maio 31, 2006

Wake Up!!!

The Eraser


The Eraser


Publicado por dolphin.s em 04:54 PM | Comentários (3)

Round V

Round V

€4, €5 e €7

para gente sem vergonha!!!

Publicado por dolphin.s em 11:30 AM | Comentários (4)

maio 30, 2006

Round IV - 29.05.06

Round IV - 29.05.06

€6 cada! :D

nha nha nha nha :P

Publicado por dolphin.s em 11:40 AM | Comentários (3)

maio 28, 2006

Round III

Round III


afinal, quem ganha o quê?? 8S

Publicado por dolphin.s em 03:43 PM | Comentários (4)

maio 27, 2006

Day II - Round II

Feira do Livro - Round II


então vamos ver quem é que se entala mais!!

Publicado por dolphin.s em 01:26 PM | Comentários (0)

maio 26, 2006

Feira do Livro - mortos e feridos ao 1º dia!

Feira do Livro

€2; €2 e €5


e em especial para o último deles:

Publicado por dolphin.s em 11:13 AM | Comentários (5)

maio 15, 2006

F U M A R M A T A

Dulce Maria Cardoso - Os meus sentimentos(...) procuro o maço de cigarros na carteira, fumar mata, em letras enormes, de um lado, do outro, fumar causa o envelhecimento da pele, se por um acaso não morrer, se me der para ser eterna, tenho direito a uma indemnização já que me asseguram que fumar mata, desde quando é que todas as coisas desataram a falar, a estrada, conduza com prudência, respeite a margem de segurança, se conduzir não beba, imagino que qualquer dia o hall de um prédio, se tiver uma vizinha boazona por favor não a apalpe, ou, apalpar vizinhas depende da autorização prévia do condomínio que reserva o direito de, outro aviso, quando pisar merda de cão na rua não limpe os sapatos no capacho do vizinho, procure antes os capachos de outros prédios, acendo o cigarro, hoje à tarde o banco, subscreva um plano poupança habitação, um plano poupança reforma, qualquer dia o banco, subscreva um plano infalível de assalto à mão armada, pode ainda subscrever os complementos, especial perversidade, ou fuga para país tropical, a farmácia onde ontem fui comprar pingos para o nariz, já não se usa morrer de amor, use preservativo, vigie o seu colesterol, meça a sua tensão, beba um litro e meio de água por dia, evite as gorduras, faça exercício, a farmácia estranhamente calada quando a mando à merda, a farmácia e o rol dos conselhos, não acho bem que as estradas, os bancos, as farmácias, as roupas, tenham desatado a falar, os disparates dos falantes tradicionais chegavam (...)


Dulce Maria Cardoso, in Os meus sentimentos
© Edições ASA

Publicado por dolphin.s em 11:58 AM | Comentários (0)

maio 11, 2006

inesperadamente

inesperadamente

não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,

     inesperadamente paro

a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

     são tão maçadoras as lengalengas

durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada, devo ter caído muito longe da auto-estrada, a chuva estala no metal do carro, as rodas rolam em seco, gri-gri, gri-gri, grilos, não, não podem ser grilos, tic-tac, os quatro piscas, dentro da gota de água, são apenas os olhos que não se conseguem desviar, são apenas os olhos, o meu carro capotado num baldio, o meu saco de viagem preso num arbusto, as embalagens das ceras, os brindes das clientes e o caderno das contas espalhados na lama, um sapato num charco mais distante, os faróis mantêm-se acesos, a chuva, fios de pirilampos que esvoaçam até morrerem no chão, gri-gri, não podem ser grilos, em todo o lado pedacinhos de vidro que brilham muito, cristais que afugentam a noite,

     não devia ter saído de casa

o líquido quente que escorre da minha boca é sangue, reconheço o sabor, a minha boca uma massa, quente, demasiado quente, enjoativa, quero mexer-me, libertar-me do cinto de segurança, as mãos não me obedecem, dois atrapalhos inábeis, as minhas pernas, duas ausências, e os olhos pousados, inertes, na gota de água cheia de luz, uma gota inundada de luz, quase a apanhar-me, a vencer-me, resisto, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

     inesperadamente

não sinto dores, não tenho medo, os meus olhos afogados na gota de luz, os meus ouvidos um albergue de grilos,

     neste momento posso já não existir aqui

     este momento pode já não existir para mim


Dulce Maria Cardoso, in Os meus sentimentos
© Edições ASA

Publicado por dolphin.s em 11:15 PM | Comentários (7)