A autenticidade adquire-se em bloco, é-se ou não se é autêntico. Mas isso não significa de modo nenhum que se adquira a autenticidade de uma vez para sempre. Já afirmei que o presente nada pode sobre o futuro, nem o passado sobre o presente. Segundo Gide, em moral, tal como no romance, não se «tira proveito do impulso adquirido». E a autenticidade do impulso anterior em nada nos protege contra um queda no inautêntico, no instante seguinte. Quando muito, poderemos dizer que é mais fácil conservar a autenticidade do que adquiri-la. Mas, na verdade, poderemos mesmo falar de «conservar». O instante que está para vir é novo, a situação é nova; é necessário inventar uma autenticidade nova. De qualquer forma, dir-se-á, a recordação do autêntico deve proteger-nos um pouco da inautenticidade.
Isto leva-me a precisar também aquilo que disse sobre o desejo de autenticidade. No inautentico, podemos ter um certo desejo de autenticidade. É costume considerar que esse desejo de autenticidade é «apesar de tudo qualquer coisa. É melhor do que nada». Assim se restabelece, lentamente e por caminhos ínvios, a continuidade que à partida fora posta de lado. Distinguiremos então os inautênticos atolados na sua inautenticidade, depois daqueles que nesse atoleiro são atormentados por um desejo já meritório, e por fim aqueles que participam no autêntico. É preciso dizê-lo; da duas uma: ou o desejo do autêntico nos atormenta no seio da inautenticidade - e nesse caso ele próprio é inautêntico - ou então ele é já a autenticidade toda inteira, mas que se ignora, que ainda não está recenseada. (...)
A autenticidade adquirida através de uma transformação livre manifesta-se primeiro sob a forma de uma desejo de autenticidade. Este não faz então mais do que exprimir que a causa está ganha. (...)
O desejo de adquirir a autenticidade não é afinal senão um desejo de compreendê-la melhor e não a perder.
Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra
— Pois bem, começo pelo que, talvez por ser tão evidente, me parece que nunca ninguém reparou, ou quis reparar. A primeira, foi a mania da vanguarda, um mito provinciano de que padecem os espíritos tíbios ansiosos por protagonismo. Assim, ainda as pátrias ibéricas estavam longe de se encontrarem definidas, e resolvemos desatar a berrar por independência, inaugurando uma avalanche de movimentos de autonomia, libertários, emancipadores, chame-lhes como quiser, que culminou com a suposta independência de um país que se encontra num estado, desculpe-me a expressão, que até para cagar tem de pedir licença ao vizinho, para lhe fornecer o papel higiénico, não é verdade? Depois, como se um azar já não bastasse, decidimos lançar-nos na empresa épica — é assim que os compêndios continuam a referi-los, não é? —, dos descobrimentos. Não conseguimos roubar um terço do que roubaram todos os outros que se nos seguiram, como pretende o nosso ego de candeia que julgava que ia na frente, e quando chegou a hora, tardia, tardia, como sabe, de darmos às de vila diogo, fomos acusados de roubar o triplo, de chacinas que transformaram todas as outras em simples acidentes de um percurso corrigido a tempo. Antes de sermos devolvidos à procedência donde — na minha modesta opinião — nunca deveríamos ter saído, depois de Ksar-El-Kebir, quando nos foi dada uma última oportunidade de voltarmos a integrar o conjunto das pátrias ibéricas de que fazemos parte, não parámos enquanto não nos encontrássemos outra vez orgulhosamente sós, e a levar porrada de toda a comunidade civilizada. É assim que se diz não é, civilizada? Coisa estranha, num país que se habituou a não fazer nada e a dar cabo de tudo o que por artes mágicas ainda lhe vão dando, e que passa a vida a choramingar baba e ranho por investimento estrangeiro — pudera, que outro poderia ele pedir se tudo aquilo em que alguma vez investiu só deu merda? —, sem no entanto ter a coragem e a honestidade de dizer: bom, estrangeiro, mas não castelhano. Esquisito, não acha? Ou será que afinal, bem, bem lá no fundo, não os consideram estrangeiros? Ou será tão grande a demência, o ódio, que nem estrangeiros os consideram? Deixo-lhe a si a resposta... E já agora, o amigo, insisto, que estou certo que é uma pessoa inteligente e culta, se for capaz, agradeço-lhe que me explique o que é ser-se estrangeiro.
