julho 28, 2004

Sines!!!

Festival Músicas do Mundo de Sines, 2004

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A casa da areia

Face ao mar, orgulhosa no topo do areal,
só madeira e zinco sobre pilares de cimento
ao sabor dos quatro ventos. O quintal
das traseiras sempre uma festa, frango
no churrasco, alegria nos copos. Depois

a Isilda casaria com o Freitas,
a Ermelinda ia ficar para tia
e o Horácio dava em droga.
O Neca, o Tino e o Mando foram
à vida, cada qual para seu lado.

Na velha casa virada à baía,
além do ranger da maneira
batida pelo vento e a areia
apenas ficaram a avó Carminda
e a velha cadela «Deixa - falar».



Rui Knoplfi, in O Monhé das Cobras

Publicado por jm em 10:31 AM | Comentários (0)

julho 27, 2004

Alma

Passa-se com a alma algo semelhante ao que acontece à água: flui. Hoje está um rio. Amanhã estará mar. A água toma a forma do recipiente. Dentro de uma garrafa parece uma garrafa.
Porém não é uma garrafa.


José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados

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julho 26, 2004

Saber / Sentir

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962E toda a questão do «racional» e «a-racional», toda a questão do chamado «irracionalismo» existencial (que dirá Sartre, o «cartesiano»?) assenta fundamentalmente nisto: em que saber é nada ou muito pouco para uma questão do sentir. Sei que a pessoa que sou, o carácter que tenho é talvez possível explicá-lo totalmente pela genética, pelo ambiente e educação e condicionalismo económico: mas no acto de ser o que sou, o que sou é incondicionado. Um modo de ser que eu tenha, um tique, se se quiser, descoberto por mim nos meus pais, não é menos meu, não é menos eu, incondicional, absoluto, no acto de ser esse tique, esse modo de ser: nenhum filho tem pais... Se um tique herdado o sinto como tal (dado que isso seja possível) é que me operei desdobramento e sinto em «má-fé». Que importa explicar-se o amor, a alegria, uma... dor de dentes? No amor, na alegria, sou eu amando, alegrando-me; e a dor de dentes só existe na medida em que eu a sou. Que importa demonstrarem-nos a exactidão de uma doutrina? Uma doutrina só me é exacta na medida em que a sinto, a vejo tal. E acaso se necessita sempre para isso de um argumento novo? Acaso os mesmos argumentos, exactamente os mesmos, sem que um novo esclarecimento os ilumine, não podem deixar-nos indiferentes ou queimar-nos de evidência? Que significa a explicação do globo ocular e de toda a estrutura fisiológica da vista para a compreensão do acto de ver?


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em 10:35 AM | Comentários (2)

julho 23, 2004


Publicado por dolphin.s em 09:15 PM | Comentários (3)

Um excesso de passado

José Eduardo Agualusa, o Vendedor de Passados«Um exercício interessante», disse, «é tentar ver os factos através do olhar da vítima. Por exemplo, o peixe que estamos a comer... generoso pargo, não é?... Já tentou ver este nosso jantar na perspectiva dele?»
Félix Ventura olhou para o pargo com uma atenção que até ao momento o pobre peixe lhe não merecera; depois, horrorizado, afastou o prato. O outro prosseguiu sozinho:
«Julga que a vida nos pede compaixão? Não creio. O que a vida nos pede é que a festejemos. Voltemos ao pargo. Se fosse este pargo preferia que eu o comesse com desgosto ou com alegria?»
O albino ficou calado. Ele sabe que é um pargo (somos todos), mas prefere, creio, que não o comam nunca. O estrangeiro continuou:
«Uma ocasião levaram-me a uma festa. Um velho festejava o seu centésimo aniversário. Quis saber como é que ele se sentia. O pobre homem sorriu-me atónito, disse-me, não sei bem, aconteceu tudo demasiado rápido. Referia-se aos seus cem anos de vida e era como se estivesse a falar de um desastre, algo que sobre ele tivesse desabado minutos antes. Às vezes sinto o mesmo. Dói-me na alma um excesso de passado e de vazio. Sinto-me como esse velho.»


