Francis Bacon, Study after Velazquez II (1950)
Hungry, you're a dog, angry and bad-natured. Having eaten your fill, you become a carcass; you lie down like a wall, senseless. At one time a dog, at another time a carcass, how will you run with lions, or follow the saints?
rumi
- Os pobre-diabos deste mundo (e os donos deles sentam-se ao lado uns dos outros, à nossa vista) só têm uma solução: organizar-se inteligentemente. Ou morrem. Agradeço ao escritor norte-americano Jack London (aventureiro e suicida) o cão de trenó que me deu. É infalível. Quando há uma fenda (neste mundo gelado) estaca, eu aproximo-me dele para ver o que há, e ficamos os dois ali a pensar na rota e na puta da vida. A vida está com os cornos desembolados; enquanto grandes toureiros a enfrentam, na arena, eu, na fasquia, observo como ela marra. Quero aprender, com eles, a voltear bem a capa, ou a colhida é certa.
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Esta pavorosa depressão geológica encerra no círculo das suas muralhas de granito negro, à profundidade de muitas centenas de metros, um vastíssimo e deslumbrante tapete de tintas fundidas a primor em culturas variadas e prósperas. Tal é a surpresa de encontrar assim entregue à monstruosa aglomeração de rochas bravias a guarda daquela maravilhosa alfaia, cujo desenho e colorido somente se explicariam nas combinações duma arte reflectida e consumada, que não sopeamos a fantasia e, à incitação do conjunto fabuloso, para ali trasladamos instintivamente quadros mitológicos, imaginando que ali mesmo se congregaram os exércitos de titãs para ocultar o seu paládio, antes de acometer o céu.
Manuel Teixeira Gomes, in Cartas Sem Moral Nenhuma
àquele que nos trouxe tinto e paio
Be silent! be silent! for love behaves contrary to normal;
Here the meaning hides itself if you talk too much.
rumi
Envy is an abstraction because it wants to "take away from." The Evil Eye is its weapon in the psychic/physical world. Against it, then, must stand not another abstraction (such as morality) but the solidest of fleshy realities, the over-abundant power of birth, of fucking, of azure breezes. The amulet we fashion against an entire society of the Evil Eye can be no more & no less than our own life, adamantine as stone & horn, soft as sky.
Hakim Bey, in Evil Eye
A vida quotidiana era límpida: visitávamos pessoas assentes que falavam alto e bom som, que baseavam as suas certezas em princípios sadios, na sabedoria das nações, e não se dignavam distinguir-se do comum a não ser por um certo maneirismo da alma ao qual eu estava perfeitamente habituado. Apenas emitidas, as suas opiniões convenciam-me por uma evidência cristalina e simplória; se queriam justificar a sua conduta, forneciam razões tão enfadonhas que só podiam ser verdadeiras; os seus casos de consciência, complacentemente expostos, perturbavam-me menos do que me edificavam: eram falsos conflitos resolvidos de antemão, sempre os mesmos; as suas faltas, quando as reconheciam, quase não pesavam: a precipitação, certa irritação legítima, mas sem dúvida exagerada, alterara-lhes o juízo; por felicidade, haviam percebido a tempo; os erros dos ausentes, mais graves, nunca eram imperdoáveis: a maledicência era banida, entre nós, mas verificavam-se, na aflição, os defeitos de um carácter. Eu escutava, compreendia, aprovava, achava tais palavras tranquilizadoras e não estava errado, já que se destinavam a tranquilizar: nada é irremediável e, no fundo, nada se mexe, as vãs agitações da superfície não devem ocultar-nos a calma mortuária que é o nosso quinhão.
As nossas visitas despediam-se, eu ficava só, evadia-me deste cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura nos livros. Bastava-me abrir um deles para redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de uma ideia a outra tão depressa que eu largava a presa cem vezes por página, deixando-a escapulir, aturdido, perdido. Eu assistia a acontecimentos que meu avô julgaria inverosímeis e que, não obstante, possuíam a deslumbrante verdade das coisas escritas.
Jean-Paul Sartre, in As Palavras
© Michael K. Nichols
Mpassa, Gabon, Africa, 1998
National Geographic
A rehabilitator cradles a sleeping gorilla whose mother has been killed.
Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo -
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
- desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.
Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha -
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.
António Botto
Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas aposto!
mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!
Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!
António Botto
Seus novíssimos guardadores de rebanhos, vocês, a mim, não me tangem.
Eu nunca me esquecerei dos pastores que vi na infância, a quem o crepúsculo punha no contorno uma linha de sombra e, tantas vezes surdos-mudos, guardavam no vislumbre de cada olhar a ovelha que reconduziam à pedrada e amavam. Vocês, a mim, não.
Não obstante a tua atenção começar a desprender-se das sobras destes filhos da puta, não te esqueças de que elas, ainda compactas, estão em marcha.
Se caíres entre os cães, lambe-te e ajuda-te a morrer, meu doce lobo.
Isto parece um poema? Ainda não é. Poderia dar-lhe outro timbre. Mas a poesia e eu estamos de costas voltadas, só quando nos entreolhamos, algumas palavras fluem.
Sebastião Alba, in Albas
© Robert Clark
St. Elias Mountains, Yukon Territory, Canada, 1997
National Geographic, Dezembro 1998
Dei-vos cartas e rosas,
nunca me deram cartas e rosas;
apresentei-vos Beethoven,
nunca me apresentaram a ninguém;
dei-vos chocolates,
nunca me deram uma ameixa;
ao papá, dei-lhe versos,
deu-me um soco da última vez que o vi.
Ai! Vou procurar outra família, chega!
Só a poesia demora. Mas há um pacto entre nós: "sempre que estejas sóbrio e puro", disse-me ela aos 25 anos, "serei tua".
E eu não estou!
Tenho pouco dinheiro, poucos amigos - morrem com uma infidelidade quase descarada, e deixam-me cada vez mais só. E não resisto a saber como estão os outros, a ir vê-los, antes que me deixem, também.
Sebastião Alba


© Elliot Erwitt, in Dog Dogs
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Álvaro de Campos
A memória fácil do homem é apenas a sua recordação. Ela começa para cada um de nós naquilo que desde a infância lhe referenciou a vida. Mas a outra, a memória pura e que é apenas a vertigem das eras, eco de uma voz que transcende os limites do tempo, recuperando-se talvez aí, nesses pontos de referência, instala-nos todavia, porque o momento é de milagre, num passado e num futuro sem limites, reinventa-nos um acorde único, essa música milenária de estrelas e de nada, abre-nos à aparição da vida onde somos um breve ponto perdido, e a memória é assim uma pura vibração para os quatro cantos do mundo, uma pura expectativa de uma interrogação submersa. É então possível vencer a muralha concreta que nos cerca, a realidade imediata, os factos conhecidos ou relembrados, e acordar à distância ilimitada o eco dessa voz que nos transcende. Sim, toda a realidade imediata, mesmo bela, breve perde a beleza: com óculos cor-de-rosa, só se vê o mundo cor de rosa, enquanto dura a lembrança do outro, do que o não era: ao fim de pouco tempo com óculos cor-de-rosa, a cor de rosa não existe...
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Penso se tudo na vida não será a degeneração de tudo. O ser não será uma aproximação - uma véspera, ou uns arredores.
Assim como o Cristianismo não foi senão a degeneração bastarda do neoplatonismo abaixado, a judaização do helenismo pelo romano, assim nossa época, senil e cancerígena, é o desvio múltiplo de todos os grandes propósitos, confluentes ou opostos, de cuja falência surgiu a era com que faliram.
Vivemos um entreacto com orquestra.
Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas estas sociologias. Tudo isto é-me sonho, como as princesas da Babilónia, e o ocuparmo-nos da humanidade é fútil, fútil - uma arqueologia do presente.
Sumir-me-ei entre a névoa, como um estrangeiro a tudo, ilha humana desprendida do sonho do mar e navio com ser supérfluo à tona de tudo.
Bernardo Soares in Livro do Desassossego
Porque não se deve supor que, apesar de todas as minhas particularidades, aliás bem à vista, estou, seja no que for, isento das leis da minha espécie. De facto, quando penso nela, e tenho tempo e disposição e capacidade suficientes para tal, vejo que a espécie canina é, em todos os sentidos, uma instituição maravilhosa. Além de nós, cães, há todas as espécies de criaturas no mundo, criaturas miseráveis, insignificantes, mudas, criaturas que não têm outra linguagem além de gritos mecânicos: muitos de entre nós, cães, estudam essas criaturas, dando-lhes nomes, tentando ajudá-las, educá-las, elevá-las, etc. Por mim, sou absolutamente alheio a essas criaturas, excepto quando elas tentam perturbar-me, confundo-as umas com as outras, ignoro-as. Porém, uma coisa é demasiadamente óbvia para me ter escapado: como essas criaturas são pouco inclinadas, em comparação connosco, cães, à união, à confraternização, como passam umas pelas outras silenciosamente, indiferentemente e até com uma curiosa hostilidade, como são grosseiros os interesses que bastam para as ligar pouco tempo, numa união conflituosa e como, com frequência, esses interesses provocam ódio. Repare-se, pelo contrário, em nós, cães: pode dizer-se que formamos uma multidão perfeita, todos nós, apesar de sermos diferentes uns dos outros devido às modificações inumeráveis e profundas que se deram entre nós com o decurso do tempo. Todos em bando! Somos atraídos uns pelos outros, e nada pode impedir que satisfaçamos esse impulso comunal. Todas as nossas leis e todas as nossas instituições, as poucas que ainda agora conheço e as muitas que já esqueci, correspondem a essa ânsia da maior bem-aventurança de que somos capazes; o conforto caloroso de estarmos juntos. Todavia, atentem agora no outro lado do quadro. Que eu saiba, não há criaturas que vivam em tão vasta dispersão como nós, cães, mais nenhumas têm tantas distinções de classe, de raça, de ocupação, distinções demasiado numerosas para serem apreendidas assim de repente.
