Nunca mais esquecerei, por exemplo, uma récita na Ópera naqueles dias de extrema penúria. Avançava-se às apalpadelas pelas ruas quase escuras, porque a iluminação teve de ser reduzida devido à falta de carvão; pagava-se o lugar na geral com um maço de notas de banco que noutros tempos teria chegado para uma assinatura anual num camarote de luxo. Ficava-se com o casaco vestido, porque a sala não era aquecida, e cada espectador encostava-se ao vizinho do lado para se aquecer; e como era triste, como era cinzenta aquela sala que já cintilara com uniformes e com trajos dispendiosos! Ninguém sabia se seria possível continuar com as representações na semana seguinte, caso a desvalorização do dinheiro se mantivesse e as remessas de carvão viessem a ser suspensas uma só semana que fosse; tudo era duplo desespero naquela casa do luxo e da pompa imperial. Os músicos da Orquestra Filarmónica ocupavam o seu lugar frente à estante de música, também eles sombras cinzentas nos seus fraques velhos e gastos, enfraquecidos e extenuados por todas as privações, e nós próprios fantasmas também naquela casa agora tornada fantasmagórica. Mas então o maestro erguia a batuta, a cortina abria-se e tudo era tão magnífico como nunca. Cada cantor, cada músico dava o mais que podia, pois todos sentiam que talvez fosse aquela a última vez que se encontravam na amada sala. E nós escutávamos de ouvidos bem alerta, mais receptivos do que nunca, pois talvez fosse aquela a última vez. E assim íamos vivendo todos nós, milhares, centenas de milhar; cada um de nós deu o máximo das suas energias naquelas semanas, naqueles meses, naqueles anos, a um passo da ruína. Nunca como então senti num povo e em mim próprio uma tão grande vontade de viver, numa altura em que estava em jogo aquilo que nos restava: a existência, a sobrevivência.
Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu
tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim
Afinal o que apreciamos?Quando sentimos com aquela profunda sensibilidade, inimitável, irrepetível, em sombra, ou quando em luz reconfortados...?
Dito por: morfeu no dia 23 de abril 2006, às 14h07