Não gosto nada de pessoas contentinhas. Se dependesse delas, a literatura já tinha desaparecido da face da terra. No entanto, as pessoas «normais» são muito apreciadas em todo o lado. Todos os assassinos são, para os seu vizinhos, tal como se vê sempre na televisão, pessoas satisfeitas e normais. As pessoas normais são cúmplices do mal de Montano da literatura. Pensei nisso hoje ao meio-dia, no táxi do Pico, enquanto me lembrava de uma frase que Zelda costumava dizer ao marido, Scott Fitzgerald: «Ninguém mais do que nós tem o direito de viver, e eles, os filho-da-puta, estão a destruir o nosso mundo.»
Odeio esta grande parte da humanidade «normal» que dia a dia destrói o meu mundo. Odeio as pessoas que são de uma grande bondade porque ninguém lhes deu a oportunidade de saber o que é o mal e poderem então escolher livremente o bem; pareceu-me sempre que esse tipo de gente bondosa é gente de uma maldade extraordinária em potência. Detesto-os, penso muitas vezes como Zelda e vejo-os como uns filhos-da-puta.
Enrique Vila-Matas, in O Mal de Montano
© Teorema
tradução de Jorge Fallorca
Nicholson levantou os olhos para ele e deteve-o. "O que faria você se pudesse modificar o sistema de ensino?", perguntou com um ar ambíguo. "Alguma vez pensou no assunto, por acaso? Responda só a esta pergunta", pediu Nicholson. "O ensino é a minha mania pessoal... é isso que ensino e é por isso que pergunto."
"Bem... Não tenho bem a certeza do que é que fazia", disse Teddy. "Sei é que com certeza não começava pelas coisas que normalmente se dão primeiro." Cruzou os braços e pensou um momento. "Acho que primeiro reunia as crianças todas e lhes mostrava como se medita. Tentava mostrar-lhes o que se deve fazer para perceber quem somos, não só os nomes e essas coisas..., acho eu, mas, mesmo antes disso, levava-os a esvaziar a cabeça de tudo que os pais e todas as outras pessoas lhes tivessem dito. Quer dizer, mesmo que os pais só lhes tivessem dito que um elefante é grande, eu obrigá-los-ia a tirar isso da cabeça. Um elefante só é grande quando está ao pé de outra coisa qualquer — um cão ou uma mulher, por exemplo." Teddy tornou a pensar um momento. "Nem mesmo lhes dizia que os elefantes têm tromba. Pode ser que lhes mostrasse um elefante, se tivesse um à mão, mas deixava-os aproximar-se do elefante sem saber mais sobre o elefante do que o elefante sabe sobre eles. Fazia o mesmo com a erva e as outras coisas. Nem sequer lhes dizia que a erva é verde. Cores são só nomes. Quer dizer, se você lhes diz que a erva é verde, isso faz com que comecem à espera que a Nicholson levantou os olhos para ele e deteve-o. "O que faria você se pudesse modificar o sistema de ensino?", perguntou com um ar ambíguo. "Alguma vez pensou no assunto, por acaso? Responda só a esta pergunta", pediu Nicholson. "O ensino é a minha mania pessoal... é isso que ensino e é por isso que pergunto."
"Bem... Não tenho bem a certeza do que é que fazia", disse Teddy. "Sei é que com certeza não começava pelas coisas que normalmente se dão primeiro." Cruzou os braços e pensou um momento. "Acho que primeiro reunia as crianças todas e lhes mostrava como se medita. Tentava mostrar-lhes o que se deve fazer para perceber quem somos, não só os nomes e essas coisas..., acho eu, mas, mesmo antes disso, levava-os a esvaziar a cabeça de tudo que os pais e todas as outras pessoas lhes tivessem dito. Quer dizer, mesmo que os pais só lhes tivessem dito que um elefante é grande, eu obrigá-los-ia a tirar isso da cabeça. Um elefante só é grande quando está ao pé de outra coisa qualquer — um cão ou uma mulher, por exemplo." Teddy tornou a pensar um momento. "Nem mesmo lhes dizia que os elefantes têm tromba. Pode ser que lhes mostrasse um elefante, se tivesse um à mão, mas deixava-os aproximar-se do elefante sem saber mais sobre o elefante do que o elefante sabe sobre eles. Fazia o mesmo com a erva e as outras coisas. Nem sequer lhes dizia que a erva é verde. Cores são só nomes. Quer dizer, se você lhes diz que a erva é verde, isso faz com que comecem à espera que a erva tenha um determinado aspecto—o aspecto que você quer que ela tenha — em vez dum outro qualquer que pode ser igualmente bom ou muito melhor... não sei. Obrigava-os a deitar cá para fora toda a data de maçã que os pais deles e toda a gente os tinham obrigado a engolir."
"Não corria o risco de criar uma pequena geração de ignorantes?"
