junho 30, 2004

moral

— Não sei realmente — disse ele — por onde hei-de começar sem te aborrecer. Posso dizer-te o que entendo por moral?
— Certamente.
— A moral é a regulamentação da conduta no seio de uma sociedade, em particular das impulsões interiores, ou seja, dos sentimentos e dos pensamentos.
— Fizeste grandes progressos em poucas horas! — disse Ágata rindo. — Dizias ainda esta manhã que ignoravas o que era a moral!
— Certamente que o ignoro. Contudo posso dar-te uma dúzia de definições. A mais antiga é que Deus nos revelou a ordem da vida em todos os seus pormenores...
— Essa deve ser a mais bela!
— A mais verdadeira — precisou Ulrich—é que a moral, tomo todas as outras espécies de ordem, tem origem na coacção e na violência! Um grupo de homens que alcançam o poder apenas impõem aos outros prescrições e princípios que lhes asseguram o poder. Ao mesmo tempo, agarram-se àqueles que lhe deram o poderio. Tornam-se exemplares. Modificam-se em consequência das resistências. Naturalmente, é mais complicado do que aquilo que é possível explicar nalgumas palavras e, finalmente, visto que isso não se consegue sem a intervenção do espírito, nem mesmo graças a ele, mas sim pela prática, chega-se a um entrelaçado que se estende a perder de vista por cima de tudo, aparentemente tão autónomo como o céu de Deus. Daí em diante tudo se relaciona com esse círculo, mas esse círculo não se relaciona com nada. Isto é: todas as coisas são morais, excepto a própria moral!...


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 10:17 AM | Comentários (3)

junho 28, 2004

pianocktail

-Tomas um aperitivo? - perguntou Colin. - O meu pianocktail já está pronto, podias experimentá-lo.
- E funciona? - perguntou Chick. -Perfeitamente. Foi-me difícil afiná-lo, mas o resultado
ultrapassa as minhas expectativas. Obtive uma mistura verdadeiramente atordoante, a partir do Black and Tan Fantasy.
- Qual é o princípio da tua invenção? - perguntou Chick.
- A cada nota faço corresponder um álcool, um licor ou uma substância aromática - disse Colin. - O pedal-forte corresponde ao ovo batido e o pedal-surdina ao gelo. Para a água-de-seltz é preciso um trilo no registo agudo. As quantidades estão na razão directa das durações: a semifusa equivale à décima sexta parte da unidade, a semínima à unidade, a semibreve ao quádruplo da unidade. Quando se toca uma ária lenta começa a funcionar um sistema de registo, por forma a aumentar a percentagem de álcool em vez da dose - o que daria um cocktail demasiado abundante. E, querendo, através de um regulador lateral pode fazer-se variar o valor da unidade, consoante a duração da ária, reduzindo-a por exemplo à centésima parte, a fim de podermos obter uma bebida que entre em linha de conta com todas as harmonias.
- É complicado - disse Chick.
- O conjunto é comandado por contactos eléctricos e potenciómetros. Não dou pormenores, tu sabes como é. Aliás acontece que o piano, ainda por cima, funciona.
- É maravilhoso! - disse Chick.
- Só há uma coisa aborrecida - disse Colin -, é o pedal--forte do ovo batido. Tive de instalar um sistema de coordenação especial porque, mal se toca um trecho demasiado hot, caem pedaços de omeleta no cocktail e torna-se insuportável tragá-lo. Terei de modificar isso. Por enquanto basta ter cuidado. Ao sol grave corresponde o creme de natas.


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

Publicado por dolphin.s em 11:19 AM | Comentários (5)

junho 26, 2004

mais uma ovelha!


mais uma ovelha!


velcome!


;)

follow the click!



Publicado por dolphin.s em 05:53 PM | Comentários (3)

um ano

no dia 24. nem nos lembramos. e ainda vive. o Silêncio fez um ano. :)

