Something in you caused me to, Take a new tact with you, You were going through something, I had just about scraped through
Why do you think I let you get away, With the things you say to me?, Could it be I like you, It's so shameful of me, I like you
No one I ever knew or have spoken to, Resembles you, This is good or bad, all depending on, My general mood
Why do you think I let you get away, With all the things you say to me?, Could it be I like you, It's so shameful of me, I like you
Magistrates who spend their lives, Hiding their mistakes
They look at you and I, and, Envy makes them cry, Envy makes them cry
Forces of containment, They shove their fat faces into mine, You and I just smile, Because we're thinking the same lines
Why do you think I let you get away, With all the things you say to me?, Could it be I like you, It's so shameful of me, I like you
You're not right in the head and nor am I, And this why, You're not right in the head and nor am I, And this why
This is why I like you, I like you, I like you, This is why I like you, I like you, I like you
Because you're not right in the head, and nor am I, And this is why, You're not right in the head, and nor am I
And this is why, This is why I like you, I like you, I like you, I like you
This is why I like you, I like you, I like you, I like you, This is why I like you, I like you
Morrissey, You are the Quarry
para ti ;)***
A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto, sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.
Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser
Nós, homens modernos, somos os herdeiros de uma vivissecção da consciência, de um acto de tortura que um animal praticou sobre si mesmo durante milhares de anos: é aí que reside a nossa mais longa prática, porventura o nosso talento, e decerto é aí que se exerce todo o nosso refinamento e que o nosso gosto se vê satisfeito. Há demasiado tempo que o homem olha «de lado» para as suas inclinações naturais, como coisa má, de tal modo que essas inclinações acabaram por se entrelaçar com a «má consciência». Uma tentativa em sentido inverso seria, em si, possível... mas haverá alguém suficientemente forte para a levar a cabo? Uma tentativa para entrelaçar com a má consciência as nossas inclinações não-naturais, todas aquelas aspirações ao além, as aspirações contrárias ao sentido, aos instintos, à natureza, ao animal, resumindo, os ideais até hoje conhecidos, todos os ideais que são hostis à vida e que caluniam o mundo. Mas a quem nos havemos de dirigir hoje com tais esperanças e com tais pretensões...? Porque teríamos desde logo contra nós precisamente os homens bons; e, para além desses, como é evidente, teríamos os acomodados, os resignados, os frívolos, os exaltados e os fatigados... Haverá alguma coisa que ofenda mais profundamente, que afaste mais radicalmente do que alguém dar a ver um pouco do rigor e da elevação com que a si próprio se trata? E, pelo contrário, quanta simpatia e agrado nos mostra toda a gente quando procedemos como toda a gente e quando nos «deixamos ir» como toda a gente...!
Friedrich Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral
Desde que haja fé, podemos precipitar um bom cristão ou um judeu piedoso do cimo de qualquer andar da esperança ou do bem-estar que cairá sempre, por assim dizer, sabre os pés da sua alma. Com efeito, todas as religiões haviam previsto, na explicação da vida que ofereçam aos homens, uma parte de irracional, incalculável, a que chamam os desígnios impenetráveis de Deus; se o mortal não conseguia chegar a um cálculo exacto, bastava-lhe recordar esse resto e o seu espírito podia esfregar as mãos de contente. Esta maneira de cair sobre os pés e esfregar as mãos chama-se uma «concepção do mundo»; e isso é uma coisa que o homem contemporâneo já não conhece. Ou então tem de renunciar a toda a reflexão acerca da vida, o que, para muitos, é o suficiente; de contrário cai nessa estranha contradição, que consiste em pensar, sem conseguir nunca uma satisfação completa. No decorrer da História tal contradição assumiu a forma, ora de uma descrença total, ora de uma nova e total submissão à crença. Hoje, na maioria dos casos, ela traduz-se pela ideia de que não poderia existir uma verdadeira vida humana sem a participação do espírito, mas que esta também não poderia subsistir se essa participação se tomasse demasiado activa. Toda a nossa civilização assenta neste princípio. Toma muito a peito subvencionar os estabelecimentos de instrução e de pesquisa, mas tem o cuidado em que essas subvenções não sejam exageradas e mantém uma modéstia decente em relação às somas que despende nos seus prazeres, nos seus automóveis, e nos seus armamentos. Deixa em tudo o caminho livre ao homem capaz, velando, porém, para que essa capacidade seja rendosa. Mediante uma certa resistência, acaba por admitir todas as ideias, no entanto essa resistência aproveita automaticamente, mais tarde, à ideia contrária. Poderíamos ver nisto, da sua parte, uma certa fraqueza, uma monstruosa indolência; trata-se também, sem dúvida, de ura esforço deveras consciente paira fazer compreender ao espírito que este não é tudo. Bastava que se tomasse bem a sério qualquer uma das ideias que influenciam a nossa vida, de modo que não subsistisse absolutamente nada da ideia contrária, para que a nossa civilização deixasse de ser aquilo que é!
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
A vontade do homem que quer achar-se culpado e condenável até ao extremo da impossibilidade de expiação, a vontade de se ver punido sem que a punição possa alguma vez ser equivalente à culpa, a vontade de infectar e envenenar o fundamento último das coisas com o problema da punição e da culpa para assim rasgar de uma vez por todas uma saída deste labirinto de «ideias fixas», a vontade de erigir um ideal — o ideal do «Santo Deus» — para poder, perante ele, estar certo da sua absoluta indignidade. Ai! Um «ai» por esta besta-homem, louca e triste! Que invenções as suas, que coisas contra natura, que paroxismos de absurdo, que bestialidade da ideia se manifesta imediatamente assim que a impedem por um momento de ser besta de acção!... Tudo isto é mais do que interessante, mas tudo isto é também de uma tristeza tão sombria, tão deletéria, que é preciso proibirmo-nos vigorosamente de olhar por demasiado tempo para dentro desse abismo! O que aqui temos é doença! Sem dúvida, a doença mais terrível que até hoje grassou entre os homens!... E se alguém, no meio dessa noite de martírio e de absurdo, ainda consegue ouvir os ecos (embora hoje já ninguém tenha ouvidos para tais coisas!...) do grito de «amor», do grito ansioso de êxtase, do grito da redenção pelo amor, só lhe resta fugir, tomado de um pavor invencível... Há no homem tanto de execrável!... O mundo é um manicómio, e há demasiado tempo!...
Friedrich Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
Álvaro de Campos
A vida é um estado de dureza e infelicidade durante o qual não se deve pensar de mais no dia de amanhã, porque o dia de hoje já é suficientemente difícil. Como pode alguém não perceber que o mundo humano não é uma coisa flutuante, antes tende para uma condenação máxima, porque a menor irregularidade o faz correr o risco de se desmantelar completamente? Mais ainda: como pode um observador deixar de reconhecer que essa mistura de preocupações, de instintos, de ideais que é a vida (a vida, que não utiliza nunca as ideias senão para abusar delas para seu proveito, ou para as transformar em excitantes), actua sobre essas ideias para lhes dar forma e coerência, e que é dela que as ideias recebem o movimento e a sua limitação natural? É certo que é da uva que se extrai o vinho, mas é muito mais bela a vinha, com a sua terra incomestível e as suas filas de cepas, do que jamais será uma dorna de vinho!
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
O soslaio do operário estúpido ao engenheiro doido -
O engenheiro doido fora da engenharia...
O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo entre os normais -
(Quando me olham cara a cara não os sinto sorrir)
Álvaro de Campos
Os homens ricos consideram a riqueza uma qualidade pessoal. O mesmo se dá com os pobres. Todos estão tacitamente convencidos disso. Apenas a lógica opõe algumas dificuldades a admiti-lo, afirmando que a posse do dinheiro pode, em rigor, obter certas qualidades paira a pessoa, mas nunca tornar-se por si numa qualidade. A mentira salta aos olhos. Não há nenhum nariz humano que não consiga farejar imediatamente, infalivelmente, o subtil perfume de independência, de hábito de comando, de hábito de escolher em toda a parte o que há de melhor, de leve misantropia, de responsabilidade consciente, que se exala de um rendimento sólido e considerável. Apenas pelo aspecto, adivinha-se o rico alimentado e quotidianamente reabastecido por uma selecção das melhores substâncias cósmicas. O dinheiro circula sob a sua pele como a seiva de uma flor; ali não há qualidades emprestadas nem hábitos adquiridos, nada que seja indirecto ou em segunda mão: suprima-se-lhe a conta no banco e o crédito e o homem rico, não só deixa de ter dinheiro, como se transforma numa flor murcha. Tão impressionante como era antes a qualidade de rico, surge agora nele a indescritível qualidade de nulo, com o cheiro a esturro da insegurança, da caducidade, da inactividade e da miséria. A riqueza é pois uma qualidade simples, pessoal, que se não pode analisar sem a destruir.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
"Todos os poetas são judeus"
M. Tsvietaieva
Essa dos poetas, Senhora, com vocação
para apanhar no pelo, tem quase tanta graça
como a outra, de chamar vítimas às vítimas
oficiais do século XX. Como se a história
fosse um prato congelado e a moral
o restaurante onde se come mais barato.
Entretanto, nós somos acusados de atirar pedras.
Mas vede, Senhora, não são pedras, é o que resta
das nossas casas, abatidas por Golias.
Na mão que lhe estendemos deixou-nos esta funda.
Que mais podemos nós, senão utilizá-la?
