outubro 31, 2003

Banal Story



Daniel Blaufuks - Banal Story Daniel Blaufuks - Banal Story


© Daniel Blaufuks

Publicado por dolphin.s em 08:14 PM | Comentários (13)

Bicarbonato de Soda

Fernando PessoaSúbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!


Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 01:52 PM | Comentários (11)

Robot

Mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção — ou não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez. Eu o reconheço de novo, a esse dom» nesta hora de chuva em que escrevo. Na rua deserta, ouço-a cair, expulsar da cidade os robots da ilusão, a grandes brados de um vento sideral. Dirás tu, meu amigo, ou alguém ao pé de ti, que são eles precisamente quem me constrói o mundo onde a «aparição» é possível, este mundo do conforto de um fogão que me aquece, de um telhado que me abriga. Também tenho a minha parte de robot e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à sua entrevista — essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer. Os robots da loucura é que a ignoram, porque o mundo deles é o da transacção imediata, um mundo táctil, de objectos, como o das crianças. Eu os vejo agora, passando desorientados pela rua abandonada, fugindo, espavoridos, à invasão do silêncio. De guarda-chuvas abertos, golas dos casacos erguidas, refugiam-se nas guaritas como animais acossados, aí ficam à espera de que o inimigo passe. Sim, eles conhecem a «fraternidade» e erguem-na corno bandeira da sua redenção. Mas da fraternidade eles sabem apenas a fácil estratégia das palavras trocadas, dos braços que se apoiam uns nos outros contra o medo. Mas a profunda fraternidade — tu o saberás, meu amigo— não é uma cadeia de braços, mas uma comunhão do silêncio, uma comunhão do sangue.

Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 10:32 AM | Comentários (20)

outubro 30, 2003

Lovesick Man


George Grosz, The Lovesick Man, 1916

George Grosz, The Lovesick Man, 1916


Publicado por dolphin.s em 10:28 PM | Comentários (43)

Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto

Eu que me comovo
por tudo e por nada
deixei-te parada
na berma da estrada
usei o teu corpo
paguei o teu preço
esqueci o teu nome
limpei-me com o lenço
olhei-te a cintura
de pé no alcatrão
levantei-te as saias
deitei-te no banco
num bosque de faias
de mala na mão
nem sequer falaste
nem sequer beijaste
nem sequer gemeste
quinhentos escudos
foi o que disseste
tinhas quinze anos
dezasseis, dezassete
cheiravas a mato
à sopa dos pobres
a infância sem quarto
a suor a chiclete
saíste do carro
alisando a blusa
espiei da janela
rosto de aguarela
coxa em semifusa
soltei o travão
voltei para casa
de chaves na mão
sobrancelha em asa
disse: fiz serão
ao filho e à mulher
repeti a fruta
acabei a ceia
larguei o talher
estendi-me na cama
de ouvido à escuta
e perna cruzada
que de olhos em chama
só tinha na ideia
teu corpo parado
na berma da estrada
eu que me comovo
por tudo e por nada.


in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes

Publicado por dolphin.s em 07:57 PM | Comentários (7)

Juízos da vida quotidiana

Robert MusilOs juízos da vida quotidiana e da sua antropologia acertam muitas vezes no vinte, mas passam também, com certa frequência, ao lado. Não foram formados tendo em vista uma verdadeira doutrina; representam, de facto, apenas movimentos de concordância ou de recusa do espírito. Qualquer coisa pode ser estúpida sem o ser necessariamente, que o significado da palavra muda com o contexto, e que a estupidez está estreitamente relacionada com outra coisa sem por isso ultrapassar de nenhum modo o fio que permitiria, se se puxasse por ele, desfazer de uma só vez todo o tecido. A própria genialidade está indissoluvelmente ligada à estupidez; e a interdição, sob risco de se passar por estúpido, de falar demasiado de si foi contornada pela humanidade de modo original: inventando o escritor. Ele tem o direito, em nome do sentido do humano, de contar que comeu bem, que o sol brilha no céu, tem o direito a exteriorizar, a divulgar segredos, a fazer confidências, a apresentar brutalmente balanços pessoais — pelo menos muitos deles fazem-no! —; tudo isso como se a humanidade se autorizasse nesse caso excepcionalmente aquilo que se proíbe em todos os outros. Desse modo, ela fala incansavelmente de si própria e contou já, milhões de vezes, graças aos escritores, as mesmas histórias e as mesmas aventuras, sem com isso obter o menor progresso ou acréscimo de sentido. Não seria ela, no uso que faz da sua literatura e na docilidade que revela em relação a esse uso, suspeita afinal de contas de estupidez? Quanto a mim não considero isso absolutamente impossível!

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 12:20 PM | Comentários (2)

Dormimos a vida

Fernando PessoaQuando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha
adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo. (...)
Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes - tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 10:34 AM | Comentários (5)

outubro 29, 2003

...

Oscar WildeAdoro teatro. É muito mais real do que a vida.



Oscar Wilde, in O Retrato de Dorian Gray


alguém me disse hoje que esta frase é a minha cara :)



Publicado por dolphin.s em 10:01 PM | Comentários (22)

Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

Ary dos Santos

Publicado por dolphin.s em 01:35 PM | Comentários (23)

You

Sarah KaneAnd I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy's and talk about the day and type your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you're sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the the programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breasts your arse your

and sit on the steps smoking till your neighbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you're late and be amazed when you're early and give you sunflowers and go to your party and dance till I'm black and be sorry when I'm wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I'd known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you're angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you're gorgeous and hug you when you're anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I'm next to you and whimper when I'm not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don't and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I'm rejecting you when I'm not rejecting you and wonder how you could think I'd ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don't believe me and have a feeling so deep I can't find words for it and want to buy you a kitten I'd get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid of the roaches and buy you presents you don't want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don't mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it's empty without you and want want you want and think I'm losing myself but know I'm safe with you and tell you the worst of me and try to give you the best of me because you don't deserve any less and answer your questions when I'd rather not and tell you the truth when I really dont' want to and try to be honest because I know you prefer it and think it's all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it's a beautiful learning to know you and well worth the effort and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overwhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you.


Sarah Kane, in Crave

Publicado por dolphin.s em 10:36 AM | Comentários (13)

Um Raio de Sol



Daniel Blaufuks

© Daniel Blaufuks


afinal hoje o Sol até brilhou :)

Publicado por dolphin.s em 12:06 AM | Comentários (34)

outubro 28, 2003

Wishlist

Eddie VedderI wish I was a neutron bomb, for once I could go off.
I wish I was a sacrifice but somehow still lived on.
I wish I was a sentimental ornamnet you hung on
The christmas tree, I wish I was the star that went on top,
I wish I was the evidence
I wish I was the grounds for fifty million hands up raised and opened toward the sky.

I wish I was a sailor with someone who waited for me.
I wish I was as fortunate, as fortunate as me.
I wish I was a messenger, and all the news is good.
I wish I was the full moon shining off your camaro's hood.

I wish I was an alien, at home behind the sun,
I wish I was the souvenir you kept your house key on.
I wish I was the pedal break that you depended on.
I wish I was the verb to trust, and never let you down.

I wish I was the radio song, the one that you turned up,
I wish, I wish, I wish, I wish,

I guess it never stops.


Pearl Jam, Yield

Publicado por dolphin.s em 07:20 PM | Comentários (39)

É tudo mentira...

Herberto HelderRepeti: —Avó — e a mão agitou-se, sem eu saber o que significava isso quanto à eficácia das vozes e à existência dessa tal atenção que se reconduziria, etc. — Quer que chame o padre?
Sim, decerto: já expliquei. Ela frequentava o culto, mandava celebrar missas pelos seus mortos, confessava-se e comungava. Já disse: com que distracção, intenções, etc., etc. Bem: vejo-me assim a servir os poderes que ignoro, a realidade que ignoro, a ficção, as ficções que ignoro. Papel próprio para a juventude. E agora há mais forças. Estou cercado por forças de que mal vislumbro a natureza e a acção. Cada vez mais forças, pois estou diante da idade e ela chama novos poderes, sombrios poderes, sombrios enigmas. E depois, com a ideia de que lá fora a estação é de alto esplendor, de convite à pura exaltação, à inexperiência, à inocência — fico ainda mais inepto.
A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:
— É tudo mentira...
Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas — fulgurante e estúpida.
Assim é porventura a sabedoria: vil, esmagadora. O único tempo que lhe pertence deve ser a idade, mas quando dela se aproxima um jovem fascinado que a si mesmo impôs a condição de mensageiro, como se quisesse tocar no gelo, convencido — ele! — de que o calor dos poucos anos poderá fundir o gelo, então o gelo agarra a idiota mão quente, e queima-a.
A Avó morreu nesse mesmo dia.


Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Equação

Publicado por dolphin.s em 03:01 PM | Comentários (19)

A Poesia vai Acabar, o livro

Antologia de poesia realizada por bloggers, organizada pela Janela Indiscreta.

Podem fazer download do livro clicando na imagem. O ficheiro está em formato pdf (Acrobat Reader) e tem 568Kb.

A Poesia vai Acabar


post no Rain Song com mais detalhes.

Publicado por dolphin.s em 12:31 PM | Comentários (9)

Arte e Emoção Estética

Templo de DianaLembro-me perfeitamente, meu amigo, de quando pela primeira vez vi o Templo de Diana. Era em Setembro, eu viera fazer exames, conhecia o Templo dos livros, das fotografias. Ignoro ainda se o monumento se alinha entre as belas obras de arte, essas perante as quais estamos todos autorizados a comover-nos. Ignoro-o, porque hoje sei que o milagre pode surgir quando menos o suspeitamos: uma frase musical de um tocador ambulante, o assobio de quem passa, um talo de erva que irrompe de uma juntura de pedras, podem alvoroçar-nos como a mais pura e evidente aparição de beleza. Subi a rua que vai da Praça, mal reparei então na Sé, obscurecida a um canto, cheguei enfim à acrópole onde se ergue o Templo. Catorze colunas nuas levantam-se para os astros banhadas da lua quente que iluminava o largo. Viam-se as estrelas por entre elas, o espaço habitava a sua irrealidade, irradiava essa mão de pedra à sua infinitude. Suspenso de memória e de uma obscura interrogação, ali fiquei algum tempo, tocado dessa indistinta surpresa que é o halo do limiar da vida, a anunciação das origens. Tenho visitado o Templo a outras horas de lua; mas jamais o alarme me visitou assim puro e fulminante, talvez porque o sabê-lo, o procurá-lo, lhe velava uma pouco a face - talvez porque ele só reconhece a verdade de quem não está prevenido, de quem vem desarmado dos combates diurnos.


Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro

Publicado por dolphin.s em 10:30 AM | Comentários (6)

Refúgio



Gustave Courbet - The Oak at Flagey (1864)


Gustave Courbet, The Oak at Flagey, 1864

Publicado por dolphin.s em 12:50 AM | Comentários (9)

outubro 27, 2003

Chega Através

Fernando PessoaChega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento,
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.
Adormeço sem dormir, ao relento da vida.
É inútil dizer-me que as acções têm consequências.
É inútil eu saber que as acções usam consequências.
É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.

Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.

Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.

Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.


Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 07:26 PM | Comentários (10)

Monopolizar a sabedoria

Evidentemente que o que é proscrito quando a ordem reina são as intenções desmesuradas e à margem dos costumes. E depois de termos falado da vaidade que os povos e os partidos exibem hoje à força de se pensarem esclarecidos, é preciso agora acrescentar que a maioria epicuriana — exactamente como o indivíduo megalómano nos seus sonhos despertos — monopolizou não apenas a sabedoria, mas ainda a virtude, e considera-se corajosa, nobre, invencível, piedosa e bela; tanto mais que os homens, no mundo actual, têm tendência, desde que sejam em grande número, a permitir-se tudo o que lhes é proibido enquanto indivíduos. Imediatamente, ao ver estes privilégios do "nós" que se tornou enorme, tem-se a impressão que o trabalho de civilização e domesticação crescentes do indivíduo deve ser compensado por uma descivilização proporcional das nações, dos estados e das confrarias políticas (...)

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 01:31 PM | Comentários (0)

Viajo para escrever

Al BertoA escrita exige mais escrita. Escrever, o acto de escrever, exige continuidade.
Talvez seja essa a razão de viajar. A verdade é que viajo para escrever. Faço assim a minha aprendizagem de escritor. Aprendizagem lenta do movimento sinuoso do mundo. E talvez não haja melhor sítio para entender esse movimento do que esta ilha, onde mal cresce a erva - e tudo parece morto.
Caminho às cegas, obsessivamente, de palavra em palavra - e sei que as palavras não valem nada. Estão ocas. Atraiçoam-me. Mas apesar de tudo, continuo a fingir que acredito nelas. Uso-as com a convicção firme de quem acaba de descobrir qualquer coisa e dela se apropria. É tudo mentira, claro.


Al Berto, in O Anjo Mudo, Baunei/Dórgalo/Nuoro

Publicado por dolphin.s em 10:40 AM | Comentários (19)

outubro 26, 2003

O cansaço de todas as ilusões

O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 08:49 PM | Comentários (13)

Fabricação dos Ideais

Friedrich Nietzsche— Haverá alguém com vontade de mergulhar um pouco nos segredos da fabricação dos ideais? Quem tem coragem?... Pois bem! Eis uma perspectiva sobre essa oficina tenebrosa. O caro Sr. Curioso e Temerário fará o favor de esperar apenas um momento, para que os olhos se possam habituar a esta luz cintilante e falsa... Pronto! Já chega! Podeis falar agora! Que se passa lá em baixo? Dizei-me, vós, que sois homem da mais arriscada curiosidade, dizei-me o que vedes... Agora sou eu que escuto...
— Nada vejo, mas em compensação ouço muito bem. Ouço um murmúrio, gente que sussurra baixinho, por todos os cantos, com a prudência da traição. Quer-me parecer que é gente que mente: os sons têm todos uma brandura melíflua... Sim, sem dúvida... Querem fazer passar a fraqueza por um mérito! Tal como havíeis dito...!
— Mais!
— E querem fazer passar a impotência, incapaz de ripostar, por «bondade»; e a baixeza timorata por «humildade»; e a submissão aos odiados por «obediência» (obediência sobretudo a alguém que dizem que lhes ordena a submissão e a quem chamam «Deus»). E a inofensividade do fraco, a própria cobardia em que ele é pródigo, aquele seu hábito incontornável de ficar à porta, de ter que esperar, tudo isso recebe aqui nomes positivos, por exemplo, «paciência». Chamam-lhe mesmo «a virtude»! O não-poder-vingar-se chama-se «não-querer-vingar-se», talvez mesmo «perdão» («porque eles não sabem o que fazem*... só nós sabemos o que eles fazem!»). E falam também de «amor para com os inimigos»**... E transpiram quando falam nisso...
— Mais!
— São miseráveis, sem dúvida, estes moedeiros falsos, sempre a segredar pelos cantos..., miseráveis, por muito que se aqueçam uns aos outros, de tão juntos que se acocoram... Mas dizem-me agora que a sua miséria é o sinal de que foram escolhidos, eleitos por Deus, porque dá-se mais pancada aos cães de que mais se gosta... E que esta sua miséria talvez seja uma preparação, uma prova, uma aprendizagem, ou talvez ainda mais... uma experiência que terá um dia a sua recompensa com juros enormes, uma retribuição em ouro... Não! Em felicidade! E a isto chamam «bem-aventurança».
— Mais!
— Agora querem dar-me a entender que, não só são melhores do que os poderosos, do que os senhores do mundo que eles têm de bajular (não por medo, de modo algum!... apenas porque Deus manda honrar as autoridades), mas que também «estão melhor servidos», ou que pelo menos um dia estarão melhor servidos... Mas já me chega! Chega! Já não aguento! Este ar pestilento! Este cheiro! Sinto que toda esta oficina em que se fabricam ideais cheira a podre, a podridão da mentira completa!
— Não! Um momento mais! Nada me haveis dito ainda sobre a obra-prima destes prestidigitadores, que é a capacidade de transformarem tudo o que é negro em branco, em leite, em inocência... Não haveis notado a perfeição que atingem, o refinamento de que são capazes, aquela arte de manipulação da mais elevada ousadia, delicadeza, espirituosidade e da mais profunda mentira? Tomai atenção! Estes animais subterrâneos, cheios de ódio e de desejo de vingança, que fazem eles precisamente com esse ódio e essa sede de vingança? Haveis-Ihes ouvido tais palavras? Se confiásseis nas palavras que dizem, suspeitaríeis que estivésseis perante homens do mais completo ressentimento?
— Estou a perceber. Vou abrir de novo os ouvidos (mas, ai, ai, o nariz não abro). Só agora ouço o que eles já repetiram tantas vezes: «Nós, os bons... nós somos os justos.» E o que eles exigem, não lhe chamam «desforra» chamam-lhe «triunfo da justiça». E o que eles odeiam não é o inimigo, não, dizem antes que odeiam a «injustiça», a «impiedade». E aquilo em que acreditam, em que depositam as suas esperanças, não é desejo de vingança, não é a embriaguez deliciosa da vingança («mais doce do que o mel», já dela dizia Homero***), chamarn-lhe antes o «triunfo de Deus», do Deus da justiça sobre os infiéis. E o que lhes resta amar neste mundo não são os que com eles se irmanam no ódio, dizem que são pelo contrário os seus «irmãos no amor», todos «os bons e justos do mundo».
— E que nome dão àquilo que lhes serve de consolação para todos os sofrimentos da vida... essa fantasmagoria que antecipa uma beatitude futura?
— Como? Será que ouço bem? Chamam-lhe o «último juízo», dizem que será a vinda do seu reino, do «reino de Deus»..., e que, até lá, vivem «na fé», «no amor», «na esperança».
— Basta! Basta!

