março 31, 2004

Agente de Seguros em sua Apólice

Extraiam as miudezas ao vosso agente e, se for necessário, façam-lhe um pequeno corte debaixo da cabeça para que não fique nada lá dentro. Limpem-no bem, esfreguem-no suavemente a fim de lhe poupar a pele, lavem-no até estar apresentável. Em seguida, ponham-no a cozer a lume brando. Se o agente for gordo, são precisas quatro horas de cozedura; se não, três horas chegam.
Para servir, disponham uma apólice de seguros sobre uma travessa comprida, enfeitem com moedas, cartões de identidade, flores, e acompanhem o agente com um longo assobio de admiração, que não lhe aquece nem arrefece, mas que vos fará sentir bem.

in A Cozinha Canibal, Roland Torpor

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março 30, 2004

Alma

Robert MusilQuer se fique imóvel ou se prefira caminhar, o essencial não é aquilo que temos na mossa frente, aquilo que vemos, ouvimos, queremos ou dominamos. Na nossa frente está um horizonte, um semicírculo; mas há uma corda que une as duas extremidades desse semicírculo e o plano dessa corda atravessa o mundo ao meio. Em nós, o rosto e as mãos apontam pana fora desse plano; as sensações e as aspirações vêm até nós através dele; e ninguém duvida de que aquilo que se faz nesse espaço seja sempre razoável ou pelo menos apaixonado; isso significa que as circunstâncias exteriores possuem uma maneira de condicionar as nossas acções que todos podem compreender; e mesmo quando, inspirados pela paixão, fazemos qualquer coisa de incompreensível, esse incompreensível possui ainda assim, ao cabo e ao resto, a sua característica. Mas, por muito compreensíveis e completas que nos pareçam todas as coisas, nem por isso deixa de subsistir em nós o sentimento de que nelas apenas existe uma semiplenitude, uma semicompreensão. O equilíbrio não é completo e o homem avança para não vacilar, como um dançarino sobre a corda-bamba. Como ele avança através da vida e deixa atrás de si o que foi vivido, isto e o que está por viver formam uma espécie de divisória e o caminhar do homem acaba por se assemelhar ao do caruncho na madeira: pode andar às voltas dentro dela, mas deixa sempre atrás de si um espaço vazio. É graças a esse sentimento terrível de um espaço cego e amputado atrás de todo o espaço cheio, a essa metade que permanentemente nos falta, mesmo quando alguma coisa forma um todo, que acabamos por nos dar conta daquilo a que se chama alma.

De resto, nós sentimo-la, pensamo-la, adivinhamo-la sempre sob a forma dos sucedâneos mais diversos e cada um de acordo com o seu temperamento. Na juventude ela corresponde a um sentimento muito nítido de incerteza em tudo aquilo que fazemos: seria aquilo que deveríamos fazer? Na velhice é o espanto de não termos feito mais coisas entre aquilo que nos propúnhamos fazer. Na meia-idade é o sentimento de sermos um tipo formidável, um tipo fantástico, ou simplesmente «um tipo», mesmo que nem sempre encontremos naquilo que fazemos só coisas justificáveis; ou então achamos que o mundo não é aquilo que deveria ser, de modo que, ao cabo e ao resto, tudo quanto não conseguimos fazer resume-se ainda num compromisso satisfatório; sem contarmos que muita gente imagina ainda, acima de todas as coisas, a existência de um Deus que guarda no bolso o bocado que faltava.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

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março 29, 2004

tempestade...

O tempo amainou. A tempestade passou. Já não sopra o vento. Ou talvez eu tenha aprendido a deslocar-me à velocidade do vento e por isso já não o sinta.


