A Revolução Francesa foi uma revolução analítica e crítica, no sentido de que encarava uma sociedade como um contracto entre indivíduos. O espírito de síntese reaparece com Maistre e Bonald. Opõe-se ao espírito crítico afirmando que a análise destrói aquilo que desmembra. Por exemplo, é o espírito de análise que verá num rei um homem num trono. O espírito conservador responder-lhe-á que, com essa análise, ele destrói precisamente aquilo que constitui o rei: a realeza. O triunfo teórico do espírito de síntese sobre o espírito de análise traduz-se politicamente num triunfo do pensamento conservador sobre o pensamento revolucionário. A sociedade torna-se uma hierarquia de formas indecomponíveis. Se a força revolucionária pôde derrubar as instituições monárquicas foi porque, anteriormente, o espírito analítico as havia dissolvido, destruindo o seu significado. Porque reduzir uma instituição aos seus elementos é ignorar o seu significado, que reside na sua totalidade indecomponível. Sob a influência destas doutrinas oficiais dá-se entre os reformadores e os revolucionários uma dissociação entre o espírito de análise e o espírito de revolução. Os móbiles para modificar a estrutura social permanecem e agravam-se, mas convém mudar de motivos. O espírito de análise está destruído e o que dele resta é açambarcado por velhos liberais voltairianos. É ao espírito de síntese que a nova oposição irá reivindicar os seus motivos. Os conservadores utilizam o espírito de síntese quando declaram que um todo não é redutível aos seus elementos - portanto, que a sociedade não pode reduzir-se ao indivíduos. Assim, o revolucionário já não pensará como em 1879, em reivindicar direitos de indivíduo. Abandona esta concepção do mundo ultrapassada, a Weltanschauung * analítica, que perdeu a sua eficácia de instrumento. Já não irá opor ao todo os seus elementos, à sociedade os indivíduos. Procurará, pelo contrário, uma síntese mais vasta, que englobará em si as diversas sociedades, de forma a poder criticar cada um destas por se revelarem contra essa totalidade, tal como os conservadores criticam os indivíduos por se rebelarem contra a totalidade colectiva.
* Termo alemão: visão ou concepção do mundo. (N. T.)
Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra (1939-1940)
A VERDADE ALHEIA, POEMA QUE INCLUI POR NECESSIDADE
o POEMA «À MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE E DE CESÁRIO
VERDE», JÁ PUBLICADO EM «MEMÓRIA DESCRITIVA»,
O TODO DEDICADO A JOAQUIM DE ALMEIDA GOMES,
MÉDICO QUE FOI EM TIMOR, AGORA EM ANGOLA OU ALGURES
Começas sempre com o Sartre.
Com o Sartre acabas sempre.
Há no meio um choramingas
que não, mal sabe o que diz.
Eu já estou farto do Sartre
das tuas cartas, ouviste?
O Sartre é o Sartre, apenas,
meu iletrado aprendiz!
Alguém mais que o Sartre, o Sartre.
Não é vómito, apenas,
a náusea, o poço fechado,
caminho de liberdade
em que nada se tem e tudo.
O Sartre é fenomenologia
do espírito: o ser e o nada.
O ser privado de Deus,
privado de Deus, o nada
da tua vida de médico
em que auscultas os doentes
separado por um muro
para depois não ouvires nada.
A tua vida parada,
de braços cruzados, hirto:
vida mais que emparedada,
lembrando o mar infinito
e fechando a porta, em casa a
o céu do teu dia aflito.
Entre densa fumarada,
moscas, insectos, fantasmas,
livros grossos e um testículo
coçado pela mão do Sartre.
Basta pois. Se queres falar
do Sartre, mete-lhe o dente
até onde sentires quente
e osso, ou poeira, ou nada
frente a uma porta fechada,
a tua vida vazia,
quase sempre amargurada.
Ou se queres falar do Sartre,
fala por ele, não impinjas
balas, balidos, baladas
mal lambidas, delambidas
ao deus-dará do capricho
ou da malícia-preguiça
da tua vida de médico
sempre muito ocupada.
Da tua vida de homem
solitário, apesar de...
Prefiro ouvir-te a voz
do meio das tuas cartas.
Voz de pateta, mas voz
de quem vai fazendo vida
e se confessa aos amigos
naturalmente, com voz
de homem, ou de meio homem,
como somos todos nós
os desleixados na vida,
os mentirosos
na vida.