* Lucas: 23, 34
** Mateus: 5, 44
*** Homero, Ilíada, 18, 109

in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Publicado por dolphin.s em 05:41 PM | Comentários (3)

Poema pouco original do medo

Alexandre O'NeillO medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Alexandre O'Neill

Publicado por dolphin.s em 12:12 PM | Comentários (16)

outubro 25, 2003

After Rain



Paul Cornoyer - Plaza After Rain


Paul Cornoyer, Plaza After Rain

Publicado por dolphin.s em 07:52 PM | Comentários (5)

Chove muito

Chove muito, mais, sempre mais... Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro...
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração actual.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em 05:41 PM | Comentários (6)

A maior de todas as divindades (Fala a Loucura)

Os EstoicosSe é com razão que se diz: Ser deus é fazer bem aos homens, se é com justiça que elevaram à categoria de Imortais os que inventaram o pão, o vinho, ou que conseguiram para o seu semelhante qualquer outro beneficio desta espécie, não devo eu ser considerada como a maior de todas as divindades, eu que espalho sobre os mortais, sem distinção, as maiores mercês e os maiores bens?
Depois dos deuses, os estóicos são, pelo menos, segundo a sua própria opinião, os mais sublimes de todos os seres. Pois bem, dêem-me um estóico, seja ele três ou quatro rnil vezes mais estóico do que todos os estóicos juntos, a ver se consigo que corte as barbas, que considera como o símbolo da sabedoria, se bem que esse símbolo tenha qualquer coisa de comum com os bodes. Mas, pelo menos, forçá-lo-ei a abandonar o seu ar tristonho, apagar-lhe-ei as rugas da fronte, fazê-lo-ei renunciar aos seus severos princípios; entregar-se-á, durante certo tempo, ao prazer, à extravagância, à loucura. Resumindo: por mais prudente que possa ser, se quiser procurar os prazeres do mundo, é a mim, e só a mim, que terá de recorrer.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

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Hallelujah

John Cale cantou esta noite...


Jeff Buckley i heard there was a secret chord
that david played and it pleased the lord
but you don't really care for music, do you
well it goes like this the fourth, the fifth
the minor fall and the major lift
the baffled king composing hallelujah

hallelujah...

well your faith was strong but you needed proof
you saw her bathing on the roof
her beauty and the moonlight overthrew you
she tied you to her kitchen chair
she broke your throne and she cut your hair
and from your lips she drew the hallelujah

hallelujah...


John Calebaby i've been here before
i've seen this room and i've walked this floor
i used to live alone before i knew you
i've seen your flag on the marble arch
but love is not a victory march
it's a cold and it's a broken hallelujah

hallelujah...

well there was a time when you let me know
what's really going on below
but now you never show that to me do you
but remember when i moved in you
and the holy dove was moving too
and every breath we drew was hallelujah

well, maybe there's a god above
but all i've ever learned from love
was how to shoot somebody who outdrew you
it's not a cry that you hear at night
it's not somebody who's seen the light
it's a cold and it's a broken hallelujah

hallelujah...


Leonard Cohen

Publicado por dolphin.s em 01:50 AM | Comentários (4)

outubro 24, 2003

Meu amigo:

Vergilio FerreiraEscrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos... É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de acaso, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobre tudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam. Ouço as vozes subterrâneas à alegria mecânica, aos passos cronometrados, à azafama de nervo e esquecimento que adivinho ao longe, numa metrópole-síntese construída em arame e cimento, e é bom que essas vozes ressoem na minha boca

Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro

uma prenda! :)))

Publicado por dolphin.s em 08:43 PM | Comentários (16)

Aprendiz de viajante

Al BertoUm dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha quinze anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite... Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti. Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude. Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava: no meio das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo» em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida, se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas. Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida. Caminha, assim, com a leveza de quem abandonou tudo. Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, vêem. O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único, não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo.


in O Anjo Mudo, Al Berto

Publicado por dolphin.s em 02:59 PM | Comentários (4)

O principio da Liberdade gastou-se em quinhentos anos

A Democracia não tem outro sentido a não ser o de um correctivo individualista de toda a forma de absolutismo do Estado. A Verdade e a Justiça são as insígnias reais da moral individual, e no caso de um conflito com os interesses estatais talvez assumam até a aparência de potências inimigas do Estado, posto que, na realidade, visem o seu bem superior, digamo-lo: o bem supra-terreno do Estado. O Renascimento como origem da idolatria do Estado! Que lógica bastarda! As conquistas—emprego essa palavra no sentido literal!—as conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu caro senhor, chamam-se a Personalidade, os Direitos do Homem, a Liberdade!
Os ouvintes soltaram a respiração que haviam contido durante a grande réplica do sr. Settembrini. A seguir, porém, ambos se voltaram para o interlocutor que acabava de ser vitoriosamente rechaçado. Hans Castorp fê-lo com tamanha impaciência, que fincou o cotovelo na mesa e o queixo no punho mais ou menos na posição de quem desenha um porquinho, e fitou o sr. Naphta de muito perto e com imensa atenção.
Este achava-se sentado, calmo e cortante, apoiando as mãos magras sobre os joelhos. Disse:
—Tento introduzir um pouco de lógica na nossa discussão e a sua resposta baseia-se em frases generosas. Que o Renascimento deu à luz tudo aquilo que se chama liberalismo, individualismo, humanismo burguês é um facto que eu não desconhecia. Mas o seu «sentido literal» deixa-me frio. A idade «conquistadora», heróica, dos seus ideais há muito que passou; esse ideal está morto ou pelo menos agonizante, e aqueles que lhe darão o golpe de misericórdia já se acham próximos. Se não me engano, o senhor arvora-se em revolucionário. Mas se acredita que o resultado das revoluções futuras será a Liberdade, iludiu-se redondamente. O principio da Liberdade cumpriu o seu destino e gastou-se em quinhentos anos. Uma pedagogia que pretende ser ainda hoje a filha do Racionalismo e vê os seus meios formativos na crítica, na libertação e no culto do Eu, na destruição de formas de vida determinadas de um modo absoluto — tal pedagogia pode obter hoje ainda triunfos passageiros, porém o seu carácter atrasado é óbvio para os espíritos avisados. Todas as organizações verdadeiramente educadoras souberam sempre o que na realidade deve ser o último objectivo da pedagogia: a autoridade absoluta, uma disciplina de ferro, o sacrifício, a renúncia do Eu, a violação da personalidade. Em última análise, é desconhecer e não amar a juventude pensar que ela sente prazer na Liberdade. O seu prazer mais profundo é a obediência.
Joachim empertigou-se. Hans Castorp corou. O sr. Settembrini, agitado, torcia nervosamente o belo bigode.
—Não—prosseguiu Naphta.—O segredo e a exigência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do Eu. O de que ela necessita, o que deseja, o que criará é o Terror.


in a Montanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em 10:32 AM | Comentários (9)

outubro 23, 2003

Two Women


Egon Schiele, Two Women - 1915


Egon Schiele, 1915

Publicado por dolphin.s em 07:45 PM | Comentários (4)

Nós, os fracos, somos de facto fracos

Friedrich NietzscheQuando os oprimidos, os esmagados, os violentados, do fundo da sua astúcia vingativa, se põem a dizer: «Sejamos diferentes dos malvados! Sejamos, portanto, bons! Bom é aquele que não violenta, que não ofende ninguém, que não ataca, que não retalia, que entrega a vingança a Deus, aquele que, como nós, permanece na obscuridade, que evita o mal e que muito pouco exige da vida, como nós que somos pacientes, humildes e justos...», o que isto significa, observado friamente e sem preconceito, é afinal apenas o seguinte: «Nós, os fracos, somos de facto fracos; é bom que não façamos nenhuma daquelas coisas para as quais não somos suficientemente fortes...» Mas esta constatação crua, esta prudência da mais baixa ordem, que até os insectos mostram possuir (quando, em situações de maior perigo, se fingem mortos, para não fazerem nada «em demasia»), graças à falsificação e ao auto-engano que são próprios da impotência, mascarou-se com as roupagens pomposas da virtude que sabe renunciar e esperar em total quietude, como se a fraqueza do fraco — ou seja, afinal a sua essência, o seu modo de agir, a sua realidade única, inelutável, inalienável — fosse ela própria algo de livremente escolhido, algo resultante da vontade, um acto, um mérito. Esta espécie de homens, por via de um instinto de sobrevivência e de auto-afirmação que consegue santificar todas as mentiras, precisa da crença na liberdade de escolha de um sujeito neutro. É por isso que o sujeito (ou, em termos mais populares, a alma) é talvez o melhor dogma até hoje surgido no mundo, uma vez que veio abrir à multidão de mortais, de fracos e de oprimidos de toda a espécie a possibilidade de se enganarem a si próprios com a sublime mentira que interpreta a fraqueza como liberdade e o facto de serem assim como um mérito.


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Publicado por dolphin.s em 02:12 PM | Comentários (10)

Aos amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder

Publicado por dolphin.s em 10:33 AM | Comentários (27)

outubro 22, 2003

On the edge...

On the edge...


in Dog Dogs, Elliot Erwitt ©

Publicado por dolphin.s em 08:37 PM | Comentários (0)

O medo de parecer estúpido

Robert MusilO medo de parecer estúpido tal como o de ferir as conveniências faz com que inúmeros homens se pensem inteligentes evitando dizê-lo. E se forem constrangidos, apesar de tudo, a falar disso, recorrem a perífrases do género: "Não sou mais estúpido que qualquer outro." Mas em geral prefere dizer-se, num tom tão neutro e objectivo quanto possível, o seguinte: "Creio poder dizer que tenho uma inteligência normal." Outras vezes, a convicção de ser inteligente surge de viés, como na seguinte frase idiomática: "Não me deixo passar por estúpido!" A coisa é tanto mais notável quanto não é apenas o indivíduo privado que se julga, no segredo do seu coração, extraordinariamente inteligente e bem dotado, mas ainda o homem público que diz e faz dizer dele, mal tenha poder para isso, que é supremamente inteligente, esclarecido, nobre, soberano, gracioso, eleito de Deus e votado a um destino histórico. Chega mesmo ao ponto de o dizer de outro, desde que o reflexo dele aumente o seu próprio brilho. Encontramos vestígios fossilizados e quase definitivamente mortos disso em títulos como Vossa Majestade, Vossa Eminência, Vossa Excelência ou Vossa Graça; mas isso readquire plena vitalidade hoje, sempre que um homem fala na qualidade de massa. Sobretudo uma certa camada inferior das classes médias — intelectual e moralmente falando — exibe a este respeito uma pretensão absolutamente indecente desde que, manifestando-se ao abrigo de um partido, de uma nação, de uma seita ou mesmo de uma tendência artística, se sente autorizada a dizer "nós" em vez de "eu".

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 04:00 PM | Comentários (7)

All alone

Layne StaleyAll alone
We're all alone...
We're all alone...


Layne Staley, para música do álbum Above, dos Mad Season

Publicado por jm em 12:10 PM | Comentários (16)

A Origem (Fala a Loucura)

Agora, auditores muito, muito... como hei-de eu dizer?... auditores muito loucos? Porque não? É o título mais honroso que a Loucura pode dar aos seus iniciados. Pois muito bem, então, auditores muito loucos, agora já sabeis qual é o meu nome. Mas como há muitas pessoas que ignoram a minha origem, vou tentar dá-la a conhecer, mediante o auxílio das Musas*.
Meu pai não me concebeu no seu cérebro, como outrora Júpiter concebeu essa vilã e impertinente Minerva; mas deu-me por mãe Neotete, a Juventude, a mais alegre, a mais bela, a mais viva de todas as ninfas. Também não sou fruto do fastidioso dever conjugal, como o coxo do Vulcano; nasci, como disse o bom Homero, dos deliciosos arrebatamentos do amor. E para que vos não iludais, não foi quando já estava velho e quase cego, como o descreve Aristófanes, que Pluto me engendrou; mas outrora, quando se sentia em todo o vigor da sua idade, quando o fogo da juventude lhe ardia nas veias, e num desses agradáveis momentos, em que o néctar, bebido à mesa dos deuses, o enchera de bom humor.
Quereis, por ventura, que vos diga, também, qual o local do meu nascimento, porque hoje em dia acredita-se que o lugar em que uma criança viu pela primeira vez a luz do sol, é muito importante para a sua nobreza. Dir-vos-ei, no entanto, que não nasci nem na ilha flutuante de Delos, nem sobre as ondas do mar, nem nas profundas cavernas; vi o dia nas Ilhas Afortunadas, país encantador, onde a terra, sem ser cultivada, produz os mais ricos frutos. O trabalho, a velhice, as doenças são ignoradas naqueles felizes campos. Ali não se vê crescer, nem malvas, nem tremoços, nem fava, nem nenhuma dessas outras plantas que não servem senão para as terras vulgares. O moli, a panaceia, o nepentes, a manjerona, as rosas, as violetas e os jacintos encantam por toda a parte o olfacto e a vista, e fazem, desses maravilhosos lugares, jardins mil vezes mais encantadores do que os jardins de Adónis.
Aparecida no meio deste ambiente maravilhoso o meu nascimento não foi anunciado com as minhas lágrimas; assim que nasci, viram-me sorrir graciosamente para minha mãe. Faria muito mal se invejasse Júpiter, por ter sido amamentado por uma cabra, pois as duas mais graciosas ninfas do mundo, Meteia, a Embriaguez, filha de Baco, e Apoedia, a Ignorância, filha de Pã, foram as minhas amas. Vê-las-eis, aqui, entre as minhas companheiras, no meio do meu séquito.
Mas, já que falei do meu séquito, é preciso que vo-lo apresente. Aquele que vos olha com um ar arrogante é o Amor-Próprio. Aquela, de rosto gracioso e mãos sempre prontas a aplaudir, é a Lisonja. Ali, podeis ver a deusa do Esquecimento, que se deixa dormir a cada instante, e parece já estar a pegar no sono. Mais além, a Preguiça, de braços cruzados e encostada aos cotovelos. Não reconheceis a Volúpia, pelas grinaldas, pelas coroas de rosas e pelas essências deliciosas com que se perfuma? Não reparais naquela que passeia por toda a parte os seus olhares descarados e impudentes? E a Demência. Aquela outra, cuja pele é tão lustrosa, e o corpo tão gordo e tão rubicundo, é a deusa das Delícias. Mas, entre todas estas deusas, também encontrareis deuses. Um é Comos, outro é Morfeu.
Com o auxílio destes fiéis servidores, submeto ao meu domínio tudo quanto existe no universo. É com eles que governo os que governam o mundo.


