novembro 30, 2003

Loucura... Desespero e Impotência


Francis Bacon - Study after Velazquez II (1950)

Francis Bacon, Study after Velazquez II (1950)


Publicado por dolphin.s em 07:30 PM | Comentários (13)

you're a dog

Hungry, you're a dog, angry and bad-natured. Having eaten your fill, you become a carcass; you lie down like a wall, senseless. At one time a dog, at another time a carcass, how will you run with lions, or follow the saints?


rumi

Publicado por jm em 06:51 PM | Comentários (0)

Arena


Sebastião Alba- De Pessoa, há uma fotografia, do ano da sua morte, que me vem perseguindo. Matar-se já não é um gesto irrepetível, individual (dirigido contra si próprio). O suicídio começa a ser colectivo, nosso contemporâneo.
- Os pobre-diabos deste mundo (e os donos deles sentam-se ao lado uns dos outros, à nossa vista) só têm uma solução: organizar-se inteligentemente. Ou morrem. Agradeço ao escritor norte-americano Jack London (aventureiro e suicida) o cão de trenó que me deu. É infalível. Quando há uma fenda (neste mundo gelado) estaca, eu aproximo-me dele para ver o que há, e ficamos os dois ali a pensar na rota e na puta da vida.
A vida está com os cornos desembolados; enquanto grandes toureiros a enfrentam, na arena, eu, na fasquia, observo como ela marra. Quero aprender, com eles, a voltear bem a capa, ou a colhida é certa.


Sebastião Alba, in Albas

Publicado por dolphin.s em 06:23 PM | Comentários (19)

da Madeira

Manuel Teixeira GomesEsta pavorosa depressão geológica encerra no círculo das suas muralhas de granito negro, à profundidade de muitas centenas de metros, um vastíssimo e deslumbrante tapete de tintas fundidas a primor em culturas variadas e prósperas. Tal é a surpresa de encontrar assim entregue à monstruosa aglomeração de rochas bravias a guarda daquela maravilhosa alfaia, cujo desenho e colorido somente se explicariam nas combinações duma arte reflectida e consumada, que não sopeamos a fantasia e, à incitação do conjunto fabuloso, para ali trasladamos instintivamente quadros mitológicos, imaginando que ali mesmo se congregaram os exércitos de titãs para ocultar o seu paládio, antes de acometer o céu.



Manuel Teixeira Gomes, in Cartas Sem Moral Nenhuma

àquele que nos trouxe tinto e paio

Publicado por jm em 05:47 PM | Comentários (5)

Be silent!

Be silent! be silent! for love behaves contrary to normal;
Here the meaning hides itself if you talk too much.


rumi

Publicado por jm em 04:17 PM | Comentários (23)

Envy is an abstraction

hakim beyEnvy is an abstraction because it wants to "take away from." The Evil Eye is its weapon in the psychic/physical world. Against it, then, must stand not another abstraction (such as morality) but the solidest of fleshy realities, the over-abundant power of birth, of fucking, of azure breezes. The amulet we fashion against an entire society of the Evil Eye can be no more & no less than our own life, adamantine as stone & horn, soft as sky.


Hakim Bey, in Evil Eye

Publicado por jm em 02:56 PM | Comentários (3)

Os Livros

Jean-Paul SartreA vida quotidiana era límpida: visitávamos pessoas assentes que falavam alto e bom som, que baseavam as suas certezas em princípios sadios, na sabedoria das nações, e não se dignavam distinguir-se do comum a não ser por um certo maneirismo da alma ao qual eu estava perfeitamente habituado. Apenas emitidas, as suas opiniões convenciam-me por uma evidência cristalina e simplória; se queriam justificar a sua conduta, forneciam razões tão enfadonhas que só podiam ser verdadeiras; os seus casos de consciência, complacentemente expostos, perturbavam-me menos do que me edificavam: eram falsos conflitos resolvidos de antemão, sempre os mesmos; as suas faltas, quando as reconheciam, quase não pesavam: a precipitação, certa irritação legítima, mas sem dúvida exagerada, alterara-lhes o juízo; por felicidade, haviam percebido a tempo; os erros dos ausentes, mais graves, nunca eram imperdoáveis: a maledicência era banida, entre nós, mas verificavam-se, na aflição, os defeitos de um carácter. Eu escutava, compreendia, aprovava, achava tais palavras tranquilizadoras e não estava errado, já que se destinavam a tranquilizar: nada é irremediável e, no fundo, nada se mexe, as vãs agitações da superfície não devem ocultar-nos a calma mortuária que é o nosso quinhão.
As nossas visitas despediam-se, eu ficava só, evadia-me deste cemitério banal, ia juntar-me à vida, à loucura nos livros. Bastava-me abrir um deles para redescobrir esse pensamento inumano, inquieto, cujas pompas e trevas ultrapassavam o meu entendimento, que saltava de uma ideia a outra tão depressa que eu largava a presa cem vezes por página, deixando-a escapulir, aturdido, perdido. Eu assistia a acontecimentos que meu avô julgaria inverosímeis e que, não obstante, possuíam a deslumbrante verdade das coisas escritas.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras

Publicado por dolphin.s em 02:12 PM | Comentários (0)

Confiar...


National Geographic - Michael K. Nichols - Lowland Gorilla in Lap

© Michael K. Nichols
Mpassa, Gabon, Africa, 1998
National Geographic


A rehabilitator cradles a sleeping gorilla whose mother has been killed.


Publicado por dolphin.s em 01:30 AM | Comentários (4)

novembro 29, 2003

Se duvidas que teu corpo

António BottoSe duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo -
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
- desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha -
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.


António Botto

Publicado por dolphin.s em 11:11 PM | Comentários (20)

em memória

Nunca te foram ao cu
Nem nas perninhas aposto!
mas um homem como tu,
lavadinho, todo nu, gosto!

Sem ter pentelho nenhum,
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
Mas... gosto mais de fedelhos.
Vou-lhes ao cu
Dou-lhes conselhos,
Enfim... gosto!

António Botto

Publicado por jm em 10:20 PM | Comentários (4)

Pastoral

Seus novíssimos guardadores de rebanhos, vocês, a mim, não me tangem.
Eu nunca me esquecerei dos pastores que vi na infância, a quem o crepúsculo punha no contorno uma linha de sombra e, tantas vezes surdos-mudos, guardavam no vislumbre de cada olhar a ovelha que reconduziam à pedrada e amavam. Vocês, a mim, não.

Não obstante a tua atenção começar a desprender-se das sobras destes filhos da puta, não te esqueças de que elas, ainda compactas, estão em marcha.

Se caíres entre os cães, lambe-te e ajuda-te a morrer, meu doce lobo.
Isto parece um poema? Ainda não é. Poderia dar-lhe outro timbre. Mas a poesia e eu estamos de costas voltadas, só quando nos entreolhamos, algumas palavras fluem.


Sebastião Alba, in Albas

Publicado por dolphin.s em 07:00 PM | Comentários (1)

Forget-me-not



National Geographic - Robert Clark

© Robert Clark
St. Elias Mountains, Yukon Territory, Canada, 1997
National Geographic, Dezembro 1998




Publicado por dolphin.s em 05:20 PM | Comentários (8)

Sóbrio e Puro

Sebastião AlbaDei-vos cartas e rosas,
nunca me deram cartas e rosas;
apresentei-vos Beethoven,
nunca me apresentaram a ninguém;
dei-vos chocolates,
nunca me deram uma ameixa;
ao papá, dei-lhe versos,
deu-me um soco da última vez que o vi.
Ai! Vou procurar outra família, chega!
Só a poesia demora. Mas há um pacto entre nós: "sempre que estejas sóbrio e puro", disse-me ela aos 25 anos, "serei tua".
E eu não estou!
Tenho pouco dinheiro, poucos amigos - morrem com uma infidelidade quase descarada, e deixam-me cada vez mais só. E não resisto a saber como estão os outros, a ir vê-los, antes que me deixem, também.


Sebastião Alba

Publicado por dolphin.s em 02:53 PM | Comentários (8)

novembro 28, 2003

Fechar os olhos para o mundo


Fechar os olhos


Fechar os olhos


© Elliot Erwitt, in Dog Dogs

Publicado por dolphin.s em 07:10 PM | Comentários (11)

Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.


Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 01:53 PM | Comentários (12)

Memória e Recordação

Vergílio FerreiraA memória fácil do homem é apenas a sua recordação. Ela começa para cada um de nós naquilo que desde a infância lhe referenciou a vida. Mas a outra, a memória pura e que é apenas a vertigem das eras, eco de uma voz que transcende os limites do tempo, recuperando-se talvez aí, nesses pontos de referência, instala-nos todavia, porque o momento é de milagre, num passado e num futuro sem limites, reinventa-nos um acorde único, essa música milenária de estrelas e de nada, abre-nos à aparição da vida onde somos um breve ponto perdido, e a memória é assim uma pura vibração para os quatro cantos do mundo, uma pura expectativa de uma interrogação submersa. É então possível vencer a muralha concreta que nos cerca, a realidade imediata, os factos conhecidos ou relembrados, e acordar à distância ilimitada o eco dessa voz que nos transcende. Sim, toda a realidade imediata, mesmo bela, breve perde a beleza: com óculos cor-de-rosa, só se vê o mundo cor de rosa, enquanto dura a lembrança do outro, do que o não era: ao fim de pouco tempo com óculos cor-de-rosa, a cor de rosa não existe...


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 10:41 AM | Comentários (2)

novembro 27, 2003

Vivemos um entreacto com orquestra

Penso se tudo na vida não será a degeneração de tudo. O ser não será uma aproximação - uma véspera, ou uns arredores.
Assim como o Cristianismo não foi senão a degeneração bastarda do neoplatonismo abaixado, a judaização do helenismo pelo romano, assim nossa época, senil e cancerígena, é o desvio múltiplo de todos os grandes propósitos, confluentes ou opostos, de cuja falência surgiu a era com que faliram.

Vivemos um entreacto com orquestra.

Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas estas sociologias. Tudo isto é-me sonho, como as princesas da Babilónia, e o ocuparmo-nos da humanidade é fútil, fútil - uma arqueologia do presente.

Sumir-me-ei entre a névoa, como um estrangeiro a tudo, ilha humana desprendida do sonho do mar e navio com ser supérfluo à tona de tudo.

Bernardo Soares in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 03:05 PM | Comentários (57)

Multidão perfeita

Franz KafkaPorque não se deve supor que, apesar de todas as minhas particularidades, aliás bem à vista, estou, seja no que for, isento das leis da minha espécie. De facto, quando penso nela, e tenho tempo e disposição e capacidade suficientes para tal, vejo que a espécie canina é, em todos os sentidos, uma instituição maravilhosa. Além de nós, cães, há todas as espécies de criaturas no mundo, criaturas miseráveis, insignificantes, mudas, criaturas que não têm outra linguagem além de gritos mecânicos: muitos de entre nós, cães, estudam essas criaturas, dando-lhes nomes, tentando ajudá-las, educá-las, elevá-las, etc. Por mim, sou absolutamente alheio a essas criaturas, excepto quando elas tentam perturbar-me, confundo-as umas com as outras, ignoro-as. Porém, uma coisa é demasiadamente óbvia para me ter escapado: como essas criaturas são pouco inclinadas, em comparação connosco, cães, à união, à confraternização, como passam umas pelas outras silenciosamente, indiferentemente e até com uma curiosa hostilidade, como são grosseiros os interesses que bastam para as ligar pouco tempo, numa união conflituosa e como, com frequência, esses interesses provocam ódio. Repare-se, pelo contrário, em nós, cães: pode dizer-se que formamos uma multidão perfeita, todos nós, apesar de sermos diferentes uns dos outros devido às modificações inumeráveis e profundas que se deram entre nós com o decurso do tempo. Todos em bando! Somos atraídos uns pelos outros, e nada pode impedir que satisfaçamos esse impulso comunal. Todas as nossas leis e todas as nossas instituições, as poucas que ainda agora conheço e as muitas que já esqueci, correspondem a essa ânsia da maior bem-aventurança de que somos capazes; o conforto caloroso de estarmos juntos. Todavia, atentem agora no outro lado do quadro. Que eu saiba, não há criaturas que vivam em tão vasta dispersão como nós, cães, mais nenhumas têm tantas distinções de classe, de raça, de ocupação, distinções demasiado numerosas para serem apreendidas assim de repente.

Franz Kafka in Investigações de um Cão

Publicado por dolphin.s em 11:20 AM | Comentários (2)

novembro 26, 2003

Wide-eyed Curiosity



National Geographic Outubo 2003 - Quincaju

© Mathias Clum,
texto: Holly Menino
National Geographic, Outubro 2003


A kinkajou pup prowls to within feet of the photographer's lens, its face moist after drinking from a large balsa blossom filled with nectar and rainwater. "It's such a personal little creature," says Klum. "The eyes seem to be asking, What is this? Is it dangerous? This shot is like a gift from the forest. A blessing, you know? The animal comes to you, not the other way around."

Publicado por dolphin.s em 05:05 PM | Comentários (8)

Não sou um chefe


Jean-Paul Sartre - Les MotsNão sou um chefe, nem aspiro a sê-lo. Comandar e obedecer dão no mesmo. O mais autoritário comanda em nome de outro, de um parasita sagrado - seu pai -, e transmite as abstractas violências de que padece. Nunca na minha vida dei ordens sem rir, sem fazer rir; é que não estou roído pelo cancro do poder; não me ensinaram a obediência.


Jean-Paul Sartre, in As Palavras


Publicado por dolphin.s em 01:40 PM | Comentários (21)

Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio

Samuel BeckettA coisa que mais me interessava no meu reino sem súbditos, em relação à qual a disposição da minha carcaça era o mais distante e fútil dos acidentes, era a supinação cerebral, o embotamento do ser e daquele resíduo de bugigangas irritantes a que se chama o não-ser, ou até, por preguiça, o mundo. Mas mesmo hoje em dia, aos vinte e cinco anos, o homem está à mercê de uma erecção, fisicamente também, uma vez por outra, é o que cabe a cada um, nem eu estava imune, se é que se pode chamar àquilo uma erecção. Ela naturalmente apercebeu-se, as mulheres cheiram um falo no ar a mais de dez quilómetros e perguntam-se: Como é que ele me conseguiu ver dali? Um tipo deixa de ser ele próprio, nessas alturas, e é doloroso não ser ele próprio, ainda mais doloroso do que quando o é, digam o que disserem. Porque, quando se é, sabe-se o que é preciso fazer para ser menos, mas, quando já não se é, é-se um tipo qualquer, irremediavelmente. Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio, com um postal de casa de vez em quando, eis o meu pensamento para esta noite.

Samuel Beckett in Primeiro Amor

Publicado por dolphin.s em 10:45 AM | Comentários (20)

novembro 25, 2003

La Magie Noire


René Magritte - La Magie Noire (1935)

René Magritte, 1935

Publicado por dolphin.s em 07:38 PM | Comentários (14)

Nada sei de quem me amou

Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida — e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício — a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris — só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.
E é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta

Publicado por dolphin.s em 01:36 PM | Comentários (11)

Incêndio

O dia afoga-se, lentamente, na treva do mar.
Deitas-te, então, ao lado do morto que ainda não és. E dele se liberta um anjo mudo que vem habitar o teu corpo.
A vida, como sabes, tem o tempo da areia que se escapa por entre os dedos. Areia rápida e branca. Esvoaçante.
Agora, a ausência - a tua - é um rosto silencioso. E a tua mão está enterrada no tesouro das horas.
Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue. Nada se move dentro ou fora de ti, excepto o vento no interior dos ossos...
Corpo aéreo, azulínea música rente à claridade da pele.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Publicado por dolphin.s em 10:31 AM | Comentários (60)

novembro 24, 2003

Contudo

Fernando PessoaContudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 01:56 PM | Comentários (15)

A Night In

TindersticksI had shoes full of holes
When you first took me in
The path that you led
Was straight to your bed
There’s no cots to sleep in
And you showed me
Who I was running from
As if I had not known all along
Oh my old feet
They know this hard street
Stay like old friends
You’re flat on the ground
There’s no further down
There’s no cots to sleep in
So come in
Leave them outside the door
Tear off the paper
Tear off the carpet
Off the floor

TindersticksAnd I know you’re hurting
And I can’t be there for you
And I know you’re hurting
And I can’t be there no more
I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
So go turn those sheets
Get back on the street
There’s nothing more I can bring to you
They are scared of the door
Afraid of the floor
Well, I’ll go and walk right through
And I’ll show you
Who I’ve been running from
It’s the feeling of waking
And it’s gone

I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
Oh now your feet
They know this hard street
They’re like old friends
You’re flat on the ground
There’s no further down
There’s no cots to sleep in
So come in
Leave them outside the door
Tear off the paper
Tear off the carpet
Off the floor

And I know you’re hurting
And I can’t be there for you
And I know you’re hurting
And I can’t be there no more
I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
So go turn those sheets
Get back on the street
There’s nothing more I can bring to you
They are scared of the door
Afraid of the floor
Well, I’ll go and walk right through
And I’ll show you
Who I’ve been running from
It’s the feeling of waking
And it’s gone

I had shoes full of holes
When you first took me in
I had callouses, not sores
And I’d like to keep them
So go turn those sheets
Get back on the street
There’s nothing more I can bring to you
They are scared of the door
Afraid of the floor
Well, I’ll go and walk right through
And I’ll show you
Who I’ve been running from
It’s the feeling of waking
And it’s gone


Tindersticks

ontem... para ti.

