Tem na maneira de olhar
Aquela dúbia certeza
De quem pretende fixar-se
Numa doce realidade...
E o seu vulto quando passa,
Parece deixar no espaço,
A graça de uma saudade!
Há no seu riso -
Uma nota
Que lembra um laivo de sombra
Nessa beleza tão séria
Onde tudo quanto é belo
Desgraçadamente existe.
Ah!, meus amigos, a vida!...
- Falei de amor, pus-me triste.
António Botto
![]() | I too shall cease and be as when I was not yet, only all over instead of in store. That makes me happy, often now my murmur falters and dies and I weep for happiness as I go along and for love of this old earth
that has carried me so long and whose uncomplainingness will soon be mine. Just under the surface I shall be, all together at first, then separate, and drift through all the earth and perhaps in the end through a cliff into the sea, something of me. A ton of worms in an acre, that is a wonderful thought,
|
| Life On Mars
It's a god-awful small affair Sailors fighting in the dance hall It's on Amerikas tortured brow Sailors fighting in the dance hall David Bowie | ![]() ![]() |
Nunca mais esquecerei, por exemplo, uma récita na Ópera naqueles dias de extrema penúria. Avançava-se às apalpadelas pelas ruas quase escuras, porque a iluminação teve de ser reduzida devido à falta de carvão; pagava-se o lugar na geral com um maço de notas de banco que noutros tempos teria chegado para uma assinatura anual num camarote de luxo. Ficava-se com o casaco vestido, porque a sala não era aquecida, e cada espectador encostava-se ao vizinho do lado para se aquecer; e como era triste, como era cinzenta aquela sala que já cintilara com uniformes e com trajos dispendiosos! Ninguém sabia se seria possível continuar com as representações na semana seguinte, caso a desvalorização do dinheiro se mantivesse e as remessas de carvão viessem a ser suspensas uma só semana que fosse; tudo era duplo desespero naquela casa do luxo e da pompa imperial. Os músicos da Orquestra Filarmónica ocupavam o seu lugar frente à estante de música, também eles sombras cinzentas nos seus fraques velhos e gastos, enfraquecidos e extenuados por todas as privações, e nós próprios fantasmas também naquela casa agora tornada fantasmagórica. Mas então o maestro erguia a batuta, a cortina abria-se e tudo era tão magnífico como nunca. Cada cantor, cada músico dava o mais que podia, pois todos sentiam que talvez fosse aquela a última vez que se encontravam na amada sala. E nós escutávamos de ouvidos bem alerta, mais receptivos do que nunca, pois talvez fosse aquela a última vez. E assim íamos vivendo todos nós, milhares, centenas de milhar; cada um de nós deu o máximo das suas energias naquelas semanas, naqueles meses, naqueles anos, a um passo da ruína. Nunca como então senti num povo e em mim próprio uma tão grande vontade de viver, numa altura em que estava em jogo aquilo que nos restava: a existência, a sobrevivência.
Stefan Zweig in O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu
tradução de Gabriela Fragoso
© Assírio & Alvim
ao fim e ao cabo e em alguma medida, por infinitesimal que fosse, todos trazíamos as nossas próprias desgraças, ou as forjávamos, ou nos prestávamos as padecê-las, ou consentíamos talvez nelas. «A infelicidade inventa-se», cito às vezes com o pensamento.
Javier Marías in O teu rosto amanhã
tradução de J. Teixeira de Aguilar
© Publicações D. Quixote
As pessoas vão e contam irremediavelmente e contam tudo cedo ou mais tarde, o interessante e o fútil, o privado e o público, o íntimo e o supérfluo. O que deveria permanecer oculto e o que tem de ser difundido, a mágoa e as alegrias e o ressentimento, os agravos e a adoração e os planos para a vingança, o que nos orgulha e o que nos envergonha, o que parecia um segredo e o que pedia sê-lo, o consabido e o inconfessável e o horroroso e o manifesto, o substancial - o enamoramento - e o insignificante - o enamoramento. Sem pensar duas vezes. As pessoas relatam sem cessar e narram sem sequer se darem conta do que estão a fazer, dos incontroláveis mecanismos de insídia, equívoco e caos que põem em movimento e que se podem tornar funestos, falam sem parar dos outros e de si mesmas, e também dos outros ao falarem de si mesmas e também de si mesmas ao falarem dos outros. Esse contar constante é percebido às vezes como uma transacção, embora se disfarce sempre com êxito de dádiva (porque em todas as ocasiões tem alguma coisa disso), e seja antes amiudadas vezes um suborno, ou a liquidação de alguma dívida, ou uma maldição que se lança a um destinatário concreto ou talvez ao acaso para que este construa estouvadamente fortuna ou desgraça, ou a moeda que compra relações sociais e favores e confiança e até amizades, e evidentemente sexo.
Javier Marías in O teu rosto amanhã
tradução de J. Teixeira de Aguilar
© Publicações D. Quixote