Franz Kafka in Investigações de um Cão
© Mathias Clum,
texto: Holly Menino
National Geographic, Outubro 2003
A kinkajou pup prowls to within feet of the photographer's lens, its face moist after drinking from a large balsa blossom filled with nectar and rainwater. "It's such a personal little creature," says Klum. "The eyes seem to be asking, What is this? Is it dangerous? This shot is like a gift from the forest. A blessing, you know? The animal comes to you, not the other way around."
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A coisa que mais me interessava no meu reino sem súbditos, em relação à qual a disposição da minha carcaça era o mais distante e fútil dos acidentes, era a supinação cerebral, o embotamento do ser e daquele resíduo de bugigangas irritantes a que se chama o não-ser, ou até, por preguiça, o mundo. Mas mesmo hoje em dia, aos vinte e cinco anos, o homem está à mercê de uma erecção, fisicamente também, uma vez por outra, é o que cabe a cada um, nem eu estava imune, se é que se pode chamar àquilo uma erecção. Ela naturalmente apercebeu-se, as mulheres cheiram um falo no ar a mais de dez quilómetros e perguntam-se: Como é que ele me conseguiu ver dali? Um tipo deixa de ser ele próprio, nessas alturas, e é doloroso não ser ele próprio, ainda mais doloroso do que quando o é, digam o que disserem. Porque, quando se é, sabe-se o que é preciso fazer para ser menos, mas, quando já não se é, é-se um tipo qualquer, irremediavelmente. Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio, com um postal de casa de vez em quando, eis o meu pensamento para esta noite.
Samuel Beckett in Primeiro Amor
Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida — e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício — a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris — só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.
E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta
O dia afoga-se, lentamente, na treva do mar.
Deitas-te, então, ao lado do morto que ainda não és. E dele se liberta um anjo mudo que vem habitar o teu corpo.
A vida, como sabes, tem o tempo da areia que se escapa por entre os dedos. Areia rápida e branca. Esvoaçante.
Agora, a ausência - a tua - é um rosto silencioso. E a tua mão está enterrada no tesouro das horas.
Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue. Nada se move dentro ou fora de ti, excepto o vento no interior dos ossos...
Corpo aéreo, azulínea música rente à claridade da pele.
Al Berto, in O Anjo Mudo
Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.
Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
Álvaro de Campos
I had shoes full of holes
When you first took me in
The path that you led
Was straight to your bed
There’s no cots to sleep in
And you showed me
Who I was running from
As if I had not known all along
Oh my old feet
They know this hard street
Stay like old friends
You’re flat on the ground
There’s no further down
There’s no cots to sleep in
So come in
Leave them outside the door
Tear off the paper
Tear off the carpet
Off the floor
And I know you’re hurting
And I can’t be there for you
And I know you’re hurting
And I can’t be there no more
I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
So go turn those sheets
Get back on the street
There’s nothing more I can bring to you
They are scared of the door
Afraid of the floor
Well, I’ll go and walk right through
And I’ll show you
Who I’ve been running from
It’s the feeling of waking
And it’s gone
I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
Oh now your feet
They know this hard street
They’re like old friends
You’re flat on the ground
There’s no further down
There’s no cots to sleep in
So come in
Leave them outside the door
Tear off the paper
Tear off the carpet
Off the floor
And I know you’re hurting
And I can’t be there for you
And I know you’re hurting
And I can’t be there no more
I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
So go turn those sheets
Get back on the street
There’s nothing more I can bring to you
They are scared of the door
Afraid of the floor
Well, I’ll go and walk right through
And I’ll show you
Who I’ve been running from
It’s the feeling of waking
And it’s gone
I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
So go turn those sheets
Get back on the street
There’s nothing more I can bring to you
They are scared of the door
Afraid of the floor
Well, I’ll go and walk right through
And I’ll show you
Who I’ve been running from
It’s the feeling of waking
And it’s gone
Tindersticks
ontem... para ti.
Como a minha vida mudou e, no entanto, como se manteve imutável! Quando recuo em pensamento e evoco o tempo em que ainda era um membro da comunidade canina, partilhando de todas as suas preocupações, o tempo em que era um cão entre cães, descubro, se me detenho a examinar mais de perto, que senti sempre uma certa divergência, um certo mal-estar, uma certa inadaptação, algo que causava em mim uma ligeira sensação de desconforto que nem as mais edificantes funções públicas conseguiam eliminar. Mais, às vezes, às vezes não, frequentemente, o mero olhar de qualquer companheiro do círculo que frequentava e de que me orgulhava, o simples facto de deparar com ele, como se o visse pela primeira vez na vida, enchia-me de nervosismom perturbava-me a tal ponto que até me sentia indefeso e com medo, chegando mesmo a desesperar. Esforçava-me por aquietar as minhas apreensões o melhor que podia e os amigos a quem as confessei ajudaram-me. Vieram tempos de maior tranquilidade. Tempos em que, é certo, não faltavam essas súbitas surpresas, mas em que as aceitava mais filosoficamente, em que se integravam na minha vida de uma maneira mais imparcial, provocando talvez uma certa melancolia e uma certa letargia, mas mesmo assim permitindo-me continuar a ser um cão bastante normal, se bem que frio, retraído, inibido e calculista. Como teria podido, aliás, sem esses intervalos de convalescença, atingir a idade de que presentemente gozo? Como teria podido alcançar esta serenidade com que agora contemplo os terrores da juventude e suporto os terrores da velhice?
Franz Kafka in Investigações de um Cão
© Sam Abell
Missouri River, Montana, 1997
National Geographic
um homem chegado à maturidade já extraiu dos livros tudo o que é possível tirar deles: a ilusão e a dúvida. Não se pode andar eternamente com a biblioteca às costas, como um caracol; a única biblioteca pessoal que um homem pode ter é a da memória - a quintessência, o resíduo.
Danilo Kiss in Enciclopédia dos Mortos, O Livro dos Reis e dos Tolos
Copiado do Rain Song... que também o encontrou noutro lado...
Manifesto da Protest Records:
exists for musicians, poets and artists
to express LOVE + LIBERTY
in the face of greed, sexism, racism, hate-crime and war
FIGHT THE GOOD FIGHT
http://www.obichinhodeconto.pt
Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.
Desce ao âmago desta cela. Debruça-te para o interior do meu vazio.
Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo — porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte.
Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado. O teu corpo fundiu no silêncio do meu.
Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo. Abandonamos a alma. Esquecemo-nos.
Nada sentimos, nenhum acto se realiza. Nenhuma alegria ou tristeza. Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.
Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos. Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade.
Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela. Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.
Al Berto, in O Anjo Mudo
Embora eu seja adulto,
não me seduzem os brinquedos eletrônicos
que a moda, irônica, me oferece.
E excogito:
Que brinquedo inventar para o adulto,
privativo dele, sangue e riso dele,
brinquedo desenganado mas eficiente?
Tenho de inventar o meu brinquedo,
mola saltando no meu íntimo,
alegria gerada por mim mesmo,
e fácil, fluida, pluma
pétala.
Sem o pedir às máquinas e aos deuses,
que cada um invente o seu brinquedo.
Carlos Drummond de Andrade, in Amar se aprende amando
Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos vêem desatentamente, e construo cm mim essa imagem áquea que, melhor que qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.
Ao escrever esta última frase, que para mim exactamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das «Errata» umas «Não-Errata», c dizer: a frase «a este incerto movimentos», na página tal, é assim mesmo, com as vozes adjectivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros eléctricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. Á roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos.
E são sombras, sombras...
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego
O mistério e o seu alarme são o tecido de tudo. Mas como o ignoramos! Estamos instalados na vida como se nós próprios não existíssemos, como se fôssemos o próprio mundo que existe, a própria realidade que é, a sua presença absoluta de estar sendo. E a simples reflexão de que é o mundo que depende de nós, de que a sua maravilha está suspensa, para nós, do nosso olhar, dá-nos vertigens. Que admira que uma pequena invenção técnica nos perturbe, nos abra a velha interrogação? Eis que depois de abarcarmos a terra, de a colocarmos na mão como a pequena bola de um deus poderoso, depois de nos confrontarmos nas nossas raças, nos nossos sonhos milenariamente solitários, depois de esgotarmos a nossa procura mútua, eis que acabamos de rasgar os espaços até lá de onde a nossa imaginação descobre o vazio que nos circunda, descobre, num arrepio, o nosso pobre globo perdido na poeirada dos astros, recorda, com uma nova evidência, a infinitude das distâncias que o unem ao universo. E uma vez mais a velha angústia de um Lucrécio, de um Pascal, em face da eternidade da noite, nos desvaira de aflição. Possivelmente, meu amigo, quando esta carta te chegar às mãos, se chegar, estarás tu já instalado em indiferença no meio de quanta nova invenção que não sabemos nem imaginamos.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Certas noites dava uma volta por Pigalle e estudava miudamente os cartazes nas casas de strip-tease. Absorvia a nudez retratada das actrizes como se absorve um plasma forte. Elas eram intérpretes de Deus. Via nesses corpos uma declaração divina, e o jogo espectacular do que chamam vícios era uma espécie de escrita manifesta, uma alusiva visibilização de Deus. E tudo isso me era dado como um caminho de conhecimento, uma complexa viabilidade. Todas as putas de Pigalle eram minhas mães; a carne fotografada, tornada viva em mim pelo enredo da comoção, era a carne--mãe, a matéria fundamental da terra. Deus instigava-me e amparava-me na descoberta e, posteriormente, na magnificação e glorificação do mundo.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta
© Elliot Erwitt, Magnum Photos
Há quanto tempo viajamos? Para quê? se já não reparamos nas paisagens.
