Mas foi só exteriormente e de um ponto de vista político que se evitou o descalabro radical naqueles primeiros anos do pós-guerra; a nível interno teve lugar uma revolução de grandes proporções — juntamente com os exércitos, algo mais tinha sido derrotado: a crença na infalibilidade das autoridades, crença essa na qual a nossa própria juventude tinha sido educada em espírito de excessiva submissão. Mas teria sido possível aos alemães continuarem a admirar o seu imperador que jurara lutar «até ao último sopro de homem e montada» e que, a coberto da noite e do nevoeiro, se escapulira para o outro lado da fronteira, ou os comandantes dos exércitos, os políticos ou os poetas que incessantemente tinham rimado Kríeg (guerra) com Sieg (vitória) e Not (necessidade) com Toa (morte)? O horror só agora se manifestava, agora que o fumo da pólvora se tinha dissipado sobre o país, agora que se tornava evidente a devastação causada pela guerra. Como poderia ainda ser considerado sagrado um mandamento moral que, ao longo de quatro anos, autorizara morticínios e pilhagens sob o epíteto de heroísmo e de requisição? Como havia um povo de acreditar nas promessas do Estado que se esquivara a todas as obrigações incómodas que tinha perante os cidadãos? E agora eram essas mesmas pessoas, essa mesma clique de velhos, daqueles a quem apelidavam de experientes, que conseguiam ainda ultrapassar a loucura da guerra com a sua paz mal amanhada. Hoje todos sabem — e alguns de nós, poucos, já o sabiam antes — que aquela paz tinha sido uma oportunidade, senão mesmo a maior oportunidade moral da história. Wilson reconhecera-o. Numa visão de grande alcance, tinha esboçado um plano para uma reconciliação verdadeira e duradoura em todo o mundo Mas os velhos generais, os velhos homens de Estado, os velhos interesses, tinham rasgado o grande projecto, reduzindo-o a pedaços de papel sem valor. A grande, a sagrada promessa feita a milhões de pessoas, de que aquela guerra seria a última, essa promessa, à qual os soldados, já meio desiludidos, meio desesperados e extenuados, ainda tinham ido buscar a sua derradeira energia, foi cinicamente sacrificada aos interesses dos fabricantes de armamento e à paixão do jogo alimentada pelos políticos que souberam pôr triunfalmente a salvo, contra a exigência sábia e humana de Wilson, a sua desastrosa táctica de acordos secretos e de conversações à porta fechada. Desde que tivesse os olhos bem abertos, todo o mundo via que tinha sido enganado.
Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu
tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim
Infelizmente a credulidade será sempre superior à abertura dos olhos. Abrir os olhos obriga a pensar, exercício que a maioria prescinde em troca da cómoda aquisição de um protector, seja religião, política ou clube de futebol em quem acreditar e assim prosseguir com a sua vidinha.
Dêem-lhe mais 1 século (ou menos) e verão qual será a mentalidade das gerações europeias que já não viveram ou tiveram antepassados que passaram pelas desilusões resultantes dos conflitos citados.
Dito por: pns no dia 30 de março 2007, às 17h59será a mesma, mais pequenina e com ainda maiores fobias.
Dito por: dolphin.s no dia 31 de março 2007, às 00h59bom eu achei tudu encorajador tipo lembra muito o gotico pq é muito loko