Publicado por dolphin.s em 12:03 PM | Comentários (12)

Uma ligeira sensação de desconforto

Franz Kafka, Investigações de um CãoComo a minha vida mudou e, no entanto, como se manteve imutável! Quando recuo em pensamento e evoco o tempo em que ainda era um membro da comunidade canina, partilhando de todas as suas preocupações, o tempo em que era um cão entre cães, descubro, se me detenho a examinar mais de perto, que senti sempre uma certa divergência, um certo mal-estar, uma certa inadaptação, algo que causava em mim uma ligeira sensação de desconforto que nem as mais edificantes funções públicas conseguiam eliminar. Mais, às vezes, às vezes não, frequentemente, o mero olhar de qualquer companheiro do círculo que frequentava e de que me orgulhava, o simples facto de deparar com ele, como se o visse pela primeira vez na vida, enchia-me de nervosismom perturbava-me a tal ponto que até me sentia indefeso e com medo, chegando mesmo a desesperar. Esforçava-me por aquietar as minhas apreensões o melhor que podia e os amigos a quem as confessei ajudaram-me. Vieram tempos de maior tranquilidade. Tempos em que, é certo, não faltavam essas súbitas surpresas, mas em que as aceitava mais filosoficamente, em que se integravam na minha vida de uma maneira mais imparcial, provocando talvez uma certa melancolia e uma certa letargia, mas mesmo assim permitindo-me continuar a ser um cão bastante normal, se bem que frio, retraído, inibido e calculista. Como teria podido, aliás, sem esses intervalos de convalescença, atingir a idade de que presentemente gozo? Como teria podido alcançar esta serenidade com que agora contemplo os terrores da juventude e suporto os terrores da velhice?


Franz Kafka in Investigações de um Cão

Publicado por dolphin.s em 10:43 AM | Comentários (12)

novembro 23, 2003

Paz...



National Geographic - Sam Abell - White Cliffs

© Sam Abell
Missouri River, Montana, 1997
National Geographic

Publicado por dolphin.s em 04:10 PM | Comentários (14)

Biblioteca pessoal

um homem chegado à maturidade já extraiu dos livros tudo o que é possível tirar deles: a ilusão e a dúvida. Não se pode andar eternamente com a biblioteca às costas, como um caracol; a única biblioteca pessoal que um homem pode ter é a da memória - a quintessência, o resíduo.


Danilo Kiss in Enciclopédia dos Mortos, O Livro dos Reis e dos Tolos

Publicado por dolphin.s em 01:56 PM | Comentários (9)

Give Up War for Lent

Copiado do Rain Song... que também o encontrou noutro lado...


Cliquem na imagem
Give Up War for Lent

Manifesto da Protest Records:

WWW.PROTEST-RECORDS.COM

exists for musicians, poets and artists
to express LOVE + LIBERTY
in the face of greed, sexism, racism, hate-crime and war

FIGHT THE GOOD FIGHT



Publicado por dolphin.s em 12:15 AM | Comentários (0)

novembro 22, 2003

O Bichinho de Conto



Livros para Sonhar

Kalandraka
O Bichinho de Conto

http://www.obichinhodeconto.pt

Publicado por dolphin.s em 08:02 PM | Comentários (29)

Longe do olhar dos outros

Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.
Desce ao âmago desta cela. Debruça-te para o interior do meu vazio.
Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil. Nenhum desejo — porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte.
Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado. O teu corpo fundiu no silêncio do meu.
Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo. Abandonamos a alma. Esquecemo-nos.
Nada sentimos, nenhum acto se realiza. Nenhuma alegria ou tristeza. Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.
Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos. Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade.
Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela. Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.


Al Berto, in O Anjo Mudo

Publicado por dolphin.s em 03:56 PM | Comentários (36)

novembro 21, 2003

Brinquedos para homens

Carlos Drummond de Andrade

Embora eu seja adulto,
não me seduzem os brinquedos eletrônicos
que a moda, irônica, me oferece.
E excogito:
Que brinquedo inventar para o adulto,
privativo dele, sangue e riso dele,
brinquedo desenganado mas eficiente?
Tenho de inventar o meu brinquedo,
mola saltando no meu íntimo,
alegria gerada por mim mesmo,
e fácil, fluida, pluma
pétala.

Sem o pedir às máquinas e aos deuses,
que cada um invente o seu brinquedo.


Carlos Drummond de Andrade, in Amar se aprende amando

Publicado por dolphin.s em 01:33 PM | Comentários (17)

E são sombras

Fernando PessoaRemoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos vêem desatentamente, e construo cm mim essa imagem áquea que, melhor que qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto movimentos.
Ao escrever esta última frase, que para mim exactamente diz o que define, pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das «Errata» umas «Não-Errata», c dizer: a frase «a este incerto movimentos», na página tal, é assim mesmo, com as vozes adjectivas no singular e o substantivo no plural. Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? Nada, e por isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para fazer de mau mastro, os carros eléctricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam a ferro alto. Á roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas sobre pés pequenos.
E são sombras, sombras...


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:39 AM | Comentários (1)

novembro 20, 2003

Instalado em Indiferença

Vergílio FerreiraO mistério e o seu alarme são o tecido de tudo. Mas como o ignoramos! Estamos instalados na vida como se nós próprios não existíssemos, como se fôssemos o próprio mundo que existe, a própria realidade que é, a sua presença absoluta de estar sendo. E a simples reflexão de que é o mundo que depende de nós, de que a sua maravilha está suspensa, para nós, do nosso olhar, dá-nos vertigens. Que admira que uma pequena invenção técnica nos perturbe, nos abra a velha interrogação? Eis que depois de abarcarmos a terra, de a colocarmos na mão como a pequena bola de um deus poderoso, depois de nos confrontarmos nas nossas raças, nos nossos sonhos milenariamente solitários, depois de esgotarmos a nossa procura mútua, eis que acabamos de rasgar os espaços até lá de onde a nossa imaginação descobre o vazio que nos circunda, descobre, num arrepio, o nosso pobre globo perdido na poeirada dos astros, recorda, com uma nova evidência, a infinitude das distâncias que o unem ao universo. E uma vez mais a velha angústia de um Lucrécio, de um Pascal, em face da eternidade da noite, nos desvaira de aflição. Possivelmente, meu amigo, quando esta carta te chegar às mãos, se chegar, estarás tu já instalado em indiferença no meio de quanta nova invenção que não sabemos nem imaginamos.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 02:00 PM | Comentários (9)

Declaração Divina

Certas noites dava uma volta por Pigalle e estudava miudamente os cartazes nas casas de strip-tease. Absorvia a nudez retratada das actrizes como se absorve um plasma forte. Elas eram intérpretes de Deus. Via nesses corpos uma declaração divina, e o jogo espectacular do que chamam vícios era uma espécie de escrita manifesta, uma alusiva visibilização de Deus. E tudo isso me era dado como um caminho de conhecimento, uma complexa viabilidade. Todas as putas de Pigalle eram minhas mães; a carne fotografada, tornada viva em mim pelo enredo da comoção, era a carne--mãe, a matéria fundamental da terra. Deus instigava-me e amparava-me na descoberta e, posteriormente, na magnificação e glorificação do mundo.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta

Publicado por dolphin.s em 10:36 AM | Comentários (55)

novembro 19, 2003

Brincadeira de Criança


Elliot Erwitt - USA, Pennsylvania, 1950

© Elliot Erwitt, Magnum Photos

Publicado por dolphin.s em 10:11 PM | Comentários (21)

Quarto de pensão

Al BertoHá quanto tempo viajamos? Para quê? se já não reparamos nas paisagens.
Atravessámo-las da mesma maneira que a solidão nos obrigou a percorrer essas outras paisagens de cinza que sobrevivem na memória.
Viajamos porque é necessário enfrentarmos o desamparo dos dias, ao mesmo tempo que procuramos um lugar para descansar e nele ansiarmos por um regresso.
Um nome, um nome apenas, evocando alguém, um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente para avançar pela noite dentro, esperar a morte, ou iniciarmos o regresso...
Alugámos um quarto. Pernoitaremos aqui. Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar, existe uma ilha. Vê-la-emos ao amanhecer.
Chegámos à aldeia ao lusco-fusco. Entrámos nela por um largo onde uma rua se abre em direcção ao mar.
A enseada que serve de porto de abrigo avança pela terra adentro. Fecha-se como uma mão à tempestade. É um lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma.
Mas não há lágrimas na verdadeira tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria fundas, escuras, como as minas escavadas, ano após ano, para procurar um veio de ouro.
Lá fora, nas ruas e nos largos, uma luminosidade diáfana coalha, suavemente, nas mãos antigas das mulheres.
— Quem chega, etéreo, do outro lado da linha do horizonte? Quem toca as minhas pálpebras fechadas? Onde se ergue o silêncio dos dias queimados pela paixão? Quem está sobre a minha boca, com este ardor a sal?
Ouve-se o mar, longe daqui, e eu digo:
- Andei tempo a mais pelas ruas. Vivi nelas ao sabor do vento. Dormi em casas abandonadas, e nunca conheci ninguém que me amasse.
Encostando-se ao vidro da janela, a Helena diz:
— E se nos calássemos enquanto a memória se esvazia. Está tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, terá um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas. Não sei... está tudo ainda por acontecer.


