Bom... vamos então aplicar uma gota de ácido à ideia de direito. Mesmo entre os antigos, havia alguns mais maduros que sabiam ser a força a fonte do direito, ser o direito uma função de força. Suponhamos dois pratos duma balança. Num está um grama, noutro está uma tonelada; naquele, Nós; neste, o Estado Único. Não é nítida a ideia de eu ter alguns direitos em relação ao Estado e a ideia de um grama poder contrabalançar uma tonelada; não é nítido que essas duas ideias se reduzam à mesma única ideia. Há que distinguir: os direitos para a tonelada, os deveres para o grama, e o percurso natural para se passar da nulidade à grandeza é esquecermo-nos de que somos um grama e sentirmos que somos a milionésima parte duma tonelada.
Zamiatine, in Nós
tradução de Manuel João Gomes, Antígona