Now the clocks chimed, first in relay, then in unison.
'If you could, Love,' said the King.
Against the wall on the landing's carpeted plateau stood a chiffonier the size of a medieval fireplace. This now began to turn, to slide outwards on its humming axis. And in came He Zizhen, greatgranddaughther of concubines.
Love bade her welcome.
When the clocks chimed again He began to undress. This would take her some time. The King, already naked, lay helplessly on the chaise-longue, like a child about to be changed. As she removed her clothers He caressed him with them, and then with what the clothes contained. He touched him. He touched He. He was hard. He was soft. He touched him and he touched He.
There came a ping, a vibration, from the chandelier.
Martin Amis, in Yellow Dog
Por terra de Molloy entendo a região bastante restrita que nunca franqueou, e verosimilmente nunca franqueará os limites administrativos, seja porque lhe esteja interdito, seja porque não tenha vontade de o fazer, seja, naturalmente, pelo efeito de um extraordinário acaso. Esta região estava situada a norte, relativamente àquela mais amena onde eu vivia, e era constituída por um aglomerado que alguns mimoseavam com o nome de vila e onde outros mais não viam do que uma aldeia e campos circunvizinhos. Esta vila, ou aldeia, digamo-lo já, chamava-se Bally, e ocupava, em conjunto com as terras na sua dependência, sensivelmente, uma superfície de cinco a seis milhas quadradas. Nos países evoluídos chama-se a isto uma comuna, creio, ou um cantão, não sei, mas entre nós não existe um termo abstracto e genérico para estas subdivisões do território. E para as expressar temos um outro sistema, de uma beleza e simplicidade excepcionais, e que consiste em dizer Bally (pois que se trata de Bally) quando se pretende dizer Bally e Ballyba quando se pretende dizer Bally mais as terras e aferentes e Ballybaba quando se pretende dizer as terras de Bally exclusivas da própria Bally. Eu, por exemplo, vivia, e, pensando bem, ainda vivo, em Shit, centro principal de Shitba. À tarde, quando ia passear, para apanhar ar fresco, em redor de Shit, era o ar de Shitbaba que apanhava, e não outro.
Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias
Que um homem como eu, simultaneamente meticuloso e calmo, atento tão pacientemente ao exterior como ao mais pequeno defeito, senhor da sua casa, do seu jardim,
das suas algumas pobres posses, executando fielmente e com habilidade um trabalho repugnante, detendo o seu pensamento nos limites do cálculo, por ter um imenso horror ao incerto, que um homem assim fabricado, porque eu era uma fabricação, se deixe assediar e possuir por quimeras, isso ter-me-ia parecido estranho, obrigando-me mesmo a colocar tudo em ordem, no meu próprio interesse. Isto não era nada. Não via nisto senão uma necessidade de eremita, necessidade certamente pouco recomendável, mas que deveria satisfazer, se quisesse manter-me solitário, e eu desejava-o, com tão pouco entusiasmo como às minhas galinhas ou à minha fé, mas com a mesma clarividência. Por outro lado, isso ocupava um espaço muito limitado na inenarrável marcenaria que era a minha existência, apenas a comprometia com os meus sonhos, mas também depressa se esquecia. Isolar o fogo antes da conflagração sempre me pareceu razoável. E eu poderia contar a minha vida que nunca teria feito alusão a estas presenças, e à do infortúnio de Molloy menos ainda que a qualquer outra. Porque havia outras, igualmente possíveis de agarrar.
Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias
Não, nunca me evadi, e até os limites da minha terra eu ignorava. Mas acreditava-os bastante alargados. Mas esta crença não era baseada em nada de sério, era uma simples crença. Porque, se os limites da minha terra estivessem ao alcance dos meus passos, imagino que uma espécie de gradação mo teria feito pressenti-lo. Porque as terras não acabam bruscamente, que eu saiba, mas fundem-se, insensivelmente, umas nas outras. E eu nunca notei nada do género. Por muito longe que tenha ido, num sentido como noutro, este foi sempre o mesmo céu, a mesma terra, exactamente, dia após dia, e noite após noite. Por outro lado, se as terras se fundem, insensivelmente, umas nas outras, o que está por provar, é possível que tenha saído da minha muitas vezes, julgando estar sempre nela. Mas preferia agarrar-me à minha simples crença, aquela que me dizia, Molloy, a tua terra é de uma grande amplitude, nunca saíste nem nunca sairás dela. E por onde quer que erres, entre os seus longínquos limites, será sempre a mesma, precisamente. O que levava a crer que as minhas deslocações nada deviam aos lugares que elas faziam desaparecer, mas sim a outra coisa, à roda empenada que me conduzia, por imprevisíveis sacões, de fadiga em descanso, e inversamente, por exemplo. Agora já não erro, por lado nenhum, e até quase não me mexo e, no entanto, nada mudou. E os limites do meu quarto, da minha cama, do meu corpo estão tão longe de mim como os da minha terra, no tempo do meu esplendor.
Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias
Deito-me sempre muito cedo, e estafado, e no entanto não é visível, no meu dia de trabalho, nada de cansativo.
É possível que não se dê mesmo por nada.
Mas a mim, o que me espanta, é poder aguentar até à noite, e não ser obrigado a ir-me deitar logo às quatro da tarde.
O que me cansa são as minhas contínuas intervenções.
Já disse que na rua andava à pancada com toda a gente. Dou bofetadas num tipo, apalpo as mamas às mulheres, e servindo-me do meu pé como dum tentáculo, semeio o pânico nas carruagens do Metropolitano.
Quanto aos livros, são os que mais me dão cabo da cabeça. Não deixo uma palavra com o seu sentido, nem sequer com a sua forma.
Agarro-a e, após alguns esforços, arranco-lhe a raiz e desvio-a definitivamente da manada do autor.
Num capítulo há logo milhares de frases, e lá tenho eu que as sabotar todas. Isso é-me necessário.
Às vezes, algumas palavras resistem como torres. Tenho que atacá-las várias vezes e, já bem lançado nas minhas devastações, subitamente, na esquina de uma ideia, revejo a torre. Por conseguinte, não a tinha suficientemente demolido. Tenho que voltar ao princípio e encontrar o veneno para ela, e nisto passo tempos infinitos.
E uma vez lido o livro inteiro, lamento-me, pois não percebi nada... naturalmente. Não consegui engordar nada. Continuo magro e seco.
Eu pensava (não era?) que quando tivesse destruído tudo, encontraria o equilíbrio. Possivelmente. Mas o que isso demora, quanto demora!
Henri Michaux, in As Minhas Propriedades
Sheila pretended to be listening intently to every word Dawn spoke. She had to be pretending. Not even she could have recovered so completely from the eruption in Dawn's study. If she had—well, it would be hard then to say what sort of woman she was. She was nothing like the one he had imagined. And that was not because she had been passing herself off with him as something else or somebody else but because he had understood her no better than he was able to understand anyone. How to penetrate to the interior of people was some skill or capacity he did not possess. He just did not have the combination to that lock. Everybody who flashed the signs of goodness he took to be good. Everybody who flashed the signs of loyalty he took to be loyal. Everybody who flashed the signs of intelligence he took to be intelligent. And so he had failed to see into his daughter, failed to see into his wife, failed to see into his one and only mistress—probably had never even begun to see into himself. What was he, stripped of all the signs he flashed? People were standing up everywhere, shouting "This is me! This is me!' Every time you looked at them they stood up and told you who they were, and the truth of it was that they had no more idea of who or what they were than he had. They believed their flashing signs too. They ought to be standing up and shouting, "This isn't me! This isn't me!" They would if they had any decency. "This isn't me!" Then you might know how to proceed through the flashing bullshit of this world.
Philip Roth, in American Pastoral
That people were manifold creatures didn't come as a surprise to the Swede, even if it was a bit of a shock to realize it anew when someone let you down. What was astonishing to him was how people seemed to run out of their own being, run out of whatever the stuff was that made them who they were and, drained of themselves, turn into the sort of people they would once have felt sorry for. It was as though while their lives were rich and full they were secretly sick of themselves and couldn't wait to dispose of their sanity and their health and all sense of proportion so as to get down to that other self, the true self, who was a wholly deluded fuckup. It was as though being in tune with life was an accident that might sometimes befall the fortunate young but was otherwise something for which human beings lacked any real affinity. How odd. And how odd it made him seem to himself to think that he who had always felt blessed to be numbered among the countless unembattled normal ones might, in fact, be the abnormality, a stranger from real life because of his being so sturdily rooted.