Al Berto, in O Anjo Mudo (© Assírio & Alvim)

Publicado por dolphin.s em 05:35 PM | Comentários (4)

Greguerías II

Anda de outro modo aquele a quem caíram botões nas cuecas.

Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.

Quando se entorna um copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.

Daquilo que se fala na escuridão fica cópia em papel químico.

Trovão: queda de baú pelas escadas do céu.

Guerra: sucata.

Nas caçadas, há um convidado tímido que repsenta os coelhos.

O capitalista é um senhor que, quando fala connosco, nos fica com os fósforos.

Quando temos uma manga descosida e enfiamos o braço entre o forro e o tecido, extraviamo-nos pelo caminho dos manetas.

A lua é o espelhinho com que o sol se entretém de noite a inquietar os olhos da terra.

Três andorinhas no fio do telégrafo são o alfinete no decote da tarde.

O gato olha para as visitas como se a conversa lhe desse sono.

O parafuso é um prego penteado com risca ao meio.

Quando uma mulher pede salada de frutas para dois está a aperfeiçoar o pecado original.

O amor nasce do repentino desejo de tornar eterno o passageiro.




Ramón Gómez de La Serna
Selecção e tradução de Jorge Silva Melo, © Assírio & Alvim, Colecção Gato Maltês.

Publicado por dolphin.s em 01:58 PM | Comentários (5)

Greguerías

Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores

À morte não a ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos

Olharam-se de janela a janela em dois comboios que iam em direcção opostas, mas tal é a força do amor que logo os dois comboios se puseram a andar para o mesmo lado


Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo, a conversa em cima.

Nervosismo da cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açucar para o café.

Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.

Na escola, o colega da carteira atrás é quem nos faz a primeir radiografia.

Pôr as peúgas do avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.

O primeiro beijo é um roubo.

À tardinha, passa em voo rápido uma pomba que leva a chave para fechar o dia.

A estrela cadente é uma malha que cai na meia da noite.




Ramón Gómez de La Serna
Selecção e tradução de Jorge Silva Melo, © Assírio & Alvim, Colecção Gato Maltês.

No Prefácio
Porque se chamam Greguerías?
Quando encontrei o género, dei-me conta que tinha de procurar uma palavra que não fosse artificial nem demasiado utilizada, para bem as baptizar.
Meti então a mão no saco das palavras e ao acaso, que deve ser o melhor padrinho dos achados, tirei uma bola...
Era greguería, ainda no singular; mas eu plantei essa bola e tive um jardim de greguerías. Fiquei com a palavra pela sua sonoridade, mas também pelo que esconde no mistério do seu sexo.
Greguería, algaravia, gritaria confusa (Em anteriores dicionários significava a gritaria que fazem os leitões atrás da mãe). O que gritam os seres confusamente, o que gritam as coisas.

Mas o que são as Greguerías?
Frases lapidares? A greguería não sai de debaixo de nenhuma lápide mortuária. Adágios? Refrões= Nã, nã. Nem uns nem outros: nem adágios, qu são demasiado tristes e elegíacos; nem refrões que são coisa infecciosa.
Nela não deve haver sentimentalismo rabilargo nem pirismo rabicurto, nem descrição. Longe de serem calinadas ou lugares comuns.
Têm qualquer coisa de tropo, porque no tropo as palavras podem ser ditas em sentido diferente do natural (...)
São aforismos?
O aforístico é um género - já se disse - que não encolhe porque a sua brevidade o não permite.
Não. Também não é aforística a greguería; o aforismo é enfático e opinante. Não sou um aforista.
Fica-se então pela metáfora?
O material e o imaterial podem ser objectos de metáfora.
Todas as palavras e frases morrem na sua origem correcta e literal, e só atingem a glória quando passam a metáforas, porque as metáforas as tornam abstractas e embalsamadas.
A metáfora multiplica o mundo, não ligando à retórica que proíbe enlaçar as coisas só porque é impotente para o fazer -

      Humor + metáfora = greguería.

Publicado por dolphin.s em 11:01 AM | Comentários (22)

Dolphins

Sometimes I think about Saturday's child
And all about the times when we were running wild
I've been out searching for the dolphins in the sea
Ah, but sometimes I wonder, do you ever think of me

This old world will never change the way it's been
And all the ways of war won't change it back again
I've been out searchin' for the dolphin in the sea
Ah, but sometimes I wonder, do you ever think of me

This old world will never change


Tim Buckley

Publicado por dolphin.s em 12:00 AM | Comentários (6)

novembro 18, 2003

Morning-Glory

Tim BuckleyI lit my purest candle close to my
Window, hoping it would catch the eye
Of any vagabond who passed it by,
And I waited in my fleeting house

Before he came I felt him drawing near;
As he neared I felt the ancient fear
That he had come to wound my door and jeer,
And I waited in my fleeting house

"Tell me stories," I called to the Hobo;
"Stories of cold," I smiled at the Hobo;
"Stories of old," I knelt to the Hobo;
And he stood before my fleeting house

"No," said the Hobo, "No more tales of time;
Don't ask me now to wash away the grime;
I can't come in 'cause it's too high a climb,"
And he walked away from my fleeting house

"Then you be damned!" I screamed to the Hobo;
"Leave me alone," I wept to the Hobo;
"Turn into stone," I knelt to the Hobo;
And he walked away from my fleeting house


Tim Buckley

Publicado por dolphin.s em 10:08 PM | Comentários (0)

aqui e em todo o lado

Soldado        E tu agora concordas com tudo aquilo que eu disser.

Beija muito delicadamente Ian nos lábios.
Olham fixamente um para o outro.

Soldado         Cheiras como ela. Os mesmos cigarros.

O Soldado vira Ian com uma mão.
Com a outra aponta o revólver à cabeça de Ian.
Puxa para baixo as calças de
Ian, desaperta as suas e viola-o
— com os olhos fechados e a cheirar o cabelo de
Ian.
O
Soldado chora convulsivamente.

O rosto de Ian revela dor mas ele permanece em silêncio.

O Soldado termina, puxa as calças para cima e enfia o revól­ver no ânus de Ian.

Soldado        O cabrão premiu o gatilho na Col.
                       Como é?

Ian        (Tenta responder. Não consegue.)

Soldado        (Retira a arma e senta-se ao lado de Ian.)
                       Nunca tinhas sido fodido por um homem?

Ian        (Não responde.)

Soldado         Também me pareceu. Não é nada. Já vi milhares de pessoas arrumadas dentro de camiões como porcos a tentar sair da cidade. As mulheres atiravam os bebés para dentro dos camiões à espera que alguém tomasse conta deles. Batiam umas contra as outras até à morte. A parte de dentro das cabeças saía pelos olhos. Vi uma criança com a cara meia desfeita, uma rapariga que fodi com as mãos dentro dela a tentar tirar os meus líquidos de lá, um homem a morrer à fome e a comer a perna da mulher morta. A arma nasceu aqui e não vai morrer. Não faças um drama por causa do teu cu. Não penses que o teu cu galês é diferente de qualquer outro cu que eu tenha fodido. De certeza que não tens mais comida, estou com uma fome do caraças.

Ian         Vais matar-me?

Soldado         Sempre a tentar salvar o cu.

O Soldado agarra a cabeça de Ian com as mãos.

Põe a boca por cima de um dos olhos de Ian, suga-o, arranca-o com os dentes e come-o.

Faz o mesmo ao outro olho.

Soldado        Ele comeu os olhos dela.
                       Coitado do cabrão.
                       Coitado do amor.
                       Coitado do cabrão de merda.

Escuro.
O som de uma chuva de Outono.


in Ruínas, Sarah Kane
tradução de Pedro Marques

Publicado por jm em 05:16 PM | Comentários (16)

Devagar...

Devagar, ele sentia que a imagem do rosto dela era como a linha que, devagar, desenha os montes de encontro ao céu na hora em que a última luz é o contorno das montanhas. Ela, devagar, sentia que a imagem do rosto dele era como uma montanha, o corpo gigante e seguro de uma montanha, desenhado de encontro ao céu pela última luz. Durante um momento de terra, de sol e de julho, ele e ela sentiram que eram tocados por qualquer coisa grandiosa. E cada um levou esse instante dentro de si.


