março 31, 2005

É um perigo deixá-los ir sozinhos para o jardim

«Como me sinto inquieta», pensou Clementina, debruçada à janela.
O jardim doirava-se ao sol.
Não sei onde eles estão, o Noël, o Joël ou o Citroën. Podem, entretanto, ter caído ao poço, ou comido alguns frutos envenenados, ou apanhado com alguma seta num olho, se algum outro miúdo anda a brincar no meio da estrada com um arco, ou podem ter sido contaminados pela tuberculose, se algum bacilo de Koch se meteu de permeio, ou terem perdido os sentidos, se cheiraram alguma flor de perfume muito intenso, ou terem sido picados por um escorpião trazido pelo avô de algum garoto da aldeia, algum célebre explorador que tenha chegado há pouco da terra dos escorpiões, ou terem caído de uma árvore abaixo, ou corrido, depressa demais e partido uma perna, ou brincado com a água e afogado, ou descido a falésia e estampado e quebrado a espinha, ou arranhado nalgum arame ferrugento e apanhado o tétano; foram até ao fundo do jardim e viraram uma pedra, debaixo da qual havia uma pequena larva amarela que vai desenvolver-se num abrir e fechar de olhos, e voar em direcção à aldeia, e introduzir-se no estábulo de um touro bravo e picá-lo no focinho; o touro sai do estábulo, deita tudo abaixo, e ei-lo que mete pernas ao caminho, em direcção a esta casa, vem de lá como doido, deixa tufos de pêlo negro em cada curva, presos às moitas de uva-espim; e, mesmo em frente de casa, lança-se de cabeça baixa contra uma pesada carroça puxada por um cavalicoque meio cego. Com o choque, a carroça desmantela-se e um pedaço de metal é projectado no ar a uma altura incrível; possivelmente um parafuso, uma cavilha, uma porca, um prego,
um ferro do varal, um gancho de ligação, um rebite das rodas, que foram carpinteiradas e depois quebradas, e reparadas mediante cinchos de freixo talhados à mão, e esse pedaço de ferro sobe, silvando, em direcção ao azul do céu. Passa por cima do gradeamento do jardim, e oh meu Deus, vai cair, vai cair e, na queda, aflora a asa de uma formiga voadora, arrancando-lha, e a formiga, mal dirigida, perdida a estabilidade, vagueia por sobre as árvores como uma formiga que já não presta, e tomba, de repente, sobre a relva onde, Deus meu, está o Joël, o Noël e o Citroën, a formiga cai em cima da bochecha do Citroën e, deparando, possivelmente, com uns restos de doce, pica-o...
— Citroën! Onde estás tu?
Clementina precipitara-se para fora do quarto e gritava, fora de si, enquanto descia as escadas a galope. No vestíbulo, esbarrou com a criada.
—Onde ó que eles estão? Onde estão os meus filhos?
—Estão a dormir — respondeu a outra, com ar de espanto. — É a hora da sesta.
Pois é, ainda não foi desta; mas era perfeitamente plausível. Voltou para o quarto. Com o coração aos pulos. Não há dúvida de que é um perigo deixá-los ir sozinhos para o jardim.


Boris Vian, in O Arranca Corações

tradução de Luiza Neto Jorge, Editorial Estampa

Publicado por dolphin.s em 11:49 AM | Comentários (0)

março 30, 2005

Venha chuva!

