fevereiro 09, 2006

Democracia

Jean-Paul SartreNa verdade, tudo é claro, ao reflectirmos e chegarmos à conclusão de que a democracia indirecta é uma mistificação. Pretende-se que a Assembleia eleita é a que melhor reflecte a opinião pública. Mas não há opinião pública a não ser a serial. A imbecilidade dos mass media, as declarações do Governo, a maneira parcial ou truncada corno os jornais reflectem os acontecimentos, tudo isso nos vem procurar na nossa solidão serial e nos enche de ideias de pedra, feitas do que pensamos que os outros pensarão. Sem dúvida que existem no fundo de nós próprios exigências e protestos, mas, por não serem reflectidos pelos outros, esmagam-se deixando-nos «nódoas negras na alma» e uma sensação de frustração. Assim, quando nos chamam a votar, eu, eu-Outro, tenho a cabeça recheada de ideias petrificadas, que a imprensa ou a televisão nela amontoaram, e são essas ideias seriais que se exprimem pelo meu voto, mas não são as minhas ideias. O conjunto das instituições da democracia burguesa desdobram-na: sou eu e todos os Outros que me dizem que eu sou (francês, soldado, trabalhador, contribuinte, cidadão, etc.). Este desdobramento faz-nos viver no que os psiquiatras chamam uma crise de identidade perpétua. Afinal de contas, quem sou eu? Um outro idêntico a todos os outros e habitado por aqueles pensamentos de impotência que nascem por toda a parte e em nenhuma parte são pensamentos — ou eu próprio? E quem vota? Já não me reconheço.


Jean-Paul Sartre, in Situações X - Politica e Autobiografia
Edições António Ramos
Tradução de Pedro Tamen

Publicado por dolphin.s em fevereiro 9, 2006 11:45 AM
Comentários

Eu continuo a querer entender que democracia se faz nos dias que correm. Será que se faz alguma?

Dito por: Ofeliazinha no dia 10 de fevereiro 2006, às 14h13

eu cada vez acredito menos....

Dito por: dolphin.s no dia 10 de fevereiro 2006, às 14h36

A democracia tem semeado searas de injustiça. Com um clima quente e seco é normal que se incendeiem...

Dito por: Femtohuman no dia 10 de fevereiro 2006, às 14h39

A democracia é lixada.

Dito por: jm no dia 10 de fevereiro 2006, às 15h15

parece-me que S. coloca duas questões, embora de forma inter-ligada: como indivíduo... o que nele é incutido pela sociedade? e o que dele pode ser dado ou representado na sociedade?

i.e.:
a questão de identidade pessoal (a dúvida, a necessidade de se encontrar numa unidade), já que o indivíduo também tem uma natureza social e tentar dissociar dentro de si o que é só seu e o que é influência/reflexo da sociedade é complexo e infrutífero talvez... não será ele tudo isso? (entendo o sentir, no entanto...);

a questão do papel do indivíduo na sociedade (nomeadamente, em termos de cidadania, de participação na vida política), perante essa incerteza pessoal, por um lado e os moldes em que a democracia se apresenta e a interferência crescente dos mass media, por outro... (pessoalmente, entendo que é utópico pensar que votamos em alguém que nos represente, a nós, individualmente - somos todos tão diferentes, teríamos de ser representantes de nós mesmos - então votamos em quem represente algumas ideias gerais com que generalizadamente nos identificamos, mas concordo com Sartre sobre a possibilidade da sobre-informação, (discursos, media, etc, os moldes em que surge) poder toldar-nos, confundir-nos, afastar-nos até...)

Dito por: margem no dia 10 de fevereiro 2006, às 21h35

...mesmo com a democracia possível que habitamos e nos habita, afinal, o que é que cada um de nós faz em relação ao seu esclarecimento? Esta tendência, com responsabilidade maior naqueles que supostamente estão mais informados, de, responsabilizar sempre o outro, o governo, o estado, e, nunca a nós proprios, é frequentemente esquecida.Afinal, o que é que cada um de nós pode fazer para melhorar a democracia? P.exº, quantos de nós irão a assembleias autárquicas, abertas à nossa intervenção? Para os que desesperam ou não acreditam, será melhor que pensem o que será a ausência de democracia- alguém se recorda do nazismo, estalismo, maoismo?
Saudações
Morfeu

Dito por: morfeu no dia 14 de fevereiro 2006, às 11h59

É SEMPRE BOM SABER...

Dito por: Manuel Gomes no dia 14 de fevereiro 2006, às 12h41

tendo em conta que o texto que aqui deixei foi escrito em 1975, que espelha o que nessa altura se vivia - e não apenas em França - e que, pelo visto, ainda há hoje quem o leia, e se dê ao trabalho (ou ao prazer) de o partilhar com quem o quiser ler, se calhar ainda há alguém que se recorde disso tudo. ou que o tente aprender e que os outros o aprendam.
e se calhar, só se calhar, também isso é ajudar a democracia.

Dito por: dolphin.s no dia 14 de fevereiro 2006, às 15h16
Comente esta entrada









Lembrar-me da sua informação pessoal?