José Luís Peixoto, in Antídoto

Publicado por dolphin.s em 04:01 PM | Comentários (26)

Asas de Borboleta



National Geographic - Robert Clark - Nunatak Buterfly

© Robert Clark
St. Elias Mountains, Yukon Territory, Canada, 1997
National Geographic, Dezembro 1998


A butterfly rests on a nunatak, a small mountain tip that pokes through glacial ice.

Publicado por dolphin.s em 02:21 PM | Comentários (17)

Estou só no mundo

Fernando PessoaVista de perto, toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que Frei Luís de Sousa escrevia «o comum com singularidade». Esta gente é singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim para aqui sem razão, como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso, assalta estaticamente o Castelo. O sol pálido molha de um aureolar vago essa mole súbita de casas que para aqui o oculta. O céu é ide um azul humidamente esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado oriental da Praça há mais forasteiros que do outro. Como descargas alcatifadas, as portas onduladas descem para cima; não sei porquê, é assim a frase que me transmite aquele som. É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem. Tudo se explica.
De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam - só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:32 AM | Comentários (28)

novembro 17, 2003

Num dia frio...


Num dia frio...

© Elliot Erwitt, in Dog Dogs

Publicado por dolphin.s em 11:05 PM | Comentários (8)

Aparição da verdade

Vergílio FerreiraHá uma distância infinita entre a aparição da verdade, a imediata evidência de seja o que for, e até mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evidência pela segunda vez, já ela está alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque nós ignoramos ou esquecemos depressa a face do que há de estranho nos factos mais banais: no da vida, da morte. Assim nos surpreendemos até ao absurdo, até à incredibilidade, quando nos morre um parente, um conhecido, ou seja, de algum modo, uma fracção de nós; e só admitimos que ele tenha de facto morrido quando definitivamente se afastou para o passado, saiu do nosso mundo, deste mundo estável, harmónico, regular, e faz já parte das sombras indistintas de outrora, é, em suma, uma ficção: só entendemos a morte quando a sabemos de cor, quando ela não significa já a aniquilação de uma vida como a nossa, mas é apenas as margens desta vida e que a prolongam, o nada que nunca a ela pode aceder, a pode pôr em causa, quando ela é o contorno que lhe não altera a sua (a nossa) perenidade.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro (© Bertrand)

Publicado por dolphin.s em 04:00 PM | Comentários (12)

estória

Soldado        Fomos a uma casa mesmo à saída da cidade. Tinham desaparecido todos, A não ser um rapazinho escondido a um canto. Um outro de nós levou-o para fora. Deitou-o no chão e deu-lhe um tiro entre as pernas. Ouvi gritar na cave. Fui lá abaixo. Três homens e quatro mulheres. Chamei os outros. Seguraram nos homens enquanto eu fodia as mulheres. A mais nova tinha doze anos. Não chorou, ficou deitada ali. Virei-a ao contrário e —
Depois chorou. Obriguei-a a lamber-me todo. Fechei os olhos e pensei -
Dei um tiro na boca do pai. Os irmãos gritaram. Pendurei-os no tecto pelos testículos.

Ian        Lindo.

Soldado        Nunca fizeste isto?

Ian        Não.

Soldado        De certeza?

Ian        Não me ia esquecer.

Soldado        Esquecias.

Ian        Não ia conseguir dormir.


in Ruínas, Sarah Kane
tradução de Pedro Marques

Publicado por jm em 11:37 AM | Comentários (47)

In Memory



Jeff Buckley

Jeff Buckley



17 Novembro 1966 -
27 Maio 1997

Publicado por dolphin.s em 11:32 AM | Comentários (6)

Odes ao vinho

      7

Rubaiyat. Odes ao VinhoO nosso tesouro? O vinho.
O nosso palácio? A taberna.
Os nossos fiéis companheiros? A sede e a embriaguez.
Ignoramos a inquietude, porque sabemos que as nossas almas
corações e taças e as nossas roupas maculadas nada têm a temer
do pó, da água e do fogo.

      8

Contenta-te com poucos amigos neste mundo.
Não tentes dourar a simpatia que podes experimentar por alguém.
Antes de apertares a mão de um homem,
pergunta a ti mesmo se ela não irá ferir-te, um dia.

      9

Outrora, esta ânfora era um pobre amante
que gemia sob a indiferença de uma mulher.
A asa, no colo da ânfora, era o seu braço
que rodeava o pescoço da bem-amada.

      10

Como é vil o coração que não sabe amar,
que não pode embriagar-se de amor!
Se não amares, como poderás apreciar
a deslumbrante luz do sol e a doce claridade do luar?

      11

Toda a minha juventude refloresce, hoje!
Vinho! Vinho! Que as suas chamas me abrasem! Vinho!
Não importa qual!... Não sou exigente.
O melhor—acreditai — achá-lo-ei amargo como a vida.

      12

Sabes que não tens nenhum poder sobre o teu destino.
Por que te causa ansiedade a incerteza do amanhã?
Se és um sábio, goza o momento actual.
O futuro? Que te reservará?


Omar Kayyan, in Rubaiyat, Odes ao Vinho
Tradução Fernando Castro, © Editorial Estampa

Publicado por dolphin.s em 10:37 AM | Comentários (69)

novembro 16, 2003

Sono partilhado



Gustave Courbet - The Sleepers (1866)

Gustave Courbet - The Sleepers (1866)

Publicado por dolphin.s em 08:03 PM | Comentários (28)

Inspiradora solidão nocturna

Herberto HelderComecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta

Publicado por dolphin.s em 05:16 PM | Comentários (5)

Queixa e imprecações dum condenado à morte

Ary dos SantosPor existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.

Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.

Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.

Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.

Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.

Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.

Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.

Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.

Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.

Ary dos Santos

Publicado por dolphin.s em 12:59 PM | Comentários (6)

novembro 15, 2003

À procura de um caminho...

National Geographic - James P. Blair - Ancient Redwood Trees

© James P. Blair
Park, California, 1983
National Geographic


Publicado por dolphin.s em 09:33 PM | Comentários (17)

As sombras da cidade

Al Berto

Caminho, as sombras da cidade vão revelando, pouco a pouco, rostos que despertam para a noite, gestos cúmplices, corpos, atrevimentos inesperados, danças, seduções...
Caminho pela cidade que se oferece à voluptuosidade do olhar. Ao fundo das ruas e das escadinhas, no âmago da noite, o Tejo - essa presença invisível que, por vezes, nos aflora os ossos com seu canto de ternas neblinas.
E vou de beco em beco, de bar em bar, de aroma em aroma, de olhar em olhar - conheço a cidade como conheço as linhas das minhas mãos.
Percorro-a, há anos, como se esperasse não sei bem o quê - como se nessa espera, um dia, acabasse por se me revelar uma outra cidade, ou um rosto se me incendiasse nos dedos, ou uma ruela apercebida ao fundo de um sonho se chamasse Travessa da Espera, ou uma paixão qualquer, ali ao Príncipe Real, me magoasse o coração...


Al Berto, in O Anjo Mudo, Lisboa (© Assírio & Alvim)

Publicado por dolphin.s em 06:57 PM | Comentários (4)

Sonhar de sonhar

Fernando PessoaNão sei que vaga carícia, tanto mais branda quanto não é carícia, a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à compreensão. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.
Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranquilidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro subitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem continuação.
Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objectividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efectivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele.
Tudo quanto amamos ou perdemos - coisas, seres, significações - nos roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder perder tudo esplendidamente.


Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego


Publicado por dolphin.s em 04:00 PM | Comentários (5)

Realidade Imediata

Ah, a realidade imediata reconforta, nem que seja a realidade de uma pedra que nos atirem. Porque uma pedra é consistente, conhece-se, sem alarme, na dureza com que nos cria as próprias mãos, nos define, sem sombras, a cabeça que nos feriu, o sangue que nos inundou a face. As pedras constroem-nos a rua que pisamos e onde podemos sentir-nos vivos dessa vida imediata que sabe o donde e o para onde, dessa vida articulada como engrenagem certa de relógio, a cujo rumor compassado pode até apetecer dormir...

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 12:33 PM | Comentários (16)

novembro 14, 2003

Cinzas...



