inesperadamente
não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,
inesperadamente paro
a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,
são tão maçadoras as lengalengas
durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada, devo ter caído muito longe da auto-estrada, a chuva estala no metal do carro, as rodas rolam em seco, gri-gri, gri-gri, grilos, não, não podem ser grilos, tic-tac, os quatro piscas, dentro da gota de água, são apenas os olhos que não se conseguem desviar, são apenas os olhos, o meu carro capotado num baldio, o meu saco de viagem preso num arbusto, as embalagens das ceras, os brindes das clientes e o caderno das contas espalhados na lama, um sapato num charco mais distante, os faróis mantêm-se acesos, a chuva, fios de pirilampos que esvoaçam até morrerem no chão, gri-gri, não podem ser grilos, em todo o lado pedacinhos de vidro que brilham muito, cristais que afugentam a noite,
não devia ter saído de casa
o líquido quente que escorre da minha boca é sangue, reconheço o sabor, a minha boca uma massa, quente, demasiado quente, enjoativa, quero mexer-me, libertar-me do cinto de segurança, as mãos não me obedecem, dois atrapalhos inábeis, as minhas pernas, duas ausências, e os olhos pousados, inertes, na gota de água cheia de luz, uma gota inundada de luz, quase a apanhar-me, a vencer-me, resisto, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,
inesperadamente
não sinto dores, não tenho medo, os meus olhos afogados na gota de luz, os meus ouvidos um albergue de grilos,
neste momento posso já não existir aqui
este momento pode já não existir para mim
Dulce Maria Cardoso, in Os meus sentimentos
© Edições ASA
fabuloso!
(a ver se leio "campo de sangue" dela, tenho lá em casa)
Dito por: margarete no dia 12 de maio 2006, às 13h33Não achas que este excerto d' «A Invenção de Morel» é perfeito para ofececer ao pinto Scepticu?
"Convinha-me falar de um lugar alto, que me permitisse olhá-la de cima. Esta maior altura material contrabalançaria, em parte, as minhas inferioridades".
Eu achei, mas o sacana está a fingir que não percebe.
Dito por: ana no dia 12 de maio 2006, às 15h27O Campo de Sangue é lindo! Tb o recebi na mesma altura que tu ;)
Dito por: dolphin.s no dia 13 de maio 2006, às 10h04Gostei do espaço. As citações, trechos e poemas estão bem legais.
Parabéns
Pfffff...
Dito por: Dr. Scepticu no dia 25 de maio 2006, às 20h06falta de farelo, DOUTOR?
Dito por: dolphin.s no dia 26 de maio 2006, às 17h07excellent!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! i wish i spoke your language
Dito por: opportunityempire no dia 24 de janeiro 2007, às 00h21