Publicado por jm em 01:18 AM | Comentários (15)

junho 25, 2004

Defender a causa do povo

Albert Cossery— Es muito jovem, comentou ele. Querias defender a causa do povo, não é verdade? E foste parar à cadeia.
Não era uma pergunta, era uma simples evidência. Quem quer que defendesse a causa do povo acabava na prisão.
— Naturalmente, respondeu Karim. Mas não o lamento. No fim de contas foi na prisão que me vi efectivamente ligado ao povo. Numa fábrica, como sabes, uma pessoa trabalha como uma besta de carga, sem nunca ter tempo para falar com os companheiros. De resto, as conversas referem-se todas ao trabalho, ao salário de miséria ou à doença que semeia o desastre nas famílias. Só se fala de assuntos penosos. Ao passo que na cadeia a gente dispõe de ócios, conversa pelo prazer de travar conhecimento. É curioso, mas uma prisão é menos sinistra do que qualquer local de trabalho. Sabes uma coisa? Antes de ir parar à cadeia, eu julgava que o povo era por natureza bisonho e só se comprazia no drama. Não sabia que era tão espirituoso, que tinha tanto humor. Só na prisão descobri, de repente, esta verdade fundamental do nosso povo. E também que todas as minhas ideias a seu respeito eram falsas.
Como todo o intelectual digno deste nome, Urfi também combatera, na juventude, pela causa do povo. No entanto, o seu ar apagado, a timidez e o receio de dar nas vistas tinham-no subtraído à atenção duma polícia mais preocupada com as aparências dos revolucionários do que com o seu real fervor pela revolução. Por isso não tinha estado na cadeia. A experiência de Karim, por conseguinte, poderia informá-lo de factos que ignorava. Com a curiosidade estimulada, acentuou a pressão que a sua mão exercia no ombro de Karim, como a animá-lo a prosseguir o relato.
— Conta-me lá isso.
— É simples, prosseguiu Karim, eu via o povo tal como desejava vê-lo, ou seja, cheio de ódio e a sonhar com a vingança. E eu, é claro, queria ajudá-lo nessa vingança. Julgava-o submetido à opressão, e dei-me conta de que ele era mais livre do que eu. Nem podes imaginar a mofa de que fui alvo, quando quis explicar-lhes que estava preso por causa das minhas ideias políticas. Foi um desastre, achavam que eu era um pobre diabo, um atrasado mental. Eu a pensar que bastava declarar-lhes a minha condição de revolucionário, de inimigo declarado do governo, para lhes inspirar respeito pela minha pessoa, e eles a reagirem daquela maneira! Que presunção a minha! O governo, para eles, era desde há muito tempo motivo de escárnio. E eu, com toda a minha inteligência, tinha levado o governo a sério. Senti-me um idiota chapado, com os meus ares de mártir da classe operária. Lá na cadeia era o único que levava a sério o governo.


Albert Cossery, in A Violência e o Escârnio

Publicado por dolphin.s em 11:46 AM | Comentários (17)

junho 24, 2004

Exorcizar o Diabo e curar os possessos

Também te poderia provar que o que os médicos ateus imaginam ter inventado, não é mais do que aquilo que a Igreja tem feito desde os seus primeiros tempos; exorcizar o Diabo e curar os possessos. Tal semelhança verificou-se até aos mínimos pormenores no ritual do exorcismo, por exemplo, quando leniam por todos os meios levar o possesso a falar daquilo que traz dentro de si: a Igreja também ensina que é nesse momento que o Diabo se prepara pela primeira vez para atacar! Nós apenas nos descuidamos de adaptar a tempo esse rito às exigências actuais e de substituir os termos esterco e demónio pelas palavras psicose, inconsciente e outros modernismos.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Publicado por dolphin.s em 10:17 AM | Comentários (0)

junho 23, 2004

indiferença...

Quando se tem vergonha daquilo que não se faz, as notícias sobre factos próximos são escutadas por ouvidos afastados; toda a capacidade auditiva é ocupada por técnicas cínicas, fingindo interesse. Não há fórmulas para a indiferença, pois há diversas maneiras de sobreviver e a neutralidade é uma delas.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Publicado por dolphin.s em 02:16 PM | Comentários (4)

junho 22, 2004

"por não conseguir acreditar já em Deus"

E se pensar na infância e no que é simples e tranquilo lhe traz angústia e sofrimento, por não conseguir acreditar já em Deus que está em tudo isso, então pergunte-se, caro senhor Kappus, se terá mesmo perdido Deus. Não será muito mais correcto dizer que talvez nunca o tivesse tido dentro de si? Quando é que isso poderia ter acontecido? Acha que uma criança o pode segurar, a Ele, a quem os homens trazem apenas com muito esforço e cujo peso esmaga os velhos? Acha que aquele que O possua de verdade pode perdê-lo como quem perde uma pequena pedra, ou não acha o senhor que quem O possuísse já só poderia ser perdido por Ele? — Mas se o senhor reconhecer que ele não esteve na sua infância, e não esteve antes; quando pressentir que Cristo foi enganado pelo seu amor e Maomé pelo seu orgulho — e sentir, apavorado, que ele também não está agora, no momento em que falamos dele — o que lhe dá então o direito de sentir a falta de alguém que nunca esteve como se de uma pessoa ausente se tratasse e de O procurar como se O tivesse perdido?Rainer Maria Rilke

