Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...
Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,
Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!
Dêem-me de beber, que não tenho sede!
Álvaro de Campos
Mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção — ou não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez. Eu o reconheço de novo, a esse dom» nesta hora de chuva em que escrevo. Na rua deserta, ouço-a cair, expulsar da cidade os robots da ilusão, a grandes brados de um vento sideral. Dirás tu, meu amigo, ou alguém ao pé de ti, que são eles precisamente quem me constrói o mundo onde a «aparição» é possível, este mundo do conforto de um fogão que me aquece, de um telhado que me abriga. Também tenho a minha parte de robot e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que eu faltasse à sua entrevista — essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer. Os robots da loucura é que a ignoram, porque o mundo deles é o da transacção imediata, um mundo táctil, de objectos, como o das crianças. Eu os vejo agora, passando desorientados pela rua abandonada, fugindo, espavoridos, à invasão do silêncio. De guarda-chuvas abertos, golas dos casacos erguidas, refugiam-se nas guaritas como animais acossados, aí ficam à espera de que o inimigo passe. Sim, eles conhecem a «fraternidade» e erguem-na corno bandeira da sua redenção. Mas da fraternidade eles sabem apenas a fácil estratégia das palavras trocadas, dos braços que se apoiam uns nos outros contra o medo. Mas a profunda fraternidade — tu o saberás, meu amigo— não é uma cadeia de braços, mas uma comunhão do silêncio, uma comunhão do sangue.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
George Grosz, The Lovesick Man, 1916
Eu que me comovo
por tudo e por nada
deixei-te parada
na berma da estrada
usei o teu corpo
paguei o teu preço
esqueci o teu nome
limpei-me com o lenço
olhei-te a cintura
de pé no alcatrão
levantei-te as saias
deitei-te no banco
num bosque de faias
de mala na mão
nem sequer falaste
nem sequer beijaste
nem sequer gemeste
quinhentos escudos
foi o que disseste
tinhas quinze anos
dezasseis, dezassete
cheiravas a mato
à sopa dos pobres
a infância sem quarto
a suor a chiclete
saíste do carro
alisando a blusa
espiei da janela
rosto de aguarela
coxa em semifusa
soltei o travão
voltei para casa
de chaves na mão
sobrancelha em asa
disse: fiz serão
ao filho e à mulher
repeti a fruta
acabei a ceia
larguei o talher
estendi-me na cama
de ouvido à escuta
e perna cruzada
que de olhos em chama
só tinha na ideia
teu corpo parado
na berma da estrada
eu que me comovo
por tudo e por nada.
in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes
Os juízos da vida quotidiana e da sua antropologia acertam muitas vezes no vinte, mas passam também, com certa frequência, ao lado. Não foram formados tendo em vista uma verdadeira doutrina; representam, de facto, apenas movimentos de concordância ou de recusa do espírito. Qualquer coisa pode ser estúpida sem o ser necessariamente, que o significado da palavra muda com o contexto, e que a estupidez está estreitamente relacionada com outra coisa sem por isso ultrapassar de nenhum modo o fio que permitiria, se se puxasse por ele, desfazer de uma só vez todo o tecido. A própria genialidade está indissoluvelmente ligada à estupidez; e a interdição, sob risco de se passar por estúpido, de falar demasiado de si foi contornada pela humanidade de modo original: inventando o escritor. Ele tem o direito, em nome do sentido do humano, de contar que comeu bem, que o sol brilha no céu, tem o direito a exteriorizar, a divulgar segredos, a fazer confidências, a apresentar brutalmente balanços pessoais — pelo menos muitos deles fazem-no! —; tudo isso como se a humanidade se autorizasse nesse caso excepcionalmente aquilo que se proíbe em todos os outros. Desse modo, ela fala incansavelmente de si própria e contou já, milhões de vezes, graças aos escritores, as mesmas histórias e as mesmas aventuras, sem com isso obter o menor progresso ou acréscimo de sentido. Não seria ela, no uso que faz da sua literatura e na docilidade que revela em relação a esse uso, suspeita afinal de contas de estupidez? Quanto a mim não considero isso absolutamente impossível!
in Da Estupidez, Robert Musil
Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha
adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida social dormente, por todos, por tudo. (...)
Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes - tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego
Adoro teatro. É muito mais real do que a vida.
Oscar Wilde, in O Retrato de Dorian Gray
alguém me disse hoje que esta frase é a minha cara :)
Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.
Ary dos Santos
And I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy's and talk about the day and type your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you're sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the the programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breasts your arse your
and sit on the steps smoking till your neighbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you're late and be amazed when you're early and give you sunflowers and go to your party and dance till I'm black and be sorry when I'm wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I'd known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you're angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you're gorgeous and hug you when you're anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I'm next to you and whimper when I'm not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don't and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I'm rejecting you when I'm not rejecting you and wonder how you could think I'd ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don't believe me and have a feeling so deep I can't find words for it and want to buy you a kitten I'd get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid of the roaches and buy you presents you don't want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don't mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it's empty without you and want want you want and think I'm losing myself but know I'm safe with you and tell you the worst of me and try to give you the best of me because you don't deserve any less and answer your questions when I'd rather not and tell you the truth when I really dont' want to and try to be honest because I know you prefer it and think it's all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it's a beautiful learning to know you and well worth the effort and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overwhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you.
Sarah Kane, in Crave
© Daniel Blaufuks
afinal hoje o Sol até brilhou :)
I wish I was a neutron bomb, for once I could go off.
I wish I was a sacrifice but somehow still lived on.
I wish I was a sentimental ornamnet you hung on
The christmas tree, I wish I was the star that went on top,
I wish I was the evidence
I wish I was the grounds for fifty million hands up raised and opened toward the sky.
I wish I was a sailor with someone who waited for me.
I wish I was as fortunate, as fortunate as me.
I wish I was a messenger, and all the news is good.
I wish I was the full moon shining off your camaro's hood.
I wish I was an alien, at home behind the sun,
I wish I was the souvenir you kept your house key on.
I wish I was the pedal break that you depended on.
I wish I was the verb to trust, and never let you down.
I wish I was the radio song, the one that you turned up,
I wish, I wish, I wish, I wish,
I guess it never stops.
Pearl Jam, Yield
Repeti: —Avó — e a mão agitou-se, sem eu saber o que significava isso quanto à eficácia das vozes e à existência dessa tal atenção que se reconduziria, etc. — Quer que chame o padre?
Sim, decerto: já expliquei. Ela frequentava o culto, mandava celebrar missas pelos seus mortos, confessava-se e comungava. Já disse: com que distracção, intenções, etc., etc. Bem: vejo-me assim a servir os poderes que ignoro, a realidade que ignoro, a ficção, as ficções que ignoro. Papel próprio para a juventude. E agora há mais forças. Estou cercado por forças de que mal vislumbro a natureza e a acção. Cada vez mais forças, pois estou diante da idade e ela chama novos poderes, sombrios poderes, sombrios enigmas. E depois, com a ideia de que lá fora a estação é de alto esplendor, de convite à pura exaltação, à inexperiência, à inocência — fico ainda mais inepto.
A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:
— É tudo mentira...
Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas — fulgurante e estúpida.
Assim é porventura a sabedoria: vil, esmagadora. O único tempo que lhe pertence deve ser a idade, mas quando dela se aproxima um jovem fascinado que a si mesmo impôs a condição de mensageiro, como se quisesse tocar no gelo, convencido — ele! — de que o calor dos poucos anos poderá fundir o gelo, então o gelo agarra a idiota mão quente, e queima-a.
A Avó morreu nesse mesmo dia.
Herberto Helder, in Os Passos em Volta, Equação
Antologia de poesia realizada por bloggers, organizada pela Janela Indiscreta.
Podem fazer download do livro clicando na imagem. O ficheiro está em formato pdf (Acrobat Reader) e tem 568Kb.
post no Rain Song com mais detalhes.