Atravessámo-las da mesma maneira que a solidão nos obrigou a percorrer essas outras paisagens de cinza que sobrevivem na memória.
Viajamos porque é necessário enfrentarmos o desamparo dos dias, ao mesmo tempo que procuramos um lugar para descansar e nele ansiarmos por um regresso.
Um nome, um nome apenas, evocando alguém, um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente para avançar pela noite dentro, esperar a morte, ou iniciarmos o regresso...
Alugámos um quarto. Pernoitaremos aqui. Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar, existe uma ilha. Vê-la-emos ao amanhecer.
Chegámos à aldeia ao lusco-fusco. Entrámos nela por um largo onde uma rua se abre em direcção ao mar.
A enseada que serve de porto de abrigo avança pela terra adentro. Fecha-se como uma mão à tempestade. É um lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma.
Mas não há lágrimas na verdadeira tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria fundas, escuras, como as minas escavadas, ano após ano, para procurar um veio de ouro.
Lá fora, nas ruas e nos largos, uma luminosidade diáfana coalha, suavemente, nas mãos antigas das mulheres.
— Quem chega, etéreo, do outro lado da linha do horizonte? Quem toca as minhas pálpebras fechadas? Onde se ergue o silêncio dos dias queimados pela paixão? Quem está sobre a minha boca, com este ardor a sal?
Ouve-se o mar, longe daqui, e eu digo:
- Andei tempo a mais pelas ruas. Vivi nelas ao sabor do vento. Dormi em casas abandonadas, e nunca conheci ninguém que me amasse.
Encostando-se ao vidro da janela, a Helena diz:
— E se nos calássemos enquanto a memória se esvazia. Está tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, terá um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas. Não sei... está tudo ainda por acontecer.
Al Berto, in O Anjo Mudo (© Assírio & Alvim)
Anda de outro modo aquele a quem caíram botões nas cuecas.
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Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.
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Quando se entorna um copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.
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Daquilo que se fala na escuridão fica cópia em papel químico.
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Trovão: queda de baú pelas escadas do céu.
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Guerra: sucata.
•
Nas caçadas, há um convidado tímido que repsenta os coelhos.
•
O capitalista é um senhor que, quando fala connosco, nos fica com os fósforos.
•
Quando temos uma manga descosida e enfiamos o braço entre o forro e o tecido, extraviamo-nos pelo caminho dos manetas.
•
A lua é o espelhinho com que o sol se entretém de noite a inquietar os olhos da terra.
•
Três andorinhas no fio do telégrafo são o alfinete no decote da tarde.
•
O gato olha para as visitas como se a conversa lhe desse sono.
•
O parafuso é um prego penteado com risca ao meio.
•
Quando uma mulher pede salada de frutas para dois está a aperfeiçoar o pecado original.
•
O amor nasce do repentino desejo de tornar eterno o passageiro.
Ramón Gómez de La Serna
Selecção e tradução de Jorge Silva Melo, © Assírio & Alvim, Colecção Gato Maltês.
Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores
•
À morte não a ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos
•
Olharam-se de janela a janela em dois comboios que iam em direcção opostas, mas tal é a força do amor que logo os dois comboios se puseram a andar para o mesmo lado
•
Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo, a conversa em cima.
•
Nervosismo da cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açucar para o café.
•
Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.
•
Na escola, o colega da carteira atrás é quem nos faz a primeir radiografia.
•
Pôr as peúgas do avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.
•
O primeiro beijo é um roubo.
•
À tardinha, passa em voo rápido uma pomba que leva a chave para fechar o dia.
•
A estrela cadente é uma malha que cai na meia da noite.
Ramón Gómez de La Serna
Selecção e tradução de Jorge Silva Melo, © Assírio & Alvim, Colecção Gato Maltês.
No Prefácio
Porque se chamam Greguerías?
Quando encontrei o género, dei-me conta que tinha de procurar uma palavra que não fosse artificial nem demasiado utilizada, para bem as baptizar.
Meti então a mão no saco das palavras e ao acaso, que deve ser o melhor padrinho dos achados, tirei uma bola...
Era greguería, ainda no singular; mas eu plantei essa bola e tive um jardim de greguerías. Fiquei com a palavra pela sua sonoridade, mas também pelo que esconde no mistério do seu sexo.
Greguería, algaravia, gritaria confusa (Em anteriores dicionários significava a gritaria que fazem os leitões atrás da mãe). O que gritam os seres confusamente, o que gritam as coisas.
Mas o que são as Greguerías?
Frases lapidares? A greguería não sai de debaixo de nenhuma lápide mortuária. Adágios? Refrões= Nã, nã. Nem uns nem outros: nem adágios, qu são demasiado tristes e elegíacos; nem refrões que são coisa infecciosa.
Nela não deve haver sentimentalismo rabilargo nem pirismo rabicurto, nem descrição. Longe de serem calinadas ou lugares comuns.
Têm qualquer coisa de tropo, porque no tropo as palavras podem ser ditas em sentido diferente do natural (...)
São aforismos?
O aforístico é um género - já se disse - que não encolhe porque a sua brevidade o não permite.
Não. Também não é aforística a greguería; o aforismo é enfático e opinante. Não sou um aforista.
Fica-se então pela metáfora?
O material e o imaterial podem ser objectos de metáfora.
Todas as palavras e frases morrem na sua origem correcta e literal, e só atingem a glória quando passam a metáforas, porque as metáforas as tornam abstractas e embalsamadas.
A metáfora multiplica o mundo, não ligando à retórica que proíbe enlaçar as coisas só porque é impotente para o fazer -
Humor + metáfora = greguería.
Sometimes I think about Saturday's child
And all about the times when we were running wild
I've been out searching for the dolphins in the sea
Ah, but sometimes I wonder, do you ever think of me
This old world will never change the way it's been
And all the ways of war won't change it back again
I've been out searchin' for the dolphin in the sea
Ah, but sometimes I wonder, do you ever think of me
This old world will never change
Tim Buckley
I lit my purest candle close to my
Window, hoping it would catch the eye
Of any vagabond who passed it by,
And I waited in my fleeting house
Before he came I felt him drawing near;
As he neared I felt the ancient fear
That he had come to wound my door and jeer,
And I waited in my fleeting house
"Tell me stories," I called to the Hobo;
"Stories of cold," I smiled at the Hobo;
"Stories of old," I knelt to the Hobo;
And he stood before my fleeting house
"No," said the Hobo, "No more tales of time;
Don't ask me now to wash away the grime;
I can't come in 'cause it's too high a climb,"
And he walked away from my fleeting house
"Then you be damned!" I screamed to the Hobo;
"Leave me alone," I wept to the Hobo;
"Turn into stone," I knelt to the Hobo;
And he walked away from my fleeting house
Tim Buckley
Soldado E tu agora concordas com tudo aquilo que eu disser.
Beija muito delicadamente Ian nos lábios.
Olham fixamente um para o outro.
Soldado Cheiras como ela. Os mesmos cigarros.
O Soldado vira Ian com uma mão.
Com a outra aponta o revólver à cabeça de Ian.
Puxa para baixo as calças de Ian, desaperta as suas e viola-o
— com os olhos fechados e a cheirar o cabelo de Ian.
O Soldado chora convulsivamente.
O rosto de Ian revela dor mas ele permanece em silêncio.
O Soldado termina, puxa as calças para cima e enfia o revólver no ânus de Ian.
Soldado O cabrão premiu o gatilho na Col.
Como é?
Ian (Tenta responder. Não consegue.)
Soldado (Retira a arma e senta-se ao lado de Ian.)
Nunca tinhas sido fodido por um homem?
Ian (Não responde.)
Soldado Também me pareceu. Não é nada. Já vi milhares de pessoas arrumadas dentro de camiões como porcos a tentar sair da cidade. As mulheres atiravam os bebés para dentro dos camiões à espera que alguém tomasse conta deles. Batiam umas contra as outras até à morte. A parte de dentro das cabeças saía pelos olhos. Vi uma criança com a cara meia desfeita, uma rapariga que fodi com as mãos dentro dela a tentar tirar os meus líquidos de lá, um homem a morrer à fome e a comer a perna da mulher morta. A arma nasceu aqui e não vai morrer. Não faças um drama por causa do teu cu. Não penses que o teu cu galês é diferente de qualquer outro cu que eu tenha fodido. De certeza que não tens mais comida, estou com uma fome do caraças.
Ian Vais matar-me?
Soldado Sempre a tentar salvar o cu.
O Soldado agarra a cabeça de Ian com as mãos.
Põe a boca por cima de um dos olhos de Ian, suga-o, arranca-o com os dentes e come-o.
Faz o mesmo ao outro olho.
Soldado Ele comeu os olhos dela.
Coitado do cabrão.
Coitado do amor.
Coitado do cabrão de merda.
Escuro.
O som de uma chuva de Outono.
in Ruínas, Sarah Kane
tradução de Pedro Marques
Devagar, ele sentia que a imagem do rosto dela era como a linha que, devagar, desenha os montes de encontro ao céu na hora em que a última luz é o contorno das montanhas. Ela, devagar, sentia que a imagem do rosto dele era como uma montanha, o corpo gigante e seguro de uma montanha, desenhado de encontro ao céu pela última luz. Durante um momento de terra, de sol e de julho, ele e ela sentiram que eram tocados por qualquer coisa grandiosa. E cada um levou esse instante dentro de si.