Munch - Ashes

Edvard Munch, Ashes

Publicado por dolphin.s em 10:05 PM | Comentários (22)

O Prazer de fazer Sofrer

Friedrich NietzsceÉ nesta esfera, ou seja, no direito de obrigações, que nasceu o mundo dos conceitos morais: «culpa», «consciência», «obrigação», «carácter sagrado do dever».
E não será de acrescentar que esse mundo dos conceitos morais afinal nunca mais deixou de ter um certo cheiro a sangue e a tortura?... Assim acontece até no velho Kant: o imperativo categórico cheira a crueldade... Foi nessa esfera, também, que pela primeira vez se urdiu a trama sinistra que liga — talvez inextricavelmente — «culpa e sofrimento». Perguntemos uma vez mais: em que medida pode o sofrimento constituir uma compensação das «dívidas»? Precisamente na medida em que fazer sofrer proporciona um grau elevado de satisfação, isto é, na medida em que o lesado trocava o seu prejuízo — incluindo o desprazer provocado por esse prejuízo — por um contraprazer invulgar: o de fazer sofrer...


Friedrich Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral (© Relógio d'Água)

Publicado por dolphin.s em 07:55 PM | Comentários (2)

gift

david bowie


Chicago, USA 1980 © Anton Corbijn
This is August 1980 when David was the main actor in the Elephant Man theatre play. Taken backstage after the performance in his dressing room in a matter of minutes.

Publicado por jm em 05:39 PM | Comentários (2)

Todos nós somos, por vezes, estúpidos

Todos nós somos, por vezes, estúpidos; por vezes também, somos constrangidos a agir cegamente ou semicegamente, sem o que o mundo se deteria; e se alguém retirasse dos perigos da estupidez esta regra: "Abstém-te de julgar e de decidir cada vez que te faltam informações", ficaríamos imobilizados! Mas essa situação hoje muito generalizada, recorda outra que conhecemos há muito, no domínio intelectual. Com efeito, como o nosso saber e o nosso poder são limitados, estamos reduzidos, em todas as ciências, a enunciar juízos prematuros; mas desde que estejamos atentos, como nos ensinaram, para manter este defeito em certos limites e corrigindo-o logo que possível, isso restitui ao nosso trabalho uma certa exactidão. Nada, com efeito, se opõe à possibilidade de transferir para outros domínios esta exactidão e esta orgulhosa humildade do juízo e da acção; e eu acredito que o preceito: "Age tão bem como possas e tão mal como tem de ser, permanecendo consciente das margens de erro da tua acção!" representa já, no caso de ser seguido, metade do caminho em direcção a uma reforma verdadeiramente fecunda da nossa vida.

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 02:32 PM | Comentários (5)

Bad Day

R.E.M.A public service announcement followed me home the other day,
I bade it nevermind, go away.
The shit's so thick, you could stir it with a stick,
the paper wouldn't lie, we assume the loss to mankind and gloat and jeer with it

Broadcast me a joyful noise into the times, Lord,
count your blessings, ignore the lowest fear, well you can't sandblast glisten,

Radio no, play the game, three words, first one short,
magazine, book, cinema, N - O - down,
many fears are gone, step down, step down,
watch a heel crush, ah this means war

I saw the light, it can't be right

Broadcast me a joyful noise into the times, Lord,
count your blessings, ignore the lowest fear, well you can't sandblast

It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please
It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please

A public service announcement followed me home the other day,
I bade it nevermind,
The shit's so thick, you could stir it with a stick,
the paper wouldn't lie, we assume the loss to mankind and gloat and jeer with it

Broadcast me a joyful noise into the times, Lord,
count your blessings, ignore the lowest fear, come one, what more?

It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please
It's been a bad day, please don't take my picture,
It's been a bad day, please


R.E.M.

Publicado por dolphin.s em 02:22 PM | Comentários (7)

novembro 13, 2003

Um sorriso...



National Geographic - Annie Griffiths Belt - Wildflowers

© Annie Griffiths Belt
Petra, Jordania , 1996
National Geographic



Publicado por dolphin.s em 05:00 PM | Comentários (21)

O Sentido da vida

Herberto Helder— Ele pareceu não entender a alusão. Voltou para mim o rosto irónico e perguntou:
— A que se referia?
— À morte — respondi.
— Sim, eu também falava da morte. Mas surpreendeu-me que você estivesse a pensar no mesmo.
— Pensamos todos no mesmo a partir de certa altura.
— Talvez — murmurou, e a voz tinha uma ponta de orgulho. — Mas nem todos de igual maneira. Sou forte. Por isso é que penso nela. Detesto a fraqueza que se remedeia na imaginação, nas hipóteses. Não creio em nada. Não desejo crer em nada.
— Pensa que vai morrer quando quiser?
Olhou-me em cheio, sorriu. Tinha uma viva e nobre cabeça de homem antigo. Parecia saber muito. Não devia acreditar em nada. Notava-se no olhar culto e virilmente triste.
— É isso. Trabalho na minha morte. Um homem verdadeiro tem direitos e deveres para com a sua morte. Sabe que estou a construir uma casa?
— Sim, já mo disse.
— Conhece o sítio? — E as palavras subentendiam ramificações de sentido, outras intenções. Mas a voz era imperturbável. Este homem morreria da sua morte, dentro dela.
— Conheço. Fica na outra costa da Ilha. Há a montanha sem árvores. Pedras e urzes. Pavoroso. Defronte fica o mar. O mar lá é bravio.
— É água cinzenta e branca. E atrás há a grande montanha por onde só andam cabras. Mas na planície, à direita, crescem as árvores onde o vento do mar vem bater. De noite tudo aquilo vibra e uiva. E a terra arenosa estende-se pelo outro lado fora. Quando há tempestade é de uma beleza diabólica. Bom para nos sentirmos sós, para saber se ainda existe o orgulho do medo.
— Compreendo que construa aí a sua casa.
— Construo a casa muito devagar. É a minha última tarefa. Forço os operários a trabalhar lentamente. Estão espantados. O capataz supõe que sou louco. Nunca custou tão caro uma casa de um só piso. Quando ficar pronta já nada mais terei a fazer. Seria estúpido procurar sobreviver-me. Sou um homem sensato. É de sangue. Meu avô correu mundo e veio morrer na cama onde nascera. Meu pai andou pelas guerras depois de me ter gerado, e lá morreu. Homens que fizeram uma tarefa e nela puseram o sentido da sua vida. E deram-se por cumpridos, e regressaram ou morreram. Sabedoria, não é?

Herberto Helder, in Os Passos em Volta, O Quarto

Publicado por dolphin.s em 01:32 PM | Comentários (33)

Clearly non-Campos!

Fernando PessoaNão sei qual é o sentimento, ainda inexpresso,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido.
Um desejo lúcido de indefinido.

Quatro vezes mudou a 'stação falsa
No falso ano, no imutável curso
Do tempo conseqüente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde,
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
Nem o último, e acabam.

Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 10:28 AM | Comentários (1)

novembro 12, 2003

Simone de Beauvoir



Por vezes a palavra representa um modo mais
acertado de se calar do que o silêncio



Simone de Beauvoir

Elliot Erwitt - Simone de Beauvoir, Paris, 1949

© Elliot Erwitt

Publicado por dolphin.s em 02:29 PM | Comentários (11)

O dinheiro será o imperador

Montanha MágicaDo facto de que todo o poderio e todo o governo pertenciam primitivamente ao povo, e que este transmitiu o seu direito de legislação e a totalidade de seu poder ao Estado, ao Príncipe, conclui a sua escola, antes de mais nada, que o povo tem o direito de rebelar-se contra a realeza. (...)
—Nós, porém—continuou Naphta—talvez não sejamos menos revolucionários do que o senhor. Sempre concluímos desse facto, em primeiro lugar, a supremacia; da Igreja sobre o Estado secular. Porque, se a origem não divina do Estado não estivesse escrita na sua testa, bastaria recordar precisamente o facto histórico dele derivar da vontade do povo e não, como a Igreja, de uma fundação de Deus, para demonstrar que ele é, se não uma obra do Demónio, pelo menos um produto da emergência e da imperfeição pecaminosa.
—O Estado, senhor...
—Já sei o que o senhor pensa do Estado nacional. «Acima de tudo o amor à Pátria e o infinito desejo de glória!» A frase é de Virgílio. O senhor corrige-o com o acréscimo de um pouco de individualismo liberal, e surge a Democracia. Mas isso não modifica em princípio as suas relações com o Estado. O senhor não parece chocar-se com a circunstância, de que a alma do Estado é o dinheiro. Ou tenciona, acaso, desmenti-la? A Antiguidade era capitalista, devido ao seu culto do Estado. A Idade Média cristã percebeu com toda a clareza o capitalismo imanente do Estado secular. «O dinheiro será o imperador», é uma profecia do século xi. O senhor nega que ela já se cumpriu integralmente e que a vida se tornou, em si mesma, demoníaca?