Lembro-me perfeitamente, meu amigo, de quando pela primeira vez vi o Templo de Diana. Era em Setembro, eu viera fazer exames, conhecia o Templo dos livros, das fotografias. Ignoro ainda se o monumento se alinha entre as belas obras de arte, essas perante as quais estamos todos autorizados a comover-nos. Ignoro-o, porque hoje sei que o milagre pode surgir quando menos o suspeitamos: uma frase musical de um tocador ambulante, o assobio de quem passa, um talo de erva que irrompe de uma juntura de pedras, podem alvoroçar-nos como a mais pura e evidente aparição de beleza. Subi a rua que vai da Praça, mal reparei então na Sé, obscurecida a um canto, cheguei enfim à acrópole onde se ergue o Templo. Catorze colunas nuas levantam-se para os astros banhadas da lua quente que iluminava o largo. Viam-se as estrelas por entre elas, o espaço habitava a sua irrealidade, irradiava essa mão de pedra à sua infinitude. Suspenso de memória e de uma obscura interrogação, ali fiquei algum tempo, tocado dessa indistinta surpresa que é o halo do limiar da vida, a anunciação das origens. Tenho visitado o Templo a outras horas de lua; mas jamais o alarme me visitou assim puro e fulminante, talvez porque o sabê-lo, o procurá-lo, lhe velava uma pouco a face - talvez porque ele só reconhece a verdade de quem não está prevenido, de quem vem desarmado dos combates diurnos.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Gustave Courbet, The Oak at Flagey, 1864
Chega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento,
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.
Adormeço sem dormir, ao relento da vida.
É inútil dizer-me que as acções têm consequências.
É inútil eu saber que as acções usam consequências.
É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.
Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.
Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.
Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.
Álvaro de Campos
Evidentemente que o que é proscrito quando a ordem reina são as intenções desmesuradas e à margem dos costumes. E depois de termos falado da vaidade que os povos e os partidos exibem hoje à força de se pensarem esclarecidos, é preciso agora acrescentar que a maioria epicuriana — exactamente como o indivíduo megalómano nos seus sonhos despertos — monopolizou não apenas a sabedoria, mas ainda a virtude, e considera-se corajosa, nobre, invencível, piedosa e bela; tanto mais que os homens, no mundo actual, têm tendência, desde que sejam em grande número, a permitir-se tudo o que lhes é proibido enquanto indivíduos. Imediatamente, ao ver estes privilégios do "nós" que se tornou enorme, tem-se a impressão que o trabalho de civilização e domesticação crescentes do indivíduo deve ser compensado por uma descivilização proporcional das nações, dos estados e das confrarias políticas (...)
in Da Estupidez, Robert Musil
A escrita exige mais escrita. Escrever, o acto de escrever, exige continuidade.
Talvez seja essa a razão de viajar. A verdade é que viajo para escrever. Faço assim a minha aprendizagem de escritor. Aprendizagem lenta do movimento sinuoso do mundo. E talvez não haja melhor sítio para entender esse movimento do que esta ilha, onde mal cresce a erva - e tudo parece morto.
Caminho às cegas, obsessivamente, de palavra em palavra - e sei que as palavras não valem nada. Estão ocas. Atraiçoam-me. Mas apesar de tudo, continuo a fingir que acredito nelas. Uso-as com a convicção firme de quem acaba de descobrir qualquer coisa e dela se apropria. É tudo mentira, claro.
Al Berto, in O Anjo Mudo, Baunei/Dórgalo/Nuoro
O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes - brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias - que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem de suas secreções.
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego
— Haverá alguém com vontade de mergulhar um pouco nos segredos da fabricação dos ideais? Quem tem coragem?... Pois bem! Eis uma perspectiva sobre essa oficina tenebrosa. O caro Sr. Curioso e Temerário fará o favor de esperar apenas um momento, para que os olhos se possam habituar a esta luz cintilante e falsa... Pronto! Já chega! Podeis falar agora! Que se passa lá em baixo? Dizei-me, vós, que sois homem da mais arriscada curiosidade, dizei-me o que vedes... Agora sou eu que escuto...
— Nada vejo, mas em compensação ouço muito bem. Ouço um murmúrio, gente que sussurra baixinho, por todos os cantos, com a prudência da traição. Quer-me parecer que é gente que mente: os sons têm todos uma brandura melíflua... Sim, sem dúvida... Querem fazer passar a fraqueza por um mérito! Tal como havíeis dito...!
— Mais!
— E querem fazer passar a impotência, incapaz de ripostar, por «bondade»; e a baixeza timorata por «humildade»; e a submissão aos odiados por «obediência» (obediência sobretudo a alguém que dizem que lhes ordena a submissão e a quem chamam «Deus»). E a inofensividade do fraco, a própria cobardia em que ele é pródigo, aquele seu hábito incontornável de ficar à porta, de ter que esperar, tudo isso recebe aqui nomes positivos, por exemplo, «paciência». Chamam-lhe mesmo «a virtude»! O não-poder-vingar-se chama-se «não-querer-vingar-se», talvez mesmo «perdão» («porque eles não sabem o que fazem*... só nós sabemos o que eles fazem!»). E falam também de «amor para com os inimigos»**... E transpiram quando falam nisso...
— Mais!
— São miseráveis, sem dúvida, estes moedeiros falsos, sempre a segredar pelos cantos..., miseráveis, por muito que se aqueçam uns aos outros, de tão juntos que se acocoram... Mas dizem-me agora que a sua miséria é o sinal de que foram escolhidos, eleitos por Deus, porque dá-se mais pancada aos cães de que mais se gosta... E que esta sua miséria talvez seja uma preparação, uma prova, uma aprendizagem, ou talvez ainda mais... uma experiência que terá um dia a sua recompensa com juros enormes, uma retribuição em ouro... Não! Em felicidade! E a isto chamam «bem-aventurança».
— Mais!
— Agora querem dar-me a entender que, não só são melhores do que os poderosos, do que os senhores do mundo que eles têm de bajular (não por medo, de modo algum!... apenas porque Deus manda honrar as autoridades), mas que também «estão melhor servidos», ou que pelo menos um dia estarão melhor servidos... Mas já me chega! Chega! Já não aguento! Este ar pestilento! Este cheiro! Sinto que toda esta oficina em que se fabricam ideais cheira a podre, a podridão da mentira completa!
— Não! Um momento mais! Nada me haveis dito ainda sobre a obra-prima destes prestidigitadores, que é a capacidade de transformarem tudo o que é negro em branco, em leite, em inocência... Não haveis notado a perfeição que atingem, o refinamento de que são capazes, aquela arte de manipulação da mais elevada ousadia, delicadeza, espirituosidade e da mais profunda mentira? Tomai atenção! Estes animais subterrâneos, cheios de ódio e de desejo de vingança, que fazem eles precisamente com esse ódio e essa sede de vingança? Haveis-Ihes ouvido tais palavras? Se confiásseis nas palavras que dizem, suspeitaríeis que estivésseis perante homens do mais completo ressentimento?
— Estou a perceber. Vou abrir de novo os ouvidos (mas, ai, ai, o nariz não abro). Só agora ouço o que eles já repetiram tantas vezes: «Nós, os bons... nós somos os justos.» E o que eles exigem, não lhe chamam «desforra» chamam-lhe «triunfo da justiça». E o que eles odeiam não é o inimigo, não, dizem antes que odeiam a «injustiça», a «impiedade». E aquilo em que acreditam, em que depositam as suas esperanças, não é desejo de vingança, não é a embriaguez deliciosa da vingança («mais doce do que o mel», já dela dizia Homero***), chamarn-lhe antes o «triunfo de Deus», do Deus da justiça sobre os infiéis. E o que lhes resta amar neste mundo não são os que com eles se irmanam no ódio, dizem que são pelo contrário os seus «irmãos no amor», todos «os bons e justos do mundo».
— E que nome dão àquilo que lhes serve de consolação para todos os sofrimentos da vida... essa fantasmagoria que antecipa uma beatitude futura?
— Como? Será que ouço bem? Chamam-lhe o «último juízo», dizem que será a vinda do seu reino, do «reino de Deus»..., e que, até lá, vivem «na fé», «no amor», «na esperança».
— Basta! Basta!
* Lucas: 23, 34
** Mateus: 5, 44
*** Homero, Ilíada, 18, 109
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Alexandre O'Neill
Chove muito, mais, sempre mais... Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro...
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração actual.
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego
Se é com razão que se diz: Ser deus é fazer bem aos homens, se é com justiça que elevaram à categoria de Imortais os que inventaram o pão, o vinho, ou que conseguiram para o seu semelhante qualquer outro beneficio desta espécie, não devo eu ser considerada como a maior de todas as divindades, eu que espalho sobre os mortais, sem distinção, as maiores mercês e os maiores bens?