* Erasmo considera esta obra como uma ficção poética.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Publicado por dolphin.s em 10:28 AM | Comentários (0)

outubro 21, 2003

Unloveable

The SmithsOh ...
I know I'm unloveable
You don't have to tell me
I don't have much in my life
But take it - it's yours
I don't have much in my life
But take it - it's yours
Oh ...

I know I'm unloveable
You don't have to tell me
Oh, message received
Loud and clear
Loud and clear
I don't have much in my life
But take it - it's yours

I know I'm unloveable
You don't have to tell me
For message received
Loud and clear
Loud and clear
Message received
I don't have much in my life
But take it - it's yours

I wear Black on the outside
'Cause Black is how I feel on the inside
I wear Black on the outside
'Cause Black is how I feel on the inside

And if I seem a little strange
Well, that's because I am
If I seem a little strange
That's because I am

But I know that you would like me
If only you could see me
If only you could meet me

Oh ...
I don't have much in my life
But take it - it's yours
I don't have much in my life
But take it - it's yours
Oh ...


The Smiths, in "The World Won't Listen"

Publicado por dolphin.s em 07:26 PM | Comentários (2)

Cães, Marinheiros

Herberto HelderEra um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. — Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento de base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. — Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mante-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. — Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. — Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. — Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. — Adora-as, respondeu a cadela. — Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. — Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. — O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. — Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. — Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. — Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?


in Os Passos em Volta, Herberto Helder

Publicado por dolphin.s em 01:34 PM | Comentários (0)

Todos os Dias

A guerra já não se declara,
prossegue-se. O inaudito
tornou-se quotidiano. Os heróis
ficam longe dos combates. Os fracos
são transferidos para as zonas de fogo.
A farda do dia é a paciência,
a medalha a pobre estrela
da esperança sobre o coração.

Conferida
quando nada mais acontece,
quando o tiroteio emudece,
quando o inimigo se torna invisível
e a eterna sombra das armas
recobre o céu.

Conferida
por deserção da bandeira,
por coragem face ao amigo,
por denúncia dos segredos infames
e por desobediência
a todas as ordens.


Ingeborg Bachman
tradução de José Lima para a revista DiVersos nº 1

Publicado por dolphin.s em 10:32 AM | Comentários (4)

outubro 20, 2003

Mulher



Munch - Puberty

Edvard Munch, Puberty

Munch - Madonna

Edvard Munch, Madonna


Publicado por dolphin.s em 08:03 PM | Comentários (5)

Onde fica a Verdade?

Thomas MannOnde fica a Verdade, senhor, que anda intimamente ligada à liberdade, e cujos mártires, longe de insultarem a Terra, como o senhor pensa, permanecerão o eterno ornamento deste astro?
O sr. Settembrini tinha uma maneira vigorosa de interrogar. Estava sentado, muito erecto, e deixava cair sobre o pequeno Naphta as suas palavras honestas. (...)
—Caro amigo, não existe conhecimento puro. É indiscutível a legitimidade da concepção religiosa da Ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: «Creio para que possa conhecer». A Fé é o órgão do conhecimento; o intelecto é secundário. A sua ciência sem premissas não passa de um mito. Há sempre uma fé, uma concepção do Mundo, uma ideia, numa palavra: uma vontade, e cabe à Razão explicá-la e comprová-la sempre c em todos os casos, Trata-se de chegar ao «Quod erat demonstrandum» A simples ideia da prova contém, psicologicamente considerada, um nítido elemento voluntarista. Os grandes escolásticos dos séculos XII e XIII eram unânimes na convicção de que na Filosofia não podia ser verdade o que era falso perante a Teologia. Deixemos de lado a Teologia, se assim o quiser; mas uma humanidade que não reconhecesse que nas Ciências Naturais não pode ser verdade o que é falso perante a Filosofia, não seria uma humanidade. A argumentação do Santo Ofício contra Galileu reduziu-se a isto: os seus princípios eram filosoficamente absurdos. Não pode haver argumentação mais incisiva.
—Ora, ora! Os argumentos do nosso pobre e grande Galileu mostraram-se mais sólidos. Não, professore, falemos seriamente! Diante destes dois jovens tão atentos responda-me à seguinte pergunta: acredita o senhor numa Verdade, verdade objectiva e científica, que a lei suprema de toda moralidade nos manda procurar, e cujos triunfos sobre a autoridade formam a história gloriosa do espírito humano?
Hans Castorp e Joachim voltaram os seus rostos de Settembrini para Naphta, o primeiro mais rapidamente do que o segundo. Naphta respondeu:
—Tal triunfo não é possível, porque a autoridade é o Homem, o seu interesse, a sua dignidade, a sua salvação, e entre ela e a verdade não pode haver conflito. Confundem-se.
—A verdade seria, por conseguinte...
—É verdadeiro o que convém ao Homem. Nele se acha concentrada toda a natureza; apenas ele foi criado em toda a natureza, toda a natureza só para ele foi feita. Ele representa a medida das coisas, e a sua salvação é o o critério da verdade.


in a Montanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em 01:35 PM | Comentários (4)

A noite desce sobre a cidade

Al BertoA noite desce sobre a cidade. Faz calor. A lua mergulha no espelho negro dos asfaltos, acende-se no fundo do rio.
Procuro-te nos rostos que passam. Sei que todos eles abrigam a tua morte. Nenhum deles evoca o sorriso que te pertenceu.
Qual deles, ao ser tocado, se metamorfoseará em vidro? E se quebrará nas minhas mãos.
Qual deles leva teu nome escondido nos lábios?
Qual deles oferecerá ou venderá o corpo?
Qual deles, como tu, acordará um dia esquecido de que está vivo?
A noite esvazia-se. Nenhuma música enche a tua morte.
Caminho desamparado, embora saiba que uma aragem te acordará em mim e, o álcool ajudando, a terra ser-te-á leve...
Qual deles venderá o corpo?
Qual deles ousará pousar a mão na minha lepra?
Caminho desamparado.
A noite abre-se, imensa, e o tempo passa sobre o rosto como um fogo que tudo apaga.
Os meus passos vão no sentido contrário ao teu sossego.
Os dias avançam sem paixão. Os dias recuam e não encontro ninguém.


in O Anjo Mudo, Al Berto

Publicado por dolphin.s em 10:34 AM | Comentários (10)

Mapa-Múndi

Sento-me à mesa de trabalho. Inclino a cabeça para a memória dos livros que li e amei.
Com um gesto de ave pouso a mão sobre o papel. E no interior da sombra da mão, começo a escrever: era uma vez...


in O Anjo Mudo, Al Berto

Publicado por dolphin.s em 01:40 AM | Comentários (8)

outubro 19, 2003

Interespécies (mais um roubo...)

Ah, se o amor fosse mesmo livre...

Interespécies


desta vez o alvo a que não resisti roubar o post foi o Os Tempos que Correm
Espero que o Miguel não se importe.

Publicado por dolphin.s em 04:57 PM | Comentários (29)

A minha revolução não dá um passo

Herberto HelderOs dias longos, as noites no meio do mar. Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo. E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento. Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo. Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. Literatura. Merda. Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-da-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe. Posso especular sobre a revolução, evidentemente. Que revolução? A revolução, claro. Pois é: a minha revolução não dá um passo.


in Os Passos em Volta - Como se vai para Singapura, Herberto Helder

Publicado por dolphin.s em 12:57 PM | Comentários (12)

Estou liberto e perdido

Quantas vezes, presa da superfície e do bruxedo, me sinto homem. Então convivo com alegria e existo com clareza. Sobrenado. E é-me agradável receber o ordenado e ir para casa. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me qualquer coisa orgânica. Se medito, não penso. Nesses dias gosto muito dos jardins.
Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização - uma modificação anónima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas - ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente.
Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre recantos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertence a ela.
Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.
Mas a ilusão não dura muito, tanto porque não dura como porque a noite vem. E a cor das flores, a sombra das árvores, o alinhamento de ruas e canteiros, tudo se esbate e encolhe. Por cima do erro e de eu estar homem abre-se de repente, como se a luz do dia fosse um pano de teatro que se escondesse para mim, o grande cenário das estrelas. E então esqueço com os olhos a plateia amorfa e aguardo os primeiros actores com um sobressalto de criança no circo.
Estou liberto e perdido.
Sinto. Esfrio febre. Sou eu.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares


Publicado por dolphin.s em 02:35 AM | Comentários (4)

outubro 18, 2003

Anxiety


Munch - Anxiety

Edvard Munch

Publicado por dolphin.s em 08:27 PM | Comentários (46)

Roubo!

E depois, meu amigo, enquanto temos um instrumento na mão, não sabemos que temos um instrumento na mão... Todo o gesto, enquanto tal, enquanto se executa, limita-se em si mesmo, esquece a sua origem: toda a acção trai a força que a gerou, porque ela é em si própria um princípio e um fim.

Vergílio Ferreira, in "Carta ao Futuro"


roubo, foi o que fiz ao Citador ao copiar este excerto de um post ;)
não resisti...

Publicado por dolphin.s em 05:08 PM | Comentários (13)

Presas mais fáceis

Mas a estupidez — é uma objecção que aqui se torna inevitável — longe de apaziguar sempre, pode mesmo irritar. Para sermos sucintos, digamos que ela excita habitualmente a impaciência, mas também, em circunstâncias extraordinárias, a crueldade; e os excessos odiosos desta crueldade doentia que habitualmente se designa por sadismo, mostra muitas vezes, no papel de vítimas, os imbecis. Isso resulta evidentemente do facto de eles serem para os seres cruéis as presas mais fáceis; mas parece estar igualmente associado ao facto de que a incapacidade de resistir que emana de toda a sua pessoa excita a imaginação como o odor do sangue o animal feroz, e arrastando-o para uma espécie de deserto onde a crueldade "vai muito longe" devido ao facto, ou quase só ao facto, de não esbarrar em quaisquer limites. Existe um traço de sofrimento naquele que inflige o sofrimento, uma fraqueza inserida na sua brutalidade; e mesmo que a indignação privilegiada da compaixão impeça geralmente que se veja, a verdade é que a crueldade, tal como o amor, necessita de dois parceiros que se ajustem! Analisar isso seria certamente uma tarefa importante para uma humanidade tão atormentada como a actual pela sua "indiferente crueldade para com os fracos"

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 01:20 PM | Comentários (11)

Valsa das Viúvas da Pastelaria Benard

António Lobo AntunesCada qual de cão ao colo
damos de comer ao cão
chá e migalhas de bolo
pão de ló de Alfeizerão.

Arejamos com o leque
calores dos 6o anos
pérolas de pechisbeque
brincos de prata ciganos.

Lá em casa convivemos
com os estalos da mobília
tristes silêncios serenos
doçuras de chá de tília.

Résteas de sol nas janelas
de cortinas desbotadas
candelabros de três velas
retratos das afilhadas.

A crueldade do espelho
vem mostrar-nos de manhã
ruínas de um corpo velho
num casaquinho de lã.

E à cabeceira da cama
o riso do falecido
garante qu'inda nos ama
por trás da placa de vidro.

Ai felicidade perdida
porque a mágoa não tem fundo
o cão ladra contra a vida
nós ladramos contra o mundo.


in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes

Publicado por dolphin.s em 02:37 AM | Comentários (4)

outubro 17, 2003

Espírito altruísta

(...) foi com um espírito altruísta que trabalhou a máquina por meio da qual a Convenção expurgou o Mundo de maus cidadãos. Todos os castigos da Igreja, inclusive a fogueira, inclusive a excomunhão, foram impostos para salvar as almas da pena eterna, o que não pode dizer-se do entusiasmo exterminado dos jacobinos. Permito-me observar que toda a justiça inquisitorial e capital que não brote da fé num Além é uma estupidez animal. E quanto ao aviltamento do Homem, a sua história coincide exactamente com a do espírito burguês. O Renascimento, o Século das Luzes, as Ciências Naturais e as doutrinas económicas do século xix não se esqueceram de ensinar nada, absolutamente nada, que fosse próprio para favorecer esse aviltamento, começando pela nova astronomia, em virtude da qual o centro do Universo, o magnífico cenário onde Deus e o Diabo disputavam a posse da criatura, foi transformado num insignificante planetazinho, e que pôs fim, provisoriamente, à grandiosa posição do Homem no Cosmos, sobre a qual, de resto, se fundava igualmente a astrologia.


Naphta, o jesuíta in a Montanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em 07:49 PM | Comentários (0)

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas dos teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade

Publicado por dolphin.s em 01:31 PM | Comentários (25)

Back to work...


Life Sucks...

Publicado por dolphin.s em 10:52 AM | Comentários (12)

Poetic Terrorism

Weird dancing in all-night computer-banking lobbies. Unauthorized pyrotechnic displays. Land-art, earth-works as bizarre alien artifacts strewn in State Parks. Burglarize houses but instead of stealing, leave Poetic-Terrorist objects. Kidnap someone & make them happy. Pick someone at random & convince them they're the heir to an enormous, useless & amazing fortune--say 5000 square miles of Antarctica, or an aging circus elephant, or an orphanage in Bombay, or a collection of alchemical mass. Later they will come to realize that for a few moments they believed in something extraordinary, & will perhaps be driven as a result to seek out some more intense mode of existence.

extracto do texto homónimo, por Hakim Bey

Publicado por jm em 03:00 AM | Comentários (0)

outubro 16, 2003

Encolher de Ombros

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.
Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo - que não tenho sentimentalidade para aparar -, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares


Publicado por dolphin.s em 08:33 PM | Comentários (0)

Inteligência - imodéstia, insolência, malícia

A inteligência é sem dúvida apreciada no homem servil, mas na condição de estar associada a um devotamento absoluto. A partir do momento em que este certificado de boa conduta lhe falte e que deixe de ser absolutamente certo que ela sirva os interesses do senhor, mais do que inteligência, será designada por imodéstia, insolência, malícia; e dir-se-á muitas vezes então que ofende pelo menos a honra e a autoridade do senhor, mesmo quando realmente não ameaça a sua segurança. Isto é muito visível na escola, onde se trata mais rudemente um aluno dotado mas indócil do que um submisso apático. Em moral isso levou à concepção de que uma vontade é tanto pior quanto melhor for a consciência contra a qual actua. A própria justiça não ficou inteiramente ao abrigo deste preconceito pessoal: um crime cometido com inteligência é mais severamente condenado, por ser "refinado" e "cruel". Em política, finalmente, qualquer pessoa pode ir procurar os seus exemplos onde os puder encontrar.