Lars Gustafsson, in A Morte de um Apicultor

Publicado por dolphin.s em 09:58 AM | Comentários (9)

março 26, 2004

Contraste



National Geographic - William Albert Allard - Caltabellotta, Sicily

© William Albert Allard
Caltabellotta, Italy, 1994
National Geographic


Publicado por dolphin.s em 11:37 AM | Comentários (2)

Imunização contra todos os prazeres

Assim, todos os prazeres dantes qualificados como «simples» tornam-se, por via do seu próprio desaparecimento, objecto de uma sábia museografía. A arquitectura moderna, por seu lado, também já suprimira, na vasta esfera de acção que é a sua, uma boa parte desses prazeres. E o certo é que, uma vez o prazer incluído na fruição espectacular, pode dizer-se que os consumidores são felizes se conhecerem as imagens do que perderam. A tão perigosa dialéctica, contudo, seguirá por outro caminho. Porque está bem à vista que tudo pode ser decomposto através das dominações sobre este mundo. Mesmo que a crítica possa ser indulgente em relação à sua gestão, todos os resultados a destroem. É a síndrome da doença fatal dos finais do século XX: a sociedade de classes e de especializações adquire, por via de um esforço constante e omnipresente, uma imunização contra todos os prazeres. Mas a derrocada das defesas imunitárias face aos venenos que ela própria produz será ainda mais total.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Publicado por dolphin.s em 10:20 AM | Comentários (0)

março 25, 2004

Concepção do mundo

A nossa concepção do mundo que nos rodeia, tal como a que temos de nós próprios, muda em cada dia que passa. Vivemos numa época de transição. Ela irá prolongar-se se não enfrentarmos, mais corajosamente do que até agora fizemos, as nossas tarefas essenciais, até ao fim do planeta. Contudo, quando se é relegado para a obscuridade, não podemos cantar com medo como fazem as crianças. Fingir que sabemos como deve ser o nosso comportamento aqui, é nada mais nada menos do que medo: rugidos que fazem tremer os alicerces do mundo, são apenas medo! Além disso galopamos, estou plenamente convencido disso! Estamos ainda muito longe dos objectivos, não nos aproximamos deles, nem sequer os avistamos, havemos de enganar-nos ainda muitas vezes no caminho, teremos muitas vezes ainda que mudar de cavalos; mas qualquer dia, depois de amanhã ou daqui a dois mil anos, o horizonte começará a deslizar e precipitar-se-á sobre nós, mugindo! O crepúsculo cairá.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 10:31 AM | Comentários (2)

março 24, 2004

Eco e abismo

Fernando PessoaCriei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio - uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar - todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada impressão indefinida.
Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:26 AM | Comentários (6)

março 23, 2004

Países ricos?

Os especialistas da fome no mundo (há muitos e trabalham em conjunto com outros especialistas empenhados em fazer-nos acreditar que vivemos num reino de abundantes delícias, embora nenhuma «grande farra» se vislumbre...) vêm comunicar-nos os seus cálculos: o planeta será capaz de produzir a quantidade suficiente de cereais para que ninguém passe fome, mas o que é perturbante nessa visão idílica é o facto dos «países ricos» consumirem abusivamente metade dos cereais, só para alimentação do seu gado. Mas quando se conhece o gosto desastroso da carne que nos chega dos matadouros, proveniente de engorda acelerada à base de cereais, poderá falar-se de «países ricos»? Certamente que não. Não é para nos fazer viver no sibaritismo que uma parte do planeta tem de morrer à fome: é para nos fazer viver na lama. O eleitor, contudo, adora ser lisonjeado quando lhe lembram que o seu coração pode estar a ficar um pouco insensível - ele a viver tão bem enquanto outros países contribuem, à custa dos cadáveres dos filhos, stricto sensu, para que vá engordando. O que agrada ao eleitor, neste discurso, é ouvir dizer que vive como um rico. Sente-se bem a acreditar nisso.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Publicado por dolphin.s em 10:10 AM | Comentários (12)

