemos ouvi-las durante a noite. Têm um movimento soturno e imperceptível sob a secura da noite. Breves ruídos que despistam, o estalar das madeiras, as horas num relógio escondido. Mas não se trata disso. É a respiração das casas que nos suportam, a nós homens, mas possuem uma vida independente, muito densa. Acendi a luz e pus-me a ler. Um capítulo sobre as estátuas gigantes da Ilha da Páscoa que têm uma pedra vermelha sobre a cabeça. Estas pedras vermelhas parecem significar a cor amarela dos cabelos... Merda. Vou fumar para a janela. Passo a noite assim. Até que a madrugada começa a vir do rio. Sobe devagar pelas coisas como uma grande língua fria. Aparecem as casas, o miradoiro, a torre. Vejo então, muito vivo na palidez da madrugada, o bloco junto à igreja, com as suas escadas incompletas que se interrompem uns três metros abaixo da soleira da porta descolorida, entre os umbrais suspensos no espaço. Que é isto? A escada fica a meio percurso entre uma espécie de pátio, com montículos de arbustos rasteiros, e a porta que não dá entrada para sítio nenhum. E ei-lo, a esse último degrau, insólito, parado no ar: pura alucinação. Não era possível chegar à porta trepando pelas escadas. Mas se lá chegássemos, se nela batêssemos um dia inteiro, ninguém a abriria. Ou se a forçássemos, ficaríamos sob os velhos umbrais de pedra, com a vista para o rio, as casas, a cidade. As mesmas coisas que se vêem daqui, da janela. As mesmas que se veriam de qualquer parte. E o mais perturbante é que nem à porta chegaríamos, pois os degraus ficam muito abaixo da soleira. E, reparo, nem às escadas é possível ter acesso. Não se vê como alcançar o pátio de onde arrancam. Só o vento cego traz para ali a poeira invisível, ao longo dos meses, ano após ano, e nascem então esses arbustos inúteis. Os arbustos que parecem sofrer como um pensamento, sob a luz feroz, entre as cruéis linhas de pedra. Não sei nada. Atrevo-me a acender um novo cigarro. E o terror entra silenciosamente na minha vida.

in Os Passos em Volta - Escadas e Metafísica, Herberto Helder

Lido por dolphin.s às 13h37 | Comentários (9)

22 de setembro 2003

Que era, então, a vida?

Thomas MannQue era, então, a vida? Era calor, calor produzido por um fenómeno sem substância própria que conservava a forma; era uma febre da matéria que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina de uma estrutura intimamente complicada e infinitamente engenhosa. Era o ser daquilo que na realidade não pode ser, que oscila numa doce e dolorosa suspensão sobre o limite do ser, nesse processo contínuo e febril de decomposição e renovação. Não era matéria nem era espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenómeno sustentado pela matéria, como o arco-íris sobre a queda de água, e semelhante à chama. Mas, se bem que não dependesse da matéria, era sensual até à volúpia e até ao desgosto o impudor da natureza tornada irritável e sensível com respeito a si própria e à forma impudica do ser. Era uma veleidade secreta e sensual no frio casto do universo, uma impureza intimamente voluptuosa composta de nutrição e de excreção, um sopro excretor de ácido carbónico e de substâncias nocivas de procedência e natureza desconhecidas. Era a vegetação, a desenvolução, a proliferação de uma coisa túmida, de água, de albumina, de sal e de gorduras a que se chamava carne e se convertia em forma, imagem e beleza, mas que era o princípio da sensualidade e do desejo. Porque essa forma, essa beleza não eram conduzidas pelo espírito, como nas obras da poesia e da música, nem tão-pouco por uma substância neutra e absorvida pelo espírito, que encarnasse o espírito de uma maneira inocente, como o são a forma e a beleza das obras plásticas. Era, pelo contrário, conduzida e elaborada pela substância, despertada, de modo desconhecido, para a voluptuosidade, pela substância orgânica, pela própria matéria que vive decompondo-se, pela carne perfumada...

in A Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 13h36 | Comentários (9)

O Veneno afinal agrada-nos

Friedrich Nietzsche— «Mas que conversa é a sua, sobre ideais mais nobres? Aceitemos os factos: o povo triunfou... Ou "os escravos", ou "a populaça", ou "o rebanho", ou seja qual for o nome que lhes queira dar... Se tal triunfo ocorreu por intermédio dos Judeus, muito bem! A nenhum outro povo coube missão histórica de tamanha importância. "Os senhores" foram abolidos, triunfou a moral do homem comum. Poderá encarar-se tal triunfo como um envenenamento do sangue (já que misturou indiscriminadamente as raças). Não pretendo contradizer essa opinião, mas do que não há dúvida é que essa intoxicação foi bem sucedida. A "redenção" do género humano (relativamente aos "senhores") corre sobre rodas. E, a olhos vistos, tudo se judaíza, ou cristianiza, ou populiza (que importam as palavras?). O avanço deste envenenamento pela totalidade do corpo da humanidade parece imparável e, aliás, a partir de agora o ritmo da progressão pode muito bem ser cada vez mais lento, mais refinado, mais imperceptível e mais ponderado. Tempo não falta... E, neste processo, será que ainda cabe à Igreja alguma tarefa necessária, será que ela ainda tem algum direito à existência? Ou poder-se-ia dispensá-la? Quaerítur. Parece que ela tolhe ou retarda esse avanço em vez de o acelerar? Ora bem, pode dar-se o caso de a sua utilidade ser precisamente essa... É certo que no fundo ela tem sempre uma rudeza, uma rusticidade, que repugnam a uma inteligência delicada, ao gosto propriamente moderno. Não deveria ela, pelo menos, refinar-se um pouco? Porque, nos tempos que correm, em vez de seduzir, afasta... Quantos de nós seríamos livres-pensadores, se não existisse a Igreja? A Igreja repugna-nos, mas o mesmo não sucede com o respectivo veneno... Abstraindo da Igreja, o veneno afinal agrada-nos...» Este o epílogo que um «livre--pensador» acrescentou ao meu discurso..., um animal sério, como amplamente mostra ser, e sobretudo um democrata... Tinha estado a escutar-me com atenção e não se conteve quando me calei. Porque, para mim, neste ponto existe de facto ampla matéria para me calar...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Lido por dolphin.s às 10h30 | Comentários (0)

21 de setembro 2003

Torres

Gosto de toda a espécie de torres. São incompreensíveis. Foram construídas por pura bravata, um lirismo arrebatado e improfícuo. Debaixo delas funciona um motor que nunca pára. De que servem as torres? O motor trabalhava no meio de uma grande poça de silêncio. Não pensem que as torres desaparecem assim, que nos livramos delas. Inquietam-nos. Caem sobre as nossas cabeças ou contemplam-nos, imóveis, implacáveis. E imaginava eu que mal reparara nela. É assim: estamos diante das coisas; não as vemos. Só mais tarde, absurdamente, sabemos que apenas fizemos isso: vê-las e possuí-las. E ser apanhado por elas.

in Os Passos em Volta - Escadas e Metafísica, Herberto Helder

Lido por dolphin.s às 16h35 | Comentários (2)

Artificial / Natural

Fernando PessoaNão sei se é a mim que acontece, se a todos os que a civilização fez nascer segunda vez. Mas parece-me que para mim, ou para os que sentem como eu, o artificial passou a ser o natural, e é o natural que é estranho. Não digo bem: o artificial não passou a ser o natural; o natural passou a ser diferente. Dispenso e detesto veículos, dispenso e detesto os produtos da ciência - telefones, telégrafos -que tornam a vida fácil, ou os subprodutos da fantasia - gramofonógrafos, receptores hertzianos - que, aos a quem divertem, a tornam divertida.
Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de São Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadíssimo de Lisboa.

A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensualidade como o obstáculo para a energia.
A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade. O que gozei destes campos vastos, gozei-o porque aqui não vivo. Não sente a liberdade quem nunca viveu constrangido.
A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para uma apreciação do natural.
Ô que é preciso, porém, é que nunca tomemos o artificial por natural.
É na harmonia entre o natural e o artificial que consiste a naturalidade da alma humana superior.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 11h53 | Comentários (8)

20 de setembro 2003

A Festa

Cozinha de casa pobre. Ao fundo, uma porta. Numa parede, um calendário e uma janela. A MÃE olha para o PAI que lê o jornal

Silêncio.

Artistas Unidos - A FestaA MÃE      Já sei porque é que ressonas.
O PAI      Então?
A MÃE      Dormes com a boca aberta.
O PAI      Como é que sabes?
A MÃE      Vejo.
O PAI      Quando eu estou a dormir?
A MÃE      Sim.
O PAI      Em vez de te pores a olhar para mim, apaga mas é a luz.
A MÃE      Não posso apagar a luz. Tenho de ler as orações.
O PAI      Não as sabes de cor?
A MÃE      Sei.
O PAI      Então, apaga a luz.
A MÃE      Olho para os santinhos.
O PAI      Olha de dia.
A MÃE      E à noite, olho para quê?
O PAI      Nada. Dorme.
A MÃE      Como é que eu posso dormir, se tu ressonas?

Pausa.

O PAI      Como é que está o tempo?
A MÃE      Está sol.
O PAI      Está a chover?
A MÃE      Está sol.
O PAI      Vai ver se chove.
A MÃE      Está sol, como é que queres que chova?
O PAI      Também chove quando está sol. Vem aqui escrito que está de chuva.
A MÃE      Isso é o jornal de ontem. Ontem choveu.
O PAI      Estou a ler as previsões.
A MÃE      Não está a chover.
O PAI      O tempo enganou-se. Se vires ó jornal de ontem, percebes que o tempo se enganou.
A MÃE      Se lês o jornal da véspera, nunca tens as notícias do dia.
O PAI      Sei no dia a seguir.
A MÃE      E para que é que tu queres as notícias do dia no dia a seguir?
O PAI      Para que é que quero as notícias do dia se vêm erradas? Mais vale ler no jornal depois, mas verdadeiras.

Pausa.

in A Festa, Spiro Scimone
Tradução de Jorge Silva Melo
Em cena pelos Artistas Unidos, no Teatro Taborda

Lido por dolphin.s às 20h10 | Comentários (7)

On the Sufferings of the World III

Arthur SchopenhauerAgain, you may look upon life as an unprofitable episode, disturbing the blessed calm on non-existence. And, in any case, even though things have gone with you tolerably well, the longer you live the more clearly you will feel that, on the whole, life is a disappointment, nay, a cheat.
[...]
He who lives to see two or three generations is like a man who sits some time in the conjurer's booth at a fair, and witnesses the performance twice or thrice in succession. The tricks were meant to be seen only once; and when they are no longer a novelty and cease to deceive their effect is gone.
[...]
If children were brought into the world by an act of pure reason alone, would the human race continue to exist? Would not a man rather have so much sympathy with the coming generation as to spare it the burden of existence? or at any rate not take it upon himself to impose that burden upon it in cold blood.
I shall be told, I suppose, that my philosophy is comfortless - because I speak the truth; and people prefer to be assured that everything the Lord has made is good. Go to the priests, then, and leave philosophers in peace! At any rate, do not ask us to accommodate our doctrines to the lessons you have been taught. That is what those rascals of sham philosophers will do for you. Ask them for any doctrine you please, and you will get it. Your University professors are bound to preach optimism; and it is an easy and agreeable task to upset their theories.

On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer

Lido por dolphin.s às 11h51 | Comentários (0)

19 de setembro 2003

O Pecado Original

Desde o pecado original que temos praticamente a mesma capacidade para conhecer o bem e o mal. Apesar disso é justamente aqui que temos as nossas preferências. Mas é só para lá deste conhecimento que começam as verdadeiras diferenças. A aparência contraditória é provocada pelo seguinte: ninguém se pode contentar apenas com o conhecimento, mas tem de esforçar-se por agir de acordo com ele. No entanto não nos foi dada a força para tal, e temos que nos destruir, mesmo correndo o risco de nem assim obtermos a força necessária. Mas nada nos resta a não ser esta última tentativa (este é também o sentido da ameaça de morte contida na proibição de se comer da árvore do conhecimento; talvez até seja o sentido original da morte natural). É desta tentativa afinal que temos medo. Preferimos antes desfazer o conhecimento do bem e do mal (a designação «pecado original» refere-se a este medo). Mas o que aconteceu não pode ser invertido, apenas deturpado. Com esta finalidade surgem as chamadas motivações. O mundo está cheio delas, aliás todo o mundo visível talvez não passe da motivação de um homem que por um momento quer repousar. Uma tentativa de falsificar o facto do conhecimento, de transformá-lo em objectivo.


in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 13h37 | Comentários (2)

Civilização!

Thomas MannTambém a política está ligada à literatura, ou melhor: origina-se na aliança, na fusão da humanidade e da literatura, pois a bela palavra gera a bela acção.—Faz dois séculos — disse Settembrini — vivia no nosso país um velho poeta, um excelente conversador, que atribuía suma importância à beleza da grafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Deveria ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas acções.— Escrever bem já quase é pensar bem, e daí a agir bem não há muita distância. Toda a Civilização e todo o aperfeiçoamento moral derivam do espírito da literatura, que é a alma da dignidade humana e que é idêntico ao espírito da política Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, compunha-se de sílabas familiares e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. O nome era: Civilização!


in Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 10h17 | Comentários (2)

18 de setembro 2003

Compreender é esquecer de amar

Fernando PessoaPara compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.
A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 19h33 | Comentários (11)

O Sentido da Vida

Nem todos se preocupam com a questão de saber se a vida tem sentido. Alguns - e esses não são os mais infelizes - têm a mente de uma criança, que ainda não questionou tais coisas; outros, tendo desaprendido a questão, já não as questionam. Entre ambos estamos nós próprios, aqueles que procuram. Não conseguimos projectar-nos de novo no nível do inocente, para quem a vida ainda não olhou com os seus olhos escuros e misteriosos, e não nos interessa juntarmo-nos aos saturados e fatigados que já não acreditam em qualquer sentido na existência por não terem conseguido encontrar qualquer sentido na sua própria vida.

Aquele que não conseguiu atingir o objectivo que procurava na sua juventude, e que não encontrou nada que o substituísse, pode lamentar a falta de sentido da sua própria vida, mas pode ainda acreditar que a existência em geral tem sentido e pensar que tal sentido está presente nos casos em que uma pessoa atingiu os seus objectivos. Mas aquele que, depois de muito esforço, conseguiu atingir os seus propósitos, e que depois descobriu que o seu prémio não é tão valioso como parecia, de alguma maneira sente-se enganado - confronta-se abertamente com a questão do valor da vida e diante dele, como um solo sombrio e devastado, permanece o pensamento de que, para além de todas as coisas serem transitórias, em última análise tudo é em vão. . . .

Excertos de um texto de Moritz Schlick traduzido por Pedro Galvão
Na Intelectu

Lido por dolphin.s às 13h41 | Comentários (88)

17 de setembro 2003

Livre Vontade

Franz KafkaO homem tem livre vontade, nomeadamente de três maneiras diferentes. Em primeiro lugar, o homem era livre quando quis esta vida. É certo que já não a pode fazer voltar atrás, porque ele já não é o mesmo que outrora a quisera, a não ser na medida em que executa a sua vontade de então, vivendo.
Em segundo lugar é livre ao poder escolher livremente o caminho desta vida e a forma de o percorrer.
Em terceiro lugar é livre porque, sendo ele aquele, que um dia voltará a ser, tem a vontade de, não importa em que condições, deixar-se ir pela vida e deste modo deixá-la vir ter consigo. E quer fazê-lo por um caminho, que embora seja susceptível de ser escolhido, é em todo o caso de tal maneira labiríntico que não deixa intocado um único pedaço desta vida.
É este o carácter triplo da livre vontade, que, porque os três aspectos são simultâneos, é também unidade. E, no fundo, é de tal maneira unidade que não deixa lugar para uma vontade, exercida livremente ou não.


in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 19h35 | Comentários (1)

Um Novo Amor

Friedrich Nietzsche— Mas não compreendeis tudo isto? Não tendes olhos para ver uma coisa que demorou dois mil anos a triunfar...? Também não é espantoso que assim seja, porque tudo o que é longo é difícil de ver, de abarcar no seu conjunto. Mas o acontecimento foi este: do tronco dessa árvore da vingança e do ódio, do ódio judaico — o ódio mais profundo e mais sublime, capaz até de criar ideais e de transmutar valores, um ódio sem igual sobre a terra —, cresceu uma outra coisa que também não tinha comparação possível, um novo amor, a mais profunda e a mais sublime espécie de amor... E de que outro tronco poderia ela ter brotado? Mas não se cometa o erro de pensar que um tal amor constituísse de algum modo uma negação daquela sede de vingança, que tivesse nascido como contradição do ódio judaico! Não, bem pelo contrário! Este amor nasceu desse ódio, era a sua coroação, a sua coroa triunfante, despontando mais e mais amplamente na pura claridade, debaixo da plenitude dos raios solares, e que agora, por assim dizer, no reino da luz, no reino das alturas, se lançava de novo em direcção aos objectivos do ódio, em direcção ao triunfo, à conquista, à sedução, com o mesmo impulso com que as raízes desse ódio se iam enterrando cada vez com maior tenacidade e avidez em tudo o que fosse profundo e malvado. Esse Jesus de Nazaré, apresentando-se como evangelho incarnado do amor, como «redentor» capaz de trazer a bem-aventurança e a vitória aos pobres, aos doentes e aos pecadores, não era ele precisamente a sedução, na sua forma mais sinistra e mais irresistível, a sedução que por caminhos desviados conduzia aos valores judaicos e às inovações judaicas em torno do ideal? E não é verdade que o povo de Israel alcançou os últimos objectivos do seu sublime desejo de vingança avançando precisamente pelo desvio que lhe foi mostrado por esse «redentor», esse homem que aparentemente punha em risco a unidade israelita, como se fosse um adversário? Não terá sido parte integrante das artes negras, secretas, de uma grandiosa política de vingança, de uma vingança de visão ampla, subterrânea, premeditada e de acção lenta, o facto de o povo de Israel ter chegado ao ponto de renegar o próprio instrumento da sua vingança e de o pregar na cruz à frente do mundo inteiro, como se de um inimigo mortal se tratasse, para que «todo o mundo», isto é, para que todos os adversários de Israel pudessem morder sem hesitação este engodo? E terá alguma vez o refinamento do espírito sido capaz de inventar um engodo ainda mais perigoso que esse? Qualquer coisa que se parecesse com a força sedutora, embriagante. anestésica e viciante desse símbolo que é a «santa cruz», desse horrível paradoxo de «um deus crucificado», desse mistério de uma crueldade extrema absoluta, inimaginável, a de um deus que se crucifica a si próprio para salvação do homem...? Uma coisa pelo menos é certa: até hoje, sub hoc signo, o povo de Israel, com a sua vingança e a sua transmutação de todos os valores, conseguiu triunfar sempre sobre todos os outros ideais, nomeadamente sobre os ideais mais nobres...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Lido por dolphin.s às 13h32 | Comentários (3)

16 de setembro 2003

Conhecimento

Um primeiro sinal de que o conhecimento começa é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável, uma outra inalcançável. Já não nos envergonhamos de querer morrer. Pedimos para ser levados da velha cela, que odiamos, para uma nova, que ainda havemos de aprender a odiar.

in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 19h55 | Comentários (11)

Sou do tamanho do que vejo!

«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali' estão.
E já agora, consciente de saber ver, olhou vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro - do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a-alma inteira, encosto' a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 10h35 | Comentários (3)

15 de setembro 2003

Os mortos

São muitas as sombras de falecidos que apenas se ocupam em lamber as marés do rio dos mortos, porque este vem dos nossos lados e ainda tem o sabor salgado dos nossos mares. O rio crispa-se então enojado, inverte o sentido da corrente e despeja os mortos de novo na vida. E eles contudo são felizes, entoam cânticos de agradecimento e afagam o indignado.


in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Lido por dolphin.s às 16h18 | Comentários (1)

O Progresso

Thomas MannSegundo os pontos de vista de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a Força e o Direito, a Tirania e a Liberdade, a Superstição e a Ciência, o princípio da conservação e o do movimento: o Progresso. Podia chamar-se a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da actividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da Luz, a do aperfeiçoamento guiada pela Razão. Pois a Humanidade arrastava incessantemente novos povos pelo seu caminho brilhante, ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar a Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões, até naqueles países que, na verdade, nunca tinham vivido o seu século xvm nem seu ano de 1789.—Mas esse dia há-de chegar, dizia Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegar pelos pés das pombas, chegará sobre as asas das águias Nascerá com a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da Razão, da Ciência e do Direito. Trará a santa aliança da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal, o inimigo pessoal foi o avô Giuseppe, numa palavra, a República Universal.—Mas, para alcançar esse objectivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, p princípio do servilismo e da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar desforra das suas façanhas do passado, e depois para preparar o caminho, o reino da justiça e da felicidade sobre a Terra.

in Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 10h28 | Comentários (4)

14 de setembro 2003

The Collection

JAMES: [Confidentially] When you treat my wife like a whore, then I think I'm entitled to know what you've got to say about it.

BILL: But I don't know your wife.