José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados

Publicado por dolphin.s em 10:20 AM | Comentários (4)

julho 22, 2004

Mud Maid


National Geographic, James C. Richardson - Mud Maid


© National Geographic, James C. Richardson - Cornwall, England, 2004

"Abandoned at the onset of World War l, the Lost Gardens of Heligan were restored in the 1990s to their Victorian roots. The Mud Maid was designed just as she appears here." — From "Lost in Cornwall," July/August 2004, National Geographic Traveler magazine

Publicado por dolphin.s em 07:57 PM | Comentários (4)

julho 21, 2004

A biografia de um Homem

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph WalserPara Walser tornara-se evidente que uma existência era composta por uma sucessão de comportamentos dirigidos às coisas e aos outros homens, e que esses comportamentos, esse agir — por grosseiro que fosse — não era, objectivamente, mais do que um conjunto de movimentos muscularmente bem definidos, localizados facilmente num mapa anatómico. A biografia de um Homem era, no fundo, o que os seus músculos haviam feito.
Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido, mas assemelhado — era o sinal de igual, de idêntico, e não uma diminuição, não um roubo — poderia ser assemelhado, então, a um somatório de gestos, tal como uma máquina, por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas acções, não deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação às máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável. Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um somatório imortal de comportamentos. Ninguém, neste século, depois de sucessivas gerações terem desaparecido — e mesmo em plena guerra, onde a morte era mais visível que nunca —.deixava ainda de ser surpreendido (estava disso convencido Walser) pela sua própria morte. Somos sempre surpreendidos! Como se nos considerássemos no direito, depois de tantos dias de existência, de não sermos interrompidos.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Publicado por dolphin.s em 10:30 AM | Comentários (9)

julho 20, 2004

Absoluto/Relativo

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962É evidente que depende de mim, do que sou, da totalidade que me descubro, o sentir ou não o apelo de um Absoluto, por mais que eu admita que esse Absoluto não existe. Ê evidente que se eu sinto que a verdade a que me dou não é «a» verdade, me viverei indiferente em relação à verdade que me conhece. E neste caso, sim, o relativismo é-me um problema. Mas não mo é na medida em que eu adiro a uma verdade, à verdade que me conhece, e «sei» apenas que essa verdade de hoje será o erro de amanhã. Pois em relação a quê estabeleço eu já a mentira de agora? Em relação com a verdade de amanhã? Mas a verdade de amanhã será também o erro de depois... Ser relativista só porque se sabe que a verdade se altera, é adoptar simultaneamente um ponto de vista real de uma adesão e um ponto de vista ideal de não adesão. Aliás, rigorosamente, se não ê por «saber» que a minha verdade de hoje é o erro de amanhã, que eu sinto o «relativo» dessa verdade que me empolga — para o verdadeiro «relativista» o problema verdade-erro não existe simplesmente como tal. Se eu sinto que a minha verdade de hoje é o erro de amanhã, não sinto então tal verdade como verdade. Estou «situado» e é em função disso que me exprimo no que exprimo. Mas se eu me implico no que digo, só absurdamente, contraditoriamente, posso imaginar-me a exprimir um juízo que não tenha em conta a pessoa que sou como julgador: «Se tento imaginar marcianos ou anjos ou um pensamento divino, necessário é que este pensamento marciano, angélico ou divino figure no meu universo e o não faça explodir». Tal como para um problema de adesão estética— onde é evidente que a «universalidade» de um juízo de gosto é um «como se» — a verdade que me empolga sei-a um «como se» também; mas na medida em que a vivo, ela é um absoluto. Que me importa admitir (ou mesmo ter a certeza) de que a Guernica amanhã será menosprezada, se ela representa hoje para mim uma evidência de beleza? O absoluto para nós está no tempo, diz Jaspers, e portanto desaparecendo. Só pois numa dimensão intemporal é que o relativo existe, «por ser meramente geral, meramente exacto, meramente válido». É evidente que o conflito absoluto-relativo se estabelece sobretudo ou apenas no domínio das verdades que nos não são indiferentes, essas que jogam a nossa pessoa inteira, o nosso destino. Mas ê precisamente nestas que uma vez aceite uma, por mais que admitamos ser ela temporária, a vivemos como absoluta e a não imaginamos o erro de amanhã, exactamente porque não podemos imaginar a pessoa que não somos. Saber que uma obra de arte por mim hoje admirada será esquecida amanhã em nada pode alterar-me a adesão que me promove. Deste modo, adverte-nos ainda Jaspers, as verdades contradizem-se; mas para participar delas, para realmente saber o que elas são, tenho de identificar-me com uma e não conhecê-las a todas. De uma verdade que é nossa não podemos sair, não podemos pois vê-la de fora ou simplesmente «conhecê-la», já que não podemos sair dela. Porque sair dela seria cair no vazio. E exactamente porque não posso sair da minha verdade (porque seria sair de mim) eu não posso, a rigor, dizer sequer que há muitas verdades, que cada uma das outras é «verdadeira»: posso apenas tentar abordá-las pela «pergunta», tentar o que Kierkegaard chama a «comunicação indirecta». A verdade «existencial», que é a que me joga todo, a que vivo, a que sou, envolve pois o paradoxo de ser sentida como única, sabendo-se todavia que há outras verdades.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em 10:41 AM | Comentários (8)