Ruy Cinatti, in Manhã Imensa
[...]
não, nunca defequei de chapéu na
cabeça, nem entendo a pergunta. pa
ra dizer a verdade, acho-a até de
muito má educação. de chapéu? não.
mudo todos os dias de roupa inte
rior. sim, claro que tenho orgulho ni
sso. porquê? porque é higiénico, qu
e é que quer dizer higiénico? lim
po, limpo, mas a pergunta é absurd
a, totalmente absurda, não tem res
posta. é totalmente absurda. lamen
to ter de dizê-lo, mas estas pergu
ntas todas são muito estranhas.
qual é a minha opinião acerca d
este livro? não sei, não o li. se g
ostaria de o ler? não sei, precisa
ria de lê-lo primeiro, para respo
nder a essa questão, mas acho tud
o isto muito duvidoso, estas ques
tões, estes temas, tudo isto, não s
ei, não me está a agradar nada,
de resto são horas de me retirar.
uma última declaração? com todo o
gosto: não tenho dúvidas de que
nada nos impede de continuarmos
como até aqui, e é isso que me dá
confiança no futuro, pois o futuro
só é possível se não deixarmos de
ser o que sempre fomos no passado.
Reproduzem-se as quatro últimas perguntas e respostas do poema "entrevista" composto por 17 perguntas e repostas.
Alberto Pimenta, in o futuro em anos-luz, antologia de poesia portuguesa, p. 115, Quasi Edições, 2001
A exactidão das coisas, a plena adequação de cada uma aos seus contornos, é algo que jamais se verifica, indo de par a sua variável precisão com a maior ou menor proximidade a que se encontrem do presente, dimensão ideal para que, nos seus arredores, todas elas tendem a seu modo, sem que alguma vez a possam atingir. Há entre elas desencontros decorrentes da inconstante resistência que, em virtude de factores como a substância, a antiguidade ou as funções que desempenham, oferecem ao futuro. Os seus contornos, mais ou menos inexactos, são pois fruto, em grande parte, da presença do futuro, que nelas, em ritmos e velocidades desiguais, encarna com um rumor às vezes quase imperceptível.
Em certas circunstâncias, os objectos estabelecem entre si contactos que conduzem a reajustamentos dos diversos ritmos e densidades com que o futuro através deles se precipita, provocando assim alterações imprevisíveis a que vamos procurar motivos para indagação e espanto. Há ocasiões em que o futuro é espesso, outras mais rarefeito, alturas em que tem qualquer coisa de agudo, percuciente, outras algo de abismal, vertiginoso. Através dos objectos, de que, a um certo nível, podemos assim dizer que é uma componente essencial e impossível de isolar, todo o futuro flui na mira de um presente que incessantemente se desloca.
Luís Miguel Nava, in o futuro em anos-luz, antologia de poesia portuguesa, p. 156, Quasi Edições, 2001
Eu sei que só me pedes por agora
algum esforço de imaginação.
Quanta modéstia. A manhã é doce,
a praia mais clara onde volto a aprender
a lição: o futuro é sustentado
por coincidências como a nossa. Encontro
o livro aberto na página certa - lá dentro
tu estendes para mim as tuas mãos
com o sol na cabeça e a serra a toda a volta.
Rui Pires Cabral, in Praças e Quintais
Observemos com um pouco mais de atenção a composição desses raviolis tão apreciados ou do hambúrguer congelado que se comprou no supermercado: uma embalagem banal, com a imagem de um bife grelhado repousando de forma atractiva sobre folhas de alface» Uma carne igual às outras? Nem por isso, se se for ler o que está escrito na caixa: 69% (podendo por vezes descer a 65%) de carne de vaca picada, "temperada" com proteínas vegetais. Na verdade, esses 31% de proteínas vegetais são tudo menos temperos, antes constituindo uma espécie de sucedâneo adicional à verdadeira carne.» (Cosmopolitan, Junho de 1985).
Mas a lógica que nos vai lembrando tudo o que já temos de engolir nem sequer tem necessidade de ser enunciada de forma tão franca para se impor como coacção: basta fazer-nos esquecer tudo o que já não temos possibilidade de degustar.
Guy Debord, in Enganar a Fome
Haveria um belo trabalho a fazer sobre os maus escritores e sobre os medíocres. Até hoje não se escreveram sobre eles senão más e medíocres coisas. No entanto, a filosfia do mau, medíocre e do vulgar seria da mais alta importância.