JAMES: You do. You met her at ten o'clock last Friday in the lounge. You fell into conversation, you bought her a couple of drinks, you went upstairs together in the lift. In the lift you never took your eyes from her, you found you were both on the same floor, you helped her out, by her arm. You stood with her in the corridor, looking at her. You touched her shoulder, said goodnight, went to your room, she went to hers, you changed into your yellow pyjamas and black dressing gown, you went down the passage and knocked on her door, you'd left your toothpaste in town. She opened the door, you went in, she was still dressed. You admired the room, it was so feminine, you felt awake, didn't feel like sleeping, you sat down on the bed. She wanted you to go, you wouldn't. She became upset, you sympathized, away from home, on business, horrible life, especially for a woman, You Comforted her, you gave her solace, you stayed.

[Pause)

BiLL: Look, do you mind... just going off now. You're giving me a bit of a headache.

JAMES: You knew she was married... why did you feel it necessary... to do that?

BILL: She must have known she was married too. Why did she feel it necessary... to do that?



excerto de The Collection, de Harold Pinter

Lido por jm às 16h01 | Comentários (0)

Os Piores Inimigos

Friedrich NietzscheOra, é sabido que os sacerdotes são os piores inimigos... Mas porquê? Porque são os mais impotentes. Dessa impotência cresce neles um ódio monstruoso e sinistro, um ódio que sendo o mais espiritual é o mais venenoso. Os maiores ódios da história foram sempre da responsabilidade de sacerdotes e os ódios espiritualmente mais elaborados, também... Porque quase não há comparação possível entre o espírito da vingança sacerdotal e tudo o resto a que possa chamar-se espírito... A história humana seria coisa assaz aborrecida se não fosse o espírito que os impotentes nela introduziram. Peguemos desde logo no exemplo maior: tudo o que no mundo foi feito contra «os mais nobres», contra «os mais fortes», contra «os senhores», contra «os detentores do poder», não chega a merecer referência em comparação com o que os Judeus fizeram contra eles: os Judeus, esse povo sacerdotal que, no confronto com os povos inimigos e nomeadamente com aqueles que os submeteram, só conseguia desagravar-se por via de uma radical transmutação dos valores desses povos, ou seja, por intermédio de um acto da mais espiritual das vinganças. E, de facto, só esta atitude se adequava a um povo de padres, a esse povo em que dominava o mais fundo desejo sacerdotal de vingança. Foram os Judeus que, com uma lógica aterrorizante, ousaram substituir a equação aristocrática dos valores (bom = distinto = poderoso = belo = feliz = amado pelos deuses) pela sua inversa, e que conseguiram reter essa inversão, por assim dizer, com a força dos dentes de um ódio abismal (o ódio da impotência), que os levava a dizer nomeadamente que «só os miseráveis são bons, só os pobres, os impotentes, os de baixa condição são bons», e que «só os que sofrem, os necessitados, os doentes e os feios são piedosos, abençoados por Deus e dignos de bem-aventurança»..., e que, «pelo contrário, vós, os homens de distinção e poder, vós sois para toda a eternidade os maus, os cruéis, os lúbricos, os insaciáveis, os ímpios, e sereis também para todo o sempre aqueles para quem não haverá perdão, os malditos, os condenados!...» É sabido quem recebeu a herança desta transmutação judaica dos valores... A propósito da iniciativa monstruosa e desmedidamente nefasta que os Judeus puseram em campo com tais declarações de guerra, cuja intransigência não encontra comparação, quero recordar uma ideia a que cheguei numa outra ocasião (Para além do Bem e do Mal, pág. 118), a saber, que, com os Judeus, começa a revolta dos escravos no âmbito da moral. Essa revolta que tem hoje para trás de si uma história de dois milénios e que só nos não salta aos olhos por um motivo..., porque triunfou...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Lido por dolphin.s às 14h37 | Comentários (10)

Não, não está ninguém junto à porta

Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento do homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solicitar, inquirir.
— Posso falar? Podemos falar?
O meu único alimento é o desespero. E é do coração estéril que extraio toda a força: tenho confiança em que Deus está neste quarto, está na tão experiente expectativa das tumultuosas passagens dos comboios.
O pensamento alude ao norte, a essa ideia que relaciona o norte com o frio puro e a dramática alegria da neve, das temperaturas muito baixas. Alude também à viagem sem fé, inconsequente, feita com o inexplicável ardor de quem se inicia na eternidade.
Mas nem cigarros tenho. Estou possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar, a fraternidade solitária, o amor sempre em viagem.
O meu gosto pela exactidão já sabe o horário dos comboios que possivelmente (evidentemente) nem vão para lá.
Deus principia a inspirar-me terror. A minha unidade, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que pode alcançar.
Não, não está ninguém junto à porta.

in Os Passos em Volta - Os combóios que vão para a Antuérpia, Herberto Helder

Lido por dolphin.s às 11h28 | Comentários (2)

13 de setembro 2003

Não ser mais, não ter mais, não querer mais...

Fernando PessoaViver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para: se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 11h17 | Comentários (12)

12 de setembro 2003

A moral como vampirismo

A descoberta da moral cristã é um acontecimento que não tem equivalente, é uma autêntica catástrofe. Quem elucida a esse respeito é uma force majeure, é um destino — quebra a história da humanidade em duas partes. Vive-se antes dele, vive-se depois dele... O raio da verdade atingiu precisamente aquilo que, até então, se encontrava mais alto: quem compreender o que aí foi aniquilado, que veja se ainda tem mesmo alguma coisa nas mãos. Tudo o que, até então, se chamava «verdade» foi reconhecido como a forma de mentira mais perniciosa, mais pérfida, mais subterrânea; o sagrado pretexto de «emendar» a humanidade foi desmascarado como uma artimanha para esgotar, para tornar anémica a própria vida. A moral como vampirismo... Quem descobrir a moral descobriu ao mesmo tempo o pouco valor de todos os valores, em que se acredita ou se acreditou; já não vê no tipo de homem mais venerado, ou mesmo canonizado, nada de venerável, vê nele a mais funesta casta de abortos, e funesta, porque eles fascinaram... O conceito de «Deus» foi inventado como conceito oposto à vida — dentro dele se juntou numa tremenda unidade tudo o que é nocivo, intoxicante, caluniador, toda a mortal hostilidade contra a vida! A noção de «Além», de «mundo verdadeiro», foi inventada para desvalorizar o único mundo que há — para que não restasse para a nossa realidade terrena nenhum objectivo, nenhum motivo, nenhuma missão! O conceito de «alma», de «espírito», por fim até de «alma imortal», foi inventado para desprezar o corpo, para o tornar doente — «santo» —, para se dedicar uma horripilante leviandade a todas as coisas que merecem seriedade na vida, as questões de alimentação, habitação, dieta espiritual, tratamento dos doentes, asseio, condições climáticas! Em lugar de saúde, a «salvação da alma» — quer dizer, uma folie circulaire entre convulsões da penitência e histeria da redenção! A noção de «pecado» foi inventada, juntamente com o competente instrumento de tortura, o conceito do «livre arbítrio», para confundir os instintos, para fazer da desconfiança ante os instintos uma segunda natureza! Na concepção do «desinteressado», do «que se renega a si próprio», o que constitui o autêntico distintivo da decadência, o ser atraído pelo que é nocivo, o já não poder encontrar o seu proveito, a autodestruição, foram transformados em marcas de valor, em «dever», em «santidade», no que há de «divino» no homem! Finalmente — e isso é o mais terrível —, com a noção do homem bom, tomou-se partido por tudo o que é fraco, doente, falhado, atormentado consigo mesmo, por tudo o que deve perecer — riscou-se a lei da selecção, fez-se um ideal da contradição ao homem orgulhoso e bem sucedido, ao homem afirmativo, consciente e garante do futuro — que passou, desde então, a chamar-se o mau... E acreditou-se em tudo isto como moral! Ecrasez l'infâme!

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 10h30 | Comentários (6)

11 de setembro 2003

Bochechas do Chefe em Canapé

Preparem um bom puré de azedas ligado por três gemas de ovos, um pedaço de manteiga passado por farinha e um pouco de creme. Passem as bochechas pela frigideira na companhia de tiras de toucinho grosseiramente cortadas. Coloquem as bochechas sobre o recheio de azedas disposto em canapé e sirvam quente.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor

Lido por dolphin.s às 19h11 | Comentários (2)

Politicamente Suspeita

Thomas Mann—Chega tarde ao concerto, sr. Settembrini. Já está quase ao fim, com certeza. Gosta de música?
—Por ordem superior, não — replicou Settembrini.— Não quando é ditada pelo calendário, não muito, quando cheira a farmácia e me é ministrada por razões sanitárias. Estimo um pouco a minha liberdade, ou pelo menos aquele resto de liberdade e dignidade humana que ainda mantemos. Em ocasiões como esta, costumo comparecer como visitante, como o senhor faz aqui em cima: assisto durante um quarto de hora e depois sigo o meu caminho. Isso dá-me uma ilusão de independência. Não digo que seja mais do que ilusão, mas, que quer o senhor, se me causa uma certa satisfação! Com o seu primo, o caso é diferente. Para ele, é serviço. Não é, tenente? O senhor considera isto como parte dos seus deveres. Ah! Sim, eu sei que o senhor conhece o truque de conservar o seu orgulho em plena escravidão. É um truque desconcertante. Não há muita gente na Europa que se entenda com isso. O senhor não me perguntou se eu era amante da música?
Bem, se o senhor disse «amante de música» (Hans Castorp não se lembrava de ter-se exprimido assim) a expressão não está mal escolhida, comporta um resquício de frivolidade afectuosa. Pois bem, estou de acordo. Sim, sou amante da música — o que não significa que a estime particularmente, assim como estimo e amo, por exemplo, a palavra, o veículo do espírito, o utensílio, o resplandecente arado do progresso. A música? Á música representa o não-formulado, o equívoco, o irresponsável, o indiferente. O senhor vai objectar-me talvez que ela pode ser clara, mas a Natureza também pode ser clara, o arroio também o pode ser, e que nos adianta isso ? Não é a verdadeira clareza, é uma clareza sonhadora, despida de significação, uma clareza que a nada obriga, uma clareza sem consequências, e por isso perigosa, porque nos arrasta a contentarmo-nos com ela... Suponhamos que a música toma uma atitude magnânima. Bem. Inflamará os nossos sentimentos. Mas trata-se de inflamar a nossa razão! A música parece ser o próprio movimento, não importa, suspeito nela o quietismo. Permita que leve a minha tese até ao extremo. Tenho contra a música uma antipatia de ordem política.
Aqui, Hans Castorp não pôde deixar de bater com a mão sobre o joelho e de exclamar que nunca na sua vida ouvira coisa semelhante.
—Apesar de tudo, tome a ideia em consideração — disse Settembrini, sorrindo. — A música é inapreciável como meio supremo de provocar o entusiasmo, como força que nos arrasta para a frente e mais alto quando encontra o espírito já preparado para os seus efeitos. Mas a literatura deve tê-la precedido. Sozinha, a música não faz avançar o mundo. Sozinha, a música é perigosa. Para si, pessoalmente meu caro engenheiro, é, indubitavelmente, um perigo. Verifiquei-o logo ao chegar, pela sua fisionomia.
Hans Castorp começou a rir.
—Oh, não olhe para mim, sr. Settembrini! O senhor não imagina até que ponto o ar, aqui em cima, me desfigurou. Aclimatar-me custa-me muito mais do que pensava.
—Receio que o senhor se engane.
—Mas por quê? Continuo a ter calor, que diabo! E sinto-me muito fatigado.
—No entanto, parece-me que devemos ficar gratos à direcção por estes concertos — disse Joachim circunspectamente.—O senhor considera o assunto de um ponto de vista superior, sr. Settembrini, por assim dizer, como escritor, e nesse sentido não quero contradizê-lo. Mas acho que, apesar de tudo, devemos aceitar com gratidão este pouquinho de música. Não sou um entendido em música, e as peças que executam não são especialmente notáveis, nem clássicas nem modernas, é simplesmente música de banda, mas, mesmo assim, representa uma variação agradável. Enche algumas horas de modo muito conveniente; reparte-as e ocupa-as, de modo que elas tenham pelo menos alguma coisa, ao passo que, em geral, se desperdiçam aqui dias e semanas de um modo simplesmente pavoroso. Veja um número deste insignificante concerto. Durante sete minutos, não é? E esses números formam qualquer coisa em si, têm um princípio e um fim, destacam-se e são, de certo modo, preservados da ameaça de se perderem na monotonia geral. Além disso, são ainda divididos, primeiro pelas partes da peça, e depois em compassos, de maneira que acontece sempre alguma coisa e cada instante recebeu um certo sentido, ao qual nos podemos agarrar, ao passo que de outra maneira... Não sei se me exprimi... —Bravo!—gritou Settembrini. — Bravo, tenente! O senhor definiu muito bem um aspecto incontestavelmente moral da música, a saber, que ela empresta ao escoamento do tempo, medindo-o de uma forma particularmente viva, uma realidade, um sentido e um valor. A música desperta o tempo, acorda-nos para um gozo mais refinado do tempo, desperta... e exactamente nesta medida é moral. A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede, quando faz o contrário ? Quando entorpece, adormenta, estorva a actividade e o progresso ? Também a música é capaz disso; sabe exercer, maravilhosamente, a influência dos estupefacientes. Uma influência diabólica, meus senhores! A droga é o diabo, porque causa letargia, estagnação, inactividade, passividade, escravização... Há na música qualquer coisa inquietante, senhores. Insisto no facto da sua natureza ambígua. Não exagero ao declarar que ela é politicamente suspeita.

in Mntanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 10h21 | Comentários (4)

10 de setembro 2003

Um desejo de nunca ter sido nada

Fernando PessoaHá um cansaço da inteligência abstracta, e é.. o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento pela emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que ternos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado.
O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos - a da incarnação disforme do não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.
Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 19h43 | Comentários (3)

On the Sufferings of the World II

Certain it is that work, worry, labor and trouble, form the lot of almost all men their whole life long. But if all wishes were fulfilled as soon as they arose, how would men occupy their lives? what would they do with their time? If the world were a paradise of luxury and ease, a land flowing with milk and honey, where every Jack obtained his Jill at once, men would either die of boredom or hang themselves; or there would be wars, massacres and murders; so that in the end mankind would inflict more suffering on itself than it has now to accept at the hands of Nature.

In early youth, as we contemplate our coming life, we are like children in a theater before the curtain is raised, sitting there in high spirits and eagerly waiting for the play to begin. It is a blessing that we do not know what is really going to happen. Could we foresee it, there are times when children might seem like innocent prisoners, condemned, not to death, but to life, and as yet all unconscious of what their sentence means. Nevertheless every man desires to reach old age; in other words, a state of life of which it may be said, "It is bad today, and it will be worse tomorrow; and so on till the worst of all."


On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer

Lido por dolphin.s às 13h31 | Comentários (6)

Calma solidão sem dor

No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! a minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tornariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino — algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última.

in Os Passos em Volta - Polícia, Herberto Helder

Lido por dolphin.s às 10h20 | Comentários (1)

9 de setembro 2003

O Tempo e o Tédio

Thomas MannCom respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos erróneos. Crê-se em geral que a novidade e o carácter interessante do seu conteúdo "fazem passar" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Mas não é absolutamente verdade. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos "aborrecidos"; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e voam. Portanto, o que se chama de tédio é, na realidade, antes uma simulação mórbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso é de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-se a tal ponto, que assustam mortalmente o coração; quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito é uma sonolência, ou, pelo menos, um enfraquecimento do senso do tempo, e o facto dos anos de infância serem vividos vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa, esse facto também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio de manter a nossa vida, de refrescar a nossa sensação de tempo, de obter um rejuvenescimento, um reforço, um atraso da nossa experiência do tempo, e com isso, a revolução da nossa sensação da vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio: nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo - seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se "aclimata", começa a senti-los abreviarem-se: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de apegar-se à vida nota, com horror, como os dias começam a tornar-se leves e furtivos; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo faz-se sentir para além do interlúdio, e desempenha o seu papel ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois desta variação, afiguram-se-nos também novos, amplos e juvenis, mas sómente uns poucos: porque a gente acostuma-se mais rápidamente à rotina do que à sua suspensão, e quando o nosso senso do tempo está fatigado pela idade, ou nunca o possuímos desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital - volta a adormecer muito depressa, e ao cabo de vinte e quatro horas já é como se a pessoa jamais tivesse partido e a viagem não passasse de um sonho de uma noite.

in A Montanha Mágica, Thomas Mann

Leitura partilhada com o Citador

Lido por dolphin.s às 15h22 | Comentários (1)

Assim passeio o meu destino

Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação Com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela. Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 10h28 | Comentários (2)

8 de setembro 2003

Imoralista

Friedrich NietzscheMas foi também num outro sentido que escolhi para mim, como distintivo, como insígnia, a palavra imoralista; orgulho-me de usar este termo, que me põe em contraste com toda a humanidade. Ainda ninguém sentira a moral cristã como estando abaixo de si: para tanto era preciso ter uma elevação, uma visão à distância, uma profundidade e uma insondabilidade psicológicas inteiramente inauditas até hoje. A moral cristã foi, até ao presente, a Circe de todos os pensadores — estes estavam ao seu serviço.
[...]
Compreenderam-me? O que me demarca, o que me coloca à parte de todo o resto da humanidade, é ter descoberto a moral cristã. Por isso, eu carecia de uma palavra que contivesse o sentido de um desafio a toda a gente. Não ter, nesse ponto, aberto os olhos mais cedo representa para mim a maior imundície que a humanidade tem na consciência, equivale a engano de si próprio transformado em instinto, a vontade fundamental de não ver todo o acontecer, toda a causalidade, toda a realidade, o fabrico de moeda falsa in psychologicis levado até ao crime. A cegueira perante o cristianismo é o crime por excelência — o crime contra a vida... Os milénios, os povos, os primeiros e os últimos, os filósofos e as velhas — se exceptuarmos cinco ou seis momentos na história, e a mim como o sétimo — todos eles, nesse ponto, são dignos uns dos outros. Até hoje, o cristão foi o «ser moral», uma curiosidade sem igual — e, enquanto «ser moral», mais absurdo, mais mentiroso, mais vão, mais frívolo, mais prejudicial a si próprio do que mesmo o maior desdenhador da humanidade se poderia permitir sonhar. A moral cristã — a forma mais maligna da vontade de mentira, a autêntica Circe da humanidade —, eis o que a corrompeu. Não é o erro enquanto erro que, perante este espectáculo, me horroriza, não é a milenária falta de «boa vontade», de disciplina, de decência, de valentia no plano espiritual, que se manifesta no seu triunfo — é a falta de natureza, é o facto perfeitamente horripilante de a própria contranatureza, como moral, ter recebido as máximas honras e, como lei, como imperativo categórico, ter ficado suspensa por cima da humanidade!... Enganar-se a tal ponto, não enquanto indivíduo, não enquanto povo, mas sim enquanto humanidade!... Ensinou-se a desprezar os instintos primordiais da vida; inventou-se uma «alma», um «espírito», para frustrar o corpo; ensinou-se a ter a impressão de algo impuro na condição prévia da vida, na sexualidade; procurou-se o princípio do mal no que é mais profundamente necessário para se medrar, no estrito egoísmo (a palavra*, já em si, é caluniosa!); ao invés, é no típico indício do declínio e da contradição dos instintos, no «desinteresse», na perda de centro de gravidade, na «despersonalização» e no «amor ao próximo» (mania do próximo!), que se vê o valor mais alto — que digo eu?, o valor em si!... Como? Estaria a própria humanidade em decadência? Sempre o esteve?
O que é certo é que, como valores supremos, só lhe foram ensinados valores de decadência. A moral da renúncia a si próprio é a moral do declínio por excelência, é o facto «vou perecer» traduzido para o imperativo: «todos vós deveis perecer» — e não só para o imperativo!... Esta moral, a única que foi ensinada até agora, a moral da renúncia a si próprio, é reveladora de uma vontade de fim, porque nega a vida no seu fundamento mais básico. Aqui, permanece em aberto a possibilidade de não ser a humanidade que esteja em degenerescência, mas apenas aquele tipo humano parasitário, o do sacerdote, que, com a moral, se ergueu por aleivosia até à condição de árbitro dos seus valores — que adivinhou na moral cristã o meio de conseguir o poder... E, de facto, é esse o meu ponto de vista: os mestres, os guias da humanidade, todos eles teólogos, eram também todos eles decadentes: daí, a inversão de todos os valores em termos hostis à vida; daí, a moral... Definição da moral: a moral é a idiossincrasia de decadentes com a intenção oculta de se vingarem da vida — e com êxito. Considero importante esta definição.

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

* A palavra alemã correspondente (Selbstsuchi) pode entender-se, à letra, como «mania de si próprio». (N. do T.)

Lido por dolphin.s às 13h52 | Comentários (2)

7 de setembro 2003

Um tédio de sentir qualquer coisa

... no desalinho triste das minhas emoções confusas...

Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.


in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 19h00 | Comentários (10)

On the Sufferings of the World

Arthur SchopenhauerUnless suffering is the direct and immediate object of life, our existence must entirely fail of its aim. It is absurd to look upon the enormous amount of pain that abounds everywhere in the world, and originates in needs and necessities inseparable from life itself, as serving no purpose at all and the result of mere chance. Each separate misfortune, as it comes, seems, no doubt, to be something exceptional; but misfortune in general is the rule.

I know of no greater absurdity than that propounded by most systems of philosophy in declaring evil to be negative in its character. Evil is just what is positive; it makes its own existence felt. Leibnitz is particularly concerned to defend this absurdity; and he seeks to strengthen his position by using a palpable and paltry sophism. It is the good which is negative; in other words, happiness and satisfaction always imply some desire fulfilled, some state of pain brought to an end.

