This here is the place I will be staying
There isn’t a number. you can call the pay phone
Let it ring a long, long, long, long time
If I don’t pick up, hang up, call back, let it ring some more
If I don’t pick up, pick up. the sidewinder sleeps, sleeps, sleeps in a coil
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
There are scratches all around the coin slot
Like a heartbeat, baby, trying to wake up,
But this machine can only swallow money
You can’t lay a patch by computer design
It’s just a lot of stupid, stupid signs
Tell her,
Tell her she can kiss my ass, then laugh and say that you were only kidding
That way she’ll know that it’s really, really, really, really me, me
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Baby, instant soup doesn’t really grab me
Today I need something more sub-sub-sub-substantial
A can of beans or blackeyed peas, some nescafe and ice,
A candy bar, a falling star, or a reading of doctor seuss
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
The cat in the hat came back, wrecked a lot of havoc on the way,
Always had a smile and a reason to pretend
But their world has flat backgrounds and little need to sleep but to dream
The sidewinder sleeps on his back
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
I can always sleep standing up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
I can always sleep standing up, call me when you try to wake her
Call me when you try to wake her up, call me when you try to wake her
I can always sleep standing up, call me when you try to wake her
I can always sleep standing up, call me when you try to wake her
We’ve got to moogie, moogie, move on this one
R.E.M.
berry/buck/mills/stipe
A primeira vez que viu morrer, Erzsébet teve algum medo e contemplou o cadáver sem compreender muito bem o que estava a acontecer. Mas foi um pequeno sinal de remorso breve e passageiro. A partir daí, ficou mais interessada no longo tempo que demorava o estertor; e também na duração do prazer sexual necromântico.
Com uma espécie de presunção voluptuosa da sua impunidade lá nas profundezas das caves de Csejthe, foi-se entregando de alma e coração aos jogos com fogo, archotes e candelabros que, com os seus reflexos, tornavam ainda mais expressivas as várias fases de tão insano ritual. Uma forma de felicidade. Sob o último degrau do inconsciente batiam já as asas da loucura. Se assim não fosse, como poderia Erzsébet ter perpetrado tais actos?
Pode compreender-se qual a origem deste prazer sexual, enormemente potenciado pela penumbra atravessada pela vaga luz dos archotes, fora do mundo, quase no interior da terra e baseado na convicção de uma secreta impunidade. São inúmeras as seitas que se dedicaram a práticas eróticas em lugares tão inacessíveis que, depois de se entrar, nem sequer se sabia indicar bem a localização das portas.
Quanto ao prazer da feitiçaria propriamente dito, esse prazer que fez cair sobre Gilles de Rais a ira do tribunal eclesiástico, a que Erzsébet Báthory foi poupada, é o mais indestrutível dos dois. Enquanto o corpo pode fatigar-se e, por isso, chegar ao arrependimento, a mente prossegue o caminho que a pouco e pouco foi traçando como seu, dentro de uma lógica feita de fluidos e sangue. Os crimes nascidos das mais terríveis paixões do corpo podem ser absolvidos: durante o julgamento de Gilles de Rais, o crucifixo foi tapado, por razões de decência, e não voltou a ser referido. Mas que dizer desse círculo mágico que em si mesmo se encerra? Que esperança pode haver nesse universo criado a contrapelo dos antigos sinais vitais por assinaturas de carvão que, uma vez após outra, atingem e selam a mente de modo a convertê-la em cunho de natureza, tanto por alienação posterior como por origem inicial? Que dizer de Erzsébet Báthory, supersticiosa e depravada, com o nariz aquilino prolongando a direito a linha da testa e o queixo pesado e ligeiramente recolhido, evocando ao mesmo tempo a ovelha negra e a ave de rapina que a toma nas garras? Que dizer desta mulher cuja companhia, apesar de tudo, era sempre tão desejada? A verdade é que não é o agradável que fascina mas o insondável. Se um dia fosse possível amar esse género de seres com o conhecimento das causas profundas e reais do seu nascimento, sem os temer e sem temer as forças poderosas que decidiram a sua vinda ao mundo, então deixaria de haver lugar para a crueldade e para o medo.
Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose
tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim
Foi Darvulia quem, logo no ano em que Ferencz Nádasdy morreu, iniciou Erzsébet nos jogos mais cruéis, tendo-lhe ensinado a olhar a morte e o sentido de saber olhar a morte.
A Condessa, até então apenas motivada pelo prazer de fazer sofrer e ver sangrar as suas criadas, refugiou-se sempre na necessidade de punir as faltas cometidas pelas suas vítimas. Agora, o sangue vertido era-o em função de ser sangue e nada mais e a morte era infligida apenas em nome da própria morte. Darvulia descia até às caves para escolher as raparigas que lhe pareciam mais bem alimentadas e resistentes. Ajudada por Dorkó, empurrava-as à sua frente pelas escadas e corredores mal iluminados que iam dar ao lavadouro, onde, muito rígida na sua alta cadeira trabalhada, a senhora se encontrava já, enquanto Ilona Jó e outras mulheres se ocupavam do lume, das ligaduras, das facas e das navalhas. As duas ou três raparigas que haviam sido escolhidas ficavam nuas, de cabelo completamente desgrenhado. Eram muito belas e tinham sempre menos de dezoito anos, algumas pouco mais de doze; Darvulia queria-as muito jovens, porque sabia que, se já tivessem experimentado o amor, o poder mágico do seu sangue ficaria irremediavelmente perdido. Dorkó atava-lhes os braços com muita força e alternava com Ilona Jó nos açoites com uma vara de freixo ainda verde que deixava sulcos profundos e horríveis na carne. Por vezes, era a própria Condessa a encarregar-se de prosseguir. Quando a rapariga já não era senão chaga tumefacta, Dorkó pegava numa navalha e golpeava onde lhe apetecia. O sangue saltava por todo o lado e as mangas brancas de Erzsébet Báthory empapavam-se de todo nesse dilúvio vermelho. Ficava de tal modo coberta de sangue que era obrigada a mudar de roupa. A abóbada e as paredes gotejavam. Quando, finalmente, a rapariga parecia estar prestes a morrer, Dorkó abria com tesouras as veias dos braços onde ainda havia algumas gotas de sangue. Em certos dias, estando farta dos gritos, a Condessa mandava coser as bocas para não ter de ouvir.
Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose
tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim
Os banhos, os repastos e os bailes seguiam o seu curso. Não se ia à caça, porque os banhos fatigavam bastante e a tarde era passada a dormir nos quartos, dada a indolência quente e silenciosa que descia sobre o castelo. Mas, lá nos confins das caves, do outro lado das grossas paredes e dos corredores, um grupo de jovens criadas esfomeadas gemia. Desde há oito dias que Dorzó não lhes dava de comer; e, não contente com isso, ainda as arrastava durante as noites já frescas do Outono até ao exterior para lhes lançar água quase gelada sobre os corpos. Algumas morreram; as outras, de olhos esvaídos e já não podendo mover-se, olhavam através da grade da pequena abertura que dava para o jardim as altas coroas dos girassóis, cheias de sementes cujo gosto insípido imaginavam reconfortante. Na apertada divisão onde estavam encerradas, podiam ouvir os gritos da noite de Setembro nos campos e nos jardins; e, vindos de longe, do outro lado do castelo, os sons da música dos bailes. Dorkó colocou as primeiras raparigas mortas debaixo de uma cama e, apesar de ser o mês de Setembro, viu-se obrigada a arranjar peles de animais para poder cobri-las; ao mesmo tempo, para que ninguém desconfiasse, fazia questão em ser vista a transportar comida, como se as prisioneiras ainda estivessem vivas. O cheiro começava a ficar cada vez mais pestilento e Dorkó teve de valer-se de tudo e mais alguma coisa para persuadir um lacaio a enterrar os cadáveres.
