And now I know understand that
it is what the Those are
all positive and dense every one
And that what it they [written over "it"] seems to
the child it is [they?] are
And that
For God does not joke any
Nor is any [they?] [illegible] there
share in the universe.
And the world is no joke,
Nor any part of it a sham
__________
I am the for sinners and the
unlearned
Walt Whitman, in rascunhos de Song of Myself [Leaves of Grass]
se eu fosse deus
se deus não fosse eu
como se deus não fosses tu.
José Mário Branco
A grande tarefa da vida é justificarmo-nos
Cesare Pavese
A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. A primeira diz à segunda: «Não me levas à certa; sei como te comportas, sigo-te e prevejo-te, gozo até ao ver-te agir, e roubo-te o segredo ao recriar-te em hábeis construções que travam o teu fluxo.»
À parte este jogo, a outra defesa contra as coisas é o silêncio em que nos recolhemos antes de dar o salto. Mas é preciso que sejamos nós a escolhê-lo, e não deixar que no-lo imponham. Nem mesmo a morte. Escolhermos um mal é a única defesa contra esse mal. Isto significa aceitar o sofrimento, Não resignação, mas força. Digerir o mal de uma só vez. Têm vantagem os que, por índole, sabem sofrer de um modo impetuoso e total: assim se desarma o sofrimento e o transformamos em criação, escolha, resignação. Justificação do suicídio.
Cesare Pavese, in O Ofício de Viver
A dimensão do «eu» original é a dimensão do vívido, do sentido, que ou se não esclarece na razão ou, esclarecendo-se, guarda ainda um domínio que é precisamente o da evidência, da adesão absoluta, da convicção do sangue, do ver. Mas como implicar nisso um combate à razão? Além de tudo o mais, para inúmeras evidências do que nos não ê indiferente (e é dessas que falamos, não das evidências «indiferentes» como as da Matemática — se o são) para inúmeras evidências, a razão pode actuar com uma força flagrante, dominadora, ou ao menos como uma espécie de propedêutica da convicção. É «demonstrando-me» o crime do nazismo, do fascismo, que eu posso acabar por ver que a ditadura fascista é criminosa. É demonstrando-me as origens da vida, que a solução religiosa pode recuar diante de mim. Mas se tal demonstração valesse decisivamente por si, como explicar o crente tão informado como eu e tão capaz como eu? Se a verdade ou a mentira de uma doutrina política se demonstra por si, pelo exame aturado dos princípios e da sua aplicação, como explicar que essa doutrina seja uma evidência de justiça para uns e uma evidência de injustiça para outros? Há um limite na eficácia do acabar de «demonstrar» que é o limite da eficácia do começar a sentir.
Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre
O homem é uma criatura que não pode viver sem entusiasmo. O entusiasmo é o estado em que todos os sentimentos e todos os seus pensamentos coincidem num mesmo espírito. Tu pensas quase o contrário, que seria o estado em que um sentimento é mais forte que todos os outros, sentimento único que arrasta todos os outros. Não, tu não querias dizer nada! No entanto, é assim. E também ó de outra maneira. Mas a força desse entusiasmo tem falta de apoio. Os sentimentos e os pensamentos apenas adquirem continuidade quando se apoiam uns nos outros, formando um todo; é preciso que estejam, por assim dizer, orientados no mesmo sentido, que se arrastem mutuamente. Servindo-se de todos os meios, os estupefacientes, as ilusões, a sugestão, a fé, a convicção, algumas vezes apenas graças ao poder simplificador da estupidez, o homem esforça-se por criar mm estado que se pareça com aquele. Acredita nas ideias não pelo facto de serem verdadeiras, mas sim porque deve acreditar. Porque deve fazer com que reine a ordem no seu coração. Porque tem de tapar, servindo-se de uma ilusão, esse buraco nas paredes da sua vida através do qual os seus sentimentos estão mortos por se escapar para todos os lados.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
Blasfemar, para aqueles tipos à antiga que não estão perfeitamente convencidos de que Deus não existe, mas que, embora se estejam nas tintas para Deus, o sentem de vez em quando entre a carne e a pele, é uma bela actividade. Vem um acesso de asma, e o homem começa a blasfemar com raiva e tenacidade: com a intenção bem nítida de ofender esse Deus eventual. Pensa que, afinal de contas, se ele existe, cada blasfémia é uma martelada nos pregos da Cruz e um desgosto infligido a Deus. Depois, Deus vingar-se-á, é o seu sistema — fará o diabo a quatro, enviará mais desgraças, mandar-nos-á para o Inferno, mas, mesmo que ponha o mundo de pernas para o ar, ninguém o libertará do desgosto experimentado, da martelada sofrida. Ninguém! É uma bela consolação. E, é claro, isto revela que Deus não previu tudo. Vejam: é o patrão absoluto, o tirano, o tudo; o homem é uma merda, um nada e, no entanto, tem esta possibilidade de o irritar e aborrecer e de lhe estragar um instante da beata existência. É, na verdade, o meilleur témoignage que nous puissons donner de notre dignité. Como é que Baudelaire nunca fez uma poesia a este respeito?