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 02:56 PM | Comentários (0)

outubro 15, 2003

O Mito da Criação

Ishmael"À semelhança de todos os outros, também tu recebeste a explicação de como o mundo veio a ser o que é — só que aparentemente ela não te satisfaz. Ouviste-a desde a infância, mas não conseguiste engoli-la nunca. Tens a sensação de algo ter sido deixado de fora, encoberto. Tens a sensação de te haverem contado uma mentira e, caso possível, gostarias de saber qual ela é — razão por que te encontras nesta sala".
"Estou confuso. Não sei de história alguma. Não sei de uma história única".
"É uma história única e perfeitamente unificada. Basta pensar mitológicamente".
"Como assim?"
"Estou a falar da mitologia da tua cultura, é claro. Pensei que fosse óbvio".
"Para mim não é".
"Qualquer história explicando o sentido do mundo, as intenções dos deuses e o destino do homem é forçosamente mitologia".
"Será, mas não conheço nada de semelhante. Tanto quanto sei, não existe nada na nossa cultura passível de ser designado de mitologia, a não ser que te refiras à mitologia grega, nórdica ou algo assim".
"Estou a falar de mitologia viva. Que não se encontra registada em qualquer livro, e sim na mente das pessoas da tua cultura. Neste exacto instante, ela está a ser encenada em todas as partes do mundo".
"Repito: tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante".
Ismael franziu a testa escura e lançou-me um olhar de divertida exasperação. "Isso é por tu achares que mitologia é um conjunto de fábulas fantásticas. Os gregos não encaravam desta forma a sua mitologia. Sei que o entendes. Caso te dirigisses a um homem da Grécia homérica e lhe perguntasses quais eram as fábulas fantasiosas sobre os deuses e os heróis do passado que contava aos filhos, ele não te entenderia. A sua resposta seria idêntica à tua: 'Tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante'. Um nórdico teria dito o mesmo".(...)
"Dir-to-ei então com todas as letras. Tu andas à procura do mito da criação da tua própria cultura".
Olhei-o desanimado. "Não temos um mito da criação," disse. "Até aí é certo".(...)
"Não temos um mito da criação," repeti. "A não ser que te refiras ao mito do Génese".
"Não sejas absurdo. Caso um professor do secundário te convidasse a explicar como tudo começou, lerias à turma o primeiro capítulo do Génese?"
"Claro que não".
"Que explicação darias tu então?"
"Poderia dar uma explicação, mas não seria decerto um mito".
"Tu não a considerarias um mito, como é natural. Nenhuma história da criação é um mito para as pessoas que a contam. É apenas a história".
"De acordo, mas a história a que me refiro não é decerto um mito. Suponho que partes dela sejam ainda questionáveis, e que pesquisas futuras possam introduzir algumas revisões, mas não é decerto um mito".
"Liga o gravador e começa. Então saberemos".
Olhei-o reprovadoramente. "Queres realmente que eu... hã..."
"Que contes a história, sim".
"Não posso desfiá-la assim, sem mais nem menos. Preciso de tempo para a organizar".
"Tempo é coisa não falta. A cassete é de noventa minutos".
Suspirei, liguei o gravador e fechei os olhos.

"Tudo começou há muito tempo, há dez ou quinze mil milhões de anos," principiei, minutos depois. "Não estou actualizado sobre qual é a teoria dominante, se a do estado fixo ou a do big-bang, mas em ambos os casos o universo começou há muito tempo".
Nesse ponto, abri os olhos e enviei um olhar interrogativo a Ismael.
Ele retribuiu-me o olhar e perguntou, "É isso? É essa a história?"
"Não, estava só a confirmar". Fechei os olhos e recomecei. "Então, creio que há uns seis ou sete mil milhões de anos — formou-se o nosso sistema solar... Tenho uma imagem na cabeça, retirada de alguma enciclopédia infantil, com bolas de matéria espalhando-se ou aglutinando-se... eram os planetas. Os quais, ao longo de milhares de milhões de anos, foram arrefecendo e solidificando... Deixa cá ver. A vida apareceu no caldo químico dos nossos antigos oceanos há cerca de — há quantos anos, cinco mil milhões?"
"Três mil milhões e meio ou quatro".
"Certo. As bactérias e os microorganismos evoluíram até formas superiores, mais complexas, as quais evoluíram por sua vez para formas mais complexas ainda. Aos poucos a vida estendeu-se até à terra firme. Não sei... houve o limo nas margens dos oceanos, os anfíbios... Os anfíbios ocuparam a terra, evoluíram e tornaram-se répteis. Os répteis evoluíram e tornaram-se mamíferos. Há quanto tempo foi isto? Mil milhões de anos?"
"Há apenas duzentos e cinquenta mil milhões de anos".
"Certo. Seja como for, os mamíferos... Não sei bem. Pequenas criaturas em pequenos nichos — agachadas sob os arbustos, empoleiradas nas árvores... Dessas criaturas nas árvores provieram os primatas. Depois, não sei — talvez há dez ou quinze milhões de anos, um ramo dos primatas deixou as árvores e..." Esgotei o fôlego.
"Isto não é nenhum exame," disse Ismael. "As linhas gerais bastam — quero apenas a história corno ela é vulgarmente conhecida por motoristas de autocarro, camponeses e políticos".
"Está bem," disse eu, e voltei a fechar os olhos. "Uma coisa levou a outra. Surgiu uma espécie após outra e, finalmente, surgiu o homem. Quando foi isso? Há três milhões de anos?"
"Ê uma estimativa fiável".
"Certo".
"É isso?" inquiriu Ismael.
"Em linhas gerais, é".
"Trata-se da história da criação como ela é contada na tua cultura".
"Isso mesmo. Até onde a conhecemos actualmente".
Ismael meneou afirmativamente a cabeça e disse-me para desligar o gravador. Depois, recostou-se com um suspiro que ribombou pelo vidro como se de um vulcão distante se tratasse, cruzou as mãos sobre a barriga e lançou-me um olhar longo e imperscrutável. "E tu, uma pessoa inteligente e moderadamente culta, queres fazer-me acreditar que não se trata de um mito".
"O que tem ela de mítico?"
"Eu não disse que ela tinha algo de mítico. Disse que era um mito".
Acho que ri com nervosismo. "Talvez eu desconheça o teu conceito de mito".
"É idêntico ao teu. Estou a usar a palavra no sentido corrente".
"Então não é um mito".
"Decerto que é um mito. Ouve-a". Ismael disse-me para rebobinar a cassete e passá-la de novo.
Após ter ouvido a gravação, fingi estar pensativo para manter as aparências. Depois disse: "Não é um mito. Caso fosse um texto científico para o oitavo ano, creio que nenhuma escola objectaria — à excepção dos criacionistas".
"Concordo plenamente. Não disse eu tratar-se de uma história ubíqua na tua cultura? As crianças absorvem-na através de muitos canais, incluindo textos escolares sobre ciência".
"O que estás então tu a tentar dizer? Estás a sugerir não se tratar de uma explicação factual?"
"Factos não lhe faltam, claro, mas o seu ordenamento é puramente mítico".
"Não sei do que estás tu a falar".
"Desligaste a tua mente, é óbvio. A canção da Mãe Cultura adormeceu-te".
Olhei-o com seriedade. "Estás a dizer que a evolução é um mito?"
"Não".
"Estás a dizer que o homem não evoluiu?"
"Não".
"O que estás tu a dizer, então?"
Ismael olhou-me sorridente, encolheu os ombros e ergueu as sobrancelhas. Olhei para ele e pensei: Um gorila está a gozar comigo. Não adiantou.
"Ouve de novo " disse-me ele.
Ouvi a gravação até ao fim e disse: "Certo, ouvi uma coisa, a palavra surgiu. Eu disse que finalmente surgiu o homem. É isso?"
"Não é nada disso, não. Não estou a implicar com uma palavra. O contexto torna claro que a palavra surgiu é apenas um sinónimo para evoluiu".
"De que raio se trata, então?"
"Vejo que não estás mesmo a fim de pensar. Recitaste uma história que ouviste milhares de vezes e agora ouves a Mãe Cultura murmurar ao teu ouvido: 'Pronto, pronto, meu pequenino, não há nada em que pensar, nada com que te preocupares, não fiques agitado, não dês ouvidos a esse animal malvado, isto não é um mito, nada do que eu te digo é um mito, donde que não há em que pensar, nada com que te preocupares, ouve apenas a minha voz e dorme, dorme, dorme...'".
Mordi o lábio durante algum tempo e disse, "Não adiantou".
"Está bem," disse ele. "Vou contar uma história minha, e talvez isso adiante". Mordiscou por algum tempo um ramo frondoso, cerrou os olhos e começou.

Esta história (continuou Ismael) aconteceu há quinhentos milhões de anos — uma época inconcebivelrnente distante, quando este planeta ter-te-ia sido totalmente irreconhecível. Sobre a terra nada se movia, a não ser o vento e a poeira. Nenhuma folha de relva balouçava ao vento, nenhum grilo saltava, nenhum pássaro vogava pelo céu. Seres que tais encontravam-se ainda dezenas de milhões de anos no futuro. Até mesmo os mares eram sinistramente imóveis e silenciosos, pois também os vertebrados se encontravam dezenas de milhões de anos no futuro.
Havia, é claro, um antropólogo de serviço. Que espécie de mundo seria sem um antropólogo? Muito deprimido e desiludido andava porém esse antropólogo, pois percorrera o planeta todo procurando alguém para entrevistar, e as cassetes que carregava na mochila continuavam tão vazias quanto o céu. Mas um dia, enquanto caminhava desanimado pela borda do oceano, viu nas águas rasas próximas à margem o que parecia ser uma criatura viva. Não era lá grande coisa, apenas uma espécie de bolha gelatinosa, uma alforreca. Mas, em se tratando da única oportunidade que lhe surgira em todas as suas viagens, avançou pela água rasa até onde a criatura balançava ao sabor das ondas.
Cumprimentou delicadamente a criatura e foi de igual modo bem recebido, e em breve os dois eram já bons amigos. O antropólogo explicou o melhor que pôde que estudava estilos de vida e costumes, solicitando tais informações do seu novo amigo, o qual correspondeu prontamente. "E agora," concluiu o antropólogo, "gostaria de gravar, nas tuas próprias palavras, algumas histórias que contais entre vós".
"Histórias?" estranhou a bolha.
"Sim, como o vosso mito da criação, se é que tendes um".
"O que é um mito da criação?"
"Ah, tu sabes," respondeu o antropólogo. "As lendas fantasiosas que contais aos vossos filhos sobre a origem do mundo".
Ao ouvir isso, a criatura empertigou-se indignada — ou pelo menos tão bem quanto uma bolha inchada consegue fazê-lo —, e respondeu não ter o seu povo qualquer lenda fantasiosa.
"Queres então dizer que não explicais a criação?"
"Decerto que explicamos a criação," declarou a bolha. "Mas não se trata seguramente de um mito".
"Não, decerto que não," disse o antropólogo, lembrando-se finalmente do treino que havia recebido. "Ficar-te-ia imensamente grato se o partilhasses comigo".
"Muito bem," disse a criatura. "Mas quero que entendas que, como tu, nós somos um povo estritamente racional e não aceitamos nada que não se baseie em observação, lógica e método científico".
"Claro, claro," concordou o antropólogo.
A criatura começou enfim o seu relato. "O universo," disse, "surgiu há muitos e muitos anos, talvez há dez ou quinze mil milhões de anos. O nosso sistema solar — esta estrela, este planeta e todos os outros — parecem ter começado a existir há cerca de dois ou três mil milhões de anos. Durante muito tempo, não houve aqui qualquer forma de vida. Mas então, após mil milhões de anos, a vida surgiu".
"Perdão," interrompeu o antropólogo. "Disseste que a vida surgiu. Onde é que isso aconteceu, segundo o vosso mito — isto é, segundo a vossa explicação científica?"
A criatura pareceu ficar aturdida com a pergunta, e empalideceu. "Em que local específico, queres tu dizer?"
"Não, quero saber se isso aconteceu na terra ou no mar".
"Terra?" perguntou a bolha. "O que é terra?"
"Oh, tu sabes," disse o antropólogo, apontando na direcção da margem. "A extensão de solo e pedras que ali começa".
A criatura empalideceu ainda mais e retrucou, "Não faço a menor ideia de que disparate estás tu a falar. O solo e as rochas que ali estão são apenas a borda da imensa bacia que contém o oceano".
"Entendo o que estás a dizer, sim" disse o antropólogo. "Perfeitamente. Continua".
"Muito bem," disse o outro, "Durante muitos milhões de séculos, os únicos seres existentes no mundo eram microorganismos flutuando ao acaso num caldo químico. Mas, aos poucos, formas mais complexas surgiram: criaturas unicelulares, fungos, algas, pólipos e por aí fora.
"Até que, finalmente," disse a criatura, enrubescendo de orgulho ao chegar ao ápice da sua narrativa. "Até que, finalmente, surgiu a alforreca!"


in Ishmael, Daniel Quinn

Publicado por dolphin.s em 01:17 PM | Comentários (7)

With voice...



Jane Bown - 1961 -Sammy Davis Junior

Sammy Davis Junior, 1961


JaneBown - 1967 - John Lennon

John Lennon, 1967


JaneBown - 1995 - Bjork


Björk, 1995

Jane Bown - 1995 - PJ Harvey

PJ Harvey, 1995


Sugestão de Rain Song


Exposição de fotografias publicadas pelo Observer desde 1949 e da autoria de Jane Bown ©

Publicado por dolphin.s em 01:10 AM | Comentários (0)

On Stage/Screen



JaneBown - 1966 - Simone Signoret

Simone Signoret, 1966

JaneBown - 1982 - Dennis Hopper

Dennis Hopper, 1982

JaneBown - 1989 - Anthony Hopkins

Anthony Hopkins, 1989

Jane Bown - 1976 - Samuel Beckett

Samuel Beckett, 1976


Sugestão de Rain Song


Exposição de fotografias publicadas pelo Observer desde 1949 e da autoria de Jane Bown ©

Publicado por dolphin.s em 01:00 AM | Comentários (0)

outubro 14, 2003

Entra o Empresário

Detesto amarelo. Detesto todos os sinais da Primavera. Não sabes que só estou feliz quando estou deprimida? Não sabes que só estou feliz quando me visto de negro? Que só estou feliz à noite. Sim. Sou uma criatura da noite. Vejo-te chegar ao meu bairro com o teu carro novo, a tua dentadura nova e a tua camisa em sólidos tons pastel limão verde-vómito verde-pálido rosa alperce, que vai bem com qualquer outra peça, e visitas os saldos enquanto avanças, tendo a Gap por mascote. Bom, eu vim aqui para te dizer que a Gap é o demónio. Dar a toda a gente o aspecto mais inofensivo possível, fazer com que toda a gente se acomode o mais possível — apesar de quem veste aquela roupa ser por dentro tão ofensivo quanto possível. Tu queres que toda a gente tenha o mesmo aspecto, para que venham talvez a sentir o mesmo e se tornem então mais fáceis de controlar, de dominar.
Vens pois até ao meu bairro, até às nossas vidas de etnicidade, de diferença, de pobreza, de expressão artística, e vens até ao meu bairro para tentares cooperar, para tentares condominimizar as nossas vidas de modo a poderes fazer um grande negócio imobiliário. Bom, eu serei a tua consciência.

Por isso tomei demasiados comprimidos para dormir e nada aconteceu.
Por isso apontei uma arma à cabeça e nada aconteceu.
Por isso pus a cabeça no forno e nada aconteceu.
Por isso fodi-te a noite toda e nada aconteceu.
Por isso comecei a fazer dieta e nada aconteceu.
Por isso tornei-me macrobiótica e nada aconteceu.
Por isso fui a todas as casas de diversão nocturna da Cidade Grande e nada aconteceu.
Por isso tentei entrar na cena artística, fui para o Soho, e nada aconteceu.
Por isso fui para a universidade e nunca paguei aquele empréstimo para estudantes, porque já sabia que nada iria acontecer.
Por isso larguei a bebida e as drogas mas nunca aconteceu nada.
Por isso tornei-me a modos que política - trabalhei para a ERA, votei no Jesse Jackson - mas nunca aconteceu nada.
Por isso decidi tornar-me doméstica — limpei, cozinhei e servi em hotéis rascas - mas nunca aconteceu nada, nada.
Por isso abaixo-assinei, revoltei, aterrorizei e organizei, porque eu vou fazer com que algo aconteça.

Não vou deixar que voltes a fazer de mim um alvo de violação colectiva, sr. Yuppie, sr. Homem-de-Negócios, sr. Empresário. Não vou deixar que leves as minhas ruas, as que construí com a minha alma, a minha criatividade, o meu espírito. Em toda a minha arte, sr. Milhões, tu vês apenas mais uma oportunidade de investimento. O meu suor, a minha música, a minha moda, são para ti apenas mais um esquema para fazer dinheiro. Tu és a razão pela qual as bolachas David's e o McDonald's são os símbolos da minha cultura. Tu és a razão pela qual a fast food é a única indústria em crescimento nesta nação.

Por isso vens até ao meu bairro, após o teu emprego das nove às cinco, e aos fins-de-semana, à procura da experiência artística. Para que possas voltar ao trabalho e exibir a tua experiência da boêmia. Terei todo o gosto em mostrar-te a experiência artística. Sou a rapariga indicada para o serviço.