Quando chegou o tempo de partir de novo, Erzsébet mandou chamar as criadas; mas as sobreviventes encontravam-se num tal estado de fraqueza que não podiam caminhar. Ficou muito irritada e acusou Dorkó de ter excedido as suas instruções: já não lhe bastava ter de viajar sem séquito e aborrecer-se todo o tempo da viagem até Csejthe? Entretanto, a menos depauperada de todas as raparigas foi empurrada para dentro da carruagem. Morreu na viagem. Com as outras não se preocupou; foram deixadas, moribundas, à guarda de Dorkó, que terá então passado um dos momentos mais desagradáveis da sua vida. Tinha já lançado alguns corpos nas valas em redor do castelo, mas, uma vez que vieram à superfície, teve de recolhê-los outra vez e procurar rapidamente um sítio onde pudessem ficar dissimulados. Acabou por escolher um pedaço de terra branda no quintal, que tinha cenouras plantadas e onde se amontoavam já outras raízes comestíveis destinadas a fazer face aos rigores do Inverno, e conseguiu convencer os lacaios a enterrarem os corpos aí. O cão de Miklós Zrinyi, um enorme galgo de focinho comprido, descobriu-os no decurso de um passeio com o dono, pondo-se aos pulos à sua volta, sabe Deus com que horrível pedaço de carne humana na boca. A partir daí, Zrinyi passou a olhar a sogra possuído de enorme horror, embora tenha permanecido em silêncio acerca da prova que a incriminava. Agora já não era possível procurar qualquer espécie de desculpa. A história desse cão maldito amedrontou os lacaios. Recusaram continuar a ajudar Dorkó, que não se atreveu a enterrar mais cadáveres enquanto os convidados não partissem. Teve de contentar-se em ir jogando cal sobre as mortas, que escondera num sítio de onde saía um cheiro tão horrível que os lacaios recusavam ir a essa zona do castelo. Quando, por fim, ficou só, andou cinco noites a cavar fossas no jardim e a transportar para lá os sinistros fardos.
Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose
tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim
A partir de 1604, o ano da morte do conde Nádasdy, uma criatura misteriosa adquirira enorme poder sobre a mente de Erzsébet Báthory. Vinha do coração da floresta e a ela regressava, em certas noites, para uivar à lua; e, sempre seguida pelos seus gatos pretos, voltava novamente ao castelo e coroava-se de ervas escuras e prateadas, de artemísia e meimendro, dançava com a sua própria sombra nas clareiras entre as árvores e esconjurava as antigas divindades.
Ninguém a conhecia. Era a «feiticeira da floresta». Feiticeira desde sempre, vivera em tempos na região de Sárvár, onde tinha por hábito observar Erzsébet de longe, quando esta galopava pelos campos, destruindo as colheitas. Chamava-se Anna, mas por qualquer razão desconhecida tinha escolhido o nome de Darvulia. Era muito velha, colérica e sem coração: um verdadeiro e terrível monstro. Encontrara nos olhos de Erzsébet tudo o que havia de maléfico nos venenos da floresta e na insensibilidade desértica da Lua e adivinhara neles a escravatura psíquica própria de uma terra negra a explorar, disponível para aceitar as suas sementes. Era de húmus assim que extraía os seus poderes, feitos do instinto que liga irrevogavelmente a feitiçaria a tudo quanto é viperino, venenoso e l capaz de morte. Erzsébet, na sua passividade saturnina, abandonou-se a esses poderes; a sua megalomania e o seu gosto pelo vazio deixavam-na sempre disponível para receber e para aceitar tais poderes. E foi Darvulia quem lhe pôs à disposição os frutos maduros da loucura. Fê-lo por efeito da magia, mas também através dos meios mais sórdidos, suprimindo com eficácia todo e qualquer obstáculo exterior que a Condessa pudesse não ser capaz de ultrapassar. A Lua estava em Capricórnio e, por isso, era o momento certo para fazer o banho no meio da noite, enquanto se queimavam acres resinas ao som de um esconjuro interminável e monótono. Darvulia, na sala subterrânea e secreta como uma cripta, traçava, com a paciência própria dos feiticeiros, círculos e signos, ao mesmo tempo que desenrolava todo o seu grimório sem nunca se enganar no intrincado labirinto dos poderes negros. E, dominando-os e fazendo com que voltassem a acordar, vivia a sua própria magia perante a enfeitiçada Erzsébet, comungando com ela o único sacramento que desejava partilhar.
Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose
tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim