dezembro 31, 2003

Que seja mais um ano...


National Geographic - Chris Fallows, Flying Shark

© Chris Fallows


Boas entradas e melhores despedidas ;)

Publicado por dolphin.s em 04:13 PM | Comentários (10)

Se os homens fossem seres imóveis

Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas. Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem altamente inteligente, mas imóvel. Se, de repente, numa hipótese totalmente absurda, todos os humanos sofressem um acidente como Clako, a espécie humana desapareceria rapidamente numa geração. Numa única geração desapareceriam, então, a matemática e a lógica do mundo. E a geometria. E a literatura.
Se a matemática fosse assim tão divina e universal, como conceber que a eliminação de uma única espécie — o Homem — de entre biliões de espécies existentes pudesse eliminar por completo essa lógica dos números em toda a superfície do planeta? Se o que se encontra disseminado por mais seres da natureza tem o nome de divino, então divino é o movimento e a capacidade de procriação; e a matemática apenas a especialidade de uma minoria.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 02:00 PM | Comentários (0)

Foggy Lane



National Geographic - Peter Essick - Foggy Lane

© Peter Essick
Near the Altamaha River, Georgia, 1997
National Geographic


Publicado por dolphin.s em 12:07 PM | Comentários (13)

Não nos consola a morte

Simone de BeauvoirQuando se ama a vida, a imortalidade, quer a imaginemos celeste ou terrena, não nos consola a morte.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Publicado por dolphin.s em 10:32 AM | Comentários (7)

dezembro 30, 2003

por um triz

Sebastião Alba, Uma pedra ao lado da evidênciaTodas as noites me despeço
de mim. O dorso afunda-se.
O bulício, os relógios
prosseguem por fora.
Nenhum antegosto
ou prelúdio do fim.
Minha energia
aflui, reune-me? Na órbita
do sono, some-se e resplandece
a máscara mortuária


Sebastião Alba, in Uma Pedra ao lado da Evidência

Publicado por dolphin.s em 01:49 PM | Comentários (10)

Um cubículo de metal

O coração não é só uma víscera tenra. Há um sistema moral algures na parte mole do corpo. E um sistema é uma coisa grossa, que permanece fortemente no lugar: uma pedra. Um cubículo de metal.
Os tribunais privados, íntimos, impõem mais respeito do que a montanha. Não consegues olhar de frente para aquilo que te constitui e se mantém espesso apesar das grandes mudanças. És tu que decides quantos talheres colocas em cima da realidade. Escolhes o instrumento, e escolhes a ponta que salva e a ponta que mata.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 10:34 AM | Comentários (4)

dezembro 29, 2003

A morte de Deus

Ora de todas as evidências que nos habitaram, eis que a mais necessária se nos nublou e desfez. Que Deus tenha morrido, meu amigo, é uma surpresa tão extraordinária, que poucos de nós se deram ainda conta disso. Sim, sim, muitos sabem-no já, mas por ouvirem dizer, como é por ouvirem dizer que muitos outros acreditam que Deus está vivo para sempre. Que admira? Só sabemos, normalmente, que alguém nos morreu quando o sabemos de cor... Recuperar a vertigem da iniciação é um raro milagre de raros instantes apenas. Porque o que importa não é saber: o que importa é ver. A história das religiões é a história das formas aparentes de uma mesma certeza: os deuses tomam o aspecto dos desejos dos homens, corporizam os modos da sua pacificação—pelo terror, pela alegria, pela prosternação ou pela fraternidade. A cada irredutível e novo modo de se ser humano, os deuses respondiam com um novo modo de governo. O regime mudava, mas não o soberano, e as lutas religiosas eram assim pequenas lutas partidárias com um sonho pequeno de emendas à Constituição...


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 02:13 PM | Comentários (0)

No silêncio

António BottoNo silêncio
Do meu desânimo triste,
Fui quebrando
As últimas ilusões...

Da vida não quero nada.

O que é que a gente constrói
Dando amor ou amizade?

Tranquiliza-te, sei bem:
Eras o único afecto
- Um frágil fio de cambraia
Envolvendo
A mais sólida ilusão -
Que se esvaiu como as outras...

Da vida não quero nada.

De tudo me hei-de esquecer...

E se aperto com dandismo
O nó da minha gravata,
É inda um defeito inútil
- Dos poucos que hei-de manter.


António Botto

Publicado por dolphin.s em 10:36 AM | Comentários (4)

dezembro 28, 2003

Não peças garantias

Não peças garantias, não peças segurança, esse animal nunca existiu. E se existisse, seria relacionado com a enorme preguiça que se pendura de cabeça para baixo numa árvore durante todo o dia e todos os dias, passando a vida a dormir. Isso que vá para o Inferno!», disse. «Abana a árvore e atira a enorme preguiça ao chão.»


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Publicado por dolphin.s em 03:52 PM | Comentários (5)

dezembro 27, 2003

Condenado à morte!

Condenado à morte!
Victor Hugo, O Último dia de Um CondenadoHá cinco semanas que vivo com este pensamento, sempre sozinho com ele, sempre gelado pela sua presença, sempre curvado sob o seu peso!
Outrora, pois parece-me que passaram anos e não semanas, era um homem como os outros. Cada dia, cada hora, cada minuto tinha o seu significado. O meu espírito, jovem e rico, estava repleto de fantasias. Divertia-se a apresentar-mas umas a seguir às outras, sem ordem e sem fim, bordando inesgotáveis arabescos neste tosco e curto tecido da vida. Eram jovens donzelas, magníficos paramentos de bispo, batalhas ganhas, teatros cheios de rumores e de luz, e outras vez jovens donzelas e obscuros passeios à noite debaixo dos frondosos ramos dos castanheiros. A minha imaginação vivia sempre em festa. Podia pensar no que quisesse, era livre.
Agora estou cativo. O meu corpo está agrilhoado num cárcere, o meu espírito está preso a uma ideia. Uma horrível, uma sangrenta, uma implacável ideia! Só tenho um pensamento, uma convicção, uma certeza: condenado à morte!
Faça eu o que fizer, ele está sempre presente, este pensamento infernal, como um espectro de chumbo ao meu lado, sozinho e cioso, impedindo qualquer distracção, de frente para um miserável que sou eu, e sacudindo-me com as duas mãos geladas quando quero desviar a cabeça ou fechar os olhos. Disfarça-se sob todas as formas a que o meu espírito gostaria de se subtrair, imiscui-se como um horrível estribilho em todas as palavras que me dirigem, agarra-se comigo às abjectas grades do meu cárcere; obsidia-me acordado, espia-me o sono convulsivo, e reaparece-me em sonhos sob a forma de cutelo.
Acabo de acordar em sobressalto, perseguido por ele e dizendo-me: — Ah! não passa de um sonho! Pois bem, ainda antes dos meus olhos terem tempo de se entreabrir o suficiente para ver este fatal pensamento inscrito na horrível realidade que me rodeia, na laje encharcada e exsudada da minha cela, nos pálidos raios da minha lâmpada de presença, na trama grosseira do tecido das minhas vestes, no rosto moreno do soldado de guarda, cuja cartucheira reluz através das grades do cárcere, julgo ouvir uma voz segredar-me ao ouvido:
— Condenado à morte!

Victor Hugo, O Último dia de Um Condenado

Publicado por dolphin.s em 03:54 PM | Comentários (14)

dezembro 26, 2003

Carta de Natal de Jean-Paul Sartre

Jean-Paul Sartre, o filósofo ateu, enviou do seu cativeiro aos padres que admirava uma meditação sobre a pintura que gostaria fazer do Natal

"A Virgem está pálida e olha para o menino. O que seria necessário pintar neste rosto é um encantamento ansioso que não apareceu senão uma vez sobre uma figura humana. Porque Cristo é o seu menino: a carne da sua carne, o fruto das suas entranhas. Cresceu nela durante nove meses e dar-lhe-á o seu seio (...) e, por momentos, a tentação é tão forte que ela esquece que ele é Deus. Aperta-o nos seus braços e diz: 'Meu pequenino.'

Mas noutros momentos ela suspende esse movimento e pensa: Deus está aqui. E fica possuída pelo horror religioso, por este Deus mudo, por esta criança terrificante. Todas as mães ficam assim suspensas, por um momento, diante deste fragmento rebelde da sua carne que é o seu filho, sentem-se em exílio diante desta vida nova que se faz a partir da sua e habitadas por pensamentos estranhos. Nenhuma criança, porém, foi tão cruelmente e tão rapidamente arrancada à mãe: aquela criança é Deus e ultrapassa sempre tudo o que Maria possa imaginar.

Penso que também há momentos, rápidos e fugidios, nos quais ela sente, ao mesmo tempo, que Cristo é seu filho e que ele é Deus. Ao olhar para ele, pensa: este Deus é meu menino. Esta carne divina é a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Parece-se comigo. Ele é Deus e parece-se comigo.

Nenhuma mulher teve, desse modo, o seu Deus só para ela, um Deus pequenino que se pode tomar nos braços e cobri-lo de beijos, um Deus quentinho que sorri e que respira, um Deus que se pode tocar e que ri! É num destes momentos que eu pintaria Maria, se fosse pintor."

Tradução de Frei Bento Domingues, O.P.
Tirado do Público online, dia 21/12/03

Publicado por dolphin.s em 05:08 PM | Comentários (9)

Foi Natal... é Natal :)


Natal 2003


Há dois dias que o som do pc não entrava cá em casa. Volta hoje para vos reencontrar e dar um beijo.
Obrigada pelos votos. Espero que o vosso Natal tenha sido feito de carinhos, abraços e muitos sorrisos.
Ok, doces e prendas também :P
O meu trouxe-me muitas coisas boas, algumas descobertas pela primeira vez ou redescobertas em algo perdido algures. Foi essa a melhor prenda, sem dúvida nenhuma :)***

O Silêncio trouxe-me a presença de muitas pessoas, umas mais longe, outras mais perto.. e outras que se aproximaram para ficar (hopefully). Também para mim foi uma prenda boa. Mais do que o ponto de fuga que era, tornou-se num ponto de encontro, de troca de carinho, ideias, discussões, risos e alguma confusão ;)

Um beijo para todos vocês, os que deixaram votos de Bom Natal na caixinha de comentários, aqueles que estão muito longe geográficamente, mas ainda assim muito perto, e todos os outros que ainda andam por aí a matar saudades da família e que têm bem mais que fazer que estar agarrados ao pc ;)))

Um grande beijo para todos e abraços alargados pelas malhas da rede até ao outro lado desse vidro que nos une aqui :)***********

Publicado por dolphin.s em 04:48 PM | Comentários (5)

dezembro 24, 2003

Sonhar...

National Geographic - Sarah Leen - Popocatépetl

© Sarah Leen
Puebla state, Mexico, 1997
National Geographic, Janeiro 1999


"In 1993, after almost 70 years of calm, Popocatépetl began to stir, emitting gases, shaking the earth, and reaffirming its Aztec name, 'smoking mountain.' At Christmastime in 1994 small explosions in the crater prompted a chaotic temporary evacuation of 25,000 people from the most vulnerable villages. Since then El Popo, as Mexicans affectionately call the mountain, has intermittently thrown clouds of ash thousands of feet into the air and incandescent rocks onto the steep upper slopes of its bare cone."

Publicado por dolphin.s em 10:35 AM | Comentários (12)

dezembro 23, 2003

Começa a Haver

Fernando PessoaComeça a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...
Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —
Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa.

Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 01:40 PM | Comentários (5)

A jovem ebriedade do alpinista

A minha vida dispõe de algumas testemunhas carrancudas que não me perdoam nada; surpreendem-me muitas vezes a reincidir nas mesmas rotinas. Dizem-mo, eu creio nelas e, no último momento, felicito-me: ontem, estava cego; o meu progresso de hoje é ter compreendido que já não progrido. Às vezes, sou eu próprio a minha testemunha de acusação. Dou-me conta, por exemplo, de que, dois anos antes, escrevi uma página que poderia servir-me. Procuro-a e não a descubro; tanto melhor: cedendo à preguiça, ia introduzir uma velharia numa obra nova: escrevo hoje muito melhor, portanto vou refazê-la. Quando termino o trabalho, um acaso põe-me entre as mãos a página extraviada. Pasmo: exceptuando algumas vírgulas, eu exprimia a mesma ideia nos mesmos termos. Hesito e depois atiro para o cesto o documento prescrito, guardo a nova versão: ela tem um não sei quê de superior à antiga. Em suma, é um truque: desiludido, engano-me para sentir ainda, apesar do envelhecimento que me deteriora, a jovem ebriedade do alpinista.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em 10:40 AM | Comentários (1)

dezembro 22, 2003

Hermenêutica

Era alguns de nós, o olhar
queda-se paralelo
ao do mocho
que há muito do ombro
nos voou.

Estas pálpebras
humedecem os olhos
como ninguém a uma fronte.

Em seu retiro, velam

separando
a luz das trevas.


Este poema talvez ainda não o entendas bem. Mas o que quero dizer é que acreditamos sempre nos que amamos, não é um poema de amor lírico. Não há um só, em todo o livro. Falo, nele, da obscura influência que todo o artista exerceu, desde sempre, sobre o nosso destino. Detendo o segredo das palavras, das notas musicais, dos números, ele (o artista) empresta à vida uma gravidade e uma beleza que, um dia, verificarás que ela não tem. O título é: "Os bruxos".
Terás que enfrentar sozinha o ofício, como eu o papel em branco.
E os que depois te aplaudirem, esses, não estavam ao pé de ti antes, isto é, quando quase entorpecida, mal sabendo o que fazias, estavas a vencer, no entanto, as tuas dificuldades.

Em seu retiro, velam
separando
a luz das trevas.

erguem-se, baixam-se. Mas como explicar um poema, dir-te-ia o teu pássaro "é como acrescentar um dedo à mão".

Estas pálpebras
humedecem os olhos
como ninguém a uma fronte.

Como se, enfermeirazinha imaginária, baixasses a febre a um doente.
Mas o poema é de uma grande economia verbal.


Sebastião Alba, in Albas

Publicado por dolphin.s em 01:30 PM | Comentários (2)

Daisies


National Geographic - James P. Blair - Daisies

© James P. Blair
Cape Finisterre, Spain, 1976
National Geographic, Maio 1977


"At their height, around the third century B.C., [the Celts'] sway extended from the 'end of earth,' Cape Finisterre in Spain, all the way to the Black Sea, and from the North Sea to the Mediterranean."