José Luís Peixoto, in Antídoto
© Robert Clark
St. Elias Mountains, Yukon Territory, Canada, 1997
National Geographic, Dezembro 1998
A butterfly rests on a nunatak, a small mountain tip that pokes through glacial ice.
Vista de perto, toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luís de Sousa escrevia «o comum com singularidade». Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim para aqui sem razão, como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas que para aqui o oculta. O céu é ide um azul humidamente esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado oriental da Praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê, é assim a frase que me transmite aquele som. É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica.
De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam - só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

© Elliot Erwitt, in Dog Dogs
Há uma distância infinita entre a aparição da verdade, a imediata evidência de seja o que for, e até mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evidência pela segunda vez, já ela está alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque nós ignoramos ou esquecemos depressa a face do que há de estranho nos factos mais banais: no da vida, da morte. Assim nos surpreendemos até ao absurdo, até à incredibilidade, quando nos morre um parente, um conhecido, ou seja, de algum modo, uma fracção de nós; e só admitimos que ele tenha de facto morrido quando definitivamente se afastou para o passado, saiu do nosso mundo, deste mundo estável, harmónico, regular, e faz já parte das sombras indistintas de outrora, é, em suma, uma ficção: só entendemos a morte quando a sabemos de cor, quando ela não significa já a aniquilação de uma vida como a nossa, mas é apenas as margens desta vida e que a prolongam, o nada que nunca a ela pode aceder, a pode pôr em causa, quando ela é o contorno que lhe não altera a sua (a nossa) perenidade.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro (© Bertrand)
Soldado Fomos a uma casa mesmo à saída da cidade. Tinham desaparecido todos, A não ser um rapazinho escondido a um canto. Um outro de nós levou-o para fora. Deitou-o no chão e deu-lhe um tiro entre as pernas. Ouvi gritar na cave. Fui lá abaixo. Três homens e quatro mulheres. Chamei os outros. Seguraram nos homens enquanto eu fodia as mulheres. A mais nova tinha doze anos. Não chorou, ficou deitada ali. Virei-a ao contrário e —
Depois chorou. Obriguei-a a lamber-me todo. Fechei os olhos e pensei -
Dei um tiro na boca do pai. Os irmãos gritaram. Pendurei-os no tecto pelos testículos.
Ian Lindo.
Soldado Nunca fizeste isto?
Ian Não.
Soldado De certeza?
Ian Não me ia esquecer.
Soldado Esquecias.
Ian Não ia conseguir dormir.
in Ruínas, Sarah Kane
tradução de Pedro Marques
Jeff Buckley | 17 Novembro 1966 - 27 Maio 1997 |
O nosso tesouro? O vinho.
O nosso palácio? A taberna.
Os nossos fiéis companheiros? A sede e a embriaguez.
Ignoramos a inquietude, porque sabemos que as nossas almas
corações e taças e as nossas roupas maculadas nada têm a temer
do pó, da água e do fogo.
Contenta-te com poucos amigos neste mundo.
Não tentes dourar a simpatia que podes experimentar por alguém.
Antes de apertares a mão de um homem,
pergunta a ti mesmo se ela não irá ferir-te, um dia.
Outrora, esta ânfora era um pobre amante
que gemia sob a indiferença de uma mulher.
A asa, no colo da ânfora, era o seu braço
que rodeava o pescoço da bem-amada.
Como é vil o coração que não sabe amar,
que não pode embriagar-se de amor!
Se não amares, como poderás apreciar
a deslumbrante luz do sol e a doce claridade do luar?
Toda a minha juventude refloresce, hoje!
Vinho! Vinho! Que as suas chamas me abrasem! Vinho!
Não importa qual!... Não sou exigente.
O melhor—acreditai — achá-lo-ei amargo como a vida.
Sabes que não tens nenhum poder sobre o teu destino.
Por que te causa ansiedade a incerteza do amanhã?
Se és um sábio, goza o momento actual.
O futuro? Que te reservará?
Omar Kayyan, in Rubaiyat, Odes ao Vinho
Tradução Fernando Castro, © Editorial Estampa
Gustave Courbet - The Sleepers (1866)
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta
Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.
Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.
Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.
Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.
Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.
Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.
Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.
Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.
Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.
Ary dos Santos
© James P. Blair
Park, California, 1983
National Geographic

Caminho, as sombras da cidade vão revelando, pouco a pouco, rostos que despertam para a noite, gestos cúmplices, corpos, atrevimentos inesperados, danças, seduções...
Caminho pela cidade que se oferece à voluptuosidade do olhar. Ao fundo das ruas e das escadinhas, no âmago da noite, o Tejo - essa presença invisível que, por vezes, nos aflora os ossos com seu canto de ternas neblinas.
E vou de beco em beco, de bar em bar, de aroma em aroma, de olhar em olhar - conheço a cidade como conheço as linhas das minhas mãos.
Percorro-a, há anos, como se esperasse não sei bem o quê - como se nessa espera, um dia, acabasse por se me revelar uma outra cidade, ou um rosto se me incendiasse nos dedos, ou uma ruela apercebida ao fundo de um sonho se chamasse Travessa da Espera, ou uma paixão qualquer, ali ao Príncipe Real, me magoasse o coração...
Al Berto, in O Anjo Mudo, Lisboa (© Assírio & Alvim)
Não sei que vaga carícia, tanto mais branda quanto não é carícia, a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à compreensão. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.
Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranquilidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro subitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem continuação.
Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objectividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efectivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele.
Tudo quanto amamos ou perdemos - coisas, seres, significações - nos roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder perder tudo esplendidamente.
Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego
Ah, a realidade imediata reconforta, nem que seja a realidade de uma pedra que nos atirem. Porque uma pedra é consistente, conhece-se, sem alarme, na dureza com que nos cria as próprias mãos, nos define, sem sombras, a cabeça que nos feriu, o sangue que nos inundou a face. As pedras constroem-nos a rua que pisamos e onde podemos sentir-nos vivos dessa vida imediata que sabe o donde e o para onde, dessa vida articulada como engrenagem certa de relógio, a cujo rumor compassado pode até apetecer dormir...
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
É nesta esfera, ou seja, no direito de obrigações, que nasceu o mundo dos conceitos morais: «culpa», «consciência», «obrigação», «carácter sagrado do dever».
E não será de acrescentar que esse mundo dos conceitos morais afinal nunca mais deixou de ter um certo cheiro a sangue e a tortura?... Assim acontece até no velho Kant: o imperativo categórico cheira a crueldade... Foi nessa esfera, também, que pela primeira vez se urdiu a trama sinistra que liga — talvez inextricavelmente — «culpa e sofrimento». Perguntemos uma vez mais: em que medida pode o sofrimento constituir uma compensação das «dívidas»? Precisamente na medida em que fazer sofrer proporciona um grau elevado de satisfação, isto é, na medida em que o lesado trocava o seu prejuízo — incluindo o desprazer provocado por esse prejuízo — por um contraprazer invulgar: o de fazer sofrer...
Friedrich Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral (© Relógio d'Água)

Chicago, USA 1980 © Anton Corbijn
This is August 1980 when David was the main actor in the Elephant Man theatre play. Taken backstage after the performance in his dressing room in a matter of minutes.
Todos nós somos, por vezes, estúpidos; por vezes também, somos constrangidos a agir cegamente ou semicegamente, sem o que o mundo se deteria; e se alguém retirasse dos perigos da estupidez esta regra: "Abstém-te de julgar e de decidir cada vez que te faltam informações", ficaríamos imobilizados! Mas essa situação hoje muito generalizada, recorda outra que conhecemos há muito, no domínio intelectual. Com efeito, como o nosso saber e o nosso poder são limitados, estamos reduzidos, em todas as ciências, a enunciar juízos prematuros; mas desde que estejamos atentos, como nos ensinaram, para manter este defeito em certos limites e corrigindo-o logo que possível, isso restitui ao nosso trabalho uma certa exactidão. Nada, com efeito, se opõe à possibilidade de transferir para outros domínios esta exactidão e esta orgulhosa humildade do juízo e da acção; e eu acredito que o preceito: "Age tão bem como possas e tão mal como tem de ser, permanecendo consciente das margens de erro da tua acção!" representa já, no caso de ser seguido, metade do caminho em direcção a uma reforma verdadeiramente fecunda da nossa vida.
in Da Estupidez, Robert Musil
A public service announcement followed me home the other day,
I bade it nevermind, go away.
The shit's so thick, you could stir it with a stick,
the paper wouldn't lie, we assume the loss to mankind and gloat and jeer with it
Broadcast me a joyful noise into the times, Lord,
count your blessings, ignore the lowest fear, well you can't sandblast glisten,
Radio no, play the game, three words, first one short,
magazine, book, cinema, N - O - down,
many fears are gone, step down, step down,
watch a heel crush, ah this means war
I saw the light, it can't be right
Broadcast me a joyful noise into the times, Lord,
count your blessings, ignore the lowest fear, well you can't sandblast
It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please
It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please
A public service announcement followed me home the other day,
I bade it nevermind,
The shit's so thick, you could stir it with a stick,
the paper wouldn't lie, we assume the loss to mankind and gloat and jeer with it
Broadcast me a joyful noise into the times, Lord,
count your blessings, ignore the lowest fear, come one, what more?
It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please
It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please
R.E.M.
