abril 29, 2004

Sois a sua coisa

Ser obrigado é ser explorado. Os felizes, os poderosos, aproveitam-se do momento em que estendeis a mão para lhe meterem um soldo, e do momento em que sois cobardes para vos tornarem escravos, e escravos da pior espécie, escravos de uma caridade, escravos forçados a amarem! Que infâmia! Que indelicadeza! Que surpresa para a nossa altivez! E está tudo acabado, aí estais condenados, perpétuamente, a achar bom aquele homem, bela aquela muulher, a ficar no segundo plano subalterno, a aprovar, a aplaudir, a admirar, a incensar, a prostar-vos, a pôr nas vossas rótulas o calo do ajoelhar, a açucarar as palavras, quando estais devorados pela cólera, quando mascais gritos de furor, e quando tendes em vós mais selvagem agitação e mais amarga espuma do que o oceano.
É assim que os ricos fazem prisioneiro o pobre.
Este visco da boa acção cometida para convosco suja-vos e enlameia-vos para sempre.
Uma esmola é irremediável. Reconhecimento é paralisia. O beneficio tem uma aderência viscosa e repugnante que vos tira a liberdade de movimentos. Os odiosos seres opolentos e gordos cuja piedade se abateu sobre vós bem o sabem. Está dito. Sois a sua coisa. Compraram-vos. Por quanto? Por um osso, que tiraram ao seu cão para vos oferecerem. Lançaram-vos este osso à cabeça. É o mesmo. Roestes o osso ou não? Também tivestes uma parte do nicho. Por isso agradecei. Agradecei para sempre. Adorai os vossos senhores. Genuflexão indefinida. O beneficio implica um subentendido de inferioridade aceite por vós. Exigem que vos sintais pobres diabos e que os sintais a eles deuses. A vossa diminuição aumenta-os. A vossa curvatura levanta-os. Têm no som da voz uma doce ponta de impertinência. Os seus acontecimentos de familia, casamentos, baptismos, a fêmea prenhe, os filhos que dá à luz, tudo isso é convosco. Nasce-lhes um lobozinho, bem, tereis de compor um soneto. Sois poetas para serdes chatos. Se não é para fazer cair o céu! Um pouco mais e far-vos-iam usar o seu calçado velho.
De resto se estais doentes, os senhores mandam-vos o médico. Não o seu. Nas ocasiões, informam-se. Não pertencendo à mesma espécia que vós e estando do seu lado o inacessível, são afáveis. O seu alcantilamento torna-os inabordáveis. Sabem que o nivelamento é impossível. À força do desdém, são bem educados. À mesa fazem-vos um pequeno sinal de cabeça. Algumas vezes sabem a ortografia do vosso nome. Só vos fazem sentir que são vossos protectores ao caminharem simplesmente sobre tudo quanto tendes de susceptível e delicado.Tratam-vos com bondade!


Victor Hugo, in O Homem que Ri


para o Simak ;)

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abril 28, 2004

FADO QUALQUER

Quinteto Tati, ExílioE enfim, estava tudo bem ou coisa assim: o apartamento confortável, bom design, um amor normal e tal. Em vão procurou razões de exaltação e voltou para casa muito, muito devagar, como quem não quer chegar. Pensou nos tempos que em festas e dramas bebeu pelos becos, dançou nas vielas, pôs todos os homens a cantar. Mas hoje à noite, se um fado qualquer soar estafado na sala de estar, talvez se aguente sem nada dizer, enchendo a boca durante o jantar.




Fado Qualquer por J.P. Simões, legível e audível no disco do Quinteto Tati, Exílio.

o CD pode ser encontrado por aí, num quiosque perto de si

Publicado por jm em 12:49 PM | Comentários (5)

abril 26, 2004

Encontrar um sentido para a acção

A nossa época transporda de energia. Só conseguimos ver actos e nenhum pensamento. Esta energia terrível provém de não termos nada em que nos ocuparmos. Interiormente, quero eu dizer. Mas, afinal, o homem não faz anais do que repetir, durante toda a vida, um só acto: ingressa numa profissão e progride nela. É tão simples ter força para agir e tão difícil encontrar um sentido para a acção! Hoje muito pouca gente compreende isto. Por isso os homens de acção se assemelham a jogadores de berlinde que assumissem as posições de Napoleão para derrubar nove mecos de madeira! Não me admiraria até se acabassem por chegar a vias de facto, unicamente para ver passar por cima das suas cabeças este mistério incompreensível: ou seja que todas as acções do mundo nunca são suficiente!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 10:37 AM | Comentários (1)