Philip Roth, in American Pastoral
palavras para quê... :))))))))))
Jesus loves me
But not my wife
Not my nigger friends
Or their nigger lives
But jesus loves me
That's for sure
'Cause the bible tells me so
Read your bible good and well
Don't forget about that apple spell
Don't fall in the wishing well
Wishing for heaven and gettin' hell
Wash behind your eras don't smell
Cover them freckles don't ask don't tell
Kiss your papa but not too long
Hold his hands
Don't do no wrong
Jesus loves me
But not my wife
Not my nigger friends
Or their nigger lives
But jesus loves me
That's for sure
'Cause the bible tells me so
Hush don't cry
Dry them tears
Time'll wash away all them years
Scare or a bruise
Pick and choose
When you're all grown up
You'll have the blues
Life'll give you that wedding ring
Fancy cars and diamond things
You best believe in jesus' way
And never fall asleep forgetting to pray
Jesus loves me
But not my wife
Not my nigger friends
Or their nigger lives
But jesus loves me
That's for sure
'Cause the bible tells me so
cocorosie
You fight your superficiality, your shallowness, so as to try to come at people without unreal expectations, without an overload of bias or hope or arrogance, as untanklike as you can be, sans cannon and machine guns and steel plating half a foot thick; you come at them unmenacingly on your own ten toes instead of tearing up the turf with your caterpillar treads, take them on with an open mind, as equals, man to man, as we used to say, and yet you never fail to get them wrong. You might as well have the brain of a tank. You get them wrong before you meet them, while you're anticipating meeting them; you get them wrong while you're with mem; and then you go home to tell somebody else about the meeting and you get them all wrong again. Since the same generally goes for them with you, the whole thing is really a dazzling illusion empty of all perception, an astonishing farce of misperception. And yet what are we to do about this terribly significant business of other people, which gets bled of the significance we mink it has and takes on instead a significance that is ludicrous, so ill-equipped are we all to envision one another's interior workings and invisible aims? Is everyone to go off and lock the door and sit secluded tike the lonely writers do, in a soundproof cell, summoning people out of words and then proposing that these word people are closer to the real thing than the real people that we mangle with our ignorance every day? The fact remains that getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong mat is living, getting mem wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting mem wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that—well, lucky you.
Philip Roth, in American Pastoral
É uma terra improvável, de olhar baixo,
bovino, indiferente ao que vai escurecendo
e readquire vida através das palavras.
Se aqui chegasse pela primeira vez
não adivinharia a cinza por detrás do lume,
o limiar do deserto
emboscado no largo que atravesso
para de novo pernoitar numa fria pensão,
a longa noite de Inverno.
Sejamos realistas: alguns, poucos, recusam
escrever com mãos de porcelana.
Outros, o que dizem religiosamente sentir
não sentem.
O que dizem filosoficamente pensar
não pensam.
Antes de publicarem um novo livro
fazem conferências onde citam, elogiam
os seus colegas de departamento,
e rebaptizam o inesperado
com conceitos que não compreendem
e amontoam, sem sentido, na véspera
do dia do Senhor.
É uma terra improvável, de olhar baixo,
bovino, indiferente ao que vai escurecendo
e readquire vida através das palavras.
Se aqui chegasse pela primeira vez
não adivinharia a cinza por detrás do lume,
o limiar do deserto
emboscado no largo que atravesso
para de novo pernoitar numa fria pensão,
a longa noite de Inverno.
Sejamos realistas: alguns, poucos, recusam
escrever com mãos de porcelana.
Outros, o que dizem religiosamente sentir
não sentem.
O que dizem filosoficamente pensar
não pensam.
Antes de publicarem um novo livro
fazem conferências onde citam, elogiam
os seus colegas de departamento,
e rebaptizam o inesperado
com conceitos que não compreendem
e amontoam, sem sentido, na véspera
do dia do Senhor.
Achado o erro, o logro em que tombaram,
meses depois
tentam diligentemente desdizer
o que afirmaram ou escreveram,
a memória um campo minado.
Os inimigos da filosofia
estão dentro da filosofia.
Jorge Gomes Miranda, in O Caçador de Tempestades