julho 19, 2004

Fealdade

Imagine-se: o casino era o sítio que estava na moda, e o facto de uma pessoa ser ali admitida constituía a prova de pertencer à elite mundana e rica da cidade. O fascínio que nele exercia a incrível estupidez daquela multidão acabava por o fazer acreditar numa ficção mórbida: aquilo não podia ser verdade. Ainda por cima, todas aquelas pessoas eram intoleravelmente feias; tinham uma espécie de fealdade definitiva e sem remédio que nenhum clarão de pensamento altruísta atenuaria. Nem sequer se divertiam; estavam para ali colados ao papel que deviam desempenhar, incrustados na lúgubre comédia que acontecia sem eles saberem. Que a humanidade era feia, disso estava Heikal convencido desde sempre; mas tocava as raias da provocação que o fosse tanto.


Albert Cossery, in A Violência e o Escârnio

Publicado por dolphin.s em 10:07 AM | Comentários (7)

julho 18, 2004

The Fisherman and the Siren


Lord Leighton Fredrick, The Fisherman and the Siren (1858)


Lord Leighton Fredrick (1858)

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julho 17, 2004

definições de pessimismo

Eis ainda porque se pôde falar em pessimismo a propósito do pensamento existencialista: abandonado no mundo, desapoiado de Valores, tendo de construí-los e de assumi-los, o homem existencialista pôde ser julgado um pessimista, quando para Sartre a liberdade total confere-lhe a possibilidade de reagir sempre, de se inventar todos os caminhos, de recusar todos os limites, excepto os da impossibilidade de facto - confere-lhe, em suma, o direito ao optimismo.

Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em 05:11 PM | Comentários (6)

julho 16, 2004

.

"a súbita e violenta dádiva mútua e mútuo recebimento afirma-se num excesso de nós e que nos esquece e em que nos perdemos".


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em 12:07 PM | Comentários (3)

julho 15, 2004

pâté de enguias

- Este pâté de enguias é notável - disse Chick. - Quem te deu a ideia de o fazeres?
- Foi o Nicolas quem teve a ideia - disse Colin. - Há (ou antes, havia) uma enguia que aparecia todos os dias, saída do cano da água fria, e ele encontrava no lavatório.
- É curioso - disse Chick. - E por que é que isso acontecia? '
- Punha a cabeça de fora e, fazendo pressão com os dentes, esvaziava o tubo de pasta dentífrica. Como Nicolas só usa pasta americana, de ananás, isso deve tê-la tentado.
- Como é que ele conseguiu apanhá-la? - perguntou Chick.
- Pôs um ananás inteiro no lugar do tubo. Quando ela engolia a pasta, conseguia deglutir e recolher depois a cabeça; mas com o ananás não conseguiu o mesmo resultado e, quanto mais ela puxava, mais os dentes se enterravam no ananás. O Nicolas...
Colin deteve-se.
- O Nicolas o quê? - perguntou Chick.
- Não sei se deva dizê-lo, talvez vá tirar-te o apetite.
- Continua -disse Chick-, já não tenho quase nenhum.
- Nesse momento o Nicolas apareceu e seccionou-lhe a cabeça com uma lâmina de barbear. Depois, abriu a torneira e o resto saiu.
- E tudo? - disse Chick. - Dá-me mais pâté. Espero que haja uma família numerosa dentro do cano.
- Agora o Nicolas pôs lá pasta de framboesa, para ver...