abril 25, 2004

25 de Abril


25 de Abril

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abril 23, 2004

Segredo de Estado

Para lá dos medicamentos, também a alimentação e muitas outras coisas se tornaram segredo de Estado. Uma das mais fortes objecções contra a democracia, oriunda do tempo em que as classes proprietárias a formulavam, porque receavam ainda, não sem alguma razão, o que uma democracia verdadeira pudesse significar para elas, era a evocação da ignorância da maior parte das pessoas, um obstáculo efectivamente redibitório que impedia conhecerem e conduzirem as coisas que lhes dizem respeito. Hoje em dia, essas classes sentem-se mais descansadas devido às vacinas recentemente descobertas contra a democracia, no fundo pequenas doses residuais com que pretendem tranquilizar-nos: porque as pessoas desconhecem tanto o que lhes é posto no prato como os mistérios da economia, as negociações para a redução de armas estratégicas como as subtis «escolhas entre modelos de sociedade», propostas apenas para que o actual continue e tudo recomece mais uma vez.
Quando o segredo vai ao ponto de poder estar num prato à nossa frente, não é possível acreditar que toda a gente desconheça todas as coisas. Os especialistas, contudo, não querem contribuir, no interior do espectáculo, para fazer circular verdades tão perigosas. Calam-nas. Porque é aí que todos jogam os seus interesses. E o indivíduo real, assim isolado, já não confiando sequer no seu próprio gosto e nas suas próprias experiências, passa a confiar apenas numa farsa socialmente organizada. Essas verdades, poderiam os sindicatos dizê-las? Se o fizessem seriam considerados irresponsáveis - e revolucionários. Os sindicatos defendem, em princípio, os interesses dos assalariados no quadro do próprio salariado. Defendiam, por exemplo, o «direito ao bife». Mas era um bife abstracto (agora defendem, ou melhor, não defendem, uma coisa ainda mais abstracta, o «direito ao trabalho»). Apesar de o bife, nos dias de hoje, ser quase inexistente enquanto realidade concreta, os especialistas não deram, pelo menos oficialmente, pelo seu desaparecimento.
Isto porque o bife que ainda vai conseguindo existir clandestinamente, proveniente de animais criados sem produtos químicos, tem um preço obviamente mais elevado e porque a revelação da sua simples existência abalaria fortemente os alicerces do templo da «política contratual». Na nomenklatura ocidental sabe-se agora muito bem o que acontece para termos de pagar a peso de oiro alimentos saudáveis.


Guy Debord, in Enganar a Fome


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abril 20, 2004

Ordinary Spaces


Patrick Sundqvist - Ordinary Spaces, Årsta, Sweden


© Patrick Sundqvist - Ordinary Spaces, Årsta, Sweden

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A moral do nosso tempo

A moral do nosso tempo, digam lá o que disserem, é uma moral de produção. Justificam-se bem cinco falências mais ou menos fraudulentas desde que a quinta seja seguida de uma época de prosperidade e de benefícios. O êxito pode fazer com que se esqueça tudo. Quando se atingiu uma situação na qual se podem consentir subvenções e comprar obras de arte, do mesmo modo se consegue a indulgência do Estado. Neste tipo de contralto, existem cláusulas não expressas: quando alguém dá dinheiro em benefício da igreja, das obras ou dos partidos, bastar-lhe-á gastar um décimo, quando muito, do que deveria despender se resolvesse provar a sua boa vontade favorecendo as belas-artes. Além disso, há limites impostos ao êxito: não se pode obter o que quer que seja de qualquer jeito; certos princípios relacionados com a Coroa, a Nobreza e a Sociedade exercem sobre «o homem novo» uma espécie de travão. Por outro lado, na sua qualidade ser suprapessoal, o Estado adopta francamente o princípio de que se pode pilhar, massacrar e enganar se daí advier poder, glória e civilização.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 11:17 AM | Comentários (2)

abril 19, 2004

Quem sou?

Fernando PessoaDurei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse - de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta - tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio à beira-mar.
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio nocturno à beira-mar!


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:12 AM | Comentários (7)

abril 17, 2004

Coimbra


Jardim da Sereia

Publicado por dolphin.s em 11:32 PM | Comentários (6)

abril 16, 2004

Papel

Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.



Carlos Oliveira, in antologia poética, Ed. Quasi

Publicado por jm em 12:11 PM | Comentários (3)

abril 15, 2004

Porto


de Gaia

Publicado por dolphin.s em 10:53 PM | Comentários (7)

Lisboa


do Taborda

Publicado por dolphin.s em 10:52 PM | Comentários (6)

Vida privada

Clementina e Léon eram vítimas do preconceito segundo o qual dependiam um do outro quanto às suas paixões, aos seus caracteres, aos seus destinos e às suas acções. Na realidade, quase toda a existência é feita naturalmente, não de acções, mas sim de discursos de que assimilamos o ponto de vista, de opiniões e de contra-opiniões correspondentes numa palavra da acumulação impessoal de tudo quanto sabemos ou ouvimos. O destino desses dois esposos dependia quase inteiramente de uma estratificação tenaz, confusa e desordenada dos pensamentos, os quais tinham origem não nas suas opiniões pessoais, mas na opinião pública, e se modificaram ao mesmo tempo que esta sem que eles próprios pudessem defender-se disso. Comparada) a esta espécie de dependência, a sua dependência individual recíproca era uma coisa insignificante, um saldo absurdamente desprezado. Enquanto se persuadiam um ao outro de que tinham uma vida privada, e punham reciprocamente em causa os respectivos caracteres e vontades, a dificuldade sem esperança de tal conflito residia por inteiro na sua irrealidade, dissimulada por eles mesmos sob todas as contrariedades possíveis.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 10:41 AM | Comentários (3)

abril 14, 2004

Amanhã

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção -isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.
Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:58 PM | Comentários (2)

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar


Jorge Palma

Publicado por dolphin.s em 11:06 AM | Comentários (5)

abril 13, 2004

CANADA'S SHAME


Boycott CanadaBoycott Canada
Boycott Canada
Boycott Canada


Publicado por dolphin.s em 05:27 PM | Comentários (5)

Gumes (8)

Assomados, com o andar tibuteante das vítimas da realidade absoluta, desfalecemos em convulsões de electrochoque no turbilhão da engrenagem triturante que nos transporta em sucessivas oscilações sísmicas para o apaziguamento da indiferença e o amargo isolamento da solidão. Nada é o que era, nada foi o que sonhamos, apenas visões esfumadas ao contacto da memória, apenas imprecisas impressões de um tempo gasto pela usura. Tivemos o mundo, fomos o mundo... Salve, cadáveres brancos da inocência! Salve, corpos belos do amor! Salve, feiticeiros da embriaguez permanente! Salve, magos da existência não fragmentária! Salve, pederastas do desejo, junkies do caos, prisioneiros da liberdade! Salve, irreprimível lúdico! Salve, criadores de vida, amantes da infância, viciados do presente! Salve, orfãos perdidos! Salve! Salve! Salve!


Mão Morta, in Nus
[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Publicado por dolphin.s em 02:24 PM | Comentários (0)

TORNADOS

Alucinado, orfão de amores, pus fogo à casa, rufei tambores. Os
cães rosnando, a dor também, não tive medo de ir mais além. O
peito arde, ardem cidades, veias do mundo na tempestade. Antes
assim. Visito a morte: passa-me a língua no sexo forte, veludo
rubro em carne viva, garganta funda super activa. São ventos de
outra era que me sopram na memória, tornados de quimera que
ficaram na história, são beijos pueris de traições anunciadas, são
fúrias febris, dementes, desesperadas...

Mão Morta, in Nus
[Adolfo Luxúria Canibal / António Rafael]

Publicado por dolphin.s em 11:19 AM | Comentários (0)