Jorge Fallorca, in Al Khaïma
Belo prefácio de Giono nos Carnets de Moleskine.
«Quando não se tem coragem suficiente para se ser pacifista é-se guerreiro. O pacifista está sempre só.
O guerreiro tem a certeza de estar de acordo com a maioria. Se é uma questão de maioria, pode estar tranquilo, faz parte dela... Se tem necessidade de grandeza, como toda a gente, é no trivial que lhe é reconhecida uma grandeza 'à sua medida'. Tudo está preparado para ele à partida. Se um homem teme ser um dia obrigado a ultrapassar o homem, que deixe de temer e que se torne guerreiro, ou, mais simplesmente ainda, que não se preocupe, que se deixe conduzir, pois colocá-lo-ão no serviço de guerreiros... todo o jogo da guerra se apoia na fraqueza do guerreiro... O simples soldado: nem bom nem mau, alistado nela porque não é contra. Sofrerá, com toda a normalidade, a sorte dos guerreiros até ao dia em que, como o herói de Faulkner, descobrir que 'qualquer pessoa pode cair inadvertidamente, cegamente, no herísmo, como se cai numa abertura de esgoto, escancarada no meio do passeio'... É absurdo sustentar que um exército, constituido por milhões de homens, é a personificação da coragem: é a conclusão da facilidade.»
Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra
© Robert Clark
St. Elias Mountains, Yukon Territory, Canada, 1997
National Geographic
Somos homens, não somos deuses nem pedras. Se a grandeza que nos coube foi essa ao menos de saber, conquistemo-la até onde, nos limites das evidências primeiras, ela se nos anuncia. E se o «absurdo» é a face desses limites, assumamo-lo como quem não rejeita nada do que é ainda nós próprios. A cobardia não está em assumir esses limites, mas em recusá-los, como o não está em reconhecer uma doença, mas em não fitá-la de frente. Só se é justo, corajoso, pela assunção consciente do que nos ameaça e por isso o bruto não é heróico. O «para quê» que nos antepõem todos os homens sensatos implica um programa utilitário de todo o instinto prático e animal. Mas nós, contra tudo o que povoa a terra, temos o fulminante poder de sabermos quem somos. É aí que cabe a nossa condição, é aí que cabe a nossa interrogação, fascinante e sem limite.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Antigamente, quando os meses se contavam à semana, havia um tempo para cada coisa: hoje, falta-nos ao mesmo tempo a realidade do tempo e das coisas. E os sentidos mais directamente práticos são os mais sacrificados: o sabor, o cheiro e o tacto são abolidos em benefício de engodos que traem constantemente a vista e o ouvido. Sendo a utilização de certos sentidos tão maltratada (o melhor, quando se vive numa grande cidade, é mesmo perder o sentido do cheiro...) e a dos restantes sentidos igualmente adulterada, assiste-se a um recuo geral da sensualidade, que acompanha o inusitado recuo da lucidez intelectual; o qual começa logo nos primeiros tempos de vida, com a perda da leitura e da maior parte do vocabulário. Para o eleitor que tem carro e vê televisão, o gosto, seja ele qual for, já não tem a menor importância: é por isso que o podem mandar comer Findus ou votar Fabius, tragar Fabius ou eleger Findus. Na verdade, as suas importantes actividades, a sua passividade cada vez maior, não lhe deixam tempo para adquirir e desenvolver os gostos que nem sequer a própria produção mercantil consegue satisfazer em tempo oportuno: esta maravilhosa adequação entre a ausência do uso e o uso da ausência define bem a actual perda de qualquer critério de valor. E assim voltamos à mais significativa questão do tempo, deste nosso tempo que está em todo o lado e é conquistado para não viver.
Guy Debord, in Enganar a Fome
Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.
Álvaro de Campos
Casas vigiam em uniformes de cal.
Nem as aves clinicam:
o vento encrespando as gralhas
contra o céu que se exila,
além da obscuridade, das janelas que se seguem
nas paredes imóveis;
um tempo só de ida, com o seu curso
erosivo em nosso leito,
e essa atilada luz eléctrica,
explicam a tua vida,
meu amor. E escrevo.