Por isso pego em ti, sr. Empresário, sr. Yuppie, sr. Sim-senhor, e amarro-te a toda a tua moda, ao teu Calvin Klein, ao teu Ralph Lauren, também à tua Anne Klein, ao teu Bloomingdale's, ao teu Macy's, e ato-te a tudo isso, ato-te a todas as tuas camisas de algodão em tons pastel lilás e verde-menta, e, sabes que mais? Tu gostas. E o sr. Yuppie diz «É isto a experiência artística?» E eu sorrio e ele gosta, ele gosta.

(...)

Eu sei que queres experimentar a inspiração da artista.
Por isso pego no teu corpo de yuppie e arrasto-o pela Avenida B e deixo que a tua língua se desenrole ao longo da rua a lamber a merda e o mijo, o suor e o sangue de mim, e, sabes que mais? Tu gostas. Tu gostas. Depois faço-te lamber os pneus do teu BMW. Depois deixo-te à esquina e roubo-te o BMW, porque sei que não vai acontecer nada.

Por isso conduzo rua abaixo a toda a velocidade. Aterrorizo todos os que pareçam deter um cargo político, todos os que pareçam possuir propriedades privadas (eu mostro-vos o fardo que é a propriedade privada), e todos os que andem vestidos com fato. Porque, segundo o sr. Andy Somma, os fatos são coisa que não combina com o rock'n'roll.
Conduzo até Wall Street e irrompo pela Bolsa de Valores adentro. Vou-me a todos os corretores e corto-lhes os tomates. Não sai deles sangue algum, somente uns cifrões de dólar.(...)
Oh, eu vingo-me. Oh, eu vingo-me.
Senhor, Deus das alturas, por que não surges agora diante de mim?
Será por seres homem?
O que aconteceu à Fada Madrinha? O que aconteceu ao Coelhinho da Páscoa? O que aconteceu ao Andy Warhol?
Estão mortos, miúda. Mortos.
Sei que vivo numa época sem saída. Sei que tenho uma casa sem saída, que há um futuro sem saída para os meus filhos, sei que tenho um emprego sem saída. Tenho uma cultura sem saída, é um mundo sem saída. Eu sei, eu sei que é um longo, longo caminho sem saída.


in Tratamento de Choque, Karen Finley

Publicado por dolphin.s em 04:27 PM | Comentários (0)

Definir-me, seria limitar-me, e a minha força não tem limites (Fala a Loucura)

A Cabeça de MidasDe mim não esperem, nem definições, nem frases declamatórias. Nada pareceria mais deslocado. Definir-me, seria limitar-me, e a minha força não tem limites. Dividir-me, seria distinguir os diferentes cultos que me prestam, e eu sou igualmente adorada por toda a Terra. E, além disso, de que servina dar-vos com uma definição, um retrato ideal de mim própria, que não se pareceria mais comigo do que a minha própria sombra, visto que na vossa presença tendes o original? Sou, portanto, como vedes, a verdadeira doadora de bens*, essa Loucura a que os latinos chamavam Stultitia e os gregos Mona Mas haverá necessidade de o proclamar? A minha fisionomia não me torna assaz conhecida? e houvesse alguém que quisesse sustentar que eu era Minerva ou a Deusa da Sabedoria, teria necessidade de lhe pôr a nu a minha alma, com os meus discursos? Não lhe bastaria olhar-me, um instante só que fosse, para se convencer do contrário? Em mim, não pode haver nem arrebiques, nem dissimulações, e nunca o meu rosto traduz um sentimento que eu não traga no coração. Enfim, sou de tal modo semelhante a mim própria, que ninguém me saberia ocultar, nem mesmo os que pretendem representar o papel de doutos e que mais desejam passar por tal. Apesar de todos os seus esgares, parecem-se com macacos revestidos de púrpura, ou com burros cobertos com a pele do leão. Bem podem disfarçar-se, haverá sempre um pedacinho da orelha que revelará, por fim, a cabeça de Midas.
Para dizer a verdade, esta espécie de homens é muito ingrata para comigo. São os mais fiéis dos meus súbditos, e, no entanto, tem tanta vergonha de em público usarem o meu nome, que chegam a censurar os outros, como se fora uma desonra ou uma infâmia. Mas estes loucos varridos, que querem que os julguem tão prudentes como Tales, não merecem que lhes chamem Morósofos, isto é, ajuizados-loucos? Porque desta vez irei imitar aqui os retóricos da nossa época, que se julgam pequenos deuses, e, tal como a sanguessuga**, servem-se das suas línguas, concordando que é maravilhoso intercalar, a torto e a direito, num discurso latino, certas palavras gregas que o tornam de todo enigmático. Se não conhecem nenhuma língua estrangeira, arrancam, de qualquer livro bolorento, quatro ou cinco palavrões velhos com que espantam o leitor. Os que os compreendem, lisonjeiam-se de encontrar um motivo de deleite com a sua própria erudição; e quanto mais ininteligíveis parecem, os que os não compreendem mais admirados ficam. Porque é um pequeno prazer, para os meus amigos, admirar muito as coisas que lhes são inacessíveis. Se entre os últimos houver algum que tenha a vaidade de passar por sábio, um sorrisinho de satisfação, um sinalzinho de aprovação, um abanar de orelha, à maneira dos burros, bastará para salvar, aos olhos do próximo, a sua ignorância.


* Deusa. Homero chamava aos seus deuses «doadores de bens».
** Plínio dizia que a sanguessuga tinha a língua bifurcada.


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

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Abandono...


Solidão... tristeza...


in Dog Dogs Elliot Erwitt

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outubro 13, 2003

Estamos cansados do homem...

Que coisa me é insuportável, a mim, em particular? Com que coisa não consigo lidar de modo nenhum? O que é que me não deixa respirar e me destrói? O ar pestilento! O ar pestilento! É-me insuportável a proximidade de coisas fracassadas..., ter que cheirar as entranhas de uma alma fracassada!... Quantas coisas não há que suportar: privações, necessidades, mau tempo, enfermidades, sacrifícios, isolamento! No fundo, lidamos com tudo isto, nascidos que somos para uma existência de luta subterrânea. Mas há sempre um dia em que subimos, em que chegamos à luz. Há sempre momentos dourados, horas de triunfo... E aí, eis-nos tal qual nascemos, inquebrantáveis, resistentes, prontos para o que vier de novo, de mais difícil, de mais distante, tensos como o arco que à necessidade responde com maior tensão ainda... Mas, de tempos a tempos, concedei-me — supondo que para lá do bem e do mal existem divindades capazes de tais concessões —, concedei-me a possibilidade de entrever, de lançar um breve olhar sobre uma coisa perfeita, completa, conseguida com felicidade, uma coisa poderosa e triunfante perante a qual haja razão para sentir temor! Um breve olhar sobre um homem que justifique o homem! Sobre um feliz exemplar, capaz de complementar e redimir o homem, e assim dar-nos motivo para conservar a fé no homem!... Porque a nossa situação actual é esta: o grau de aviltação e de nivelamento a que chegou o homem europeu traz consigo o maior perigo que nos ameaça, porque este espectáculo só nos dá cansaço... Não vemos nada que queira ser maior e pressentimos que o que vemos vai continuar a descer, sempre mais para baixo, em direcção ao que houver de mais inconsistente, de mais inofensivo, de mais prudente, de mais acomodado, de mais medíocre, de mais indiferente, de mais chinês, de mais cristão... E o homem, não haja dúvidas, torna-se cada vez «melhor»... É precisamente aqui que reside a fatalidade da Europa: ao perdermos o temor perante o homem, deixámos também de ter amor e respeito por ele, esperança nele, e até mesmo a vontade que conduz a ele. Doravante, o espectáculo deste homem só pode provocar cansaço. O que é hoje o niilismo, senão isto mesmo?... Estamos cansados do homem...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Publicado por dolphin.s em 11:05 PM | Comentários (8)

Barrow-on-Furness


          I

Fernando PessoaSou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.

Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo c leio.

Justificar-me? Sou quem todos são...
Modificar-me? Para meu igual?...
— Acaba lá com isso, ó coração!


          II

Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Por que o havia de compreender?
Pois sim, mas também por que o não havia?
Águia do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...

Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outras cousa te põe separado?

Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indif'rença?
Por mim, só me levanto da barrica.


          III

Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjetiva!
Qual "leva ao mar"! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se ativa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...

Escancarado Furness, mais três dias
Te, aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...


          IV

Conclusão a sucata! ... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões Dráticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...

Que teorias há para quem sente
o cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?

Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou ...


          V

Há quanto tempo, Portugal, há quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
Não se distrai de ti, nem bem nem tanto.
Sonho, histérico oculto, um vão recanto...
O rio Furness, que é o que aqui banha,
Só ironicamente me acompanha,
Que estou parado e ele correndo tanto ...

Tanto? Sim, tanto relativamente...
Arre, acabemos com as distinções,
As subtilezas, o interstício, o entre,
A metafísica das sensações —

Acabemos com isto e tudo mais ...
Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!




Álvaro de Campos (11-4-1928)

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outubro 12, 2003

Visões do Progresso

Thomas Mann—Sr. engenheiro, não lhe convém cismar e devanear - interrompeu-o Settembrini.—Cumpre-lhe confiar-se decididamente aos instintos dos seus anos e da sua raça, que devem obrigá-lo actividade. A sua formação científica também deve associá-lo à ideia do progresso. O senhor vê como em períodos indeterminados a vida realizou uma evolução que a elevou desde o infusório até o homem. Perante isso não pode duvidar de que existam ainda infinitas possibilidades de aperfeiçoamento à disposição do homem. Mas, se o senhor insistir na matemática, conduza a sua marcha circular de perfeição em perfeição e conforte-se com o conceito do século xviii, segundo o qual o homem, originalmente bom, feliz e perfeito, foi depravado e corrompido somente pelos era sociais e, graças a um trabalho crítico sobre a estrutura da Sociedade, voltará a ser bom, feliz e perfeito...
—O sr. Settembrini deixa de acrescentar—aparteou Naphta —que o idílio de Rousseau é uma trivialização racionalista da doutrina eclesiástica da fase primitiva, em que o homem era livre do Estado e do pecado, a fase inicial da proximidade de Deus e d relação filial com Ele, que nos incumbe reencontrar. O restabelecimento da Cidade de Deus, porém, após a dissolução de todas as formas terrenas, acha-se situado no ponto em que se tocam a Terra e o Céu, o que é acessível aos sentidos e o que os ultrapassa. A salvação é transcendental, e quanto à sua república universal capitalista, meu caro doutor, é bastante estranho ouvi-lo falar d «instinto», referindo-se a ela. A tendência instintiva toma inteira mente o partido do nacionalismo, e o próprio Deus implantou nos homens o instinto natural que induz os povos a separarem-se uns dos outros, formando Estados diferentes. A guerra...
—A guerra—gritou Settembrini—até a guerra, meu caro, já teve que servir o progresso, como o senhor não pode deixar de admitir, ao lembrar-se de certos acontecimentos da sua época preferida; falo das Cruzadas. Essas guerras civilizadoras favoreceram de modo sumamente feliz as relações entre os povos, no que diz respeito ao intercâmbio económico e político-comercial. Reuniram a humanidade ocidental sob o signo de uma ideia.
—O senhor mostra-se muito tolerante para com essa ideia. Em compensação, empregarei muita cortesia numa pequena rectificação: as Cruzadas, assim como a intensificação comercial que produziram, não exerceram de modo algum uma influência internacionalista. Pelo contrário, ensinaram os povos a distinguirem-se entre si e estimularam fortemente o desenvolvimento da ideia do Estado nacional.
—É exacto, no que se refere à relação entre os povos e o clero. Sim, nessa época começou a firmar-se a consciência do Estado nacional, contra a presunção hierárquica...
—E todavia, isso a que o senhor chama presunção hierárquica é apenas a ideia da união dos homens sob o signo do Espírito.
—Já conhecemos esse espírito. Não precisamos dele, obrigado.
—É lógico que o senhor, com a sua mania nacionalista, abomine o cosmopolitismo da Igreja, que triunfa sobre o Mundo. Gostaria apenas de saber como tenciona conciliar com isso o horror que sente em relação à guerra. O seu culto do Estado, à maneira antiga, deve fazer do senhor um paladino da concepção positiva do Direito, e como tal...
—Chegamos a falar do Direito? No direito dos povos, meu caro senhor, continua viva a ideia do direito natural e da razão universalmente humana...
—Qual! O seu direito dos povos é outra trivialização rousseauniana do jus divinum, que nada tem que ver com a Natureza nem com a Razão, mas que se baseia na revelação...
—Deixemos de discutir questões de palavras, sr. professor! Continue o senhor tranquilamente a chamar jus divinum àquilo que eu respeito sob os nomes de direito natural e direito dos povos. O essencial é que acima dos direitos positivos dos Estados nacionais se eleva um outro direito, superior e geral, permitindo resolver, mediante arbitragem, as questões de interesses em litígio.
—Arbitragens! Ora essa! Um tribunal de árbitros burgueses, que decide acerca das questões da vida, descobre a vontade de Deus e determina o curso da História! Bem, aí temos os pés das pombas. Onde ficam as asas das águias?
—A moralidade burguesa...
—Olhe, a moralidade burguesa não sabe o que quer. De um lado gritam pelo combate à diminuição da natalidade e exigem que se reduzam as despesas necessárias para a educação dos filhos e para a sua preparação profissional. E por outro lado, estamos a sufocar no meio da multidão; todas as profissões estão de tal modo abarrotadas, que a luta pelo pão de cada dia ofusca os horrores de todas as guerras passadas. Praças arborizadas e cidades ajardinadas! Fortalecimento da raça! Mas, para que serve o fortalecimento, quando a civilização e o progresso desejam que não haja mais guerras? A guerra seria o remédio contra tudo e para tudo. Para o fortalecimento e até contra a diminuição da natalidade.

in A Montanha Mágica, Thomas Mann

Publicado por dolphin.s em 07:38 PM | Comentários (4)

Mulher


Auguste Rodin - Nude Female Figure


Auguste Rodin, Nude Female Figure

Publicado por dolphin.s em 04:02 PM | Comentários (4)

A estupidez adormece a desconfiança

Robert MusilComecemos pois não importa como, mas de preferência talvez pelo problema inicial, que é o de quem quiser falar da estupidez ou tirar algum benefício de tais intenções dever partir da hipótese de que ele próprio não é estúpido; quer dizer, proclamar que se julga inteligente, ainda que isso passe geralmente por um sinal de estupidez! Ora, se nos perguntarmos porque é que as coisas são assim, a primeira resposta que nos vem ao espírito parece coberta por uma camada de poeira doméstica ancestral, já que ela afirma que a prudência aconselha que não se demonstre ser inteligente. Esta prudência desconfiada, hoje à primeira vista quase incompreensível, data provavelmente de um tempo em que era realmente mais inteligente, para o mais fraco, não ser considerado como tal! A estupidez, pelo contrário, adormece a desconfiança; ela "desarma", como ainda hoje se diz. Encontram-se alguns traços deste género de esperteza em certas relações de dependência onde as forças são de tal modo desiguais que o mais fraco experimenta resolver os problemas fazendo-se passar por mais estúpido do que é; assim, por exemplo, naquilo que se chama as espertezas da Normandia, o comércio dos criados com os seus senhores mais hábeis em falar, as relações do soldado com o oficial, do aluno com o professor e do filho com os pais. O fraco que não pode, irrita menos o detentor do poder que aquele que não quer. A estupidez leva-o mesmo "ao desespero", o que é inegavelmente um estado de fraqueza!