Novalis
Pensei, hoje, que é na verdade uma asneira criar cabelos brancos, a propósito de tudo e de nada. As coisas nunca tiveram importância suficiente para isso; mudam, terminam e, sobretudo, no fim de contas, todo o mundo morre. Isso resolve tudo.
— Ah! Isso é apenas uma maneira de fugir aos problemas! — disse Robert.
Interrompi-o:
— A não ser que os problemas não sejam mais do que uma maneira de fugir à verdade. Evidentemente — acrescentei—, quando decidimos que é a vida que é verdadeira, a ideia da morte parece uma fuga. Mas reciprocamente...
Robert sacudiu a cabeça:
— Há uma diferença. Prova-se que escolhemos acreditar na vida, vivendo; se acreditarmos sinceramente que a morte é a única verdade, deveríamos matar-nos. Na realidade, nem sequer os suicidas o fazem com essa ideia.
— Talvez continuemos a viver por estarmos aturdidos e sermos cobardes — disse eu. — É o mais fácil. Mas não prova nada.
— Primeiro, é importante que o suicídio seja difícil — disse Robert. — E, depois, continuar a viver não é apenas continuar a respirar. Ninguém consegue instalar-se na indiferença. Tu gostas de coisas, detestas outras, indignas-te, admiras: isso implica que reconheces o valor da vida. — Sorriu: — Sinto-me tranquilo. Ainda não terminámos a nossa discussão sobre os campos nem sobre tudo o resto. Sentes-te impotente, como eu, como toda a gente, perante certos factos que te acabrunham, e então refugias-te num cepticismo generalizado; mas não é nada de grave.
Não respondi. Evidentemente, amanhã discutiria de novo sobre muitas coisas: isso provaria que elas deixariam de me parecer insignificantes?
Simone de Beauvoir, in Os Mandarins
Apenas o lugar. Aqui se inscreve
esta circunferência, a linha erguida
em direcção aos olhos quando tece
um secreto desenho. O que se via
a quem pertence? As casas no caminho
que ficava distante seriam
nossas quando se tornam vestígio
da que se esquece? Em vão se encontra a última
que depois se assumisse no limite
de uma outra que ficava recolhida
apenas na memória, quando a simples
presença de si mesma nos recorde
esta imagem. Quem é que a recebia?
O livro escrito. E assim ficava longe.
Fernando Guimarães, in Lições de Trevas
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Abraço-te com força antes da morte
sorriso frio com suor ao meio
olhos parados pela curiosidade
a face fácil da destruição
vestido que te leva quando o teu corpo suave
malvada cor de malva que me salva
antes que me dissolva na sonora selva
das cores da alva aonde o sol já silva
adeus regaço de que a custo me despeço
Ruy Belo, in A Margem da Alegria, Obra poética de Ruy Belo vol. 2, p. 105
Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.
José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira
Tanta gente,
tantos enredos
até ficarmos para sempre
quedos!
Para sempre? Não!
Que outros (mínimos) seres
já trabalham na nossa remoção.
Alexandre O'Neill, in De Ombro na Ombreira
Às vezes deixava-me estar sob a chuva a senti-la correr pela cabeça e as mãos, encharcar-me o fato, entrar na carne. Murmurava: é a chuva. Ficava extasiado, louco de dedicação por esta terra feroz e sumptuosa que eu nunca entenderia bem. Depois tudo foi desaparecendo. Uma noite, só, sentado num quarto vazio, subitamente compreendi. Nunca mais deixei de ser inteligente. Você com certeza supõe que sou uma pessoa ferida, extorquida, amarga. Perdi as belas — isso — as belas e afortunadas oportunidades. Oportunidades? Tudo são oportunidades em tamanha ignorância. Ninguém as perde, impossível. Não perdi nada. Sou apenas lúcido. Digo: só, desprovido, crítico, bastante. O mal é bastar-se. Não preciso de ninguém. Nem sequer dos pequenos mitos de mim próprio.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Brandy
O relógio acaba de bater horas. Não sei quantas. Ouço mal as pancadas do relógio. Sinto nos ouvidos o som de um órgão; são os zumbidos dos meus últimos pensamentos.
Naquele momento supremo em que me refugio nas minhas recordações, revejo, horrorizado, o meu crime; mas gostaria de me sentir ainda mais arrependido. Sentia mais remorsos antes da condenação; agora, creio que só há lugar para pensamentos de morte. Gostava, todavia, de me sentir muito arrependido.
