Paris só conhecia contrastes em paralelo, nem superiores, nem inferiores; entre as artérias luxuosas e as passagens imundas que lhes eram contíguas não existia uma fronteira visível, e por todo o lado reinava a mesma animação e jovialidade. Nos pátios dos arredores tocavam os músicos de rua, das janelas saía o canto das midinettes no seu trabalho; em toda a parte havia sempre um riso no ar ou um chamamento bondoso e amigável. Quando aqui e ali dois cocheiros se cobriam um ao outro de insultos, logo acabavam por apertar as mãos, indo beber juntos um copo de vinho, enquanto abriam algumas ostras — baratíssimas — a acompanhar. Nada era complicado ou rígido. Era fácil estabelecer relações com mulheres e era fácil desfazê-las, cada tacho com seu testo, cada jovem com uma namorada prazenteira e liberta de qualquer pudor. Ah, como era leve a vida de Paris, como era boa, sobretudo quando se era jovem! O mero flanar representava por si só um verdadeiro prazer e também uma lição constante, porque tudo estava ao nosso alcance — e podia-se entrar num alfarrabista e ficar um quarto de hora a folhear os livros sem que o dono resmungasse ou rabujasse. Podia-se ir às pequenas galerias e apreciar em pormenor tudo o que havia nas lojas de bric-à-brac, podia-se levar vida de parasita nos leilões do Hotel Drouot e cavaquear nos jardins com as governantas; não era fácil fazer uma pausa — a partir do momento em que se começava a flanar, a rua exercia um poder magnético e mostrava um constante caleidoscópio de novidades. Quando se ficava fatigado, podia-se descansar no terraço de um dos dez mil cafés a escrever cartas em papel de carta fornecido gratuitamente e deixar ao mesmo tempo que os vendedores de rua mostrassem toda a tralha de objectos extravagantes e supérfluos. Só uma coisa era difícil: ficar em casa ou ir para casa, principalmente quando a Primavera irrompia, a luz prateada e suave brilhava sobre o Sena, as árvores dos boulevards começavam a cobrir-se de rebentos verdes e as raparigas passavam, cada uma com o seu raminho de violetas de um sou; mas na realidade não era preciso ser Primavera para se estar bem disposto em Paris.
Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu
tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim
consegui acabar «Paris é uma festa» de Hemingway, queria lê-lo antes do «Paris nunca se acaba». chegaste a ler este?
mesme não retendo na memória muito destas leituras, destas memórias ficcionadas ou não de vivências, encontros, boulevards,... sinto sempre algum fascínio em 'conhecer' Paris através de um olhar romanceado.
Dito por: margem no dia 18 de março 2006, às 12h13leste um excerto do Paris nunca se acaba por aqui ;)
li sim e adorei. e fala milhentas vezes desse do Hemingway eheheh
Dito por: dolphin.s no dia 18 de março 2006, às 14h57