Aquilo que desejou durante toda a vida

Quem não ficaria embaraçado se de repente acontecesse aquilo que desejou durante toda a vida? Por exemplo, se o reino de Deus se abatesse subitamente sobre os católicos, e o Estado do futuro sobre os socialistas? Mas talvez isso não prove nada; nós habituámo-nos a reivindicar e não podemos ficar de um momento para o outro em estado de realizar; pode ser que muito gente ache isso natural. Prosseguirei pois com as minhas perguntas: não há dúvida de que, para um músico, o essencial é a música e, para um pintor, a pintura; é provável que, para um especialista do betão, o essencial sejam as construções em betão. Acha que, para esse, o bom Deus será um técnico do betão armado e que os dois outros preferem um mundo pintado ou tocado em trompa? Com certeza julga esta pergunta absurda, mas o caso é que, muito a sério, seríamos obrigados a reivindicar coisas absurdas! E, sobretudo, não vá imaginar — prosseguiu ele com gravidade, voltando-se para ela — que cada um prefere o que é dificilmente realizável e despreza o que se pode realmente obter. Não, o que quero dizer é isto: que a realidade guarda em si um desejo absurdo de irrealidade!
Ulrich voltou-se e riu. — Você, minha cara prima, meteu-se numa coisa extremamente perigosa. Os homens sentem-se sempre infinitamente felizes quando os deixam na incapacidade de realizar as suas ideias!
— E que faria você — inquiriu Diotima, irritada — se lhe dessem por um dia o governo do mundo?
— Com certeza só me restaria abolir a realidade!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Publicado por dolphin.s em 10:54 AM | Comentários (0)

abril 12, 2004

em fim de tarde...


Fonte da Telha - 10.04.04

A memória é uma ficção e o passado uma espécie de sonho que nos sonha tanto quanto o sonhamos nós.

Manuel António Pina, in Os Papéis de K.


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Viagem ao Coração dos Pássaros

Viagem ao Coração dos Pássaros, Possidónio CachapaLá fora, os carros continuam a rosnar. Homens e mulheres caminham de cabeça baixa, sem ver que debaixo dos seus pés existe um passeio construído com raciocínio e técnica. Que o homem que colocou aquelas pedras tinha uma família e que enquanto batia com o seu martelo de calceteiro e soltava nuvens esparsas de tabaco barato e pó branco, também ele próprio não tomava consciência dos materiais, ocupado em pensar na noite anterior em que o sexo lhe amolecera precocemente, na vagina da mulher. Não sendo isso a primeira vez e, por isso mesmo, se estava a tornar coisa preocupante; e que essa pedra tinha vindo de longe, de uma pedreira no Norte, situada no meio de um vale, onde um dia se tinham passeado homens a cheirar a bicho e antes deles bichos a cheirar a si próprios, ou, ocasionalmente, ao sangue ou às vísceras dos animais engolidos.
Por baixo das pedras talhadas, existe areia, que veio de um ribeiro que já não corre e por baixo dessa areia, encontra-se terra. Uma terra escura e sufocada pelo peso das coisas que carrega, mas, ainda assim, terra. E, por baixo de si, magma. E do magma não se passa, porque, ou se caminha para uma coisa transcendente, ou se morre tornado em chamas. E as chamas são luz e a luz sendo tanto, não é nada. Sobretudo, quando surge de um encontro, entre duas pessoas, numa casa perdida, de uma freguesia afastada de uma ilha no meio de um mar.

Possidónio Cachapa, in Viagem ao Coração dos Pássaros

Publicado por dolphin.s em 11:04 AM | Comentários (3)

abril 11, 2004

Os Sinos Católicos

Embora não seja católico
oiço atentamente quando os sinos
na torre de tijolos amarelos
da nova igreja deles

tocam deitando abaixo as folhas
tocam sobre a geada
e pela morte das flores
tocam espantando os melros

rumo ao sul, o céu
por eles escurecido, tocam
anunciando o novo filho de
Mr e Mrs Krantz que

de bochechas tão grandes
mal pode abrir os olhos, e tocam
tirando do seu poleiro o papagaio
ciumento do menino

tocam pelo domingo de manhã
pela velhice que tirando
dá. Que toquem
que apenas toquem! sobre o quadro

a óleo do jovem sacerdote
anunciando na parede da igreja
a novena de Santo António da
semana passada, toquem

pelo jovem coxo vestido de negro
de rosto magro e chapéu de
coco, correndo para a
missa das II (os cachos

de uvas ainda suspensos da
vinha ao longo do
vizinho Concordia Hall
como dentes cariados

na boca de um velho) Toquem
pelos olhos e toquem pelas
mãos e toquem
pelos filhos do meu amigo

que já não os pode ouvir
mas sorri
e em voz baixa fala
das decisões da

sua filha e das propostas
e das traições dos
amigos do seu marido. Ó sinos
toquem por tocar!

o princípio e o fim de
tocar! Toquem, toquem
toquem, toquem!
sinos católicos!