© Annie Griffiths Belt
Petra, Jordania , 1996
National Geographic
— Ele pareceu não entender a alusão. Voltou para mim o rosto irónico e perguntou:
— A que se referia?
— À morte — respondi.
— Sim, eu também falava da morte. Mas surpreendeu-me que você estivesse a pensar no mesmo.
— Pensamos todos no mesmo a partir de certa altura.
— Talvez — murmurou, e a voz tinha uma ponta de orgulho. — Mas nem todos de igual maneira. Sou forte. Por isso é que penso nela. Detesto a fraqueza que se remedeia na imaginação, nas hipóteses. Não creio em nada. Não desejo crer em nada.
— Pensa que vai morrer quando quiser?
Olhou-me em cheio, sorriu. Tinha uma viva e nobre cabeça de homem antigo. Parecia saber muito. Não devia acreditar em nada. Notava-se no olhar culto e virilmente triste.
— É isso. Trabalho na minha morte. Um homem verdadeiro tem direitos e deveres para com a sua morte. Sabe que estou a construir uma casa?
— Sim, já mo disse.
— Conhece o sítio? — E as palavras subentendiam ramificações de sentido, outras intenções. Mas a voz era imperturbável. Este homem morreria da sua morte, dentro dela.
— Conheço. Fica na outra costa da Ilha. Há a montanha sem árvores. Pedras e urzes. Pavoroso. Defronte fica o mar. O mar lá é bravio.
— É água cinzenta e branca. E atrás há a grande montanha por onde só andam cabras. Mas na planície, à direita, crescem as árvores onde o vento do mar vem bater. De noite tudo aquilo vibra e uiva. E a terra arenosa estende-se pelo outro lado fora. Quando há tempestade é de uma beleza diabólica. Bom para nos sentirmos sós, para saber se ainda existe o orgulho do medo.
— Compreendo que construa aí a sua casa.
— Construo a casa muito devagar. É a minha última tarefa. Forço os operários a trabalhar lentamente. Estão espantados. O capataz supõe que sou louco. Nunca custou tão caro uma casa de um só piso. Quando ficar pronta já nada mais terei a fazer. Seria estúpido procurar sobreviver-me. Sou um homem sensato. É de sangue. Meu avô correu mundo e veio morrer na cama onde nascera. Meu pai andou pelas guerras depois de me ter gerado, e lá morreu. Homens que fizeram uma tarefa e nela puseram o sentido da sua vida. E deram-se por cumpridos, e regressaram ou morreram. Sabedoria, não é?
Herberto Helder, in Os Passos em Volta, O Quarto
Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido.
Um desejo lúcido de indefinido.
Quatro vezes mudou a 'stação falsa
No falso ano, no imutável curso
Do tempo conseqüente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde,
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
Nem o último, e acabam.
Álvaro de Campos
| Por vezes a palavra representa um modo mais acertado de se calar do que o silêncio Simone de Beauvoir | © Elliot Erwitt |
Do facto de que todo o poderio e todo o governo pertenciam primitivamente ao povo, e que este transmitiu o seu direito de legislação e a totalidade de seu poder ao Estado, ao Príncipe, conclui a sua escola, antes de mais nada, que o povo tem o direito de rebelar-se contra a realeza. (...)
—Nós, porém—continuou Naphta—talvez não sejamos menos revolucionários do que o senhor. Sempre concluímos desse facto, em primeiro lugar, a supremacia; da Igreja sobre o Estado secular. Porque, se a origem não divina do Estado não estivesse escrita na sua testa, bastaria recordar precisamente o facto histórico dele derivar da vontade do povo e não, como a Igreja, de uma fundação de Deus, para demonstrar que ele é, se não uma obra do Demónio, pelo menos um produto da emergência e da imperfeição pecaminosa.
—O Estado, senhor...
—Já sei o que o senhor pensa do Estado nacional. «Acima de tudo o amor à Pátria e o infinito desejo de glória!» A frase é de Virgílio. O senhor corrige-o com o acréscimo de um pouco de individualismo liberal, e surge a Democracia. Mas isso não modifica em princípio as suas relações com o Estado. O senhor não parece chocar-se com a circunstância, de que a alma do Estado é o dinheiro. Ou tenciona, acaso, desmenti-la? A Antiguidade era capitalista, devido ao seu culto do Estado. A Idade Média cristã percebeu com toda a clareza o capitalismo imanente do Estado secular. «O dinheiro será o imperador», é uma profecia do século xi. O senhor nega que ela já se cumpriu integralmente e que a vida se tornou, em si mesma, demoníaca?
Thomas Mann, in Montanha Mágica
Na vida de todos os dias entende-se geralmente por homem estúpido alguém que é "um tanto fraco da cabeça". Mas existe uma grande variedade de anomalias intelectuais e psíquicas capazes de entravar, contrariar, desencaminhar até uma inteligência naturalmente intacta, que se chega finalmente, mais uma vez, a qualquer coisa para a qual a linguagem não dispõe ainda, uma vez mais, de outra palavra que não a de estupidez. Este termo engloba, pois, duas espécies no fundo muito diferentes: uma estupidez honesta, simples, e uma outra que, muito paradoxalmente, pode mesmo ser um sinal de inteligência. A primeira diz respeito sobretudo a uma fraqueza geral do entendimento, a segunda a uma fraqueza deste em relação a um objecto particular; é, de longe, a mais perigosa.
A estupidez honesta é um pouco lenta em compreender, não tem a "compreensão fácil", como se diz. Pobre em representações e em vocabulário, não sabe muito bem como se servir dele. Prefere o banal, cuja frequência torna a assimilação mais fácil; e quando assimila qualquer coisa, não tem muita predisposição para consentir que lha retirem logo em seguida, nem para permitir que a analisem, ou para jogos de ambiguidade em relação a ela. Tem, de resto, uma boa parte das "faces felizes" da vida! Parece sem dúvida muitas vezes confusa na sua reflexão, facilmente paralisada por qualquer nova experiência; de imediato, agarra-se ao que é acessível aos sentidos, àquilo que ela pode, de algum modo, contar pelos dedos. Numa palavra, é a brava "pura estupidez"; e se ela não se mostrasse por vezes desesperadamente crédula, confusa e incorrigível, seria um fenómeno absolutamente agradável.
in Da Estupidez, Robert Musil
Um dia, ao voltar da casa-de-banho, encontrei o meu quarto fechado à chave e as minhas coisas empilhadas em frente da porta. Isto pode dar-vos uma ideia da prisão de ventre com que eu estava na altura. Estou agora convencido que era por causa da ansiedade. Mas estaria eu realmente com prisão de ventre? Não acredito. Calma, calma. No entanto devia estar, senão como justificar aquelas longas, aquelas atrozes sessões na retrete? Nessas alturas eu nunca lia, nem nas outras; não me punha a divagar ou a meditar, limitava-me a olhar distraído para o almanaque pendurado num prego à minha frente, com a imagem a cores de um rapaz de barbas rodeado de ovelhas. Devia ser Jesus; afastava as nádegas com as duas mãos e fazia força: um! hmm! dois! hmm!, com movimentos de remador, e só com uma ideia na cabeça, voltar ao meu quarto e deitar-me de costas. Era mesmo prisão de ventre, ou não? Ou estou a confundir com diarreia? Tudo se mistura na minha cabeça, campas e núpcias e os diferentes tipos de evacuações. Com os meus parcos haveres tinham feito um montinho, no chão, encostado à porta. Parece que ainda o estou a ver, naquela espécie de recanto cheio de sombra que separava o corredor do meu quarto. Foi neste espaço estreito» resguardado apenas de três lados, que tive de mudar de roupa, ou seja, trocar o robe e a camisa de noite pelo meu fato de viagem, ou seja, sapatos, meias, calças, camisa, casaco, sobretudo e chapéu, espero não me estar a esquecer de nada. Experimentei outras portas, rodando a maçaneta e empurrando, ou puxando, antes de sair de casa, mas nenhuma cedeu. Se tivesse encontrado uma aberta acho que me tinha barricado lá dentro, só com gás é que me tiravam dali. Sentia a casa apinhada como de costume, mas não via ninguém. Imaginei-os fechados nos respectivos quartos, de ouvidos bem atentos. Depois todos a correr para as janelas, um pouco a medo, escondidos pelos cortinados, com o barulho da porta da rua a fechar-se; devia tê-la deixado aberta. E então são portas que se abrem e toda a gente sai, homens, mulheres, crianças, cada um do seu quarto, e as vozes, os suspiros, os sorrisos, as mãos, as chaves nas mãos, um alívio enorme, e depois o recapitular das precauções, se isto então aquilo, mas se aquilo então isto, uma autêntica festa, todos perceberam, p'rá mesa, p'rá mesa, a desinfestação pode esperar.
Samuel Beckett, in Primeiro Amor
tradução de Fracisco Frazão, © Ambar
«Para que uma coisa permaneça, aplica-se com ferro em brasa! Só fica na memória o que não pára de doer.» Eis um dos princípios da mais antiga psicologia (e também da mais duradoura, infelizmente). Dir-se-ia mesmo que, neste mundo, onde quer que encontremos, na vida de um homem ou de um povo, alguma coisa de solene, de grave, de secreto, debaixo de sombrias cores, é porque aí continua a agir algo do terror com que noutros tempos em toda a parte se praticava o acto de prometer, de empenhar a palavra, de jurar. Cada vez que a nossa atitude se torna «grave», é o passado que nos inspira e se agita dentro de nós, o passado mais longínquo, mais profundo e mais doloroso. Sempre que o homem entendeu que era preciso constituir memória, nunca o conseguiu fazer sem sangue, sem martírio, sem sacrifício. Os votos ou sacrifícios mais aterradores (nomeadamente o sacrifício dos primogénitos), as mutilações mais repugnantes (por exemplo, as castrações), os rituais mais cruéis que integram todos os cultos religiosos (e as religiões são todas elas, no seu fundamento mais radical, sistemas de crueldade), tudo isso tem origem nesse instinto que encontrou na dor o mais poderoso instrumento da mnemónica.
