Uma manhã de Inverno, passeava com Arrieta pelo Jardin du Luxembourg quando numa alameda secundária vislumbrámos um pássaro negro e solitário, quase imóvel, a ler o jornal. Era Samuel Beckett. Vestido rigorosamente de preto dos pés à cabeça, estava ali numa cadeira, muito quieto, parecia desesperado, metia medo. E até quase parecia mentira que fosse ele, que fosse Beckett. Nunca tinha previsto que pudesse encontrá-lo. Sabia que não era um clássico morto, mas sim alguém que vivia em Paris, mas imaginara-o sempre como uma escura presença que sobrevoava a cidade, nunca como alguém que encontramos a ler desesperado um jornal num velho parque frio e solitário. De vez em quando mudava de página, e fazia-o com uma espécie de nojo tão grande e uma energia tão intensa, que se o Jardin du Luxembourg inteiro tivesse tremido não nos teria surpreendido nada. Quando chegou à última página, ficou entre absorto e ausente. Metia mais medo do que antes. «É o único que teve a coragem de mostrar que o nosso desespero é tão grande, que nem palavras temos para o exprimir», disse Arrieta.
Enrique Vila-Matas, in Paris nunca se Acaba
Editorial Teorema
tradução de Jorge Fallorca
Immaculate conception, yeah right
Crazing Mary, good that you lied
A test tomb baby, seed of the lord
Breaking the law with the man next door
Blame it on it an angel, they’ll believe
Joseph will wonder but you know he won’t leave
Cause they all love you, I still do
Magic in the air swirling all around you
Mary, Mary under a veil of stars
You changed the world,
You broke my Heart
Thank you Mary, you saved me too
They’d stone us both if they ever knew
You sold out the manger, well all right
They Mystery
They say that he’s the one
Brother Joseph got a king for a stepson
Mary, Mary under a veil of stars
You changed the world,
You broke my Heart
Thank you Mary, you saved me too
They’d stone us both if they ever knew
Mary kissed me, we lost control
The oldest story never told
Crazy Mary, ever divine
They’ll never know the baby was mine
Mary, Mary under a veil of stars
You changed the world,
You broke my Heart
Thank you Mary, you saved me too
They’d stone us both if they ever knew
Lou Barlow, EMOH
— Não há direito, não senhor — comentou Merceditas, postada à porta da livraria, longe das mãos de Fermín. — Pobrezito, ele que é bom como o pão e não se mete com ninguém! Gosta de se vestir de fúfia e andar por aí a cantar? E que mais dá? A gente sempre é muito má!
Don Anacleto mantinha-se calado, com o olhar baixo.
— Má, não — objectou Fermín. — Imbecil, o que não é a mesma coisa. O mal pressupõe uma determinação moral, intenção e um certo pensamento. O imbecil ou bruto não pára para pensar nem para raciocinar. Age por instinto, como animal de estábulo, convencido de que está a fazer o bem, de que tem sempre razão, e orgulhoso por andar a lixar, com vossa licença, todo aquele que se lhe afigura diferente dele próprio, seja na cor, na crença, no idioma, na nacionalidade ou, como no caso de don Federico, nos seus hábitos de lazer. O que é preciso no mundo é mais gente verdadeiramente má e menos casmurros limítrofes.
— Não diga disparates. O que é preciso é um pouco mais de caridade cristã e menos mau feitio, que isto parece um país de alimárias — atalhou Merceditas. — Muita ida à missa, mas a Nosso Senhor Jesus Cristo aqui nem Deus liga.
— Não mencionemos a indústria do missal, que é parte do problema e não da solução, Merceditas.
— Já cá faltava o ateu. Que mal é que lhe fez a si o clero, pode-se saber?
— Vamos, não se peguem — interrompeu o meu pai. — E você, Fermín, vá ter com don Federico e veja se ele precisa de alguma coisa, que se vá à farmácia ou que se lhe compre alguma coisa no mercado.
— Sim, senhor Sempere. E para já. E que a mim a oratória perde-me, o senhor bem sabe.
— O que o perde a si é a pouca vergonha e a irreverência que tem no pêlo — apostilou Merceditas. — Blasfemo! Do que precisava era que lhe limpassem a alma com ácido clorídrico.