Mal o padre apareceu entre os dois alisares brancos de carvalho, houve um homem que trepou a um dos bancos e, numa voz altissonante, pediu silêncio. Diminuiu o rumor. Reinava agora, por toda a nave, urna calma atenta. Os olhos de Jaimemorto davam-se conta do sem-número de luzes que havia suspensas da abóbada, as quais lhe permitiam apreciar a amálgama de corpos entrelaçados uns nos outros, esculpidos ao longo do travejamento, e o vitral azul do altar.
— Venha chuva, ó padre! — disse o homem. A multidão repetiu em uníssono.
— Venha chuva!...
— O sanfeno está seco! — prosseguiu o homem.
— Venha chuva! — mugiu a multidão.
Jaimemorto, completamente ensurdecido, viu o padre estender o braço a pedir a palavra. Acalmaram-se os murmúrios. O sol matutino flamejava por detrás do vitral azul. Custava a respirar.
— Povo desta aldeia! — disse o padre.
A sua voz, imensa, parecia saída de todos os lados, e Jaimemorto adivinhou que só um sistema de amplificação lhe permitia atingir tal volume. As cabeças voltaram-se para a abóbada, para as paredes. Não havia qualquer aparelho à vista.
— Povo desta aldeia! — disse o padre. — Pedis-me chuva, pois não a tereis. Viestes hoje, altivos e arrogantes como leghornes, confiantes na vossa vida carnal. Viestes, como insolentes pedinchões, exigir o que não mereceis. Não, não choverá. Para o vosso sanfeno, está-se Deus nas tintas! Curvai o corpo, curvai a fronte, humilhai vossa alma e eu vos direi a palavra de Deus. Mas não conteis com uma só gota de água. Isto aqui é uma igreja, e não um chuveiro!
Perpassou pela multidão um murmúrio de protesto. Jaimemorto achava que o padre falava bem.
— Venha chuva — repetiu o homem empoleirado
no banco.
Depois da sonora tempestade da voz do padre, o seu grito pareceu irrisório, e a assistência, consciente da sua inferioridade temporária, calou-se.
— Pretendeis crer em Deus —tonitroou o padre — só porque vindes à igreja aos domingos, porque tratais com dureza o vosso semelhante, porque ignorais o que seja a vergonha, porque a vossa consciência vos não atormenta...
Mal o padre pronunciara a palavra vergonha, ergueram-se protestos daqui e dacolá, a que outros fizeram eco, acabando por rebentar tudo num grito arrastado.
Os homens, de punhos crispados, contorciam-se nos seus lugares. As mulheres, mudas, apertavam os lábios e olhavam para o padre com um olhar pérfido. Jaimemorto começava a perder o pé. Quando o tumulto se acalmou, o padre retomou a palavra.
— Que me importam a mim os vossos campos! Que me importam os vossos animais e os vossos filhos! —berrou ele.— Viveis, todos vós, uma vida material e sórdida. Ignorais o que seja o luxo!... Esse luxo, ofereço-vo-lo eu: ofereço-vos Deus... Mas Deus não gosta da chuva... Deus não gosta do sanfeno. Deus não quer saber do vosso chão, nem das vossas chãs aventuras. Deus, é uma almofada de brocado de oiro, é um diamante engastado no Sol, é Auteil, é Passy, é as sotainas de seda, as peúgas bordadas, os colares e os anéis, o inútil, o maravilhoso, as custódias eléctricas... Não, não choverá!
— Queremos chuva — berrou o orador, desta vez sustentado pela multidão, que desatou a trovejar como um céu tempestuoso.
— Voltem para as vossas quintas! —mugiu a múltipla voz do padre.— Voltem para as vossas quintas! Deus é a volúpia do supérfluo. E vós só pensais no necessário. Sois indivíduos perdidos, a seus olhos.


Boris Vian, in O Arranca Corações

tradução de Luiza Neto Jorge, Editorial Estampa

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março 27, 2005

Saudades


Happy Face



Publicado por dolphin.s em 04:51 PM | Comentários (19)

março 21, 2005

Manhã

Regressado da noite, coroado pela poeira do fumo.
A pele vingou nas sublevações da corrente, mas os olhos
bateram no cascalho: é onde podem notar-se
as devastações, o avesso tenro da carne
exposto às navalhas da consciência.

A manhã recusa o sentido que lhe dão os pássaros,
a luz mansa sobre as telhas, as nuvens da cor do leite e espessas
como nos quadros ao fundo. Tudo o que existe no quarto te fala
com a voz desfigurada do poema, lamento ou sinal de alarme
que rebenta no gosto, no tacto da língua.