Depois de pensar por uns momentos no que a minha vida tem de passado, e de regressar ao golpe de cutelo que daqui a pouco lhe vai pôr termo, arrepio-me como perante algo de novo. Bela infância a minha! Bela juventude a minha! Uma peça de tecido dourado cuja extremidade se ensanguenta. Entre o passado e o presente corre um rio de sangue, o sangue do outro e o meu.
Se alguém ler a minha história, não poderá acreditar que tantos anos de inocência e felicidade tenham conduzido a este ano execrável, que começa com um crime e termina num suplício; a história afigura-se desconexa.
E, no entanto, miseráveis leis e miseráveis homens, eu não era um malvado!
Oh! Morrer dentro de poucas horas, e pensar que há um ano, neste mesmo dia, era livre e puro, dava os meus passeios de Outono, vagueava sob as árvores, e caminhava sobre as folhas caídas!
Victor Hugo, in O Último Dia de um Condenado
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Quando era rapaz, o meu avô morreu, e era um escultor. Também era um homem afável, que tinha muito amor para dar ao mundo, e ajudou a limpar o bairro de lata na nossa cidade; e fazia-nos brinquedos e fez um milhão de coisas na vida; estava sempre a trabalhar. E, quando morreu, percebi repentinamente que não chorava por ele, mas por todas as coisas que ele fez. Chorei porque nunca mais voltaria a fazê-las, nunca mais esculpiria um pedaço de madeira nem nos ajudaria a criar pombas e pombos no quintal, nem tocaria violino como costumava fazer, nem nos contaria anedotas. Ele fazia parte de nós e, quando morreu, todas as acções pararam e não havia ninguém que as fizesse como ele fazia. Era particular. Era um homem importante. Nunca recuperei da sua morte. Penso muitas vezes que nunca mais nascerão esculturas maravilhosas porque ele morreu. Quantas piadas faltam neste mundo e quantos domésticos que não são tocados pelas suas mãos. Ele moldou o mundo. Ele fez coisas ao mundo. O mundo ficou sem dez milhões de boas acções na noite em que ele morreu.
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451
Fico deitado tardes inteiras, fumando interminavelmente. Bach. Cinco páginas do Hamlet, 2° acto, 2ª cena. A ficção da loucura por parte de Hamlet é dúbia. Polónio por seu lado submete-se às regras do perigosíssimo jogo. Nesta atmosfera nem a ficção da loucura é gratuita, nem a lucidez casual. Mas eis toda a verdade no espaço rápido e fechado. As leis do fingimento são secretas, intraduzíveis. Perfeito. Nelas reside o segredo total. Quarto do castelo em Elsenor. A ficção (ou fingimento) é o único caminho para a verdade? — Que ledes, meu senhor? — Palavras! Palavras! Palavras! — Mas de que se trata, meu senhor? — Entre quem? E Bach ao fundo. Concerto Brandeburguês n.°5 pela Orquestra de Estugarda. Transferi tudo. Eis como funcionam estas minhas admiráveis virtudes humanas. E a pobre rapariga levanta-se, depois de recusar o cigarro, e aproxima-se com o seu desgraçado sorriso, vulnerável assim entre a última humilhação e uma espécie de momentânea ressurreição do valor da vida e da pessoa. Tudo isso à minha frente, entre os belos sons de cravo de Bach e as palavras de uma trágica e tão significativa comicidade de Shakespeare. Entre quem? Ora aí está: deveria ser entre mim e ela, e não palavras, palavras, palavras — mas um grande assunto. O assunto de um empenhamento, uma devoção humana. Não gosto de ninguém, mas pergunto: não tenho eu obscuras, calorosas e ricas faculdades? Ela avança para dar-me um beijo. Recebo-o na boca e — fácil! — retribuo. Enoja-me a saliva que me fica nos lábios, e confundo-a depressa com a minha, passando a língua por cima. Pois eu tenho muita saliva, muita abjecção onde afundar a abjecção dos outros. Estou deitado e, pela cidade adiante, caminha a prostitutazinha.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Duas Pessoas
Metam numa panela uma boa porção de manteiga, deixem-na derreter a fogo lento e em seguida coloquem as coxas de menina por cima, depois de tê-las salteado. Acrescentem um púcaro de leite. Mexam tudo bem mexido e temperem com sal, pimenta, salsa, cebola picada, alho, pimentos moídos. Espevitem um pouco o lume e ao fim de uma hora tirem a panela do fogão e deitem o conteúdo para dentro das meias. Sirvam bem quente, com as meias suspensas do tecto por elásticos. É um prato muito alegre, bom para saborear entre amigos. As pernas sobem e descem por cima da mesa, e tentar apanhá-las depressa se torna um jogo. Mas atenção às nódoas suspeitas na roupa! Roland Torpor, in A Cozinha Canibal |
i seem to recognize your face
haunting, familiar, yet i can't seem to place it
cannot find a candle of thought to light your name
lifetimes are catching up with me
all these changes taking place, i wish i'd seen the place
but no one's ever taken me
hearts and thoughts they fade, fade away...