Publicado por dolphin.s em 10:36 AM | Comentários (40)

dezembro 19, 2003

A Neve Preta

"Porquê?", pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: "Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu".


José Saramago in "História de um muro branco e de uma neve preta"

na Antologia de Vasco Graça Moura - Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal

(ontem, dia 18, na colecção do Público)

Publicado por dolphin.s em 02:00 PM | Comentários (17)

Nós suportamos a sua vontade

Gustave Flaubert por Mike MosherCavagnac declinava. A guarda móvel tornou-se suspeita. Ledru-Rollin estava perdido, até na opinião de Vaucorbeil. Os debates sobre a Constituição não interessaram a ninguém; e a 10 de Dezembro todos os chavignolleses votaram a favor de Bonaparte.
Os seis milhões de votos arrefeceram Pécuchet a respeito do povo; e Bouvard e ele estudaram a questão do sufrágio universal. Sendo de toda a gente, não pode ter inteligência. Um ambicioso ganhará sempre, e os outros obedecerão como um rebanho, pois os eleitores nem sequer são obrigados a saber ler; por isso é que, segundo Pécuchet, houvera tantas fraudes na eleição presidencial.
—Não houve nenhuma—replicou Bouvard—acredito mais da tolice do povo. Pensa em todos aqueles que compram a Revalescière, a pomada Dupuytren, a água das castelãs, etc.! Esses patetas formam a massa eleitoral e nós suportamos a sua vontade. Porque é que não podemos fazer com coelhos três mil libras de rendimento? É que uma aglomeração excessiva é causa de morte. Do mesmo modo, simplesmente devido à multidão, os germes de estupidez que ela contém desenvolvem-se, e daí resultam efeitos incalculáveis.


Gustav Flaubert, in Bouvard e Pécuchet
Ilustração de Mike Mosher

Publicado por dolphin.s em 10:38 AM | Comentários (24)

dezembro 18, 2003

Não há animais injustos

Não há animais injustos, não sejas imbecil. Não há inundações injustas ou desabamentos da maldade. A injustiça não faz parte dos elementos da natureza, um cão sim, e uma árvore e a água enorme, mas a injustiça não. Se a injustiça se fizesse organismo: coisa que pode morrer, então, sim, faria parte da Natureza.
Os homens quiseram introduzir na Natureza coisas inventadas pelos fracos: foram os fracos que inventaram a injustiça para mais tarde poderem inventar a compaixão. Nem a água dócil percebe o que é isso de injustiça. Queres ser mais bondoso que uma substância química que se escreve tão simplesmente como isto: H2O? Não sejas imbecil: olha para os tanques: dispara com eles, ou contra eles. A vida em guerra só tem dois sentidos: com eles ou contra eles. Se não queres morrer beija as botas do mais forte, é isto.

Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 01:34 PM | Comentários (16)

Estreito espaço para a ilusão

Antes, em voo ousado, a imaginação
Subia até aos céus, plena de alento:
Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
Se afundar nos abismos do tempo.
Logo o cuidado se aninha bem dentro
Do peito e traz secreto sofrimento;
Balança inquieto, estorva prazer e paz,
São sempre novas as máscaras que traz:
É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
E tu tremes com medo do que nunca virá,
E choras sem cessar aquilo que não perdes.


Goethe, in Fausto

Publicado por dolphin.s em 10:35 AM | Comentários (70)

dezembro 17, 2003

Homem Virtual

Henrique Manuel Bento Fialho, Antologia do Esquecimentocomprou um alfinete para a gravata
oferecida pela mãe no dia do enterro

acordou ao lado de uma almofada
lançou os olhos nos dígitos intermitentes
do medidor electrónico do tempo
vestiu-se à pressa para o atraso remediar
com duas tostas e um copo de leite magro
restou-lhe tempo para esquecer a escova
de dentes ao lado do dentífrico sabão azul
indicado para lábios queimados
pelo excesso de químicos
pegou na pasta preta para papéis brancos
de assassinar com assinaturas e partiu

no corredor que dava acesso ao elevador
cruzou-se com sonâmbulos
pintando na cara os gemidos da noite passada
a um "bom dia" respondeu sempre igualmente
dois passos hesitantes para a chuva que teimava cair
e escorregou na lama que teimava tropeçar
nas solas dos sapatos que o calçavam
regressou temporário a casa
com nódoas na camisa engomada de fim de semana
mudou de corpo e seguiu viagem

atropelou um camião que era transporte de ferro
ferrou os dentes na língua
aguardou paciente na paragem cardíaca
o autocarro que por certo avariara
sem aviso prévio no gravador de chamadas
ou na tabuada dos horários
que ficam sempre por cumprir
chamou um taxi para o desemprego
e pagou uma mão cheia de pressas

uma canção de embalar insónias
e a loucura de viver sem mistério
foi tudo o que almejou do patronato

puxou da agenda e marco do correio
na cabina telefónica consulta para dois
para ele e para o que em si gostaria de ser
marcou o número da análise

esperou por si à porta do inferno
mandou em jeito de ordem o diabo à merda
«deus é um carteiro atrasado
sem correspondência que me anime», gritou
mas a Ele agradava um soco
de deixar inchaço no olho

recentemente a vida é-lhe feita de um cigarro
antes da sessão de cinema
um café depois do sono
um vodka antes da cama vazia

não anda mal mas podia andar melhor


Henrique Manuel Bento Fialho, in Antologia do Esquecimento


Este livro veio-me parar às mãos por empréstimo - um silêncioso que o obteve aqui.
Adoro impingir as coisas que gosto. Vão lá!! ;)


Publicado por dolphin.s em 01:31 PM | Comentários (26)

As minhas interrogações servem apenas de aguilhão para mim mesmo

As minhas interrogações servem apenas de aguilhão para mim mesmo. Só quero ser estimulado pelo silêncio que se ergue à minha volta como resposta derradeira. «Até quando conseguirás suportar o facto de que o mundo dos cães, tal como demonstram cada vez com mais evidência as tuas pesquisas, está para sempre votado ao silêncio? Até quando conseguirás suportar esta ideia?» Esta, esta é que é a verdadeira grande interrogação da minha vida, uma interrogação perante a qual as outras interrogações se tornam totalmente insignificantes. Uma interrogação que diz respeito apenas a nós próprios e a mais ninguém. Infelizmente, posso responder a esta interrogação com mais facilidade do que às interrogações específicas: aguentarei, provavelmente, até ao meu fim natural. A serenidade da velhice irá formando uma resistência cada vez maior a todas as interrogações inquietantes. Tudo indica que hei-de morrer em silêncio e rodeado de silêncio, na verdade até de forma específica, e antevejo isso com uma certa tranquilidade. Um coração admiravelmente resistente, pulmões que é impossível ficarem fracos prematuramente, foram-nos dados a nós, cães, como que por ironia. Assim, sobrevivemos a todas as interrogações, inclusive àquelas que colocamos a nós próprios, como autênticas fortalezas de silêncio que somos.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Publicado por dolphin.s em 10:33 AM | Comentários (124)

dezembro 16, 2003

O que desejei às vezes

O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!

Tão pouca que nem existe!

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.