William Carlos Williams, in antologia breve, trad. José Agostinho Baptista, ed. Assírio & Alvim

Publicado por jm em 10:04 AM | Comentários (0)

abril 10, 2004

Falsa Partida

A sua doce presença trovejava mentiras.
Na alegria de nos vermos morria
o sonho de mais tarde nos encontrarmos
num abraço.

O que dizia era o contrário da luz
que se desprendia da sua figura. De uma vida
feita aos poucos, a tua boca
merecia outra constelação.

O disfarce das sombras
que se moviam no seu espírito servia
de adereço para mais uma partida.

Sobrevivia aos solavancos, tentado
a escapar ao destino, espécie de porta
giratória entre o céu e o inferno.



Fernando Luís Sampaio, in Telhados de Vidro, nº1, Nov. 2003, ed. Averno

Publicado por jm em 12:41 PM | Comentários (3)

abril 09, 2004

Névoa

A morte
em flor
dos camponeses
tão chegados à terra
que são folhas
e ervas de nada
passa no vento
e eu julgo ouvir
ao longe
nos recessos da névoa
os animais feridos
do Início.


Carlos Oliveira, in antologia poética, Ed. Quasi

Publicado por jm em 03:52 PM | Comentários (5)

abril 08, 2004

...

Mas a grande pergunta a fazer é, evidentemente:
Quando amamos alguém, ou melhor, nos apaixonamos por alguém, por que é que nos apaixonamos verdadeiramente?
É uma ideia da pessoa amada, ou é a pessoa propriamente?
Talvez só sejamos capazes de viver com as nossas ideias. Talvez sejam sempre as nossas ideias que amamos.


Lars Gustafsson, in A Morte de um Apicultor

Publicado por dolphin.s em 10:22 AM | Comentários (14)

abril 07, 2004

Viver hipoteticamente

Robert MusilDesde a mais tenra juventude, naqueles tempos em que ela começa a tomar consciência de si própria e cujos vestígios mais tarde se recordam comovidamente, ficara-lhe a lembrança de toda a espécie de imaginações que lhe eram caras, entre estas a ideia de «viver hipoteticamente». Estas duas palavras continuavam a evocar agora a coragem e a ignorância voluntária da vida, os tempos em que cada passo representa uma aventura, privada do apoio da experiência, o desejo de grandeza nas relações e esse sopro de revocabilidade que experimenta um jovem hesitante quando entra na vida. Ulrich pensava que não havia realmente nada aqui a aproveitar. O sentimento apaixonante de ser eleito fosse para o que fosse, eis a única coisa certa e bela que se reflecte no olhar daquele que avalia pela primeira vez o mundo. Se este é senhor das suas emoções, nada encontra a que possa dizer sim sem reserva; busca a bem amada possível, mas ignora qual ela é; tem capacidade de matar, sem estar seguro de que o deve fazer. O desejo de evoluir, próprio da sua natureza, impede-o de acreditar no facto realizado, mas tudo quanto vem a conhecer apresenta-se como se fosse já irrevogável. Pressente que esta ordem não é tão estável como parece; nenhum objecto, nenhuma pessoa, nenhum princípio é sólido, tudo está dependente de uma metamorfose invisível, mas nunca interrompida; há mais futuro no instável do que no estável e o presente não passa de uma hipótese que ainda não foi ultrapassada. Que poderia ele fazer de melhor do que conservar a sua liberdade em relação ao mundo, como um sábio que se mantém livre em relação aos factos que poderiam levá-lo a acreditar prematuramente em si? Por isso hesita em ser seja o que for; um carácter, um modo de vida, definido, uma profissão, não passam de representações sob as quais avulta já o esqueleto que será tudo quanto lhe resta no fim. Busca compreender-se por outros meios; com aquele apetite de que é dotado para tudo quanto pode vir a enriquecê-lo interiormente (mesmo para além dos limites da moral e do pensamento), experimenta a impressão de ser um passo, livre de seguir em todas as direcções, mas que vai sempre de um ponto de equilíbrio até ao seguinte, e sempre em frente.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 10:22 AM | Comentários (5)