Porque não pensa antes Nele, como O que está para vir, o que está iminente desde a eternidade, o futuro, o fruto final de uma árvore cujas folhas somos nós? O que é que o impede de projectar o seu nascimento para os tempos que vêm e de viver a sua própria vida como um dia doloroso e belo na história de uma sublime gravidez? Será que o senhor não vê como tudo o que acontece é sempre um começo? Porque não poderia ser o começo Dele, quando começar é, em si, sempre algo de tão belo? Se Ele é o mais perfeito, não será precedido de algo mais pequeno para que possa retirar a sua substância do esplendor e da plenitude? — Não terá de ser Ele o último para tudo em si abarcar? E que sentido teríamos se aquele que procuramos já tivesse existido?



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Publicado por jm em 12:13 PM | Comentários (1)

Ética

Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.



Luís Quintais in Lamento

Publicado por jm em 01:36 AM | Comentários (1)

"acredite num amor"

(...); mas acredite num amor que está guardado para si como uma herança e acredite que nesse amor existe uma força e uma bênção que não tem de perder por mais longe que vá!



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Publicado por jm em 01:01 AM | Comentários (2)

junho 21, 2004

"dentro de si"

Pense, caro senhor, no mundo que traz dentro de si e chame o que quiser a essa forma de pensar; seja isso uma recordação da própria infância ou talvez a saudade do próprio futuro — esteja apenas atento àquilo que está a surgir dentro de si, e coloque-o acima de tudo de que se aperceba à sua volta. O que acontece dentro de si merece todo o seu amor, é isso que deve trabalhar sem desperdiçar demasiado tempo ou energia a tentar explicar a sua posição aos outros.



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Publicado por jm em 01:13 PM | Comentários (2)

A criação do mundo

Quando o meu olhar se cruza
com o desta mulher
que vem ver quem passa,
o que me fere
não é a funda dor dos seus olhos,
a agonia do rosto que implode,
o corpo inchado,
por acção da senilidade bloqueado.

O que me fere
é a entropia dos objectos que a rodeiam:
as paredes amortalhadas
pela respiração de todos os dias,
o frigorífico com mais de trinta anos
coberto de uso, de ferrugem,
a jarra, o azul ardente das suas flores,

o cromático reverso, a criação do mundo.




Luís Quintais in Lamento

Publicado por jm em 12:13 PM | Comentários (1)

junho 20, 2004

"A voluptuosidade física"

A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, tal como o puro olhar ou a pura sensação com que um fruto se derrete na língua — é uma grande e infindável experiência que nos é proporcionada, um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria. Não é nessa experiência que está o mal; o mal está em quase todas estas experiências serem mal usadas e desperdiçadas e adoptadas nas fases aborrecidas da vida como excitantes e distracções em vez de concentração numa caminhada para o cume.



Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Publicado por jm em 09:23 PM | Comentários (1)

ab

Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro.
Deslizas sobre a terra. Deslizas sobre as águas.
Tudo é veloz e extremo. Pó em torno da tua dor. Pó em torno do teu choro.
O que te atinge em pleno voo. A cegueira que te atinge em pleno voo.
Ergues-te para a mais secreta alegria de abandonares o teu corpo.
Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro.
A tua história, onde escreveste o indefinível do teu nome. Eras criança.
Estendias as tuas asas. E as tuas asas
faziam a imensa sombra sob a qual se abrigava
o que era reconhecível e amável.
Deslizas sobre a terra. Deslizas sobre as águas.
Tens o talento antigo de estenderes as tuas asas. Agora quebradas,
para sempre quebradas. Já sem a amplitude do início,
é no ocaso que escondes a tua vergonha.
Por tua vontade, desejo e mágoa
exumas a palavra do passado, a inocência que o não era.
Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro.