António Botto

Publicado por dolphin.s em 02:06 PM | Comentários (11)

A culpa de sobreviver

Simone de Beauvoir Quando alguém que nos é querido desaparece, pagamos com mil pungentes remorsos a culpa de sobreviver. A sua morte descobre-nos a sua singularidade única, esse alguém torna-se vasto como o mundo que a sua ausência destruiu para ele, e que a sua presença fazia existir todo inteiro; parece-nos que devia ocupar mais lugar na nossa vida: uma totalidade sem margens. Arrancamo-nos a esta vertigem: não era senão um indivíduo entre outros. Mas como não fazemos nunca por ninguém tudo o que está ao nosso alcance — mesmo dentro dos limites possíveis que nos são fixados — restam-nos ainda muitas censuras a dirigir-nos.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Publicado por dolphin.s em 10:40 AM | Comentários (21)

dezembro 15, 2003

A música...

A música é um sinal forte da humilhação. Se quem chegou impõe a sua música é porque o mundo mudou, e amanhã serás estrangeiro no sítio que antes era a tua casa. Ocupam a tua casa quando põem outra música.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 02:00 PM | Comentários (6)

Nunca mais o Lembraremos

(..) havia nele dois mistérios insolúveis: viver e escrever. E ambos estavam tão intimamente ligados que, provavelmente, se conseguisse desvendar um deles, o outro sê-lo-ia também.
Mas acontece que tinha tentado fazer da sua vida uma obra tão intensa quanto a obra escrita. Por vezes diluíam-se
uma na outra, confundiam-se, tão próximas ou afastadas estavam. E tanto na vida como na escrita, um mesmo desejo o animava: caminhar em direcção à sabedoria última do silêncio - a memória total do mundo.
O pior é que sempre que avançava alguns passos na direcção certa, desiludia-se. A harmonia com o mundo e com o seu próprio corpo continuava inacessível; e outras ignorâncias surgiam, outras trevas o cegavam. O que parecia estar perto, repentinamente, ficava fora do alcance.
Apesar de tudo, com o avançar lento da idade pressentia, algures dentro de si, um ser de lume - um anjo mudo que o iluminava, revelando-lhe aquilo que devia ou não silenciar.
E quando esse ser o fazia sentir árvore ou pássaro, todo o talento da árvore e o nocturno voo do pássaro escorriam em si. E se a sensação de mar lhe era transmitida, ele sabia que era um mar muito mais remoto e vasto que aquele que diante de si se movia.
Respirava fundo, tinha medo, e escrevia como uma condenação — e nessa condenação encontrava um breve alívio para a dor das coisas vivas e mortas que o rodeavam. E o corpo, sempre apaixonado, tremeluzia quando o estranho anjo mudo lhe punha uma voz no coração.
Talvez seja por tudo isto que um dia nunca mais o lembraremos, nunca mais. Mas neste preciso instante ele acabou de acordar, abre os olhos, arde, é jovem ainda, e diz-me a sorrir:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Publicado por dolphin.s em 10:22 AM | Comentários (66)

dezembro 13, 2003

Burros e Idiotas

Os livros servem para nos lembrar que somos burros e idiotas. São a guarda pretoriana de César, a sussurrar, enquanto a parada brada pela avenida abaixo. «Lembra-te, César, tu és mortal.» A maioria de nós não pode precipitar-se para um e outro lado, falar com a toda a gente, conhecer todas as cidades do mundo, mas a única forma de o cidadão comum poder ver noventa e nove por cento delas é num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo em nada, seja pessoa, máquina ou biblioteca. Faça a sua própria salvação e, se se afogar, pelo menos morrerá sabendo que se dirigia à costa.


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Publicado por dolphin.s em 03:45 PM | Comentários (25)

dezembro 12, 2003

Uma família...


Egon Schiele, The Family (1918)

Egon Schiele, The Family (1918)


Publicado por dolphin.s em 02:23 PM | Comentários (11)

O futuro mais real que o presente

Jean-Paul SartreQuando as testemunhas desaparecem, o passamento de um grande homem deixa para sempre de ser um golpe fulminante, o tempo converte-o em traço de carácter. Um velho defunto está morto por constituição, como está no baptismo tanto quanto na extrema-unção; a sua vida pertence-nos, entramos nela por uma ponta, pela outra, pelo meio, descemos, subimos o seu curso à vontade: é que a ordem cronológica explodiu; é impossível reconstituí-la: essa personagem já não corre qualquer risco e nem espera que as cócegas na narina o levem à esternutação. A sua existência oferece as aparências de um desenrolar, mas, quando se queira infundir-lhe um pouco de vida, recai na simultaneidade. Debalde tentaríamos colocar-nos no lugar do desaparecido, fingir que lhe partilhamos as paixões, as ignorâncias, os preconceitos, fingir que ressuscitamos resistências abolidas, um quê de impaciência ou de apreensão: não poderíamos impedir-nos de lhe apreciar a conduta à luz de resultados que não eram previsíveis e de informações de que ele não dispunha, nem de atribuir particular solenidade a eventos cujos efeitos mais tarde o marcaram, mas que ele viveu negligentemente. Eis a miragem: o futuro mais real que o presente. O que não é de espantar: numa vida acabada, é o fim que se toma pela verdade do começo. O defunto fica a meio caminho entre o ser e o valor, entre o facto bruto e a reconstrução; a sua história torna-se uma espécie de essência circular que se resume em cada um dos seus momentos.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em 12:35 PM | Comentários (2)

dezembro 11, 2003

amar...

Ninguém ama um cobarde e isto só significa que enquanto se ama não se consegue ver no outro a cobardia.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 06:38 PM | Comentários (92)

Indizível realidade do nosso ser

A verdade e o erro do que nos põe em causa o destino são o saldo indistinto de uma indistinta procura do nosso equilíbrio interior. As razões que os justificam são como a desculpa de quem é apanhado em flagrante: as suas raízes mergulham onde já as não sabemos. Só serão «objectivas», meu amigo, as verdades indiferentes, essas em que nada de nós está comprometido. Mas quantas são as verdades que nos não comprometem? Que a verdade de Copérnico seja o erro de Ptolomeu, que a Terra gire em torno do Sol e não o Sol em torno da Terra, pode pagar-se ao preço máximo que é o preço de uma vida. Um problema de verdade-e-erro só é nosso quando o sangue o reconhece.
E no entanto — ou por isso, porque nos afectam a vida — são essas verdades sem estalão visível para aferi-las, as que mais profundamente nos afirmam ou mais radicalmente recusamos: tais verdades não se aferem por um estatuto, mas são antes a nossa própria carne, a tessitura do que somos, a indizível realidade do nosso ser — e nada há mais evidente que a nossa própria pessoa.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 01:52 PM | Comentários (1)

