maio 27, 2007

A Vista Atlântica

Farol de Santa Marta, Cascais1. Vai para 20 anos que, num domingo, 11 de Junho de 1989, comprei a preço de saldo uns postais antigos - imagens de paisagens portuguesas dos primeiros anos do século - a um vendedor ambulante da Praça do Comércio, em Lisboa. Era meio-dia, caía sobre a praça um sol justo. A compra daqueles postais foi um gesto trivial, e continua a sê-lo, muito embora não tenha podido esquecê-lo. Banal ou não, teve em mim consequências, e voltou a tê-las ainda anteontem.
Entre aqueles postais havia um do farol de Santa Marta, em Cascais, nos arredores de Lisboa. Na parte superior da elegante vista atlântica podia ler-se em português: «Farol de Santa Martha e Vivenda Lino». Não sei dizer porquê, mas deu-me para pensar que aquela pueril paisagem antiga - uma casa, duas palmeiras, umas rochas e o farol pintado com belas riscas horizontais de azul e branco coroado de vermelho - continha uma misteriosa relação com uma minha vida anterior. Eu não acreditava nisso, mas acabei por acreditar.

2. Olhando para aquele postal, tive de repente a sensação de viver radicalmente imerso na melancolia. Depois, esqueci. Até que em 1993 deparei de novo com aquela paisagem de Cascais. Encontrei-a inesperadamente numa revista feminina, e ali estava a mesma paisagem, mas actualizada. O farol crescera verticalmente e havia não duas, mas três palmeiras. A casa, ou a «Vivenda Lino» - informava a revista - pertencia agora aos Kennedy portugueses, a «emblemática família de banqueiros de apelido Espírito Santo». Voltei a conhecer uma imersão radical na melancolia. A memória difusa de ter estado uma vez qualquer naquele lugar. Quando? Não sabia. Mas tinha estado antes de não ter lá estado nunca.

3. Meio ano depois, uma noite, os meus amigos Hermínio, Manuela e o poeta Al Berto, sem saberem da minha relação com o farol, levaram-me à esplanada de um bar de Cascais, precisamente em frente da casa dos banqueiros Espírito Santo, onde, decerto, em criança, muitas vezes terá brincado o príncipe Juan Carlos. Contei-lhes a minha história, e eles riram-se: «Quer dizer que eras de cá», disse Al Berto. Meses depois, ao ver a versão cinematográfica de Afirma, Pereira, a novela de Tabucchi, fiquei petrificado quando descobri que as cenas na clínica talassoterápica tinham sido rodadas junto ao farol de Santa Marta. Reconheci de imediato a paisagem. Depois de tudo, era minha.
De regresso a Barcelona, tropecei casualmente num conto de Tabucchi, O Pequeno Gatsby: «O vento fazia mexer as cortinas, tu dormias, o farol lançava sinais intermitentes, a noite era aprazível, quase tropical; mas eu chegaria em seguida ao meu farol, sentia-o, estava perto dele, bastava esperar que na noite me enviasse um sinal de luz, não desejaria perder essa ocasião, não atormentaria a minha velhice com remorsos por não ter ido ao farol.»

4. Escrevo isto num hotel, o Novotel, perto do Porto, no desolado pueblo de Póvoa de Varzim, frente ao Atlântico. De noite, o vento move as cortinas do quarto, e chove muito, mas não estou frente ao meu farol, nem aguardo os seus sinais de luz. Teria gostado que ao menos esta gigantesco hotel, fantasmagórico e desguarnecido no Inverno, fosse o mesmo da costa atlântica portuguesa em que Wim Wenders rodou O Estado das Coisas. Assim, ter-me-ia sido possível ensaiar certa imersão radical na melancolia. Mas nem isso. Às vezes, de noite, chego a ser eu mesmo aquele que, desesperado, faz mover as cortinas do quarto.

5. Escrevi a história das minhas relações misteriosas com o farol e publiquei-a num livro que reunia artigos. E há anos, num dia São Jorge, acercou-se de mim um jovem de Tarragona e contou-me que, tendo viajado até Cascais com o meu livro, conhecera uma jovem portuguesa e tinham ido dormir numa pensão frente ao farol. Ela enamorou-se dele ao vê-lo aí a escutar a noite, junto às cortinas do quarto (com o farol, as palmeiras e a casa dos Espíritos Santo ao fundo), lendo o fragmento dedicado àquela paisagem. «E agora quero apresentar-te à minha mulher. Casámo-nos graças ao teu farol», acrescentou, deixando-me tão surpreendido que, não sabendo que fazer, passei a apertar perplexo a mão da esposa lisboeta.

6. Ao escrever, adquirimos mais responsabilidades do que as que cremos. Podemos chegar a ser responsáveis inclusive por casamentos, espero bem que não pelas suas desgraças e pelos seus divórcios. Durante anos, esse par de Cascais veio ver-me e saudar-me todos os dias de São Jorge. De há quatro anos para cá deixou de fazê-lo.

7. Anteontem, pouco antes de sair da Póvoa, recebi uma surpreendente e simpática carta que acompanhava um catálogo de arquitectura do atelier dos irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus, de Lisboa. Como nada sabia sobre eles, indaguei de imediato. Entre muitas outras obras, são autores do plano de recuperação urbana do centro histórico de Grândola.
Na sua carta, Francisco Aires Mateus informa-me que no seu atelier estão a trabalhar na remodelação do farol de Santa Marta e na sua adaptação a museu: «Também eu, durante o período entre o projecto e a obra, senti o farol como meu (...). Envio-lhe o catálogo com o projecto sobre o farol, pelo qual poderá constatar a intenção de uma estratégia de continuidade, segundo a qual é necessário que tudo mude para que tudo permaneça como está.»
Com extrema amabilidade, promete enviar-me fotografias do resultado final, ainda que seja omisso sobre a possibilidade de me consultar sobre se me parece bem. Suponho que por dar como certo que o farol e a imersão radical na melancolia são já pertença de todos. •


Enrique Vila-Matas
Crónica no Jornal de Letras, ed 23 Maio - 05 Junho 2007

Publicado por dolphin.s em maio 27, 2007 11:39 AM
Comentários

Isto é tão Vila-Matas! Parece mesmo o enredo de um dos seus livros, este homem é mesmo único na sua originalidade e estilo próprio. Encanta mesmo.

Dito por: pns no dia 28 de maio 2007, às 11h55

Por acaso já estive algumas vezes nessa esplanada em frente a esse farol, e sempre me transmitiu algo mágico inenarrável...

Dito por: pns no dia 28 de maio 2007, às 12h00

Maravilhoso. Sempre que lá passo lembro-me das nossas férias de infância em Cascais, as únicas que tínhamos, com o tio Jorge e a sua infinita sabedoria da história de Portugal,à qual se mantém agarrado como uma bóia de salvação. Adoro faróis, adoro Vila-Matas (aaah o fadinho de Amália em «Estranha Forma de Vida...».

Dito por: Carla no dia 29 de maio 2007, às 09h23

Vamos já disparar sobre isso e em força! Também quero esse farol para mim!

Dito por: menina-alice no dia 30 de maio 2007, às 00h24
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