Não buscando ainda acasalar
nossos gestos migratórios,
mas como, em uma noite rural,
o sexo a expende.
Sebastião Alba, in A Noite Dividida
A autenticidade exige que se aceite sofrer, por fidelidade a si próprio, por fidelidade ao mundo. Porque nós somos livres-para-sofrer e livres-para-não-sofrer. Somos responsáveis pela forma e pela intensidade dos nossos sofrimentos. É muito fácil perder a cabeça, muito fácil também ser estóico. Mas nestes últimos tempos sinto que é quase impossível aguentar a autenticidade. Compreendo agora o discurso de um personagem de Stevenson que afirma ser um especialista do medo, porque o medo é a emoção mais intensa, mais intensa do que o amor. Melhor seria dizer: a mais autêntica.
Jean Paul Sartre, in Cadernos de Guerra
Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre orfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia.
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego
Depois de todas as negações, depois da falência de todas as formas de uma pacificação, o homem descobre enfim que está só. Todos os brinquedos da nossa infância milenar jazem por terra com as tripas mecânicas de fora, e depois do prazer com que os desventrámos, olhamos, aterrados, por não termos mais brinquedos para desventrar... As horas ressoam no céu deserto onde só o silêncio responde ao nosso pobre pavor.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Mistler vem procurar-me. «Queria fazer-te uma pergunta sobre os soldados-pais.» — «Diz lá.» — «Reparei, como tu, que todos eles afirmam sentir mais falta dos filhos do que das mulheres. Porque será?» — «Para disfarçarem o fracasso da sua vida conjugal. A partir da declaração de guerra, podem colocar um traço sob a sua vida passada e fazer o balanço final. Está tudo morto, pode fazer-se um exame e dizer-se: qual foi o meu mérito? Bom, as suas relações com as respectivas mulheres surgem-lhes tal como elas são: medíocres e falhadas. Então eles afastam-se delas e entretêm-se a pensar nos filhos. O filho ainda não é nada, não há um balanço a fazer. Pelo contrário, ele é o futuro. O futuro deles, bem como o seu: é o pós-guerra, um pós-guerra que é o seu, visto que eles fizeram o filho. É uma maneira de pensar: a minha vida ainda não está acabada, o balanço ainda não está feito, há uma prorrogação. O filho é a única prorrogação dessa vida morta.» — «Mas», diz Mistler, «não haverá cataclismos individuais em plena paz que possam induzir um indivíduo a pensar dessa maneira?» — «talvez, mas nesse caso é diferente. Em tempo de paz há um sistema individual, a vida de um homem e as suas coordenadas: a época. O sistema individual pode variar, mas as coordenadas permanecem fixas. Ele varia em relação às coordenadas. Portanto, não há nunca essa paragem total da vida. Pelo contrário, logo que surge a guerra, faz-se o traço, não é apenas o sistema individual que pára e estagna, são também as coordenadas. Tudo cai no passado, pode-se analisar a vida, a época e a vida, pois esta é construída com materiais fornecidos pela época. Seria a altura ideal de serem livres, mas eles não querem. Evitam a liberdade total em relação a essa vida falhada através do amor paternal.»
Jean Paul Sartre, in Cadernos de Guerra
© Peter Essick
Southeastern United States, 1998
National Geographic
Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas — podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia — e essa é a verdade — cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão
Daniel Faria, in Dos Líquidos
Sim: gritar, protestar é bom. Destruir a evidência de um erro é sentir a utilidade das mãos que destroem, é exaltar as forças do espírito na maravilha indizível da descoberta - desde criança o sabemos; por isso os brinquedos que nos davam só eram bem nossos, só nós éramos bem nós em face deles, depois de lhes tentarmos o segredo pela destruição... As pessoas sensatas, essas que sabiam não haver senão morte para lá da beleza aparente, aconselhavam-nos a sua sensatez. Mas nós tínhamos as nossas mãos desocupadas e a angústia da interrogação. Destruir, negar. As mãos que desmantelam a ordem envelhecida são ainda a nossa própria vida, transmitem-nos a certeza de que há um mundo e nós no meio dele, identificam a inteira verdade do nosso corpo que age e é eficaz; e o rumor dos nossos gritos afoga as vozes obscuras e importunas, a nossa voz derradeira, ilude-nos a resposta à interrogação que nos espera, inventa-nos no NÃO essa ilusão de plenitude que nós buscamos no SIM.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Dizem que não custa nada, que não se sofre, que é um fim suave, que a morte desta maneira está muito simplificada.