abril 06, 2004

A punição domestica o homem

Friedrich NietzscheDurante milénios, os malfeitores submetidos à punição tiveram dos seus crimes a mesma impressão de que fala Espinosa: «inesperadamente qualquer coisa correu mal», e não «eu não devia ter feito isto»... Submetiam-se à punição como quem aceita uma doença, uma calamidade ou a morte, com o mesmo fatalismo corajoso e destituído de revolta com que, por exemplo, ainda hoje os Russos dispõem da vida, no que se superiorizam a nós, Ocidentais. Naqueles tempos, se existia crítica do acto, era uma crítica exercida por parte da inteligência: não haverá dúvidas de que o verdadeiro efeito da punição tem que ser procurado na agudização da inteligência, no prolongamento da memória, na vontade de agir futuramente com mais cautela, maior secretismo e desconfiança, na compreensão de que há muitas coisas para as quais se é definitivamente demasiado fraco, ou seja, numa espécie de correcção da avaliação que o indivíduo faz das suas capacidades. No geral, quer no homem quer nos animais, o que se alcança com a punição é o aumento do medo, o desenvolvimento da esperteza, o domínio sobre os desejos... Ora, desse modo a punição domestica o homem, mas não o torna «melhor»... Mais razões haveria para afirmar o contrário («aprende-se com os erros», diz o povo; na medida em que se aprende, fica-se também pior..., mas felizmente muitas vezes também se fica mais estúpido).


Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral

Publicado por dolphin.s em 10:29 AM | Comentários (8)

Afternoon Storm


Rolfe Horn - Afternoon Storm, Northern California (2003)


© Rolfe Horn

Publicado por dolphin.s em 12:11 AM | Comentários (3)

abril 05, 2004

Um mundo onde reina a verdade

Lars GustafssonNo planeta número 3 do Sistema 13, em Aldebaran, existe uma civilização que se relaciona directamente com a realidade, sem símbolos intermediários.
A ideia de que, por exemplo, uma figura desenhada num papel representa alguma coisa mais do que ela própria é totalmente alheia aos miriápodes possuidores de uma força extraordinária que constituem o estádio civilizacional mais elevado do planeta.
A sua força invulgar pouco lhes adianta. Uma vez que o único símbolo de uma coisa que eles conhecem é a própria coisa, têm de transportar constantemente uma enorme quantidade de objectos. Neste planeta a expressão «uma retórica vigorosa» tem um significado real.
Por exemplo, quando se quer dizer «uma pedra aquecida pelo sol», só há uma maneira. É pôr uma pedra aquecida ao sol na mão, ou melhor, na pata daquele com quem se está a falar.
Se se quiser dizer «uma pedra gigantesca no alto de uma montanha», só há uma maneira de proferir essa frase. É carregar com uma pedra gigantesca para o cimo de uma montanha.
Produzir um poema, nestas circunstâncias, é uma prova de força que permanece, em toda a sua heróica evidência, por várias gerações.
A maior parte dos sonetos que esta civilização produziu parecem-se de certo modo com Stonehenge: formidáveis grupos de pedras alinhadas por heróicos antepassados, arquejando e gemendo, com as veias salientes, segundo um esquema ancestral.
Nesta civilização a mentira é, evidentemente, uma total impossibilidade. Se se quer dizer «amo-te» a alguém, só há uma maneira, que é fazê-lo. Se se quer dizer «não te amo», também só há uma maneira, que consiste em evitar fazê-lo. Se se for capaz.
Num mundo em que o símbolo é sempre coincidente com a própria coisa e esta não pode ser substituída por pequenos sons ridículos ou por fieiras de sinaizinhos bizarros desenhados num papel, sinais esses que nada têm a ver seja com o que for para além de uma frágil e transitória convenção, é claro que a verdade e o sentido, a mentira e o absurdo, serão coincidentes.
O único substituto da mentira que existe num mundo como este é, evidentemente, falar de forma tão incompreensível, tão absurda, que ninguém entenda.
A conversação normal, a conversa trivial, neste planeta, consiste em os seus habitantes tirarem de umas bolsas de couro que costumam trazer consigo uma quantidade de objectos muito pequenos, contas de vidro, pedrinhas de diversas cores, pauzinhos muito bem polidos — e trocarem-nos animadamente entre si.
O preço da verdade é elevado.
De todas as civilizações superiores da região dos velhos sóis, no centro da Via Láctea, não há nenhuma que viva tão isolada como esta.
A astronomia, naturalmente, é impossível. Não podemos falar de galáxias se for necessário transportá-las de um lado para o outro para nos referirmos a elas. Aliás, o próprio conceito de «planeta» é impensável.
Estes seres vivem numa planície avermelhada, delimitada por altas montanhas.
E nem para essa planície que, teoricamente, é o mesmo que «o mundo», eles têm um conceito.