"Porquê? Não seriam mais ignorantes do que um elefante ou um pássaro ou uma árvore", asseverou Teddy. "Só porque uma pessoa é duma certa maneira, em vez de se comportar de uma certa maneira, não quer dizer que seja ignorante."
"Não?"
"Não", disse Teddy. "Além disso, se eles quisessem aprender todas essas outras coisas — nomes, cores, etc. — podiam fazê-lo, se lhes apetecesse, mas mais tarde, quando fossem mais velhos. Mas gostava que começassem por aprender a maneira verdadeira de olhar para as coisas- e não apenas a maneira como os outros apreciadores de maçã as olham — isso é que me interessa." Aproximou-se mais de Nicholson e estendeu-lhe a mão. "Tenho de ir. A sério. Gostei muito..."
Salinger in Nove Contos - Teddy
© Livraria Bertrand
tradução de Vasco Pulido Valente

I am the passenger
And I ride and I ride
I ride through the citys backside
I see the stars come out of the sky
Yeah, theyre bright in a hollow sky
You know it looks so good tonight
I am the passenger
I stay under glass
I look through my window so bright
I see the stars come out tonight
I see the bright and hollow sky
Over the citys a rip in the sky
And everything looks good tonight
Singin la la la la la-la-la la
La la la la la-la-la la
La la la la la-la-la la la-la
Get into the car
Well be the passenger
Well ride through the city tonight
See the citys ripped insides
Well see the bright and hollow sky
Well see the stars that shine so bright
The sky was made for us tonight
Oh the passenger
How how he rides
Oh the passenger
He rides and he rides
He looks through his window
What does he see?
He sees the bright and hollow sky
He see the stars come out tonight
He sees the citys ripped backsides
He sees the winding ocean drive
And everything was made for you and me
All of it was made for you and me
cause it just belongs to you and me
So lets take a ride and see whats mine
Singing...
Oh, the passenger
He rides and he rides
He sees things from under glass
He looks through his windows eye
He sees the things he knows are his
He sees the bright and hollow sky
He sees the city asleep at night
He sees the stars are out tonight
And all of it is yours and mine
And all of it is yours and mine
Oh, lets ride and ride and ride and ride...
Singing...
Iggy Pop
Em toda a terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Ora, emigrando para Oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Sennaar e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: «Vamos fazer tijolos e cozamo-los no forno». Utilizaram o tijolo em vez da pedra e o betume serviu-lhes como argamassa. E disseram depois: «Vamos construir uma cidade e uma torre cuja extremidade alcance os céus. Assim, tornar-nos-emos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a face da Terra».
O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens estavam a edificar. E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta forma, nada os impedirá que no futuro realizem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles para que não se entendam uns aos outros». E o Senhor dispersou-os dali para toda a face da terra e eles deixaram de construir a cidade. Por isso lhe foi dado o nome de Babel, por ter sido ali que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra e foi também dali que o Senhor dispersou os homens por todos os lados.
Génesis, 11, 1-9
excerto tirado de A História do Ateísmo, George Minois
© Teorema
tradução de Serafim Ferreira
Estou aqui devido a um erro — não nesta cadeia especificamente — mas em todo este mundo terrível, às riscas; um mundo que parece não um mau exemplo de amadorismo, mas que é, na realidade, horror, calamidade, loucura, erro, e vede, o achado raro, intrigante, mata o turista, o gigantesco urso esculpido abate o seu martelo de madeira sobre mim. E no entanto, desde a mais tenra infância, tive sonhos... Nos meus sonhos, o mundo tinha nobreza, espiritualidade; as pessoas que em estado de vigília tanto temia nele apareciam numa refracção fremente, como se estivessem embebidas, envoltas nessa vibração de luz que em tempo de calor confere vida aos próprios contornos dos objectos; as suas vozes, os seus passos, as expressões dos seus olhos e mesmo das suas roupas adquiriam um significado comovente; em termos mais simples, nos meus sonhos o mundo ganhava vida, tornando-se tão captivantemente majestático, livre e etéreo que depois era opressivo respirar a poeira dessa vida decalcada. Mas também há muito que me afiz a ideia de que aquilo a que chamamos sonhos é uma semi-realidade, a promessa de realidade, um vislumbre e um bafo, ou seja, os sonhos contêm, num estado diluído, muito vago, mais realidade genuína do que o nosso decantado estado de vigília que, por sua vez, é um semi-sono, uma modorra maligna na qual penetram, grotescamente deformados, os sons e as imagens do mundo real, fluindo para lá dos limites da consciência, como quando se ouve durante o sono um conto horrorosamente insidioso porque o ramo duma árvore está a arranhar uma vidraça, ou nos vemos a afundar-nos na neve porque o lençol está a escorregar. Mas como receio acordar!
Vladimir Nabokov, in Convite para uma Decapitação
© Assírio & Alvim