Quanto pior a «memória» dos homens, mais horrível o aspecto dos seus costumes: em particular a dureza de um código penal permite avaliar o grau de esforço aplicado para chegar ao triunfo sobre o esquecimento e para manter presentes — aos olhos dos escravos do momento, do afecto e do desejo imediato — algumas exigências primitivas do viver social.
Os Alemães, usando de terríveis meios, constituíram uma memória para poderem dominar os seus instintos plebeus básicos, brutais e grosseiros: pense-se nos antigos suplícios alemães, por exemplo, a lapidação (já a lenda falava de uma mó que esmagava a cabeça do culpado), a roda (a mais original invenção, autêntica especialidade do génio alemão no reino das punições), a empalação, o esquartejamento e o esmagamento por cavalos, a imersão do condenado em azeite ou vinho a ferver (ainda utilizada nos séculos xiv e xv), os apreciados esfolamentos, a excisão das carnes do peito, a exposição do malfeitor ao sol escaldante e às moscas depois de coberto de mel. Com o auxílio de tais procedimentos e imagens fazia-se com que se conservassem na memória cinco ou seis ideias do tipo «não quero isto», relativamente às quais ficava feita uma promessa que permitia ao indivíduo viver dentro das vantagens da sociedade... A realidade é esta: foi com o auxílio desta espécie de memória que acabou por se chegar à «razão»!... Ah! A razão, a gravidade, o domínio sobre os afectos, esta coisa sombria a que se chama «reflexão», toda esta panóplia de privilégios pomposos que o homem detém... que preço exigiram! Quanto sangue, quanto horror está na base de todas as «coisas boas»!
Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia
Al Berto, Horto de Incêndio
apresento-vos a Ramsés II, o Grande
Boa semana!! ;)
Do the laughs die when
One such as I run
And allow myself
Time for own true needs
When convincing me
That you're on my team
May not lie to me
But not mentioning
So sit back and have
An hysterical
Laugh at tiny holes
Buy and trade men's souls
X-ray mind reads plenty
Worth no more than pennies
You, they, it or what
Have been fair, I thought
May you never free
You from you or me
See the more I think
I'm afraid to blink
I don't move an inch
Slowly draining me
Hire a spy and bug me
Pimp your friends for money
Rich and growing sicker
Sell the dead ones quicker
Layne Staley, para música do álbum Above, dos Mad Season
Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar.
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la. A paisagem, tão admirável como quadro, é em geral incómoda como leito.
Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego
Eu digo: o teu cabelo. Ela está agachada junto à cama, procurando um sapato que se extraviou. Ergue a cabeça, de lado, e os olhos lentos e confusos parecem indagar desamparadamente. Estas pequenas prostitutas ficam diante de mim desprovidas quase de qualidades humanas. Possuem o corpo, máquina de algum talento, enquanto a minha solidão continuamente se exerce e cria uma zona intensa, extrema, atravessada por outras presenças, estranhas criaturas calorosas que aparecem e desaparecem, que se substituem, sem atingirem nunca uma forma definitiva. Criaturas incertas, mas verdadeiras. Expressões de uma nebulosa aspiração. Que alcançariam as palavras num dia suposto. Ou me tocariam à noite, ao pé de uma lâmpada íntima, e deste modo provocariam em mim, pela memória, densas associações, frémitos, o sentimento da alegria ou da proximidade da morte. O meu cabelo? — pergunta ela. Está ainda nua. Os joelhos, os seios, os ombros, os sombrios olhos atónitos — são realmente belos. E eu sorrio como se me desculpasse. Devo dizer: não sou puro. Talvez deva dizer: quando murmurei essa frase que se poderia confundir com um apelo ou um repentino e insustentável movimento da emoção («o teu cabelo»), não pensava, não sentia nada. Eis a verdade: sou uma criatura devastada pelo egoísmo.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Duas Pessoas (© Assírio & Alvim)
Chove. A fúria do vento não cessa. Batida pela sua vergasta, a chuva esparrinha na vidraça, varre a rua de lembranças concretas. E uma memória antiga, pesada de augúrio, levanta-se-me no seu clamor, memória escura, anterior à vida. Assim o que relembro não tem face nem nome, é a forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição. Num longe imaginado, passam os ventos em linha, massas de névoa deslizam sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa. O que é certo e imediato, o que me vem à boca e tem nome, o que é exacto e mensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio, porque a voz obscura que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação. Nesta hora absoluta, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo...
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Somos memórias de lobos que rasgam a pele They awake for flesh Full Moon Madness, Somos memórias de lobos que rasgam a pele They awake for flesh Full Moon Madness, Irreverence was cast out from the sky They awake for flesh Irreverence was cast out from the sky
Moonspell, Full Moon Madness |
Foi esta noite...
Na realidade, que é a vida, se lhe tirardes os prazeres? Merece, então, o nome de vida? Aplaudi-me, meus amigos. Ah! eu sabia que éreis demasiadamente loucos, isto é, demasiadamente sábios, para não serdes da minha opinião... Os próprios estóicos amam o prazer; não o saberiam odiar. Bem dissimulam, bem tentam difamar a volúpia aos olhos do vulgo, cobrindo-a das injúrias mais atrozes, mas isso não passa de simples esgares, pois tratam de afastar os outros, para eles próprios a poderem gozar com maior liberdade. Mas, em nome de todos os deuses, dizei-me, então, qual é o instante da vida que não é triste, aborrecido, enfadonho, insípido, insuportável, se não for misturado com o prazer, isto é, com a loucura. Podia contentar-me com o testemunho de Sófocles, esse grande poeta, jamais suficientemente louvado, e que de mim fez um tão belo elogio, quando disse: A vida mais agradável é a que se vive sem espécie alguma de prudência. Mas examinemos o caso pormenorizadamente.
Antes de mais nada, quem negará a verdade, de que a infância, essa primeira idade do homem, é a mais alegre e a mais encantadora de todas as idades? Amam as crianças, beijam-nas, abraçam-nas, acarinham-nas, tomam cuidado com elas; o próprio inimigo não poderá deixar de as socorrer. Como explicar tudo isto? É que, desde o instante em que nascem, a natureza, essa mãe prudente, espalha à sua volta uma atmosfera de loucura, que encanta os que as criam, os liberta das suas mágoas, e atrai sobre estes pequeninos seres a generosidade e a protecção que necessitam.
E a idade que sucede à infância, que encantos não tem aos olhos das gentes? Com que ardor se interessam por favorecê-la, ajudá-la, socorrê-la! Ora, quem dá, a essa idade encantadora, as graças que a fazem tão querida? Quem lhas dá, senão eu? Afasto dos jovens a sabedoria importuna, e espalho sobre eles o encanto sedutor dos prazeres. E, para que vos não convenceis que estou a falar um tanto no ar, considerai os homens, depois de terem atingido todo o seu crescimento, e quando a experiência das lições sofridas começou a incutir-lhes certa prudência. Assim que a beleza começa a fanar-se, a alegria acaba, as forças diminuem, as graças passam. À medida que se vão afastando de mim, a vida abandona-os, cada vez mais, até que, por último, chegam a essa velhice tão triste que é encargo para o próprio e para os outros.
E, na verdade, não há mortal algum que possa suportar essa velhice, se as misérias da humanidade não me fizessem, uma vez mais, ir em seu auxílio. Tal como os deuses dos antigos poemas, que, quando os mortais estão prestes a perder a vida, os favorecem com qualquer metamorfose, eu também modifico os velhos que estão à beira do túmulo, e arrasto-os, tanto quanto me é possível, para a feliz idade da infância.
Se há alguém que queira saber por que processos opero esta metamorfose, não faço disso mistério algum. Levo-os à nascente do Letes, que é nas Ilhas Afortunadas (porque nos Infernos corre só um pequeno afluente deste rio); aí, faço-os beber, a largos tragos, o esquecimento de todas as misérias desta vida. As suas inquietações e as suas tristezas dissipam-se, a pouco e pouco, e assim rejuvenescem.
Mas, dir-me-eis, talvez, que pode acontecer que eles se excedam, que façam asneiras. Sem dúvida. E é a isso que se chama recair no estado infantil. Fazer disparates, fazer tolices, não é voltar de novo à infância?
Não é pela falta de razão que esta idade nos diverte e nos encanta? Na realidade, uma criança que fosse tão prudente como um homem já feito, não seria detestada por todos, não seria em toda a parte tida como um monstro? O provérbio tem razão, quando diz: Detesto nas crianças a seriedade prematura.
Quem poderia suportar a convivência de um velho que tivesse tanta presença de espírito como reflexão e experiência? Sou eu, portanto, que concedo ao velho o delírio que o faz disparatar; mas, ao mesmo tempo, é um delírio feliz que o afasta para longe de todas as inquietações, de todas as tristezas que atormentam o homem prudente. Agradável conviva, ele ainda sabe, com um copo na mão, festejar os seus amigos. Vive com alegria e mal sente o fardo da existência, que os mais robustos com dificuldade suportam.
in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão
Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.