Depois dos deuses, os estóicos são, pelo menos, segundo a sua própria opinião, os mais sublimes de todos os seres. Pois bem, dêem-me um estóico, seja ele três ou quatro rnil vezes mais estóico do que todos os estóicos juntos, a ver se consigo que corte as barbas, que considera como o símbolo da sabedoria, se bem que esse símbolo tenha qualquer coisa de comum com os bodes. Mas, pelo menos, forçá-lo-ei a abandonar o seu ar tristonho, apagar-lhe-ei as rugas da fronte, fazê-lo-ei renunciar aos seus severos princípios; entregar-se-á, durante certo tempo, ao prazer, à extravagância, à loucura. Resumindo: por mais prudente que possa ser, se quiser procurar os prazeres do mundo, é a mim, e só a mim, que terá de recorrer.
in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão
John Cale cantou esta noite...
i heard there was a secret chord
that david played and it pleased the lord
but you don't really care for music, do you
well it goes like this the fourth, the fifth
the minor fall and the major lift
the baffled king composing hallelujah
hallelujah...
well your faith was strong but you needed proof
you saw her bathing on the roof
her beauty and the moonlight overthrew you
she tied you to her kitchen chair
she broke your throne and she cut your hair
and from your lips she drew the hallelujah
hallelujah...
baby i've been here before
i've seen this room and i've walked this floor
i used to live alone before i knew you
i've seen your flag on the marble arch
but love is not a victory march
it's a cold and it's a broken hallelujah
hallelujah...
well there was a time when you let me know
what's really going on below
but now you never show that to me do you
but remember when i moved in you
and the holy dove was moving too
and every breath we drew was hallelujah
well, maybe there's a god above
but all i've ever learned from love
was how to shoot somebody who outdrew you
it's not a cry that you hear at night
it's not somebody who's seen the light
it's a cold and it's a broken hallelujah
hallelujah...
Leonard Cohen
Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos... É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de acaso, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobre tudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam. Ouço as vozes subterrâneas à alegria mecânica, aos passos cronometrados, à azafama de nervo e esquecimento que adivinho ao longe, numa metrópole-síntese construída em arame e cimento, e é bom que essas vozes ressoem na minha boca
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro
uma prenda! :)))
Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. Estava doente, tinha quinze anos. Não me lembro da doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me causara, então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes - e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite... Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti. Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas, apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude. Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava: no meio das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo» em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida, se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas. Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida. Caminha, assim, com a leveza de quem abandonou tudo. Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, vêem. O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único, não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo.
in O Anjo Mudo, Al Berto
A Democracia não tem outro sentido a não ser o de um correctivo individualista de toda a forma de absolutismo do Estado. A Verdade e a Justiça são as insígnias reais da moral individual, e no caso de um conflito com os interesses estatais talvez assumam até a aparência de potências inimigas do Estado, posto que, na realidade, visem o seu bem superior, digamo-lo: o bem supra-terreno do Estado. O Renascimento como origem da idolatria do Estado! Que lógica bastarda! As conquistas—emprego essa palavra no sentido literal!—as conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu caro senhor, chamam-se a Personalidade, os Direitos do Homem, a Liberdade!
Os ouvintes soltaram a respiração que haviam contido durante a grande réplica do sr. Settembrini. A seguir, porém, ambos se voltaram para o interlocutor que acabava de ser vitoriosamente rechaçado. Hans Castorp fê-lo com tamanha impaciência, que fincou o cotovelo na mesa e o queixo no punho mais ou menos na posição de quem desenha um porquinho, e fitou o sr. Naphta de muito perto e com imensa atenção.
Este achava-se sentado, calmo e cortante, apoiando as mãos magras sobre os joelhos. Disse:
—Tento introduzir um pouco de lógica na nossa discussão e a sua resposta baseia-se em frases generosas. Que o Renascimento deu à luz tudo aquilo que se chama liberalismo, individualismo, humanismo burguês é um facto que eu não desconhecia. Mas o seu «sentido literal» deixa-me frio. A idade «conquistadora», heróica, dos seus ideais há muito que passou; esse ideal está morto ou pelo menos agonizante, e aqueles que lhe darão o golpe de misericórdia já se acham próximos. Se não me engano, o senhor arvora-se em revolucionário. Mas se acredita que o resultado das revoluções futuras será a Liberdade, iludiu-se redondamente. O principio da Liberdade cumpriu o seu destino e gastou-se em quinhentos anos. Uma pedagogia que pretende ser ainda hoje a filha do Racionalismo e vê os seus meios formativos na crítica, na libertação e no culto do Eu, na destruição de formas de vida determinadas de um modo absoluto — tal pedagogia pode obter hoje ainda triunfos passageiros, porém o seu carácter atrasado é óbvio para os espíritos avisados. Todas as organizações verdadeiramente educadoras souberam sempre o que na realidade deve ser o último objectivo da pedagogia: a autoridade absoluta, uma disciplina de ferro, o sacrifício, a renúncia do Eu, a violação da personalidade. Em última análise, é desconhecer e não amar a juventude pensar que ela sente prazer na Liberdade. O seu prazer mais profundo é a obediência.
Joachim empertigou-se. Hans Castorp corou. O sr. Settembrini, agitado, torcia nervosamente o belo bigode.
—Não—prosseguiu Naphta.—O segredo e a exigência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do Eu. O de que ela necessita, o que deseja, o que criará é o Terror.
in a Montanha Mágica, Thomas Mann
Quando os oprimidos, os esmagados, os violentados, do fundo da sua astúcia vingativa, se põem a dizer: «Sejamos diferentes dos malvados! Sejamos, portanto, bons! Bom é aquele que não violenta, que não ofende ninguém, que não ataca, que não retalia, que entrega a vingança a Deus, aquele que, como nós, permanece na obscuridade, que evita o mal e que muito pouco exige da vida, como nós que somos pacientes, humildes e justos...», o que isto significa, observado friamente e sem preconceito, é afinal apenas o seguinte: «Nós, os fracos, somos de facto fracos; é bom que não façamos nenhuma daquelas coisas para as quais não somos suficientemente fortes...» Mas esta constatação crua, esta prudência da mais baixa ordem, que até os insectos mostram possuir (quando, em situações de maior perigo, se fingem mortos, para não fazerem nada «em demasia»), graças à falsificação e ao auto-engano que são próprios da impotência, mascarou-se com as roupagens pomposas da virtude que sabe renunciar e esperar em total quietude, como se a fraqueza do fraco — ou seja, afinal a sua essência, o seu modo de agir, a sua realidade única, inelutável, inalienável — fosse ela própria algo de livremente escolhido, algo resultante da vontade, um acto, um mérito. Esta espécie de homens, por via de um instinto de sobrevivência e de auto-afirmação que consegue santificar todas as mentiras, precisa da crença na liberdade de escolha de um sujeito neutro. É por isso que o sujeito (ou, em termos mais populares, a alma) é talvez o melhor dogma até hoje surgido no mundo, uma vez que veio abrir à multidão de mortais, de fracos e de oprimidos de toda a espécie a possibilidade de se enganarem a si próprios com a sublime mentira que interpreta a fraqueza como liberdade e o facto de serem assim como um mérito.
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder
O medo de parecer estúpido tal como o de ferir as conveniências faz com que inúmeros homens se pensem inteligentes evitando dizê-lo. E se forem constrangidos, apesar de tudo, a falar disso, recorrem a perífrases do género: "Não sou mais estúpido que qualquer outro." Mas em geral prefere dizer-se, num tom tão neutro e objectivo quanto possível, o seguinte: "Creio poder dizer que tenho uma inteligência normal." Outras vezes, a convicção de ser inteligente surge de viés, como na seguinte frase idiomática: "Não me deixo passar por estúpido!" A coisa é tanto mais notável quanto não é apenas o indivíduo privado que se julga, no segredo do seu coração, extraordinariamente inteligente e bem dotado, mas ainda o homem público que diz e faz dizer dele, mal tenha poder para isso, que é supremamente inteligente, esclarecido, nobre, soberano, gracioso, eleito de Deus e votado a um destino histórico. Chega mesmo ao ponto de o dizer de outro, desde que o reflexo dele aumente o seu próprio brilho. Encontramos vestígios fossilizados e quase definitivamente mortos disso em títulos como Vossa Majestade, Vossa Eminência, Vossa Excelência ou Vossa Graça; mas isso readquire plena vitalidade hoje, sempre que um homem fala na qualidade de massa. Sobretudo uma certa camada inferior das classes médias — intelectual e moralmente falando — exibe a este respeito uma pretensão absolutamente indecente desde que, manifestando-se ao abrigo de um partido, de uma nação, de uma seita ou mesmo de uma tendência artística, se sente autorizada a dizer "nós" em vez de "eu".
in Da Estupidez, Robert Musil
All alone
We're all alone...