Luís Quintais in Lamento

Publicado por jm em 08:30 PM | Comentários (0)

junho 19, 2004

Há Mais

Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da "Enciclopédia Britânica".
Ao lado direito —
Ah, ao lado direito
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.
Quem pudesse sintonizar tudo isto!

Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 09:50 PM | Comentários (0)

junho 18, 2004

Two figures Lying on a Bed with Attendants


Francis Bacon -Two figures Lying on a Bed with Attendants, 1968   Francis Bacon -Two figures Lying on a Bed with Attendants, 1968   Francis Bacon -Two figures Lying on a Bed with Attendants, 1968


Francis Bacon , 1968

Publicado por dolphin.s em 10:22 AM | Comentários (3)

Sines: bandas, preços, alojamento, etc.

Meninas e meninos, o Festival de Sines vai decorrer de 29 a 31 de Julho!

Com:
Ronda dos Quatro Caminhos
Warsaw Village Band
Savina Yannatou
David Murray Creole
Tom Zé
Septeto Rodriguez
Rokia Traoré
Femi Kuti

entre outros!

Preços:
Concertos no Castelo
Bilhete 1 dia = 5 euros
Bilhete 3 dias = 10 euros

Iniciativas paralelas
Entrada livre

mais informações clicar na imagem lá em cima :)

Publicado por jm em 12:50 AM | Comentários (2)

junho 17, 2004

a maldade

A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.


Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Publicado por dolphin.s em 10:28 AM | Comentários (0)

junho 16, 2004

Tradições de Família

Boris Vian- Nicolas - disse Colin ao entrar -, apresento-lhe o meu amigo Chick.
- Boa noite - disse Nicolas.
- Boa noite Nicolas - respondeu Chick. - Não tem, por acaso, uma sobrinha chamada Alise?
- Tenho sim senhor - disse Nicolas. - Aliás uma bonita rapariga, se me atrevo a proferir tal comentário.
- É muito parecida consigo - disse Chick -, apesar de haver algumas diferenças a respeito do busto.
- Sou bastante largo - disse Nicolas - mas ela é mais desenvolvida no sentido perpendicular, se o senhor tiver a bondade de me permitir tal precisão.
- Claro que sim - disse Colin -, estamos quase em família. Não me contou que tinha uma sobrinha, Nicolas.
- Senhor, a minha irmã degenerou - disse Nicolas. - Andou a estudar filosóficas. Não são coisas que uma família orgulhosa das suas tradições goste de gabar...


Boris Vian, in A Espuma dos Dias

Publicado por dolphin.s em 10:33 AM | Comentários (6)

junho 15, 2004

a verdade

- Tu afirmavas que os seres que se gabam de explicar e de compreender o mundo são sempre incapazaes de o modificar?
- Sim - respondeu o mestre. - O Verdadeiro e o Falso são as escapatórias daqueles que se recusam sempre a tomar uma decisão. Porque a verdade é uma coisa sem fim.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Publicado por dolphin.s em 02:53 PM | Comentários (4)

junho 14, 2004

"realizam uma obra séria e acumulam doçuras"

«A ideia de ser criador, de conceber, de dar forma» não é nada sem a sua grande e permanente confirmação e realização no mundo, nada sem a mil vezes concedida concordância dos objectos e dos animais — e o seu gozo só é tão indescritivelmente belo e rico porque está cheio de recordações herdadas da concepção e do nascimento de milhões de seres. Num único pensamento criador revivem milhares de noites de amor esquecidas que o tornam grande e sublime. E aqueles que se juntam e entrelaçam durante a noite, numa voluptuosidade embaladora, realizam uma obra séria e acumulam doçuras, profundidade e energia para o canto de um qualquer futuro poeta que se irá erguer para descrever indescritíveis venturas.


Rainer Maria Rilke, in Cartas a Um Jovem Poeta
tradução de Lino Marques

Publicado por jm em 12:48 AM | Comentários (2)

junho 12, 2004

A espécie humana

Bertolt Brecht(..) Examinei sempre se existia uma falha momentânea em mim quando de repente não ficava satisfeito com os meus semelhantes. Às vezes não era esse o caso, que eu saiba, mas nesses momentos eu também não tinha nada de concreto a reprovar às pessoas, talvez porque a espécie humana, na sua totalidade, me parecia falhada. Acho que o homem é uma raça que não estava prevista no plano da criação e que este facto só foi reconhecido por uns poucos exemplares ao longo dos poucos milénios da sua existência - exemplares que aliás ainda não puderam chegar eles próprios ao nível do ictiossauro.


