março 22, 2006

a primeira frase

É-me impossível não recordar com muita simpatia — escrevi-a quando já tinha todo o livro acabado — a primeira frase de La asesina ilustrada: «As situações de riso e de pranto encontram-se tão misturadas e entrelaçadas na minha vida, que me é impossível recordar sem bom humor o penoso incidente que me empurrou para a publicação destas páginas.»
Esta longa primeira frase não só me parece um bom começo como, além do mais — juntamente com as do perigoso manuscrito criminoso que está no centro do romance —, é das poucas que actualmente reconheço como minhas. É que quase todas as outras frases me parecem muito artificiosas ou distantes ou foram copiadas de outros autores. Curiosamente, essa longa frase inicial com que hoje tanto me identifico recusei-me primeiramente a incluí-la porque dizia para comigo que não podia começar o meu livro com algo tão pouco ajustado à minha vida real, pois nunca me tinha acontecido algo daquele estilo, algo que tivesse as lágrimas e o riso entrelaçados.
Mas vi logo que essa frase podia acabar por ser do pouco que, com o tempo, acabaria por reconhecer como autenticamente meu. Vi-o graças a Vicky Vaporú, que me disse que a vida muitas vezes acaba por imitar a arte e que eu podia vir a viver a experiência de ver como com o tempo acabava por ser responsável absoluto daquela primeira frase e em contrapartida não me sentir o autor de muitas das outras do meu criminoso livro.
E, bom, assim foi. Tiveram de passar, isso sim, bastantes anos — mas dou-os por bem empregues — para que se tenha convertido em certo algo tão incerto como aquela primeira frase do meu primeiro livro. O que é um facto é que com a passagem do tempo se entrelaçaram na minha vida os momentos de riso e de pranto e que, por exemplo, hoje me é impossível recordar sem bom humor o estado mental com que escrevi os meus mais recentes romances, esse estranho estado mental que me leva a chorar de pena com o meu próprio humorismo e a rir-me a bandeiras despregadas quando os meus personagens morrem. É assim a vida e é assim a arte. A longo prazo, se nos armamos de paciência, comprovamos que, assim como o riso e o pranto, vida e arte têm a tendência para acabar por se misturarem e se entrelaçarem para compor uma imagem única, cómica e trágica ao mesmo tempo (...).


Enrique Vila-Matas, in Paris nunca se Acaba
Editorial Teorema
tradução de Jorge Fallorca

Publicado por dolphin.s em março 22, 2006 10:40 AM
Comentários

'brigada por este pedacinho de Vila-Matas :)
a ver se me encorajo e inicio a leitura... tenho dele essa impressão, de haver na sua escrita (nalguma, pelo menos) uma interacção muito consciente entre arte e vida, de que resulta uma obra que se, por um lado, deixará o leitor na dúvida sobre o que é ficcionado e o que não o é, por outro lado, exerce nele um fascínio especial.


(leitura autobiográfica: «as lágrimas e o riso entrelaçados»...)

Dito por: margem no dia 22 de março 2006, às 11h55

:)

Dito por: margarete no dia 22 de março 2006, às 14h02

oh maragreste, de que te ris tu sempre que vês Vila-Matas, hein???? >:>

margem, Vila-Matas é isso mesmo, sim: vida e ficção. O mesmo que é a vida: vida e ficção - se as nossas memórias forem sempre construções, a nossa vida não passa de ficção ;)


«as lágrimas e o riso entrelaçados» é vida sim... sempre ;)

Dito por: dolphin.s no dia 22 de março 2006, às 14h45

rio, sorrio, porque não há outra coisa a fazer quando nos deparamos com excertos de Vila-Matas, para mais, os escolhidos por ti

Dito por: margarete no dia 23 de março 2006, às 13h34

isso é batota :PP

Dito por: dolphin.s no dia 23 de março 2006, às 13h58

PARA MIN A SUA OBRA FOI ESPRENDIDA QUE NOS DA UMA LICOA DE MORAL GOSTEI MUINTO ESPERO LER MAIS DE SUA OBRA

Dito por: Maicon Alves de Sousa no dia 24 de março 2006, às 19h25

PARA MIN A SUA OBRA FOI ESPRENDIDA QUE NOS DA UMA LICOA DE MORAL GOSTEI MUINTO ESPERO LER MAIS DE SUA OBRA

Dito por: Maicon Alves de Sousa no dia 24 de março 2006, às 19h26

PARA MIN A SUA OBRA FOI ESPRENDIDA QUE NOS DA UMA LICOA DE MORAL GOSTEI MUINTO ESPERO LER MAIS DE SUA OBRA.

Dito por: Maicon Alves de Sousa no dia 24 de março 2006, às 19h27
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