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

Publicado por dolphin.s em 10:37 AM | Comentários (12)

julho 14, 2004

a moral II

Para ele, a moral não era nem dominação nem fria sabedoria, mas sim a totalidade infinita das possibilidades de vida. Acreditava numa possível gradação da moral, acreditava na existência de degraus no uso que dela se faz e não apenas, como é hábito, no conhecimento que dela se tem, considerando-a uma obra acabada para a qual os homens ainda não estivessem suficientemente puros. Acreditava ma moral, sem acreditar em nenhuma moral definida. Vulgarmente, entende-se por moral uma soma de normas policiais que servem para manter a ordem na vida; como nem sequer a vida lhes obedece, parecem impossíveis de observar à risca e, consequentemente, desta forma mesquinha, assimiláveis a um ideal. Mas não é necessário reduzir a moral a isso. A moral é imaginação. Era, isto que ele queria demonstrar a Ágata. E, também, que a imaginação não é o despotismo. Se confiamos a imaginação ao despotismo arrependemo-nos disso. As palavras vibravam na boca de Ulrich. Estivera prestes a evocar uma diferença demasiado imponderada, isto é, que as diversas épocas desenvolveram a inteligência à sua maneira, enquanto que, também à sua maneira, fixaram e paralisaram a imaginação moral.

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

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julho 12, 2004

The Painter's Honeymoon


Lord Leighton Fredrick, The Painter's Honeymoon (c. 1864)


Lord Leighton Fredrick (1830-1896)

Publicado por dolphin.s em 08:15 PM | Comentários (13)

multidão

A curiosidade das multidões é uma maravilhosa sequência de enjoo e perversão; em bicos de pés um homem alto empurra a mulher pequenina pois quer ficar triste primeiro, como se tivesse tirado antes a senha numa repartição pública; estica os pés já altos e espreita para corpos menos lógicos, pretos, mais distribuídos pelo espaço que o normal, um certo cheiro nervoso. As desgraças são benéficas para o aparecimento de Príncipes fraternos, disponíveis para exercer a civilização. Uma colossal bondade necessita de espectadores relevantes, um homem avança com gritos específicos dizendo-se médico. A multidão afasta-se, e o homem que é médico passa, orgulhoso de ter aprendido nomes secretos de medicamentos e modos exactos de segurar em instrumentos que beneficiam a cidade. Velocidade, carros buzinam, o trânsito procura o ângulo que melhor dá para os mortos, o céu minimiza os pássaros que parecem inexistentes ou mal-educados: ninguém tolera outras canções quando se está a tocar o hino ou a pensar nele, mesmo se os sons vêm de pássaros calmos, habituados à discrição e a colocar-se de lado quando os homens entre si trocam palavras fortes ou tiros.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser


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julho 09, 2004

here comes the circus...

Publicado por dolphin.s em 09:46 PM | Comentários (2)

liberdade

Aquilo que «actua» sobre mim só actua porque eu o escolhi como actuante. Não é porque alguém me ofenda que eu reajo violentamente, mas sim porque escolho tal ofensa como «móbil» da minha reacção. Tal escolha, porém, de um móbil, posso não reconhecê-la senão depois de se manifestar. Assim são normalmente os meus actos que me esclarecem sobre o que realmente sou, sobre aquilo que realmente escolhi, sobre a minha liberdade.
Mas isso não significa que eu seja «inconsciente», já que, segundo Sartre, o homem é consciência de ponta a ponta, em todos os seus aspectos. Simplesmente, há consciência posicional, reflectida, e consciência não-posicional, não reflectida. A minha liberdade é de facto consciente, mas só os meus actos claramente ma revelam. Em qualquer situação portanto, eu «sou consciência de liberdade». Assim a minha liberdade é o estofo do meu ser.

Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre


para ti e para ti. porque sim :)


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julho 08, 2004

dor e deus

(...) Sempre pensei, quando via pessoas que com a dor e o desgosto torciam as mãos ou lançavam acusações, que elas não compreendiam a gravidade da sua situação em toda a sua profundidade. Pois esqueciam-se completamente de que nada servia, ainda não tinham percebido que não tinham sido apenas abandonadas ou ofendidas por Deus, mas que não existia Deus nenhum e que o homem que gera tumultos numa ilha deserta é louco.


