outubro 31, 2004

um momento

a voz cronometrar a voz não é minha o silêncio cronometrar o silêncio isso poderia ajudar-me hei-de ver fazer qualquer coisa qualquer coisa santo Deus

maldizer Deus nenhum som anotar mentalmente a hora e esperar meio-dia meia-noite maldizer Deus ou bendizê-lo e esperar relógio na mão mas os dias essa palavra de novo como fazer sem memória arrancar um bocado ao saco fazer nós ou a corda não tenho força


Samuel Beckett, in Como É

trad. Maria do Carmo Abreu

Publicado por jm em 11:02 PM | Comentários (1)

outubro 22, 2004

Zachto?

There are several names for what happened in Germany and Poland in the early 1940's. The Holocaust, the Shoa, The Wind of Death. In Romani it is called the Porreimos - the Devouring. There are no names for what happened in the Soviet Union between 1917 and 1953 (although Russians refer, totemically, to 'the twenty million', and to the Stalinshchina - the time of Stalin's rule). What should we call it? The Decimation, the Fratricide, the Mindslaughter? No. Call it the Zachto? Call it the What For?


Martin Amis, in Koba, the Dread


Publicado por dolphin.s em 02:50 PM | Comentários (9)

outubro 21, 2004

respirar


viajar de comboio...



Publicado por dolphin.s em 12:12 PM | Comentários (0)

outubro 20, 2004

sem desculpas.

Dostoievsky escreve: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido. Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada não há desculpas para ele. não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.
Se deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas.


Jean-Paul Sartre, in O Existencialismo é um Humanismo

Publicado por dolphin.s em 11:02 AM | Comentários (3)

outubro 18, 2004

Dói-me

Dói-me o calcanhar de aquiles, os cabelos de dalila e a próstata de salomão, dói-me o coração e as mãos, onde andam as minhas mãos sem as tuas? Andam em sacos de plástico, em cigarros, em guarda-chuvas, andam na minha cabeça, dois dedos de cada mão batem na minha cabeça — acorda o cavalo, o cavalo cresceu.



Nuno Moura, in CALENDÁRIO das dificuldades diárias

Publicado por jm em 03:23 PM | Comentários (1)

outubro 17, 2004

Andrey Tarkovsky em Paris

Perdeste. Não sabes o quê.
E procuras.

Algo de impreciso, uma nuvem
ao entardecer, imagem
capaz de restituir a luz que vai declinando
na casa, no corpo, no rosto,
até nada mais restar do que
um lugar vazio,
a memória.

Perdeste. Há quanto tempo
não sabes.
Algo que sempre te acompanhou,
e não é sombra,
pois carece de contornos.
Algo que te foi destinado: mensagem,
quando estavas fora de casa;
olhar, ao qual distraído não respondeste;
pergunta, feita por essas mãos
junto às tuas, fechadas.

Algo para o qual nunca tiveste nome
e tempo dentro de ti:
passagem de um livro que ainda não leste,
pormenor de uma pintura a descobrir;
trecho de música por escutar,
fala de um filme que não viste?

Não adianta tentares adivinhar.
O que perdeste não foi um modo de compreensão
do mundo, o seu peso e leveza
da retina à película.
Se calhar, essa perda aconteceu na época
em que finalmente alcançavas
aquilo a que os estóicos chamavam serenidade?
O método de pelos restantes dias
esperar o inferno da doença,
sem que o receio da morte
transforme a arte num poço.

Aquilo que perdeste,
perdeste-o acaso para que um outro o alcançasse,
neste momento?



Jorge Gomes Miranda, in O Caçador de Tempestades

Publicado por jm em 09:26 PM | Comentários (1)

outubro 14, 2004

exílio

ORESTES


Também para os meus, Júpiter. E até para a minha garganta que forma as palavras e para & minha língua que as modela à passagem; é com dificuldade que me compreendo a mim próprio. Ainda ontem tu eras como um véu sobre os meus olhos e um tampão de cera nos meus ouvidos; ontem eu tinha uma desculpa: eras tu a minha desculpa de existir, pois me tinhas posto no mundo para servir os teus desígnios e o mundo era uma velha alcoviteira que me falava de ti sem cessar. E de repente, abandonaste-me.


JÚPITER


Abandonar-te, eu?


ORESTES


Ontem, estava junto de Electra; toda a natureza, essa sereia, se agitava à minha volta, a cantar o Bem e a prodigalizar-me conselhos. Para me incitar à brandura, o dia escaldante suavizava-se como um olhar velado; para me pregar o perdão das ofensas, o céu estava tão calmo como uma absolvição. A minha juventude, obedecendo às tuas ordens, tinha-se erguido e aí estava ela diante dos meus olhos suplicante como uma noiva que se vai abandonar, pois era a última vez que eu a olhava. Mas de repente, sobre mim abateu-se a liberdade que me paralisou; recuou a natureza e foi como se já não tivesse idade. Sozinho fiquei no meio desse teu pequeno e doce mundo como alguém que tivesse perdido a própria sombra. E nada mais há no céu, nem o Bem nem o Mal, nem ninguém para me dar ordens.


JÚPITER


E então? Serei por acaso obrigado a apreciar a ovelha que a sarna faz expulsar do rebanho, ou o leproso encerrado no seu lazareto? Não te esqueças disto, Orestes: fizeste parte do meu rebanho e comeste a erva dos campos no meio das minhas ovelhas. A tua liberdade não passa duma sarna a fazer-te comichão, não é mais do que um exílio.


ORESTES


Dizeis a verdade: é um exílio.



Jean-Paul Sartre, in As Moscas


Publicado por dolphin.s em 11:50 AM | Comentários (7)

outubro 11, 2004

Tudo depende.

Martin AmisRepare nisto: aos olhos dos assassinos comuns, os polícias não são de fiar. Para o pedófilo experimentado, o olhar ingénuo de uma criança é um olhar de luxúria voraz. Mais ou menos da mesma maneira, para os necrófilos activos, as pessoas vivas já estão mortas.
É muitas vezes uma grande prova de afecto deixarmos sozinhas as pessoas de quem gostamos. Quem já tenha chocado com um candeeiro sabe que qualquer velocidade acima de zero, não, obrigado.
Algumas pessoas olham para o pôr do Sol e só conseguem ver sangue no céu ameaçador. E quando, à tardinha, vêem aproximar-se um crucifixo aéreo vindo do ocidente, limitam-se a suspirar, ficando agradecidos por outro Avião ter escapado do inferno.
Se às vezes não se sentir um pouco louco, então acho que você deve estar doído. Todos os clichés são verdadeiros. Ninguém sabe o que há-de fazer. Tudo depende da maneira como se encara as coisas.


Martin Amis, in Os Outros

Publicado por dolphin.s em 09:41 PM | Comentários (7)