Odeias pela ponta dos dedos

As mãos e os olhos eram o fundamento da guerra: sem mãos é impossível odiar, odeias pela ponta dos dedos, como se estes fossem o canal habitual e único de uma certa substância química má. As mãos nos bolsos são um processo de educar o ódio, processo lento quando comparado com aquele bem mais forte que é a amputação dos braços. Mas só com as mãos nos bolsos os homens já acalmam.
Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno — isso mesmo —, o obsceno que é o homem que na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra é acto corajoso e, por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 10:35 AM | Comentários (8)

dezembro 10, 2003

O poder dos objectos

Simone de BeauvoirQueríamos distribuir recordações às pessoas da sua intimidade. Diante do saco de palha, cheio de novelos de lã e dum tricot inacabado, diante da sua pasta, das suas tesouras, do seu dedal, a emoção submergiu-nos. É sabido o poder dos objectos: a vida petrifica-se neles, torna-se mais presente que em nenhum dos seus instantes. Jaziam sobre a mesa, órfãos, inúteis, esperando transformar-se em coisas sem préstimo, ou encontrar um outro estado civil: o meu estojo, que herdei da tia Francisca. Destinámos o seu relógio a Marta. Ao tirar o cordão preto, Poupette pôs-se a chorar: «É idiota, não me sinto fetichista, mas não posso deitar fora esta fita. —Guarda-a». É inútil pretender integrar a morte na vida e conduzirmo-nos de maneira racional em face duma coisa que o não é: que cada um se desembarace à sua maneira na confusão dos seus sentimentos. Compreendo todas as últimas vontades, e também que não se tenha nenhuma; que se apertem nos braços as ossadas, ou que se abandone o corpo amado à vala comum. Se a minha irmã tivesse querido vestir a mamã ou desejado guardar a aliança, teria admitido as suas reacções tanto como as minhas.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Publicado por dolphin.s em 07:29 PM | Comentários (31)

O Boné de Carbovari

Sobre o piano vertical tcheco (é assim que devemos começar uma frase, às
vezes, por humildade, numa espécie de homenagem à nossa estupidez) vi um objecto que seria teu.
Peguei-lhe e pousei-o logo, como quem o sacode. Não era fetichismo.
Alguém viu; apercebi-me logo de que tinha sentido o que eu sentia.
A sua escola é a do olhar (a minha também, mais próxima, talvez, de Flaubert que de Beckett; a propósito, lê as primeiras páginas de "Madame Bovary", repara bem na descrição daquele chapéu).
E o que ele pensou foi: "este gajo anda com o pavor de ceder à ternura, a família perdida, os amigos já quase intemporais. O leite da ternura humana, como diria Shakespeare, coalhou nele. Qualquer dia, não traz mais livros ou pássaros a nossa casa."


Sebastião Alba, in Albas

Publicado por dolphin.s em 01:55 PM | Comentários (16)

Um livro é uma arma carregada

Ray Bradbury, Fahrenheit 451Sempre tememos o desconhecido. Certamente que te recordas do rapaz da tua turma que era excepcionalmente brilhante, recitava e respondia quase sempre, enquanto os outros ficavam sentados como muitos ídolos pesados, odiando-o. E não foi este rapaz brilhante que escolheste para punir e torturar? Claro que foi. Devemos ser todos parecidos. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos foram tornados iguais. Cada homem é a imagem de todos os outros; depois todos ficam felizes, porque não há montanhas que os obriguem a aninhar-se, a julgar-se. Assim! Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queima-se. Tira-se a bala da arma. Abre-se uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser o alvo de um homem letrado?


Ray Bradbury, in Fahrenheit 451

Publicado por dolphin.s em 10:40 AM | Comentários (26)

dezembro 09, 2003

Uma violência indevida

Simone de BeauvoirTodos os homens são mortais: mas para cada homem a morte é um acidente e, mesmo que ele o saiba e consinta nisso, uma violência indevida.


Simone de Beauvoir, in Uma Morte Serena


Publicado por dolphin.s em 09:10 PM | Comentários (7)

Que Plasta

..."Se não fora, para tão longo amor tão curta a vida", e eu escrevesse durante mais 20 anos, poesia (que é como quem diz), para que a então Secretaria de Estado de outra cultura nos atribuísse um subsídio de modo a podermos viver ambos num T2 e, com os cotovelos no parapeito da janela que mais desse para o mundo, a ver passar as vizinhas de bairro, a caminho do minimercado, no fim da tarde, concordando com elas, em silêncio, entreolhando-nos de quando em vez, sem ouvir o que dissessem... se, "If", é um poema de Keepling, literariamente ilegível, de tão sensato e sensaborão.


Sebastião Alba, in Albas

Publicado por dolphin.s em 03:46 PM | Comentários (17)

Immortality

Eddie Veddervacate is the word...vengeance has no place on me or her
cannot find the comfort in this world
artificial tear...vessel stabbed...next up, volunteers
vulnerable, wisdom can't adhere...
a truant finds home...and a wish to hold on...
but there's a trapdoor in the sun...immortality...
as privileged as a whore...victims in demand for public show
swept out through the cracks beneath the door
holier than thou, how?
surrendered...executed anyhow
scrawl dissolved, cigar box on the floor...
a truant finds home...and a wish to hold on too...
he saw the trapdoor in the sun...
immortality...
i cannot stop the thought...i'm running in the dark...
coming up a which way sign...all good truants must decide...
oh, stripped and sold, mom...auctioned forearm...
and whiskers in the sink...
truants move on...cannot stay long
some die just to live...
ohh...


Pearl Jam, Vitalogy

Publicado por dolphin.s em 01:34 PM | Comentários (24)

Débil Mental

É que eu não sou um débil mental,
Eu posso estar errado ou ter agido mal,
Mas pago o preço que eu tiver de pagar,
Se for pra tal eu sofro só.
Se não te agrada a forma de eu falar,
Acorda e vê que eu cago pró teu não gostar.
Se as minhas calças,
Parecem de um pijama,
Da próxima vez eu saio como entrei na cama.
Só me agrada ser quem quero,
Longe de uma falsa situação.


Masturbação,
Não fica só pela palma da mão.
E é tão mau,
Se a dita v.i.p. fala caro e faz pensar que eu sou vulgar.
Eu sou,
Só não aguento,
É que ela diga tanta prosa e seja só ar,
E nem o ar é puro!
Hipocrisia é mal que eu não suporto,
Pior até que o não pensar.
Mas a verdade é que eu não sofro pelo mal,
Mas pelo meu bem.


Diz meu mal ou leva-me à razão.
Quero andar por fora do que eu sou,
Deixar o tempo ver,
Do que é capaz.


Sobre o que gira à volta já falei,
Contudo há certas coisas em que eu não pensei,
Se o meu destino é negro ou claro,
Quem vai dizer nada muda em nada tudo o que eu pensei fazer.
O mundo não é nada,
Nada à minha beira,
se tudo o que acredito já está preso à cadeira.
E tudo o que eu faço é pensado em mim,
No fundo eu sei que toda a gente acaba sendo assim.


Diz meu mal ou leva-me à razão.
Quero andar por fora do que eu sou,
Deixar o tempo ver,
Do que é capaz.


Não vejo nada contra o infalível,
Fala bem fala a minha língua,
Que eu não sou tu,
Homem de afetação,
Beija-me o cú,
Livra livra já não posso mais ouvir!
É tanta coisa fora do normal,
Procuras água no deserto.


Quem sabe até nos faz bem.
Eu sou mais eu sem nimguém.
A minha vida não tem nexo,
Dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim.
Meu bem dói ou não,
Não eras tu contra a traição,
Quem evitou,
Por fim o mal,
Não foi a pura mas o bébil mental!


Só me agrada ser quem quero,
Longe de uma falsa situação.


Só me agrada ser quem quero,
Longe de uma falsa situação.


(São) quem são e em nada são iguais,
Quem é mais?
Há que eu saiba um ponto igual em nós:
Sermos tão desiguais!


Ornatos Violeta

Publicado por dolphin.s em 10:52 AM | Comentários (20)

dezembro 08, 2003

Onde é que existe o país?

