As promoções e o proselitismo dos comunistas na frente alcançou níveis tais que antigos apoiantes comunistas entre os oficiais regulares estavam horrorizados. Prieto ficou abalado ao ser informado de que recusava tratamentos médico aos feridos não-comunistas. Os comandantes de batalhão que recusavam o convite para se inscreverem no Partido viam ser-lhes cortadas as substituições, as rações e até o pré dos seus soldados. Os que capitulavam ganhavam a prioridade sobre os não-comunistas. Eram promovidos e a sua fama enaltecida nas notícias e nos relatos da imprensa. Negava-se cooperação até aos mais notáveis oficiais não-comunistas. O coronel Casado, quando esteve no comando do Exército da Andaluzia, não foi autorizado a conhecer a localização dos aeródromos nem a disponibilidade da aviação na sua frente. Os comissários a quem a hierarquia do Partido marcava objectivos de recrutamento, não se poupavam a esforços para os atingir. Prieto declarou mais tarde que, nas unidades comunistas, os socialistas que recusavam aderir ao Partido eram com frequência fuzilados, falsamente acusados de cobardia ou deserção. Depois de Brunete (batalha de), 250 homens da divisão de El Campesino procuraram protecção nas fileiras da 14ª Divisão de Mera, por causa da forma como eram tratados por não quererem ser comunistas. Mera recusou entregá-los quando El Campesino se apresentou enfurecido no quartel-general. O general Miaja, embora oficialmente fosse comunista, deu-lhe o seu apoio com um membro do Partido.
Talvez os estragos mais graves no moral após meados meados de 1937 tenham ocorrido nas fileiras das Brigadas Internacionais, que tinham acabado de ser oficialmente incorporadas no Exército Republicano Espanhol. Sempre tinha avido não-comunistas nas suas fileiras, que recusavam aceitar a linha do Partido; mas agora mesmo os comunistas comprometidos questionavam a sua posição. No início de 1937, os Irlandeses estiveram perto de se amotinarem, após a derrota de Lopera, ao serem impedidos no último momento de formar a sua própria companhia. O motim norte-americano no Jarama, no princípio da Primaver, foi bem sucedido, embora tenha sido visto como uma aberração, que acabou por ser dominado. Os italianos do batalhão Garibaldi desertaram para se juntarem à coluna Giustizia e Liebertà, dos liberais e dos anarquistas. Durante a ofensiva de Segóvia, a XIV Brigada Internacional recusou-se a continuar os ataques frontais inúteis sobre La Granja, e os estrangeiros do batalhão penal da Brigada amotinaram-se quando receberam ordens de disparar sobre os desertores.
A raiva por causa dos massacres inúteis fez-se acompanhar por um crescente mal-estar, causado pela existência de campos de «reeducação», dirigidos por oficiais soviéticos e guardados por comunistas espanhóis, equipados com as mais recentes espingardas automáticas e balas dum-dum (termo da gíria militar: projécteis de armas de fogo que possuem a capacidade de se fragmentar ou expandir durante o impacto. A designação oficial é «munição de ponta oca» n.t.). Nestes campos o trabalho estava organizado numa base stakanovista, com distribuição de comida dependente do cumprimento ou não das normas de trabalho. Os prisioneiros, na sua maioria, eram os que desejam regressar a casa por diversos motivos e tinham visto recusado o seu pedido. (Durante muito tempo, não se soube que numerosos brigadistas nesta categoria foram encerrados em hospitais para doentes mentais.) Depois, em Brunete, houve inúmeras explosões de frustração e de raiva contida face à carnificina resultante da inépcia de oficiais superiores. Wally Tapsell, do batalhão britânico, sentindo-se insultado pela estupidez e pela negligência do coronel Gal com as vidas dos homens, afirmou que ele «não era competente para comandar uma trupe de meninas, muito menos um Exército Popular». Gal quis executá-lo in loco, mas Tapsel tinha a apoiá-lo as espingardas do batalhão. Também uma unidade francesa se revoltou durante a ofensiva de Brunete e, quando o coronel Krieger os mandou para trás da linha, os oficiais recusaram obedecer. Krieger matou pessoalmente um deles, o batalhão amotinou-se e as tropas comunistas espanholas tiveram de desarmá-los antes de serem levados para «reeducação».