Thomas Mann, in Montanha Mágica

Publicado por dolphin.s em 10:36 AM | Comentários (7)

novembro 11, 2003

A estupidez honesta

Robert MusilNa vida de todos os dias entende-se geralmente por homem estúpido alguém que é "um tanto fraco da cabeça". Mas existe uma grande variedade de anomalias intelectuais e psíquicas capazes de entravar, contrariar, desencaminhar até uma inteligência naturalmente intacta, que se chega finalmente, mais uma vez, a qualquer coisa para a qual a linguagem não dispõe ainda, uma vez mais, de outra palavra que não a de estupidez. Este termo engloba, pois, duas espécies no fundo muito diferentes: uma estupidez honesta, simples, e uma outra que, muito paradoxalmente, pode mesmo ser um sinal de inteligência. A primeira diz respeito sobretudo a uma fraqueza geral do entendimento, a segunda a uma fraqueza deste em relação a um objecto particular; é, de longe, a mais perigosa.
A estupidez honesta é um pouco lenta em compreender, não tem a "compreensão fácil", como se diz. Pobre em representações e em vocabulário, não sabe muito bem como se servir dele. Prefere o banal, cuja frequência torna a assimilação mais fácil; e quando assimila qualquer coisa, não tem muita predisposição para consentir que lha retirem logo em seguida, nem para permitir que a analisem, ou para jogos de ambiguidade em relação a ela. Tem, de resto, uma boa parte das "faces felizes" da vida! Parece sem dúvida muitas vezes confusa na sua reflexão, facilmente paralisada por qualquer nova experiência; de imediato, agarra-se ao que é acessível aos sentidos, àquilo que ela pode, de algum modo, contar pelos dedos. Numa palavra, é a brava "pura estupidez"; e se ela não se mostrasse por vezes desesperadamente crédula, confusa e incorrigível, seria um fenómeno absolutamente agradável.

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 02:22 PM | Comentários (31)

S. Martinho


Castanhas  Ouriços


Publicado por dolphin.s em 12:21 PM | Comentários (50)

Prisão de ventre

Samuel BeckettUm dia, ao voltar da casa-de-banho, encontrei o meu quarto fechado à chave e as minhas coisas empilhadas em frente da porta. Isto pode dar-vos uma ideia da prisão de ventre com que eu estava na altura. Estou agora convencido que era por causa da ansiedade. Mas estaria eu realmente com prisão de ventre? Não acredito. Calma, calma. No entanto devia estar, senão como justificar aquelas longas, aquelas atrozes sessões na retrete? Nessas alturas eu nunca lia, nem nas outras; não me punha a divagar ou a meditar, limitava-me a olhar distraído para o almanaque pendurado num prego à minha frente, com a imagem a cores de um rapaz de barbas rodeado de ovelhas. Devia ser Jesus; afastava as nádegas com as duas mãos e fazia força: um! hmm! dois! hmm!, com movimentos de remador, e só com uma ideia na cabeça, voltar ao meu quarto e deitar-me de costas. Era mesmo prisão de ventre, ou não? Ou estou a confundir com diarreia? Tudo se mistura na minha cabeça, campas e núpcias e os diferentes tipos de evacuações. Com os meus parcos haveres tinham feito um montinho, no chão, encostado à porta. Parece que ainda o estou a ver, naquela espécie de recanto cheio de sombra que separava o corredor do meu quarto. Foi neste espaço estreito» resguardado apenas de três lados, que tive de mudar de roupa, ou seja, trocar o robe e a camisa de noite pelo meu fato de viagem, ou seja, sapatos, meias, calças, camisa, casaco, sobretudo e chapéu, espero não me estar a esquecer de nada. Experimentei outras portas, rodando a maçaneta e empurrando, ou puxando, antes de sair de casa, mas nenhuma cedeu. Se tivesse encontrado uma aberta acho que me tinha barricado lá dentro, só com gás é que me tiravam dali. Sentia a casa apinhada como de costume, mas não via ninguém. Imaginei-os fechados nos respectivos quartos, de ouvidos bem atentos. Depois todos a correr para as janelas, um pouco a medo, escondidos pelos cortinados, com o barulho da porta da rua a fechar-se; devia tê-la deixado aberta. E então são portas que se abrem e toda a gente sai, homens, mulheres, crianças, cada um do seu quarto, e as vozes, os suspiros, os sorrisos, as mãos, as chaves nas mãos, um alívio enorme, e depois o recapitular das precauções, se isto então aquilo, mas se aquilo então isto, uma autêntica festa, todos perceberam, p'rá mesa, p'rá mesa, a desinfestação pode esperar.


Samuel Beckett, in Primeiro Amor
tradução de Fracisco Frazão, © Ambar

Publicado por dolphin.s em 10:34 AM | Comentários (6)

novembro 10, 2003

A Sense of Reality



Daniel Blaufuks - A Sense Of Reality Daniel Blaufuks - A Sense of Reality


© Daniel Blaufuks

Publicado por dolphin.s em 08:00 PM | Comentários (63)

O mais poderoso instrumento da mnemónica

Friedrich Nietzsche«Para que uma coisa permaneça, aplica-se com ferro em brasa! Só fica na memória o que não pára de doer.» Eis um dos princípios da mais antiga psicologia (e também da mais duradoura, infelizmente). Dir-se-ia mesmo que, neste mundo, onde quer que encontremos, na vida de um homem ou de um povo, alguma coisa de solene, de grave, de secreto, debaixo de sombrias cores, é porque aí continua a agir algo do terror com que noutros tempos em toda a parte se praticava o acto de prometer, de empenhar a palavra, de jurar. Cada vez que a nossa atitude se torna «grave», é o passado que nos inspira e se agita dentro de nós, o passado mais longínquo, mais profundo e mais doloroso. Sempre que o homem entendeu que era preciso constituir memória, nunca o conseguiu fazer sem sangue, sem martírio, sem sacrifício. Os votos ou sacrifícios mais aterradores (nomeadamente o sacrifício dos primogénitos), as mutilações mais repugnantes (por exemplo, as castrações), os rituais mais cruéis que integram todos os cultos religiosos (e as religiões são todas elas, no seu fundamento mais radical, sistemas de crueldade), tudo isso tem origem nesse instinto que encontrou na dor o mais poderoso instrumento da mnemónica.
Quanto pior a «memória» dos homens, mais horrível o aspecto dos seus costumes: em particular a dureza de um código penal permite avaliar o grau de esforço aplicado para chegar ao triunfo sobre o esquecimento e para manter presentes — aos olhos dos escravos do momento, do afecto e do desejo imediato — algumas exigências primitivas do viver social.
Os Alemães, usando de terríveis meios, constituíram uma memória para poderem dominar os seus instintos plebeus básicos, brutais e grosseiros: pense-se nos antigos suplícios alemães, por exemplo, a lapidação (já a lenda falava de uma mó que esmagava a cabeça do culpado), a roda (a mais original invenção, autêntica especialidade do génio alemão no reino das punições), a empalação, o esquartejamento e o esmagamento por cavalos, a imersão do condenado em azeite ou vinho a ferver (ainda utilizada nos séculos xiv e xv), os apreciados esfolamentos, a excisão das carnes do peito, a exposição do malfeitor ao sol escaldante e às moscas depois de coberto de mel. Com o auxílio de tais procedimentos e imagens fazia-se com que se conservassem na memória cinco ou seis ideias do tipo «não quero isto», relativamente às quais ficava feita uma promessa que permitia ao indivíduo viver dentro das vantagens da sociedade... A realidade é esta: foi com o auxílio desta espécie de memória que acabou por se chegar à «razão»!... Ah! A razão, a gravidade, o domínio sobre os afectos, esta coisa sombria a que se chama «reflexão», toda esta panóplia de privilégios pomposos que o homem detém... que preço exigiram! Quanto sangue, quanto horror está na base de todas as «coisas boas»!


Friedrich Nietzsche, Para a Genealogia da Moral

Publicado por dolphin.s em 01:45 PM | Comentários (10)

Acordar Tarde

Al Berto

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia



Al Berto, Horto de Incêndio

Publicado por dolphin.s em 10:56 AM | Comentários (35)

Ídolo


Ramsés II

apresento-vos a Ramsés II, o Grande
Boa semana!! ;)

Publicado por dolphin.s em 09:58 AM | Comentários (31)

novembro 09, 2003

X-Ray Mind

Layne StaleyDo the laughs die when
One such as I run
And allow myself
Time for own true needs
When convincing me
That you're on my team
May not lie to me
But not mentioning

So sit back and have
An hysterical
Laugh at tiny holes
Buy and trade men's souls

X-ray mind reads plenty
Worth no more than pennies

You, they, it or what
Have been fair, I thought
May you never free
You from you or me
See the more I think
I'm afraid to blink
I don't move an inch
Slowly draining me

Hire a spy and bug me
Pimp your friends for money
Rich and growing sicker
Sell the dead ones quicker


Layne Staley, para música do álbum Above, dos Mad Season

Publicado por jm em 09:42 PM | Comentários (8)

Sinto com o pensamento

Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar.
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la. A paisagem, tão admirável como quadro, é em geral incómoda como leito.