março 22, 2004

A ordem estabelecida

No fundo, poucos existem que ainda saibam, no meio da sua vida, a forma como puderam chegar a ser aquilo que hoje são, às suas distracções, à sua concepção do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas pressentem que pouco ou nada podem alterar isso. É até legítimo afirmar-se que eles foram enganados, pois nunca conseguimos descobrir uma razão suficiente para que as coisas se tenham tomado aquilo que são; teria sido perfeitamente possível encaminharem-se de outra forma; os acontecimentos só raras vezes foram a emanação dos homens, eles dependeram quase sempre de todas as espécies de circunstâncias, da disposição, da vida e da morte de outros homens, e apenas lhes caíram em cima em determinado instante. Durante a juventude, a vida deparava-se-lhes ainda como uma manhã inesgotável, repleta de possibilidades e de vazio, mas eis que ao meio-dia já algo surge diante de mós, algo que tem o direito de ser, a partir daí, a nossa vida, e causa também muita surpresa que no dia em que um homem está de súbito ali sentado, com quem nos correspondemos durante vinte anos sem o compreendermos nos surja tão diferente daquilo que imaginamos. Mas ainda o mais estranho é que a maioria dos homens não se aperceba disso; adoptam o homem que se aproximou deles, cuja vida se aclimatou nele, os acontecimentos da sua vida afiguram-se-lhes a partir daí expressão das suas qualidades, o seu destino é o seu mérito ou a sua pouca sorte. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com a fita mata-moscas: algo se colou a eles, apanhando aqui um pêlo, entravando-lhes além os movimentos, qualquer coisa os manietou, até que ficaram sepultados sob uma espessa cobertura que só muito remotamente corresponde à sua forma primitiva. A partir daí só muito obscuramente é que pensam nessa juventude em que neles existia uma força de resistência: essa outra força que sacode e sopra, que nunca está quieta e desperta uma avalancha de tentativas de fuga sem qualquer espécie de objectivos; o espírito trocista da juventude, o seu repúdio da ordem estabelecida, a sua disponibilidade perante qualquer espécie de heroísmo, tanto para o sacrifício como para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância, tudo isso não passa de tentativas de fuga.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Publicado por dolphin.s em 10:17 AM | Comentários (17)

março 21, 2004

Primavera


Botticelli - La Primavera


Botticelli, La Primavera

Publicado por dolphin.s em 12:09 PM | Comentários (6)

equinócio

Como doem as árvores
Quando vem a Primavera

E os amigos que ainda estão de pé


Daniel Faria, in Explicação das árvores e de outros animais

Publicado por jm em 02:02 AM | Comentários (0)

março 19, 2004

tudo desde sempre

mas quando ali não estás a paisagem vaga
pelo som dos rebanhos dirias que dormindo talvez assim
os peixes buscando comida e eu não sou capaz
de guardar esse segredo mais uma noite a cada instante
serás sempre mais uma ausência com vontade de
mentir à distância de um grito pareces tão perto de mim
e como salvar deste incêndio aquela nossa fotografia
olhando as árvores sou capaz de recordar
as tuas mãos esquecidas sobre o poema
ao sentido da casa neste sentimento
imóvel silêncio embrulhado em papel de chocolate
urn copo de água se houver estrelas atravessando
as paredes do quarto choro baixinho rio choro e tu
tu tens que te lembrar


Joaquim Cardoso Dias, in O Preço das Casas

Publicado por jm em 11:53 AM | Comentários (4)

Jacaranda


:)*******

Publicado por dolphin.s em 10:05 AM | Comentários (16)

março 18, 2004

Do Raio de Sol

Raio de Sol na ombreira da porta,
na trave da cadeira, vindo da gelosia,
peço-te para amanhã voltares
mais arqueado pela esfericidade da Terra,
um raio não decididamente recto
cravado no meu tórax côncavo,
mas no meu coração curvo como um globo.


Fiama Hasse Pais Brandão, in As Fábulas

Publicado por jm em 12:48 PM | Comentários (0)