Rui Pires Cabral, in Praças e Quintais

Publicado por jm em 10:57 AM | Comentários (1)

Insónia

Laurie Lipton, Of What Will he DieFeliz aquele que dorme pacificamente num leito de penas, arrancadas ao peito do ganso, sem notar que se trai a si mesmo. Há já mais de trinta anos que não durmo. Desde o dia indizível em que nasci, votei às tábuas do sono irreconciliável ódio. Eu o quis; não acusem ninguém. Despojem-se depressa da suspeita abortada. Vedes na minha fronte essa pálida coroa? Foi a tenacidade que a entrançou com seus dedos magros. Enquanto nos meus ossos correr um resto de seiva ardente, como torrente de metal fundido, não dormirei nunca. Todas as noites, forço os olhos lívidos a fitarem as estrelas através dos vidros da minha janela. Para ficar mais seguro de mim, coloco uma lasca de madeira a separar-me as pálpebras inchadas. A aurora, quando surge, encontra-me na mesma posição, com o corpo verticalmente apoiado, de pé, encostado ao gesso da fria parede. No entanto, acontece-me às vezes sonhar, mas sem que por um só instante perca a vivaz sensação da minha personalidade e a livre faculdade de me mexer: sabei que o pesadelo que se oculta nas esquinas fosfóricas da sombra, a febre que me tacteia a face com o coto do braço, cada um dos animais impuros que erguem suas garras sangrentas, sim, é a minha vontade que, para alimentar estavelmente a sua perpétua actividade, os faz andar à minha volta. Na verdade, átomo que se vinga na sua extrema fraqueza, o livre arbítrio não teme afirmar com poderosa autoridade que não conta o embrutecimento no número dos seus filhos: aquele que dorme é menos que um animal castrado de véspera. Embora a insónia arraste para as profundezas da cova estes músculos que exalam já um odor a cipreste, nunca a branca catacumba da minha inteligência abrirá seus santuários aos olhos do Criador. Uma secreta e nobre justiça, para cujos braços estendidos me lanço por instinto, manda-me que persiga sem tréguas esse ignóbil castigo. Temível inimigo da minha alma imprudente, à hora em que se acende uma lanterna na costa não deixo que os meus rins infortunados se deitem sobre o orvalho das relvas. Vencedor, rejeito os embustes da hipócrita dormideira. Por consequência, é coisa certa que o meu coração, por essa luta estranha, ergueu muros aos seus desígnios, como um esfomeado que se come a si mesmo. Impenetrável como os gigantes, eu vivi sempre com a largura dos olhos bem aberta. Pelo menos, está provado que, durante o dia, todos podem opor útil resistência ao Grande Objecto Exterior (quem não sabe o nome dele?); porque, então, a vontade vela pela sua própria defesa com notável afinco. Mas logo que o véu dos vapores nocturnos se estende, até sobre os condenados que vão ser enforcados - oh, então é ver o intelecto nas mãos sacrílegas de um estrangeiro. Um escalpelo implacável esquadrinha os seus densos silvedos. A consciência exala um longo estertor de maldição, pois o véu do seu pudor sofre cruéis rasgões. Humilhação! a nossa porta está aberta à curiosidade feroz do Celeste Bandido. Eu não mereci este suplício infame, ó horrendo espião da minha causalidade! Se existo, é porque não sou outro. Não admito em mim esta equívoca pluralidade. Quero morar sozinho no meu íntimo raciocinar. A autonomia... ou então transformem-me em hipopótamo.

Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi


Publicado por dolphin.s em 10:44 AM | Comentários (4)

março 16, 2005

Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio

Laurie Lipton, ChildSe eu quisesse aproveitar-me da presente ocasião para subtilizar estas discussões poéticas, acrescentaria que até faço mais caso da palha do que da consciência; porque a palha é útil ao boi que a rumina, ao passo que a consciência apenas sabe mostrar as suas garras de aço. Estas sofreram uma penosa derrota no dia em que se me puseram à frente. Como a consciência tinha sido enviada pelo Criador, julguei conveniente não permitir que ela me impedisse a passagem. Se se tivesse apresentado com a modéstia e a humildade próprias da sua condição, e às quais nunca teria que renunciar, eu a teria escutado. Não me agradava o seu orgulho. Estendi uma das mãos e triturei-lhe as garras com os dedos; elas caíram feitas pó, sob a pressão crescente deste original almofariz. Estendi a outra mão e arranquei-lhe a cabeça. E depois, às chicotadas, expulsei de casa aquela mulher, e não mais a tornei a ver. Guardei a cabeça dela como recordação da minha vitória... Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, deixei-me ficar com uma perna erguida, como a garça real, à beira do precipício cavado nos flancos da montanha. Viram-me descer para o vale, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, nadei nos abismos mais perigosos, contornei os escolhos mortais e mergulhei mais ao fundo do que as correntes, para assistir, como estrangeiro, aos combates dos monstros marinhos; afastei-me da costa até a perder da minha vista penetrante; e as horrendas tremelgas, com seu paralisante magnetismo, rondavam-me os membros, que cortavam as vagas com robustos movimentos, sem ousarem aproximar-se. Viram-me voltar à praia, são e salvo, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, subi os ascendentes degraus de uma elevada torre. Cheguei de pernas cansadas à plataforma vertiginosa. Contemplei os campos, o mar; olhei o sol, o firmamento; empurrando com o pé o granito que não recuou, desafiei a morte e a vingança divina com uma suprema zombaria, e precipitei-me, como uma laje, na boca do espaço. Ouviram os homens o choque doloroso e retumbante que resultou do encontro entre o chão e a cabeça da consciência, que durante a queda tinha largado. Viram-me descer, com lentidão de pássaro, trazido por uma nuvem invisível, e apanhar a cabeça para a obrigar a ser testemunha de um triplo crime que ia cometer nesse mesmo dia, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Tendo na mão uma cabeça a que ia roendo o crânio, dirigi-me para o lugar onde se erguem os postes que sustém a guilhotina. Coloquei debaixo do cutelo a graça suave dos colos de três donzelas. Executor dos trabalhos importantes, larguei a corda com a aparente experiência de uma vida inteira; e, quando o ferro triangular desceu obliquamente, cortou três cabeças que me olhavam com doçura. Pus seguidamente a minha debaixo da pesada lâmina, e o carrasco preparou-se para cumprir o seu dever. Por três vezes o cutelo desceu pelas ranhuras com renovado vigor, e por três vezes a minha carcaça material, sobretudo no lugar do pescoço, foi abalada até aos alicerces, como quando em sonhos imaginamos ser esmagados por uma casa que desaba. O povo estupefacto deixou-me passar, ao afastar-me da praça fúnebre; viu-me abrir com os cotovelos as suas vagas ondulantes, e mover-me, cheio de vida, avançando de cabeça levantada, enquanto a pele do peito me continuava imóvel e calma, como a tampa de um túmulo! Eu tinha afirmado que queria defender o homem desta vez; mas temo que a minha apologia não seja a expressão da verdade; por consequência, prefiro calar-me. Será com gratidão que a humanidade há-de aplaudir esta medida.

Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi


Publicado por dolphin.s em 02:30 PM | Comentários (28)

