dezembro 26, 2004

Brilho no Natal

Árvore de Natal (celuloide)

Publicado por dolphin.s em 10:59 AM | Comentários (9)

dezembro 25, 2004

regressaste à primeira pedra

regressaste à primeira pedra
roçada nas paredes, nos portões
na memória,
usada no bolso
apertada contra ti
quando o tempo escasseou
e os outros te consideraram mais forte
cravada na besta,
contra os inimigos,
atrás da presa,
sibilante nos ares,
material de troca,
inscrição perpétua,
ícone de protecção,
dentro de ti
como uma casa
fria, muda e fechada




Ana Paula Inácio, in Vago pressentimento, azul por cima

Publicado por jm em 11:11 AM | Comentários (0)

dezembro 24, 2004

O Anjo Afligido

Há muito que se conserva ali sozinho. Adivinha-se o esforço que fazia
para esconder o próprio corpo. É que se tornaram nele as vestes mais
frágeis. A luz atravessa-as. Depois, uma ruga forma-se e descai
como uma suspeita. O que se pode saber de um sinal que fica pouco nítido
e não era diferente do caminho de qualquer veia? Mesmo que se estenda
uma das mãos, como se viesse agora proteger-nos, sabíamos como este gesto
era para nós demasiado leve. Nada que lhe fosse atribuído podia sequer
existir. Sempre há-de tornar-se maior a agonia para quem se habituou
a olhar para tão longe. A claridade diminui. Espalham-se as sementes
até onde ficava a sombra dos seus pés. Permanecem aí escondidas. Talvez
procurassem o que se parecia agora com uma despedida. Há muito
esperava as preces que sabia estarem prometidas. Nenhuma dor
existe nele; mas todos os dias a pensa. Caídas pelos olhos, as lágrimas.



Fernando Guimarães, in Lições de Trevas

Publicado por jm em 12:45 PM | Comentários (2)

Recanto 18

Desses «em guerra» vos falo falo dos que me seguem
não os chamámos seguiram-nos
todos descremos e rimos por dinheiro não trocámos
projectados para a morte não traímos
Luiza Neto Jorge
Eu e ele somos a espaços
improváveis veículos (eu e vós)
mestres voadores numa convulsão de cigarros mestres
reptantes redemoinho meu ressaca viva oculto vinho
oculto amor

o nosso vedado o mundo tão exíguo e o dos outros
(luzes água planetas mecanismos ambíguos) mais
exíguo

Amamos o mundo (quem?) o tempo (qual?) a luz (quando?)
a treva (onde?) tudo (?) todos (?!)
trepidantes trémulos
com a ajuda mental de partículas
de merda

ou simples estados, frenesis, convulsivos, objectos,
alibis, a pique, patológicos,
risos, redundâncias, aços, lascados, alarmados,
conhecemos — além de nós, reais, —
os reis, os resíduos, o dente liliputiano
no sorriso do arcanjo.



Luiza Neto Jorge, in poesia

Publicado por jm em 12:18 PM | Comentários (0)

dezembro 12, 2004

sinais

Algumas certezas são lages
Onde te sentas num dia muito quente
E pões muito ah
Quando começas a chover
Quando percebes as ruas
Que nos atiram para muito longe
Que nos separam
Como travessões e vírgulas.

Escreves para enganar a solidão
Vives o kitsch e o design dos móveis
Vais à janela ver outra janela
Pressentir, lá em baixo, o cimento
O alcatrão, cenários assim de miséria
Onde te te queres como exemplo.
Abres a torneira do poliban
Deixas a água salobre chegar ao estômago.



Carlos Bessa, in Em Trânsito

Publicado por jm em 09:26 PM | Comentários (5)

dezembro 10, 2004

All Stripped Down

Cavalheiro idoso, calvo e sem jeito
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.

Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.



Manuel de Freitas, in O Coração de Sábado à Noite

Publicado por jm em 07:18 PM | Comentários (6)