We're all alone...
Layne Staley, para música do álbum Above, dos Mad Season
Agora, auditores muito, muito... como hei-de eu dizer?... auditores muito loucos? Porque não? É o título mais honroso que a Loucura pode dar aos seus iniciados. Pois muito bem, então, auditores muito loucos, agora já sabeis qual é o meu nome. Mas como há muitas pessoas que ignoram a minha origem, vou tentar dá-la a conhecer, mediante o auxílio das Musas*.
Meu pai não me concebeu no seu cérebro, como outrora Júpiter concebeu essa vilã e impertinente Minerva; mas deu-me por mãe Neotete, a Juventude, a mais alegre, a mais bela, a mais viva de todas as ninfas. Também não sou fruto do fastidioso dever conjugal, como o coxo do Vulcano; nasci, como disse o bom Homero, dos deliciosos arrebatamentos do amor. E para que vos não iludais, não foi quando já estava velho e quase cego, como o descreve Aristófanes, que Pluto me engendrou; mas outrora, quando se sentia em todo o vigor da sua idade, quando o fogo da juventude lhe ardia nas veias, e num desses agradáveis momentos, em que o néctar, bebido à mesa dos deuses, o enchera de bom humor.
Quereis, por ventura, que vos diga, também, qual o local do meu nascimento, porque hoje em dia acredita-se que o lugar em que uma criança viu pela primeira vez a luz do sol, é muito importante para a sua nobreza. Dir-vos-ei, no entanto, que não nasci nem na ilha flutuante de Delos, nem sobre as ondas do mar, nem nas profundas cavernas; vi o dia nas Ilhas Afortunadas, país encantador, onde a terra, sem ser cultivada, produz os mais ricos frutos. O trabalho, a velhice, as doenças são ignoradas naqueles felizes campos. Ali não se vê crescer, nem malvas, nem tremoços, nem fava, nem nenhuma dessas outras plantas que não servem senão para as terras vulgares. O moli, a panaceia, o nepentes, a manjerona, as rosas, as violetas e os jacintos encantam por toda a parte o olfacto e a vista, e fazem, desses maravilhosos lugares, jardins mil vezes mais encantadores do que os jardins de Adónis.
Aparecida no meio deste ambiente maravilhoso o meu nascimento não foi anunciado com as minhas lágrimas; assim que nasci, viram-me sorrir graciosamente para minha mãe. Faria muito mal se invejasse Júpiter, por ter sido amamentado por uma cabra, pois as duas mais graciosas ninfas do mundo, Meteia, a Embriaguez, filha de Baco, e Apoedia, a Ignorância, filha de Pã, foram as minhas amas. Vê-las-eis, aqui, entre as minhas companheiras, no meio do meu séquito.
Mas, já que falei do meu séquito, é preciso que vo-lo apresente. Aquele que vos olha com um ar arrogante é o Amor-Próprio. Aquela, de rosto gracioso e mãos sempre prontas a aplaudir, é a Lisonja. Ali, podeis ver a deusa do Esquecimento, que se deixa dormir a cada instante, e parece já estar a pegar no sono. Mais além, a Preguiça, de braços cruzados e encostada aos cotovelos. Não reconheceis a Volúpia, pelas grinaldas, pelas coroas de rosas e pelas essências deliciosas com que se perfuma? Não reparais naquela que passeia por toda a parte os seus olhares descarados e impudentes? E a Demência. Aquela outra, cuja pele é tão lustrosa, e o corpo tão gordo e tão rubicundo, é a deusa das Delícias. Mas, entre todas estas deusas, também encontrareis deuses. Um é Comos, outro é Morfeu.
Com o auxílio destes fiéis servidores, submeto ao meu domínio tudo quanto existe no universo. É com eles que governo os que governam o mundo.
* Erasmo considera esta obra como uma ficção poética.
in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão
Oh ...
I know I'm unloveable
You don't have to tell me
I don't have much in my life
But take it - it's yours
I don't have much in my life
But take it - it's yours
Oh ...
I know I'm unloveable
You don't have to tell me
Oh, message received
Loud and clear
Loud and clear
I don't have much in my life
But take it - it's yours
I know I'm unloveable
You don't have to tell me
For message received
Loud and clear
Loud and clear
Message received
I don't have much in my life
But take it - it's yours
I wear Black on the outside
'Cause Black is how I feel on the inside
I wear Black on the outside
'Cause Black is how I feel on the inside
And if I seem a little strange
Well, that's because I am
If I seem a little strange
That's because I am
But I know that you would like me
If only you could see me
If only you could meet me
Oh ...
I don't have much in my life
But take it - it's yours
I don't have much in my life
But take it - it's yours
Oh ...
The Smiths, in "The World Won't Listen"
Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. — Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento de base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. — Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mante-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. — Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. — Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuíam um marinheiro invulgarmente esperto. — Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. Um cão da Estrela, que encontraram naturalmente perto da Serra da Estrela, perguntou-lhes se o marinheiro gostava de sardinhas. — Adora-as, respondeu a cadela. — Isso não me admira nada, disse o indígena. E na verdade não parecia admirado. Quando chegaram ao mais interior possível, alugaram uma casa com um jardim e puseram o marinheiro a guardá-lo. — Guarda-o, disseram. Deixaram-lhe ao lado uma dúzia de latas de sardinhas e foram para dentro de casa. Durante sete dias e sete noites, o marinheiro reflectiu sobre as paisagens do interior e comeu as sardinhas de conserva. Depois foi atacado de esgana, e começou a andar em círculos cada vez mais apertados no meio do jardim. Os cães observavam-no da janela e viam que o seu marinheiro perdia as forças a cada volta. Um dia, ao anoitecer, caiu para o lado resfolegando. — O mar, ouviram-no dizer. Então foram para dentro, e dormiram. De manhã vieram cedo ao jardim e verificaram que o marinheiro estava morto. — Era um marinheiro tão esperto, disse a cadela. — Pois era, disse o cão, foi pena. E enterraram o marinheiro debaixo de uma acácia. Mas como já se haviam habituado à vida do interior, não regressaram ao litoral. Nunca mais tiveram marinheiros. — Para quê?, dizia a cadela, ralações já existem de sobra. E quem se atreve a negar que ela tinha razão?
in Os Passos em Volta, Herberto Helder
A guerra já não se declara,
prossegue-se. O inaudito
tornou-se quotidiano. Os heróis
ficam longe dos combates. Os fracos
são transferidos para as zonas de fogo.
A farda do dia é a paciência,
a medalha a pobre estrela
da esperança sobre o coração.
Conferida
quando nada mais acontece,
quando o tiroteio emudece,
quando o inimigo se torna invisível
e a eterna sombra das armas
recobre o céu.
Conferida
por deserção da bandeira,
por coragem face ao amigo,
por denúncia dos segredos infames
e por desobediência
a todas as ordens.
Ingeborg Bachman
tradução de José Lima para a revista DiVersos nº 1
Edvard Munch, Puberty |
Edvard Munch, Madonna |
Onde fica a Verdade, senhor, que anda intimamente ligada à liberdade, e cujos mártires, longe de insultarem a Terra, como o senhor pensa, permanecerão o eterno ornamento deste astro?
O sr. Settembrini tinha uma maneira vigorosa de interrogar. Estava sentado, muito erecto, e deixava cair sobre o pequeno Naphta as suas palavras honestas. (...)
—Caro amigo, não existe conhecimento puro. É indiscutível a legitimidade da concepção religiosa da Ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: «Creio para que possa conhecer». A Fé é o órgão do conhecimento; o intelecto é secundário. A sua ciência sem premissas não passa de um mito. Há sempre uma fé, uma concepção do Mundo, uma ideia, numa palavra: uma vontade, e cabe à Razão explicá-la e comprová-la sempre c em todos os casos, Trata-se de chegar ao «Quod erat demonstrandum» A simples ideia da prova contém, psicologicamente considerada, um nítido elemento voluntarista. Os grandes escolásticos dos séculos XII e XIII eram unânimes na convicção de que na Filosofia não podia ser verdade o que era falso perante a Teologia. Deixemos de lado a Teologia, se assim o quiser; mas uma humanidade que não reconhecesse que nas Ciências Naturais não pode ser verdade o que é falso perante a Filosofia, não seria uma humanidade. A argumentação do Santo Ofício contra Galileu reduziu-se a isto: os seus princípios eram filosoficamente absurdos. Não pode haver argumentação mais incisiva.