This explains the fact that we generally find pleasure to be not nearly so pleasant as we expected, and pain very much more painful.

The pleasure in this world, it has been said, outweighs the pain; or, at any rate, there is an even balance between the two. If the reader wishes to see whether this statement is true, let him compare the respective feelings of two animals, one of which is engaged in eating the other.

The best consolation in misfortune or affliction of any kind will be the thought of other people who are in a still worse plight than yourself; and this is a form of consolation open to everyone. But what an awful fate this means for mankind as a whole!

We are like lambs in a field, disporting themselves under the eye of the butcher, who chooses out first one and then another for his prey. So it is that in our good days we are all unconscious of the evil Fate may have presently in store for us - sickness, poverty, mutilation, loss of sight or reason.

No little part of the torment of existence lies in this, that Time is continually pressing upon us, never letting us take breath, but always coming after us like a taskmaster with a whip. If at any moment Time stays his hand, it is only when we are delivered over to the misery of boredom.

But misfortune has its uses; for, as our bodily frame would burst asunder if the pressure of the atmosphere were removed, so, if the lives of great men were relieved of all need, hardship and adversity; if everything they took in hand were successful, they would be so swollen with arrogance that, though they might not burst they would present the spectacle of unbridled folly - nay, they would go mad. And I may say, further, that a certain amount of care or pain or trouble is necessary for every man at all times. A ship without ballast is unstable and will not go straight.


On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer

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6 de setembro 2003

entremez didáctico com um rapaz das obras à procura de palavras para a alegria e a revolta

Prometeu - Rascunhos, Jorge Silva Melo - na &etcrapaz das obras - ... percebes alguma coisa do que estão a dizer?

jovem actor - ...umas coisas sim, outras não...

rapaz das obras - ...e porque é que estão tão tristes?

jovem actor - ...porque perderam...

rapaz das obras - ...perderam o quê?

jovem actor - Não sei. Se queres que te diga não sei.

rapaz das obras - ...mas estão tristes mesmo.


Silêncio


jovem actor -E que não sei mesmo.

rapaz das obras - Dinheiro?

jovem actor - Dinheiro parece que têm. Ou não se importam.

rapaz das obras - ... perderam o quê? O emprego?

ex-capela do rato (mulher) - ... eu acho que eles queriam o poder...

rapaz das obras - ... para mandar?

ex-capela do rato (mulher) - ... para...

jovem actor - ... quem tem o poder manda...

rapaz das obras - ... é por isso que estão tristes?

ex-capela do rato (mulher) - É.


Silêncio


rapaz das obras - Mas a águia, a águia, o que é isso? Estão sempre a dizer a águia...

jovem actor - ... e rosa rosa rosa...

rapaz das obras - ... parecem parvos.

ex-capela do rato (mulher) - Somos parvos, estamos tristes.


Silêncio


rapaz das obras - ... não percebo nada... tão pouca luz.

jovem actor - ... os mortos falam aqui, os que foram mortos... é um enterro...

rapaz das obras - E tu porque é que estás triste?

jovem actor - Eu estou contente. Tenho trabalho.

rapaz das obras - ... mas é fazer de triste o teu trabalho e nem sabes bem porque é que estás triste...

jovem actor - Imagino.


Silêncio


rapaz das obras - E pagam-te para estares triste?

jovem actor - Pouco. Mas pagam. Sou um actor.

rapaz das obras - E se te pagassem para estares alegre também estavas?

jovem actor - Estava.

rapaz das obras - Não tens querer?

jovem actor - Tenho.

rapaz das obras - Mas não é teu.

jovem actor - ... sou a voz dos outros, a tristeza dos outros a alegria dos outros com a minha ninguém tem nada a ver estou escondido atrás do dinheiro que me pagam para estar triste ou alegre conforme a peça e os encontros que eu fizer mas eu ninguém me vê...

rapaz das obras - ... eu vejo-te.

jovem actor - ...é verdade, vês-me, vêem-me... e é sempre minha a tristeza dos outros que eu digo ou que eu invento é sempre minha a alegria ou quando rio quando rio sou eu que rio...

rapaz das obras - É tramado.


Silêncio


rapaz das obras - Mas porque é que estão tão tristes... a mim disseram-me que era uma festa, falaram-me da liberdade, falaram-me do fogo, de roubar o fogo aos deuses... não estou a perceber... é só uma história entre eles?

o actor que faz de prometeu - ...quero ouvir as vozes dos que não conheço, quero ouvir e as palavras que digo são as palavras que ouço, eu... eu não quero falar, eu não existo, só existem as palavras que digo e não escrevi nem me saíram da boca....

rapaz das obras - Mas tinham razão estes gajos?

o actor que faz de prometeu - ... tinham e não tinham, são como toda a gente, sem razão e com razão, e isso é que dói.

rapaz das obras - ... e isso do Prometeu, o que é essa história?

ex-capela do rato (mulher) - ... durante muito tempo, muito tempo, séculos, as pessoas foram colando a esta imagem a imagem da sua própria dor... quem faz o bem é castigado e sofre... para sempre sofre... para sempre a águia...

rapaz das obras - ... mas ele fez o bem?

o actor que faz de prometeu - ... eu aos homens dei o fogo...

jovem actor - ...ninguém te mandou.

o actor que faz de prometeu - ... a consciência.

jovem actor - ... ele é que quis, não se deve queixar...

o actor que faz de prometeu - ... os homens são mais felizes, podem cozer os animais, podem aquecer-se nas noites de vento frio... mas deixam Prometeu no cáucaso deserto a águia a águia eterna... um rochedo.... deixam prender Otelo... deixam morrer Salgueiro Maia... os homens esquecem... passam à frente... passam os dias no hipermercado e à noite vêem televisão para não pensar em si próprios...


Silêncio


rapaz das obras - ... eu não estive nessa história, não era nascido...

jovem actor - ...eu não tenho culpa de não ter nascido antes...

rapaz das obras - ...parece que nós não temos direito a que falem de nós...

jovem actor - ... a falarmos nós... a falar

rapaz das obras - ...o problema é que eu... não sei...

jovem actor - ... falar?

rapaz das obras - ... falar... atropelo as palavras...

jovem actor - ... começo uma frase, não a consigo acabar

rapaz das obras - ...vendo bem, não tenho nada a dizer...

ex-capela do rato (mulher) - ... não tens nada a dizer?

rapaz das obras - Tenho, mas não sei...

ex-capela do rato (mulher) - ... e julgas que eu sei?

rapaz das obras - ... tens as palavras, dizes Prometeu, dizes a águia, eu só sei acordar às cinco e meia e pegar no trabalho às 7, e beber cerveja após cerveja, que não se aguenta o frio em cima do tejo sem a gente beber cerveja após cerveja... trabalho na ponte, pego às 7, e bebo...

jovem actor - ... as palavras são vossas...

rapaz das obras - ... o gajo não roubou o fogo aos deuses?... como é que eu vos roubo as palavras a gramática a retórica para contar o que ali se passa na nova ponte que não é a tristeza de enterro com que vocês tão lindamente tecem as vossas recordações e os vossos lamentos...

jovem actor - ... enquanto vocês estiverem em cena a gente não existe... a gente não existe...

rapaz das obras - ... e eu não estou triste. Para vocês tudo isto é história, palavras. Para mim é o trabalho e vejam as minhas mãos: são grandes.

jovem actor - ... estão sempre a amaldiçoar-me, estão sempre a desprezar-me porque eu não era nascido. E não... não era nascido no 5 de Outubro nem no 25 de Abril nem vivi a Guerra de Espanha nem a Revolução de Outubro e as Amoreiras já estavam construídas quando comecei a ir ao cinema à noite e a comprar roupa de marca...

rapaz das obras - ... eu trabalho na nova ponte...

jovem actor - ...eu ainda não sei, ando a ver os anúncios...

rapaz das obras - ...mas já não temos história?

jovem actor - ... a gente?

rapaz das obras - A gente parece que não pode entrar em cena a não ser pelos olhos destes gajos...

jovem actor - ... são vocês a minha águia, é este o meu rochedo, a ignorância... eu não sou quem sou porque só vocês têm direito à História, só a vossa história pode ser contada mesmo quando ninguém a conta ou ninguém a quer ouvir... não me deixaram História para mim, chamaram-me rasca porque...

rapaz das obras - ... sois vós os donos das palavras... eu fiquei sem nada...só o trabalho. E nas vossas palavras sou uma estatística uma caricatura...


Silêncio


jovem actriz rouca - ... às vezes estou tão tão sozinha... como se não houvesse palavras... como se não existisse... vou ao ginásio, às vezes vou à piscina... mas é como se a história não fosse minha... não sei quem é a Rosa Luxemburgo que agora mesmo eu própria evoquei... não sei quem és tu, nem sei quem é Lénine... sei os nomes, não sei mais... de vez em quando vêm nas revistas e aparecem na televisão e quando chego a casa às vezes levo um livro mas não sou capaz não sou capaz de ler... faço minhas as palavras dos outros, não são as minhas palavras as palavras que agora da boca me saem, falo mas sou muda... a dor que ao cair da tarde às vezes sinto, o meu amor... a dor não sei como dizer... e quando faço de Rosa Rosa Luxemburgo assassinada no landwehrkanal que não sei onde é nem sei bem o que foi esse assassínio nem vejo a diferença entre 1919 e 1933... penso em tristezas minhas, na morte que vai por perto, na vida que prometi, nas noites em que esperámos... penso mas não sei se é disso que estou a falar... sou uma actriz... e uma actriz não tem nada a dizer, é dita pelas palavras... sou dita pelas palavras dos outros, a minha voz é a voz dos outros e eu à noite estou sozinha com o silêncio de uma música... é só estar aqui sentada e a espera das palavras que os outros escrevem... mas a voz é minha, é minha a rouquidão, é minha esta tremura e esta é a tremura que eu vos trago. O teatro havia de ser olharmo-nos nos olhos para não estarmos sozinhos...

rapaz das obras - ... o teatro havia se ser para a gente rir depois de se vir cansado do trabalho...

jovem actriz rouca - ... fazer rir os outros... assim? Fazer uma careta... fazer rir?

rapaz das obras - ... ninguém nos deixa rir , só querem que a gente trabalhe e à noite os risos já estão gravados na tv...

jovem actriz rouca - Se eu fizer uma careta, ris?

rapaz das obras - ... porque é que estás tão triste, rapariga?

jovem actor - Ela não está triste, ela não existe...

ex-capela do rato (mulher) - Ninguém escreve as palavras da sua dor... ninguém escreve as canções do teu trabalho, rapaz... a gente oprime-te com as nossas recordações, as nossas recordações vêm nas páginas dos jornais e temos amigos que estão no governo, tu estás na nova ponte e não sabes o que foi isto...nem vais saber... a minha tristeza impede-te, proibe-te...

rapaz das obras - ... mas um gajo morreu ao meu lado e era preto e não chamaram a ambulância... e não deixaram que esta história passasse para os jornais ... era o que mais faltava... que isto passasse para os jornais... não é esta a história que tu querias contar?

jovem actriz rouca - ... eu conto a história de Rosa Rosa Luxemburgo... não consigo contar todas as histórias ao mesmo tempo...

rapaz das obras - mas um gajo morreu mesmo ao meu lado e era preto caiu do andaime e foi a semana passada ali entre Chelas e Sacavém... e vocês estão tristes tristes mas nem querem saber que um gajo morreu ali ao meu lado.

ex-capela do rato (mulher) - ...eu quero.

companheiro - Havia de ser no teatro que a gente sabia de tudo, das histórias antigas e das histórias de hoje, o teatro havia de ter portas abertas e a gente estava a contar a história de Prometeu e tu entravas aí pela porta e vinhas contar a tua história de hoje e pedias dinheiro para se pagar o enterro desse teu camarada e pagar o envio do corpo para Angola de onde ele veio morrer a construir uma ponte a nova ponte e o Prometeu servia também para tratarmos da nossa vida e da tua, que nem essa história queres ouvir ou vais ouvir. O teatro devia ser o lugar em que todos podiam falar directamente. Não é uma assembleia representativa. Não votamos num actor para ele dizer melhor o que a gente sente. Mas podíamos vir nós todos ouvir o que nos contam e nas palavras que ouvimos nas palavras que ouvimos falamos a nossa dor...

rapaz das obras - ...e a alegria

companheiro - ... a alegria é a gente falar falar a noite inteira num quarto desarrumado com papéis pelo chão e cadeiras velhas a alegria é não estarmos fechados em casa e misturarmo-nos aqui contigo e as palavras que eu digo serão tuas em tu querendo e era assim o teatro um abraço...

jovem actriz rouca - ... uma lágrima.

companheiro - ... era isso.

in Prometeu - rascunhos, Jorge Silva Melo

Lido por dolphin.s às 13h45 | Comentários (3)

5 de setembro 2003

O Sacerdócio é um Ofício

Para combater este estado de coisas o que era necessário, dirás? Que o padre fosse uma grande figura, que, nesta sociedade borrada de oiro e de gozo, protestasse em nome do espírito contra a matéria. E em lugar disto o que vemos? O padre eleiçoeiro, o padre janota, mamando charutos à porta das tabacarias, o padre intriguista, fazendo cerco às viúvas ricas. Temo-lo de todas as castas, — ignóbil, rindo da religião, pândego de chapéu ao lado. Há-os amigados, criando mulheres e filhos, jogadores correndo as feiras, bêbados e devassos, padres que são a ignomínia, babujem dum mar de beleza e sacrifícios. Serão a excepção? Talvez — mas em que número!... E pior do que estes, há o padre banal e charro, o padre que confessa, absolve e baptiza, como um director de secretaria despacha. O padre é ateu. O padre não compreende a Igreja nem a ama. Para ele o sacerdócio é um ofício. Engorda.

in O Padre, Raul Brandão, 1901

Lido por dolphin.s às 10h27 | Comentários (7)

4 de setembro 2003

O rancor do que é grande

Friedrich NietzscheHá qualquer coisa a que eu chamo o rancor da grandeza: tudo o que é grande, uma obra, um feito, volta-se imediatamente, uma vez realizado, contra quem o fez. Este, precisamente porque o fez, encontra-se fraco — já não suporta o seu acto, já não o olha de frente. Ter atrás de si algo que nunca se deveria ter querido, algo em que está atado o nó que há no destino da humanidade — e tê-lo, doravante, sobre si!... É quase esmagador... O rancor do que é grande! Outra coisa é o silêncio horripilante que se ouve à nossa volta. A solidão tem sete peles; nada mais as atravessa. Encontramos pessoas, saudamos os amigos: novo ermo, já nenhum olhar nos saúda. No melhor dos casos, uma espécie de revolta. Uma tal revolta senti-a eu, em graus muito diversos, mas por parte de quase toda a gente que me era próxima; parece que nada ofende mais do que fazer, subitamente, notar uma diferença — as naturezas nobres, que não sabem viver sem venerar, são raras.

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 10h17 | Comentários (3)

3 de setembro 2003

On Suicide V

It will generally be found that, as soon as the terrors of life reach the point at which they outweigh the terrors of death, a man will put an end to his own life. But the terrors of death offer considerable resistance; they stand like a sentinel at the gate leading out of this world. Perhaps there is no man alive who would not have already put an end to his own life, if this end had been of a purely negative character, a sudden stoppage of existence. There is something positive about it; it is the destruction of the body; and a man shrinks from that, because his body is the manifestation of the will to live.

On Suicide, Arthur Schopenhauer

Lido por dolphin.s às 13h40 | Comentários (4)

Choose life.


down the drain....Choose life. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players and electric tin openers. Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three-piece suit and arrange the fucking fabrics. Choose DIY and wonder where the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch, watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable hole, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats that you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life.

But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose something else. And the reasons? There are no reasons. Who needs reasons when you've got heroin?

in Trainspoting

Lido por dolphin.s às 10h17 | Comentários (4)

2 de setembro 2003

Não-ser

- O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. B não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.
Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau.
Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...

in o Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 13h28 | Comentários (0)

Ser completamente estrangeiro


Herberto HelderQue pode fazer uma pessoa senão voltar, estar fora, ser completamente estrangeira, não ter papéis? A terra é enorme. Paramos num sítio. E agora estamos sentados e procuramos, com a nossa história simples e desesperada, atrair o cuidado, o fervor alheio. É assim. Renovamos a espera inútil; o milagre onde não há milagres; a luz ao fundo, sempre ao fundo. Somos ilegais, em cada dia criamos uma rápida, brevíssima beleza surpreendente contra a face do pavor.

in Os Passos em Volta - Polícia, Herberto Helder


Lido por dolphin.s às 10h15 | Comentários (0)

1 de setembro 2003

Comovente Velhinha

A mais comovente velhinha da minha vida, comi-a numa esplanada, à beira de um lago. Carregada d'alho, de hortelã e de café, o vento que soprava da terra não conseguia estragar o sabor daquela velha. Muitos anos se passaram desde essa refeição acompanhada pelas rezas de um jovem abade colérico, mas nunca a esqueci.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor

Lido por dolphin.s às 14h00 | Comentários (0)

A Malícia

Espero que o senhor não se oponha à malícia, meu caro engenheiro. A meu ver, é a mais esplêndida arma da Razão contra as potências das Trevas e da fealdade. A malícia, senhor, é o espírito crítico, e a crítica representa a origem do progresso e das lutas da civilização.


in A Montanha Mágica, Thomas Mann

Lido por dolphin.s às 11h20 | Comentários (5)

Folha branca

Jean-Paul SartreOlho para esta folha branca colocada sobre a mesa; apercebo-me da sua forma, da sua cor, da sua posição. Estas diferentes qualidades têm características comuns: antes de mais, elas entregam-se ao meu olhar como existências que eu posso tão-somente constatar e cujo ser em nada depende do meu capricho. São para mim, não são eu. Mas outrem também não são, isto é, não dependem de qualquer espontaneidade, da minha nem da de qualquer outra consciência. Estão presentes e são ao mesmo tempo inertes. Esta inércia do conteúdo sensível, tantas vezes descrita, é a existência em si. De nada serve discutir se esta folha se reduz a um conjunto de representações, ou se é ou deve ser mais do que isso. Certo é que o branco por mim constatado não pode produzi-lo a minha espontaneidade. Esta forma inerte, que fica aquém de todas as espontaneidades conscientes, que tem de ser por nós observada, aprendida aos poucos, é o que se chama uma coisa. Em caso algum a minha consciência poderia ser uma coisa, pois o seu modo de ser em si é precisamente um ser para si. Existir, para ela, é ter consciência da sua existência. Surge como espontaneidade pura face ao mundo das coisas que é pura inércia. Podemos, pois, desde a origem, supor dois tipos de existência: é, de facto, enquanto inertes, que as coisas escapam ao domínio da consciência; é a sua inércia que as salvaguarda e lhes conserva a autonomia...

in A Imaginação, Jean-Paul Sartre

Lido por dolphin.s às 10h19 | Comentários (3)

31 de agosto 2003

A derrocada há-se ser monstruosa

É o começo de uma transformação profunda, o ruir dum mundo mais vasto que o antigo, o início de um daqueles cataclismos donde irrompe sempre uma humanidade nova e outras ideias. Nem as mais miúdas raízes ficarão no solo. O arado romperá até ao fundo. Estas convulsões alimentam-se de gritos. Para a eclosão se fazer em toda a sua beleza precisa dum furacão de sangue — mas a tempestade é sempre salutar.
A derrocada há-se ser monstruosa. Esta sociedade cairá entre gargalhadas e uivos, quando o homem obscuro vier reclamar, de chuço nas mãos, a sua parte no gozo. Que baionetas o impedirão de fartar a matéria, quando ele souber que só a matéria existe? Quem conterá a sua cólera, justa e horrorosa, quando conhecer que, durante séculos, viveu enganado e espoliado, apelando para uma sombra vã, chamando em altos gritos o Vácuo, ensopando de lágrimas o Nada? Hora trágica aquela em que, não eu, nem tu, mas a sua própria alma lhe disser: — Os teus gritos, as tuas súplicas eram pior do que inúteis, eram ridículas, quando, transido de fome e de injustiças, clamavas na sombra por um Deus que não existia!

in O Padre, Raul Brandão, 1901

Lido por dolphin.s às 14h24 | Comentários (2)

30 de agosto 2003

Poeta dilacerado

Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e — no centro — o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado.
— Por quem me tomam? — pode ele perguntar. — O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência.


in Os Passos em Volta - Holanda, Herberto Helder

Lido por dolphin.s às 20h11 | Comentários (3)

Fazer guerra

Friedrich NietzscheOutra coisa é a guerra. Sou, por natureza, belicoso. Atacar faz parte dos meus instintos. Poder ser inimigo, ser inimigo, isso pressupõe, talvez, uma natureza forte; em todo o caso, está implícito em toda a natureza forte. Esta precisa de deparar com resistências; por conseguinte, procura a resistência: o pathos agressivo faz tanto parte da força como os sentimentos rancorosos e ressentidos fazem parte da fraqueza. [...]
A força do atacante encontra uma espécie de medida na adversidade de que necessita; qualquer acréscimo se traduz pela procura de um adversário mais poderoso — ou de um problema mais difícil, pois um filósofo, que seja aguerrido, também desafia problemas para duelo. A missão não consiste em vencer resistências em geral, mas em impor-se àquelas contra as quais se tem que empenhar toda a energia, toda a destreza e mestria nas armas — em impor-se a adversários iguais... A igualdade perante o inimigo é a primeira condição para um duelo leal. Onde se despreza, não se pode fazer guerra; onde se ordena, onde se vê algo abaixo de si próprio, não se tem de fazer guerra.