Bertolt Brecht

das Notas Autobiográficas, Revista Artistas Unidos nº10

tradução de Jorge Silva Melo e Vera San Payo de Lemos


Publicado por dolphin.s em 03:30 PM | Comentários (8)

junho 11, 2004

Monotonia e desinteresse

O tempo de paz continua para o tempo de guerra e este tempo continuará mais tarde para outro tempo de paz E nada é interrompido. Nada de fundamental. O indivíduo não se interrompia na guerra, não havia tempos de interrupção: é sempre o Homem, não há outro, não há um 2° Homem, há apenas um, o 1°; e é esse — que é o mesmo de há séculos atrás, e será o mesmo no futuro — é esse que tudo atravessa com enfado até a guerra. Monotonia e desinteresse.
A existência humana, o seu essencial, não se deslocara um centímetro, trinta séculos depois de três mil conflitos.

Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser

Publicado por dolphin.s em 08:41 PM | Comentários (0)

junho 10, 2004

sem título...


os últimos segredos,
o homem
regressando
com um livro,
o caçador tornando a casa
com um livro
o camponês
lavrando
com um livro


Pablo Neruda

Publicado por dolphin.s em 12:42 PM | Comentários (4)

junho 09, 2004

Jean-Paul Sartre

O objecto para si próprio pode ser um animal, e o animal - o orangotango, por exemplo — pode ser, para si próprio, um bípede inteligente.
No fundo só és livre se segurares na tua mais pequena partícula e a colocares no bolso, com facilidade. Como ninguém o consegue somos sacos; e não quem carrega os sacos.
Se o amor fosse forte, à frente da bala faria da bala uma inútil máquina em miniatura. Mas é a bala que faz do amor um inútil sentimento em miniatura. Se duvidas, experimenta.



Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

Publicado por jm em 11:03 AM | Comentários (3)

NÃO É TARDE

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão

de que a vida não se esgota, como os saldos
de verão. E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.



José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui

Publicado por jm em 12:14 AM | Comentários (1)

junho 08, 2004

Simone de Beauvoir

Uma mulher habita o colchão devido ao cansaço ou ao sexo.
A cama é um órgão que repousa. A mesa alimenta. O copo dá de beber. O chão permite os sapatos; o tecto alude ao chapéu.
Toda a arquitectura tem consequências na maneira de vestir, na maneira de pensar e na maneira como a frase, vinda do nada, surge, à superfície, numa conversa.
No armário as mulheres arrumam a História dos exércitos: milhões de soldados mortos; enquanto os homens organizam documentos sobre os chefes de cada invasão, não mais de cento e cinquenta desde há dois mil anos.



Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

Publicado por jm em 10:09 PM | Comentários (4)

AMEAÇAS

Aviso-te, velhaca, mais uma vez:
mete-te com os da tua laia, ladra,
que me levaste da mesa os copos
por onde bebia e deixaste na alma
as cadeiras frias. Arrepende-te, Morte,
e devolve-me as veias, os amigos,
as sementes de papoila. Restitui-me o intacto
futuro da minha juventude, a fotografia
onde cabíamos todos e a minha solidão
era uma onda quebrada nas pedras de gelo.
Traz-me de volta o silêncio do Jaime,
o cheiro a serrim, traz-me o Leal e ainda
o Artur, com todas as músicas desse verão,
o nó da fortuna, de '89. Não te esqueças
também do Luís, deixou por contar
o resto da história. Nem do Joel,
o mais desgraçado rapaz,
que me confessou um dia haver morrido
sem nunca ter sido beijado.

Fazes-me isso, e perdoo-te o resto. Mas
se torno a ver-te a menos de quinze passos
dos meus — eu juro que te mato.



José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui

Publicado por jm em 12:37 PM | Comentários (1)

junho 07, 2004

Thomas Mann

Escreveu sete mil páginas sobre a alta sabedoria e seis páginas sobre uma mulher de estatura mediana. Ninguém tem necessidade de guerra nem de adjectivos. A criação é uma juventude.

Atravessei a grandeza evitando olhar para cima. Se atravessares a grandeza olhando em frente no final serás grande. E se ainda te lembrares do percurso terás uma metodologia.



Gonçalo M. Tavares, in Biblioteca

Publicado por jm em 11:51 PM | Comentários (1)

STALKER — A. TARKOVSKY

É tarde há tanto tempo.
Mas vai, se acreditas.