Para mim a História terminou. Se me fecham numa sala durante anos, onde é que existe o país? Nenhum país veio para me salvar, cuspo no país e o país não é um lobo que te morde, é uma paisagem estúpida e subserviente que aceita: podes mijar para cima da cabeça do teu país como fazes aos cães bem domesticados, que ele aceita bem: vai abanar a cauda.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 03:45 PM | Comentários (8)

dezembro 07, 2003

A Consciência da Culpa II

Friedrich NietzsceComo seria inteiramente de esperar depois do que ficou dito, o facto de se trazerem à luz do dia essas relações contratuais desperta a mais ampla desconfiança e oposição contra a antiga humanidade que as criou ou tolerou. É precisamente aí que ocorre uma promessa; é precisamente nessas relações que se trata de fazer uma memória para aquele que promete; é aí precisamente que reside — nada nos impede de suspeitar que assim seja — uma mina rica em crueldade, dureza e sofrimento. O devedor, para inspirar confiança relativamente à sua promessa de reembolso, para oferecer uma garantia da seriedade sagrada da sua promessa, inclusivamente para reforçar na sua própria consciência a obrigação, o dever do reembolso, empenha ao credor — por força de um contrato que será aplicado no caso de não haver pagamento — uma outra coisa que «possua», sobre a qual exerça algum poder, por exemplo, o corpo, ou a mulher, ou a sua liberdade pessoal, ou mesmo a vida (ou, dentro de determinados pressupostos religiosos, a própria salvação da alma e até a paz da sepultura, como acontecia no Egipto, onde o credor não dava sossego no túmulo ao cadáver do devedor — e é preciso acrescentar que os Egípcios atribuíam uma importância especial a esse sossego). O credor podia nomeadamente infligir ao corpo do devedor toda a espécie de humilhações e de torturas, por exemplo, cortar bocados na quantidade que lhe parecesse apropriada ao tamanho da dívida... E, para estes efeitos, em tempos recuados, havia por toda a parte, com força de direito, avaliações rigorosas dos diferentes membros e partes do corpo, descendo às vezes aos pormenores mais atrozes.
A equivalência é estabelecida na medida em que, em vez de uma vantagem que compensasse directamente o prejuízo (portanto, em vez de uma compensação em dinheiro, em terra ou quaisquer outros bens), o credor recebe como reembolso e indemnização uma espécie de satisfação interior, a satisfação de, sem remorso, poder exercer o seu poder sobre um impotente, a volúpia «de faire le mal pour le plaisir de le faire»*, o gozo de violentar, gozo este que é tanto mais apreciado quanto mais baixo o credor estiver na escala social, ou seja, quanto mais aos olhos deste surgir como deliciosa pitada que lhe permite provar o sabor do poder das classes superiores. Por intermédio do «castigo» aplicado ao devedor, o credor toma parte no direito dos senhores: enfim, ei-lo chegado, ao menos uma vez, ao sentimento exaltante de poder desprezar e maltratar alguém como «inferior» — ou, pelo menos, de o poder ver desprezado e maltratado (nos casos em que o poder de aplicação, de execução das penas já está delegado na «autoridade»). A compensação consiste, portanto, numa autorização, numa atribuição do direito à crueldade...


Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

Publicado por dolphin.s em 08:45 PM | Comentários (7)

Um veneno

Franz KafkaCompreendo os meus semelhantes, sou carne, da sua miserável, sempre renovada, sempre ansiosa carne. No entanto, não são apenas a carne e o sangue que temos em comum, mas sim também o conhecimento, e não só o conhecimento mas ainda o segredo para o alcançar. Por mim, não possuo esse segredo, a não ser em comum com todos os outros; não posso tê-lo sem a sua ajuda. Os ossos mais duros, que contêm o tutano mais precioso, só podem ser vencidos se forem trincados por todos os dentes de todos os cães em conjunto. Isto, evidentemente, é apenas uma figura de retórica; se todos os dentes estivessem afiados, nem sequer precisariam de trincar, os ossos estalariam por si mesmos e o tutano estaria facilmente ao alcance mesmo dos cães mais fracos. Se permanecer fiel a esta metáfora, então o objectivo das minhas investigações parecerá, decerto, monstruoso. Pois dessa forma quero levar todos os cães a reunirem-se, quero que os ossos se abram debaixo dessa pressão colectiva e depois quero mandá-los embora para a vida banal que eles amam, enquanto que, entregue a mim próprio, totalmente só, sorvo o tutano. Isto tem a aparência de uma coisa monstruosa, é quase como se eu quisesse comer o tutano de toda a própria raça canina. Mas isto é apenas uma metáfora. O tutano de que estou a falar aqui não é comida; pelo contrário, é um veneno.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Publicado por dolphin.s em 02:40 PM | Comentários (1)

dezembro 06, 2003

Esta massa não é cinzenta

DIRECTOR:

Fausto, GoetheEssa censura a mim pouco me afecta:
Quem quiser atingir a sua meta
Tem de servir-se da melhor ferramenta.
Lembrai-vos que esta massa não é cinzenta,
Pensai, ao escrever, a quem fazeis assédio!
Alguns vêm trazidos pelo tédio,
Outros comeram que nem animais,
E quem me parece mais sem remédio
São os que vêm de ler os jornais.
Vêm por vir, como para as mascaradas,
Só a curiosidade os faz voar;
As damas pavoneiam-se, enfeitadas,
E representam sem se fazer pagar.
Com que sonhais nos píncaros da poesia?
Que vos alegra na casa cheia de gente?
Vede os mecenas! Desta fidalguia
Metade é bronca, metade é indiferente.
Depois da peça, este quer jogar cartas,
Outro, uma noite louca com uma pega.
E para tal gente ides bater às portas
Das musas, pobres tolos? Já chega!
Ouvide bem: dai mais e sempre mais,
E assim o alvo não ireis errar.
Procurai confundir, que contentar
Os homens não conseguireis...
Que é isso agora? Arrebatamento ou dor?


Goethe, in Fausto
O Director tenta convencer o Poeta, relutante em apenas entreter o público

Publicado por dolphin.s em 09:21 PM | Comentários (23)