hearts and thoughts they fade, fade away...
i swear i recognize your breath
memories like fingerprints are slowly raising
me, you wouldn't recall, for i'm not my former
it's hard when, you're stuck up on the shelf
i changed by not changing at all, small town predicts my fate
perhaps that's what no one wants to see
i just want to scream...hello...
my god its been so long, never dreamed you'd return
but now here you are, and here i am
hearts and thoughts they fade...away...
hearts and thoughts they fade, fade away...
hearts and thoughts they fade, fade away...
hearts and thoughts they fade, all away...
hearts and thoughts they fade, fade away...
hearts and thoughts they fade, fade away...
hearts and thoughts they fade, fade away...
hearts and thoughts they fade...
Pearl Jam, Vs
Talvez esses infelizes nunca tenham reflectido sobre a lenta sucessão de torturas que a fórmula expeditiva de uma condenação à morte encerra? Alguma vez se terão debruçado sobre a ideia pungente de que o homem condenado possui uma inteligência, uma inteligência que contou com a vida, uma alma que não se preparou para a morte? Não. Em tudo isto, não vêem mais do que a queda vertical de um cutelo triangular, e pensam com certeza que, para o condenado, não há antes nem depois.
Estas páginas desenganá-los-ão. Se porventura vierem a ser publicadas, despertarão por alguns momentos o seu espírito justamente para o sofrimento do espírito, pois é esse que ignoram. Exultam por poderem matar quase sem sofrimento do corpo. Oh! é mesmo disso que se trata! O que é a dor física frente à dor moral? Horror e piedade, leis feitas assim!
Victor Hugo, in O Último dia de um Condenado
Por natural misantropia ou demasiadas decepções na vida, qualquer céptico comum, conhecedor dos pormenores da vida desta mulher, insinuaria que a bonitez do sorriso não passava de uma artimanha de ofício, afirmação maldosa e gratuita, porque ele, o sorriso, já tinha sido assim nos tempos não muito distantes em que a mulher fora menina, palavra em desuso, quando o futuro era uma carta fechada e a curiosidade de abri-la ainda estava por nascer. Simplificando, pois, poder-se-ia incluir esta mulher na classe das denominadas prostitutas, mas a complexidade da trama das relações sociais, tanto diurnas como nocturnas, tanto verticais como horizontais, da época aqui descrita, aconselha a moderar qualquer tendência para juízos peremptórios, definitivos, balda de que, por exagerada suficiência nossa, talvez nunca consigamos livrar-nos. Ainda que seja evidente o muito que de nuvem há em Juno, não é lícito, de todo, teimar em confundir com uma deusa grega o que não passa de uma vulgar massa de gotas de água pairando na atmosfera. Sem dúvida, esta mulher vai para a cama a troco de dinheiro, o que permitiria, provavelmente, sem mais considerações, classificá-la como prostituta de facto, mas, sendo certo que só vai quando quer e com quem quer, não é de desdenhar a probabilidade de que tal diferença de direito deva determinar cautelarmente a sua exclusão do grémio, entendido como um todo. Ela tem, como a gente normal, uma profissão, e, também como a gente normal, aproveita as horas que lhe ficam para dar algumas alegrias ao corpo e suficientes satisfações às necessidades, as particulares e as gerais, Se não se pretender reduzi-la a uma definição primária, o que finalmente se deverá dizer dela, em lato sentido, é que vive como lhe apetece e ainda por cima tira daí todo o prazer que pode.