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 13h33 | Comentários (0)

29 de agosto 2003

Parar é morrer

Para a frente! para a frente! Parar é morrer; parar é a gente sentir-se calcado pelos que vêm atrás, ofegantes, de unhas afiadas, prontos a despedaçar, contanto que cheguem mais depressa aos seus fins. É uma correria de seres borrados de ambição, agatanhando-se, metendo os ombros, com as mãos suadas, cerrados os dentes, prestes a tudo, até a matar, desde que consigam deitar os gadanhos ao que desejam.

in O Padre, Raul Brandão

Lido por dolphin.s às 10h12 | Comentários (0)

28 de agosto 2003

A Teoria das Cores

Herberto Helder    Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
    O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor — sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
    Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

in Os Passos em Volta, Herberto Helder

Lido por dolphin.s às 10h22 | Comentários (1)

27 de agosto 2003

On Suicide IV

In my chief work I have explained the only valid reason existing against suicide on the score of morality. It is this: that suicide thwarts the attainment of the highest moral aim by the fact that, for a real release from this world of misery, it substitutes one that is merely apparent. But from a mistake to a crime is a far cry; and it is as a crime that the clergy of Christendom wish us to regard suicide.

The inmost kernel of Christianity is the truth that suffering - the Cross - is the real end and object of life. Hence Christianity condemns suicide as thwarting this end; whilst the ancient world, taking a lower point of view, held it in approval, nay, in honor. But if that is to be accounted a valid reason against suicide it invokes the recognition of asceticism; that is to say, it is valid only from a much higher ethical standpoint than has ever been adopted by moral philosophers in Europe. If we abandon that high standpoint, there is no tenable reason left, on the score of morality, for condemning suicide. The extraordinary energy and zeal with which the clergy of monotheistic religions attack suicide is not supported either by any passages in the Bible or by any considerations of weight; so that it looks as though they must have some secret reason for their contention. May it not be this - that the voluntary surrender of life is a bad compliment for him who said that all things were very good? If this is so, it offers another instance of the crass optimism of these religions - denouncing suicide to escape being denounced by it.

On Suicide, Arthur Schopenhauer

Lido por dolphin.s às 19h12 | Comentários (0)

Retaliação

Tal como todo aquele que nunca viveu entre seus iguais e para quem a ideia de «retaliação» é tão inacessível como, por exemplo, a noção de «igualdade de direitos», proíbo a mim próprio, nos casos em que me fazem alguma tolice, quer pequena quer muito grande, qualquer represália, qualquer medida de protecção — e também, logicamente, qualquer defesa, qualquer «justificação». A minha maneira de retaliar consiste em mandar tão depressa quanto possível um gesto inteligente no encalço do gesto estúpido: assim, talvez ainda seja possível apanhá-lo. Falando por metáforas, mando um frasco de compota, para me livrar de uma coisa azeda... Assim que me fazem alguma maldade, eu «retribuo», disso podem estar certos: em breve, encontro uma oportunidade para exprimir a minha gratidão ao «malfeitor» (e, às vezes, até para agradecer a malfeitoria) ou para lhe pedir alguma coisa — o que pode obrigar mais do que dar alguma coisa... Além disso, parece-me que mesmo a palavra mais grosseira, mesmo a carta mais impertinente ainda são mais benévolas, mais honestas, que o silêncio. Nos que se calam, há quase sempre falta de delicadeza e de cortesia sinceras; o silêncio é uma reserva, engolir tudo causa necessariamente mau carácter, e até estraga a digestão. Todos os que se calam são dispépticos.
Já se vê que eu não gostaria que se menosprezasse a impertinência, que é de longe a forma mais humana de contradição e, no meio da edulcoração moderna, uma das nossas primeiras virtudes. Desde que se seja suficientemente rico para tanto, até é uma felicidade não ter razão. Um Deus, que viesse à Terra, não poderia senão fazer mal: tomar sobre si não o castigo, mas sim a culpa, eis o que seria propriamente divino.

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

Lido por dolphin.s às 14h12 | Comentários (2)

26 de agosto 2003

Remember how to laugh

Kierkegaard
Just as, according to the legend Parmeniscus in the Trophonian cave lost his ability to laugh, but recovered it again on the island of Delos at the sight of a shapeless block which was exhibited as the image of the goddess Leto: likewise did it happen to me. When I was very young I forgot in the Trophonian cave how to laugh; but when I grew older and opened my eyes and contemplated the real world, I had to laugh, and have not ceased laughing, ever since. I beheld that the meaning of life was to make a living; its goal, to become Chief Justice; that the delights of love consisted in marrying a woman with ample means; that it was the blessedness of friendship to help one another in financial difficulties; that wisdom was what most people supposed it to be; that it showed enthusiasm to make a speech, and courage, to risk being fined 10 dollars; that it was cordiality to say "may it agree, with you" after a repast; that it showed piety to partake of the communion once a year. saw that and laughed.


in Diapsalmata, Kierkegaard

Lido por dolphin.s às 16h00 | Comentários (0)

Dinheiro rapazes!...

A esta hora a cidade lá em baixo afunda-se na escuridão — como um poço de gritos. Entre cada quatro paredes há tragédia, catástrofes, cóleras, ambições, remorsos. Todos nós trazemos máscaras, para encobrir o nosso sonho, e a banal aparência desta casaria esconde um brasido de cálculos ou de raivas. É aquele vaso cheio de víboras, de que fala algures Carlyle, cada qual procurando levantar a cabeça mais alto que as outras. A mão que aperta a nossa ressuma muitas vezes ódio.
Mal se come. Vive-se de dívidas, de tonturas, com os credores à porta ameaçando e os trastes de aparato empenhados. Um passo mais e é a catástrofe e a vergonha. No entanto as aflições têm de ser escondidas e surdas, as lágrimas cobertas com pó-de-arroz. O janota, que ali vai na praça, treme de frio; a mulher vestida de seda, que nos olha e foge, sustenta-se um mês a fio de café e morfina — e quantas vezes o riso esconde um grito de aflição...
Este homem tem só um fim: vencer custe o que custar. E esfuranca, cortez e frio, prático como o diabo, sempre correcto, calculando, medindo, pesando as mais pequenas palavras, sem coração e com este único sonho: — arranjar-se!... Dinheiro rapazes!...

in O Padre, Raul Brandão

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25 de agosto 2003

Prenúncio de Morte

Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta - o certo é que sinto como se, no fim de um piorar de doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.
Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver. A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Por que o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte, a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.
A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou de levar aquele fato único que vestira.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

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Se eu quisesse, enlouquecia

Herberto Helder      — Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

in Os Passos em Volta - Estilo, Herberto Helder

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24 de agosto 2003

On Suicide III

Pliny says: Life is not so desirable a thing as to be protracted at any cost. Whoever you are, you are sure to die, even though your life has been full of abomination and crime. The chief of all remedies for a troubled mind is the feeling that among the blessings which Nature gives to man there is none greater than an opportune death; and the best of it is that every one of us can avail himself of it. And elsewhere the same writer declares: Not even to God are all things possible; for he could not compass his own death, if he willed to die, and yet in all the miseries of our earthly life this is the best of his gifts to man. Nay, in Massilia and on the isle of Ceos, the man who could give valid reasons for relinquishing his life was handed the cup of hemlock by the magistrate, and that, too, in public. And in ancient times how many heroes and wise men died a voluntary death. Aristotle, it is true, declared suicide to be an offense against the State; but in Stobaeus's exposition of the Peripatetic philosophy there is the following remark: The good man should flee life when his misfortunes become too great; the bad man, also, when he is too prosperous. And similarly: So he will marry and beget children and take part in the affairs of the State, and, generally, practice virtue and continue to live; and then, again, if need be, and at any time necessity compels him, he will depart to his place of refuge in the tomb. And we find that the Stoics actually praised suicide as a noble and heroic action as hundreds of passages show; above all in the works of Seneca, who expresses the strongest approval of it. As is well known, the Hindus look upon suicide as a religious act, especially when it takes the form of self-immolation by widows; but also when it consists in casting oneself under the wheels of the chariot of the god of Juggernaut, or being eaten by crocodiles in the Ganges, or being drowned in the holy tanks in the temples, and so on. The same thing occurs on the stage - that mirror of life. For example, in L'Orphelin de la Chine, a celebrated Chinese play, almost all the characters end by suicide; without the slightest hint anywhere, or any impression being produced on the spectator, that they are committing a crime. And in our own theater it is much the same - Palmira, for example, in Mahomet, or Mortimer in Maria Stuart, Othello, Countess Terzky. Is Hamlet's monologue the meditation of a criminal? He merely declares that if we had any certainty of being annihilated by it, death would be infinitely preferable to the world as it is. But there lies the rub!

On Suicide, Arthur Schopenhauer

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23 de agosto 2003

Quanta verdade suporta um espírito?

Friedrich NietzscheQuem for capaz de respirar na atmosfera das minhas obras sabe que se trata de um ar de altitude, de um ar forte. Há que ser feito para ele, de outro modo não será pequeno o perigo de resfriamento. O gelo está próximo, a solidão é enorme, mas como todas as coisas repousam tranquilamente em plena luz! Como se respira livremente! Quanta coisa sentimos estar abaixo de nós! A filosofia, tal como eu, até hoje, a entendi e a vivi, consiste em viver voluntariamente no gelo e na alta montanha, em procurar tudo o que é estranho e problemático na existência, tudo aquilo que, até ao presente, foi anatematizado pela moral. Devido a uma longa experiência, que me foi dada por essa peregrinação através do interdito, aprendi a encarar os motivos pelos quais, até agora, se moralizou e se idealizou, de maneira muito diferente do que pode ser para desejar: a história oculta dos filósofos, a psicologia dos grandes nomes da filosofia apareceram-me à luz do dia. Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais essa se tornou para mim a autêntica escala de aferição. O erro (a crença no ideal) não é cegueira, o erro é cobardia... Cada avanço, cada passo em frente no conhecimento resulta da coragem, da dureza contra si próprio, da limpeza ante si próprio... Eu não refuto os ideais, calço simplesmente luvas perante eles... Nitimur in vetiturn*: sob este signo triunfará um dia a minha filosofia, pois em princípio sempre se proibiu, até hoje, apenas a verdade.

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

* Fazemos finca-pé no que é vedado. (N. do T.)

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Contradictions

Accept life, take it as it is? Stupid. The means of doing otherwise? Far from our having to take it, it is life that possesses us and on occasion shuts our mouths.

Accept the human condition? I believe that, on the contrary, revolt is part of human nature.

To pretend to accept what is imposed on us is a sinister comedy. First of all we must live. So many things are capable of being loved that it is ridiculous to seem to desire pain.

Comedy. Pretense. One must be sincere. Sincere at any price, even to our own detriment.

Neither revolt nor despair, moreover. Life with what it has. To accept it or revolt against it is to place oneself in opposition to life. Pure illusion. We are in life. It strikes us, mutilates us, spits in our face. It also illuminates us with crazy and sudden happiness that makes us participants. It is short. This is enough. Still make no mistake: there is pain. Impossible to evade. Perhaps, deep within ourselves, life's essential lot.

Our contradictions. The mystics and Jesus Christ. Love. Communion. Certainly, but why waste words? More later.

Albert Camus

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22 de agosto 2003

The Politician

He is a man who has lied and dissembled, and a man who has crawled. He knows the taste of the boot-polish. He has suffered kicks in the tonneau of his pantaloons. He has taken orders from his superiors in knavery and he has wooed and flattered his inferiors in sense. His public life is an endless series of evasions and false pretenses. He is willing to embrace any issue, however idiotic, that will get him votes, and he is willing to sacrifice any principle, however sound, that will lose them for him. I do not describe the democratic politician at his inordinate worst; I describe him as he is encountered in the full sunshine of normalcy. He may be, on the one hand, a cross-roads idler striving to get into the State Legislature by grace of the local mortgage-sharks and evangelical clergy, or he may be, on the other hand, the President of the United States.

in The Politician Under Democracy, Henry L. Mencken, 1926

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A vida é uma comédia

Raul BrandãoDe forma que o homem vive sozinho. O que o obriga a ser justo e grande? A educação? o exemplo? A educação ensina-lhe a guerra; pedaços de ciência fazem-no balofo e seco; e o exemplo mostra-lhe o triunfo dos habilidosos, dos que se curvam e transigem, sabendo ameaçar ou recuar conforme a ocasião; dos que alijando os preconceitos — coração, ilusões, sonho — ficam mais lestos para um combate sem tréguas. A pobreza parece-lhe a desonra, porque vê sempre o pobre desprezado e calcado; o amor uma irrisão e procura um casamento rico; o sacrifício uma tolice. Só teme a valer a cadeia e a pobreza.
Depois a luta pela vida é aspérrima. Este moço aspira a tudo e tem na sua frente uma multidão compacta, que lhe barra os lugares. O triunfo de quem é? Dos que calcam para passar, sem que haja gritos ou blasfémias que os detenham. Os menos audaciosos ou os mais honestos afundam-se. Não há energia que resista à luta miudinha de todos os dias — se se tem coração. Embota-se a vontade, gasta-se a ambição, e em torno os que adularam ou calcaram sobem, trepam, com risos desdenhosos e ares de protectores.
É por isso que quase todos os rapazes, que até aos vinte anos reclamam justiça e se revoltam, começam, depois, curvos e submissos, a entrar no grande rebanho. Soa a hora trágica da vida, Pesam-se as coisas. Começa-se a ver que o que vale na terra não é o talento nem o trabalho. Para se vencer assim era preciso ser-se um herói ou um santo; gastar-se a existência para se conseguir o que um imbecil alcança numa hora, cortejando e dobrando-se. Principia-se então a ser o quê? Charlatão. A vida é uma comédia. Toma-la a sério para quê — se ela é feita de nulidades, de coisas vãs ou ridículas?

in O Padre - 1901, Raul Brandão

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21 de agosto 2003

Busy men

Kierkegaard
Of all ridiculous things the most ridiculous seems to me, to be busy—to be a man who is brisk about his food and his work. Therefore, whenever I see a fly settling, in the decisive moment, on the nose of such a person of affairs; or if he is spattered with mud from a carriage which drives past him in still greater haste; or the drawbridge opens up before him; or a tile falls down and knocks him dead, then I laugh heartily. And who, indeed, could help laughing? What, I wonder, do these busy folks get done? Are they not to be classed with the woman who in her confusion about the house being on fire carried out the firetongs? What things of greater account, do you suppose, will they rescue from life's great conflagration?


in Diapsalmata, Kierkegaard

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Afinal não sou

Fernando PessoaDe repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de
quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.
Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-Ihes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.
Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

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20 de agosto 2003

On Suicide II

Arthur SchopenhauerSuicide, as I have said, is actually accounted a crime; and a crime which, especially under the vulgar bigotry that prevails in England, is followed by an ignominious burial and the seizure of the man's property; and for that reason, in a case of suicide, the jury almost always bring in a verdict of insanity. Now let the reader's own moral feelings decide as to whether suicide is a criminal act. Think of the impression that would be made upon you by the news that someone you know had committed the crime, say, of murder or theft, or been guilty of some act of cruelty or deception; and compare it with your feelings when you hear that he has met a voluntary death. While in the one case a lively sense of indignation and extreme resentment will be aroused, and you will call loudly for punishment or revenge, in the other you will be moved to grief and sympathy; and mingled with your thoughts will be admiration for his courage, rather than the moral disapproval which follows upon a wicked action. Who has not had acquaintances, friends, relations, who of their own free will have left this world; and are these to be thought of with horror as criminals? Most emphatically No! I am rather of the opinion that the clergy should be challenged to explain what right they have to go into the pulpit, or take up their pens, and stamp as a crime an action which many men whom we hold in affection and honor have committed; and to refuse an honorable burial to those who relinquish this world voluntarily. They have no Biblical authority to boast of, as justifying the condemnation of suicide; nay, not even any philosophical arguments that will hold water; and it must be understood that it is arguments we want, and that we will not be put off with mere phrases or words of abuse. If the criminal law forbids suicide, that is not an argument valid in the church; and besides, the prohibition is ridiculous; for what penalty can frighten a man who is not afraid of death itself? If the law punishes people for trying to commit suicide, it is punishing the want of skill that makes the attempt a failure.

On Suicide, Arthur Schopenhauer


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Nem muito cinismo, nem muita virtude

Albert CamusSobretudo, não acredite nos seus amigos, quando lhe pedirem que seja sincero para com eles. Esperam somente que os mantenha na boa ideia que fazem de si próprios, fornecendo-lhes uma certeza suplementar que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como é que a sinceridade poderá ser uma condição da amizade? O gosto da verdade a todo o custo é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, por vezes um conforto, ou um egoísmo. Se, pois, se encontra neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Corresponderá ao profundo desejo deles e provar-lhes-á duplamente a sua afeição.
Tanto isto é verdade que raramente nos abrimos com os que são melhores do que nós. Evitaríamos de preferência o seu convívio. A maior parte das vezes, pelo contrário, confessamo-nos aos que se parecem connosco e que partilham das nossas fraquezas. Não desejamos, pois, corrigir-nos, nem tornar-nos melhores: seria preciso, antes de tudo, que fôssemos considerados fracos. Desejamos apenas ser lastimados e encorajados no nosso caminho. Em suma, desejaríamos, ao mesmo tempo, deixar de ser culpados e não fazer esforços para nos purificarmos. Nem muito cinismo, nem muita virtude. Nem para o mal, nem para o bem temos energia. Conhece Dante? De verdade? Diabo. Sabe, então, que Dante admite anjos neutros na querela entre Deus e Satã. E coloca-os no Limbo, uma espécie de vestíbulo do Inferno. Nós estamos no vestíbulo, caro amigo.

in A Queda, Albert Camus

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Derrubar ídolos

Por exemplo, não sou de modo nenhum um papão, um monstro da moral — sou mesmo uma natureza oposta àquele tipo de homem que, até hoje, tem sido venerado como virtuoso. Aqui entre nós, parece-me que isso, justamente, faz parte do meu orgulho. Sou um discípulo do filósofo Dioniso, até prefiro ser um sátiro a ser um santo. Mas há que ler esta obra. Talvez nela eu tenha conseguido — talvez esta obra não tenha mesmo mais nenhum outro sentido — exprimir essa antítese de uma maneira serena e afável. A última coisa, que eu prometeria, seria «melhorar» a humanidade. Por mim não serão erguidos novos ídolos: os velhos bastam para nos ensinar o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (o meu sinónimo de «ideais»), isso até já faz parte do meu ofício. Na medida em que se inventou um mundo ideal, privou-se a realidade do seu valor, do seu sentido, da sua veracidade... O «mundo verdadeiro» e o «mundo aparente», ou seja, para falar com clareza: o mundo fictício e a realidade... A mentira do ideal tem sido, até ao presente, a maldição que pesa sobre a realidade; devido a ela, a própria humanidade se tornou mentirosa e falsa até aos seus instintos mais básicos, até adorar os valores inversos daqueles que lhe garantiriam o êxito, o futuro, o solene direito ao porvir.

in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche

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19 de agosto 2003

Sopa de Doidos


Sopa de DoidosPeguem num bom pedaço de perna, tenro e rosado
Num com mais gordura, noutro de magreza à parte
Todos têm valor, mas o segredo da arte
É saber regular exactamente o bocado.

Cortem um, dois, três doidos gordos ou finos
Para encher até às bordas na chaminé
A púcara, onde vão ferver toda a matiné
As «Malucas» de nome simples e gordo, manjares divinos.

Metam na púcara, cheia como uma cratera
Feijão verde fresquinho e batatinhas
Cenouras e nabos da estação

E sirvam quente, muito quente, para que a fumarada
Desperte o apetite, só à exalação
Do prato de que a sala está toda perfumada.