Bernardo Soares, in O Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 08:24 PM | Comentários (13)

O teu cabelo

Herberto Helder

Eu digo: o teu cabelo. Ela está agachada junto à cama, procurando um sapato que se extraviou. Ergue a cabeça, de lado, e os olhos lentos e confusos parecem indagar desamparadamente. Estas pequenas prostitutas ficam diante de mim desprovidas quase de qualidades humanas. Possuem o corpo, máquina de algum talento, enquanto a minha solidão continuamente se exerce e cria uma zona intensa, extrema, atravessada por outras presenças, estranhas criaturas calorosas que aparecem e desaparecem, que se substituem, sem atingirem nunca uma forma definitiva. Criaturas incertas, mas verdadeiras. Expressões de uma nebulosa aspiração. Que alcançariam as palavras num dia suposto. Ou me tocariam à noite, ao pé de uma lâmpada íntima, e deste modo provocariam em mim, pela memória, densas associações, frémitos, o sentimento da alegria ou da proximidade da morte. O meu cabelo? — pergunta ela. Está ainda nua. Os joelhos, os seios, os ombros, os sombrios olhos atónitos — são realmente belos. E eu sorrio como se me desculpasse. Devo dizer: não sou puro. Talvez deva dizer: quando murmurei essa frase que se poderia confundir com um apelo ou um repentino e insustentável movimento da emoção («o teu cabelo»), não pensava, não sentia nada. Eis a verdade: sou uma criatura devastada pelo egoísmo.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Duas Pessoas (© Assírio & Alvim)

Publicado por dolphin.s em 04:01 PM | Comentários (26)

Chove

Vergílio FerreiraChove. A fúria do vento não cessa. Batida pela sua vergasta, a chuva esparrinha na vidraça, varre a rua de lembranças concretas. E uma memória antiga, pesada de augúrio, levanta-se-me no seu clamor, memória escura, anterior à vida. Assim o que relembro não tem face nem nome, é a forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição. Num longe imaginado, passam os ventos em linha, massas de névoa deslizam sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa. O que é certo e imediato, o que me vem à boca e tem nome, o que é exacto e mensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio, porque a voz obscura que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação. Nesta hora absoluta, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo...

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 12:30 PM | Comentários (20)

O Feitiço da Lua



Eclipse Lunar  The Antídote

Somos memórias de lobos que rasgam a pele
Lobos que foram homens
e o tornarão a ser

They awake for flesh
Choose pain as a path
Refuse a light
To blind you and me

Full Moon Madness,
We are as one and congregate
Full Moon Madness
We rise again to procreate

Somos memórias de lobos que rasgam a pele
Lobos que foram homens e o tornarão a ser
ou talvez memórias de homens.
que insistem em não rasgar a pele
Homens que procuram ser lobos
mas que jamais o tornarão a ser...

They awake for flesh
Choose pain as a path
Refuse a light
To blind you and me

Full Moon Madness,
We are as one and congregate
Full Moon Madness
We rise again to procreate to seal our fate

Irreverence was cast out from the sky
And eternity lost its sex forever
And under the same heaven they voted to emptiness
They still celebrate under a Full Moon Madness...

They awake for flesh
Choose pain as a path
Refuse a light to blind you and me

Irreverence was cast out from the sky
And eternity lost its sex forever
And under the same heaven they voted to emptiness
We still celebrate under a Full Moon Madness...



Moonspell, Full Moon Madness




Foi esta noite...


Publicado por dolphin.s em 01:35 AM | Comentários (25)

novembro 08, 2003

Que é a vida se lhe tirardes os prazeres? (Fala a Loucura)

Erasmo de RoterdãoNa realidade, que é a vida, se lhe tirardes os prazeres? Merece, então, o nome de vida? Aplaudi-me, meus amigos. Ah! eu sabia que éreis demasiadamente loucos, isto é, demasiadamente sábios, para não serdes da minha opinião... Os próprios estóicos amam o prazer; não o saberiam odiar. Bem dissimulam, bem tentam difamar a volúpia aos olhos do vulgo, cobrindo-a das injúrias mais atrozes, mas isso não passa de simples esgares, pois tratam de afastar os outros, para eles próprios a poderem gozar com maior liberdade. Mas, em nome de todos os deuses, dizei-me, então, qual é o instante da vida que não é triste, aborrecido, enfadonho, insípido, insuportável, se não for misturado com o prazer, isto é, com a loucura. Podia contentar-me com o testemunho de Sófocles, esse grande poeta, jamais suficientemente louvado, e que de mim fez um tão belo elogio, quando disse: A vida mais agradável é a que se vive sem espécie alguma de prudência. Mas examinemos o caso pormenorizadamente.
Antes de mais nada, quem negará a verdade, de que a infância, essa primeira idade do homem, é a mais alegre e a mais encantadora de todas as idades? Amam as crianças, beijam-nas, abraçam-nas, acarinham-nas, tomam cuidado com elas; o próprio inimigo não poderá deixar de as socorrer. Como explicar tudo isto? É que, desde o instante em que nascem, a natureza, essa mãe prudente, espalha à sua volta uma atmosfera de loucura, que encanta os que as criam, os liberta das suas mágoas, e atrai sobre estes pequeninos seres a generosidade e a protecção que necessitam.
E a idade que sucede à infância, que encantos não tem aos olhos das gentes? Com que ardor se interessam por favorecê-la, ajudá-la, socorrê-la! Ora, quem dá, a essa idade encantadora, as graças que a fazem tão querida? Quem lhas dá, senão eu? Afasto dos jovens a sabedoria importuna, e espalho sobre eles o encanto sedutor dos prazeres. E, para que vos não convenceis que estou a falar um tanto no ar, considerai os homens, depois de terem atingido todo o seu crescimento, e quando a experiência das lições sofridas começou a incutir-lhes certa prudência. Assim que a beleza começa a fanar-se, a alegria acaba, as forças diminuem, as graças passam. À medida que se vão afastando de mim, a vida abandona-os, cada vez mais, até que, por último, chegam a essa velhice tão triste que é encargo para o próprio e para os outros.
E, na verdade, não há mortal algum que possa suportar essa velhice, se as misérias da humanidade não me fizessem, uma vez mais, ir em seu auxílio. Tal como os deuses dos antigos poemas, que, quando os mortais estão prestes a perder a vida, os favorecem com qualquer metamorfose, eu também modifico os velhos que estão à beira do túmulo, e arrasto-os, tanto quanto me é possível, para a feliz idade da infância.
Se há alguém que queira saber por que processos opero esta metamorfose, não faço disso mistério algum. Levo-os à nascente do Letes, que é nas Ilhas Afortunadas (porque nos Infernos corre só um pequeno afluente deste rio); aí, faço-os beber, a largos tragos, o esquecimento de todas as misérias desta vida. As suas inquietações e as suas tristezas dissipam-se, a pouco e pouco, e assim rejuvenescem.
Mas, dir-me-eis, talvez, que pode acontecer que eles se excedam, que façam asneiras. Sem dúvida. E é a isso que se chama recair no estado infantil. Fazer disparates, fazer tolices, não é voltar de novo à infância?
Não é pela falta de razão que esta idade nos diverte e nos encanta? Na realidade, uma criança que fosse tão prudente como um homem já feito, não seria detestada por todos, não seria em toda a parte tida como um monstro? O provérbio tem razão, quando diz: Detesto nas crianças a seriedade prematura.
Quem poderia suportar a convivência de um velho que tivesse tanta presença de espírito como reflexão e experiência? Sou eu, portanto, que concedo ao velho o delírio que o faz disparatar; mas, ao mesmo tempo, é um delírio feliz que o afasta para longe de todas as inquietações, de todas as tristezas que atormentam o homem prudente. Agradável conviva, ele ainda sabe, com um copo na mão, festejar os seus amigos. Vive com alegria e mal sente o fardo da existência, que os mais robustos com dificuldade suportam.

in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Publicado por dolphin.s em 04:43 PM | Comentários (4)

Como o sangue...

Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.


José Luís Peixoto, in Antídoto, Dentro e Sobre os Homens

Publicado por dolphin.s em 12:00 PM | Comentários (9)

novembro 07, 2003

A noite que chega...



Vincent Van Gogh - The Starry Night (1889)

Vincent Van Gogh, The Starry Night, 1889

Bom fim-de-semana! :)


Publicado por dolphin.s em 06:09 PM | Comentários (3)

Consciência da Culpa

Friedrich NietzscheMas então como é que veio ao mundo essa outra «coisa sombria» que é a consciência da culpa, tudo aquilo a que se chama «má consciência»?... (...)Será q