setembro 30, 2004

beware

Publicado por dolphin.s em 08:23 PM | Comentários (4)

setembro 29, 2004

Sofrimento - purificação do pecado

O argumento cristão habitual é que o sofrimento, neste mundo, constitui uma purificação do pecado, sendo assim, uma boa coisa. Tal argumento não passa, naturalmente de uma racionalização do sadismo; seja, porém, como for, é um argumento muito fraco. Eu convidaria qualquer cristão a que me acompanhasse ao pavilhão infantil de um hospital, a fim de observar o sofrimento que é lá suportado, para ver se continuaria a afirmar que aquelas crianças eram tão corruptas, moralmente, a ponto de merecerem o que estavam sofrendo. Para que possa dizer tal coisa, um homem tem que destruir em si mesmo todos os sentimentos de misericórdia e de compaixão. Deve, em suma, tornar-se tão cruel como o Deus em que crê. Homem algum que acredite ser para o bem tudo o que acontece neste mundo de sofrimento poderá manter intactos os seus valores morais, já que está sempre encontrando escusas para a dor e a miséria.


Bertrand Russell, in Porque não sou Cristão

Publicado por dolphin.s em 11:31 AM | Comentários (18)

setembro 28, 2004

O medo - a base da Religião

A religião baseia-se principalmente e antes de tudo, no medo. É, em parte, o terror do desconhecido e, em parte, como já o disse, o desejo de sentir que se tem uma espécie de irmão mais velho que se porá do nosso lado em todas as nossas dificuldades e disputas. O medo é a base de toda essa questão: o medo do mistério, o medo da derrota, o medo da morte. O medo é a fonte da crueldade e, por conseguinte, não é de estranhar que a crueldade e a religião tenham andado de mãos dadas. O medo é a base dessas duas coisas.


Bertrand Russell, in Porque não sou Cristão

Publicado por dolphin.s em 08:46 PM | Comentários (4)

setembro 27, 2004

Sacramento indissolúvel

Não é um facto agradável, mas as Igrejas nos obrigam a referir-nos a factos que não são agradáveis. Suponhamos que, neste mundo em que hoje vivemos, uma jovem inexperiente case com um homem sifilítico. Neste caso, a Igreja Católica diz: "Esse é um sacramento indissolúvel. Devem permanecer juntos por toda a vida". E nenhum passo deve ser dado por essa mulher no sentido de evitar que dê à luz filhos sifilíticos. Isso é o que diz a Igreja Católica. Quanto a mim digo que isso constitui uma crueldade diabólica, e ninguém cujas simpatias naturais não tenham sido embotadas pelo dogma, ou cuja natureza moral não esteja inteiramente morta a todo o sentido de sofrimento, poderia afirmar que é justo e certo que tal estado de coisas deva continuar.

Bertrand Russel, in Porque não sou Cristão


Publicado por dolphin.s em 10:08 AM | Comentários (23)

setembro 26, 2004

O factor emocional

Como já disse, não creio que a verdadeira razão pela qual as pessoas aceitam a religião tenha algo que ver com argumentação. Aceitam a religião por motivos emocionais. Dizem-nos com frequência que é muito mau atacar-se a religião, pois que a religião torna os homens virtuosos. Isso é o que me dizem; eu jamais o percebi. Conheceis, por certo, a paródia desse argumento, tal como é apresentado no livro Erewhom Revisited, de Samuel Butler. Vós vos lembrais de que, em Erewhom, há um certo Higgs que chega a um país remoto e que, após passar lá algum tempo, foge do país num balão. Vinte anos depois, volta ao mesmo país e encontra uma nova religião, na qual é ele adorado sob o nome de "Filho do Sol", e na qual se afirma que ele subiu ao céu. Verifica que a Festa da Ascensão está prestes a ser celebrada, e ouve os Professores Hanky e Panky dizer entre si que jamais puseram os olhos no tal Higgs e que esperam não o fazer jamais — mas eles são os altos sacerdotes da religião do Filho do Sol. Higgs sente-se muito indignado e, aproximando-se deles, diz-lhes: "Vou desmascarar todo este embuste e dizer ao povo de Erewhom que se tratava apenas de mim, Higgs, e que subi num balão". Responderam-lhe: "Não deve fazer isso, pois toda a moral deste país gira em torno desse mito e, se souberem que você não subiu ao céu, todos os seus habitantes se tornarão maus". Persuadido disso, Higgs afasta-se do país silenciosamente.
Eis aí a ideia — a de que todos nós seríamos maus se não nos apegássemos à religião cristã. Parece-me que as pessoas que se apegaram a ela foram, em sua maioria, extremamente más. Tendes este fato curioso: quanto mais intensa a religião em qualquer época, e quanto mais profunda a crença dogmática, tanto maior a crueldade e tanto pior o estado de coisas. Nas chamadas idades da fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã em toda a sua inteireza, houve a Inquisição, com as suas torturas; houve milhares de infelizes mulheres queimadas como feiticeiras — e houve toda a espécie de crueldade praticada sobre toda a espécie de gente em nome da religião.
Constatareis, se lançardes um olhar pelo mundo, que cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor
tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo. Digo, com toda convicção, que a religião cristã, tal como se acha organizada em suas Igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso no mundo.