Segundo Henrí Chantavoine, poeta.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor


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On common sense

Vladimir NabokovIt is instructive to think that there is not a single person in this room, or for that matter in any room in the world, who, at some nicely chosen point in historical space-time would not be put to death there and then, here and now, by a commonsensical majority in righteous rage. The color of one's creed, neckties, eyes, thoughts, manners, speech, is sure to meet somewhere in time or space with a fatal objection from a mob that hates that particular tone. And the more brilliant, the more unusual the man, the nearer he is to the stake. Stranger always rhymes with danger. The meek prophet, the enchanter in his cave, the indignant artist, the nonconforming little schoolboy, all share in the same sacred danger. And this being so, let us bless them, let us bless the freak; for in the natural evolution of things, the ape would perhaps never have become man had not a freak appeared in the family. Anybody whose mind is proud enough not to breed true, secretly carries a bomb at the back of his brain, and so I suggest, just for the fun of the thing, taking that private bomb and carefully dropping it upon the model city of commonsense. In the brilliant light of the ensuing explosion many curious things will appear...

in Lectures on Literature, Vladimir Nabokov, 1956

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Entre esta gente

Fernando PessoaNão são as paredes reles do meu quarto vulgar, nem as secretárias velhas do escritório alheio, nem a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual, tantas vezes por mim percorridas que já me parecem ter usurpado a fixidez da irreparabilidade, que formam no meu espírito a náusea, que nele é frequente, da quotidianidade enxovalhante da vida. São as pessoas que habitualmente me cercam, são as almas que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência última de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.
[...]
Sim, a minha virtude íntima de ser frequentemente objectivo, e assim me extraviar de pensar-me, sofre, como todas as virtudes, e até como todos os vícios, decréscimos de afirmação. Então pergunto a mim mesmo como é que me sobrevivo, como é que ouso ter a cobardia de estar aqui, entre esta gente, com esta igualdade certeira com eles, com esta conformação verdadeira com a ilusão de lixo de eles todos? Ocorrem-me com um brilho de farol distante todas as soluções com que a imaginação é mulher - o suicídio, a fuga, a renúncia, os grandes gestos da aristocracia da individualidade, o capa e espada das existências sem balcão.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

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18 de agosto 2003

Pessimismo ou Optimismo

Jean-Paul SartreWe know the commonplace remarks made when this subject (existentialism) comes up, remarks which always add up to the same thing: we shouldn't struggle against the powers that-be; we shouldn't resist authority; we shouldn't try to rise above our station; any action which doesn't conform to authority is romantic; any effort not based on past experience is doomed to failure; experience shows that man's bent is always toward trouble, that there must be a strong hand to hold him in check, if not, there will be anarchy. There are still people who go on mumbling these melancholy old saws, the people who say, "It's only human!" whenever a more or less repugnant act is pointed out to them, the people who glut themselves on chansons realistes; these are the people who accuse existentialism of being too gloomy, and to such an extent that I wonder whether they are complaining about it, not for its pessimism, but much rather its optimism. Can it be that what really scares them in the doctrine I shall try to present here is that it leaves to man a possibility of choice?

in Existentialism and Human Emotions, Jean-Paul Sartre

Lido por dolphin.s às 13h50 | Comentários (0)

Uma Razão de Viver

Stig DagermanSei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.
É este o meu único consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

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Martyrs

H. L. Mencken"History," says Henry Ford, "is bunk." I inscribe myself among those who dissent from this doctrine; nevertheless, I am often hauled up, in reading history, by a feeling that I am among unrealities. In particular, that feeling comes over me when I read about the religious wars of the past - wars in which thousands of men, women and children were butchered on account of puerile and unintelligible disputes over transubstantiation, the atonement, and other such metaphysical banshees. It does not surprise me that the majority murdered the minority; the majority, even today, does it whenever possible. What I can't understand is that the minority went voluntarily to the slaughter. Even in the worst persecutions known to history - say, for example, those of the Jews in Spain - it was always possible for a given member of the minority to save his hide by giving public assent to the religious notions of the majority. A Jew who was willing to be baptized, in the reign of Ferdinand and Isabella, was practically unmolested; his descendants today are 100% Spaniards. Well, then, who did so many Jews refuse? Why did so many prefer to be robbed, exiled, and sometimes murdered?

The answer given by philosophical historians is that they were a noble people, and preferred death to heresy. But this merely begs the question. Is it actually noble to cling to a religious idea so tenaciously? Certainly it doesn't seem so to me. After all no human being really knows anything about the exalted matters with which all religions deal. The most he can do is to match his private guess against the guesses of his fellow-men. For any man to say absolutely, in such a field, that this or that is wholly and irrefragably true and this or that is utterly false is simply to talk nonsense. Personally, I have never encountered a religious idea - and I do not except even the idea of the existence of God - that was instantly and unchallengeably convincing, as, say, the Copernican astronomy is instantly and unchallengeably convincing. But neither have I ever encountered a religious idea that could be dismissed off-hand as palpably and indubitably false. In even the worst nonsense of such theological mountebanks as Brigham Young and Mrs. Eddy, there is always enough lingering plausibility, or at all events, possibility, to give the judicious pause. Whatever the weight of the probabilities against it, it nevertheless may be true that man, on his decease, turns into a gaseous vertebrate, and that this vertebrate, if its human larva has engaged in embezzlement, bootlegging, profanity or adultery on this earth, will be boiled for a million years in a cauldron of pitch. My private inclination, due to my defective upbringing, is to doubt it, and to set down anyone who believes it as an ass, but it must be plain that I have no means of disproving it.

In view of this uncertainty, it seems to me sheer vanity for any man to hold his religious views too firmly, or to submit to any inconvenience on account of them. It is far better, if they happen to offend, to conceal them discreetly, or to change them amiably as the delusions of the majority change. My own views in this department, being wholly skeptical and tolerant, are obnoxious to the subscribers to practically all other views; even atheists sometimes denounce me. At the moment, by an accident of American political history, these dissenters from my theology are forbidden to punish me for not agreeing with them. But at any succeeding moment some group or other among them may seize such power and proceed against me in the immemorial manner. If it ever happens, I give notice here and now that I shall get converted to their nonsense instantly, and so retire to safety with my right thumb laid against my nose and my fingers waving like wheat in the wind. I'd do it even today, if there were any practical advantage in it. Offer me a box of good Havana cigars, and I engage to submit to baptism by any rite ever heard of, provided it does not expose my gothic nakedness. Make it ten boxes, and I'll agree to be both baptized and confirmed.

H. L. Mencken

First printed in the Smart Set, April, 1922, pp. 45-46

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17 de agosto 2003

Lei Contra o Cristianismo

Friedrich NietzschePromulgada no dia da Salvação, no primeiro dia do ano Um
(30 de Setembro de 1888 da falsa cronologia)

Guerra de morte contra o vício:
O vício é o cristianismo

Artigo primeiro. É viciosa qualquer forma de antinatureza. O tipo de homem mais vicioso é o sacerdote: ele ensina a antinatureza. Contra o sacerdote não temos razões, temos a penitenciária.

Artigo segundo. Qualquer participação num serviço religioso é um atentado à moralidade pública. Deve-se ser mais severo com os protestantes do que com os católicos, mais severo com os protestantes liberais do que com os puritanos. Quanto mais alguém se aproxima da ciência, tanto mais criminoso é ser cristão. O criminoso dos criminosos é, por consequência, o filósofo.

Artigo terceiro. O sítio execrável, em que o cristianismo chocou os seus ovos de basilisco, deve ser arrasado e, sendo lugar ímpio na Terra, deve inspirar pavor a toda a posteridade. Deverão ser criadas aí serpentes venenosas.

Artigo quarto. A pregação da castidade é uma pública incitação ao antinatural. Todo o desprezo pela vida sexual, toda a profanação desta através da noção de «impuro» constituem o autêntico pecado contra o espírito santo da Vida.

Artigo quinto. Comer a uma mesma mesa com um sacerdote é motivo de exclusão: quem o fizer excomunga-se da sociedade honrada. O sacerdote é o nosso «tchandala»: há que proscrevê-lo, esfomeá-lo, expulsá-lo para qualquer tipo de deserto.

Artigo sexto. Deve-se chamar a história «sagrada» pelo nome que ela merece, ou seja, história maldita; deve-se empregar as palavras «Deus», «Salvador», «Redentor», «Santo», como injúrias, como designativas de criminosos.

Artigo sétimo. O resto conclui-se daqui.

O ANTICRISTO

in O Anticristo, Nietzsche

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16 de agosto 2003

Somos todos casos excepcionais

Albert CamusSomos todos casos excepcionais. Todos queremos apelar de qualquer coisa! Cada qual exige ser inocente, a todo o custo, mesmo que para isso seja preciso inculpar o género humano e o céu. Contentaremos mediocremente um homem, se lhe dermos parabéns pelos esforços graças aos quais se tornou inteligente ou generoso. Pelo contrário, ele rejubilará, se se admirar a sua generosidade natural. Inversamente, se dissermos a um criminoso que o seu crime nada tem com a sua natureza, nem com o seu carácter, mas com infelizes circunstâncias, ele ficar-nos-á violentamente reconhecido. Durante a defesa, escolherá mesmo este momento para chorar. No entanto, não há mérito nenhum em ser-se honesto, nem inteligente, de nascença! Como se não é certamente mais responsável em ser-se criminoso por natureza que em sê-lo devido às circunstâncias. Mas estes patifes querem a absolvição, isto é, a irresponsabilidade, e tiram, sem vergonha, justificações da natureza ou desculpas das circunstâncias, mesmo que sejam contraditórias. O essencial é que sejam inocentes, que as suas virtudes, pela graça do nascimento, não possam ser postas em dúvida, e que os seus crimes, nascidos de uma infelicidade passageira, nunca sejam senão provisórios. Já lhe disse, trata-se de escapar ao julgamento. Como é difícil escapar e melindroso fazer, ao mesmo tempo, com que se admire e desculpe a própria natureza, todos procuram ser ricos. Porquê? Já o perguntou a si mesmo? Por causa do poder, certamente. Mas sobretudo porque a riqueza nos livra do julgamento imediato, nos retira da turba do metropolitano para nos fechar numa carroçaria niquelada, nos isola em vastos parques guardados, em carruagens-camas, em camarotes de luxo. A riqueza, caro amigo, não é ainda a absolvição, mas a pena suspensa, sempre fácil de conseguir...

in A Queda, Albert Camus

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15 de agosto 2003

Dormir

Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!... Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar casto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!... Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de f olhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!... Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeira de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho... O absurdo, a confusão, o apagamento - tudo que não fosse a vida...
E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que Cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!:
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim, E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

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14 de agosto 2003

Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa

Na verdade nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado, uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de uma criança, o frio gume da beleza - nada disso tem horas e minutos. Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos? A felicidade não só se situa à margem do tempo, como nega toda a relação deste com a vida.
Assim, num só movimento, liberto os ombros de dois fardos: o tempo e as tarefas que teimam em me exigir. Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana? - força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz - mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver?

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 17h15 | Comentários (2)

A Ideia da Inocência

Era assim que, para dar apenas um exemplo, as mulheres, no fim de contas, me ficavam caras. O tempo que lhes consagrava, não o podia dedicar aos homens, que nem sempre mo perdoavam. Como sair disto? Não nos perdoam a nossa felicidade, nem os nossos êxitos, senão no caso de consentirmos generosamente em reparti-los. Mas, para se ser feliz é preciso não nos ocuparmos muito dos outros. As saídas ficam, pois, cortadas. Feliz e julgado ou absolvido, e miserável. Quanto a mim, a injustiça era maior: eu era condenado por causa de felicidades antigas. Tinha vivido durante muito tempo na ilusão de um acordo geral, quando de todos os lados choviam sobre mim, distraído e sorridente, os juízos, as flechas e os remoques. A partir do dia em que fiquei alerta, veio-me a lucidez, recebi todos os ferimentos ao mesmo tempo e perdi de uma só vez as minhas forças. O universo inteiro pôs-se então a rir à minha volta.
Eis o que nenhum homem (salvo os que não vivem, quero dizer os sábios) pode suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam-se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Que quer? A ideia mais natural para o homem, a que lhe surge ingenuamente, como do fundo da sua natureza, é a ideia da sua inocência.

in A Queda, Albert Camus

Lido por dolphin.s às 10h21 | Comentários (0)

13 de agosto 2003

Literatura

Fernando PessoaA literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem ria diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 18h28 | Comentários (2)

Escravos da Convicção

Não nos deixemos enganar: os grandes espíritos são cépticos. Zaratustra é um céptico. A força e a liberdade, provenientes do vigor e da exuberância do espírito, demonstram-se através do cepticismo. Os homens de convicção não entram de modo nenhum em linha de conta para tudo quanto seja fundamental em termos de valor e de não valor. As convicções são prisões. Não vêem a distância suficiente, nem vêem debaixo de si; ora, para poder ter uma palavra a dizer acerca de valor e não-valor, há que ver quinhentas convicções abaixo de si, atrás de si... Um espírito que queira coisas grandes, que queira também os meios para tanto, é necessariamente céptico. Estar livre de toda a espécie de convicções faz parte da força, poder olhar livremente... A grande paixão do céptico, fundamento e potência do seu ser, ainda mais esclarecida, mais despótica do que ele próprio o é, põe todo o seu intelecto ao serviço dela; torna-o destemido; dá-lhe até coragem para se servir de meios ímpios; em determinadas circunstâncias, permite-lhe ter convicções. É a convicção como meio: há muita coisa que só se alcança por intermédio de uma convicção. A grande paixão emprega e consome convicções, sem se submeter a elas — sabe-se soberana. Pelo contrário, a necessidade de fé, de alguma coisa que não esteja condicionada pelo sim e pelo não, o carlylismo, se me quiserem perdoar esta expressão, é uma necessidade própria da fraqueza. O homem de fé, o «crente» de qualquer tipo, é necessariamente um homem dependente, alguém que não se afirma como um fim, que, por si próprio, não pode sequer fixar finalidades. O «crente» não pertence a si próprio, só pode ser um meio; tem de ser consumido, precisa de alguém que o consuma. O seu instinto concede a suprema honra a uma moral de despersonalização: a isso tudo o persuade, a sua prudência, a sua experiência, a sua vaidade. Qualquer forma de crença é em si mesma uma expressão de despersonalização, de alienação de si próprio... Se se tiver em conta como é necessário à maioria das pessoas um elemento regulador que as ligue e as fixe a partir do exterior, como a coacção (num sentido mais radical, a escravatura) é a única e derradeira condição que permite prosperar às pessoas de vontade mais fraca, sobretudo à mulher, pois também se compreende a convicção, a «fé». O homem de convicção tem nesta a sua espinha dorsal. Não ver muitas coisas, não ser imparcial em caso algum, tomar partido do princípio ao fim, ter uma óptica estreita e infalível quanto a todos os valores, é só disso que depende a própria existência de um tal tipo humano. Mas, desse modo, ele é o contrário, o antagonista do verídico — da verdade... Ao crente não é dado ter sequer consciência para a questão do «verdadeiro» e do «não verdadeiro»: ser honesto neste ponto seria logo a sua perdição. O condicionalismo patológico da sua óptica faz do convicto o fanático — Savonarola, Lutero, Rousseau, Robespierre, Saint-Simon —, o tipo oposto do espírito forte, que se tornou livre. Mas as grandes atitudes desses espíritos doentes, desses epilépticos do entendimento, agem sobre as grandes massas: os fanáticos são pitorescos, e a humanidade gosta mais de ver gestos que de ouvir razões...

in O Anticristo, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 13h25 | Comentários (0)

On Suicide

Arthur SchopenhauerAs far as I know, none but the votaries of monotheistic, that is to say, Jewish religions, look upon suicide as a crime. This is all the more striking, inasmuch as neither in the Old or in the New Testament is there to be found any prohibition or positive disapproval of it; so that religious teachers are forced to base their condemnation of suicide on philosophical grounds of their own invention. These are so very bad that writers of this kind endeavor to make up for the weakness of their arguments by the strong terms in which they express their abhorrence of the practice; in other words, they declaim against it. They tell us that suicide is the greatest piece of cowardice; that only a madman could be guilty of it, and other insipidities of the same kind; or else they make the nonsensical remark that suicide is wrong, when it is quite obvious that there is nothing in the world to which every man has a more unassailable title than to his own life and person.

On Suicide, Arthur Schopenhauer

Lido por dolphin.s às 10h20 | Comentários (0)

12 de agosto 2003

Inconsciência

Dobraram a curva do caminho e eram muitas raparigas. Vinham amando pela estrada, e o som das suas vozes era felizes [sic]. Elas não sei o que seriam. Escutei-as um tempo de longe, sem sentimento próprio. Uma amargura por elas sentiu-me no coração.
Pelo futuro delas? Pela inconsciência delas? Não directamente por elas - ou, quem sabe? talvez apenas por mim.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 19h30 | Comentários (0)

Something Ugly


Jean-Paul SartreSomeone recently told me of a lady who, when she let slip a vulgar word in a moment of irritation, excused herself by saying, "I guess I'm becoming an existentialist." Consequently, existentialism is regarded as something ugly; that is why we are said to be naturalists; and if we are, it is rather surprising that in this day and age we cause so much more alarm and scandal than does naturalism, properly so called. The kind of person who can take in his stride such a novel as Zola's The Earth is disgusted as soon as he starts reading an existentialist novel; the kind of person who is resigned to the wisdom of the ages-which is pretty sad-finds us even sadder. Yet, what can be more disillusioning than saying "true charity begins at home" or "a scoundrel will always return evil for good"?

in Existentialism and Human Emotions, Jean-Paul Sartre

Lido por dolphin.s às 10h14 | Comentários (0)

11 de agosto 2003

What is a poet?

KierkegaardWhat is a poet? An unhappy man who conceals profound anguish in his heart, but whose lips are so fashioned that when sighs and groans pass over them they sound like beautiful music. His fate resembles that of the unhappy men who were slowly roasted by a gentle fire in the tyrant Phalaris' bull—their shrieks could not reach his ear to terrify him, to him they sounded like sweet music. And people flock about the poet and say to him: do sing again; Which means, would that new sufferings tormented your soul, and: would that your lips stayed fashioned as before, for your cries would only terrify us, but your music is delightful. And the critics join them, saying: well done, thus must it be according to the laws of aesthetics. Why, to be sure, a critic resembles a poet as one pea another, the only difference being that he has no anguish in his heart and no music on his lips. Behold, therefore would I rather be a swineherd on Amager, and be understood by the swine than a poet, and misunderstood by men.

in Diapsalmata, Kierkegaard

Lido por dolphin.s às 19h00 | Comentários (0)

Para deixar de ser duvidoso, é preciso, deixar de ser

Albert CamusConfesso-lhe que me sinto cansado. Perco o fio do discurso, já não possuo aquela clareza de espírito à qual os meus amigos se compraziam em prestar homenagem. Digo amigos, aliás, por princípio. Já não tenho amigos, não tenho senão cúmplices. Em contrapartida, o seu número aumentou, são o género humano. E, no género humano, é o senhor o primeiro. O que está presente é sempre o primeiro. Como sei que não tenho amigos? É muito simples: descobri-o no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa partida, para os castigar, de certa maneira. Mas castigar quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria castigado. Compreendi que não tinha amigos. De resto, mesmo que os tivesse, não adiantaria nada. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então sim, valeria a pena. Mas a terra é obscura, meu amigo, a madeira espessa, opaca a mortalha. Os olhos da alma, sim, sem dúvida, se há uma alma e se ela tem olhos! Mas aí está, não se sabe ao certo, nunca se sabe ao certo. Senão, haveria uma saída, poderíamos enfim fazer com que nos tomassem a sério. Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas, com a nossa morte. Enquanto vivos, o nosso caso é duvidoso, não temos direito senão ao seu cepticismo. Se houvesse, então, uma única certeza de podermos gozar o espectáculo, valeria a pena provar-lhes o que eles não querem crer e deixá-los pasmados. Mas uma pessoa mata-se e que importa que eles a acreditem ou não? Não estamos presentes para recolher o seu espanto e a sua contrição, aliás efémera, assistir, enfim, segundo o sonho de cada homem, ao nosso próprio funeral. Para deixar de ser duvidoso, é preciso, muito belamente, deixar de ser.

in A Queda, Albert Camus

Lido por dolphin.s às 13h25 | Comentários (2)

A Invenção do Pecado

Friedrich NietzscheJá me compreenderam. O começo da Bíblia contém toda a psicologia do sacerdote. O sacerdote só conhece um único grande perigo: é a ciência, a salutar noção de causa e efeito. Mas a ciência só prospera, geralmente, em condições propícias; é preciso ter tempo, é preciso ter espírito de sobra, para se «adquirir conhecimentos»... «Por conseguinte, há que tornar o homem infeliz.» Foi esta, em todas as épocas, a lógica do sacerdote. E já se adivinha o que, em conformidade com esta lógica, veio, pois, ao mundo em primeiro lugar: o «pecado»... A ideia de culpa e castigo, toda a «ordem moral universal» foram inventadas contra a ciência, para que o homem não se desligasse do sacerdote... O homem não deve olhar para fora, deve olhar para dentro de si; não deve observar as coisas com inteligência e prudência, como quem está a aprender; até nem deve ver mesmo nada: deve sofrer... E deve sofrer de tal modo que, a toda a hora, tenha necessidade do sacerdote. Fora com os médicos! Um Salvador é que é preciso. A ideia da culpa e do castigo, incluindo a doutrina da «graça», da «redenção», da «remissão» — mentiras do princípio ao fim e sem qualquer realidade psicológica — foram inventadas para destruir no homem o sentido da causalidade: são o atentado contra a noção de causa e efeito! E não um atentado a soco, à facada, com a franqueza do ódio e do amor! Pelo contrário, procede dos instintos mais cobardes, mais manhosos, mais vis! Um atentado de sacerdotes! Um atentado de parasitas! Um vampirismo de pálidas sanguessugas subterrâneas!... Quando as consequência naturais de um acto já não são «naturais», antes se pensa que são provocadas por fantasmagorias conceptuais da superstição, por «Deus», por «espíritos», por «almas», e entendidas como meras consequências «morais», como recompensa, castigo, aviso, ensinamento, então está aniquilada a condição prévia do conhecimento — então cometeu-se o maior crime contra a humanidade. O pecado, diga-se uma vez mais, essa fornia por excelência de automaculação do homem, foi inventado para tornar impossíveis a ciência, a cultura, toda a elevação e distinção do ser humano; o sacerdote domina, graças à invenção do pecado.

in O Anticristo, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 10h06 | Comentários (2)

10 de agosto 2003

Melancholy

In addition to my numerous other acquaintances I have still one more intimate friend—my melancholy. In the midst of pleasure, in the midst of work, he beckons to me, calls me aside, even though I remain present bodily. My melancholy is the most faithful sweetheart I have had—no wonder that I return the love!

in Diapsalmata, Kierkegaard

Lido por dolphin.s às 21h05 | Comentários (2)

Absurdo

Fernando PessoaTornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges faloas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música riem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 12h41 | Comentários (0)

9 de agosto 2003

Espaço interior

Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser infinito, mas tirei-me a ferros de mim mesmo.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 16h09 | Comentários (0)

O Tempo

Estou, afinal, perto do mar e da sua ciência. Ninguém pode exigir ao mar que traga todos os barcos ou ao vento que encha todas as velas. De igual modo, ninguém tem o direito de me exigir que viva prisioneiro de certas funções. A minha divisa não é o dever antes de tudo, mas a vida acima de tudo. Como os outros homens, tenho direito a alguns momentos em que possa sentir-me à parte, em que possa saber que para além de pertencer a essa massa anónima chamada população mundial, sou também uma unidade autónoma.
Só nesses instantes me liberto de tudo o que na minha vida foi causa de desespero. Reconheço que o mar e o vento não deixarão de me sobreviver e que a eternidade nem sequer de mim se lembra. Por que me hei-de eu lembrar dela? A vida só é curta se a coloco no patíbulo do tempo. As suas possibilidades só são limitadas se me ponho a contar o número de palavras ou livros que a morte me dará ainda tempo de acender. Mas por que me hei-de eu pôr a contar? No fundo, o tempo de nada serve, inútil instrumento de medida que só regista o que a vida já me trouxe.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 14h08 | Comentários (2)

8 de agosto 2003

Pela boca do Mestre

Vou dar, agora, alguns exemplos do que se meteu na cabeça dessa gentinha e do que puseram na boca do seu Mestre — puras confissões de «belas almas»*.