— Olhe, Merceditas, é só porque me consta que a senhora é uma boa pessoa (se bem que um tanto curta de entendimento e mais ignorante que um lorpa), e neste momento estamos na presença de uma emergência social no bairro perante a qual é preciso dar prioridade a certos esforços, porque senão eu ia esclarecer-lhe um par de pontos cardeais.
— Fermín! — clamou o meu pai.
Fermín fechou o bico e saiu a correr pela porta. Merceditas observava-o com ar reprovador.
— Esse homem vai meter os senhores em sarilhos no dia em que menos esperem, tome atenção ao que eu lhe digo. No mínimo é anarquista, maçon e até judeu. Com aquele narigão...
— Não lhe ligue importância. Ele faz tudo aquilo por espírito de contradição.
Carlos Ruiz Zafón, in A Sombra do Vento
Publicações D. Quixote
tradução de J. Teixeira de Aguilar
http://mgomes.blogspot.com/2006/01/sem-palavras.html
Este senhor que tem como descrição no seu ATENTO blog a fantástica frase "Ao que de meritório mereça ser lembrado, sempre em função de valores, nunca, pelo vazio da oportunidade", é pouco atento e leva em pouca conta o mérito dos tais valores, quando tem o desplante de comentar no post abaixo, tendo publicado no seu blog, no dia 30 de Janeiro de 2006 fotos minhas, sem qualquer indicação, dando-se ao trabalho de as sacar e fazer upload para a sua área do blogger, ignorando o lugar de onde as sacou e o link que eu apresentava nas mesmas, caso dúvidas houvesse sobre a sua autoria.
Teve ainda mais o desplante de as publicar com o mesmo layout que eu mesma escolhi fazer para AS MINHAS FOTOGRAFIAS!
http://silencio.weblog.com.pt/arquivo/216074.html
Abaixo deixo-vos os comentários ao post do individuo, dando-lhe os parabéns pelas fotos, e não sendo a sua autoria desmentida (faço copy/paste também do meu, caso o senhor resolva também apagar os traços).
Repare-se que o Exmº Sr. Manuel Gomes já fez posts em datas posteriores ao seu post ladrão e aos comentários que o parabenizam.
O Exmº Sr. Manuel Gomes teve ainda a distinta lata de passar hoje por aqui e deixar um comentário, mas não teve tempo, desde o dia 30 até ao dia de hoje, para informar correctamente as pessoas que visitam o seu ATENTO e Meritório blog, sobre a autoria das fotografias, que, justificadamente (dada a ausência de qualquer informação) atribuem ao dono do ATENTO blog que se descreve como possuidor de altos valores.
Comments:
Agradecendo e retribuindo visita, sempre digo que a sequência de imagens está soberba e vale por história contada em prosa ou em poesia...
Das pombinhas à abetarda, passando pela avestruz, meu caro, fica de truz e evidência não parda!
Um abraço.
# posted by OrCa : 9:39 PM
É a primeira vez que te visito.
Mas tenho a certeza que voltarei mais vezes.
Um abraço !
# posted by Júlia Coutinho : 10:47 PM
As fotografias falam por si.
Parabens!
# posted by Luis Villas : 8:11 PM
é pena é que as fotos sejam minhas e estejam a ser roubadas - sim, roubadas! porque foram sacadas e feito o upload para o blogger, quando podiam ter sido linkadas, dos meus sites!
do meu blog:
http://silencio.weblog.com.pt/arquivo/216074.html
e da minha galeria:
http://galerias.escritacomluz.com/sandraf/Pessoas
é vergonhoso, porque a não ser feito propositado, haveria referencia ou link directo!!! e muito menos uma rectificação aos comentários, garantido que as fotos não são do mesmo!!