A beleza de todas as coisas

Reparava mais uma vez na grande beleza de todas as coisas; porém assaltava-o claramente, nesse desejo em ebulição, o doloroso pressentimento de um cativeiro; inquietante sensação de que todo quanto julgamos atingir nos atinge a nós; a tenebrosa suspeita de que as afirmações falsas, feitas no ar, sem qualquer espécie de importância pessoal, acordarão sempre neste mundo um eco mais poderoso do que as mais verdadeiras e as mais singulares. Esta beleza (dizia então consigo), perfeita! Mas tratar-se-á realmente da minha beleza? E a verdade que me ensinam será a minha verdade? Os objectos, as vozes, a realidade, todas essas coisas sedutoras que nos atoem e nos guiam, que perseguimos e sobre as quais nos precipitamos... será isso no entanto a realidade autêntica, ou apenas se tratará de um sopro imponderável pairando acima da realidade proposta? O que mais excita a desconfiança) são as divisões e as formas convencionais da vida: a história, sempre a mesma, as coisas, já prefiguradas pelas gerações precedentes, a linguagem convencional, não apenas os nossos lábios, mas também as nossas sensações e sentimentos. Ulrich detivera-se diante de uma igreja. Meu Deus! se acaso uma gigantesca matrona ali estivesse sentada à sombra, com uma enorme barriga cheia de refegos, encostada às paredes das casas e muito lá em cima, o pôr do Sol lhe iluminasse o rosto cheio de rugas, de borbulhas e de verrugas... não teria ele exclamado na mesma? Meu Deus! que belo! Ninguém se quer furtar ao facto de que viemos ao mundo com o dever de admirar isto; mas, como acabámos de dizer, não seria impossível igualmente acharmos belas, numa respeitável matrona, as formas amplas, suavemente descaídas, e a filigrana das soas rugas; só que é muito mais simples dizer-se que ela é velha. Esta transição do momento em que achamos as coisas do mundo envelhecidas para aquele em que as consideramos belas é mais ou menos semelhante à que nos conduz desde as concepções dos jovens até à moral mais elevada do adulto, a qual continua a ser um ridículo bê-á-bá até ao dia em que, bruscamente, a fazemos nossa.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Publicado por dolphin.s em 10:36 AM | Comentários (3)

março 17, 2004

Ilícito toleravel

O que há de nocivo no que se come para enganar a fome não se limita a tudo o que isso suprime, alastra também a tudo o que transporta consigo apenas pelo simples facto de existir, segundo um esquema que se aplica a cada nova produção do velho mundo. Os alimentos, que perderam todo o seu gosto, acabam por ser apresentados como higiénicos, dietéticos e saudáveis, por oposição às arriscadas aventuras das formas pré-científicas de alimentação. Mas é uma mentira cínica. Não só contêm inacreditáveis doses de veneno, de que é triste e célebre exemplo o caso da Union Carbide, empresa que fabricava os mais potentes produtos para aplicação na agricultura, como favorece toda a espécie de carências cujos efeitos, na saúde pública, só é possível medir após o mal feito: como dizia certo médico, dando ao óbvio eufemismo um sentido mais científico, «parece que a intensificação da produtividade agrícola se faz sem haver preocupação suficiente com uma ideia de qualidade que considere os oligo-elementos como factor importante». (H. Picard, Utilisation Thérapeu-tique dês Oligo-éléments) Na verdade, dá-se a incrível situação de o lícito ser acompanhado, na feitura dos alimentos, por um ilícito toleravel e por outro menos tolerável, que vai continuando a existir (doses de hormonas acima do permitido na carne de vitela, anti-gel no vinho, etc.). Sabe-se que o cancro mais frequente nos Estados Unidos não é o que consome os pulmões poluídos do fumador ou do habitante de cidades ainda mais poluídas mas o que corrói as tripas de um presidente como Reagan e de outros alarves como ele.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Publicado por dolphin.s em 10:18 AM | Comentários (3)

março 16, 2004

Um homem que pensa

Robert MusilInfelizmente não há nada mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor, a quem perguntaram como conseguia ter tantas ideias novas, respondeu: «pensando constantemente nelas». Com efeito, bem podemos dizer que as ideias inesperadas só nos vêm porque já estávamos à espera delas. São, em grande parte, o merecido fruto de um carácter, de certas inclinações estáveis, de uma ambição tenaz, de uma incansável actividade. Como é que uma tal perseverança pode deixar de ser enfadonha? Vista por outro prisma, a solução de um problema intelectual é mais ou menos semelhante ao que acontece quando um cão pretende passar por uma abertura estreita levando um pau na boca; volta a cabeça para a direita e para a esquerda até que o pau passa de lado; nós fazemos precisamente o mesmo, só com a diferença que não tentamos ao acaso, antes sabemos mais ou menos, por uma questão de hábito, como havemos de manobrar. E muito embora seja natural que uma cabeça bem recheada tenha mais habilidade e experiência parai se mover do que uma cabeça vazia, nem por isso ela fica menos surpreendida quando consegue deslizar através da abertura; a coisa passa-se com rapidez e notamos nitidamente dentro de nós um certo espanto ao verificarmos que os pensamentos, em lugar de esperarem pelo seu autor, se fizeram sozinhos. A este sentimento de leve espanto, muita gente hoje em, dia deu o nome de «intuição», depois lhe haverem chamado «inspiração», e julgam ver aí algo de superpessoal, quando Se trata simplesmente de qualquer coisa de impessoal, ou seja a afinidade e a homogeneidade das próprias coisas que se encontram dentro de um cérebro.