«Se nalgum lugar as pessoas não vos receberem ou não quiserem ouvir-vos, quando saírem dessa terra, sacudam o pó das sandálias, como aviso para essa gente.» (Marcos, 6, 11) - Que evangélico!...

«Mas todo aquele que fizer cair em pecado algum destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria que atirassem essa pessoa ao mar com uma pedra de moinho atada ao pescoço.» (Marcos, 9, 42) - Que evangélico!...

«E se um dos teus olhos te faz pecar, arranca-o. É melhor entrares no Reino de Deus com um só olho do que teres os dois e ires parar ao inferno, onde os vermes não morreram e o fogo nunca se apaga.» (Marcos, 9, 47 e 48) - Não é propriamente do olho que se trata...

«Prestem bem atenção: estão aqui presentes algumas pessoas que não morrerão sem verem chegar o Reino de Deus com poder.» (Marcos, 9, 1) - Que bem mentiste, leão!...

«Se alguém quiser acompanhar-me, tem de se esquecer de se esquecer de si próprio, e levar a sua cruz para vir comigo.» (Anotação de um psicólogo: A moral cristã é refutada pelos seus porquês: as suas «razões» refutam — assim é que é cristão.) (Marcos, 8, 34)

«Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará! É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que vocês julgam os outros, e usará a mesma medida que vocês usarem para os outros.» (Mateus, 7, l e 2) - Que conceito de justiça, de «integridade» de um juiz!...

«Se amarem apenas aqueles que vos amam, que recompensa poderão esperar de Deus? Não fazem também isso os cobradores de impostos? E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer descrente faz o mesmo!» (Mateus, 5, 46 e 47) - Princípio do «amor cristão»: quer, no fim de contas, ser bem pago...

«Mas, se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.» (Mateus, 6, 15) - Muito comprometedor para o referido «Pai»...

«Procurem primeiro o Reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado.» (Mateus, 6, 33) - Todas estas coisas: ou seja, alimentação, vestuário, tudo quanto é necessário à vida. Um erro, para nos exprimirmos modestamente... Logo a seguir, Deus aparece como alfaiate, pelo menos em certos casos...

«Alegrem-se quando isso acontecer, saltem de contentamento porque no céu serão largamente recompensados. Foi assim que os antepassados dessa gente maltrataram também os profetas.» (Lucas, 6, 23) - Gentalha desavergonhada! Já se compara aos profetas...

«Não sabem que são templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, também Deus o há-de destruir a ele. De facto, o templo de Deus é santo e esse templo são vocês.» (I Coríntios, 3, 16 e 17) - Não há desprezo que baste para semelhantes propósitos...

«Não sabem que os crentes hão-de julgar o mundo? E se o mundo vai ser julgado por vocês, como é que não são capazes de resolver pequenas questões?» (I Coríntios, 6, 2) - Infelizmente, não é apenas a fala de um alienado... Esse temível impostor prossegue, palavra por palavra: «Não sabem que nós até havemos de julgar os anjos, quanto mais as coisas deste mundo?»

«Não mostrou Deus que a sabedoria deste mundo não passa de loucura? Pois, uma vez que homens, com a sua sabedoria, não reconheceram a Deus na sabedoria que ele manifestou, Deus achou por bem salvar os crentes por meio da mensagem que anunciámos e que aparentemente é uma loucura. (...) Irmãos, pensem no que eram, quando foram chamados por Deus. Não eram muitos os intelectuais, os poderosos ou os da alta sociedade. Pelo contrário, Deus escolheu aqueles que os homens tinham por ignorantes, para envergonhar os sábios, e aqueles que os homens tinham por fracos, para envergonhar os fortes. Deus escolheu os que, no mundo, não têm importância nem valor, para deitar abaixo os que parecem importantes. Assim ninguém se pode orgulhar diante de Deus.» (I Coríntios, l, 20 e seguintes) Para compreender esta passagem, um testemunho de primeira ordem para o estudo da psicologia de toda a moral de tchandala, leia-se a primeira dissertação da minha Para a Genealogia da Moral: nela foi pela primeira vez trazido a lume o antagonismo de uma moral nobre e de uma moral de tchandala, nascida do ressentimento e da vingança impotente. Paulo foi o maior de todos os apóstolos da vingança...


in O Anticristo, Nietzsche

* Para a tradução das citações bíblicas foi utilizada a Bíblia Sagrada (Franciscanos Capuchinhos) da Difusora Bíblica, Lisboa, 1993. (N. do E.)

Lido por dolphin.s às 13h50 | Comentários (2)

7 de agosto 2003

O Homem não é mais do que aquilo que faz de si mesmo

Jean-Paul SartreMan is nothing else but what he makes of himself. Such is the first principle of existentialism. It is also what is called subjectivity, the name we are labeled with when charges are brought against us. But what do we mean by this, if not that man has a greater dignity than a stone or table? For we mean that man first exists, that is, that man first of all is the being who hurls himself toward a future and who is conscious of imagining himself as being in the future. Man is at the start a plan which is aware of itself, rather than a patch of moss, a piece of garbage, or a cauliflower nothing exists prior to this plan; there is nothing in heaven; man will be what he will have planned to be. Not what he will want to be. Because by the word "will" we generally mean a conscious decision, which is subsequent to what we have already made of ourselves. I may want to belong to a political party, write a book, get married; but all that is only a manifestation of an earlier, more spontaneous choice that is called "will." But if existence really does precede essence, man is responsible for what he is. Thus, existentialism's first move is to make every man aware of what he is and to make the full responsibility of his existence rest on him.


in Existentialism and Human Emotions, Jean-Paul Sartre

Lido por dolphin.s às 16h00 | Comentários (3)

A única prova de liberdade humana

Outros homens têm outros mestres. A mim o talento torna-me escravo ao ponto de não ousar empregá-lo - tal é o medo de o ter perdido. Mais: subjugo-me de tal modo ao meu nome, que mal me atrevo a escrever uma linha, não vá esta manchá-lo. E, quando se instala a depressão, é dela que sou também escravo. O meu maior desejo é retê-la. O meu prazer mais forte, sentir que tudo o que valho residia no que julgo ter perdido: essa capacidade de gerar beleza a partir do que é em mim desespero, desgosto e fraqueza. Com amargo prazer desejo ver ruir o que arquitectei e ver-me, eu também, envolto na neve do esquecimento. Mas quê? A depressão é uma boneca russa, e na última boneca estão a faca, a lâmina de barbear, o veneno, as águas profundas e o salto para um grande abismo. De todos esses instrumentos de morte me torno escravo. Perseguem-me como cães, a não ser que o cão seja apenas eu. Parece-me ser o suicídio a única prova de liberdade humana.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 10h04 | Comentários (1)

6 de agosto 2003

Só a morte desperta os nossos sentimentos

Albert CamusSabe, ouvi falar de um homem cujo amigo tinha sido preso e que todas as noites se deitava no chão do seu quarto para não gozar de um conforto de que havia sido privado aquele que ele amava. Quem, meu caro senhor, quem se deitará no chão por nós? Se eu próprio seria capaz? Escute, gostaria de ser, sê-lo-ei. Sim, seremos todos capazes, um dia, e será a salvação. Mas não é fácil, porque a amizade é distraída, ou, pelo menos, impotente. O que ela quer não pode. Acaso, no fim de contas, não o quererá bastante? Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós durante a vida inteira. Mas sabe porque somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, arrumar a homenagem entre o copo de água e uma gentil amante, nas horas vagas, em suma. Se algo nos impusessem, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto de fresco que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós próprios.

in A Queda, Albert Camus

Lido por dolphin.s às 13h30 | Comentários (2)

Mania das Grandezas

Friedrich NietzscheNão nos devemos deixar enganar: «Não julgueis!», dizem eles, mas mandam para o Inferno tudo quanto se lhes atravessa no caminho. Enquanto põem Deus a julgar, julgam eles próprios; enquanto enaltecem Deus, enaltecem-se a si próprios; enquanto exigem as virtudes de que, exactamente, são capazes — ou melhor, que necessitam para conseguirem manter a sua supremacia —, dão a si próprios as grandes aparências de uma luta pela virtude, de um combate pelo império da virtude. «Vivemos, morremos, sacrificamo-nos pelo Bem» (ou «a Verdade», «a Luz», o «Reino de Deus»): em verdade, fazem aquilo que não podem deixar de fazer. Na medida em que se impõem à maneira dos sonsos, em que ficam ao canto e vegetam vagamente na sombra, fazem disso um dever: é como dever que aparece a sua vida de humildade, e, como humildade, é mais uma prova de devoção... Ah! Essa humilde, casta e misericordiosa forma de falsidade! «É a própria virtude que deve dar testemunho por nós»... Há que ler os Evangelhos como livros de sedução com a moral: a moral foi requisitada por essa gentinha, que sabia o que a moral representa! É com a moral que melhor se leva a humanidade pelo beicinho! A realidade é que, neste caso, a mais consciente presunção dos eleitos finge ser modéstia: puseram-se a si próprios (a «comunidade», «os bons e os justos»), de uma vez para sempre, a um lado, o da «verdade», e o resto («o mundo») do outro lado... Esta foi a forma mais funesta de mania das grandezas que houve no mundo, até hoje: uns abortozinhos de uns hipócritas e mentirosos começaram a reclamar para si as noções de «Deus», «verdade», «luz», «espírito», «amor», «sabedoria», «vida», por assim dizer como se fossem sinónimos de si próprios, para, assim, separarem deles «o mundo»; uns judeuzinhos no superlativo, prontos para dar entrada em qualquer tipo de manicómio, inverteram a generalidade dos valores em função de si próprios, corno se só o «cristão» fosse o sentido, o sal, a medida e também o juízo final de todo o resto da humanidade...

in O Anticristo, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 10h19 | Comentários (0)

5 de agosto 2003

O homem, esse glorioso animal


O homem, esse glorioso animal Que dizer das delícias de um técnico à la crème, de um padre de aldeia, de uma espetada de frades, de beatas raladas com cebolinhas, de um convalescente em puré? O homem, esse glorioso animal que se entrega inteiramente ao seu semelhante, da carne à pele, passando pelo sangue, a gordura, as tripas, os pés, o fígado, vê-se frequentemente rejeitado pelos seus que preferem outras espécies. Talvez seja o começo do seu declínio.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor


Lido por dolphin.s às 19h07 | Comentários (2)

Ambições

Tive grandes ambições e sonhos dilatados - mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferencia é a força de conseguir ou o destino de se conseguir connosco.
Em sonhos sou igual ao moço de fretes e à costureira. Só me distingue deles o saber escrever. Sim, é um acto, uma realidade minha que me diferença deles. Na alma sou seu igual.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 13h21 | Comentários (0)

hoje...

São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 13h19 | Comentários (1)

4 de agosto 2003

Espectáculo para Deuses

Volto atrás e vou contar a verdadeira história do cristianismo. Só a palavra «cristianismo» já é um equívoco: no fundo, houve apenas um cristão, e esse morreu na cruz. O «Evangelho» morreu na cruz. Aquilo a que, a partir desse momento, se chamou «Evangelho» era já a antítese daquilo que ele vivera: uma «má nova», um Disangelho*. É falso até ao absurdo ver numa dada «crença», porventura a crença na redenção por Cristo, o distintivo do cristão: somente a prática cristã, uma vida tal como a viveu aquele que morreu na cruz, é que é cristianismo... Ainda hoje, uma vida semelhante é possível, para certas pessoas até é necessária: o cristianismo autêntico, originário, será possível em todas as épocas... Não um crer, mas um fazer, sobretudo, um não-fazer-muita-coisa, um ser diferente... Os estados de consciência, qualquer crença, o facto, por exemplo, de se tomar algo por verdadeiro — todos os psicólogos o sabem —, são até perfeitamente indiferentes e de quinta ordem ante o valor dos instintos: falando em termos mais rigorosos, toda a noção de causalidade espiritual é falsa. Reduzir o ser-se cristão, a qualidade de cristão, ao facto de se ter algo por verdadeiro, a uma mera fenomenalidade da consciência, corresponde a negar a identidade cristã. De facto, nunca houve cristãos nenhuns. O «cristão», aquilo que desde há dois milénios se chama o «cristão», é apenas um mal-entendido psicológico acerca de si próprio. Vendo melhor, nele dominavam, apesar de toda a «fé», unicamente os instintos — e que instintos! A «fé» foi em todos os tempos (por exemplo, em Lutero) apenas uma capa, um subterfúgio, uma cortina, atrás da qual os instintos jogavam o seu jogo — ou seja, uma avisada cegueira perante o domínio de certos instintos... A «fé» — já eu lhe chamei a autêntica argúcia cristã: falou-se sempre de «fé» e agiu-se sempre por instinto... No universo imaginário do cristão não existe nada que toque sequer na realidade: pelo contrário, reconhecemos no ódio instintivo contra toda a realidade o elemento motor, o único elemento motor na raiz do cristianismo. Que resulta daí? Que também em termos psicológicos, neste caso, o erro é radical, isto é, determinante da essência, isto é, substância. Retire-se dali um só conceito, ponha-se uma só realidade em seu lugar... e todo o cristianismo rebola para o nada! Visto de cima, esse facto estranhíssimo de uma religião não só condicionada por erros, mas também inventiva e até genial unicamente em erros perniciosos, unicamente em erros que envenenam a vida e o coração, não deixa de ser um espectáculo para deuses — para aquelas divindades que são ao mesmo tempo filósofas e que eu encontrei, por exemplo, nos célebres diálogos em Naxos. No momento em que o asco as deixa (e a nós também), ficam gratas pelo espectáculo que o cristão lhes oferece: talvez o astrozinho insignificante, que se chama «Terra», só devido a esse caso curioso mereça um olhar divino, um interesse divino... Pois não subestimemos o cristão: o cristão, falso até à inocência, está muito acima do macaco — há uma conhecida teoria das origens que, quando aplicada a cristãos, se transforma em mera amabilidade....

in O Anticristo, Nietzsche

* Do grego dys-angélion, má nova, notícia infausta

Lido por dolphin.s às 13h17 | Comentários (0)

Liberdade e Escravidão

Stig DagermanMas a liberdade começa na escravidão e a soberania na dependência. O sinal mais vivo da servidão é o medo de viver. O definitivo sinal de liberdade é o facto de o medo deixar espaço ao gozo tranquilo da independência.
Dir-se-á que preciso de ser dependente para conhecer o gozo de ser livre! É certamente verdade. À luz dos meus actos, percebo que toda a minha vida parece não ter tido por objectivo senão construir o meu próprio infortúnio: sempre me escravizou o que devia tornar-me livre.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 10h14 | Comentários (0)

3 de agosto 2003

Amizade

Albert CamusNunca teve uma súbita necessidade de simpatia, de auxílio, de amizade? Sim, com certeza. Eu aprendi a contentar-me com a simpatia. Encontra-se mais facilmente e, depois, não nos impõe nenhum compromisso. «Creia na minha simpatia», no discurso interior precede imediatamente, «e agora ocupemo-nos de outra coisa». É um sentimento de presidente do Conselho: obtém se muito barato, depois das catástrofes. A amizade é menos simples. A sua aquisição é longa e difícil, mas, quando se obtém, já não há meio de nos desembaraçarmos dela, temos de lhe fazer frente. Sobretudo, não acredite que os seus amigos lhe telefonarão todas as noites, como deviam, para saber se não é precisamente essa a noite em que decidiu suicidar-se, ou, mais simplesmente, se não tem necessidade de companhia, se não está com vontade de sair. Oh, não, se telefonarem, esteja descansado, será na noite em que já não está só e em que a vida é bela. Quanto ao suicídio, a isso de preferência o empurrariam, em virtude dos deveres para consigo próprio, segundo eles. Deus nos livre, caro senhor, de sermos colocados muito alto pelos nossos amigos! Quanto àqueles cuja função é amar-nos, quero dizer, os pais, os parentes por afinidade (que expressão esta!), isso é outra cantiga. Têm a palavra necessária, sim, é verdade que a têm, mas é mais a palavra-bala; telefonam como quem dispara uma carabina. E acertam no alvo. Ah!, os Bazaines!*

in A Queda, Albert Camus

* - O autor deve referir-se ao marechal François-Achille Bazaine, o qual, como comandante das tropas francesas no México, dera, em 11 de Outubro de 1865, ordem de abater os prisioneiros. (N. do T.)

Lido por dolphin.s às 11h23 | Comentários (2)

2 de agosto 2003

A obra que não chega a ser

Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 16h11 | Comentários (1)

Desprezo pelo Homem

Friedrich NietzscheChegado a este ponto, não reprimo um suspiro. Há dias em que me atormenta um sentimento mais negro que a mais negra melancolia: o desprezo pelo homem. E para não deixar dúvidas quanto ao que desprezo, a quem desprezo: é o homem de hoje, o homem de que sou fatidicamente contemporâneo. O homem de hoje - o seu hálito impuro sufoca-me... Em relação a coisas passadas sou, como todos os adeptos do saber, de uma grande tolerância, isto é, de um magnânimo autodomínio: percorro o universo de manicómio de milénios inteiros, quer se chame «cristianismo», «fé cristã» ou «Igreja Cristã», com uma sombria precaução - e abstenho-me de tornar a humanidade responsável pelas suas doenças mentais. Mas o meu sentimento muda, rompe-se, assim que entro nos tempos modernos, no nosso tempo. O nosso tempo é ciente... O que, outrora, era apenas mórbido, hoje, tornou-se indecoroso - é indecoroso, actualmente, ser cristão. E aqui começa o meu asco. Olho à minha volta: já não resta nem uma palavra daquilo que, em tempos, se chamava «verdade»; já não suportamos sequer que um sacerdote tão-somente pronuncie a palavra «verdade». Mesmo que se tenha apenas a mais modesta pretensão à rectidão intelectual, tem de se saber, hoje, que um teólogo, um padre, um papa, com cada frase que diz, não só erra, mas mente - e que já não lhe é possível mentir por «inocência» nem por «ignorância». Até o sacerdote sabe, tal qual toda a gente sabe, que já não há «Deus», nem «pecador», nem «Redentor», que «livre arbítrio» e «ordem moral universal» são mentiras - a seriedade, o profundo autodomínio, do espiríto já não permitem a ninguém não ser sabedor a esse respeito... Todas as concepções da Igreja estão reconhecidas como aquilo que são, como a mais maldosa fabricação de moeda falsa que há, com a finalidade de desvalorizar a Natureza, os valores naturais; o próprio sacerdote está reconhecido como aquilo que é, como a espécie mais perigosa de parasita, como a autêntica aranha venenosa da vida... Hoje, sabemos, a nossa consciência sabe o que valem essas sinistras invenções dos sacerdotes e da Igreja, para que serviram as concepções com as quais se atingiu esse estado de auto-aviltamento da humanidade, um espectáculo susceptível de causar repugnância - as noções de «Além», de «juízo final», de «imortalidade da alma», de «alma» até, são instrumentos de tortura, são sistemas de crueldade, graças aos quais o sacerdote passou a dominar e continuou a dominar... Toda a gente sabe isto e, não obstante, continua tudo na mesma. Para onde foi o derradeiro sentimento de decoro, de respeito por si próprio, se até os nossos estadistas, um género de homens aliás muito despreocupados e anticristãos de cima a baixo na acção. ainda hoje se intitulam cristãos e vão à comunhão?... Um jovem príncipe à frente dos seus regimentos, magnífico como expressão de egoísmo e da presunção do seu poco - mas, sem qualquer pudor, confessando-se cristão!... A quem nega, pois, o cristianismo? A que chama ele «mundo»? Ao ser soldado, ao ser juiz, ao ser patriota; ao facto de alguém se defender, de prezar a sua honra, de querer o que lhe traz vantagem, de ser orgulhoso... Qualquer prática quotidiana, qualquer instinto, qualquer juízo de valor que se torne acto são, actualmente, anticristãos: que monstro de falsidade há-de ser o homem moderno, para que, apesar disso, não se envergonhe de ainda se chamar cristão!

in O Anticristo, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 13h06 | Comentários (0)

1 de agosto 2003

Sufocar

Várias vezes, no decurso da minha vida opressa por circunstância, me tem sucedido, quando quero libertar-me de qualquer grupo delas, ver-me subitamente cercado por outras da mesma ordem, como se houvesse definidamente uma inimizade contra mim na teia incerta das coisas. Arranco do pescoço uma mão que me sufoca. Vejo que na mão, com que a essa arranquei, me veio preso um laço que me caiu no pescoço com o gesto de libertação. Afasto, com cuidado, o laço, e é com as próprias mãos que me quase estrangulo.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 13h30 | Comentários (0)

Cabeça de Patrão em Puré


Cabeças de PatrãoPelo fim do ano, antes do Natal, faz-se uma visitinha ao patrão e aproveita-se para matá-lo como a um porco, quer dizer, tendo o cuidado de sangrá-lo demoradamente até a carne dele ficar bem branca. Uma vez a cabeça cortada a preceito, raspa-se e limpa-se. Em seguida, mete-se em água a ferver durante cerca de meia hora, e depois tira-se e arrefece-se em água fria. É espantoso como nessa altura a cabeça do patrão já está mudada. Os cabelos embranqueceram e o olhar, embora sempre malicioso, tornou-se ligeiramente sonhador. Estamos apenas no começo, prossigamos. Extrai-se o maxilar superior até aos olhos, desossa-se o alto da cabeça, procurando aproximar as carnes para que a cabeça conserve a sua forma. Terminada esta operação, esfrega-se a cabeça com champô e envolve-se num pano amarrado com uma guita. Para a cozedura, largam-se três colheradas de farinha na água e acrescenta-se um ramo de flores, manteiga, sal e pimenta. Mete-se a cabeça nesta preparação e deixa-se cozer, tendo o cuidado de raspá-la de vez em quando; em seguida, retira-se a cabeça e deixa-se cair numa selha cheia de puré, com cerca de metro e meio de altura, a fim de não apanhar frio nas orelhas. Trata-se de um prato monumental que deve ser reservado para os grandes repastos familiares.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor

Lido por dolphin.s às 10h05 | Comentários (0)

31 de julho 2003

Formas de Consolo

Stig DagermanNão possuo filosofia em que possa mover-me como o peixe na água ou o pássaro no céu. Tudo em mim é um duelo, uma luta travada a cada minuto da vida entre falsas e verdadeiras formas de consolo. Umas não fazem senão aumentar-me a impotência e tornar-me mais fundo o desespero, outras são fonte de temporária libertação. Falsas e verdadeiras! Deveria antes dizer verdadeira, pois só existe uma consolação verdadeiramente real: a que me diz que sou um homem livre, um indivíduo inviolável, ser soberano no interior dos seus limites.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 18h22 | Comentários (2)

Da vida...