Eu encontrara a minha religião

Jean-Paul SartreEu encontrara a minha religião: nada me pareceu mais importante do que um livro. Na biblioteca eu via um templo. Neto de sacerdote, vivia sobre o telhado do mundo, no sexto andar, empoleirado no mais alto galho da Árvore Central: o tronco era o poço do elevador. Eu ia e vinha pela varanda; atirava a quem passava um olhar de alto; cumprimentava, através da grade, Lucette Moreau, minha vizinha, que tinha a minha idade, os meus cachos loiros e minha tenra feminilidade, reentrava na cella ou no pronaos e nunca descia daí em pessoa: quando a minha mãe me levava ao Jardim do Luxemburgo — isto é, diariamente—, eu emprestava o meu farrapo às baixas regiões, porém o meu corpo glorioso não abandonava o seu poleiro; creio que ainda por lá anda. Todo o homem tem o seu lugar natural; nem o orgulho nem o valor lhe fixam a altitude: a infância é que decide. O meu é um sexto andar parisiense com vista para os telhados. Por muito tempo sufoquei nos vales, as planícies prostraram-me; arrastava-me sobre o planeta Marte, a gravidade esmagava-me; bastava-me subir a uma toca para recuperar a alegria: reconquistava o meu sexto andar simbólico, voltava a respirar o ar rarefeito das Belas Letras, o Universo escalonava-se a meus pés e toda a coisa solicitava humildemente um nome; atribuir-lho era ao mesmo tempo criá-la e toma-la. Sem essa ilusão capital, eu nunca teria escrito.
Hoje, 22 de Abril de 1963, corrijo este manuscrito no décimo andar de uma casa nova: pela janela aberta diviso um cemitério, Paris, as colinas azuis de Saint-Cloud. É dizer a minha obstinação. Tudo mudou, no entanto. Criança, quisesse eu merecer esta posição elevada, cumpriria ver no meu gosto pelos pombais um efeito da ambição, da vaidade, uma compensação da minha pequena estatura. Mas não; o problema não era trepar à minha árvore sagrada: eu já lá estava, recusava-me a descer; não se tratava de me colocar acima dos homens: eu queria viver em pleno éter entre os simulacros aéreos das Coisas. Mais tarde, longe de me agarrar a balões, pus todo o meu zelo em ir ao fundo: foi preciso calçar solas de chumbo. Por sorte, aconteceu-me às vezes roçar, sobre areias nuas, por espécies submarinas cujo nome me competia inventar. Outras vezes, nada a fazer: uma irresistível leveza retinha-me à superfície. Por fim, escangalhou-se-me o altímetro: sou, ora ludião, ora escafandrista, e, amiúde, ambas as coisas juntas, como convém em nossa especialidade: moro no ar por hábito e foço o chão sem muita esperança.

Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em 05:09 PM | Comentários (1)

Escultura

Avançamos sobre a geografia, estamos ainda no sítio antes da geografia, na pré-geografia. Depois da História não há geografia.
O país está inacabado como uma escultura: vê a geografia de um país: falta-lhe terreno, escultura inacabada: invade o país vizinho para finalizares a escultura. Guerreiro-escultor.


Gonçalo M. Tavares, in Um Homem: Klaus Klump

Publicado por dolphin.s em 02:17 PM | Comentários (0)

dezembro 05, 2003

Cartas

Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um Sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim. Um fio de luz coalha na saliva do lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão. O dia cresce, sem luz — e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a ultima vez...
O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E, quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria - mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas o olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Publicado por dolphin.s em 02:03 PM | Comentários (10)

Génese

Sebastião AlbaHá muitos anos um oficial do exército de ocupação, em Moçambique, disse-me, na parada, enquanto eu, perfilado, tremia de medo: "você, nessa cabeça tem só merda!" Eu acreditei!
Quando poetas me dizem: "o teu lugar é aqui, entre nós", como se alguém estivesse a tirar-nos uma fotografia, acredito logo.
Porque não sei o que pensar de mim, se vocês me desprezarem, sentir-me-ei desprezível; se me estimarem, estimável. Sou quem os que amo (ou detesto) pensam de mim. Pouco mais. Sublinhei algumas palavras para que vocês notem que não há uma sinfonia, um poema, nem sequer "aquela cartinha" que escrevemos a alguém que não sejam conduzidas por qualquer ideia.
Temática. Insistente. Obcecante.


Sebastião Alba, in Albas

Publicado por dolphin.s em 10:26 AM | Comentários (3)

dezembro 04, 2003

Fugir...

National Geographic - James P. Blair - Haitian Girls

© James P. Blair
Cap-Haïtien, Haiti , 1987
National Geographic


Two girls run from the photographer as he tries to take their picture. He noted that almost all of the inhabitants of Cap-Haïtien behaved this way whenever he tried to photograph them.

Publicado por dolphin.s em 07:48 PM | Comentários (3)

Um regaço para chorar

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes - penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...


Bernardo Soares in Livro do Desassossego


a uma amiga...

Publicado por dolphin.s em 01:52 PM | Comentários (7)

A Pessoa Una

Vergílio FerreiraO sangue que nos aquece e nos inventa a vida, é o ar que respiramos, dá aos sonhos as formas dessa presença invisível de tudo o que nos cerca. Um modo de pensar, de sentir, organiza-se nos limites das raízes indistintas, transforma-se aí obscuramente, enquanto as nossas mãos distraídas continuam a moldar o pó dos sonhos mortos. Somos a carne e a presença do todo que nos cerca. As células vivas de um espírito que não morre vão expulsando as que já se corromperam. Lentamente, uma evidência nova habita-nos os nervos, corporiza-se connosco, é a nossa pessoa. E um dia descobrimo-nos uma unidade miraculosa, uma certeza de sermos, o puro acto da nossa identidade — no que afirmamos ou negamos. Muita gente, meu amigo, nos explica que tal modo de sermos unos, de habitar-nos a evidência que nos coube, é o fruto da erosão ou da sedimentação do que isto ou aquilo corroeu ou semeou em nós. Sim. Mas a pedra que a água desgastou, se pudesse conhecer-se, ignorava como vã a explicação da água e do tempo, sabia-se inteira, irredutível, na sua condição de pedra mutilada. Ela seria apenas a verdade absoluta de ser pedra com desgaste, no instante em que se reconheceu assim.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 10:36 AM | Comentários (22)

dezembro 03, 2003

Quem é que abraça o meu corpo

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.


António Botto

Publicado por dolphin.s em 10:55 PM | Comentários (2)

Descansar...



Metasequoia - Dawn-Redwood



Publicado por dolphin.s em 05:00 PM | Comentários (19)

Pobre Gente

Dostoievski, antes de ser deportado para a Sibéria, escreveu um livrinho com o título "Pobre Gente".
Só depois vieram "Crime e Castigo", "Os Irmãos Karamasov". O poeta Necrassov, quando acabou de lê-lo, foi ter com Dostoievski e perguntou-lhe; "sabe o que escreveu?"
Não sei se ele respondeu ou não. Agora a minha costela dialéctica: dêem-no a ler, as minhas filhas já o leram. É uma obra-prima. E Fedor ainda não era epiléptico. Isso aconteceu-lhe só depois da partida (o simulacro de fuzilamento). Oiçam os especialistas: "ele escrevia mal o russo; Tolstoi, bem", i Ai sim? A minha mágoa é não termos em língua portuguesa um escritor como qualquer desses.
O que lixou Tolstoi foi a "Sonata a Kreutezer" de Beethoven. Excedia-o, não aguentou aquilo.
Quando lhe apresentei "Pobre Gente", a filha mais nova, depois de o ler, disse-me:
- Papá, a vida pode ser assim entre duas pessoas que se querem tão bem?
- Pode, meu amor. E pior.
Relê-o quando tiveres tempo. É um monumento à humildade humana que o Czar lhe fez...
O pai de Dostoievski, médico e proprietário, foi liquidado por servos dele esmagaram-lhe a cabeça com pedras.
Era Dostoievski que escrevia: "todo o filho deseja a morte do pai". Eu não e também tu, creio-o. Mas o dele...