—Ora, ora! Os argumentos do nosso pobre e grande Galileu mostraram-se mais sólidos. Não, professore, falemos seriamente! Diante destes dois jovens tão atentos responda-me à seguinte pergunta: acredita o senhor numa Verdade, verdade objectiva e científica, que a lei suprema de toda moralidade nos manda procurar, e cujos triunfos sobre a autoridade formam a história gloriosa do espírito humano?
Hans Castorp e Joachim voltaram os seus rostos de Settembrini para Naphta, o primeiro mais rapidamente do que o segundo. Naphta respondeu:
—Tal triunfo não é possível, porque a autoridade é o Homem, o seu interesse, a sua dignidade, a sua salvação, e entre ela e a verdade não pode haver conflito. Confundem-se.
—A verdade seria, por conseguinte...
—É verdadeiro o que convém ao Homem. Nele se acha concentrada toda a natureza; apenas ele foi criado em toda a natureza, toda a natureza só para ele foi feita. Ele representa a medida das coisas, e a sua salvação é o o critério da verdade.
in a Montanha Mágica, Thomas Mann
A noite desce sobre a cidade. Faz calor. A lua mergulha no espelho negro dos asfaltos, acende-se no fundo do rio.
Procuro-te nos rostos que passam. Sei que todos eles abrigam a tua morte. Nenhum deles evoca o sorriso que te pertenceu.
Qual deles, ao ser tocado, se metamorfoseará em vidro? E se quebrará nas minhas mãos.
Qual deles leva teu nome escondido nos lábios?
Qual deles oferecerá ou venderá o corpo?
Qual deles, como tu, acordará um dia esquecido de que está vivo?
A noite esvazia-se. Nenhuma música enche a tua morte.
Caminho desamparado, embora saiba que uma aragem te acordará em mim e, o álcool ajudando, a terra ser-te-á leve...
Qual deles venderá o corpo?
Qual deles ousará pousar a mão na minha lepra?
Caminho desamparado.
A noite abre-se, imensa, e o tempo passa sobre o rosto como um fogo que tudo apaga.
Os meus passos vão no sentido contrário ao teu sossego.
Os dias avançam sem paixão. Os dias recuam e não encontro ninguém.
in O Anjo Mudo, Al Berto
Sento-me à mesa de trabalho. Inclino a cabeça para a memória dos livros que li e amei.
Com um gesto de ave pouso a mão sobre o papel. E no interior da sombra da mão, começo a escrever: era uma vez...
in O Anjo Mudo, Al Berto
Ah, se o amor fosse mesmo livre...
desta vez o alvo a que não resisti roubar o post foi o Os Tempos que Correm
Espero que o Miguel não se importe.
Os dias longos, as noites no meio do mar. Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo. E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento. Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo. Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. Literatura. Merda. Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-da-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe. Posso especular sobre a revolução, evidentemente. Que revolução? A revolução, claro. Pois é: a minha revolução não dá um passo.
in Os Passos em Volta - Como se vai para Singapura, Herberto Helder
Quantas vezes, presa da superfície e do bruxedo, me sinto homem. Então convivo com alegria e existo com clareza. Sobrenado. E é-me agradável receber o ordenado e ir para casa. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me qualquer coisa orgânica. Se medito, não penso. Nesses dias gosto muito dos jardins.
Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização - uma modificação anónima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas - ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente.
Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre recantos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertence a ela.
Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.
Mas a ilusão não dura muito, tanto porque não dura como porque a noite vem. E a cor das flores, a sombra das árvores, o alinhamento de ruas e canteiros, tudo se esbate e encolhe. Por cima do erro e de eu estar homem abre-se de repente, como se a luz do dia fosse um pano de teatro que se escondesse para mim, o grande cenário das estrelas. E então esqueço com os olhos a plateia amorfa e aguardo os primeiros actores com um sobressalto de criança no circo.
Estou liberto e perdido.
Sinto. Esfrio febre. Sou eu.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
E depois, meu amigo, enquanto temos um instrumento na mão, não sabemos que temos um instrumento na mão... Todo o gesto, enquanto tal, enquanto se executa, limita-se em si mesmo, esquece a sua origem: toda a acção trai a força que a gerou, porque ela é em si própria um princípio e um fim.
Vergílio Ferreira, in "Carta ao Futuro"
roubo, foi o que fiz ao Citador ao copiar este excerto de um post ;)
não resisti...
Mas a estupidez — é uma objecção que aqui se torna inevitável — longe de apaziguar sempre, pode mesmo irritar. Para sermos sucintos, digamos que ela excita habitualmente a impaciência, mas também, em circunstâncias extraordinárias, a crueldade; e os excessos odiosos desta crueldade doentia que habitualmente se designa por sadismo, mostra muitas vezes, no papel de vítimas, os imbecis. Isso resulta evidentemente do facto de eles serem para os seres cruéis as presas mais fáceis; mas parece estar igualmente associado ao facto de que a incapacidade de resistir que emana de toda a sua pessoa excita a imaginação como o odor do sangue o animal feroz, e arrastando-o para uma espécie de deserto onde a crueldade "vai muito longe" devido ao facto, ou quase só ao facto, de não esbarrar em quaisquer limites. Existe um traço de sofrimento naquele que inflige o sofrimento, uma fraqueza inserida na sua brutalidade; e mesmo que a indignação privilegiada da compaixão impeça geralmente que se veja, a verdade é que a crueldade, tal como o amor, necessita de dois parceiros que se ajustem! Analisar isso seria certamente uma tarefa importante para uma humanidade tão atormentada como a actual pela sua "indiferente crueldade para com os fracos"
in Da Estupidez, Robert Musil
Cada qual de cão ao colo
damos de comer ao cão
chá e migalhas de bolo
pão de ló de Alfeizerão.
Arejamos com o leque
calores dos 6o anos
pérolas de pechisbeque
brincos de prata ciganos.
Lá em casa convivemos
com os estalos da mobília
tristes silêncios serenos
doçuras de chá de tília.
Résteas de sol nas janelas
de cortinas desbotadas
candelabros de três velas
retratos das afilhadas.
A crueldade do espelho
vem mostrar-nos de manhã
ruínas de um corpo velho
num casaquinho de lã.
E à cabeceira da cama
o riso do falecido
garante qu'inda nos ama
por trás da placa de vidro.
Ai felicidade perdida
porque a mágoa não tem fundo
o cão ladra contra a vida
nós ladramos contra o mundo.
in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes
(...) foi com um espírito altruísta que trabalhou a máquina por meio da qual a Convenção expurgou o Mundo de maus cidadãos. Todos os castigos da Igreja, inclusive a fogueira, inclusive a excomunhão, foram impostos para salvar as almas da pena eterna, o que não pode dizer-se do entusiasmo exterminado dos jacobinos. Permito-me observar que toda a justiça inquisitorial e capital que não brote da fé num Além é uma estupidez animal. E quanto ao aviltamento do Homem, a sua história coincide exactamente com a do espírito burguês. O Renascimento, o Século das Luzes, as Ciências Naturais e as doutrinas económicas do século xix não se esqueceram de ensinar nada, absolutamente nada, que fosse próprio para favorecer esse aviltamento, começando pela nova astronomia, em virtude da qual o centro do Universo, o magnífico cenário onde Deus e o Diabo disputavam a posse da criatura, foi transformado num insignificante planetazinho, e que pôs fim, provisoriamente, à grandiosa posição do Homem no Cosmos, sobre a qual, de resto, se fundava igualmente a astrologia.
Naphta, o jesuíta in a Montanha Mágica, Thomas Mann
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas dos teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
Weird dancing in all-night computer-banking lobbies. Unauthorized pyrotechnic displays. Land-art, earth-works as bizarre alien artifacts strewn in State Parks. Burglarize houses but instead of stealing, leave Poetic-Terrorist objects. Kidnap someone & make them happy. Pick someone at random & convince them they're the heir to an enormous, useless & amazing fortune--say 5000 square miles of Antarctica, or an aging circus elephant, or an orphanage in Bombay, or a collection of alchemical mass. Later they will come to realize that for a few moments they believed in something extraordinary, & will perhaps be driven as a result to seek out some more intense mode of existence.
extracto do texto homónimo, por Hakim Bey
Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objecto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro. Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.
Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo - que não tenho sentimentalidade para aparar -, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
A inteligência é sem dúvida apreciada no homem servil, mas na condição de estar associada a um devotamento absoluto. A partir do momento em que este certificado de boa conduta lhe falte e que deixe de ser absolutamente certo que ela sirva os interesses do senhor, mais do que inteligência, será designada por imodéstia, insolência, malícia; e dir-se-á muitas vezes então que ofende pelo menos a honra e a autoridade do senhor, mesmo quando realmente não ameaça a sua segurança. Isto é muito visível na escola, onde se trata mais rudemente um aluno dotado mas indócil do que um submisso apático. Em moral isso levou à concepção de que uma vontade é tanto pior quanto melhor for a consciência contra a qual actua. A própria justiça não ficou inteiramente ao abrigo deste preconceito pessoal: um crime cometido com inteligência é mais severamente condenado, por ser "refinado" e "cruel". Em política, finalmente, qualquer pessoa pode ir procurar os seus exemplos onde os puder encontrar.
in Da Estupidez, Robert Musil
"À semelhança de todos os outros, também tu recebeste a explicação de como o mundo veio a ser o que é — só que aparentemente ela não te satisfaz. Ouviste-a desde a infância, mas não conseguiste engoli-la nunca. Tens a sensação de algo ter sido deixado de fora, encoberto. Tens a sensação de te haverem contado uma mentira e, caso possível, gostarias de saber qual ela é — razão por que te encontras nesta sala".
"Estou confuso. Não sei de história alguma. Não sei de uma história única".
"É uma história única e perfeitamente unificada. Basta pensar mitológicamente".
"Como assim?"
"Estou a falar da mitologia da tua cultura, é claro. Pensei que fosse óbvio".
"Para mim não é".
"Qualquer história explicando o sentido do mundo, as intenções dos deuses e o destino do homem é forçosamente mitologia".
"Será, mas não conheço nada de semelhante. Tanto quanto sei, não existe nada na nossa cultura passível de ser designado de mitologia, a não ser que te refiras à mitologia grega, nórdica ou algo assim".
"Estou a falar de mitologia viva. Que não se encontra registada em qualquer livro, e sim na mente das pessoas da tua cultura. Neste exacto instante, ela está a ser encenada em todas as partes do mundo".
"Repito: tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante".
Ismael franziu a testa escura e lançou-me um olhar de divertida exasperação. "Isso é por tu achares que mitologia é um conjunto de fábulas fantásticas. Os gregos não encaravam desta forma a sua mitologia. Sei que o entendes. Caso te dirigisses a um homem da Grécia homérica e lhe perguntasses quais eram as fábulas fantasiosas sobre os deuses e os heróis do passado que contava aos filhos, ele não te entenderia. A sua resposta seria idêntica à tua: 'Tanto quanto sei, na nossa cultura não existe nada de semelhante'. Um nórdico teria dito o mesmo".(...)
"Dir-to-ei então com todas as letras. Tu andas à procura do mito da criação da tua própria cultura".
Olhei-o desanimado. "Não temos um mito da criação," disse. "Até aí é certo".(...)
"Não temos um mito da criação," repeti. "A não ser que te refiras ao mito do Génese".
"Não sejas absurdo. Caso um professor do secundário te convidasse a explicar como tudo começou, lerias à turma o primeiro capítulo do Génese?"
"Claro que não".
"Que explicação darias tu então?"
"Poderia dar uma explicação, mas não seria decerto um mito".
"Tu não a considerarias um mito, como é natural. Nenhuma história da criação é um mito para as pessoas que a contam. É apenas a história".
"De acordo, mas a história a que me refiro não é decerto um mito. Suponho que partes dela sejam ainda questionáveis, e que pesquisas futuras possam introduzir algumas revisões, mas não é decerto um mito".
"Liga o gravador e começa. Então saberemos".
Olhei-o reprovadoramente. "Queres realmente que eu... hã..."
"Que contes a história, sim".
"Não posso desfiá-la assim, sem mais nem menos. Preciso de tempo para a organizar".
"Tempo é coisa não falta. A cassete é de noventa minutos".
Suspirei, liguei o gravador e fechei os olhos.
"Tudo começou há muito tempo, há dez ou quinze mil milhões de anos," principiei, minutos depois. "Não estou actualizado sobre qual é a teoria dominante, se a do estado fixo ou a do big-bang, mas em ambos os casos o universo começou há muito tempo".
Nesse ponto, abri os olhos e enviei um olhar interrogativo a Ismael.
Ele retribuiu-me o olhar e perguntou, "É isso? É essa a história?"
"Não, estava só a confirmar". Fechei os olhos e recomecei. "Então, creio que há uns seis ou sete mil milhões de anos — formou-se o nosso sistema solar... Tenho uma imagem na cabeça, retirada de alguma enciclopédia infantil, com bolas de matéria espalhando-se ou aglutinando-se... eram os planetas. Os quais, ao longo de milhares de milhões de anos, foram arrefecendo e solidificando... Deixa cá ver. A vida apareceu no caldo químico dos nossos antigos oceanos há cerca de — há quantos anos, cinco mil milhões?"
"Três mil milhões e meio ou quatro".
"Certo. As bactérias e os microorganismos evoluíram até formas superiores, mais complexas, as quais evoluíram por sua vez para formas mais complexas ainda. Aos poucos a vida estendeu-se até à terra firme. Não sei... houve o limo nas margens dos oceanos, os anfíbios... Os anfíbios ocuparam a terra, evoluíram e tornaram-se répteis. Os répteis evoluíram e tornaram-se mamíferos. Há quanto tempo foi isto? Mil milhões de anos?"
"Há apenas duzentos e cinquenta mil milhões de anos".
"Certo. Seja como for, os mamíferos... Não sei bem. Pequenas criaturas em pequenos nichos — agachadas sob os arbustos, empoleiradas nas árvores... Dessas criaturas nas árvores provieram os primatas. Depois, não sei — talvez há dez ou quinze milhões de anos, um ramo dos primatas deixou as árvores e..." Esgotei o fôlego.
"Isto não é nenhum exame," disse Ismael. "As linhas gerais bastam — quero apenas a história corno ela é vulgarmente conhecida por motoristas de autocarro, camponeses e políticos".
"Está bem," disse eu, e voltei a fechar os olhos. "Uma coisa levou a outra. Surgiu uma espécie após outra e, finalmente, surgiu o homem. Quando foi isso? Há três milhões de anos?"
"Ê uma estimativa fiável".
"Certo".
"É isso?" inquiriu Ismael.
"Em linhas gerais, é".
"Trata-se da história da criação como ela é contada na tua cultura".
"Isso mesmo. Até onde a conhecemos actualmente".
Ismael meneou afirmativamente a cabeça e disse-me para desligar o gravador. Depois, recostou-se com um suspiro que ribombou pelo vidro como se de um vulcão distante se tratasse, cruzou as mãos sobre a barriga e lançou-me um olhar longo e imperscrutável. "E tu, uma pessoa inteligente e moderadamente culta, queres fazer-me acreditar que não se trata de um mito".
"O que tem ela de mítico?"
"Eu não disse que ela tinha algo de mítico. Disse que era um mito".
Acho que ri com nervosismo. "Talvez eu desconheça o teu conceito de mito".
"É idêntico ao teu. Estou a usar a palavra no sentido corrente".
"Então não é um mito".
"Decerto que é um mito. Ouve-a". Ismael disse-me para rebobinar a cassete e passá-la de novo.
Após ter ouvido a gravação, fingi estar pensativo para manter as aparências. Depois disse: "Não é um mito. Caso fosse um texto científico para o oitavo ano, creio que nenhuma escola objectaria — à excepção dos criacionistas".
"Concordo plenamente. Não disse eu tratar-se de uma história ubíqua na tua cultura? As crianças absorvem-na através de muitos canais, incluindo textos escolares sobre ciência".
"O que estás então tu a tentar dizer? Estás a sugerir não se tratar de uma explicação factual?"
"Factos não lhe faltam, claro, mas o seu ordenamento é puramente mítico".
"Não sei do que estás tu a falar".
"Desligaste a tua mente, é óbvio. A canção da Mãe Cultura adormeceu-te".
Olhei-o com seriedade. "Estás a dizer que a evolução é um mito?"
"Não".
"Estás a dizer que o homem não evoluiu?"
"Não".
"O que estás tu a dizer, então?"
Ismael olhou-me sorridente, encolheu os ombros e ergueu as sobrancelhas. Olhei para ele e pensei: Um gorila está a gozar comigo. Não adiantou.
"Ouve de novo " disse-me ele.
Ouvi a gravação até ao fim e disse: "Certo, ouvi uma coisa, a palavra surgiu. Eu disse que finalmente surgiu o homem. É isso?"