Quanto melhor é esse cérebro menos visíveis são os seus actos. Por isso é que o acto de pensar, enquanto se prolonga, é um estado lamentável, uma espécie de cólica de todas as circunvoluções do cérebro; mas quando termina já perdeu a forma do pensar sob a qual viveu, para assumir a da coisa pensada; e essa forma é, lamentamos dizê-lo, impessoal, porque o pensamento entretanto voltou-se, para o exterior destinando-se à comunicação. Quando um homem pensa, torna-se por assim dizer impossível isolar o momento em que ele passa do pessoal para o impessoal e é exactamente por isso que os pensadores causam tantas dores de cabeça aos escritores que estes preferem evitar tal espécie de personagens.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 10:26 AM | Comentários (24)

março 15, 2004

Inconfortáveis

Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... É cedo ainda. Mas passa o meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo por uma construção de mim próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem sentido nenhum excepto Deus.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:06 AM | Comentários (14)

março 12, 2004

Double Secret


Rene Magritte - Le double secret (1927)

René Magritte, 1972

Publicado por dolphin.s em 02:10 PM | Comentários (3)

Somos água

Se analisarmos o nosso corpo só encontramos água e umas dezenas de de matérias que nela flutuam. A água sobe em nós exactamente como nas árvores. As criaturas animais, tal como as nuvens, são formadas de água. Acho isto um encanto. Portanto não sabemos muito bem o que havemos de pensar de nós. Nem aquilo que devemos fazer.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades


Publicado por dolphin.s em 10:07 AM | Comentários (4)

março 11, 2004

Grandes

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos

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março 09, 2004

A Estupidez

Robert MusilSe a estupidez, com efeito vista por dentro, não se confundisse com o talento, se, vista por fora, não tivesse todas as aparências do progresso, do génio, da esperança, ninguém desejaria ser estúpido e não existiria a estupidez. Pelo menos seria muito fácil combatê-la. O pior é que ela tem qualquer coisa de extraordinariamente natural e convincente. Por isso, quanto alguém considera um cromo mais artístico do que um quadro a óleo, este juízo comporta uma parte de verdade muito mais simples de demonstrar que o génio de Van Gogh. Da mesma forma se torna muito mais fácil e rentável ser-se um dramaturgo muito mais poderoso do que Shakespeare, um romancista mais igual do que Goethe; um bom lugar-comum é sempre mais humano que uma nova descoberta. Não surge um único pensamento importante do qual a estupidez não saiba imediatamente aproveitar-se, ela pode mover-se em qualquer direcção e assumir todos os trajes da verdade. A verdade, essa só tem um traje, um só caminho, por isso fica sempre de pior partido.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em 10:07 AM | Comentários (14)

março 08, 2004

The Beautiful People

I don't want you and I don't need you
don't bother to resist, I'll beat you
It's not your fault that you're always wrong
the weak ones are there to justify the strong

the beautiful people, the beautiful people
it's all relative to the size of your steeple
you can't see the forest for the trees
you can't smell your own shit on your knees

Hey you, what do you see?
something beautiful, something free?
hey you, are you trying to be mean?
if you live with apes man, it's hard to be clean

there's no time to discriminate,
hate every motherfucker
that's in your way
the worms will live in every host
it's hard to pick which one they eat most

the horrible people, the horrible people
it's as anatomic as the size of your steeple
capitalism has made it this way,


Marilyn Manson

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março 03, 2004

Sonhadores

Fernando PessoaUma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável.

Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e activos na vida sorriem dos poetas e dos artistas. Nem sempre o fazem, como crêem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. Mas é sempre como quem acarinha uma criança, alguém alheio à certeza e à exactidão da vida.
Isto irritava-me antigamente, porque supunha, como os ingénuos, e eu era ingénuo, que esse sorriso dado às preocupações de sonhar e dizer era um eflúvio de uma sensação íntima de superioridade. É somente um estalido de diferença. E se antigamente eu considerava esse sorriso como um insulto, porque implicasse uma superioridade, hoje considero-o como uma dúvida inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas crianças uma agudeza de espírito superior à própria, assim nos reconhecem, a nós que sonhamos e o dizemos, uma qualquer coisa diferente de que eles desconfiam como estranha. Quero crer que, muitas vezes os mais inteligentes deles entrevejam a nossa superioridade; e então sorriem superiormente, para esconder que a entrevêem.
Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção.
Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o roamance antes que ele lhes seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajes da corte para escrever bem em segredo.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

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março 02, 2004

Sentirmo-nos justificados por existirmos

Jean-Paul SartreDesejamos que o ser amado nos ame para o podermos preencher com a nossa existência. Mas essa generosidade é interesseira: essa existência que a partir de agora sentimos ser invocada perde aos nossos olhos a sua facticidade, pretendemos motivar-nos, nós próprios e livremente, à existência, para satisfazer o desejo de uma consciência livre. Estas queridas veias nas nossas mãos, é por bondade que elas existem. Como somos bons por termos olhos, cabelos, sobrancelhas e os prodigalizarmos incansavelmente num excesso de generosidade a esse desejo incansável de outrem. Enquanto, antes de sermos amados nos preocupávamos com essa protuberância injustificada que era a nossa existência, que se desenvolvia em todas as direcções, eis que agora essa própria existência é retomada e desejada nos seus múltiplos pormenores por uma liberdade análoga à nossa — uma liberdade que nós próprios queremos juntamente com a nossa. É essa a essência da felicidade amorosa: sentirmo-nos justificados por existirmos. No fundo, não o estamos de forma nenhuma, apenas perdemos a nossa solidão, o ser que nos ama absorve-nos nele e nós escondemos a cabeça no seu peito, como o avestruz esconde a sua debaixo da terra. Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável. Nenhum amor pode justificar a nossa existência. Na realidade, é essa inautenticidade que eu censuro nas pessoas que tratam de ser amadas mas não amam. Ora, justamente, fui muitas vezes uma dessas pessoas. O que geralmente me atraía mais numa aventura era a necessidade de me revelar «necessário» a uma consciência, à maneira de uma obra de arte. Como um maná que se tivesse produzido por si próprio para a satisfazer. Mas devo dizer que quando se ama também, seja qual for o amor que o ser amado nos testemunhe, sai-se da solidão.


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra

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março 01, 2004

A História foi, mas já não é

A burguesia já o tinha dito há muito: «A História foi, mas já não é.» (Marx) A partir do momento em que burocratiza o seu domínio, acrescenta mais isto: «O gosto foi, mas já não é.» E nunca mais deverá voltar a haver a possibilidade de uma história individual através da qual se descobriam e formavam os gostos. É-se obrigado a aceitar tudo o que é colocado, sem distinção, perante os nossos olhos, sem que seja possível fazer comparações que estabeleçam um qualquer critério de gosto. Passam só a valer as proclamações de especialistas que, por exemplo, nos mostram o radioso futuro do legume irradiado e asseguram mesmo que «os legumes nunca foram tão bons». (L'Express, 6-12 de Setembro de 1985) Neste novo «look» da sociedade do espectáculo, cada «look» individual, por mais diversificado que se apresente, acaba sempre recuperado por ela; porque é ela que detém todas as fontes. E assim esta «mistela de carne», que é aquilo com que o assalariado pobre engana a fome, e que ele ingere de pé, num cenário de quiosques de gare, pode até afirmar-se sinal de um modernismo de ponta, mais escolhido do que suportado, por parte dos que comem McDonald's e pensam Actuel.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Publicado por dolphin.s em 11:40 AM | Comentários (0)