(Caderno azul IV: 4)

Lars Gustafsson, in A Morte de um Apicultor

Publicado por dolphin.s em 10:12 AM | Comentários (12)

abril 02, 2004

Não parto de uma ideia mas talvez chegue a uma ideia

Não parto de uma ideia mas talvez chegue a uma ideia
ao real à verdade terra a céu aberto
afinal hoje sei-o houve coisas de permeio
e a própria pedra cisma num fantasma
e se duvido do mistério deste mundo vário
sei que o pior decorre no silêncio
onde despido e ridículo sozinho no século
nem sempre sou iníquo mas somente vácuo
reles sorrio é olho de uma certa altura
para a usura que me assegura a sepultura



Ruy belo, do poema nem sequer não, in Obra Poética de..., vol. 2

Publicado por jm em 10:23 AM | Comentários (4)

Trovoada

Este ar baixo e nuvens paradas. O azul do céu estava sujo de branco transparente.
O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel à roda do embrulho eterno...
«Como esta só me lembra de uma», comenta estatisticamente.
Um silêncio frio. Os sons da rua como que foram cortados à faca. Sentiu-se, prolongadamente, como um mal-estar de tudo, um suspender cósmico da respiração. Parara o universo inteiro. Momentos, momentos, momentos. A treva encarvoou-se de silêncio.


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:22 AM | Comentários (1)

abril 01, 2004

Depois da chuva


National Geographic - William Albert Allard - Provence, France

© William Albert Allard
Roussillon, France, 1995
National Geographic

Publicado por dolphin.s em 09:00 PM | Comentários (3)

Alma, razão e convicções

Um desses processos (que matam a alma mas que a põem em seguida de conserva para consumo corrente) tem sido desde sempre associá-la à razão, às convicções e à acção prática, tal como o têm feito com certo êxito todas as morais, filosofias e religiões do mundo. Como já dissemos, só Deus sabe o que pode ser uma alma! Não resta qualquer dúvida quanto ao facto de que o desejo ardente de só a ela darmos ouvidos nos deixa completamente livres para agirmos, o que desencadeia uma verdadeira anarquia, e ao longo da História não faltam exemplos em que algumas almas por assim dizer quimicamente puras chegam a cometer verdadeiros crimes. Em contrapartida, sempre que uma alma tem qualquer espécie de moral, de religião ou de filosofia, uma cultura burguesa profunda e certo número de ideais no domínio do dever e do belo, ela recebe em recompensa um sistema completo de prescrições, de condições, de regulamentos a que tem de se submeter mesmo antes de lhe ser possível aspirar a tornar-se uma alma superior; e o seu entusiasmo, como o ímpeto ardente de um alto-forno, acaba por se canalizar através de belos moldes de areia. No fundo, apenas restam alguns problemas de interpretação lógica, como o de se saber se um acto está ou não de acordo com este ou aquele mandamento; a alma apresenta o carácter serenamente panorâmico de um campo de batalha após o combate; os mortos conservam-se tranquilos, de forma que é possível observar imediatamente onde continua a palpitar um resto de vida, ou um gemido. Eis por que motivo o homem realiza esta transição o mais depressa possível. Quando o atormenta alguma dúvida acerca da sua fé, como por vezes acontece durante a juventude, ele passa imediatamente a perseguir os incrédulos; quando o amor o incomoda, ele transforma-o em casamento; e quando qualquer outro entusiasmo se apodera de si, furta-se à impossibilidade de viver durante muito tempo no íntimo do fogo que o consome, principiando a viver para esse mesmo fogo. Significa isto que ele preenche os numerosos instantes do seu dia, cada um deles necessitando de um conteúdo e de um impulso, não já com o seu próprio estado ideal, mas sim com a actividade que lhe possibilitará conquistar esse mesmo estado, ou, por outras palavras, mediante diversos meios, obstáculos e incidentes que lhe garantam que ele jamais necessitará de atingir o seu objectivo.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Publicado por dolphin.s em 10:48 AM | Comentários (5)