— Não percebes que a velhice e a escrita se parecem muito. São a única possibilidade de transformar a vida, que é uma doença.
— Uma doença? — perguntou com visível alarme enquanto voltava a aproximar de mim o guarda-chuva.
— Sim. Uma doença da matéria.
— Nunca tinha ouvido um disparate igual.
— A velhice e a escrita são os únicos remédios contra essa doença. Não percebes que somos todos uns inúteis, que a vida também é inútil. E se somos todos uns inúteis, o homem velho ainda o é mais. O homem velho é o inútil por excelência.
Não achou graça nenhuma que eu tivesse dito isto, mas eu prossegui mais imperturbável que nunca.
— Será que não vês? — disse-lhe. — O homem velho tem a vantagem de estar completamente fora de jogo, fora de todos esses esforços tão incómodos a que vivem aferrados, por exemplo, aqueles que sentem que devem ser alguém na vida. O homem velho já está longe desses esforços tão grosseiros. Apenas o sonho expulsa alguma coisa desse delírio de prestígio ao qual nos vemos agarrados quando acabamos os nossos estudos.
Enrique Vila-Matas, in Filhos sem Filhos
tradução de José Agostinho Baptista
© Assírio & Alvim
a ler Vila-Matas? :)
esse foi um dos contos que assinalei, aquando da leitura do livro, por ter gostado ou me ter feito pensar...
estive agora a relê-lo e vejo que foi pelos dois motivos (não fosse um conto e imagino o protagonista, mais velho, a escrever a sua «carta ao pai», como Kafka, que V.-M. cita em epígrafe, na abertura da obra).
*já saiu a mais recente publicação do autor, "Paris nunca se acaba"
saiu sim! e outro na Teorema! :D
Tenho o Mal de Montano em espera, lá em casa ;)