Bertolt Brecht
das Notas Autobiográficas, Revista Artistas Unidos nº10

tradução de Jorge Silva Melo e Vera San Payo de Lemos


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julho 07, 2004

Objectivo/Subjectivo

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962Porque um vício de raciocínio «objectivo» (que um Ponty chama «hipócrita») leva-nos a esquecermos que todo o pensar implica um ser pensante, que não observamos o mundo com o absoluto espírito divino, que toda a observação nos implica a nós observadores, que quando falamos em «objectividade» esquecemos que tal objectividade veio ao mundo através de nós, ou seja, de uma «subjectividade». A definição de verdade pela adaequatio implica que de um lado veríamos a inteligência como alheia, e do outro o objecto como alheio também, isto é, sem que nesse ser implicássemos que... o víamos, ou seja, o tínhamos já interpretado. E é exactamente porque já o interpretámos, é exactamente porque toda a percepção já é intelecção (visto que nós vemos decifrando, ajuizando) é exactamente por isso que a adaequatio já assenta num outro juízo anterior que nós estabelecemos com precisamente a decifração do mundo, a nossa orientação nele, que desde a hora mais remota da consciência nós fomos estabelecendo. Assim «da evidência predicativa (a que afirma reflexivamente um predicado de um sujeito) somos remetidos à evidência antepredicativa como condição da racionalidade do Logos» . Ao longo da nossa vida consciente mil formulações de juízos se nos foram sedimentando, passando do que fora uma «génese activa» a uma «génese passiva» , do que fora originariamente uma actividade consciente ou semiconsciente a qualquer coisa como a inconsciência. E é porque esquecemos essa formação originária que podemos formular juízos predicativos, tematizados, como se não assentassem em evidências primeiras, tão indiscutíveis (porque passadas ao nosso sangue) que as esquecemos como estabelecidas por nós em função de uma ordenação do mundo. Porque — será preciso dizê-lo? — somos nós que distribui-mos a «ordem» e é assim um pouco ingénua a afirmação de que o universo está maravilhosamente ordenado. Bergson o disse: se vivêssemos numa desordem, nós a interpretaríamos como ordem. E a experiência, por exemplo, da inversão das imagens com óculos que assiduamente usemos, mostra que tal inversão se converte em normalidade, em correcção, ao fim de algum tempo.
Assim, pois, em face da matéria insignificante, de um mundo sem significação, o homem levanta-se como de algum modo o seu criador.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em 10:33 AM | Comentários (4)

julho 06, 2004

A dor

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph WalserÉ certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa 'coisa' repelente.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser


Publicado por dolphin.s em 10:22 AM | Comentários (8)

julho 05, 2004

Tô bem de cima prá poder cairTô bem de baixo prá poder subir
Tô bem de cima prá poder cair
Tô dividindo prá poder sobrar
Disperdiçando prá poder faltar
Devagarinho prá poder caber
Bem de leve prá não perdoar
Tô estudando prá saber ignorar
Eu tô aqui comendo para vomitar

Tô te explicando
Prá te confundir
Tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tom ZéTô iluminando
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar

Devagarinho prá poder rasgar
Olho fechado prá te ver melhor
Com alegria prá poder chorar
Desesperado prá ter paciência
Carinhoso prá poder ferir
Lentamente prá não atrasar
Atrás da vida prá poder morrer
Eu tô me despedindo prá poder voltar


Tom Zé - Elton Medeiros
Estudando o Samba - 1976

Publicado por dolphin.s em 12:25 AM | Comentários (2)

julho 04, 2004

Quem me roubou o tempo que era um


Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia

Setembro 2001


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Relâmpago nº9, 10/2001

Publicado por jm em 12:27 AM | Comentários (4)

julho 03, 2004

Novembro

novembro, sophia de mello breyner andresen
O sabor dos derradeiros dias
Roda ainda na casa e pela rua
Folhas vermelhas gemem por morrer
Mas nós não nos lembramos

O inverno varre o céu e enche
O mundo inteiro de um sonho de vazio
Temos de estar sós e não ter nada
Horas sem fim na casa inabitada

Parece que partimos. Cada dia
Mais, profundo na noite se aprofunda
E nós queremos partir - todos os cantos
Empalidecem ao pé desta descida
Até às pedras geladas do silêncio

Olhamos à janela de olhos fitos
Longe a claridade além dos rios
Queremos ir com o vento com o perigo
Queremos a injustiça do castigo
Somos nós que a nós mesmos nos matamos
E com mais amor do que quando amamos
Sentimos sobre nós descer o frio




Sophia de Mello Breyner Andresen

transcrição da imagem publicada na revista Relâmpago nº9, 10/2001

Publicado por jm em 11:59 PM | Comentários (0)