Bertrand Russell, in Porque não sou Cristão

Publicado por dolphin.s em 07:03 PM | Comentários (10)

setembro 20, 2004

I'd just be the catcher in the rye

J. D. Salinger, in The Catcher in the Rye"You know what I'd like to be? I mean if I had my goddam choice?"
"What? Stop swearing."
"You know that song 'If a body catch a body comin' through the rye'? I'd like-"
It's 'If a body meet a body coming through the rye'!" old Phoebe said. "It's a poem. By Robert Burns."
I know it's a poem by Robert Burns."
She was right, though. It is "If a body meet a body coming through the rye." I didn't know it then, though,
"I thought it was 'If a body catch a body,'" I said. "Anyway, I keep picturing all these little kids playing some game in this big field of rye and all. Thousands of little kids, and nobody's around—nobody big, I mean—except me. And I'm standing on the edge of some crazy cliff. What I have to do, I have to catch everybody if they start to go over the cliff—I mean if they're running and they don't look where they're going I have to come out from somewhere and catch them. That's all I'd do all day. I'd just be the catcher in the rye and all. I know it's crazy, but that's the only thing I'd really like to be. I know it's crazy."
Old Phoebe didn't say anything for a long time. Then, when she said something, all she said was, "Daddy's going to kill you."


J. D. Salinger, in The Catcher in the Rye

Publicado por dolphin.s em 03:21 PM | Comentários (0)

setembro 18, 2004

Nightawks at the dinner

Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa-me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase-silêncio desabrigado e informe.

Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo-nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual - um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.

Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Sò nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagess de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.

O vinho depressa acabou, e é entre os teus seios
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar-nos-á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há-de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
- do lado mais esquivo da morte.

Mas bastam-me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração.



Manuel de Freitas, in Os Infernos Artificiais

Publicado por jm em 03:13 AM | Comentários (3)

setembro 17, 2004

There Is A Light That Never Goes Out

Take me out tonight
Where there's music and there's people
And they're young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and I
Want to see life
Driving in your car
Oh, please don't drop me home
Because it's not my home, it's their
Home, and I'm welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I don't care
I don't care, I don't care
And in the darkened underpass
I thought Oh God, my chance has come at last
(But then a strange fear gripped me and I
Just couldn't ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I don't care
I don't care, I don't care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven't got one, da ...
Oh, I haven't got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out
There Is A Light And It Never Goes Out



Stephen Morrissey

Publicado por jm em 09:39 PM | Comentários (1)

Saudi mother and her children




© National Geographic
Jodi Cobb

Publicado por jm em 09:01 PM | Comentários (1)

setembro 15, 2004

Taxi blues

para as mulheres que vendem o corpo na rua de Artilharia Um

Também eles as podem ver,
com os cérebros eunucos
que ejacularam de mais
o nada que tinham para dizer.
É ouvi-los a dissertar tão «machos»,
às voltas com um sufixo grego
(elevado vírus) que conhecem
tão bem como o rosto vazio
com bigode à frente que penduram
sobre um volante alarve.

Mas deixemos estar a Artilharia Um,
o filme homónimo e russo,
os soluços que por um acaso qualquer
fugiram ao nosso querer. A noite
em Lisboa, chovida, é epitáfio bastante
para os corpos que perdem e perdem,
esquecidos no lugar de perderem.

A fraca certeza radiofónica
deixa o silêncio crescer desabrido,
ruas sobre ruas a arder.

Também eles as podem ver,
como incinerações descontínuas
que mendigam mais do que dão,
dando embora mais do que têm.



Manuel de Freitas, in Os Infernos Artificiais

Publicado por jm em 05:14 PM | Comentários (0)

setembro 14, 2004

palavras

Em tempo de pouca imaginação está construída uma nova ciência: a ciência de formular o amor em frases; como um estudo experimental, em que se sabe já, com absoluta certeza, que efeitos práticos ou consequências morais têm certas frases no corpo de um homem ou de uma mulher, num sábado à noite.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Publicado por dolphin.s em 01:48 PM | Comentários (2)