# posted by dolphin.s : 7:41 PM
deixo ainda print screens do blog com o post a que me refiro, não vá o mesmo desaparecer:
Print Screen blog Atento - Fotos Roubadas 1
Print Screen blog Atento - Fotos Roubadas 2
Na verdade, tudo é claro, ao reflectirmos e chegarmos à conclusão de que a democracia indirecta é uma mistificação. Pretende-se que a Assembleia eleita é a que melhor reflecte a opinião pública. Mas não há opinião pública a não ser a serial. A imbecilidade dos mass media, as declarações do Governo, a maneira parcial ou truncada corno os jornais reflectem os acontecimentos, tudo isso nos vem procurar na nossa solidão serial e nos enche de ideias de pedra, feitas do que pensamos que os outros pensarão. Sem dúvida que existem no fundo de nós próprios exigências e protestos, mas, por não serem reflectidos pelos outros, esmagam-se deixando-nos «nódoas negras na alma» e uma sensação de frustração. Assim, quando nos chamam a votar, eu, eu-Outro, tenho a cabeça recheada de ideias petrificadas, que a imprensa ou a televisão nela amontoaram, e são essas ideias seriais que se exprimem pelo meu voto, mas não são as minhas ideias. O conjunto das instituições da democracia burguesa desdobram-na: sou eu e todos os Outros que me dizem que eu sou (francês, soldado, trabalhador, contribuinte, cidadão, etc.). Este desdobramento faz-nos viver no que os psiquiatras chamam uma crise de identidade perpétua. Afinal de contas, quem sou eu? Um outro idêntico a todos os outros e habitado por aqueles pensamentos de impotência que nascem por toda a parte e em nenhuma parte são pensamentos — ou eu próprio? E quem vota? Já não me reconheço.
Jean-Paul Sartre, in Situações X - Politica e Autobiografia
Edições António Ramos
Tradução de Pedro Tamen
Por seu lado, Giacometti repetia esta frase com indignação; a seu ver, ninguém tinha ainda conseguido talhar ou modelar uma representação válida do rosto humano; era preciso partir do nada. Um rosto, dizia-nos ele, é um todo indivisível, um sentido, uma expressão; mas a matéria inerte —mármore, bronze, gesso—, pelo contrário, separa-se do infinito; cada parcela isola-se, contradiz o conjunto e destrói — o. Tentava assimilar a matéria até aos limites mais extremos do possível; deste modo, chegara a modelar estas cabeças quase sem volume, onde se inscrevia, pensava ele, a unidade do rosto humano, tal como este se oferece a um olhar realmente vivo. Talvez encontrasse um dia um outro meio de a arrancar à vertiginosa dispersão do espaço: por agora, não soubera inventar senão aquilo. Sartre, que desde a juventude se esforçava por compreender o real na sua verdade sintética, ficou singularmente impressionado com esta procura; o ponto de vista de Giacometti juntava-se ao da fenomenologia, visto que ele pretendia esculpir um rosto em situação, na sua existência em relação a outrem, à distância, ultrapassando assim os erros do idealismo subjectivo e os da falsa objectividade. Giacometti nunca tinha pensado que a arte se pudesse limitar a fazer brilhar as aparências; em compensação, a influência dos cubistas e dos surrealistas tinha-o arrastado, assim como a muitos artistas da época, a confundir o imaginário e o real: durante tempos ele trabalhara não para mostrar a realidade através de uma analogia material mas para fabricar coisas. Agora, criticava nos outros e nele próprio esta aberração. Falava de Mondrian, que, uma vez que as suas telas eram planas, se recusava a nelas inscrever imaginariamente as três dimensões: «Mas», dizia Giacometti com um sorriso cruel, «quando duas linhas se cruzam, há sempre uma que passa por cima da outra: os quadros dele não são planos!» Nunca ninguém tinha ido tão longe neste impasse como Mareei Duchamp, de quem Giacometti gostava muito. A princípio pintava quadros — entre outros o célebre Mariée mise à nu par sés célibataires, même. Mas um quadro só existe pelo olhar que o anima; Duchamp queria que as suas criações se mantivessem de pé sem nenhum auxílio; pôs-se a fazer, em mármore, cópias de bocados de açúcar; estes simulacros não o tinham satisfeito; fez objectos usuais, completamente reais, entre outros um xadrez; depois contentou-se em comprar pratos ou copos e assiná-los. Acabou por cruzar os braços.