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 13h45 | Comentários (4)

Rebelião?

Não vejo contra quê seria dirigida a rebelião de que Jesus foi considerado, com razão ou sem ela, como iniciador, a não ser contra a Igreja Judaica - tomando «Igreja» precisamente no sentido em que nós, hoje, tomamos a palavra. Era uma rebelião contra «os bons e os justos», contra a hierarquia da sociedade - não contra a respectiva corrupção, mas contra a casta, o privilégio, a ordem, a fórmula; era a descrença nos «homens superiores», o não proferido contra tudo o que fosse sacerdote e teólogo. Mas a hierarquia, que assim foi posta em causa, ainda que apenas momentaneamente, era a estacaria sobre a qual o povo judeu, no meio da «água», ainda conseguia subsistir - era a sua derradeira possibilidade, penosamente conquistada, de permanecer, o resíduo da sua existência política peculiar: um ataque contra ela era um ataque contra o mais profundo instinto nacional, contra a vontade de viver de um povo, que é a mais tenaz que jamais houve na Terra. Esse santo anarquista que incitava o povo miúdo, os excluídos e «pecadores», os tchandala no seio do judaísmo, a contradizer a ordem vigente - com uma linguagem que, caso os Evangelhos fossem de fiar, ainda hoje levaria à Sibéria - era um criminoso político, tanto quanto os criminosos políticos eram possíveis numa comunidade absurdamente apolítica. Isso levou-o à cruz. Morreu pela sua própria culpa - não há qualquer razão para se pretender, mesmo que isso tenha sido afirmado muitas vezes, que tivesse morrido pelas culpas dos outros.

in O Anticristo, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 10h20 | Comentários (0)

30 de julho 2003

Inocente em Maus Lençóis


Cozinha CanibalPegue-se num inocente, despoje-se, abuse-se dele, dê-se-lhe pontapés, mate-se, corte-se em bocados de igual grossura e meta-se na panela com bastante manteiga, sal, pimenta, especiarias, alhos e salsa picada. Depois de tudo bem refogado, acrescente-se um copo de vinho branco e um pouco de caldo. Quando o inocente começar a ferver, tire-se do lume e sirva-se em maus lençóis. Para comer discretamente enquanto se vai falando de outra pessoa qualquer.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor

Lido por dolphin.s às 10h07 | Comentários (1)

29 de julho 2003

O Sacerdote

Friedrich NietzscheFalseado o conceito de Deus, falseada a concepção da moral - o clero judaico não se ficou por aí. Não era possível fazer uso de toda a história de Israel: fora com ela! Esses sacerdotes realizaram aquele prodígio de falsificação de que uma boa parte da Bíblia nos proporciona os respectivos documentos comprovativos: com incomparável desdém por toda a tradição, por toda a realidade histórica, traduziram para linguagem religiosa o seu próprio passado nacional, isto é, fizeram dele um estúpido mecanismo terapêutico de pecado contra Jeová e castigo, de devoção para com Jeová e recompensa. Sentiríamos muito mais dolorosamente este ignominioso acto de falsificação da história se a interpretação histórica eclesiástica, durante milénios, não nos tivesse tornado quase insensíveis às exigências da probidade in historicis*. E que a Igreja foi secundada pelos filósofos: a mentira da «ordem moral universal»? Que existe, de uma vez para sempre, vontade de Deus, a qual dita o que o homem tem de fazer e de não fazer; que o valor de um povo ou de um indivíduo se mede consoante for muito ou pouco obedecida a vontade de Deus; que nos destinos de um povo ou de um indivíduos a vontade de Deus se mostra soberana, ou seja, castigadora e recompensadora, conforme o grau de obediência. A realidade, em lugar desta mentira lastimável, é a seguinte: um género de homem parasítico, que só prospera à custa de todas as formas sãs da vida, o sacerdote, faz um uso abusivo do nome de Deus: chama «Reino de Deus» a uma situação da sociedade, em que o sacerdote determina o valor das coisas; chama «vontade de Deus» aos meios, graças aos quais se alcança ou se mantém uma tal situação; com insensível cinismo, avalia os povos, as épocas, os indivíduos, consoante sejam proveitosos ou avessos à supremacia sacerdotal. Há que vê-los trabalhar: nas mãos dos sacerdotes judeus, a grande época na história de Israel tornou-se uma época de corrupção; o exílio, o longo infortúnio, transformou-se numa eterna punição pela grande época - uma época em que o sacerdote ainda não era nada. Fizeram das figuras poderosas e muito livres da história de Israel, consoante a necessidade, ou míseros sonsos e hipócritas ou «ímpios», simplificaram a psicologia de todos os grandes acontecimentos, reduzindo-a à fórmula idiota da «obediência ou desobediência a Deus». Um passo mais: a «vontade de Deus» (isto é, as condições para a conservação do poders sacerdotal) tem que ser conhecida - ora, para este efeito, fazia falta uma «revelação». Falando sem rodeios: torna-se necessária uma grande falsificação literária, e descobre-se uma «Escritura Sagrada», que é tornada pública com toda a pompa hierática, com dias de penitência e lamentações pela prolongada situação de «pecado». A «vontade de Deus» há muito que estava assente; toda a desgraça consistiu em terem-se afastado da «Escritura Sagrada»... Já a Moisés a «vontade de Deus» havia sido revelada... Que acontecera? O sacerdote havia formulado, de uma vez por todas, com rigor e pedantismo, o que queria ter, «o que é a vontade de Deus», incluindo as grandes e pequenas contribuições que se lhe teria que pagar (sem esquece os pedaços de carne mais saborosos, pois o sacerdote é indispensável em toda a parte; em todas as ocorrências naturais da vida, aquando do nascimento, do casamento, da doença, da morte, para não falar sequer do sacrfício (do «repasto»), aparece o santo parasita para as desnaturar - na sua linguagem: para as «santificar»... Pois há que entender isto: todo o costume natural, toda a instituição natural, (Estado, poder judicial, matrimónio, assistência aos doentes e aos pobres), toda a exigência inspirada pelo instinto de vida, em suma, tudo quanto tenha o seu valor em si, é por princípio desvalorizado, tornado contrário ao seu valor pelo parasitismo do sacerdote (ou da «ordem moral universal»), e carece, posteriormente, de uma sanção - é preciso um poder concessor de valor, o qual, negando ao caso o carácter natural, só por isso mesmo é que cria um valor... O sacerdote desvaloriza, dessacraliza a Natureza: aliás, é a esse preço que ele subsiste, A desobediência a Deus, isto é, ao sacerdote, à «Lei», recebe, então o nome de «pecado»; os remédios para alguém «se reconciliar com Deus» outra vez são, como é próprio, remédios que apenas garantem ainda mais radicalmente a sua sujeição ao sacerdote; só o sacerdote «redime»... Em termos psicológicos, os «pedaços» tornam-se indispensáveis em qualquer sociedade com organização sacerdotal: são eles os verdadeiros pontos de apoio do poder, pois o sacerdote vive dos pecados e necessita que se «peque»... Princípio supremo: «Deus perdoa àquele que faz penitência» - em linguagem clara: àquele que se submete ao sacerdote.

in O Anticristo, Nietzsche

* em questões históricas

Lido por dolphin.s às 18h11 | Comentários (0)

Tocar o Coração do Mundo

Stig DagermanDecido encher todas as minhas páginas em branco com as mais belas combinações de palavras que seja capaz de engendrar. E depois, porque quero assegurar-me que a vida não é absurda e não me encontro só sobre a terra, reúno-as todas num livro e ofereço-o ao mundo. Este retribui-me com a riqueza, a glória e o silêncio. Mas não sei que fazer com este dinheiro, nem que prazer tirar de contribuir para o progresso da literatura, pois só desejo o que jamais obterei - a certeza de que as minhas palavras tocaram o coração do mundo. É então que me pergunto o que vem a ser o meu talento, e descubro que não passa de uma forma de consolar da solidão. Risível consolo - que apenas me torna cinco vezes mais pesada a solidão.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 10h13 | Comentários (0)

Arte


Fernando PessoaA arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas í toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Lido por dolphin.s às 00h15 | Comentários (0)

28 de julho 2003

Subjugados

No cristianismo, os instintos dos subjugados e dos oprimidos aparecem em primeiro plano: são as castas mais baixas que procuram nele a sua salvação. Aqui pratica-se como ocupação, como remédio contra o aborrecimento, a casuística do pecado, a autocrítica, a inquisição da consciência; aqui mantém-se constantemente (através da oração) a afeição por um poderoso, chamado «Deus»; aqui, o mais elevado é tido por inacessível, por dádiva, por «graça». Aqui, falta também o que é público; o esconderijo, o sítio escuro são cristãos. Aqui, o corpo é desprezado, a higiene rejeitada como sensualidade; a Igreja opõe-se mesmo ao asseio (a primeira medida cristã, após a expulsão dos Mouros, foi o encerramento dos banhos públicos, dos quais só Córdova possuía duzentos e setenta). Cristão é um certo sentido de crueldade contra si próprio e contra os outros; o ódio contra os que pensam de outra maneira; a vontade de perseguir. Ideias lúgubres e emocionantes encontram-se em primeiro plano; as condições psíquicas mais procuradas, designadas com os nomes mais latos, são epileptóides; a dieta é escolhida de modo a favorecer manifestações mórbidas e sobreexcitar os nervos. Cristã é a hostilidade mortal aos senhores do mundo, aos «nobres» - e, ao mesmo tempo, uma competição indirecta, dissimulada (deixa-se-lhes o «corpo», apenas se quer a «alma»...). Cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a libertinagem do espírito; cristão é o ódio aos sentidos, aos prazeres dos sentidos, ao prazer em geral...


in O Anticristo, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 13h51 | Comentários (2)

The hog was immune

The CaveIn mah infant years and so through to mah teens - even as a young man ah sat nor in judgement of mah fellow man. But hear this. Even as ah dangled from one pinched empurpled ear, a wincing woeborn puppet surrendered up to the pedophagic freak show which mah mother would so sadistically invoke - even then, no more than a mite, not even a lustrum of life's waters passed - ah, Euchrid Eucrow, harboured such a hate for that sick fucken bitch that ah felt mah glands fill with a deadly venom that polluted mah bodily secretions - it did. Ah emitted a lethal catarrh - black spit, foul and deadly.
Ah was corrupted by hate. Ah was montruous. Ah was diabolical, deadlier than a rattlesnake, and while the sow slept, the snake - it struck! Listen. Once while Her Slutness lay sprawled in her armchair, ah slid up to her and deposited whole mouthfuls of warm, morbid sputum into her bottle. Then ah left the house, making sure ah woke Her Bitchship with a slam of the door. Ah slipped around to the south wall, pulled the spigot from the spy-hole, and put mah eye up to the hole - mah black little heart romping in its cage, happy as hell.
Ah watched her down the killer elixir in one long swig. Mah eye went cold. She belched ominously and shut her eyes like before. She began to snore. A minute passed and ah fell into a sickly sweat. Mah mouth filled with foul and acrid rheum.
Ah slammed the spigot back in its hole and hissed.
The hog was immune.
Utterly shitted ah gobbed at mah shadow and watched an onion-weed curl and die on mah left shoulder. [...]


in And the Ass Saw The Angel, Nick Cave

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23 de julho 2003

Um Consolo

Noites há, em que, sentado à lareira, no quarto mais resguardado de todos, sinto subitamente a morte cercar-me: no fogo, nos objectos ponteagudos que me rodeiam, no peso do tecto e na massa das paredes; na água, na neve, no calor, no meu sangue. Pergunto-me então o que vem a ser a nossa muito humana sensação de segurança, e percebo que não passa de um consolo para o facto de a morte ser o há demais próximo à vida. Pobre consolo que não cessa de nos recordar o que desejaria fazer-nos esquecer!

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 17h53 | Comentários (0)

22 de julho 2003

Espíritos livres

Friedrich NietzscheNão subestimemos isto: nós próprios, que somos espíritos livres, já somos uma «transmutação de todos os valores», uma declaração de guerra e de vitória em pessoa a todos os velhos conceitos de «verdadeiro» e «não verdadeiro». Os conhecimentos mais valiosos são os que mais tardiamente se acham; ora, os conhecimentos mais valiosos são os métodos. Todos os métodos, todas as condições prévias do nosso actual espírito científico tiveram contra si, durante milénios, o mais profundo desprezo: por sua causa, era-se excluído do trato com pessoas «honestas», pois passava-se por «inimigo de Deus», por desprezador da verdade, por «possesso». Enquanto carácter científico, era-se um tchandal*... Tivemos contra nós todo o pathos da humanidade, a sua concepção do que deve ser a verdade, do que deve ser o serviço da verdade: todo o «tu deves» foi, até ao presente, dirigido contra nós... Os nossos objectos, as nossas práticas, a nossa maneira silenciosa, cautelosa, desconfiada - tudo isso lhe parecia perfeitamente indigno e desprezível. Por último, poder-se-ia perguntar com alguma razão, se não foi efectivamente um gosto estético que manteve a humanidade numa tão longa cegueira: ela exigia da verdade um efeito pitoresco, exigia igualmente do homem de ciência que este produzisse um forte efeito sobre os sentidos, Foi a nossa modéstia que, durante mais tempo, lhe desagradou... Oh! Como eles adivinharam isso, esses perus de Deus!...

in O Anticristo, Nietzsche

* membro da classe inferior na sociedade de castas hindu


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21 de julho 2003

Necessidade de Consolo

Stig DagermanSem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo obre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.

in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 10h10 | Comentários (0)

19 de julho 2003

A Verdade e a Crença

O cristianismo tem no seu fundo algumas subtilezas que são próprias do Oriente. Antes de mais nada, sabe que é em si inteiramente diferente que uma dada coisa seja verdadeira, mas que esta é da máxima importância contanto que seja tida como verdadeira. A verdade e a crença em que algo seja verdadeiro: dois mundos de interesses completamente divergentes, quase dois universos antagónicos, pois chega-se a um e a outro por caminhos diferentes. Ser sabedor a este respeito... quase basta para ser sábio no Oriente: assim o entendem os brâmanes, assim o entende Platão, bem como todo o discípulo da sapiência esotérica. Se, por exemplo, o facto de alguém se julgar liberto do pecado lhe traz alguma felicidade, pois não é preciso, como condição prévia para tanto, que o homem seja pecador, mas que se sinta pecador. Mas se, em geral, o que é necessário, antes de mais nada, é crença, então há que lançar o descrédito sobre a razão, o conhecimento, a pesquisa: o caminho para a verdade transforma-se em caminho proibido. A forte esperança é um estimulante muito maior da vida de qualquer ventura particular que realmente se concretiza. Tem que se manter de pé aqueles que sofrem, graças a uma esperança que não pode ser contradita por nenhuma realidade - e que não seja suprimida, ao ter cumprimento: uma esperança posta no Além. (Justamente por causa dessa capacidade de entreter o infeliz, era a esperança tida entre os Gregos como o mal dos males, como o mal autenticamente insidioso: foi ele que ficou na caixa de Pandora.) Para que o amor seja possível, Deus tem de ser uma pessoa; para que os instintos mais baixos possam também manifestar-se, Deus tem de ser jovem. Para o fervor das mulheres, há-de pôr-se em primeiro plano um belo santo; para o dos homens, uma Nossa Senhora. Isto, pressupondo que o cristianismo se queira impor num terreno, onde cultos de Afrodite ou de Adónis tenham já definido a concepção do culto. A exigência da castidade reforça a veemência e a interioridade do instinto religioso, tornando o culto mais quente, mais apaixonado, mais inspirado. O amor é aquela condição em que o ser humano mais vê as coisas tal como elas não são. É aí que a capacidade ilusória está no auge, do mesmo modo que a faculdade de edulcorar, de glorificar. Suporta-se no amor mais do que de costume, tolera-se tudo. Tratava-se, pois, de inventar uma religião em que se possa amar: assim, passa-se por cima do que há de pior na vida - até já nem sequer se dá por isso. Basta quanto às três virtudes cristãs: fé, esperança, amor, a que eu chamo as três espertezas cristãs. O budismo é demasiado tardio, demasiado positivista, para ainda ser esperto desta maneira.

in O Anticristo, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 14h23 | Comentários (0)

17 de julho 2003

O Nome de Deus


José SaramagoEntre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d'Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus?


in In Nomine Dei, José Saramago

Lido por dolphin.s às 13h40 | Comentários (0)

16 de julho 2003

You

Sarah KaneAnd I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy's and talk about the day and type your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you're sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the the programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breasts your arse your

and sit on the steps smoking till your neighbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you're late and be amazed when you're early and give you sunflowers and go to your party and dance till I'm black and be sorry when I'm wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I'd known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you're angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you're gorgeous and hug you when you're anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I'm next to you and whimper when I'm not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don't and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I'm rejecting you when I'm not rejecting you and wonder how you could think I'd ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don't believe me and have a feeling so deep I can't find words for it and want to buy you a kitten I'd get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid of the roaches and buy you presents you don't want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don't mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it's empty without you and want want you want and think I'm losing myself but know I'm safe with you and tell you the worst of me and try to give you the best of me because you don't deserve any less and answer your questions when I'd rather not and tell you the truth when I really dont' want to and try to be honest because I know you prefer it and think it's all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it's a beautiful learning to know you and well worth the effort and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overwhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you.


in Crave, Sarah Kane

Lido por dolphin.s às 10h05 | Comentários (0)

15 de julho 2003

Deadtime


Nick CaveHave ah told you about the hellish fright of Deadtime? Do you know about the Bloodings? The Chills? Mere fragments of rushing life retained... like handfuls of wind. Time gone haywire. Night and day, the following and the followed, pitch their shining skyglobes from horizon to horizon. Sun serves, moon returns, searing time's cope with their mad flight, back and forth, to and fro, dark and light, like a hypnotist's watch swinging in the fob of heaven - O yes, like the pendular action of a naked bulb, hung and set aswing in an empty room. An hour! A day! Gone! Snuck past! Escaped unsullied, unsalvageable, never to be lived. All in the blinking of an eye. Deadtime! Deadtime! Where do you go?! Who uses you, if not me?! The killers and the killed. Murdering of mah lifetime - mah living-time. The agony-rack of mah day's passing and the slow method of its crank and shaft, the endless chatter of cogs ticking away the minutes, the bonecrack count and seconds of raw pain - the insufferable stretch of Time. Time lived. But what of all the deadtime, all the days unaccounted for? Where do they go?


in And the Ass saw the Angel, Nick Cave

Lido por dolphin.s às 13h55 | Comentários (0)