Ei! O que é então esta agonia de seis semanas e este estertor de um dia inteiro? Que são as angústias deste dia irreparável, que se escoa tão lentamente e tão depressa? Que escala de tortura é esta que conduz ao cadafalso?
Aparentemente não se trata de sofrimento.
As convulsões não são as mesmas, quer o sangue se esgote gota a gota, ou a inteligência se extinga ideia após ideia?
E depois, não se sofre, têm a certeza? Quem lhes disse? Alguém contou que uma cabeça cortada se tenha erguido, ensanguentada, do cesto de verga, e tenha gritado ao povo: — Não custa nada!
Já algum morto lhes veio agradecer e dizer: foi uma boa invenção. Fiquem por aqui. E uma boa máquina.
Terá sido Robespierre? Ou Luís XVI?...
Não, nada! Menos de um minuto, menos de um segundo e é coisa feita. — Alguma vez se puseram, só em pensamento, no lugar de quem ali está no momento em que o pesado cutelo se abate sobre a carne, rasga os nervos, quebra as vértebras... Mas quê! Meio segundo! A dor é escamoteada... Horror!
Victor Hugo, in O Último Dia de um Condenado
Só há vontade num ser lançado no mundo. É o mundo que liberta a consciência investida pelos seus próprios objectivos para além de um real que torna a sua realização imediata impossível. Ela define-se pelo desfasamento necessário entre o objectivo e a concepção de objectivo. Só pode haver vontade se o mundo inteiro se intercalar entre a minha consciência e os seus fins. Se um génio me der o poder de realizar imediatamente os meus desejos, fico apático, por não poder mantê-los à distância, por não poder impedir que eles se realizem. Foi o que perceberam obscuramente os narradores que nos contam histórias de desejos cumpridos e que acabam mal.
Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra
Faço hoje 55 anos. Quem disse que o tesouro dos poetas são "montes de
papéis desarrumados / e barras de oiro quando o sol se põe"?
Eu não aspiro a tanto, mas tenho alguns bens: sapatos novos, calças de
ganga, uma camisa de flanela e um relógio de pulso.
Depois de 50 anos de chatice, que tal?
A Poesia foi, para mim, corso: de quando em vez, fazia abordagens. Claro
que trago comigo, como qualquer pirata que se preza, o mapa desse tesouro,
onde ninguém o encontrará: na pala do olho direito — com o esquerdo, não
sei porquê, vi sempre melhor.
Sebastião Alba, in Albas
© Maria Stenzel
Adirondack Mountains, New York, 1996
National Geographic
Fausto:
Em nenhum hábito deixarei de sentir
A dor da vida estreita que levar.
Sou muito velho para só querer brincar,
E muito novo para sem ânsia existir.
Que tem o mundo hoje para me oferecer?
A renúncia! Deves renunciar:
É essa a eterna ladainha
Que a todos nos ouvidos ecoa
E que, uma vida inteirinha,
Uma voz rouca sem fim apregoa.
Acordo de manhã numa agonia,
E lágrimas amargas só me traz
O tempo que decorre, e em cada dia
Nem um desejo só me satisfaz;
Até do prazer o antegozo
Me estraga com espírito invejoso,
E do sopro criador da alma activa
Com mil esgares hostis também me priva.
E depois, quando a noite nos envolve
E eu no leito caio, angustiado,
Também então a inquietação revolve
Os sonhos que me deixam aterrado.
A divindade que em meu peito mora
Pode agitar-me a alma até ao fundo;
Em minhas forças manda, mas lá fora
Não tem poder sobre as rodas do mundo.
E assim a existência me é um peso,
A morte ansiada, a vida um ódio imenso.
Goethe, in Fausto