Cesare Pavese, in O Ofício de Viver
Douglas, Tom e Charlie vinham a arfar pela rua sem sombra.
— Tom, conta-me agora a verdade.
— Mas qual verdade?
— Que foi que aconteceu aos fins felizes?
— Estão a dá-los nas matinées dos sábados.
— Sim, mas e na vida?
— Tudo o que sei é que me sinto bem ao ir para a cama à noite, Doug. É um fim feliz, uma vez ao dia. Na manhã seguinte, acordo e pode ser que as coisas corram mal. Mas basta-me lembrar-me de que à noite irei para a cama e que só por eu estar deitado um bocado tudo ficará bem.
— Estou a falar do Sr. Forrester e da Sr.a Loomis.
— Não podemos fazer nada; ela está morta.
— Bem sei! Mas não achas que houve uma pessoa que cometeu um erro naquilo?
— Queres dizer o facto de ele pensar que ela tinha a idade do retrato quando, na verdade, já tinha um milhão de milhões de anos? Não, senhor, acho que estava muito certo!
— Muito certo porquê, que diabo?
— Nestes últimos dias, o Sr. Forrester contou-me alguma coisa agora, alguma coisa depois e eu acabei por juntar tudo... eh rapaz, o que eu chorei... Nem mesmo sei porquê. Não ia modificar as coisas nem um bocadinho. Se as modificássemos, de que haveríamos nós de falar? De nada. E além disso eu gosto de chorar. Depois de chorar um bom pedaço, é como se fosse manhã outra vez, começo o dia novamente.
— Agora já ouvi tudo.
— Mas a gente não confessa que gosta de chorar. Ora nós choramos um bocado e logo tudo se compõe. Aí está o teu fim feliz. Ficas em condições de voltar cá para fora e andar outra vez por aí com os outros. E isso é o princípio de sabe-se lá o quê! De modo que agora o Sr. Forrester vai pensar em tudo muito bem e vai ver que não há outro remédio senão um bom choro para depois olhar à sua volta e perceber que é outra vez manhã mesmo que já sejam cinco horas da tarde.
— Isso a mim não me parece um fim feliz.
— Uma boa noite de sono ou dez minutos de choro ou uma boa dose de gelado de chocolate, ou as três coisas juntas, são bons remédios, Doug. Quem to diz é o Dr. Tom Spaulding.
Ray Bradbury, in A Cidade Fantástica
Recordei-a como a árvore dos desejos que morreu
E vi-a subir, inteira, até ao céu,
Deixando um rasto de tudo o que se cravara
Por cada carência, uma e outra vez, na têmpera
Da sua casca e sâmago: moeda, alfinete e prego
Desfraldaram dela como uma cauda de cometa
Recém-cunhada e dissolvida. Tive uma visão
De uma ramada aérea atravessando húmidas nuvens,
De rostos erguidos, onde a árvore estivera.
Seamus Heaney, in Da Terra à Luz - poemas 1966-1987
tradução de Rui Carvalho Homem
enquanto o dedo esmaga
uma curva ou um aro
outros dedos distendem
os tendões que entendem
nu súbito da águas
a luz vértice do faro
os membros que se fendem
lábios não dizem, rendem
(quem diz cu diz a cona
em masculino estilo / as pro
curadas fendas afluentes
que no homem se excluem
na fêmea se completam
delta logo de lagos mijo nilo)
E. M. de Melo e Castro, in Antologia de Poesia Portuguesa de Erótica e Sátira