José Luís Peixoto, in Antídoto, Dentro e Sobre os Homens
Vincent Van Gogh, The Starry Night, 1889
Bom fim-de-semana! :)
Mas então como é que veio ao mundo essa outra «coisa sombria» que é a consciência da culpa, tudo aquilo a que se chama «má consciência»?... (...)Será que esses senhores que até hoje têm vindo a ocupar-se da genealogia da moral já alguma vez imaginaram que, por exemplo, um conceito tão importante no âmbito da moral, como é o de «culpa» [Schuld], deve a sua proveniência a um conceito intimamente ligado à vida material que é o de «dívidas» [Schulden]? Ou que a noção de castigo, enquanto compensação, se desenvolveu totalmente à margem de qualquer pressuposto relativo à liberdade ou à não-liberdade da vontade?...
Durante a maior parte da história do homem, os castigos não eram aplicados por se considerar que o malfeitor fosse responsável pelo seu acto, ou seja, não pressupunham a ideia de que só se castiga alguém que é culpado. Pelo contrário, à semelhança dos castigos que ainda hoje os pais aplicam aos filhos, punia-se alguém por cólera provocada por um prejuízo sofrido, cólera essa que era descarregada sobre o agente do prejuízo..., mas colocando-a ao mesmo tempo dentro de limites, modificando-a por intermédio da ideia de que qualquer prejuízo tem algures um equivalente, de modo que pode sempre ser compensado, nem que seja através de uma dor infligida ao autor do prejuízo. E onde será que essa ideia de equivalência entre um prejuízo e uma dor — ideia tão antiga, tão fundamente enraizada, talvez ainda hoje inextirpável — foi buscar o poder que exerce? A resposta já está indicada: foi buscá-lo à relação contratual entre o credor e o devedor, tão velha como a existência de «pessoas jurídicas» e que por seu turno remete novamente para essas formas fundamentais que são a compra, a venda, a troca, em suma, as transacções.
Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral
Não existe um único pensamento importante que a estupidez não saiba imediatamente utilizar; pode mover-se em todas as direcções e assumir todas as aparências da verdade. A verdade, essa, só tem uma aparência, um único caminho: está sempre prejudicada à partida." A estupidez de que se trata aqui não é uma doença mental; nem por isso deixa de ser a mais perigosa das doenças de espírito, pois ameaça a própria vida.
in Da Estupidez, Robert Musil
Além da terra, além do céu
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastros dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fudamental essencial
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar
o verbo pluriamar,
razão de ser e viver.
Carlos Drummond de Andrade
Não descuido a minha obra. Deve-se velar por aquilo que conseguiu ascender, entre riscos e ameaças, às condições da realidade. Mas serão os meus poemas uma realidade concreta no meio das paisagens interiores e exteriores? Não possuo um só dos papéis que enchi; interessa-me a forma acabada das minhas experiências, e suas significações, mantida numa espécie de memória tensa e límpida. Os papéis, esses, estão em França (Paris ou Marselha), na Holanda, na África do Sul. Encontram-se nas mãos de conhecidos, desconhecidos, amigos, inimigos — e cada qual saberá usar deles de modo particular e, suponho, exemplar. Tirarão daí indeclináveis razões para a moralidade dos seus pensamentos com relação a mim e a eles mesmos. Não, não sei de cor as pequenas composições de palavras. Retenho a fantasia, a objectividade delas — ponto onde me apoio para saber que sou sólido, e tenho (ou sou) uma obra.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta
Pode narrar-se o tempo, o tempo em si mesmo, como tal e em si? Não, na verdade seria uma empresa louca. Uma narração onde se dissesse: «O tempo passava, fluía, o tempo seguia o seu curso», e assim por diante, nunca um homem de espírito são poderia considerá-la história. Seria mais ou menos como se alguém tivesse a ideia barroca de manter durante uma hora uma e a mesma nota, ou um só acorde e quisesse que isso fosse considerado música. Porque a narração parece-se com a música no sentido de que ela «realiza» o tempo, «enche-o convenientemente», «divide-o» e faz que «se passe qualquer coisa nele», para citarmos, com a melancólica piedade que se devota às palavras dos defuntos, algumas expressões habituais do saudoso Joachim, palavras que foram proferidas há muito; nem sabemos se o leitor dá claramente conta de quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narração, assim como é o elemento da vida: está-lhe inseparavelmente ligado, como aos corpos no espaço. O tempo é também o elemento da música, a qual mede e divide o tempo, tornando-o, simultaneamente, interessante e precioso, no que, como já foi dito, se assemelha à narração que, ela também (e de maneira muito diferente da presença imediata e brilhante da obra plástica, que só está ligada ao tempo como corpo), não é mais do que uma sucessão, é incapaz de apresentar-se senão como uma fluência, e tem necessidade de recorrer ao tempo ainda que tente ser inteiramente presente num dado momento.
Thomas Mann, in Montanha Mágica
Lucien Freud - Naked girl asleep (1968)
A morte espectacular numa acção de heroísmo pode inventar o espectáculo ainda quando o não houver. Pode inventá-lo na memória da união fácil, que perdura, com o mundo habitado. Todo o homem morre só; mas nem todos o sabem. Recuperar em cada acto a solidão original de uma morte verdadeira é o profundo acto humano de quem se não quiser perder, de quem deseja eliminar essa zona que se interpõe entre a mentira de tudo e a verdade iluminada de nós próprios, essa zona que é o baldio para os outros e com a qual se constrói a «psicologia das multidões»...
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Ficou já dito que a tirania não é república, pois não passa de uma enorme família composta por um amo e muitos escravos. «Vir bone servorurm nulla est unquam civitas — diz o velho poeta — Uma caterva de escravos não é uma cidade»; ou seja, enquanto esse monstro for vivo, não somos membros de qualquer república, não passaremos de coisas e de instrumentos nas mãos dele, a que ele dá a utilização que mais lhe apraz. «Servi tua est fortuna, ratio ad te nihil—afirma outro—A tua condição é a de um escravo e não te cabe teres razão», e não devemos pensar que é possível continuarmos muito tempo a viver nesta condição de escravos sem degenerarmos e descambarmos no modo de viver próprio e natural desta condição: as nossas almas acabarão por ser aviltadas, à semelhança da nossa condição e, habituados a viver como escravos, passaremos a não querer outra vida que não seja a da servidão. «Etiam fera animalia, si clausa teneas, virtutis obliviscuntur — diz Tácito — Os mais ferozes animais perdem a fereza depois de um longo cativeiro». E o cavaleiro Francis Bacon diz que a bênção de Issacar e de Judá não pode descer sobre um povo que se verga como os burros ao peso da carga (...)
Edward Sexby, in Matar não é Crime (© Antígona)
looking out the door i see the rain fall upon the funeral mourners
parading in a wake of sad relations as their shoes fill up with water
and maybe i'm too young to keep good love from going wrong
but tonight you're on my mind so you never know
broken down and hungry for your love with no way to feed it
where are you tonight, child you know how much i need it
too young to hold on and too old to just break free and run
sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
and much too blind to see the damage he's done
sometimes a man must awake to find that really, he has no-one
so i'll wait for you... and i'll burn
will i ever see your sweet return
oh will i ever learn
oh lover, you should've come over
'cause it's not too late
lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
my body turns and yearns for a sleep that won't ever come
it's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
it's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
it's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
it's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
well maybe i'm just too young
to keep good love from going wrong
oh... lover, you should've come over
'cause it's not too late
well i feel too young to hold on
and i'm much too old to break free and run
too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
sweet lover, you should've come over
oh, love well i'm waiting for you
lover, you should've come over
cause it's not too late
Jeff Buckley, Grace
Foi em 1978, no Verão, que te conheci. Nesse ano, num dos poemas de «doze moradas de silêncio» citei Rilke: «Uma
só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém - é a isto que é preciso chegar.»
Depois, a paisagem onde nos encontrámos desapareceu, a pouco e pouco, num desfocado adeus. Eu escrevia, fechado num quarto de pensão, e tu retiravas-te do meu quotidiano. Morrias longe de mim.
O corpo que hoje regressa a Milfontes já não é o corpo esplêndido que conheceste. Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a segunda.)
O olhar embaciou-se para o que me rodeia. Hoje, sem ti, já não consigo pressentir a sombra magnífica da noite sobre o rio. Nada se acende em mim ao escrever-te esta carta.
Só a foz do rio parece guardar a memória duma fotografia há muito rasgada. O vento, esse, persegue a melancolia dos passos pelas dunas.
É possível que os verões ainda sejam o que eram... com os corpos estendidos ao sol, e a oferenda de um sorriso malicioso a confundir-se com o marulhar das águas.
Mas ninguém possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e, sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo nomear nada. Não me lembro sequer de um nome que resuma o movimento desastroso dos dias.
O teu rosto deixou de se acender na ilusão de te possuir mais uma noite.
Nada evoca esse tempo de frémitos de asas sobre a pele. Nenhum rumor do rio sobe até mim. Nenhuma ferida ficou por sarar.
Deixei que os ventos e as chuvas apagassem o desejo no rastro dos répteis incandescentes. Sinto-me como a haste quebrada da urze ao abandono nas areias varridas pelo oceano.
Contemplo as dunas, o casario contra a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma lâmina sob a lua - e a ausência alastra em mim, cortante.
Sento-me onde, dantes, me sentava contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo de suas próprias sombras. É um movimento invisível através de territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se escondem receios antigos e desilusões.
Mantenho-me imóvel, tacteio teu rosto diluído na salina claridade do entardecer.
Adormeço ou começo a subir o rio para fugir à imensa noite do mar.
...
Escreve-me, peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de mim.
...
Vou prosseguir viagem assim que o dia despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao coração.