A contínua agitação nas Brigadas teve origem também no facto de que os voluntários, a quem nunca tinha sido referida a obrigação do serviço, supunham ficar livres de partir após um determinado tempo. Os passaportes tinham-lhes sido retirados no acto de alistamento. Krivitsky afirmava que tinham sido enviados para Moscovo pela mala diplomática, a fim de serem utilizados pelos agentes do NKVD no estrangeiro. Os líderes de brigada, alarmados pelas histórias de agitação que transpareciam pelo país, impuseram medidas disciplinares cada vez mais apertadas. O correio era sujeito a censura e todo aquele que criticasse a competência dos líderes do Partido estava sujeito a ser internado nos campos de concentração ou até a enfrentar o pelotão de fuzilamento. As licenças foram canceladas e alguns voluntários que, sem autorização, prolongaram os dias a que tinham direito, foram fuzilados por deserção ao regressarem às suas unidades. A sensação de caírem em armadilhas montadas por uma organização com a qual não simpatizavam contribuiu para que muitos voluntários se passassem para o lado dos Nacionalistas. Outros recorreram a estratagemas pouco originais, como disparar um tiro no próprio pé quando estavam a limpar a arma (10 voluntário oram fuzilados por terem infligido ferimentos a si próprios).
Os organizadores do Comintern começaram a ficar alarmados, porque o relato das condições existentes nas brigadas começaram a travar o afluxo de voluntários provenientes do estrangeiro. Os novatos ficavam chocados com o cinismo dos veteranos, que troçavam do idealismo dos recém-vindos, recordando com amargura o seu próprios idealismo inicial. Alguns dos recém-chegados a Albacete eram literalmente narcotizados. Alguns estrangeiros especializados, ou mecânicos que tinham concordado em vir apenas com um objectivo específico, viram-se recrutados e ameaçados com castigos caso recusassem. Até marinheiros, de licença em terra, pertencentes a navios mercantes em portos republicanos, eram detidos como «desertores» das Brigadas e levados sob custódia para Albacete.
O maior abalo nas atitudes dos que se encontravam nas Brigadas Internacionais foi a perseguição do POUM. A versão dada pelo Partido daquilo que estava a passar-se era tão obviamente desonesta que só acreditavam nela os que tinham medo da verdade. Esta mentalidade está bem manifesta nas declarações de um brigadista, de que «a instituição de debates políticos obrigatórios uma vez por dia, por ordens superiores, é uma prova de que estamos a ser tratados mais seriamente do que é habitual». A maioria, porém, apercebendo-se de que tinham sido ludibriados, sentia o insulto feito à sua inteligência. Precisavam de refrear a língua enquanto se encontravam em Espanha, para não chamarem as atenções do SIM (Servicio de Investigación Militar). Depois, ao regressarem aos seus países, habitualmente mantinham-se silenciosos, para não prejudicarem a causa republicana no seu conjunto. Os que, como Orwell, falaram abertamente, viram fechar-se-lhes as portas dos editores de esquerda; os apoiantes pouco críticos da República eram obrigados a justificar a linha de Moscovo. Não obstante, a tentativa de exportar para Espanha a mentalidade dos julgamentos-fantoche ignorou o facto de que, por autoritário que fosse o governo de Negrín, não era totalitário. Como resultado, o labirinto selado de espelhos distorcidos que tinha substituído a realidade na União Soviética, não pôde duplicar-se em Espanha.
Em 1937, havia muitos motivos para se ser comunista, e entre os membros do partido podiam distinguir-se cinco categorias principais: os membros convencidos que acreditavam que só o Partido Comunista podia ajudar o proletariado internacional; os republicanos, que acreditavam simplesmente que a orientação comunista do esforço de guerra era vital para a vitória militar e para a restauração do sistema governamental; os arrivistas que viam que o poder do Partido lhes oferecia os meios mais seguros de promoção; os empresários ou os pequenos proprietários fundiários, desejosos de protecção contra a colectivização; e , finalmente, os apoiantes nacionalistas secretos, que desejavam a segurança proporcionada por um cartão de membro do Partido. Os que pertenciam à segunda categoria, como Prieto, começaram a perguntar-se, ao longo de 1937, se teriam razão. A lealdade dos oportunistas dependia simplesmente da continuação do poder do partido per se. As ambições dos comunistas espanhóis, porém, foram travadas pela política soviética, que exigia que o controlo do Partido fosse encoberto.
Antony Beevor, Guerra Civil de Espanha