Pode dizer-se que a fuga terminou, mas também que continuas de viagem em tua casa, pela estrada perdida.
O mundo converteu-se-te, após o teu lento regresso, num país estrangeiro, onde já não existe a necessidade de fugir dele nem tão-pouco a de voltar a casa.
Antes de o mundo se tornar um país estrangeiro, a literatura era uma viagem, uma odisseia. Havia duas odisseias, uma era a clássica, uma epopeia conservadora que ia desde Homero a James Joyce e onde o indivíduo regressava a casa com uma identidade reafirmada, apesar de todas as dificuldades, pela viagem através do mundo e também pelos obstáculos encontrados no caminho: Ulisses, com efeito, regressava a Ítaca, e Leopold Bloom, o personagem de Joyce, também. No seu caso fazia-o numa espécie de viagem circular de repetição elíptica. A outra odisseia era a do homem sem atributos de Musil, que se movia, ao contrário de Ulisses, numa odisseia sem retorno e onde o indivíduo se lançava para diante, sem nunca voltar a casa, avançando e perdendo-se continuamente, trocando a sua identidade em vez de a reafirmar, desagregando-a naquilo que Musil chamava «um delírio de muitos».
Agora vives uma dupla odisseia num país estrangeiro e vais caminhando por uma das suas estradas perdidas ao entardecer, entre a neblina, à procura de Musil. Às vezes vês Emily Dickinson, que foge de algo e vai sussurrando a palavra bruma enquanto passeia o cão. E às vezes não a vês, porque está a coser em casa e é Penélope da epopeia conservadora.
Avanças e perdes-te continuamente e mudas a tua identidade em vez de a reafirmares, e desagregas-te num delírio de muitos pela estrada perdida, na sala da tua casa, entre a bruma, sob a neve, com a televisão ligada mas sem o audio, de maneira que de vez em quando levantas os olhos e distingues uma imagem sem a reter, uma espécie de banda visual contínua, de fundo, como antes a música fazia de fundo sonoro.

Enrique Vila-Matas, in O Mal de Montano
© Teorema
tradução de Jorge Fallorca
Uma manhã, pões-te a andar de repente, sem deixares um bilhete. Não levas nada, apenas o teu diário pessoal. Vestes um fato escuro e caminhas pelas ruas catalãs sob a chuva: as árvores, os passeios, alguns transeuntes. Quando chegas a uma praça, vês um autocarro. Aceleras o passo, atravessas a avenida a correr e sobes atrás dos outros passageiros. O autocarro arranca. Sentas-te na parte de trás para veres melhor a paisagem humana. Contemplas a chuva nos vidros. Umas horas mais tarde, atravessas o Sena, também de autocarro, caminhas pela ponte de Austerlitz e em cada paragem observas as pessoas que sobem. E já em Orly passas um leve controlo da polícia, nem sequer levas bagagem de mão, apenas o teu diário pessoal. Apanhas um avião que rasga o ar e aterra em Santiago do Chile, onde apanhas um táxi para Valparaíso, e, uma vez ali, corres para a esplanada do Hotel Brighton, onde notas que não tardará a chover e em qualquer caso não cais na imbecilidade de te interrogares o que estás ali a fazer, assim como não te interrogas se porias a secar o teu cachecol em cima do radiador do teu quarto no caso de teres — que não tens — cachecol, radiador e quarto.
Depois recordas Tongoy nessa mesma esplanada, o ano passado, todo o barulho horrível com aquela mosca que afogou em álcool, aquela festa de fim de século nesta mesma esplanada, hoje deserta, terrivelmente vazia, sem ninguém. O hotel parece fechado. Impressiona ver um lugar tão animado na tua imaginação e tão morto no mundo da realidade. Mas não é o momento para te deixares impressionar. Bem vistas as coisas, tu é que procuraste a tremenda solidão desta esplanada, outrora cheia de alegria para ti. Seria absurdo lamentares-te agora de nada. Dizes isto e de imediato aparece um empregado. Sentes uma certa decepção, tinhas começado a gostar da ideia de andares a passear sozinho por um espaço que é um dos eixos centrais do teu diário, tanto no que se refere à tua vida real como à tua imaginação. Mas, em contrapartida à decepção, apercebes-te de que se te abrem possibilidades interessantes e uma delas é pedires um pisco sour, que é o que fazes. Pouco depois, enquanto to servem, pensa; na vida e sentes-te orgulhoso de ti, interrogas-te em que é que te converteste depois da tua fuga. E respondes-te: sou um ocioso, um sonâmbulo uma ostra. Estás só a brincar, sentes-te contente, a felicidade do fugitivo.
Enrique Vila-Matas, in O Mal de Montano
© Teorema
tradução de Jorge Fallorca