...
Al Berto, in O Anjo Mudo (© Assírio & Alvim)
Dentro e sobre os homens, somos o medo. São as nossas mãos que determinam a fúria das águas, que fazem marchar exércitos, que plantam cardos debaixo da pele. Sabemos que nos conheces. Em algum instante da tua vida, enchemos-te e envolvemos-te com a imagem da nossa voz, a imagem do nosso significado, o silêncio e as palavras. Num instante que escolhermos podemos voltar a encher-te e a cobrir-te. Sabemos que conheces o frio e a solidão à margem das estradas quando a noite é tão escura, quando a lua morreu, quando existe um deserto de negro à margem das estradas. Olha para dentro de ti e encontrar-nos-ás. Olha para o céu, depois das nuvens, e encontrar-nos-ás. Nunca poderás esconder-te de nós. Esse é o preço por caminhares sobre a terra onde, um dia, entrarás para sempre. As últimas pás de terra a cobrirem-te serão as nossas pálpebras a fecharem-se. Só então poderás descansar.
José Luís Peixoto, in Antídoto,
Na fé em quê? No amor a quê? Na esperança de quê?... Estes fracos, não tenhamos dúvidas, também querem chegar um dia a ser eles os fortes. Um dia, dizem, há-de chegar o seu «reino»... Repita-se, o «reino de Deus», como eles tão simplesmente dizem..., tão humildes que são, em tudo! Só para chegar a viver isso já é preciso viver muito, viver para lá da morte... É mesmo necessário que disponham da vida eterna para — eternamente e no «reino de Deus» — poderem ressarcir-se desta passagem pelo mundo, vivida «na fé, no amor, na esperança». Mas ressarcir-se de quê e por intermédio de quê?... Quer-me parecer que Dante cometeu um erro grosseiro ao colocar sobre a porta do seu Inferno, com uma ingenuidade que mete medo, aquela parte da inscrição: «... também eu sou criação do eterno amor.»* Com melhores razões poderia estar sobre a porta de entrada para o paraíso cristão e para a respectiva «beatitude eterna» uma inscrição dizendo: «também eu sou criação do ódio eterno...»
* Dante, A Divina Comédia, «Inferno» III, 5-6
Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral
Tudo me cansa, mesmo o que me não cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.
Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.
Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.
Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? e quem é triste não pode esforçar-se.
Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me.
Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.
Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.
Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro.
A minha vida é como se me batessem com ela.
Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego
Costumo associar, com ou sem razão, o meu casamento à morte do meu pai, no tempo. Que haja outras ligações, a outros níveis, entre estas duas coisas, é possível. Já me custa bastante dizer aquilo que eu acho que sei. Fui visitar, não há muito tempo, a campa do meu pai, disso tenho a certeza, e anotei a data da sua morte, apenas a da morte, porque a do nascimento não tinha para mim qualquer interesse, nesse dia. Parti de manhã e à noite estava de volta, depois de comer qualquer coisa no cemitério. Mas uns dias mais tarde, quando quis saber com que idade morreu, tive de voltar à campa, para anotar a data do seu nascimento. Apontei então estas duas datas-limite num pedaço de papel, que agora trago comigo. Estou portanto em condições de afirmar que eu devia andar pelos vinte e cinco anos quando me casei. Porque a data do meu próprio nascimento, repito, do meu próprio nascimento, nunca a esqueci, nunca foi preciso anotá-la, continua-me gravada na memória, pelo menos o ano, em algarismos que a vida dificilmente apagará. Até o próprio dia me ocorre, quando faço um esforço, e comemoro-o muitas vezes, à minha maneira, não direi sempre que me ocorre, porque me ocorre vezes de mais, mas muitas vezes.
Pessoalmente não tenho nada contra os cemitérios, até gosto de lá ir arejar, se calhar mais do que a outros sítios, quando arejar é preciso. O cheiro dos cadáveres, que distingo nitidamente por baixo do da erva e do húmus, não me é desagradável, talvez um pouco adocicado de mais, um pouco inebriante, mas mil vezes preferível ao dos vivos, dos seus pés, dentes, sovacos, cus, prepúcios peganhentos e óvulos frustrados. E, quando os restos do meu pai colaboram, ainda que modestamente, quase que me vêm as lágrimas aos olhos. Bem podem lavar-se, os vivos, bem podem perfumar-se! Cheiram mal. Sim, como sítio para passear, quando passear é preciso, deixem-me a mim os cemitérios e fiquem — vocês — com os vossos jardins públicos e paisagens campestres. A minha sanduíche, a minha banana, sabem-me melhor sentado numa campa, e quando chega a altura de mijar, e chega várias vezes, tenho por onde escolher, Ou então vagueio, de mãos atrás das costas, por entre as lápides, deitadas, inclinadas ou direitas, a colher inscrições. Nunca me desiludiram, as inscrições, há sempre três ou quatro tio engraçadas que tenho de me agarrar à cruz, ou à esteia, ou ao anjo, para não cair. Já compus a minha há muito tempo e ainda estou satisfeito com ela, razoavelmente satisfeito. As outras coisas que escrevi, mal secam, repugnam-me logo, mas continuo contente com o meu epitáfio, Há infelizmente poucas hipóteses de que algum dia se erga acima do crânio que o concebeu, a menos que o Estado tome o assunto em mãos. Mas para ser exumado têm primeiro de me encontrar, e temo que esses senhores tenham tanta dificuldade em encontrar-me morto como vivo. Portanto, apresso-me a registá-lo aqui e agora, antes que seja tarde de mais;
Quem aqui jaz daqui tanto fugiu
Que foi só agora que daí livre se viu.
Samuel Beckett, in Primeiro Amor
tradução de Fracisco Frazão, © Ambar
Toda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final. A máscara que nos defende não tanto contra os outros como contra nós próprios (porque se nós a montamos não é tanto para que os outros nos identifiquem por ela, como para que nós acabemos de por ela nos identificarmos), essa máscara que é de comédia, ainda quando de tragédia, é bem vã nos instantes derradeiros de qualquer situação, porque então os olhos que nos vêem não nos vêem de fora mas de dentro. Ah, estar só é terrível. E difícil: a própria solidão do espírito inventa a memória da fraternidade corpórea, relembra a presença dos outros, as opiniões dos outros, o seu olhar que nos fita e nos espera do lado de lá da provação. Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta e perdida. Pascal: On mourra seul... Sim. Mas a mentira conhece todos os caminhos, mesmo os que nós ignoramos.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Joachim caminhava a seu lado, com a cabeça baixa. Tinha os olhos fixos no solo, como se contemplasse a terra. Era muito esquisito: ali andava ele, correcto e asseado, saudando os transeuntes com a sua maneira cavalheiresca, cuidava do exterior e da sua bienséance como sempre—e pertencia à terra. Meu Deus, todos nós lhe pertenceremos, mais cedo ou mais tarde; mais amargo e incompreensível para um Hans Castorp que sabe, e que caminha ao lado dele, do que para o próprio homem da terra, cujo saber reticente e discreto e, em suma, de uma natureza muito académica, e dele não tem, no fundo, mais do que uma realidade muito enfraquecida e parece dizer-lhe menos respeito a ele do que aos outros: com efeito, a nossa morte é um assunto para os sobreviventes, mais do que para nós mesmos. Quer a conheçamos, quer não, conserva pleno valor para a alma aquela sentença de um sábio espirituoso que disse: enquanto existimos, não existe a morte, e quando ela existe, nós já deixámos de existir; por conseguinte, entre nós e a morte, não há nenhuma relação real; é uma coisa que para nós não tem interesse de modo algum e que, quando muito, diz respeito ao Mundo e à Natureza; motivo por que todas as criaturas a contemplam com grande calma, com indiferença, uma irresponsabilidade e inocência egoístas.
Thomas Mann, in Montanha Mágica
uma prenda no correio...
(desconheço a autoria)
verdade reposta: 'jardin des tuileriers, paris 1951' de Izis
obrigada margarete :)
São de morte estes corvos ao voarem
De encontro aos negros muros, ao telhado,
São de morte as mulheres ao amarem
Como quem preparasse um refogado.
De morte as ruas sujas e mesquinhas
Com nomes tão sonantes e tão fortes,
O olival, que abraça o mar, as vinhas,
E até o próprio sol, morte entre as mortes.
De morte o inspector que quer levar
Para análise a dose... "ilegal".
Na varanda os jacintos a espreitar
E o mestre escola lendo o seu jornal.
Da guarda o pelotão no forte branco,
Domingo toca a banda no coreto,
Com "dracmas trinta" abri conta no banco,
Fui hoje lá buscar a caderneta.
Vais pelo molhe e pensas devagar:
"Será que sou?" E dizes: "Não, não és".
Chega o barco, a bandeira a tremular.
Vem decerto o prefeito no convés.
Kariotákis
tradução de Manuel Resende para a revista DiVersos nº 1
o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas
Estou sempre de luto e tenho a idade desta ilha. Agora olhe para as minhas mãos. Parecem limpas, não é? E no entanto já mataram, por paixão e por vingança.
Por paixão porque aquilo que não me pode pertencer não pertencerá a mais ninguém; e por vingança porque às vezes o sangue limpa a dora da alma, e a honra...
Sou dona do dia e da noite, e deste mar que nos há-de levar.
Vá! Prove estas uvas envenenadas.
Foi com elas que a minha avó acabou com o marido, e a minha mãe matou o meu pai, e eu enveneno os homens que me querem possuir.
Sou dona do dia e da noite, e do veneno destas uvas. Ninguém me pode possuir.
Al Berto, in O Anjo Mudo