Simone de Beauvoir in A Força da Idade
Culto club, Cacilhas, 27.Jan.2006
esta sacana passou-me a batata... e eu não tenho a quem a passar - parece que afinal sou mesmo anti-social e/ou mau-feitio >:>
manias... eu não sou manienta.. sei lá o que são manias :P
ok...ok... mas vais pagá-las, às manias, oh se vais! nem que tenha que te encher a teia de gatos!
lá vai, à laia de confessionário:
a mania de pensar que se não me meto com os outros, eles não se vão meter comigo, que se eles não existem para mim para além do estritamente necessário, eu também não existo para eles.
a mania de carregar, todos os dias, 2 ou 3 livros e pelo menos uma revista de fotografia, para a cama, e trazê-los de volta para a mesa da sala, todas as manhãs, muitas vezes sem ter aberto nenhum deles - tenho um sono fácil :)
a mania do click :))))))))) a mania que me faz mais feliz. o sapomobile exponenciou a coisa 8-|
a mania de andar com 1 ou 2 máquinas, sempre, na mala.
a mania de levar pelo menos uma das Nikon, sempre que saio (e não sei quantos rolos), ou levar a mala de campanha completa.
A Borboleta preocupa-se com a minha saúde e deu-me uma mini mala de campanha - piorou - agora ninguém pode arranjar desculpas para eu não levar a bagagem atrás :D
a mania de que me vão roubar o telemóvel, de achar que se calhar já o fizeram, mesmo estando a mala fechada e eu o ter enfiado numa bolsa, bem lá no meio (I wonder why :/)
a mania de rebolar e lutar com a minha cadela, na minha cama.
a mania de não conseguir sair de casa sem lhe deixar goluseimas na cama dela.
a mania de andar sempre com os headphones e de fazer videoclips com as pessoas que circulam à minha volta, tentando sincronizar os movimentos delas com a música (às vezes até finjo que são elas que cantam).
a mania de não conseguir sair de casa para ir trabalhar, antes de escolher o álbum ideal no meu leitor de mp3, para começar o dia - o leitor tem +/- 200 álbuns :/
e pronto. acho que já me desmascarei o suficiente, para janelas tão abertas ;)
mas há-des pagá-las!!!
The Ballad of Daykitty
The kitty's always hungry, I told the kitty no
So the kitty had to ramble, she had to roam
Where'd the kitty come from, where did the kitty go
Now Hector was the son of a mountain lion
She heard him crying, she followed him in
And she became the apple of my eye
But when Hector couldn't love her
My Daykitty said goodbye
She belonged to another family up the street
I knew they couldn't love her even half as much as I
I love the kitty in the morning
Love her every night
The day she left me, I hung my head and cried
Where'd the kitty come from, and where'd the kitty go
The kitty's always hungry, I told the kitty no
Did she have to ramble, did she have to roam
Where'd she come from, where did the kitty go
You know she returned the very next day
We took her to the doctor, the doctor did say
The kitty weren't a woman
No the kitty was a man
Took him home, he ate a whole can
Now he and Hector are friends
I think he's gonna stay
I think he really loves us, all he wanna do is play
And you should see him sleeping in my lovers arms
I know you'd wanna keep him
But Daykitty is ours
Now where'd the kitty come from, and where'd the kitty go
The kitty's always hungry, I told the kitty no
So the kitty had to ramble, the kitty had to roam
Where'd the kitty come from, where did the kitty go
... Wherever he came from, now he's got a home
If he ever leaves again, I'll be home
Lou Barlow, EMOH
| 3 de Outubro
Vivem-se uns momentos estranhos. Ninguém pode aceitar a paz de Hitler; mas que guerra é que se vai fazer? Que significa precisamente a palavra «guerra»? Há um mês, quando foi impressa em letras enormes nos jornais, era um horror informe, qualquer coisa de confuso, mas forte. Agora já não está em parte nenhuma, nem é nada. Sinto-me descontraída e vaga, espero nem sei bem o quê. Parece que toda a gente está à espera. Aliás, é isso que impressiona logo, através dos livros de Pierrefeu, na história da guerra de 14: é uma espera de quatro anos, intercalada de massacres completamente inúteis; dir-se-ia que é o tempo que trabalha e só ele. Simone de Beauvoir in A Força da Idade |
© Henri Cartier-Bresson |