março 14, 2005

Lâmpada de bico de prata

«Ó lâmpada de bico de prata, os meus olhos vêem-te nos ares, companheira da abóbada das catedrais, e buscam o motivo dessa suspensão. Dizem que os teus clarões iluminam de noite a multidão dos que vêm adorar o Todo-Poderoso e que mostras aos arrependidos o caminho do altar. Ouve: é muito possível; mas... terás tu necessidade de prestar tais serviços a quem nada deves? Deixa as colunas das basílicas mergulhadas nas trevas; e quando uma lufada da tempestade em que o demónio rodopia, transportada pelo espaço, penetrar com ele no lugar santo, espalhando o terror, em vez de lutares corajosamente contra a rajada do príncipe do mal, apaga-te de súbito ao seu sopro febril, para que ele possa, sem ser visto, escolher as suas vítimas entre os crentes ajoelhados. Se assim fizeres, ficarei a dever-te toda a minha felicidade, podes dizê-lo. Quando assim reluzes, derramando tuas claridades indecisas, mas suficientes, não ouso entregar-me às sugestões do meu carácter e fico-me no pórtico sagrado, olhando pelo portal entreaberto aqueles que escapam à minha vingança no seio do Senhor. Ó poética candeia! Tu, que serias minha amiga se pudesses compreender-me quando os meus pés pisam o basalto das igrejas nas horas nocturnas, porque te pões a brilhar duma maneira que, confesso, me parece extraordinária? Os teus reflexos ganham então as colorações brancas da luz eléctrica; a vista não te pode fixar; e iluminas com uma chama nova e poderosa os mais pequenos pormenores do canil do Criador, como que possuída por uma santa cólera. E quando, depois de ter blasfemado, me retiro, voltas a passar despercebida, modesta e pálida, certa de teres praticado um acto de justiça. Diz-me lá: será porque conheces o meandro do meu coração que, quando me acontece aparecer nos lugares onde velas, te apressas a denunciar a minha presença perniciosa e a chamar a atenção dos adoradores para o lado onde se vem mostrar o inimigo dos homens? Inclino-me para esta opinião; porque também eu começo a conhecer-te; e sei quem tu és, ó velha bruxa, que tão bem velas pelas mesquitas sagradas, onde se pavoneia, como crista de galo, o teu curioso senhor. Vigilante guardiã, tomaste para ti uma louca missão. Aviso-te: da primeira vez em que me denunciares à prudência dos meus semelhantes, aumentando os teus clarões fosforescentes, como não gosto deste fenómeno de óptica, que aliás não vem mencionado em nenhum livro de física, agarro-te pela pele do peito, colando as minhas garras às crostas da tua nuca tinhosa, e atiro-te ao Sena. Não pretendo que, não estando eu a fazer-te nada, te comportes deliberadamente duma maneira que me prejudique. Ali te deixarei brilhar o tempo que me apetecer; ali farás pouco de mim com um sorriso inextinguível, ali, convencida da incapacidade do teu azeite criminoso, hás-de uriná-lo amargamente.»

Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi


Publicado por dolphin.s em 11:41 AM | Comentários (6)

março 10, 2005

Maldoror

Laurie Lipton, Love BiteQueira o céu que o leitor, tornado audaz e momentaneamente feroz à semelhança do que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem através dos lodaçais desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois que, a não ser que utilize na sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro irão embeber-lhe a alma, como a água ao açúcar. Não convém que toda a gente leia as páginas que se seguem; só alguns hão-de saborear sem perigo este fruto amargo. Por consequência, ó alma tímida, antes de penetrares mais longe em tais domínios inexplorados, dirige os teus passos para trás e não para a frente. Ouve bem o que te digo: dirige os teus passos para trás e não para a frente, como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno; ou, antes, como a visão ao longe de friorentos grous em grande meditação, que, em tempo de Inverno, voam poderosamente através do silêncio, com todas as velas tensas, para um ponto determinado do horizonte, donde parte repentinamente um vento estranho e forte, precursor da tempestade. O grou mais velho, que por si só forma a vanguarda, ao ver isto, abana a cabeça como uma pessoa sensata, e com ela o bico com que dá estalidos, e não fica contente (como eu não ficaria, se estivesse no seu lugar), enquanto o seu velho pescoço, já sem penas e contemporâneo de três gerações de grous, se move em ondulações irritadas que pressagiam a tormenta que cada vez mais se aproxima. Depois de, com serenidade, ter olhado várias vezes para todos os lados com olhos plenos de experiência, prudentemente, é ele o primeiro (pois é ele que tem o privilégio de mostrar as penas da cauda aos outros grous inferiores em inteligência) que, com seu vigilante grito de melancólica sentinela para repelir o inimigo comum, vira com flexibilidade a ponta da figura geométrica (talvez seja um triângulo, mas não se lhe vê o terceiro lado formado no espaço por estas curiosas aves de arribação), ou para bombordo ou para estibordo, como um hábil comandante; e, manobrando com asas que não parecem maiores que as de um pardal, como não é estúpido, toma assim outro caminho filosófico e mais seguro.


Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi

Publicado por dolphin.s em 04:32 PM | Comentários (5)

março 09, 2005

Destruir prédios novos


Einstruzend Neubaten, CCB



Publicado por dolphin.s em 10:32 PM | Comentários (4)

março 08, 2005

Sonetos 1.

Por uma cona assim eu perco o tino
e tudo o mais desamo que não faça
como rata em soneto de Aretino:
a um caralho dar frequente caça

porque essa cona tem da melhor raça
a traça que se diz «donaire fino»
se rosto fora ela e não conaça
onde o tesão divino toca o sino

com uma cona assim aquel' menino
Cupido troca as setas pela maça
martela meus colhões num desatino
que do Rossio ecoa até à Graça

ela é a melhor rata que dá caça
a este meu javardo de inquilino


Lisboa
28-XII-81

Fernando Assis Pacheco, in Respiração Assistida


Publicado por jm em 09:30 AM | Comentários (10)

março 07, 2005

Cantos

Os Cantos pegam na estética romântica e exploram-lhe todos os clichés, ampliam-lhe todos os tiques, do ênfase ao melancólico, da grandiloquência ao preciosismo, dos sentimentos nobres ao macabro, num desejo de a levarem para lá dos seus limites, o corrosivo humor e a fina ironia dos comentários em permanente minagem da ficção a ser elaborada. Ora as metáforas participam desta vontade de levar o romantismo à auto-destruição, ridicularizando as suas pretensões metafóricas pela introdução de equivalentes estapafúrdios retirados do repertório de lugares comuns da medicina, das ciências naturais ou da quinquilharia doméstica. Isidore Ducasse escarnece assim de uma poesia sempre à procura dos belos efeitos e das comparações floreadas.
Foi também a passagem dos anos e das leituras que me foi dando consciência da fertilidade infinita dos Cantos, dos numerosos procedimentos textuais, visuais e mesmo sonoros que anteciparam, desde a escrita automática, em seguida desenvolvida pelos surrealistas, até ao plágio, que Isidore Ducasse virá mais tarde a defender como necessário (cfr. Poesias II), desde a prática do desvio, retomada depois pelos situacionistas, até à repetição reiterada, modular, circular, como o fazem hoje os samplers. Igualmente a colagem, o ready-made, o cut-up, a apropriação ou a mistura, encontram a sua legitimidade histórica na obra de Isidore Ducasse. E ainda as violências desfigurativas expressionistas, o nihilismo Dada, o No Future punk ou a cultura trash do final do século XX, que tiveram nos Cantos um antecedente em termos de atitude.
Mas mais do que estes ou outros achados formais, o importante é que Os Cantos de Maldoror, passados mais de cem anos da sua primeira edição e quase trinta desde que por eles me aventurei, mantêm intacto o seu poder de atracção. A sua energia continua intocada e com ela o prazer primitivo de derrubar o pai, o mestre, Deus, a autoridade, o prazer físico de transgredir o interdito, de soltar os desejos reprovados, o prazer intelectual de contemplar a escrita, de lhe sentir os avanços, os recuos, os desvios, o humor, o prazer alucinógeno de se deixar levar pelas suas dimensões oníricas, pelos espaços do sonho e da fantasmagoria. E a cada leitura há sempre novos pormenores a descobrir, novas ligações que se estabelecem - que mais podemos ansiar?

Adolfo Luxúria Canibal, in Prefácio para Os Cantos de Maldoror
Edições Quasi

Publicado por dolphin.s em 08:14 PM | Comentários (0)

março 03, 2005

closing time

fechamento

Publicado por jm em 01:21 PM | Comentários (8)