Talvez chegues à razão
suficiente,
ao lugar onde perdeste
a estrela de xerife,
as rodas laterais
da primeira bicicleta.

Diz adeus à vida doce
que te nega, diz comigo:
a urze não se dobra,
a torre não defende,
a noite não esconde
que ficou para ficar.

Quem sabe recuperas,
de trigo a mangual,
o centro cambiante do amor.



José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui


para a Cristina M. Fernandes

Publicado por jm em 11:38 PM | Comentários (5)

pecado

o pecado é o artifício mais perigoso e mais nefasto da interpretação religiosa. Sofrendo de si mesmo, desta ou daquela maneira, mas sempre fisiologicamente, mais ou menos como um animal enjaulado, sem saber ao certo porquê e para quê, desejoso de saber com que fundamentos, porque os fundamentos aliviam, desejoso também de um remédio, de um narcótico, o homem acaba por pedir conselho a um conhecedor das coisas escondidas... E, veja-se bem, recebe um sinal, recebe do mágico a quem se dirigiu, o sacerdote ascético, o primeiro sinal sobre a «causa» do seu sofrimento: deverá procurá-la dentro de si próprio, numa culpa, num episódio do passado, deverá entender todo o seu sofrimento como um estado de punição... O desgraçado ouviu, entendeu... e agora sente-se como a galinha à volta da qual traçaram um círculo. Já não consegue sair do círculo: o doente está já transformado em «pecador»... E a partir desse momento, durante mais de dois milénios, já não nos libertamos da imagem deste novo doente, «o pecador» — será que alguma vez nos libertaremos dela?; para onde quer que nos viremos, por toda a parte encontramos o olhar hipnótico do pecador, sempre virado na mesma direcção, na direcção da «culpa», entendida como única causa do sofrimento; por toda a parte a má consciência, esse «animal execrável», para usar a expressão de Lutero; por toda a parte o passado constantemente ruminado, os factos virados do avesso, o olhar de soslaio recaindo sobre tudo o que é acção; por toda a parte a incompreensão voluntária do sofrimento transformada em sentido da vida, a reinterpretação do sofrimento em sentimentos de culpa, medo e punição; por toda a parte o chicote, o cilício, o corpo mortificado, o acto de contrição; por toda a parte as torturas que o pecador inflige a si próprio preso à roda cruel de uma consciência inquieta e voluptuosamente doentia; por toda a parte o tormento surdo, o pavor extremo, a agonia do coração martirizado, os espasmos de uma felicidade incógnita, o grito que implora pela «salvação».


Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral

Publicado por dolphin.s em 01:55 PM | Comentários (1)

junho 04, 2004

máquinas

— Veja esta fábrica: estamos perante o espanto sobrenatural. Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo.
Se a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Fala-se em máquinas de guerra, mas nenhuma máquina é pacífica, Walser.

Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser

Publicado por dolphin.s em 10:41 AM | Comentários (2)

junho 03, 2004

estes campos, vendo bem, a estrada cobre-os

estes campos, vendo bem, a estrada cobre-os
de pó e, quem vá sentar-se na erva, tem de fugir de lá.
Entre as encostas há sempre uma vinha que agracia mais que as outras:
chegará o dia em que o mecânico desposa a vinha que lhe agrada
mais a rapariga, e sairá para o sol,
mas para cavar, e voltará com o pescoço todo negro
e beberá do seu vinho, prensado nas noites de Outono na adega.

Também de noite passam carros, mas silenciosos,
tanto que ao bêbado no fosso não o despertaram.
De noite não levantam poeira e a luz dos faróis
revela plenamente o cartaz no prado, na curva.
Ao romper do dia passam com cuidado e não se ouve um rumor,
a não ser da brisa que passa, e chegados lá cima
diluem-se na planura mergulhando na escuridão.


Cesare Pavese, in Trabalhar Cansa

Publicado por dolphin.s em 10:39 AM | Comentários (2)

junho 02, 2004

La Danaide


Rodin, La Danaide

Rodin

Publicado por dolphin.s em 11:23 AM | Comentários (5)

junho 01, 2004

...

A moral que nos transmitiram equivale a fazerem-nos caminhar por uma corda vacilante sobre um abismo, depois de nos darem apenas por conselho que nos conservemos bem direitos!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 11:46 AM | Comentários (2)