José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira
Visto-me de preto, falo pouco, não escrevo e tudo isto me compõe uma figura e os outros vêem-na. Não sou ninguém, é fácil de dizer: sou eu. Quem é? Aonde encontrar-me? Seria preciso estar do outro lado de todas as portas, mas sou eu quem bate, eles calar-se-ão. Senti de repente que o rosto me queimava, teria querido arrancá-lo.
Simone de Beauvoir, in Os Mandarins
Gustave Courbet, Seacoast (1865)
Por vezes a palavra representa um modo mais acertado de se calar do que o silêncio Simone de Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro de 1908 | When one has an existentialist view of the world, like mine, the paradox of human life is precisely that one tries to be and, in the long run, merely exists. It's because of this discrepancy that when you've laid your stake on being - and, in a way you always do when you make plans, even if you actually know that you can't succeed in being - when you turn around and look back on your life, you see that you've simply existed. In other words, life isn't behind you like a solid thing, like the life of a god (as it is conceived, that is, as something impossible). Your life is simply a human life. So one might say, as Alain did, and I'm very fond of that remark, "Nothing is promised us." In one sense, it's true. In another, it's not. Because a bourgeois boy or girl who is given a certain culture is actually promised things. I think that anyone who had a hard life when he was young won't say in later years that he's been "swindled." But when I say that I've been swindled I'm referring to the seventeen-year-old girl who daydreamed in the country near the hazel bush about what she was going to do later on. I've done everything I wanted to do, writing books, learning about things, but I've been swindled all the same because it's never anything more. There are also Mallarmé's lines about "the perfume of sadness that remains in the heart," I forget exactly how they go. I've had what I wanted, and, when all is said and done, what one wanted was always something else. A woman psychoanalyst wrote me a very intelligent letter in which she said that "in the last analysis, desires always go far beyond the object of desire." The fact is that I've had everything I desired, but the "far beyond" which is included in the desire itself is not attained when the desire has been fulfilled. When I was young, I had hopes and a view of life which all cultured people and bourgeois optimists encourage one to have and which my readers accuse me of not encouraging in them. That's what I meant, and I wasn't regretting anything I've done or thought.
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Acordo na desolação da casa desabitada.
Choveu. Choveu todo o dia sobre a cidade.
Digo:
- Esta chuva limpa a morte dos dias.
Al Berto, in O Anjo Mudo
Cada passo na marcha do progresso, derrubadas o que os especialistas do «enganar a fome» chamam as nossas «barreiras mentais», isto é, a antiga experiência de uma qualidade e de um gosto, permite avançar ainda mais na industrialização. E assim a congelação e a passagem rápida à descongelação serviram antes do mais para comercializar «coxas de aves», por exemplo, compostas de matéria triturada e reconstituídas artificialmente. Neste estádio, a matéria em questão ainda tem relação com o seu nome, «ave», o qual só é usado como evocação do que podia ter sido realmente uma ave que tivesse escapado à indústria pecuária. Assim, uma vez aceite a forma, é possível alterar o conteúdo mais facilmente: o exemplo chega de novo do Japão - ex Oriente lux - onde as «patas de caranguejo» e os «camarões» são, na verdade, produzidos industrialmente a partir de peixe de baixo preço, depois reconstituído com aquela aparência.
Guy Debord, in Enganar a Fome
Os jornais, por via das notícias, produzem um barulho fixo. Um barulho que se mantém enquanto alguém o lê. Mas na notícia acontece isto: os sofrimentos individuais e as alegrias íntimas desaparecem, tudo se torna propriedade colectiva: o jornal como teoria geral da inexistência do indivíduo. Só existe pessoa-acontecimento se existir pessoa-espectador: a privacidade absoluta, verdadeira, a individualidade pura, não são acontecimentos, são não-acontecimentos, isto é, à letra: a individualidade (a de zero espectadores) não acontece. Quase que se poderia afirmar que a existência individual e privada será uma invenção, precisamente, individual. Como provar a existência de momentos puramente íntimos, não testemunhados por ninguém, a não ser pela consciência do próprio? Não podemos provar, só acreditar. Acredito que o outro existe enquanto indivíduo, acredito: crença; não sei: não é um conhecimento. Mas de mim próprio sei: conheço os meus momentos individuais, e apenas posso esperar que os outros acreditem na existência de tal coisa. Toda a parte da nossa vida que é testemunhada constitui o modelo do jornal: vejam o que acontece ou aconteceu. E só isso existe na História. E o que fica de fora são os indivíduos.
Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump
Nunca perdoarei a Sartre o prefácio que escreveu ao "Estrangeiro", de Camus, muito melhor escritor do que ele. Mas, poderosamente dialéctico, Sartre aborreceu-o; basta ler os últimos parágrafos. Mas também não perdoo a Albert Camus não ter dado o seu nome para um abaixo-assinado em que se pedia a comutação da pena de Jean Genet, um dos bons dramaturgos do século.
Em que ficamos?
Vou tocando gaita-de-beiços.
Se quiséssemos imprimir uma frase de Camus, e tê-la na parede, por sobre a secretária, a Literatura dava-se-nos a todos "sem defesa nua" (ela tem pano para mangas):
- dois perigos espreitam os escritores, o orgulho e o rancor.
Sebastião Alba, in Albas
Não se pode construir uma casa sem pregos nem madeira. Se não queremos que se construa uma casa, escondemos os pregos e a madeira. Se não queremos um homem politicamente infeliz, não lhe damos duas respostas a uma pergunta que o preocupem; damos-lhe uma. Melhor ainda, não lhe damos nenhuma. Deixamos que se esqueça que existe uma coisa como a guerra. Se o Governo é ineficiente, desequilibrado e louco por impostos, é melhor que sejam essas pessoas a preocupar-se com isso. Paz, Montag. Temos de dar concursos às pessoas que elas ganhem, recordando as letras das canções mais populares ou os nomes das capitais dos estados ou quanto cereal produziu lowa no ano passado. Temos de as encher com dados não combustíveis, atravancá-las com tantos «factos» até se sentirem empanturradas, mas absolutamente «brilhantes» com informação. Então, sentirão que estão a pensar, terão uma sensação de movimento sem se moverem. E ficarão felizes, porque os factos deste tipo não mudam. Não se lhes pode dar matéria escorregadia como filosofia ou sociologia para relacionarem as coisas. Isso causa melancolia. Qualquer homem que seja capaz de desmontar uma parede com ecrã de TV e a montar de novo, e a maioria dos homens é capaz, nos nossos dias, é mais feliz do que qualquer homem que tenta avaliar, medir e equacionar o Universo, que não será medido e equacionado sem tornar o ser humano bestial e solitário. Eu sei, eu tentei; que se dane. Por isso introduzamos clubes e festas, acrobatas e mágicos destemidos, carros a jacto, helicópteros, sexo e heroína, tudo o que estiver relacionado com reflexo automático. Se o drama for mau, se o filme não disser nada, se a peça de teatro for vazia, piquem-me, ruidosamente. Pensarei que estou a reagir à peça, quando não passa de uma reacção à vibração. Mas não me importo. Gosto de diversão genuína.
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451
A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.
José Saramago, in Ensaio sobre a Cegueira
saboreando uma releitura há muito prometida :)
Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.
I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep- while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?
Edgar Allan Poe
A extrema degradação da alimentação é uma evidência que, à semelhança de outras, é em geral suportada com resignação: uma fatalidade, um resgate a pagar por um progresso que não é possível travar, como bem sabem todos os que ele esmaga a cada dia que passa. E uma questão acerca da qual toda a gente se cala. Os de cima, porque não querem, os de baixo, porque não podem. A imensa maioria da população, que suporta tal degradação, não quer olhar de frente uma realidade tão incómoda, mesmo que haja as maiores suspeitas. De facto, não é agradável admitir que se é objecto de trapaça e por isso os que puseram de parte o bife - e a reivindicação do bife - por troca com a sua miragem «restruturada», não estão mais dispostos à admitir o que perderam com a troca do que aqueles que acreditaram poder aceder ao conforto aceitando um ersatz semelhante no seu habitat. Regra geral são os mesmos, esses que nada podem recusar, sob pena de desmentirem tudo o que deixaram fazer das suas vidas.
Guy Debord, in Enganar a Fome
Pois bem, por que não? Os homens, recordo-me de o ter lido não sei em que livro onde só havia isso de certo, os homens estão todos condenados à morte a mais ou menos longo prazo. Que haverá então de diferente na minha situação? Desde que a minha sentença foi proferida, quantos dos destinados a uma longa vida terão morrido! Quantos dos que, jovens, livres e sãos, esperavam ir ver rolar a minha cabeça na praça de Greve! Até lá, quantos dos que caminham e respiram ao ar livre, entram e saem à sua vontade, me precederão ainda!
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