"Não é nada disso, não. Não estou a implicar com uma palavra. O contexto torna claro que a palavra surgiu é apenas um sinónimo para evoluiu".
"De que raio se trata, então?"
"Vejo que não estás mesmo a fim de pensar. Recitaste uma história que ouviste milhares de vezes e agora ouves a Mãe Cultura murmurar ao teu ouvido: 'Pronto, pronto, meu pequenino, não há nada em que pensar, nada com que te preocupares, não fiques agitado, não dês ouvidos a esse animal malvado, isto não é um mito, nada do que eu te digo é um mito, donde que não há em que pensar, nada com que te preocupares, ouve apenas a minha voz e dorme, dorme, dorme...'".
Mordi o lábio durante algum tempo e disse, "Não adiantou".
"Está bem," disse ele. "Vou contar uma história minha, e talvez isso adiante". Mordiscou por algum tempo um ramo frondoso, cerrou os olhos e começou.
Esta história (continuou Ismael) aconteceu há quinhentos milhões de anos — uma época inconcebivelrnente distante, quando este planeta ter-te-ia sido totalmente irreconhecível. Sobre a terra nada se movia, a não ser o vento e a poeira. Nenhuma folha de relva balouçava ao vento, nenhum grilo saltava, nenhum pássaro vogava pelo céu. Seres que tais encontravam-se ainda dezenas de milhões de anos no futuro. Até mesmo os mares eram sinistramente imóveis e silenciosos, pois também os vertebrados se encontravam dezenas de milhões de anos no futuro.
Havia, é claro, um antropólogo de serviço. Que espécie de mundo seria sem um antropólogo? Muito deprimido e desiludido andava porém esse antropólogo, pois percorrera o planeta todo procurando alguém para entrevistar, e as cassetes que carregava na mochila continuavam tão vazias quanto o céu. Mas um dia, enquanto caminhava desanimado pela borda do oceano, viu nas águas rasas próximas à margem o que parecia ser uma criatura viva. Não era lá grande coisa, apenas uma espécie de bolha gelatinosa, uma alforreca. Mas, em se tratando da única oportunidade que lhe surgira em todas as suas viagens, avançou pela água rasa até onde a criatura balançava ao sabor das ondas.
Cumprimentou delicadamente a criatura e foi de igual modo bem recebido, e em breve os dois eram já bons amigos. O antropólogo explicou o melhor que pôde que estudava estilos de vida e costumes, solicitando tais informações do seu novo amigo, o qual correspondeu prontamente. "E agora," concluiu o antropólogo, "gostaria de gravar, nas tuas próprias palavras, algumas histórias que contais entre vós".
"Histórias?" estranhou a bolha.
"Sim, como o vosso mito da criação, se é que tendes um".
"O que é um mito da criação?"
"Ah, tu sabes," respondeu o antropólogo. "As lendas fantasiosas que contais aos vossos filhos sobre a origem do mundo".
Ao ouvir isso, a criatura empertigou-se indignada — ou pelo menos tão bem quanto uma bolha inchada consegue fazê-lo —, e respondeu não ter o seu povo qualquer lenda fantasiosa.
"Queres então dizer que não explicais a criação?"
"Decerto que explicamos a criação," declarou a bolha. "Mas não se trata seguramente de um mito".
"Não, decerto que não," disse o antropólogo, lembrando-se finalmente do treino que havia recebido. "Ficar-te-ia imensamente grato se o partilhasses comigo".
"Muito bem," disse a criatura. "Mas quero que entendas que, como tu, nós somos um povo estritamente racional e não aceitamos nada que não se baseie em observação, lógica e método científico".
"Claro, claro," concordou o antropólogo.
A criatura começou enfim o seu relato. "O universo," disse, "surgiu há muitos e muitos anos, talvez há dez ou quinze mil milhões de anos. O nosso sistema solar — esta estrela, este planeta e todos os outros — parecem ter começado a existir há cerca de dois ou três mil milhões de anos. Durante muito tempo, não houve aqui qualquer forma de vida. Mas então, após mil milhões de anos, a vida surgiu".
"Perdão," interrompeu o antropólogo. "Disseste que a vida surgiu. Onde é que isso aconteceu, segundo o vosso mito — isto é, segundo a vossa explicação científica?"
A criatura pareceu ficar aturdida com a pergunta, e empalideceu. "Em que local específico, queres tu dizer?"
"Não, quero saber se isso aconteceu na terra ou no mar".
"Terra?" perguntou a bolha. "O que é terra?"
"Oh, tu sabes," disse o antropólogo, apontando na direcção da margem. "A extensão de solo e pedras que ali começa".
A criatura empalideceu ainda mais e retrucou, "Não faço a menor ideia de que disparate estás tu a falar. O solo e as rochas que ali estão são apenas a borda da imensa bacia que contém o oceano".
"Entendo o que estás a dizer, sim" disse o antropólogo. "Perfeitamente. Continua".
"Muito bem," disse o outro, "Durante muitos milhões de séculos, os únicos seres existentes no mundo eram microorganismos flutuando ao acaso num caldo químico. Mas, aos poucos, formas mais complexas surgiram: criaturas unicelulares, fungos, algas, pólipos e por aí fora.
"Até que, finalmente," disse a criatura, enrubescendo de orgulho ao chegar ao ápice da sua narrativa. "Até que, finalmente, surgiu a alforreca!"
in Ishmael, Daniel Quinn
Sammy Davis Junior, 1961
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John Lennon, 1967
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PJ Harvey, 1995 |
Sugestão de Rain Song
Exposição de fotografias publicadas pelo Observer desde 1949 e da autoria de Jane Bown ©
Simone Signoret, 1966 |
Dennis Hopper, 1982 |
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Anthony Hopkins, 1989 |
Samuel Beckett, 1976 |
Sugestão de Rain Song
Exposição de fotografias publicadas pelo Observer desde 1949 e da autoria de Jane Bown ©
Detesto amarelo. Detesto todos os sinais da Primavera. Não sabes que só estou feliz quando estou deprimida? Não sabes que só estou feliz quando me visto de negro? Que só estou feliz à noite. Sim. Sou uma criatura da noite. Vejo-te chegar ao meu bairro com o teu carro novo, a tua dentadura nova e a tua camisa em sólidos tons pastel limão verde-vómito verde-pálido rosa alperce, que vai bem com qualquer outra peça, e visitas os saldos enquanto avanças, tendo a Gap por mascote. Bom, eu vim aqui para te dizer que a Gap é o demónio. Dar a toda a gente o aspecto mais inofensivo possível, fazer com que toda a gente se acomode o mais possível — apesar de quem veste aquela roupa ser por dentro tão ofensivo quanto possível. Tu queres que toda a gente tenha o mesmo aspecto, para que venham talvez a sentir o mesmo e se tornem então mais fáceis de controlar, de dominar.
Vens pois até ao meu bairro, até às nossas vidas de etnicidade, de diferença, de pobreza, de expressão artística, e vens até ao meu bairro para tentares cooperar, para tentares condominimizar as nossas vidas de modo a poderes fazer um grande negócio imobiliário. Bom, eu serei a tua consciência.
Por isso tomei demasiados comprimidos para dormir e nada aconteceu.
Por isso apontei uma arma à cabeça e nada aconteceu.
Por isso pus a cabeça no forno e nada aconteceu.
Por isso fodi-te a noite toda e nada aconteceu.
Por isso comecei a fazer dieta e nada aconteceu.
Por isso tornei-me macrobiótica e nada aconteceu.
Por isso fui a todas as casas de diversão nocturna da Cidade Grande e nada aconteceu.
Por isso tentei entrar na cena artística, fui para o Soho, e nada aconteceu.
Por isso fui para a universidade e nunca paguei aquele empréstimo para estudantes, porque já sabia que nada iria acontecer.
Por isso larguei a bebida e as drogas mas nunca aconteceu nada.
Por isso tornei-me a modos que política - trabalhei para a ERA, votei no Jesse Jackson - mas nunca aconteceu nada.
Por isso decidi tornar-me doméstica — limpei, cozinhei e servi em hotéis rascas - mas nunca aconteceu nada, nada.
Por isso abaixo-assinei, revoltei, aterrorizei e organizei, porque eu vou fazer com que algo aconteça.