Sebastião Alba, in Albas


prenda para o Sr. Citador ;)


Publicado por dolphin.s em 01:42 PM | Comentários (48)

Familiaridade com os mortos

Jean-Paul SartreConservo ainda hoje esse vício menor, a familiaridade. Trato esses ilustres defuntos como caloiros: acerca de Baudelaire, de Flaubert, expresso-me sem rodeios e, quando me recriminam por isso, tenho sempre vontade de responder: «Não se metam nos nossos assuntos. Eles pertenceram-me, os vossos génios, tive-os nas minhas mãos, amei-os apaixonadamente, com toda a irreverência. Vou então trazê-los nas palminhas?» Mas do humanismo de Karl, desse humanismo de prelado, livrei-me no dia em que compreendi que todo o homem é o homem
todo. Como são tristes as curas: a linguagem é desencantada; os heróis da pena, meus antigos pares, despojados dos seus privilégios, retornaram às fileiras: visto luto por eles duas vezes.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em 10:19 AM | Comentários (25)

dezembro 02, 2003

Definitivamente só

Um dia, em frente ao mar, ele pensou:
Se me apagasse neste preciso instante, o mundo pouco se importaria com isso. No entanto, deixaria de ser o mesmo: seria um mundo com todas as coisas que conheci e toquei, mas sem mim. E eu, algures na morte, é pouco provável que levasse comigo alguma coisa do mundo. Seria um homem morto, sem mundo, definitivamente só.


Al Berto, in O Anjo Mudo, Nunca mais o Lembraremos

Publicado por dolphin.s em 08:52 PM | Comentários (31)

let it snow

New York City



Garry Winogrand, New York City, 11 x 14 inch Silver Gelatin Print

Publicado por jm em 03:11 PM | Comentários (10)

As minhas estranhas dores

Samuel BeckettNessa altura eu não percebia as mulheres. Aliás, agora também não. Nem os homens. Nem os animais. O que percebo melhor, e não é dizer muito, são as minhas dores. Penso-as todas, todos os dias, não demora muito, o pensamento corre tão depressa, mas não estão todas no pensamento, nem todas. Sim, há momentos, especialmente à tarde, em que fico todo sincretista, à la Reinhold, Que equilíbrio! Aliás, também as percebo mal, às minhas dores. Deve ser por causa de eu não ser todo dor. Eis o estorvo. Então elas recuam, ou eu, até que me enchem dê surpresa e espanto, vistas de um planeta, melhor. Não muitas vezes, mas não peço mais. Não é parva nenhuma, a vida. Não ser senão dor, como simplificaria as coisas! Omnidolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. No entanto hei-de falar-vos delas um dia, se me lembrar, se puder, das minhas estranhas dores, em pormenor, distinguindo entre os diferentes géneros, para maior clareza, as do entendimento, as do coração ou afectivas, as da alma (mais bonitas não há) e finalmente as do corpo propriamente dito, primeiro as internas ou latentes, depois as da superfície, começando pelo cabelo e couro cabeludo e descendo metodicamente, sem pressas, até aos adorados pés, lugar dos calos, caibras, frieiras, joanetes, unhas encravadas, pústulas, gangrena, pé boto, pé de pato, pé-de-galo, pé-de-cabra, pé chato, pé de atleta e outras bizarrias. E, aos que tiverem a gentileza de me ouvir, falarei também, na mesma ocasião, de acordo com um sistema inventado já não me lembro por quem, daqueles instantes em que, sem se estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada.

Samuel Beckett in Primeiro Amor

Publicado por dolphin.s em 01:40 PM | Comentários (72)

Que tudo se apague

Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva. Quase nada sabe da sua própria escrita. Menos ainda falar dela.
Sabe, apenas, que por instantes uma incandescência terrível cresce dentro de si, ergue-se, nomeia as coisas e o mundo, apaga sombras, revela os ossos muito antigos das palavras... de resto, mais nada.
É no escuro das casas que se debruça para o papel e escreve, como se fosse o último homem a fazê-lo.
O deserto alastra em seu redor. Está só, tudo esqueceu.
A pouco e pouco o seu olhar reinventa um rosto, devassa um coração - a noite põe-se a pulsar, sangra - e a precária escrita ensina-lhe como alcançar o definitivo silêncio.



Apenas deseja que no momento em que parar o coração -e num movimento derradeiro se confundir ao estrume da terra — tudo se apague: manuscritos, livros impressos, fotografias, cartas, bilhete de identidade, registo de nascimento, etc.
E da sua passagem nada reste, absolutamente nada. Nem mesmo a impressão digital sobre o rosto que o acaso da paixão o fez tocar.


Al Berto, in O Anjo Mudo


Publicado por dolphin.s em 10:32 AM | Comentários (2)

dezembro 01, 2003

Ser homem é saber que se não compreende

Fernando PessoaA metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arredores. Basta-nos, se pensarmos, a incompreensibilidade do universo; querer compreendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que se não compreende.
Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem que o aceite, mas que o não abra. Trazem-me a ciência, como uma faca num prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa se ela não tem senão pó?
Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade alheios conforme as exigências da emoção. Se a emoção é clara e fatal, falo, naturalmente, dos deuses e assim a enquadro numa consciência do mundo múltiplo. Se a emoção é profunda, falo, naturalmente, de Deus, e assim a engasto numa consciência una. Se a emoção é um pensamento, falo, naturalmente, do Destino, e assim a encosto à parede.
Umas vezes o próprio ritmo da frase exigirá Deus e não Deuses: outras vezes, impor-se-ão as duas sílabas de Deuses e mudo verbalmente de universo; outras vezes pesarão, ao contrário» as necessidades de uma rima íntima, um deslocamento do ritmo, um sobressalto de emoção e o politeísmo ou o monoteísmo amolda-se e prefere-se. Os Deuses são uma função do estilo.

Bernardo Soares in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 06:13 PM | Comentários (5)

Crianças e Poetas

todas as crianças são inspiradas, nada têm a invejar aos poetas, que são pura e simplesmente crianças.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em 02:28 PM | Comentários (17)

Porque criticas os que estão silenciosos

Franz Kafka, Investigações de um CãoPoder-se-ia dizer: atormentas-te por causa dos teus semelhantes, por causa do seu silêncio sobre questões cruciais. Afirmas que eles sabem mais do que reconhecem saber, mais do que consideram válido, e que esse silêncio e a razão misteriosa pela qual é, como é óbvio, tacitamente mantido, envenenam a existência e tornam-na insuportável para ti, de tal forma que tens ou de a mudar ou mesmo de a abandonar. Sim, talvez. Mas como poderias fazer isso, se és um cão e, portanto, também tens toda a sabedoria canina em cima de ti? Sendo assim, deixa de só fazeres perguntas, formula também respostas. Se assim fizeres, quem pensas que se vai opor a ti? O grande coro da espécie canina irá juntar-se ao teu latir, como se tivesse estado à espera de ti desde sempre. Então, terás clareza, verdade, confissão, terás tudo isto sempre que queiras. O tecto desta miserável existência, da qual dizes tanto mal, abrir-se-á, e todos nós, cães, ao lado uns dos outros, ascenderemos ao reino supremo da liberdade. E mesmo que não atinjamos esta meta final, mesmo que as coisas se tornem ainda piores do que anteriormente, se a verdade completa for mais insuportável do que a meia verdade, se se provar que os silenciosos é que têm razão como guardiães da existência, se a frágil esperança que ainda possuímos der lugar a um desespero total, mesmo assim, a tentativa só por si vale a pena, dado que não desejas viver da maneira a que és levado a viver. Portanto, porque criticas os que estão silenciosos quando tu próprio te manténs silencioso? É fácil de responder: porque sou um cão. Portanto, essencialmente, tão encolhido em silêncio como os outros, obstinadamente opondo resistência às minhas próprias interrogações, paralisado pelo medo.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Publicado por dolphin.s em 01:21 PM | Comentários (8)