14 de julho 2003

Conceito do Belo

O «belo em si» é unicamente uma palavra, não um conceito. No belo, o homem põe-se como medida da perfeição; em casos selectos, adora-se a si mesmo. Uma espécie não pode senão deste modo dizer sim apenas a si mesma. O seu instinto mais ínfimo, o de autoconservação e de auto-expansão, irradia ainda mais em tais sublimidades. O homem crê que o próprio mundo está repleto de beleza - esquece-se de si como causa de tal beleza. Unicamente a si se presenteou com a beleza, com uma beleza, ai, muito humana, demasiado humana... No fundo, o homem espelha-se nas coisas, considera belo tudo o que lhe devolve a sua imagem: o juízo «belo» é a vaidade da sua espécie... Ao céptico pode uma pequena suspeita sussurrar ao ouvido a pergunta: embeleza-se realmente o mundo por o homem o tomar como belo? Ele humanizou-o e é tudo. Mas nada, absolutamente nada nos garante que o homem proporcionasse realmente o modelo do belo.


in Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 15h13 | Comentários (2)

Deixar de existir

José Luis PeixotoPara mim, tudo tinha parado. Mesmo que o dia nascesse, mesmo que as coisas vivas começassem lentamente a acordar. Para mim, tudo tinha parado. O dia podia nascer, os pássaros podiam cantar, que, para mim, o tempo tinha parado num tempo de noite e de morte. Para mim, os pássaros não existiam, porque eu não acreditava nos pássaros a cantarem. Mas os corpos começavam a mexer-se. Os pássaros cantavam. Os dias nasciam. O céu brilhava. Eu sabia tudo aquilo em que não acreditava e estava ainda mais sozinho, ainda mais sozinho por isso. Eu estava tão sozinho que a minha solidão, eu, tinha sido recortada com precisão do mundo. Os meus contornos eram exactos a isolarem-me do mundo. Eu não queria existir. Eu não queria que o meu rosto fizesse parte das coisas que podem ver-se. Eu queria que os espelhos não me reflectissem, que ninguém me ouvisse, que ninguém soubesse da minha voz ou se lembrasse do meu nome, do meu rosto, das minhas memórias. Eu queria não ser sequer algo que se esquece. Lutava sozinho contra as manhãs.


in Uma Casa na Escuridão, José Luis Peixoto

Lido por dolphin.s às 10h26 | Comentários (0)

13 de julho 2003

Seguro contra o Fracasso, ou a busca da derrota

Actualmente na nossa sociedade, existe nas pessoas uma tendência, muitas vezes sublinhada pela imprensa e pelos outros meios de comunicação, para procurarem a derrota. A partir do meu próprio campo de actividade, conheço numerosos casos dessa automutilação que faz com que indivíduos de valor reduzam por sua própria escolha as suas possibilidades de evolução. Existe uma categoria inteira de pessoas que ao longo de toda a vida querem tão obstinadamente ser doentes que acabam por já não saber distinguir a doença da saúde. Esta forma de invalidez voluntária é relativamente transparente quanto às suas intenções. A partir da ideia, decerto exacta, de que a nossa sociedade moderna exige uma eficácia a cem por cento dos seus cidadãos, nasce em numerosos membros dessa sociedade, um medo do fracasso perfeitamente compreensível. Pretendendo-se com tantos ou tantos por cento de enfermidade, os cidadãos obtêm uma espécie de seguro contra o fracasso e este seguro, para muitas mais pessoas do que costumamos imaginar, passa a ser a única coisa que torna suportável a vida.

Só que o facto de nos afundarmos não passa de uma etapa, de uma fase de paragem no caminho. O fenómeno mais notável é a vontade crescente de buscarmos a derrota mais total, a enfermidade mais completa, a degradação mais profunda. depois de ter examinado a questão, dando-lhes todas as voltas possíveis, cheguei à seguinte conclusão que não passa de uma série de perguntas: não teremos experimentado demasiadas vezes a miséria da vitória, do sucesso e da glória para continuarmos a ter a força de imaginar atingir a salvação por essas vias? O que é a salvação? É, julgo eu, o processo através do qual conseguirmos de repente suportar a ideia de que esta vida é vazia, fria, indiferente, um nada. Se, como decerto devemos fazer, partirmos da hipótese segundo a qual a faculdade de suportar este conhecimento, precioso entre todos, é indispensável ao homem, então põe-se uma outra questão: Em que momentos seremos mais acessíveis à salvação? Teremos a ousadia de responder: a vitória não nos traz qualquer apoio firme, a glória é para nós um deserto onde nos morre a alma? Todos nos perguntamos: Em que pensam os outros homens quando estão sozinhos? Se pensam como nós, por que é então que nunca o sabemos? Talvez saibamos todos a mesma coisa sem nos atrevermos a revelá-la uns aos outros? Talvez nos perguntemos: Onde está o amigo que procuro em todo o lado? Talvez o encontremos, todos nós, quando amarfanhados e em sangue o descobrirmos deitado, amarfanhado e em sangue, também ele, no fundo desse abismo para onde nos impele o nosso desespero? Mais fundo, mais fundo ainda, grita-nos o nosso desejo e por isso não interrompemos a nossa queda. Não é por amarmos a queda que caímos, não é por gostarmos de rastejar na noite que rastejamos, não é por amarmos a morte que a procuramos, porque a morte, nós sabemo-lo bem, não passa da punição por termos vivido. Talvez, simplesmente, esperemos descobrir nas trevas uma luz que a própria luz nos recusa, talvez esperemos descobrir na solidão um amigo que a comunidade dos outros nos nega.

Será isto o que nos está a acontecer? Não sei, porque se vale deveras a pena sabê-lo, são só suposições o que nos resta.


in As Sete Pragas do Casamento, Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 13h50 | Comentários (0)

11 de julho 2003

O Jogo dos Importantes

Jean-Paul SartreTenho vergonha pelo senhor Achille. Somos da mesma espécie, devíamos formar bloco contra eles. Mas o senhor Achille deixou-me, passou-se para o outro lado: acredita honestamente na experiência. Não na dele, nem na minha: na do doutor Rogé. Há bocado sentia-se esquisito, tinha a impressão de estar muito só; agora sabe que há outros no seu género, muitos outros: o doutor Rogé encontrou-os, poderia contar-lhe a história de cada um deles, e dizer-lhe como é que ela acabava. O senhor Achille é um caso simplesmente, e que se deixa com facilidade reduzir a algumas noções comuns.

Como gostava de lhe dizer que o estão a enganar, que ele se deixa ir no jogo dos importantes. Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhadas por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia. Tudo quanto se passou à roda delas começou e acabou fora da sua vista; longas formas escuras, acontecimentos que vinham de longe, roçaram por elas rapidamente e, quando elas quiseram olhar, já tudo acabara. E depois, pelos quarenta anos, baptizam a sua obstinaçõezinhas e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda, e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita, e recebem-se preciosos conselhos, que se pegam aos dentes como pasta de caramelo.[...]

in A Náusea, Jean-Paul Sartre

Lido por dolphin.s às 00h57 | Comentários (1)

10 de julho 2003

O Ser Humano

Talvez possamos comparar o ser humano a uma banheira de faiança branca: durante a infância e a primeira juventude, a banheira enche-se de uma água clara e fresca, que sussurra risonha; depois a água fica morna, cada vez mais quente, é uma água destinada à lavagem das acções, dos pensamentos, das sensações, condenada a perder a sua pureza sem com iss poder ser suja de qualquer maneira, uma água destinada a ser despejada quando quem nela se banha já não tiver forças para continuar a segregar porcaria. Se o ser humano é esta banheira, chega uma momento da vida em que uma mão desconhecida tira o tampão do fundo e em que a água, de novo fria, escorre com a sua porcaria e a sua pureza; o silvo da morte que sai do cano a princípio enche de medo o ser humano, mas este rapidamente se resigna e por fim só deseja que a mão desconhecida que abriu o tampão, limpe depois com uma escova as camadas de sujidade que ficarem dos lados da banheira. Mas com um triste gemido a última água turva é sorvida, também ela, pelo buraco negro, a banheira está vazia e fica silenciosa, está morta e a casa de banho envolta em sombras. Com a porta aferrolhada pelo lado de fora, a casa de banho está fechada para toda a eternidade, nunca mais ninguém ali tomará banho.


in "A Ilha dos Condenados", Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 10h13 | Comentários (0)

9 de julho 2003

O Hábito da Vida

Dostoievski[...] todos nós perdemos o hábito da vida, todos nós somos mais ou menos coxos. A tal ponto nos desacostumámos dela, até, que chegamos a sentir uma espécie de repulsa pela «vida viva» e odiamos que no-la lembrem. Pouco falta para que a encaremos como um trabalho, quase um serviço, e estamos todos de acordo, no fundo, que é melhor nos livros. E por que nos agitamos às vezes, por que deliramos, o que pedimos? Não o sabemos. Seria pior para nós se as nossas preces fossem satisfeitas. Dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem-nos as mãos a todos, alarguem o campo das nossas actividade, abrandem a vigilância e nós... garanto-vos: a primeira coisa que faríamos seria voltar a pedir que nos vigiassem.
[...]
Somos todos nado-mortos, desde há muito tempo, e os pais que nos engendram, são também mortos, e tudo isso nos agrada cada vez mais. Tomamos-lhe o gosto. Em breve inventaremos o meio de nascermos de uma ideia.

in Cadernos do Subterrâneo, Dostoiévski

Lido por dolphin.s às 14h15 | Comentários (4)

7 de julho 2003

Solidão

Stig DagermanE eis-nos de novo sós, mas a solidão é muito pior do que da vez anterior, o espaço não canta de solidão, o espaço não canta seja o que for, o espaço chove, neva, venta - mas isso nada nos diz. Estamos sozinhos de uma maneira acanhada, inestética e pois que seja como for não há salvação (admitindo que escapar à solidão seja salvarmo-nos, não é de admirar que ansiemos pelo grande espaço com a sua música diabólica mas sublime, com o seu isolamento implacável mas higiénico, com a sua ausência total de vida, sem dúvida, mas ao mesmo tempo com uma ausência igualmente absoluta de toda a obrigação de buscar contactos, de toda a necessidade de sorrir quando queremos chorar, de acariciar quando queremos arranhar, de procurar amigos quando acabamos justamente de descobrir que o mundo está cheio de inimigos.

Aspiramos aos instantes de completo abandono, aos instantes de solidão brutal e sublime com toda a intensidade da sua esperança e todo o ardor dos seus olhos, partilhamos um segredo perigoso, fomos iniciados no modo de emprego de um veneno temível chamado solidão e, como morfinómanos, dividimos doravante a vida em dois períodos: a embriaguez e a recuperação. [...]

in "A Ilha dos Condenados", Stig Dagerman

Lido por dolphin.s às 14h19 | Comentários (2)

4 de julho 2003

Pequenos Ladrões

Ferdinand CélineÉ preciso que a loucura dos massacres seja extraordinariamente imperiosa para se disporem a perdoar o roubo de uma lata de conserva! - que digo eu? - a esquecer! É bem verdade que não estamos habituados a admirar todos os dias uma imensidão de bandidos com opulência que o mundo inteiro, tal como nós, venera, e cuja existência, desde que a examinemos um pouco mais de perto, se revela um longo crime todos os dias renovado; mas essas pessoas desfrutam de glória, honras e poder, as suas perversidades são consagradas pelas leis, ao passo que, tão longe quanto pode levar-nos a História, tudo nos demonstra que um furto venial e sobretudo de alimentos mesquinhos como côdeas, presunto ou queijo, atrai infalivamente sobre o seu autor o opróbio formal, os repúdios categóricos da comunidade, as penas máximas, a desonra automática e a vergonha sem expiação, e isto por duas razões: em primeiro lugar porque o autor de tais perversidades em geral é pobre e em si próprio este estado implica uma indignidade capital, e em seguida porque o seu acto comporta uma espécie de censura tácita à comunidade. O roubo do pobre faz-se uma maliciosa recuperação do poder individual, está a compreender... Aonde iríamos parar? Por isso, repare bem, a repressão dos delitos insignificantes é exercida em todos os climas e com rigor extremo, não só como meio de defesa social mas também, e acima de tudo, como aviso severo a todos os infelizes para continuarem no seu lugar e na sua casta, mansos, resignadamente satisfeitos por morrer ao longo dos séculos, e indefinidademente, de miséria e fome... No entanto, aos pequenos ladrões até agora restava uma vantagem na República, ficarem privados da honra de usar as armas patrióticas.
[...]
Digo-vos, simplórios, vencidos da vida, escorraçados, espoliados, transpirados de sempre, previno-vos: quando os grandes deste mundo resolvem amar-vos é porque vão transformar-vos em carne para canhão... É o sinal... É infalível. É por amizade que a coisa começa. Luís XIV, esse, que nos lembremos marimbava-se por completo para o bom povo. Quanto a Luís XV, é a mesma coisa. Estava-se a cagar. Não se vivia bem nesse tempo, é certo, os pobres nunca viveram bem mas ao estripá-los não havia a teimosia e a obstinação que encontramos nos tiranos dos nossos dias. Para os pequenos, digo-lhe eu, só há descanso com o desprezo dos grandes que apenas podem pensar no povo por interesse ou sadismo... Foram os filósofos, repare ainda a propósito, que começaram por contar histórias ao bom povo. A ele, que só conhecia o catecismo! Empenharam-se, proclamaram eles, em educá-lo... Ah! Que verdades tinham a revelar-lhes! E das boas! E das fresquinhas! Que brilhavam! De se ficar embasbacado! É isto!, começou a dizer o bom povo, é isto mesmo! É precisamente isto! Vamos morrer todos por isto! Nunca quer mais do que morrer, o povo! Tal e qual. «Viva Diderot!», berraram eles, e depois: «Bravo, Voltaire!» Ao menos eram filósofos! E viva tmbém Carnot, que organiza tão bem as vitórias! E viva toda a gente! Ao menos eram gajos que não deixavam o povo morrer na ignorância e no feiticismos! Mostraram-lhe, eles, os caminhos da Liberdade! Emanciparam-no! Mas não durou! Primeiro saibam ler todos os jornais! É a salvação! Caramba! E isso rápido! Basta de analfabetos! Não pode havê-los! Apenas soldados-cidadãos! Que votem! Que leiam! E que se batam! E que marchem! E mandem beijos! Sob este regime, o bom povo acabou por chegar ao ponto certo. O entusiasmo de ter sido libertado não havia de servir para alguma coisa? Danton não era eloquente por tão pouco. Com alguns berros tão sentidos que ainda hoje se ouvem, do pé para a mão mobilizou o bom povo! Foi o ponto de partida dos primeiro batalhões de emancipados frenéticos! Dos primeiros pobres-diabos votantes e baindeirófilos que levariam Dumouriez a fazer-se esburacar na Flandres! Para o próprio Dumouriez que, chegando demasiado tarde a este pequeno jogo idealista inteiramente inédito, e acima de tudo interessado em carcanhóis, desertou. Foi o nosso último mercenário... O soldado gratuito era novidade... Uma novidade tal que Goethe, tão Goethe como era, ao chegar a Valmy ficou pasmado. Perante aqueles magotes esfarrapados e apaixonados que se davam espontanteamente a estripar pelo Rei da Prússia para defesa da inédita ficção patriótica, Goethe sentiu que ainda tinha muitas coisas a aprender. «A partir de hoje», proclamou tão magnificamente como seria de esperar do seu génio, «começa uma nova época!» Tal e qual! Em seguida, como o sistema era excelente puseram-se a fabricar heróis em série e cada vez menos caros devido ao aperfeiçoamenteo do sistema. Toda a gentes se deu bem. Bismarck, os dois Napoleões, e tanto Barrès como a Cavaleira Elsa. A religião bandeirista substituiu prontamente a celeste, velha nuvem já emurchecida pela Reforma e desde há muito condensada em pés-de-meia episcopais. Antigamente, a moda fanática era «Viva Jesus! Fogueira com os heréticos!» Raros e voluntários, porém, os heréticos... Ao passo que, de futuro, aqui onde nos vêem é com hordas imensas que os gritos: «Morte aos que não matam uma mosca! Aos pãezinhos sem sal! Aos inocentes leitores! Milhões de homens de face voltada ao perigo!», despertam vocações. Os homens que não quiserem assassinar nem deitar as mãos a ninguém, os mal cheirosos pacifistas, agarrem-nos e chacinem-nos! Que os trucidem de mil maneiras e feitios bem desarrincados! Para aprenderem, comecem por arrancar-lhes as tripas do corpo e os olhos das órbitas, e acabem-lhes com os anos de vida porca e abjecta que eles têm! Que os façam finar-se legião por legião, saltar na corda bamba, sangrar, fumegar em ácidos, e tudo para a Pártia vir a ser mais amada, mas alegre e amena! E se lá houver imundos que recusem compreender estas coisas sublimes, só há que fazê-los enterrar imediatamente junto dos outros, não digo isto à letra, claro, mas no fim do cemitério e com o desonroso epitáfio de cobardes sem ideal uma vez que perderam, estes ignóbeis, não só o mágnifico direito a um cantinho de sombra no monumento adjudicatário e comunal erigido aos mortos como deve ser, na álea central, mas também o direito de captar um pouco do eco do ministro que, nesse mesmo domingo, vai urinar à casa do prefeito e depois do almoço fazer uma berratina sobre as campas...

in Viagem ao Fim da Noite, Céline

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2 de julho 2003

Moral para Médicos

O doente é um parasita da sociedade. Em certas situações é inconveniente viver mais tempo. O vegetar prolongado em cobarde dependência dos médicos e praticantes, depois de se ter perdido o sentido e o direito à vida, deveria arrastar atrás de si, na sociedade, um profundo desprezo. Os médicos, por seu lado, deveriam ser os mediadores de tal desprezo - não receitas, mas, todos os dias, uma nova dose de náusea diante dos seus pacientes... Criar uma nova responsabilidade, a do médico, para todos os casos em que o interesse mais elevado da vida, da vida ascendente, exige a repressão e a rejeição implacáveis da vida degenerada - por exemplo, para o direito da procriação, para o direito de nascer, para o direito de viver... Morrer orgulhosamente quando já não é possível viver com orgulho. A morte, escolhida livremente, a morte no tempo oportuno, com transparência e alegria, no meio das crianças e de testemunhas: de modo que ainda seja possível uma verdadeira despedida, em que aquele, que se despede, ainda ali está, e seja igualmente possível uma autêntica valoração do que se conseguiu e se pretendeu, um resumo da vida - tudo ao contrário da lamentável e atroz comédia que o cristianismo institui para a hora da morte. Jamais se deve esquecer que o cristianismo abusou da fraqueza do moribundo para fazer um estupro da consciência, que abusou igualmente da morte para emitir juízos de valor sobre o homem e o seu passado! - Importa aqui, contra todas as cobardias do preconceito, realçar antes de mais a dignificação correcta, isto é, fisiológica, da chamada morte natural: a qual é, em última análise, também «antinatural», um suicídio. Por mais ninguém se sucumbe a não ser por si mesmo. Só que a morte, nas condições mais desprezíveis, é uma morte não livre, uma morte em tempo inoportuno, uma morte cobarde. Haveria que, por amor à vida, querer a morte de um outro modo, livre, consciente, sem acaso, sem surpresa... Por fim, um conselho para os senhores pessimistas e outros décadents. Não está na nossa mão impedir o termos nascido; mas podemos reparar esse erro - pois, às vezes, é um erro. Quando alguém se suprime, realiza-se a coisa mais digna de consideração que existe: quase merece viver, só por isso... A sociedade, que digo eu!, a própria vida tem aqui mais vantagens do que qualquer «vida» passada na renúncia, na anemia e outras virtudes - os outros livraram-se do seu espectáculo, libertou-se a vida de uma objecção...

in Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche

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1 de julho 2003

Erro do livre arbítrio

Hoje, já não temos compaixão alguma pelo conceito de «livre arbítrio»: sabemos demasiado bem o que é - o mais infamante artifício dos teólogos que tem por fim tornar a humanidade «responsável» - à sua maneira, isto é, torná-la deles dependente...
Apresento aqui apenas a psicologia de todo o tornar responsável. Onde quer que se busquem responsabilidades, costuma ser o instinto do querer castigar e julgar que aí campeia. Despojou-se o devir da sua inocência, quando de qualquer modo se reduz à vontade, a intenções, a actos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada para fins de castigo, isto é, do querer-encontrar-culpados. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, pressupõe que os seus autores, os sacerdotes, chefes das antigas comunidades, quiseram arrogar-se o direito de impor penas - ou para Deus quiseram criar esse direito...
Os homens foram imaginados «livres» para poderem ser castigados - a fim de poderem tornar-se culpados[...]

in Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche

Lido por dolphin.s às 14h08 | Comentários (0)

24 de junho 2003

"4.48 Psychosis"

Sarah Kane
- At 4.48
   when sanity visits
   for one hour and twelve minutes I am in my right mind.
   When it has passed I shall be gone again,
   a fragmented puppet, a grotesque fool.
   Now I am here I can see myself
   but when I am charmed by vile delusions of happiness,
   the foul magic of this engine of sorcery,
   I cannot touch my essential self.

   Why do you believe then and not now?

   Remember the light and believe the light.
   Nothing matters more.
   Stop judging by appearances and make a right judgment.

- It's all right. You will get better.

- Your disbelief cures nothing.

   Look away from me.


Sarah Kane

Lido por dolphin.s às 13h51 | Comentários (0)