Não vou deixar que voltes a fazer de mim um alvo de violação colectiva, sr. Yuppie, sr. Homem-de-Negócios, sr. Empresário. Não vou deixar que leves as minhas ruas, as que construí com a minha alma, a minha criatividade, o meu espírito. Em toda a minha arte, sr. Milhões, tu vês apenas mais uma oportunidade de investimento. O meu suor, a minha música, a minha moda, são para ti apenas mais um esquema para fazer dinheiro. Tu és a razão pela qual as bolachas David's e o McDonald's são os símbolos da minha cultura. Tu és a razão pela qual a fast food é a única indústria em crescimento nesta nação.
Por isso vens até ao meu bairro, após o teu emprego das nove às cinco, e aos fins-de-semana, à procura da experiência artística. Para que possas voltar ao trabalho e exibir a tua experiência da boêmia. Terei todo o gosto em mostrar-te a experiência artística. Sou a rapariga indicada para o serviço.
Por isso pego em ti, sr. Empresário, sr. Yuppie, sr. Sim-senhor, e amarro-te a toda a tua moda, ao teu Calvin Klein, ao teu Ralph Lauren, também à tua Anne Klein, ao teu Bloomingdale's, ao teu Macy's, e ato-te a tudo isso, ato-te a todas as tuas camisas de algodão em tons pastel lilás e verde-menta, e, sabes que mais? Tu gostas. E o sr. Yuppie diz «É isto a experiência artística?» E eu sorrio e ele gosta, ele gosta.
(...)
Eu sei que queres experimentar a inspiração da artista.
Por isso pego no teu corpo de yuppie e arrasto-o pela Avenida B e deixo que a tua língua se desenrole ao longo da rua a lamber a merda e o mijo, o suor e o sangue de mim, e, sabes que mais? Tu gostas. Tu gostas. Depois faço-te lamber os pneus do teu BMW. Depois deixo-te à esquina e roubo-te o BMW, porque sei que não vai acontecer nada.
Por isso conduzo rua abaixo a toda a velocidade. Aterrorizo todos os que pareçam deter um cargo político, todos os que pareçam possuir propriedades privadas (eu mostro-vos o fardo que é a propriedade privada), e todos os que andem vestidos com fato. Porque, segundo o sr. Andy Somma, os fatos são coisa que não combina com o rock'n'roll.
Conduzo até Wall Street e irrompo pela Bolsa de Valores adentro. Vou-me a todos os corretores e corto-lhes os tomates. Não sai deles sangue algum, somente uns cifrões de dólar.(...)
Oh, eu vingo-me. Oh, eu vingo-me.
Senhor, Deus das alturas, por que não surges agora diante de mim?
Será por seres homem?
O que aconteceu à Fada Madrinha? O que aconteceu ao Coelhinho da Páscoa? O que aconteceu ao Andy Warhol?
Estão mortos, miúda. Mortos.
Sei que vivo numa época sem saída. Sei que tenho uma casa sem saída, que há um futuro sem saída para os meus filhos, sei que tenho um emprego sem saída. Tenho uma cultura sem saída, é um mundo sem saída. Eu sei, eu sei que é um longo, longo caminho sem saída.
in Tratamento de Choque, Karen Finley
De mim não esperem, nem definições, nem frases declamatórias. Nada pareceria mais deslocado. Definir-me, seria limitar-me, e a minha força não tem limites. Dividir-me, seria distinguir os diferentes cultos que me prestam, e eu sou igualmente adorada por toda a Terra. E, além disso, de que servina dar-vos com uma definição, um retrato ideal de mim própria, que não se pareceria mais comigo do que a minha própria sombra, visto que na vossa presença tendes o original? Sou, portanto, como vedes, a verdadeira doadora de bens*, essa Loucura a que os latinos chamavam Stultitia e os gregos Mona Mas haverá necessidade de o proclamar? A minha fisionomia não me torna assaz conhecida? e houvesse alguém que quisesse sustentar que eu era Minerva ou a Deusa da Sabedoria, teria necessidade de lhe pôr a nu a minha alma, com os meus discursos? Não lhe bastaria olhar-me, um instante só que fosse, para se convencer do contrário? Em mim, não pode haver nem arrebiques, nem dissimulações, e nunca o meu rosto traduz um sentimento que eu não traga no coração. Enfim, sou de tal modo semelhante a mim própria, que ninguém me saberia ocultar, nem mesmo os que pretendem representar o papel de doutos e que mais desejam passar por tal. Apesar de todos os seus esgares, parecem-se com macacos revestidos de púrpura, ou com burros cobertos com a pele do leão. Bem podem disfarçar-se, haverá sempre um pedacinho da orelha que revelará, por fim, a cabeça de Midas.
Para dizer a verdade, esta espécie de homens é muito ingrata para comigo. São os mais fiéis dos meus súbditos, e, no entanto, tem tanta vergonha de em público usarem o meu nome, que chegam a censurar os outros, como se fora uma desonra ou uma infâmia. Mas estes loucos varridos, que querem que os julguem tão prudentes como Tales, não merecem que lhes chamem Morósofos, isto é, ajuizados-loucos? Porque desta vez irei imitar aqui os retóricos da nossa época, que se julgam pequenos deuses, e, tal como a sanguessuga**, servem-se das suas línguas, concordando que é maravilhoso intercalar, a torto e a direito, num discurso latino, certas palavras gregas que o tornam de todo enigmático. Se não conhecem nenhuma língua estrangeira, arrancam, de qualquer livro bolorento, quatro ou cinco palavrões velhos com que espantam o leitor. Os que os compreendem, lisonjeiam-se de encontrar um motivo de deleite com a sua própria erudição; e quanto mais ininteligíveis parecem, os que os não compreendem mais admirados ficam. Porque é um pequeno prazer, para os meus amigos, admirar muito as coisas que lhes são inacessíveis. Se entre os últimos houver algum que tenha a vaidade de passar por sábio, um sorrisinho de satisfação, um sinalzinho de aprovação, um abanar de orelha, à maneira dos burros, bastará para salvar, aos olhos do próximo, a sua ignorância.
* Deusa. Homero chamava aos seus deuses «doadores de bens».
** Plínio dizia que a sanguessuga tinha a língua bifurcada.
in O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão
Que coisa me é insuportável, a mim, em particular? Com que coisa não consigo lidar de modo nenhum? O que é que me não deixa respirar e me destrói? O ar pestilento! O ar pestilento! É-me insuportável a proximidade de coisas fracassadas..., ter que cheirar as entranhas de uma alma fracassada!... Quantas coisas não há que suportar: privações, necessidades, mau tempo, enfermidades, sacrifícios, isolamento! No fundo, lidamos com tudo isto, nascidos que somos para uma existência de luta subterrânea. Mas há sempre um dia em que subimos, em que chegamos à luz. Há sempre momentos dourados, horas de triunfo... E aí, eis-nos tal qual nascemos, inquebrantáveis, resistentes, prontos para o que vier de novo, de mais difícil, de mais distante, tensos como o arco que à necessidade responde com maior tensão ainda... Mas, de tempos a tempos, concedei-me — supondo que para lá do bem e do mal existem divindades capazes de tais concessões —, concedei-me a possibilidade de entrever, de lançar um breve olhar sobre uma coisa perfeita, completa, conseguida com felicidade, uma coisa poderosa e triunfante perante a qual haja razão para sentir temor! Um breve olhar sobre um homem que justifique o homem! Sobre um feliz exemplar, capaz de complementar e redimir o homem, e assim dar-nos motivo para conservar a fé no homem!... Porque a nossa situação actual é esta: o grau de aviltação e de nivelamento a que chegou o homem europeu traz consigo o maior perigo que nos ameaça, porque este espectáculo só nos dá cansaço... Não vemos nada que queira ser maior e pressentimos que o que vemos vai continuar a descer, sempre mais para baixo, em direcção ao que houver de mais inconsistente, de mais inofensivo, de mais prudente, de mais acomodado, de mais medíocre, de mais indiferente, de mais chinês, de mais cristão... E o homem, não haja dúvidas, torna-se cada vez «melhor»... É precisamente aqui que reside a fatalidade da Europa: ao perdermos o temor perante o homem, deixámos também de ter amor e respeito por ele, esperança nele, e até mesmo a vontade que conduz a ele. Doravante, o espectáculo deste homem só pode provocar cansaço. O que é hoje o niilismo, senão isto mesmo?... Estamos cansados do homem...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo c leio.
Justificar-me? Sou quem todos são...
Modificar-me? Para meu igual?...
— Acaba lá com isso, ó coração!
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outras cousa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indif'rença?
Por mim, só me levanto da barrica.
Escancarado Furness, mais três dias
Te, aturarei, pobre engenh