setembro 10, 2004

Trabalha-se por hábito

- Por que são a um tal ponto desdenhosos? - perguntou Chloé. - Trabalhar não é coisa assim tão boa...
- Disseram-lhes que é bom - respondeu Colin. - Em geral costuma achar-se que é bom. Mas a verdade é que ninguém pensa assim. Trabalha-se por hábito, justamente para não pensarmos nisso.
- De qualquer forma, é idiota fazer um trabalho que pode ser feito pelas máquinas.
- E preciso construir máquinas - disse Colin. - Quem o fará?
- Oh! Claro! - disse Chloé. - Para fazer um ovo é preciso uma galinha, e uma vez que haja galinha podemos ter uma porção de ovos. Portanto, mais vale começar pela galinha.
- Seria preciso saber o que impede a construção das máquinas - disse Colin. - É, com certeza, falta de tempo. As pessoas perdem tempo a viver, por isso já lhes não sobra nenhum para trabalhar.
- Não será antes o contrário? - disse Chloé.
- Não - disse Colin. - Se tivessem tempo para construir máquinas, depois já não seria preciso fazer mais nada. O que eu quero dizer é que trabalham para viver, em vez de trabalharem para construir máquinas que iriam levá-los a viver sem trabalhar.
- É complicado - concluiu Chloé.
- Não - disse Colin. - É muito simples. A coisa deveria dar-se progressivamente, bem entendido. Mas perde-se tanto tempo a fazer coisas que se gastam...
- Não acreditas que gostassem mais de ficar em casa a dar beijos à mulher, de ir à piscina e a divertimentos?
- Não - disse Colin -, porque não pensam nisso.
- Mas será culpa deles, se pensam que trabalhar é bom?
- Não - disse Colin -, a culpa não é deles. Foi porque lhes disseram: «O trabalho é sagrado, é bom, é belo, é o que acima de tudo conta, e só os que trabalham têm direito a tudo». Mas sucede que as coisas estão feitas para serem obrigados a trabalhar durante o tempo todo, e dessa forma não podem aproveitar o facto de terem trabalho.
- Serão afinal estúpidos? - disse Chloé.
- Sim, são estúpidos - disse Colin. - Por isso estão de acordo com quem lhes faz acreditar que o trabalho é o que há de melhor. Isto evita que reflictam e tentem progredir até não trabalhar.
- Falemos de outra coisa - disse Chloé. - São assuntos cansativos. Diz-me se gostas do meu cabelo...


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

Publicado por dolphin.s em 03:06 PM | Comentários (2)

setembro 08, 2004

manoeuvre




© National Geographic
James L. Stanfield

Publicado por jm em 05:41 PM | Comentários (3)

communists

we ran the women in a straight line down to the river
clinging to the fear in their rice-stupid heads
clinging to their infants
mice-like sucklings breathing in the air at odds of
one thousand to one;
we shot the men as they kneeled in a circle,
and the death of the men held almost no death,
it was somehow like a movie film,
men of spider arms and legs and a hunk of cloth
to cover the sexual organ.
men hardly born could hardly be killed
and there they were down there now, finally dead,
the sun straining on their faces of weird
puzzlement.

some of the women could fire rifles. we left a small
detachment to decide upon
them. then we fired up the unburned huts and moved on
to the next village.



Charles Bukowski, in The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills

Publicado por jm em 12:10 PM | Comentários (1)

the sharks

the sharks knock on my door
and enter and ask favors;
how they puff in my chairs
looking about the room,
and they ask for deeds:
light, air, money,
anything they can get -
beer, cigarettes, half dollars, dollars,
fives, dimes,
all this as if my survival were assured,
as if my time were nothing
and their presence valuable.

well, we all have our sharks, I'm sure,
and there's only one way to get them off
before they hack and nibble you to death -
stop feeding them; they will find
other bait; you fattened them
the last dozen times around -
now set them out
to sea.



Charles Bukowski, in The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills

Publicado por jm em 12:55 AM | Comentários (1)

setembro 06, 2004

The aliens

you may not believe it
but there are people
who go through life with
very little
friction of distress.
they dress well, sleep well.
they are contented with
their family
life.
they are undisturbed
and often feel
very good.
and when they die
it is an easy death, usually in their
sleep.

you may not believe
it
but such people do
exist.

but i am not one of
them.
oh no, I am not one of them,
I am not even near
to being
one of
them.
but they
are there

and I am
here.



Charles Bukowski, in The Last Night Of The Earth Poems

Publicado por jm em 09:47 PM | Comentários (8)

Moving out before winter moves in


Maria Stenzel - National Geographic, 1982


© National Geographic
Maria Stenzel

Publicado por dolphin.s em 01:57 PM | Comentários (3)

setembro 03, 2004

Outono

A mais suave, pacata e mole das estações, o Outono, suplanta a anterior e instala-se com sobressaltos medrosos, temporais enormes, manhãs escuras, turbilhões e massacres de folhas que fazem compreender quanta violência custa a maturidade.


Cesare Pavese, in O Ofício de Viver

Publicado por dolphin.s em 06:50 PM | Comentários (5)