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 01:17 PM | Comentários (15)

outubro 11, 2003

O ambiente é a alma das coisas

O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria, e essa expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a intersecção de três linhas, e essas três linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo como interpretamos, e o ambiente em que está. Esta mesa, a que estou escrevendo, é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste quarto. A minha impressão desta mesa, se a quiser transcrever, terá que ser composta das noções de que ela é de madeira, de que eu chamo àquilo uma mesa e lhe atribuo certos usos e fins, e de que nela se reflectem, nela se inserem, e a transformam, os objectos em cuja justaposição ela tem alma externa, o que lhe está posto em cima. E a própria cor que lhe foi dada, o desbotamento dessa cor, as nódoas e partidos que tem - tudo isso, repare-se, lhe veio de fora, e é isso que, mais que a sua essência de madeira, lhe dá a alma. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora, que é a personalidade.
Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir alma às coisas que chamamos inanimadas. Ser uma coisa é ser objecto de uma atribuição. Pode ser falso dizer que uma árvore sente, que um rio «corre», que um poente é magoado ou o mar calmo (azul pelo céu que não tem) é sorridente (pelo sol que lhe está fora). Mas igual erro é atribuir beleza a qualquer coisa. Igual erro é atribuir cor, forma, porventura até ser, a qualquer coisa. Este mar é água salgada. Este poente é começar a faltar a luz do sol nesta latitude e longitude. Esta criança, que brinca diante de mim, é um amontoado intelectual de células - mais, é uma relojoaria de movimentos subatómicos, estranha conglomeração eléctrica de milhões de sistemas solares em miniatura mínima.
Tudo vem de fora e a mesma alma humana não é porventura mais que o raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o corpo.


in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Publicado por dolphin.s em 07:11 PM | Comentários (4)

Autumn Trees


Egon Schiele - Autumn Trees, 1911


Egon Schiele, 1911

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Comecemos por matar o adolescente que em nós há

Jean GenetMas comecemos por matar o adolescente que em nós há, e a seguir asfixiemos o outro. Excluído do seu objecto criminal, por certo o crime provoca uma morte na alma do seu autor; um tal acto consuma as suas devastações e, mal acaba, ai de mim, desaparece: limita-se a passar. Com a vítima fria acaba, irá perpetuar-se em raivas, remorsos, desordens, pesares eternos e cheios de reflexos matizados. Que um acto estéril suscite, pois, uma aparência eternamente fria e estéril. Que o crime não pare de se consumar. Relatá-lo não basta. O criminoso fica a revolver-se por dentro. Procede sobre si mesmo ao seu próprio crime expiatório. A partir deste crime-ruptura — desenvolve uma lógica severa e descobre leis, regras e números que vão conduzi-lo ao poema — último acto estéril e que não chega a acabar de se executar. Se o nosso primeiro crime foi recusar a vida e banir a Mulher, vou então acossar dentro de mim esta criança de quem falo — que eu canto, esfolo e desencarno — consumá-la até ao poema surgir. Não que este rabicho me odeie, mas para o meu destino, depois deste primeiro crime, ser o de fazê-lo perpétuo, de acordo com as regras e os números.

in Infernos, Genet

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outubro 10, 2003

Confiança

O homem não consegue viver sem uma confiança constante em qualquer coisa de indestrutível que exista em si, sendo que tanto a coisa indestrutível como a confiança podem permanecer constantemente ocultas para ele. Uma expressão possível desse permanecer oculto é a fé num Deus pessoal.

in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Publicado por dolphin.s em 08:20 PM | Comentários (7)

Vergonha da Humanidade

Friedrich NietzscheSupondo verdadeira a ideia, na qual hoje muitos crêem como se fosse «a verdade», de que o sentido de toda a cultura é precisamente fazer da fera-«homem» um animal manso e civilizado, um animal doméstico, então seria indubitavelmente necessário considerar que os verdadeiros instrumentos da cultura teriam sido todos aqueles instintos de reacção e ressentimento que serviram afinal para humilhar e derrotar as aristocracias e os respectivos ideais... O que, aliás, não significaria ainda que os portadores desses instrumentos fossem simultaneamente os representantes da cultura... O contrário não me parece apenas ser mais provável... Não! O contrário é hoje evidente! Os portadores dos instintos de rebaixamento e de desforra, os descendentes de todos os escravos europeus e não europeus, em especial as populações pré-arianas, esses representam o recuo da humanidade! Os ditos «instrumentos da cultura» são uma vergonha da humanidade e acabam por se tornar um motivo de desconfiança, um argumento contra a «cultura». Pode haver boas razões para se continuar a temer a besta loira que habita no fundo de todas as raças aristocráticas e para se tomarem precauções... Mas haverá quem não prefira cem vezes mais temer e ao mesmo tempo poder admirar, do que não temer e ao mesmo tempo não poder ver-se livre do espectáculo nauseabundo imposto pelos falhados, pelos diminuídos, pelos atrofiados, pelos envenenados? E não será esta a nossa fatalidade? que coisa provoca esta nossa aversão pelo «homem»?... Porque, disso não há dúvida, o homem tornou-se para nós motivo de sofrimento... Não é o temor. Pelo contrário, é o facto de já nada termos a temer no homem, o facto de o verme-«homem» fervilhar à nossa frente, com o maior destaque, o facto de o «homem manso», irremediavelmente medíocre e insuportável, já ter aprendido a achar que é ele o «homem superior», o objectivo, a coroação e o sentido da história...


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche


Publicado por dolphin.s em 04:15 PM | Comentários (0)

História explicativa

"Podes passar o resto do dia tentando descobrir qual a história que as pessoas da tua cultura têm vindo a encenar no mundo nos últimos dez mil anos. Lembras-te do que versa ela?"
"Do que versa a história?"
"Ela versa o sentido do mundo, as intenções divinas no mundo e o destino humano".
"Bem, posso contar-te histórias sobre essas coisas, mas não conheço uma história única".
"É a única história que todos na tua cultura conhecem e aceitam".
"Não creio que isso ajude muito".
"Talvez ajude se eu te disser que se trata de uma história explicativa, do género 'Como o elefante obteve a sua tromba' ou 'Como o leopardo obteve as suas manchas'".
"Está bem".
"E, imaginas tu, esta vossa história explica o quê?"
"Santo Deus, não faço a menor ideia".
"Isso já deveria ser claro a partir do que eu te disse. Ela explica como o mundo veio a ser o que é. Desde o início até hoje".
"Entendo," disse eu, e olhei pela janela durante alguns instantes. "O facto é que não tenho consciência de conhecer uma história que tal. Como eu disse, conheço histórias, mas nada que se pareça com uma história única".
Ismael reflectiu um pouco. "Uma aluna minha, dentre os discípulos que mencionei ontem, sentiu-se na obrigação de me explicar o que procurava ela. Perguntou-me: 'Ninguém fica alarmado porquê? Ouço as pessoas falarem sobre o fim do mundo na lavandaria, e não parecem mais alarmadas do que se estivessem a comparar detergentes. Falam da destruição da camada de ozono e da destruição total da vida. Falam da devastação das florestas tropicais, da poluição mortal que permanecerá connosco durante milhares e milhões de anos, da extinção diária de dezenas de espécies; do fim do próprio processo de desenvolvimento das espécies. E parecem de uma calma olímpica'.
"Eu disse-lhe: 'É isso então que desejas saber — por que razão as pessoas não ficam alarmadas com a destruição do mundo?' Ela pensou um pouco e respondeu: 'Não, eu sei por que razão não se alarmam elas. Não se alarmam por acreditarem no que lhes contaram'".
"Como assim?" perguntei.
"O que é que contaram às pessoas que as impede de se alarmarem, que as mantém relativamente calmas enquanto assistem aos danos catastróficos que estão a infligir ao planeta?"
"Não sei".
"Contaram-lhes uma história explicativa. Deram-lhes uma explicação de como o mundo veio a ser o que é, e isto silencia o seu alarme. Esta explicação é totalmente abrangente, incluindo a deterioração da camada de ozono, a poluição dos oceanos, a destruição das florestas tropicais e até a extinção humana — e isso satisfá-las. Ou talvez seja mais correcto dizer que as pacifica. Participam da engrenagem durante o dia, narcotizam-se com drogas ou com televisão à noite e tentam não pensar muito seriamente sobre o mundo que estão a deixar para os seus filhos enfrentarem".


in Ishmael, Daniel Quinn

Publicado por dolphin.s em 12:22 PM | Comentários (7)

Dogville

Dogville

de Lars Von Trier


filme da minha vida?... talvez...

Publicado por dolphin.s em 03:15 AM | Comentários (32)

outubro 09, 2003

Fala a Loucura

Fala a LoucuraQue digam de mim tudo o que quiserem (porque eu não ignoro como a Loucura é, todos os dias, reduzida a pedaços, mesmo por aqueles que são, ainda de todos, os mais loucos) mas, no entanto, sou eu, eu só, que, com a minha influência divina, distribuo a alegria pelos deuses e pelos homens.
Com efeito, desde que apareci nesta numerosa assembleia, desde que me dispus a falar, não vi logo brilhar nos vossos olhos uma alegria nova e extraordinária? Não vi os vossos rostos desanuviarem-se? E as gargalhadas que de toda a parte se ouviram, não anunciaram a doce alegria que penetrou nos vossos corações, e o prazer que experimentastes com a minha presença? Agora, quando vos olho, parece-me ver os deuses de Homero, ébrios de néctar e de nepentes: em vez de estardes, como ainda há pouco, tristes e inquietos, como pessoas que acabavam de sair do antro de Trofónio.

(...)

Tal como o brilhante astro do dia, mal os seus primeiros raios dissipam as trevas que cobrem o horizonte, ou como a primavera, depois de um rigoroso inverno, leva atrás de si o louco rebanho dos doces zéfiros, e, imediatamente, tudo se modifica sobre a Terra, um colorido mais brilhante embeleza as coisas, e a natureza rejuvenescida apresenta, aos nossos olhos, um espectáculo mais agradável e mais risonho; do mesmo modo, a minha presença entre vós produziu uma mudança bem feliz, O que os grandes oradores têm enorme trabalho em realizar, com infindáveis estudados discursos, esta minha única presença fê-lo num instante: vistes-me, e imediatamente todas as vossas inquietações se dissiparam.
Sabei, antes de mais nada, que pouco me importam esses sábios que lá porque um homem se louva a si próprio, lhe chamam tolo e impertinente. Que lhe chamem louco, vá; mas concordem, ao menos, que procedendo assim se conduzem de maneira inteiramente conforme com esta qualidade. Na realidade, haverá coisa mais natural do que ver a Loucura exaltar os seus próprios méritos, e cantar ela, em pessoa, os seus louvores? Quem poderia, melhor do que eu, descrever-me tal como sou? A não ser que surja alguém que pretenda conhecer-me melhor do que a mim própria me conheço.
Além disso, agindo assim, creio conduzir-me muito mais modestamente que o comum dos sábios e dos grandes. Dominados por uma má vergonha não se atrevem a louvar-se a si próprios, mas geralmente chamam para junto de si um panegirista enjoativo, qualquer poeta palrador, que por dinheiro se compromete a louvá-los, isto é, a vender mentiras. No entanto, o herói pudibundo empertiga-se como um pavão, ergue arrogantemente a crista, assim que o seu gabador impudente se atreve a igualar aos deuses o mais desprezível dos tartufos. Quando propõe, como modelo perfeito de todas as virtudes, aquele que sabe que está cheio de todos os vícios, quando enfeita a gralha com as penas do pavão, quando tenta branquear a pele de um negro, quando se esforça por fazer passar uma mosca por um elefante... Enfim, faço o que diz o provérbio: «Se ninguém te louva, louva-te tu, a ti próprio».


in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão

Publicado por dolphin.s em 04:57 PM | Comentários (4)

Anti-Clímax iii

a confusão relativa à minha vida é permanente, permanente é também a confusão de que @s outr@s sofrem ao tocarem em objectos com origem na minha vida.

Sinto-me sempre espantado pela foda que @s iluminad@s pela fé libertada e libertadora das grilhetas sociais me querem dar, violentando sem perguntar se me apraz tal foda; fazendo deles um comum violador físico, que, aparentemente, lhes repugnaria.

Nesta casa, onde tod@s são bem vind@s, existem bombas e bandeiras negras, e respeito pel@s outr@s. A integração de ideias mais ou menos corrosivas da sociedade basilar só a nós diz respeito, as ideias fundamentais, aqui, são procuradas através de teóricos e práticas de toupeira.

Outros locais existem onde expomos as nossas ideias individuais de uma forma directa ou pessoal, sim, para além dos comentários desta casa existem outras eiras, outras hortas e outros terrenos de pousio onde nos encontramos com mais gente que mostra a cara e defende frontal e renhidamente as suas ideias.

Mas, só quem está minimamente atento se apercebe que esta casa, não é uma casa apalaçada, antes um barraco onde se guardam os utensílios agrícolas, algumas enxadas, ansinhos, baldes, regadores, sachos, etc.. Ao lado do barraco existe um galinheiro que produz a merda - qual estrume qual carapuça? - que abrilhanta as couves transplantadas.

Aprendi a ocupar os espaços vazios e aí construir um espaço onde tod@s podem ir falar e discutir e dançar a vida; vejo agora que se ocupam espaços d@s outr@s para tentar destruir... e ainda por cima para tentar destruir a casa daqueles que em semelhança vivem.

Tão triste é esta geração rica na merda e na mioleira e tão pobre nos alvos que escolhe, por não saber distinguir entre uns e outros...

Publicado por jm em 02:44 PM

Apontamento

Fernando PessoaA minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali.



Álvaro de Campos

Publicado por dolphin.s em 12:42 PM | Comentários (5)

Não cesso de me criar

Jean-Paul Sartre - Les MotsNão cesso de me criar; sou o doador e a doação. Se meu pai vivesse, eu conheceria os meus direitos e os meus deveres; ele está morto e eu ignoro-os: não tenho direitos, pois o amor sacia-me; não tenho deveres, pois dou por amor. Um só mandato: agradar, tudo para fazer vista. Na nossa família, que dissipação de generosidade: meu avô faz-me viver e eu faço-lhe a felicidade; minha mãe dedica-se a todos. Quando penso nisso, hoje, só esta dedicação me parece verdadeira: mas nós tínhamos tendência para nos calarmos a esse respeito. Não interessa: a nossa vida é apenas uma série de cerimónias e esgotámos o tempo a prodigalizar-nos homenagens. Eu respeito os adultos com a condição de que me idolatrem; sou franco, aberto, doce como uma menina. Penso bem, inspiro confiança às pessoas: todos são bons, pois que todos estão contentes. Considero a sociedade uma rigorosa hierarquia de méritos e poderes. Os que ocupam o topo da escala dão tudo quanto possuem aos que se encontram abaixo. Não penso, no entanto, em situar-me no mais alto escalão: não ignoro que o reservam a pessoas severas e bem intencionadas que fazem reinar a ordem. Mantenho-me num pequeno poleiro marginal, não longe delas, e a minha radiação alastra de alto a baixo da escala. Em suma, faço todos os esforços para me afastar do poder secular: nem abaixo, nem acima, sim alhures. Neto de clerc*, sou, desde a infância, um clerc: tenho a unção dos príncipes da Igreja, uma jovialidade sacerdotal. Trato os inferiores como iguais: é uma piedosa mentira que lhes prego a fim de torná-los felizes e com a qual convém que sejam enganados até certo ponto. À minha empregada, ao carteiro, à minha cadela, falo com voz paciente e temperada. Neste mundo em ordem existem pobres. Existem também carneiros de cinco patas, irmãs siamesas, acidentes de caminhos de ferro: tais anomalias não são culpa de ninguém. Os bons pobres não sabem que a sua função é exercitar a nossa generosidade; são pobres envergonhados, passam rentes às paredes; saio a correr, passo-lhes rapidamente uma moeda de dois soldos e, acima de tudo, dou-lhes de presente um belo sorriso igualitário. Acho que têm um ar estúpido e não gosto de tocá-los, mas forço-me a fazê-lo: é uma provação; além disso, cumpre que gostem de mim; esse amor embelezar-lhes-á a vida. Sei que carecem do necessário e apraz-me ser-lhes o supérfluo. Aliás, qualquer que seja a sua miséria, jamais poderão sofrer tanto como o meu avô: quando era pequeno, acordava de madrugada e vestia-se no escuro; no Inverno, para se lavar, precisava de quebrar o gelo na bilha da água. Felizmente, as coisas depois melhoraram: meu avô crê no Progresso, eu também: o Progresso, esse longo e árduo caminho que leva até mim.


* Usado com o duplo sentido de letrado e clérigo

in As Palavras, Jean-Paul Sartre

Nota pessoal: este livro apareceu-me hoje à frente num alfarrabista de rua. Depois de acreditar que nunca o veria, dei pulos de alegria! ;))

» Edição de maio de 1974

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outubro 08, 2003

Scornful Woman

Egon Schiele - Scornful Woman


Egon Schiele, 1910

Publicado por dolphin.s em 10:00 PM | Comentários (3)

A vaidade e a estupidez crescem no mesmo ramo

Robert MusilExiste desde sempre entre estupidez e vaidade um estreito laço — o que nos fornece talvez uma indicação. O estúpido parece muitas vezes vaidoso até pelo facto de não ter inteligência para o ocultar; mas isso não seria necessário, no fundo, porque o parentesco entre vaidade e estupidez é directo: um vaidoso dá a impressão de produzir menos do que poderia fazer — como uma máquina cujos vapores escapam pelo sítio errado.
O velho adágio: "A vaidade e a estupidez crescem no mesmo ramo", quer dizer precisamente isso, tal como a expressão a vaidade "cega". Aquilo que associamos à noção de vaidade é a expectativa de uma produção menor (um certo sentido da palavra "vão" está muito próximo de "inútil"). E esta menor produção é esperada mesmo onde existe, de qualquer modo, produção: vaidade e talento também estão muitas vezes ligados; mas temos então a impressão de que a produção poderia ser superior, se o próprio vaidoso não fosse um obstáculo a isso. Esta representação, tão persistente, de uma produção inferior aparecerá, de resto, mais adiante como a representação mais geral que fazemos da estupidez.
Mas se o comportamento vaidoso é evitado, isso não é, como sabemos, porque pode ser estúpido, é sobretudo porque choca as conveniências sociais. "Aquele que se louva enlameia-se", diz um velho provérbio; isso significa que ser fanfarrão, falar demasiado de si e vangloriar-se excessivamente é considerado não apenas pouco inteligente, como inconveniente. Se não estou enganado, as exigências que isso fere fazem parte das numerosas e diversas recomendações destinadas a gerir o contentamento de uma pessoa consigo própria, pressupondo que este é tão grande nos outros como no próprio. Mas estas recomendações sobre as distâncias a observar condicionam igualmente o uso de palavras demasiado directas, regulam as formas de saudação, proíbem contradizer alguém sem pedir desculpa ou começar uma carta pela palavra "eu"; resumindo, exigem o respeito de certas regras a fim de evitar demasiada familiaridade — quer dizer, de proximidade*. Têm por tarefa aplainar e harmonizar os contactos, facilitar o amor por si como pelo próximo e assegurar, nas relações entre os homens, qualquer coisa como uma temperatura média; este género de prescrições encontra-se em todas as sociedades, mais ainda até nas primitivas que nas muito civilizadas, e não são sequer ignoradas pela sociedade muda dos animais, como é fácil verificar em muitas das suas cerimónias. Ora, uma tal preocupação de manter a distância proíbe não só que alguém se elogie a si próprio, mas também que se elogie qualquer outro excessivamente. Dizer a alguém, frente a frente, que é um génio ou um santo seria uma enormidade quase tão grande como fazê-lo de si próprio; pintar a cara ou levantar cabelo não seria muito melhor, para o nosso gosto actual, que insultar outra pessoa. Em geral, as pessoas contentam-se em insinuar que não são mais estúpidas ou piores que os outros, como já referimos!

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 02:05 PM | Comentários (0)

outubro 07, 2003

O Amor Romântico

O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Publicado por dolphin.s em 11:20 PM | Comentários (27)

Futebol

Quer-nos parecer que começa a ser tempo de o intelectual ou o artista irem perguntando a si próprios por que motivo o público que lhes falta esgota lotações dos estádios, num país subdesenvolvido do Ocidente ou numa república popular, pelo maduro prazer de assistir, durante noventa minutos, às aparentemente loucas correrias de um punhado de homens atrás de uma caprichosa bola de couro.


Ruy Belo, Futebol e jornais desportivos têm muito público... Porquê?, in A Bola, 6-Jan-1972

Publicado por jm em 01:36 PM | Comentários (8)

Então o que é que te faz feliz?

Então o que é que te faz feliz?

A fantasia de que a bolsa de valores pudesse mesmo falir.

Karen FinleyEscute, minha senhora. Já acabou. A festa já acabou. Mas a minha parte só agora começou. Cá por mim, que se foda a IBM. Cá por mim, que se foda a General Electric. Cá por mim, que se fodam a companhia do gás, a companhia da electricidade. Já não há mais relatórios para fotocopiar porque já não há mais empresas, o que significa que acabaram as multinacionais, o que significa que acabou a burocracia, o que significa que já não há mais tretas! As únicas empresas que não se foram abaixo foram treze firmas de preservativos, um mercado coreano e uma barraca de cachorros quentes. Os bónus em acções, os condomínios, as férias de luxo, foi-se tudo. Os dois carros, as piscinas, desapareceram. Os BMWs, os Cadillacs e os Audis também. Nem cheguei a vê-los. Os restaurantes com comida do Terceiro Mundo a preços de yuppie, levaram sumiço. Não é a morte da Baixa! E a morte da Alta!

E sabem quem é que, muito em segredo, adora a ideia de que acontecesse realmente um crash, uma recessão ou depressão? Os nossos avós e os nossos pais. Então sim, poderiam finalmente desenterrar todas as suas histórias da Grande Depressão.

Eles acreditam mesmo que se passássemos por um verdadeiro martírio económico levaríamos vidas tão salutares quanto as deles. E lá vêm as histórias: caminhei quinze quilómetros para chegar à escola descalço debaixo da neve que caía, depois de ter estado toda a noite a trabalhar numa padaria acartando sacas de cinquenta quilos de farinha com o meu corpo de trinta quilos. O único alimento que conseguia eram as varreduras do chão. Tivemos de queimar toda a mobília para nos mantermos quentes. Tive de andar a correr atrás dos carros do carvão para apanhar os carvões que iam caindo. A minha mãe esteve tuberculosa. Toda a gente tinha poliomielite. Toda a gente receava as piscinas. Receber uma laranja como presente de Natal era algo de importante. Receber um novo par de peúgas, isso então era o máximo. Depois veio o new deal. E no meio disto tudo fui um aluno de 20 valores. Mas veio a guerra. Nunca consegui ser aquilo que queria, que era ser artista, músico, filósofo. Em vez disso, tornei-me dentista.

Toda a minha vida foi uma infelicidade. Quando era criança não tinha dinheiro e depois, quando adulto, tinha dinheiro mas continuava a não ser feliz. Foi por isso que a tua mãe e eu te tivemos a ti. Tu devias vir a ter tudo o que nós não tivemos, ser tudo o que não pudemos ser. Um espírito livre. Uma nova geração de experiência do mundo e da vida. Havias de viajar, de conhecer outras pessoas, de estudar para algo mais do que uma mera carreira. Queríamos que te expandisses como não foi permitido à nossa geração. Poderias ter um emprego de que gostasses, para o qual tivesses talento e pelo qual te respeitassem. Queríamos que os nossos filhos fossem os novos guardadores do império. E iriam acabar com as guerras.

DEVERIAS VIR A SER TU TODA A NOSSA EXPERIÊNCIA EMOCIONAL PARA O MUNDO.

Mas enquanto andávamos a dar-te tudo esquecemo-nos do teu coração, e agora é tarde.


in Tratamento de Choque, Karen Finley

Publicado por dolphin.s em 12:42 PM | Comentários (11)

Desconhecidos...


Magritte - The Lovers I


Magritte, The Lovers I

Publicado por dolphin.s em 01:41 AM | Comentários (12)

outubro 06, 2003

O Imenso Possível do Abismo de Tudo

A personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas a tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal, afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres, de todas as eras... Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir da possibilidade estética de se sonhar assim.
A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.
Quantas vezes eu mesmo, que rio de tais seduções da distracção, me encontro supondo que seria bom ser célebre, que seria agradável ser ameigado, que seria colorido ser triunfal! Mas não consigo visionar-me nesses papéis de píncaro senão com uma gargalhada do outro eu que tenho sempre próximo como uma rua da Baixa. Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre como guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser conhecido? Mas o caso passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são um obstáculo. Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O aplauso chega ao quarto andar onde moro e colide com a mobília tosca do meu quarto barato, com o reles que me rodeia, e me amesquinha desde a cozinha ao sonho. Não tive sequer castelos em Espanha, como os grandes espanhóis de todas as ilusões. Os meus foram de cartas de jogar, velhas, sujas, de um baralho incompleto com que se não poderia jogar nunca; nem caíram, foi preciso destruí-los, com um gesto de mão, sob o impulso impaciente da criada velha, que queria recompor, sobre a mesa inteira, a toalha atirada sobre a metade de lá, porque a hora do chá soara como uma maldição do Destino. Mas até isto é uma visão improfícua, pois não tenho a casa de província, ou as tias velhas, a cuja mesa eu tome, no fim de uma noite de família, um chá que me saiba a repouso. O meu sonho falhou até nas metáforas e nas figurações. O meu império nem chegou às cartas velhas de jogar. A minha vitória falhou sem um bule sequer nem um gato antiquíssimo. Morrerei como tenho vivido, entre o bric-à-brac dos arredores, apreçado pelo peso entre os pós-escritos do perdido.
Leve eu ao menos, para o imenso possível do abismo de tudo, a glória da minha desilusão como se fosse a de um grande sonho, o esplendor de não crer como um pendão de derrota - pendão contudo nas mãos débeis, mas pendão arrastado entre a lama e o sangue dos fracos, mas erguido ao alto, ao sumirmo-nos nas areias movediças, ninguém sabe se como protesto, se como desafio, se como gesto de desespero. Ninguém sabe, porque ninguém sabe nada, e as areias engolfam os que têm pendões como os que não têm. E as areias cobrem tudo, a minha vida, a minha prosa, a minha eternidade.
Levo comigo a consciência da derrota como um pendão de vitória.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Publicado por dolphin.s em 09:37 PM | Comentários (0)

Feras à solta

(...) aqueles homens que, inter pares, se encontram rigorosamente limitados pela moral, pela veneração, pelos costumes ou pela gratidão, e mais ainda pelo controlo mútuo e pela inveja, e que ao mesmo tempo, nas relações que mantêm entre si, se revelam tão inventivos no que toca às atenções, ao autodomínio, à delicadeza, à fidelidade, ao orgulho e à amizade, são os mesmo que, para fora, a partir da fronteira onde começa o estranho, onde começa tudo o que é estrangeiro, se mostram pouco melhores do que feras à solta. Nesse momento gozam de liberdade relativamente ao constrangimento social, libertam-se, como se estivessem numa selva, da tensão resultante do prolongado aprisionamento, do sequestro a que a paz social os submeteu, regressam à inocência do animal selvagem, quais monstros triunfantes, vindos talvez de uma terrível sequência de assassinatos, destruições, violações e torturas, com aquela serenidade orgulhosa de quem acha que tudo não passou de uma brincadeira de estudantes e se convence de que finalmente os poetas voltam a ter matéria para longas celebrações nos seus versos.


in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

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outubro 05, 2003

Todos Os Homens São Maricas Quando Estão Com Gripe (pasodoble)

António Lobo AntunesPachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher -
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é a chuva
no meu-postigo
ai Lurdes Lurdes
fica comigo
não é o-vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão de ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.


in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes

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Ser estúpido....

contentar-nos-emos em reter, no essencial, que pode ser estúpido pretender-se inteligente, mas nem sempre é inteligente passar por estúpido. Não há meio de se poder fazer uma qualquer generalização; a única coisa admissível é a de que a atitude mais inteligente que podemos adoptar neste mundo é a de nos fazermos notar o menos possível!

in Da Estupidez, Robert Musil

Publicado por dolphin.s em 03:00 PM | Comentários (18)

O Pensamento do Suicídio

Jean GenetO pensamento — não o apelo — mas o pensamento do suicídio, surgiu claramente em mim por altura dos quarenta, ao que parece trazido pelo tédio de viver, por um vazio interior que nada, além do definitivo deslize, parecia poder anular. Apesar disto nenhuma vertigem, nenhum movimento dramático nem violento me atiravam para a morte. Era idéia que eu considerava com calma, com um pouco de horror, enjoativa poção e nada mais. Nessa época, após aventuras miseráveis que sofri e depois transformei em cantos de onde eu procurava extrair uma moral particular*, já me faltava o vigor preciso para iniciar, tal como entretanto sentia no íntimo que havia urgência em fazê-lo, uma obra que resultava não já do facto mas da razão clara, obra de cálculo que paradoxalmente resultava bem mais do número que do vocábulo, do vocábulo bem mais do que do facto, a desfazer-se à medida que ia prosseguindo. Esta exigência absurda ilustrava-se então pela seguinte fórmula: esculpir uma pedra em forma de pedra. Por razões que vou dizer pouco interessado no destino do mundo, já tendo ou julgando ter consumado o meu, condenado ao silêncio pelo vazio interior — equivalendo esse esculpir uma pedra em forma de pedra a calarmo-nos — com lógica e naturalidade pensei no suicídio. O que significa, assim sendo, que me pareciam inúteis os poderes do canto: eu devia desaparecer. Ou num longo momento — até à morte natural — esgotar-me a contemplar aquele em que me tinha transformado. Ou mascarar debaixo das vaidades o meu tédio.
A homossexualidade não é um fundamento a que eu soubesse acomodar-me. Além de não haver nenhuma tradição que venha em socorro do pederasta, que lhe legue um sistema de referências — a não ser com lacunas — nem que lhe forneça uma convenção moral que apenas tenha a ver com a homossexualidade, a própria natureza homossexual, adquirida ou concedida, suporta-se como tema de culpabilidade. Isola-me, corta-me ao mesmo tempo do resto do mundo e de cada pederasta. Odiamo-nos em nós próprios e em cada um de nós. Dilaceramo-nos. Uma vez destruídas as relações, a inversão é vivida solitariamente. A linguagem, suporte que renasce continuamente de um elo entre os homens, é alterada, parodiada, dissolvida pelos pederastas. As bichas, entre si, libertas do severo olhar social reconhecem-se na vergonha que elas próprias vestem com ouropéis.
O real** perde o pé e deixa à mostra uma insegurança trágica.


* Apesar de toda a minha actividade de ladrão só ter sido a estilização visível de um tema erótico levada ao mundo dos factos, o que me fazia deslocar numa auréola poética, quero aqui dizer de gratuito e de inutilidade, como os meus amantes não podiam ser mais do que suportes de aparências, eram ornamentos caprichosos sem valor prático, sem mais virtude do que inutilidade e luxo. Os meus ladroes, os meus marinheiros, os meus soldados, os meus criminosos? Não: a sua imagem.

** Chamarei real a todo o facto que possa constituir ponto de partida de uma moral, quer dizer, de uma regra em que assentam as relações de todos os homens, Ã palavra que parecia dever exprimi-los seria a palavra equidade. Uma atitude irreal é a que leva logicamente à estética.



in Infernos, Genet

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outubro 04, 2003

Espelhos...

Antonio Gaudi - Casa Mila - Applique Mirrors


Antonio Gaudi

Publicado por dolphin.s em 05:05 PM | Comentários (3)

Quem sou quando sinto?

Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
Estas páginas, em que registo com uma clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou?
Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim mesmo me contemplo de um cimo, e sou, com tudo, uma paisagem indistinta e confusa.
É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte. Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.
Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é.

in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares


Publicado por dolphin.s em 01:38 PM | Comentários (2)

outubro 03, 2003

O Sentido da Vida III

O núcleo e valor último da vida só pode residir em estados que existem em função de si próprios e que contêm em si próprios a satisfação que proporcionam. . . . Ora, a vida significa movimento e acção, e se desejamos descobrir um sentido nela devemos procurar actividades que contêm o seu valor e propósito em si próprias, independentemente de quaisquer objectivos exteriores; actividades, portanto, que não são trabalho, no sentido filosófico do termo. . . . Existem realmente tais actividades. Para sermos consistentes, devemos chamar-lhes jogos, já que este é o nome para a acção livre e sem propósito, isto é, para a acção que na verdade contém em si o seu propósito. . . .

Jogar, como entendemos a noção, é qualquer actividade que decorre inteiramente em função de si própria, independentemente dos seus efeitos e consequências. Não há nada que impeça esses efeitos de serem de um tipo útil ou valioso. Se forem, tanto melhor; a acção continua a ser jogo, pois já contém o seu valor em si própria. Bens valiosos podem proceder dela, tal como da actividade intrinsecamente não aprazível em que se procura atingir um propósito. Por outras palavras, também o jogo pode ser criativo; o seu resultado pode coincidir com o do trabalho. . . .

Olhemos à nossa volta: onde encontramos jogo criativo? O exemplo mais brilhante (que ao mesmo tempo é mais do que um simples exemplo) encontra-se na criação do artista. A sua actividade, que consiste em dar forma ao seu trabalho através da inspiração, é ela própria um prazer, e em parte é por acidente que valores duradouros resultam dela. Enquanto trabalha, o artista pode não pensar no benefício desses valores, pode nem pensar na sua recompensa, já que de outro modo o acto de criação ficará corrompido. O prémio que abundantemente recompensa não é a corrente de ouro, mas a canção que brota do coração! Assim se sente o poeta, e também o artista. E quem se sente assim naquilo que faz é um artista.

Considere-se, por exemplo, o cientista. Conhecer, também, é um puro jogo do espírito, a procura da verdade científica é um fim em si mesmo para ele. O cientista adora medir os seus poderes contra os enigmas que a realidade lhe propõe, independentemente dos benefícios que possam de alguma maneira resultar da sua actividade. . . .

Toda a nossa cultura terá que se concentrar num rejuvenescimento do ser humano, rejuvenescimento no sentido filosófico, de tal maneira que todas as nossas actividades se libertem gradualmente do domínio dos propósitos, que até as acções necessárias para a vida se transformem em jogo. . . .

Toda a educação deverá encarregar-se de que nada da criança se perca no homem à medida que este amadurece, de que a separação entre a adolescência e a idade adulta vá desaparecendo gradualmente, de tal forma que o homem permaneça um rapaz até aos seus últimos anos, e a mulher uma rapariga, apesar de ser uma mãe. Se precisamos de uma regra de vida, que seja esta: «Preserva o espírito da juventude!». Pois este é o sentido da vida.


Excertos de um texto de Moritz Schlick traduzido por Pedro Galvão
Na Intelectu

Publicado por dolphin.s em 03:17 PM | Comentários (17)

Takers & Leavers

IshmaelEscolhamos alguns nomes, para não precisarmos mais de falar de 'pessoas da tua cultura' e de 'pessoas de todas as outras culturas'. (...) Então, daqui por diante, chamarei Takers às pessoas da tua cultura e Leavers às pessoas de todas as outras culturas".
"Hum... tenho uma objecção".
"Diz".
"Não vejo como é possível agrupar todas as pessoas do mundo nessas categorias".
"É assim que se faz na tua cultura, com a diferença de serem usados um par de termos fortemente conotados em vez destes termos relativamente neutros. Vocês chamam-se civilizados e todos os outros são primitivos. O acordo é universal quanto a estes termos; quero eu dizer que os povos de Londres, Paris, Bagdade, Seul, Detroit, Buenos Aires e Toronto, todos o sabem. A despeito de tudo quanto os separa, estão unidos no facto de serem civilizados e distintos dos povos da Idade da Pedra espalhados pelo mundo fora; consideram ou reconhecem que — a despeito das diferenças que os separam — os povos da Idade da Pedra estão igualmente unidos no facto de serem eles primitivos".

(...)

"A Mãe Cultura, cuja voz fala aos teus ouvidos desde o dia em que nasceste, deu-te uma explicação de como o mundo veio a ser o que é. Tu conhece-la bem; todos na tua cultura a conhecem bem. Esta explicação não te foi porém transmitida de uma vez só. Nunca ninguém pegou em ti ao colo e te disse: 'Eis como o mundo veio a ser o que é, desde há dez ou quinze mil milhões de anos a esta parte até ao presente'. Em vez disso, tu reuniste esta explicação como se de um mosaico se tratasse: a partir de um milhão de informações apresentadas de várias formas por outros que partilham dessa explicação. Montaste-a a partir da conversa dos teus pais à mesa, de desenhos animados a que assististe na televisão, de aulas de catequese, dos teus livros escolares e dos teus professores, de telejornais, filmes, romances, sermões, peças de teatro, jornais e tudo o resto. Estás a acompanhar-me?"
"Acho que sim".
"É ubíqua na tua cultura esta explicação de como o mundo veio a ser o que é. Todos a conhecem e todos a aceitam sem questionar".
"Certo".
"Ao longo desta nossa viagem, reexaminaremos algumas peças-chave desse mosaico. Retirá-las-emos do vosso mosaico e encaixá-las-emos noutro completamente diferente, numa explicação inteiramente diversa de como o mundo veio a ser o que é".
"Certo".
"E, quando terminarmos, tu possuirás uma compreensão totalmente nova do mundo e de tudo quanto nele aconteceu. E não fará a menor diferença que te lembres ou não da forma como foi montada tal compreensão. A viagem em si é que irá transformar-te".

(...)

"Em terceiro lugar, definições," disse Ismael. "São palavras que terão um sentido especial no discurso que aqui desenvolveremos. Primeira definição: história. Uma história é um cenário interrelacionando o homem, o mundo e os deuses".
"De acordo".
"Segunda definição: encenar. Encenar uma história é viver de forma a torná-la realidade. Por outras palavras, encenar uma história é esforçar-se por torná-la verdadeira. Como tu reconheces, foi isto o que os alemães fizeram sob o domínio de Hitler. Tentavam tornar realidade o Reich dos Mil Anos. Tentavam tornar realidade a história que Hitler contava".
"Certo".
"Terceira definição: cultura. Uma cultura é um povo encenando uma história".
"Um povo encenando uma história. E uma história é..."
"Um cenário interrelacionando o homem, o mundo e os deuses".
"Certo. Dizes pois que as pessoas da minha cultura estão a encenar a sua própria história sobre o homem, o mundo e os deuses".
"Exactamente".
"Continuo porém sem saber de qual história se trata".
"Lá chegarás, não te rales. De momento, tudo quanto precisas de saber é que duas histórias fundamentalmente diferentes foram aqui encenadas no decurso da vida do homem. Uma começou a ser aqui encenada há dois ou três milhões de anos pelo povo que acordamos em chamar de Leavers, e continua a ser encenada por eles hoje, com tanto sucesso como sempre. A outra começou a ser aqui encenada há dez ou doze mil anos pelo povo que acordamos em chamar de Takers e, tudo o indica, apresta-se a terminar em catástrofe".
"Ah," disse eu, significando não sei bem o quê.

"Se a Mãe Cultura apresentasse uma descrição da história humana usando estes termos, ela diria algo assim: 'Os Leavers foram o primeiro capítulo da história humana — um capítulo longo e desprovido de eventos. Este capítulo da história humana terminou há cerca de dez mil anos, com o surgir da agricultura no Médio Oriente, evento esse que marcou o início do segundo capítulo, o capítulo dos Takers. Existem ainda, é certo, Leavers vivendo no mundo, mas eles são fósseis, anacronismos — povos vivendo no passado, povos que não há forma de entenderem haver terminado o seu capítulo na história humana'".
"Certo".
"É esta a forma geral da história humana tal como ela é vista na tua cultura".
"Diria que sim".
"Como virás a entender, o que eu afirmo é bem diferente. Os Leavers não são o primeiro capítulo de uma história na qual os Takers são o segundo capítulo".
"Importas-te de repetir?"
"Di-lo-ei de outra forma. Os Leavers e os Takers estão a encenar duas histórias separadas, baseadas em premissas totalmente diversas e contraditórias.


in Ishmael, Daniel Quinn

Publicado por dolphin.s em 10:50 AM | Comentários (3)

outubro 02, 2003

Autodomínio

Ao autodomínio não aspiro. Autodomínio significa querer agir sobre um ponto casual das infinitas emanações da minha existência espiritual. Se, no entanto, tiver que traçar tais círculos à minha volta, é preferível fazê-lo de um modo inactivo, simplesmente através do olhar pasmado para o enorme complexo, e levar apenas para casa o fortalecimento que, no entanto, esta contemplação me dá.

in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Publicado por dolphin.s em 09:20 PM | Comentários (18)

No terreno do homem oprimido

Friedrich NietzscheOs indivíduos «bem nascidos» sentiam que eram «os felizes»; não precisavam de construir artificialmente a sua felicidade por intermédio de um olhar lançado sobre os seus inimigos, não precisavam de se persuadir dessa felicidade, de mentir a si próprios quanto à existência dessa felicidade (como cuidam de fazer os homens de ressentimento). E, porque eram integralmente homens, plenos de força e, portanto, necessariamente activos, também sabiam não separar a felicidade da acção... Para eles, a actividade é parte necessária e integrante da felicidade... Tudo em total oposição à ideia de «felicidade» no plano dos impotentes, no terreno do homem oprimido que vive roído pelos sentimentos venenosos e pela hostilidade, para quem ela é essencialmente narcose, atordoamento, quietude, paz, sabat, repouso do ânimo e das pernas, ou seja, numa palavra, passividade. Enquanto o homem aristocrático vive numa atitude de confiança e de franqueza para consigo próprio, pelo contrário, o homem de ressentimento não é franco, nem ingénuo, nem tão-pouco frontal e sério perante si mesmo. A alma deste homem olha de través, o seu espírito gosta de recantos, de caminhos tortuosos e de portas das traseiras, encanta-se com tudo o que é recôndito, porque é esse o seu mundo, a sua segurança, o seu conforto. É especialista em calar-se, não esquecer, esperar, e em amesquinhar-se ou humilhar-se provisoriamente. Uma raça assim, composta por homens de ressentimento, acabará por ser necessariamente mais prudente do que uma raça aristocrática. Dispensará à prudência honras muito especiais, atribuir-lhe-á o papel de uma condição i de existência de primeira ordem, ao passo que para o homem aristocrático a prudência facilmente adquire uma coloração de luxo e de refinamento, porque para este ela é muito menos essencial do que a perfeita segurança do funcionamento regulador dos instintos inconscientes, e mesmo menos importante do i que uma certa imprudência, por exemplo, o acto de se lançar temerariamente para o perigo ou contra o inimigo, ou aquele rasgo súbito e entusiástico de cólera, de amor, de respeito, de gratidão ou de vingança, no qual sempre se reconheceram as almas mais nobres. Mesmo o ressentimento do homem aristocrático, quando ocorre, corporiza-se e esgota-se numa reacção imediata e, portanto, não envenena. Para além de que não chega sequer a ocorrer em inúmeras situações em que nos indivíduos fracos e impotentes seria totalmente inevitável. Não poder levar a sério por muito tempo os inimigos, as adversidades e mesmo as culpas próprias, é o sinal que distingue os indivíduos de natureza forte e inteira, nos quais há uma superabundância de força plástica que tem efeitos regeneradores e curativos e que consegue também fazer esquecer (um bom exemplo, no mundo moderno, é o de Mirabeau, que não tinha memória nem para os insultos nem para actos infames dirigidos contra si, e que não podia perdoá-los pela simples razão de que... já os esquecera). Um indivíduo assim, quando se sacode, consegue ver-se livre de inúmeros vermes que noutros se instalam longamente.

in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche

Publicado por dolphin.s em 02:38 PM | Comentários (5)

Apostila

Fernando PessoaAproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

Álvaro de Campos (11-4-1928)

Publicado por dolphin.s em 11:30 AM | Comentários (6)

outubro 01, 2003

On the Sufferings of the World IV

Arthur SchopenhauerHowever varied the forms that human happiness and misery may take, leading a man to seek the one and shun the other, the material basis of it all is bodily pleasure or bodily pain. This basis is very restricted: it is simply health, food, protection from wet or cold, the satisfaction of the sexual instinct; or else the absence of these things. Consequently, as far as real physical pleasure is concerned, the man is not better off than the brute, except in so far as the higher possibilities of his nervous system make him more sensitive to every kind of pleasure, but also, it must be remembered, to every kind of pain. But then compared with the brute, how much stronger are the passions aroused in him! what an immeasurable difference there is in the depth and vehemence of his emotions! - and yet, in the one case, as in the other, all produce the same result in the end: namely, health, food, clothing, and so on.
The chief source of all this passion is that thought for what is absent and future, which, with man, exercises such a powerful influence upon all he does. It is this that is the real origin of his cares, his hopes, his fears - emotions which affect him much more deeply than could ever be the case with those present joys and sufferings to which the brute is confined. In his powers of reflection, memory and foresight, man possesses, as it were, a machine for condensing and storing up his pleasures and his sorrows. But the brute has nothing of the kind; whenever it is in pain, it is as though it were suffering for the first time, even though the same thing should have previously happened to it times out of number. It has no power of summing up its feelings. Hence its careless and placid temper: how much it is to be envied! But in man reflection comes in, with all the emotions to which it gives rise; and taking up the same elements of pleasure and pain which are common to him and the brute, it develops his susceptibility to happiness and misery to such a degree that, at one moment the man is brought in an instant to a state of delight that may even prove fatal, at another to the depths of despair and suicide.
If we carry our analysis even farther, we shall find that, in order to increase his pleasures, man has intentionally added to the number and pressure of his needs, which in their original state were not much more difficult to satisfy than those of the brute. Hence luxury in all its forms: delicate food, the use of tobacco and opium, spirituous liquors, fine clothes and the thousand and one things that he considers necessary to his existence.

On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer

Publicado por dolphin.s em 03:55 PM | Comentários (0)

A esterilidade vai surgir e fazer-se acto

Jean GenetAo ter as suas particularidades, uma civilização teria uma moral, se moral chamarmos à tentativa lúcida, voluntária, de coordenar e depois harmonizar os elementos esparsos no indivíduo com vista a um fim que o transcende. A minha não saberia, porém, ser a moral vulgar, A pederastia é mal. Ao ser completamente assumida a inversão comporta, como é lógico, a noção de esterilidade. O homossexual recusa a mulher que, irónica, se vinga e reaparece nele para o colocar em posição perigosa. Chamam-nos efeminados. Banida, sequestrada, ridicularizada, a Mulher procura o dia com os nossos gestos e as nossas entoações, e encontra-o: uma vez furado, o nosso corpo irrealiza-se. Deixa de estar no seu lugar no universo do casal. A condenação feita aos ladrões e aos assassinos é remissível, não a nossa. Eles são culpados por acidente, o nosso pecado é original. Pagaremos caro o tolo orgulho que nos faz esquecer que saímos de uma placenta. Pois aquilo que nos amaldiçoa — e amaldiçoa toda a paixão — não é tanto os nossos amores infecundos como o princípio estéril que vai fertilizar-nos os actos, os mais insignificantes gestos, com nada. E então? Será possível os meus furores eróticos constantemente assestados sobre mim próprio ou sobre esse granito que os meus amantes são, que tais furores, sem mais fim do que a minha volúpia, acompanhem uma ordem, uma moral, uma lógica ligadas a uma erótica que conduz ao Amor? Expulsei a mulher. Admitida essa atitude infantil e agastada, vou prossegui-la com um rigor coerente. Pois que seja: recuso a metade do mundo a minha ternura, recuso-me a continuar a ordem do mundo, inocente e desastradamente eu próprio me risco: será a solidão. A esterilidade vai surgir e fazer-se acto.

in Infernos, Genet

Publicado por dolphin.s em 11:32 AM | Comentários (18)

Férias


Ready...

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Set..

Set..
GO!!!

GO!!!


in Dog Dogs, Elliot Erwitt

Publicado por dolphin.s em 12:02 AM | Comentários (12)