Razão tem a pedra na conhecida fábula
da Pedra no Sapato quando diz:
todas as pedras são palestinianas.
José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui
como se o vento trouxesse
recados
que pudesse abandonar
ao serviço do mensageiro
como se o vento te pudesse levar
e as palavras transformar
no milagre da cerejeira
não descuides o vento
que quem uiva
é lobo faminto
rodeia-te antes do essencial
faz-te cozinheira, semeia o teu quintal
o que por natureza rola
há-de rolar
e tu sozinha
o que podes contra o vento?
Ana Paula Inácio, in Vago pressentimento, azul por cima
Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos
nas nossas pequenas razões. Estas ruas
ainda prometem mais do que podem cumprir?
A breve epifania do amor ou simplesmente
um cúmplice que nos diga, à mesa de um café,
que não faz mal, que pouco importam
as perdas e danos que sofremos.
De qualquer modo o mundo continua.
Entre o medo e a esperança
procuramos a nossa incerta morada
e enquanto isso envelhecemos mais um dia,
colhidos pelo tempo em plena queda. Nas praças,
nos quintais, a noite aparece depois do jantar
cheia de boas promessas, mas já vem condenada
ao tropel dos crentes, ao cego movimento da manhã.
Rui Pires Cabral, in Praças e Quintais
De criadores de cabras e de naus
a bisonhos fabricantes de badalos
para sinos de betume, caro Georges,
anda ver o meu país de gazeteiros,
entre o pau que vai e vem,
infaustos foliões, de costas para o mar.
Anda ver estes Maneis, dobrados de avidez,
os dedos apertados por volantes suicidas,
abolidos entre fados, manivelas, promoções.
À porrada que lhes dão chamam-lhe futuro,
temem mais os livros do que a morte de um irmão
e colocam a cabeça mais a jeito do carrasco.
Das Marias só te conto a mania do verniz,
os derrames de perfume no altar da pequenez,
a vida cambiada pelo crédito de gritos.
Anda, caro Georges, anda ver e depois diz-me
se o pior da alma humana
vem ou não à superfície, como lodo,
quando séculos de pez e abulia são bulidos
por correntes de paixões bonificadas,
no caseiro leva-e-traz de catilinas ambições,
de razões inoculadas pelo gosto de morrer
cada dia um poucochinho.
José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui
Mas esta guerra, como todas as outras, ainda não é a verdade final do homem, ainda não é um elemento capaz de excluir por completo a possibilidade de mentira; a última guerra, a verdadeira, a que se afastará desta imitação, será aquela em que cada um combaterá todos os outros, em que cada homem será o início e o fim do seu exército; a guerra verdadeira, a guerra exacta, a guerra que demonstrará finalmente o que é um indivíduo, essa guerra, que ainda não veio, que jamais se viu em qualquer ponto, mas que virá, estou certo, essa guerra é aquela onde quaisquer dois corpos que se aproximem o farão por ódio. Toda a aproximação será para matar, ou ainda não estaremos perante verdadeiros Homens.
Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser
Para o Manuel de Freitas
E o pior é que chamamos liberdade
a um tapete que, rolante, já não ouve
a opinião dos nossos pés; que nos leva
para onde e anuímos, alheados,
aos mecânicos desígnios do terror.
Respiramos cadeados, consumimos injustiça,
damos duas várias voltas ao risonho torniquete
que nos serve de chapéu; trocamos a cabeça
por um prato de aspirinas. Os clássicos da vida
sem tristeza nem remorso (Cinderela,
Varadero, off-shore) iluminam o cenário
em que dormimos, inocentes como balas
e nem sei como não somos mais felizes.
As rémoras, os ogres, os deuses mais bonitos,
velam nossa carne como grifos educados.
O tratado das sementes, o saber do lenhador,
queremos lá saber de quem é pobre como nós.
Confiados ao acaso, disputamos amuletos,
reforçamos sob os pés a solidez do desacerto,
colocamos outra pedra no sapato.
José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui
Os períodos em que existe medo são utilizados não apenas para sobreviver: também para as paixões efusivas. Mas se a qualidade de uma geração se mede pela qualidade das frases que quem seduz utiliza, então aquela era, sem dúvida, uma geração medíocre.
Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser
Há quem diga que depois da batalha de Queroneia,
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.
Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir as farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juízo, que fossem brincar para outro lado.
José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui
Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições acalmavam, só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte. Repetições de actos ou de pequenos gestos, de palavras ou de frases banais — repetições até de actos não visíveis, não registáveis pelos outros, como imagens e memórias do cérebro, tudo isso permitia a cada um sobreviver no meio da confusão, resistir no meio do reino da desordem, no meio daquilo que Klober costumava designar como século da imprevisibilidade, século não apenas contrário mas inimigo da repetição. Este não é um século normal, costumava dizer Klober, mas os homens deste século continuam a ser o que sempre foram. E era esta, a mistura: Homens que repetiam os actos essenciais das gerações anteriores e que eram invadidos — e esta é uma utilização exacta do termo pois descreve o fluxo e a velocidade dos movimentos — eram invadidos, então, ao mesmo tempo, por fenómenos absolutamente novos.
Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser
Os ataques de Nietzsche à ideia moderna de democracia têm como pano de fundo a convicção profunda (certamente baseada na sua experiência da Europa do seu tempo) de que existe uma sobreposição entre democracia e igualitarismo, ou seja, que a ideia de democracia está presa da ideia de indiferenciação entre os indivíduos que se anulam inevitavelmente.
in prefácio para O Anticristo, António Marques
O sistema actualmente em uso, o sistema da realidade, assemelhar-se-ia a uma peça de mau teatro. Não era por acaso que se falava de «teatro do mundo», porque na vida vamos sempre encontrar os mesmos papéis, as mesmas fábulas e as mesmas peripécias. Ama-se porque o amor existe, amamos segundo as fórmulas existentes; é-se orgulhoso como um índio, como um espanhol ou um leão; assassina-se, até, porque, na maioria dos casos, o assassinato passa por ser trágico e grandioso. Acrescentemos que os mais felizes dos modeladores políticos da realidade, pondo de parte as grandes excepções, têm muito de comum com os autores em voga; as intrigas vivas que eles suscitam aborrecem pela sua falta de inteligência e de novidade mas, por essa mesma razão, lançam-nos num estado de embrutecimento sem defesa dentro do qual tudo aceitamos desde que cheire a novidade. Compreendida deste modo, a História nasce da rotina das ideias, daquilo que nelas existe de mais indiferente; quanto à realidade, ela nasce principalmente do facto de nada fazermos no que respeita às ideias.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
Por qualquer imponderável razão, os jornais não são aquilo que deveriam ser para satisfação de todos, ou seja os laboratórios e as estações de ensaio do espírito, mas sim, na maioria das vezes, bolsas e armazéns. Se Platão ainda vivesse (tomemos este exemplo, uma vez que ele, com mais uma dúzia de outros, é considerado dos maiores pensadores) sentir-se-ia sem dúvida encantado com um lugar em que cada dia pudesse ser criada, modificada, afinada, uma ideia nova, em que as informações confluem de todos os cantos da Terra com uma rapidez jamais conhecida e em que um estado-maior completo de demiurgos se encontra a postos para medir no próprio momento a sua consistência espiritual e a sua realidade. Ele teria adivinhado numa redacção de jornal esse topos ouranios, esse lugar celeste das ideias, cuja existência evocou tão intensamente, que ainda hoje todo o homem honesto se sente idealista quando fala aos seus filhos ou aos seus empregados. Se ele voltasse bruscamente à vida nos dias de hoje numa sala de redacção e conseguisse provar que era na verdade Platão, o grande escritor falecido há mais de dois mil anos, causaria, evidentemente, grande sensação e obteria excelentes contratos. Se em seguida se revelasse capaz de escrever no espaço de três semanas um volume de impressões filosóficas de viagem e um ou dois milhares das suas célebres notícias, talvez mesmo de adaptar paira o cinema uma ou outra das suas obras antigas, podemos estar certos de que os seus negócios prosperariam extraordinariamente durante algum tempo. Mas tão depressa passasse a actualidade do seu regresso à vida, se o senhor Platão insistisse em pôr em prática esta ou aquela das suas ideias célebres que nunca conseguiram vingar verdadeiramente, o redactor-chefe pedir-lhe-ia apenas para escrever sobre esse tema um lindo folhetim paira a página recreativa (num tom o mais leve e brilhante possível, num estilo menos complicado, em atenção aos leitores); e o redactor da dita página acrescentaria que, infelizmente, não podia aceitar colaboração daquele tipo mais do que uma vez por mês, visto existir um grande número de outros escritores de talento. Aqueles dois senhores teriam pois a sensação de terem feito muito por um homem que, embora se considerasse o Nestor dos publicistas europeus, nem por isso deixava de estar ultrapassado.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
E os Homens, como um todo, são inacessíveis. É uma espécie que se prolonga por todos os buracos do mundo, resistindo às temperaturas bruscas, às fortes bombas, à intensidade que o amor coloca em certos momentos em certos corpos; a espécie humana mantém o pescoço alto como um cisne inteligente, olha por cima dos muros; enquanto adolescentes que fingiam dar atenção às notícias sobre o país fingem afinal escorregar com o objectivo pacífico de espreitar por baixo das saias de raparigas que se fingem também distraídas com a pátria, e os seus problemas. Tudo mente.
Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser