- At 4.48
when sanity visits
for one hour and twelve minutes I am in my right mind.
When it has passed I shall be gone again,
a fragmented puppet, a grotesque fool.
Now I am here I can see myself
but when I am charmed by vile delusions of happiness,
the foul magic of this engine of sorcery,
I cannot touch my essential self.
Why do you believe then and not now?
Remember the light and believe the light.
Nothing matters more.
Stop judging by appearances and make a right judgment.
- It's all right. You will get better.
- Your disbelief cures nothing.
Look away from me.
Sarah Kane
1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
Bertolt Brecht
Tradução de Arnaldo Saraiva
Foi-lhes dado escolher entre serem reis ou mensageiros reais. À maneira das crianças quiseram todos ser mensageiros. É por isso que só há mensageiros. Correm pelo mundo e, uma vez que não há reis, gritam uns para os outros as mensagens que entretanto perderam o sentido. Bem gostariam de pôr um fim às suas vidas miseráveis, mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno, de desassossego e de inquietação. Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo. Perverter seria o fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as alguém que não só eu?
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Harmen Steenwyck, 1640
Copyright © 2000 National Gallery, London. All Rights Reserved
This type of painting is called a 'vanitas', after the biblical quotation from the Old Testament book of Ecclesiastes (1:2): "Vanitas vanitatum . . . et omnia vanitas", translated "Vanity of vanities, all is vanity". The books symbolise human knowledge, the musical instruments (a recorder, part of a shawm, a lute) the pleasures of the senses. The Japanese sword and the shell, both collectors' rarities, symbolise wealth. The chronometer and expiring lamp allude to the transience and frailty of human life. All are dominated by the skull, the symbol of death.
Desconfiei sempre que esta resistência multiforme de um povo, que tem pretensões a amar a arte, à criação e a toda a delicadeza de espírito era apenas estupidez, talvez uma variedade particular de estupidez, uma estupidez estética e talvez também afectiva; manifestando-se de tal modo, em todo o caso, que aquilo a que nós chamamos "bel esprit" poderia também ser qualificado de "bela estupidez"; hoje ainda, não vejo muitas razões para mudar de opinião. Sem dúvida, que não podemos reduzir à estupidez tudo o que altera um desígnio tão plenamente humano como o da arte; é preciso também — as experiências destes últimos anos mostraram-no particularmente — reconhecer o papel desempenhado pelas diversas variedades de frouxidão. Não se deve, contudo, objectar que o conceito de estupidez nada tem a ver com isto a pretexto que ele diz respeito ao entendimento e não aos sentimentos de que a arte, em contraste, releva. Seria um erro. Mesmo o prazer estético é ao mesmo tempo julgamento e sentimento. E permitir-me-ão não apenas lembrar, que o grande axioma de Kant fala de uma capacidade de julgamento estético e de julgamentos de gosto, mas ainda repetir a antinomia a que, desse modo, ele chega:
Tese: O julgamento do gosto não se baseia sobre conceitos porque em tal caso seria possível discuti-lo (decidir através da prova).
Antítese: Ele baseia-se em conceitos, pois de outro modo não se poderia sequer discuti-lo (procurar uma unanimidade).
Aqui chegado, desejo colocar uma questão: não existirá, na base da política e do caos da vida em geral, um juízo e uma antinomia análogas? E não deveremos esperar encontrar, ali onde o julgamento e razão estão em casa, as suas irmãs e irmãzinhas, as diferentes formas de estupidez?
in Da Estupidez, Robert Musil
Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Um dos meus passeios predilectos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.
E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... «E então ela disse...» e o tom diz da intriga dela. «Se não foi ele, foste tu...» e a voz que responde ergue-se no protesto que já não oiço. «Disseste, sim senhor, disseste...» e a voz da costureira afirma estridentemente «Minha-mãe diz que não quer...» «Eu?» e o pasmo do rapaz que traz o lunch embrulhado em papel-manteiga não me convence, nem deve convencer a loura suja. «Se calhar era...» e o riso de três das quatro raparigas cerca do meu ouvido a obscenidade. «E então pus-me mesmo diante do gajo, e ali mesmo na cara dele - na cara dele, hein, ó Zé...» e o pobre diabo mente, pois o chefe do escritório - sei pela voz que o outro contendor era chefe do escritório que desconheço - não lhe recebeu na arena entre as secretárias o gesto de gladiador de palhinhas. «... E então eu fui fumar para a retrete...» ri o pequeno de fundilhos escuros.
Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer - não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse - o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direcção involuntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos. Não ouso porque, quando se provoca o vómito, é preciso provocar só um.
«O gajo estava tão grosso que nem via a escada.» Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Passa-me a náusea. Vejo o gajo. Vejo-o fotograficamente. Até o calão inocente me anima. Bendito ar que me dá na fronte - o gajo tão grosso que nem via que era de degraus a escada - talvez a escada onde a humanidade sobe aos tombos, apalpando-se e atropelando-se na falsidade regrada do declive aquém do saguão.
A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da inimportância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Todos sabem que eu nunca murmurei uma oração
Todos sabem que nunca tentei dissimular os meus defeitos.
Ignoro se existe uma Justiça e uma Misericórdia...
Entretanto, tenho confiança, porque sempre fui sincero.
Que vale mais?
Sentar-se numa taberna e fazer exame de consciência
ou ajoelhar-se na mesquita, de alma fechada?
Nada me preocupa saber se temos um Senhor
e que fará ele de mim, no final.
Considera com indulgência aqueles que se embriagam.
Lembra-te que tens outros defeitos.
Se quiseres conhecer a paz, a serenidade,
debruça-te sobre os deserdados da vida,
sobre os humildes que gemem sob o infortúnio
e irás sentir-te feliz.
Procede de molde a que a tua sabedoria
não cause sofrimento ao teu semelhante.
Domina-te sempre.
Nunca te abandones à cólera.
Se queres encaminhar-te para a paz definitiva,
sorri ao Destino quando te ferir e não vás ferir ninguém.
Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
procura ser feliz, hoje.
Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe
lembrando-te que, talvez amanhã, a lua te procurará em vão.
in Rubaiyat - Odes ao Vinho, Omar Khayyam
"Uma vez, andava eu na faculdade, redigi um trabalho para uma cadeira de filosofia. Não me lembro bem qual era o seu teor — tinha algo a a ver com epistemologia. A ideia do trabalho, grosso modo, era a seguinte: Sabem uma coisa? Os nazis, afinal, não perderam a guerra. Ganharam-na e prosperaram. Conquistaram o mundo e eliminaram até ao último os judeus, os ciganos, os negros e os índios orientais e americanos. Terminada esta etapa, acabaram com os russos, os polacos, os boémios, os morávios, os búlgaros, os sérvios e os croatas — os eslavos todos. Viraram-se depois para os polinésios, coreanos, chineses e japoneses — todos os povos da Ásia. Isto levou muito, muito tempo, mas, quando terminaram, todos no mundo eram cem por cento arianos e todos eram muito, muito felizes.
"Naturalmente, os livros escolares deixaram de mencionar qualquer raça excepto a ariana, qualquer língua excepto a alemã, qualquer religião excepto o hitlerismo, qualquer sistema político excepto o nacional-socialismo. Não havia necessidade de o fazerem. Após algumas gerações assim, ninguém conseguiria escrever nos livros o que quer que fosse de diferente, mesmo que o desejasse fazer, pois ninguém mais sabia algo que fosse diferente.
"Um dia, porém, dois jovens estudantes conversavam na Universidade de Nova Heidelbergue, em Tóquio. Eram ambos bem parecidos, como o são habitualmente os arianos, mas um deles parecia vagamente preocupado e infeliz. Era o Kurt. O seu amigo perguntou: 'O que é que se passa, Kurt? Estás com essas trombas porquê?' Kurt respondeu: 'Eu digo-te, Hans. Algo está a preocupar-me — a preocupar-me profundamente'. O amigo perguntou do que se tratava. 'É o seguinte,' disse Kurt. 'Não consigo livrar-me desta sensação maluca de nos andarem a mentir sobre alguma coisa'.
"E era assim que o trabalho terminava".
Ismael assentiu pensativamente. "E o teu professor, o que pensou ele disso?"
"Quis saber se eu tinha a mesma sensação maluca de Kurt. Quando respondi que sim, quis saber qual era a mentira que, achava eu, andavam a contar-nos. Eu disse: 'Como posso eu saber? A minha situação não é melhor que a de Kurt'. É claro que ele não achou que eu falasse a sério. Pensou tratar-se apenas de um exercício de epistemologia".
"E continuas a perguntar-te se te mentiram?"
"Sim, mas não tão desesperadamente quanto então"
"Não tão desesperadamente? Mas porquê?"
"Por ter descoberto que, na prática, não faz qualquer diferença. Quer nos contem mentiras ou não, devemos ainda assim acordar e ir para o trabalho e pagar as contas e tudo o resto".
"A não ser, é claro, que todos vós começásseis a desconfiar que vos andavam a mentir — e todos descobrísseis qual a mentira era".
"Como assim?"
"Caso fosses tu o único a descobrir qual a mentira é, então provavelmente terias razão — não faria grande diferença. Mas, caso todos vós descobrísseis qual a mentira é, pode presumir-se que faria de facto uma grande diferença".
"Lá isso é verdade".
"Essa é então a esperança que devemos ter".
in Ishmael, Daniel Quinn
«De resto, é-me odioso tudo quanto me serve apenas de informação, sem aumento da minha actividade e sem imediatamente a impulsionar». Isto são palavras de Goethe, com as quais, qual «ceterum censeo» corajosamente expresso, as nossas considerações sobre o mérito e demérito da história poderão iniciar-se. E precisamente nelas há-de mostrar-se porque é que a erudição sem vida, o saber como inibitório da acção, a história como luxo precioso e super-abundância de conhecimentos nos têm, com toda a seriedade, segundo Goethe, de ser odiosas: - é que carecemos ainda do estrictamente necessário, e o supérfluo é inimigo do necessário. Por certo, precisamos da história; mas precisamos dela de maneira diferente da do ocioso mal habituado nos jardins do saber, muito embora, este se digne contemplar, com ar de grande superioridade, as nossas rudes e desgraciosas necessidades e penúrias. Isto é, precisamos dela para a vida e para a acção, e não para cómodo afastamento da vida e da acção ou ainda para contestação de uma existência egoísta e de uma actuação covarde e má. Apenas enquanto a história serve a vida queremos nós servi-la; mas há determinado grau no dedicarmo-nos à história e certa apreciação da mesma que levam à corrupção e degenerescência vital: - fenómeno, cuja verificação em determinados sintomas do nosso tempo se torna tão necessária quanto dolorosa.
in Da Utilidade e Incovenientes da História para a Vida, Friedrich Nietzsche
Este sentimento: «Aqui não lanço a âncora». E sentirmos logo à nossa volta a maré agitada que nos puxa!
Uma viragem. À espreita, com medo e cheia de esperança a resposta anda em torno da pergunta, perscruta desesperada o seu semblante impenetrável, segue-a nos caminhos que menos sentido têm, ou seja, naqueles que se afastam o mais possível da resposta.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
Qual foi a pergunta? Ah, sim, pois: que livro me teria impressionado, marcado, estigmatizado, abalado, fazendo-me até «entrar nos eixos» ou «descarrilar».
Mas isso soa quase como uma experiência de choque ou uma experiência traumática, e a vítima* só costuma imaginá-las em pesadelos e nunca de plena consciência, e muito menos por escrito e em público. Aliás, parece-me que um psicólogo austríaco, cujo nome me escapa de momento, se debruçou já (e com razão) sobre este assunto num ensaio muito interessante cujo título não consigo recordar com precisão, mas que foi publicado num volumezinho sob o título genérico «Eu e Tu» ou «Id e Nós» ou «Eu Próprio»**, ou qualquer coisa assim (desconheço se foi recentemente reeditado pela Rowohlt, Fischer, dTV ou Suhrkamp***, mas tenho a certeza de que a capa era verde e branca ou de um azul-claro amarelado, ou até mesmo de um cinzento-azul-esverdeado).
Bom, talvez a questão não vise experiências de leitura neuro traumáticas, referindo-se antes àquela reveladora experiência de arte cuja expressão se encontra no célebre poema «Belo Apolo»**** — não, creio que não se chamava «Belo Apolo», tinha outro nome qualquer, o título tinha algo de arcaico, «Jovem Torso» ou «Velhíssimo e Belo Apolo» ou qualquer coisa assim, mas isso não tem nada a ver com o assunto... — portanto, tal como este encontra expressão naquele célebre poema de... de... — de momento não consigo lembrar-me do nome dele, mas era de um poeta muito célebre, com olhos de vaca e um bigodinho e que arranjou para o tal escultor francês gordo (como é que ele se chamava?) um apartamento na Rue de Varenne — qual casa, qual quê!, tratava-se de um palazzo, com um parque que demoraria mais de dez minutos a percorrer! (Interrogamo-nos, de passagem, como é que as pessoas conseguiam pagar tudo isso naquele tempo) — enfim, tal como este encontra expressão naquele magnífico poema, que já não me sinto capaz de citar, mas cujo último verso me ficou total e indelevelmente gravado na memória como um permanente imperativo moral: «Tens de mudar a tua vida». Ora, que acontece então com aqueles livros cuja leitura mudou a minha vida? Para esclarecer este problema (foi apenas há alguns dias), vou até à minha estante e percorro com o olhar as lombadas dos livros. Corno sempre nestas ocasiões — nomeadamente quando há demasiados exemplares de uma espécie reunidos num único sítio e o olhar se perde na imensidade —, primeiro fico tonto e, para pôr termo à tontura, meto a mão ao acaso na imensidade e agarro num só livro; afasto-me com ele como se carregasse uma presa, abro-o, folheio-o e já não consigo parar de ler.
Rapidamente noto que fiz uma boa escolha — uma belíssima escolha, aliás. Trata-se de um texto em prosa requintada, com uma claríssima organização das ideias, profusamente ilustrado com interessantíssimas informações ainda não reveladas e repleto das mais maravilhosas surpresas — infelizmente, no momento em que escrevo estas linhas não me ocorre o título do livro, nem tão-pouco o nome do autor ou o conteúdo; mas, como se verá de seguida, isso não tem qualquer importância, ou melhor: isso contribui, pelo contrário, para o esclarecimento do assunto. Trata-se, como disse, de um excelente livro que tenho aqui entre mãos, repleto de frases enriquecedoras; vou lendo e tropeço até à minha cadeira; continuo a ler e sento-me, esquecendo-me por que motivo estou afinal a ler; sou já apenas um desejo feroz e intenso, deleitado com a completa novidade que aqui descubro página a página. Não me incomodam os sublinhados aqui e ali, os pontos de exclamação rabiscados a lápis na margem — vestígios de um leitor anterior, o que geralmente não aprecio muito em livros — pois a narrativa avança tão palpitantemente e a prosa flui tão alegremente que já nem me apercebo dos vestígios a lápis. E se alguma vez dou conta deles, é apenas com um sentido de aprovação, porque o meu leitor anterior — não tenho a mais vaga ideia de quem seria — o meu leitor anterior, repito, colocou as suas exclamações sublinhadas justamente naquelas passagens que também me entusiasmam mais. Continuo a ler, portanto, duplamente enlevado pela extraordinária qualidade do texto e pela cumplicidade espiritual com o meu desconhecido antecessor; mergulho cada vez mais fundo no mundo imaginado e sigo com um espanto crescente os magníficos caminhos pelos quais o autor me conduz...
Até chegar a um ponto que provavelmente constitui o clímax da narrativa e que me faz soltar um sonoro «ah!». «Ah, que bem pensado! Que bem dito!». E por um momento fecho os olhos para reflectir profundamente sobre o que acabei de ler — o que logo desbrava uma vereda na confusão da minha consciência, abrindo-me perspectivas completamente novas que fazem
confluir em mim novos conhecimentos e associações, sim, e que crava realmente em mim a espora do «Tens de mudar a tua vida»! E, quase automaticamente, a minha mão procura o lápis e penso: «Tens de assinalar isto», «Vais escrever na margem um 'muito bem' e colocar à frente um enorme ponto de exclamação e anotar com algumas palavras-chave o fluxo de pensamentos que este passo desencadeou em ti — como auxiliar de memória e como reverência documentada perante o autor que tão magnificamente te iluminou!».
Mas oh! Quando pouso o lápis na página para gatafunhar o meu «muito bem!», já lá está um «muito bem!» — e, aliás, o meu antecessor na leitura também já registara o resumo em tópicos que eu pretendia anotar, e fê-lo numa caligrafia que me é muito familiar, a minha própria, porque o meu antecessor não era outro senão eu próprio. Afinal, eu já havia lido o livro há muito.
Eis que me invade uma desolação inexprimível. A velha doença apoderara-se de mim de novo: amnésia in litteris, a perda completa de memória literária. Sinto-me então submergido por uma onda de resignação resultante da vani-dade de qualquer anseio pelo conhecimento, de todo o anseio em si. Para quê ler, para quê ler, por exemplo, este livro mais uma vez se sei que em breve já não me restará sequer a menor sombra de recordação dele? Para quê, afinal, fazer qualquer coisa se tudo desaba em nada?
Para quê então viver, se acabamos inevitavelmente por morrer? Fecho o belo livrinho, levanto-me e arrasto-me, derrotado e agredido, até à estante, onde o afundo na fila de outros volumes anónimos e imensos e esquecidos que lá permanecem.
O olhar detém-se no extremo da prateleira. O que é que está lá? Ah, pois: três biografias de Alexandre Magno. Li-os todos noutros tempos. Que sei eu sobre Alexandre Magno? Nada. No extremo da prateleira seguinte encontram-se vários fascículos sobre a Guerra dos Trinta Anos, entre os quais quinhentas páginas de Verónica Wedgwood e mil páginas de Golo Mann sobre Wallenstein. Li tudo isso aplicadamente. Que sei eu sobre a Guerra dos Trinta Anos? Nada. A prateleira inferior está atulhada com livros sobre Luís II da Baviera e a sua época: quanto a estes, não me limitei a lê-los apenas, estudei-os minuciosa e porfiadamente durante mais de um ano, e de seguida escrevi três argumentos para filmes sobre esse tema — tornei-me quase numa espécie de perito em Luís II. Que sei eu hoje sobre Luís II e a sua época? Nada. Absolutamente nada. Pois bem, quanto a Luís II talvez ainda seja possível aceitar esta amnésia total. Mas... e quanto aos livros que se encontram acolá, ao lado da secretária, na secção mais requintada, a literária? O que é que me ficou na memória da colecção em quinze volumes de Andersch? Nada. O que é que ficou dos Bõll, Walser e Koeppen? Nada. Dos
dez volumes de Handke? Menos do que nada. Que sei eu ainda de Tristram Shandy, das Confissões de Rousseau, do passeio de Seume? Nada, nada, nada. Ah, eis ali as comédias de Shakespeare! Li-as todas no ano passado. Qualquer coisa deve ter ficado, uma vaga ideia, um título, um único título de uma única comédia de Shakespeare! Nada. Mas, pelo amor de Deus, pelo menos Goethe, por exemplo, este volumezinho branco, As Afinidades Electivas: li-o pelo menos três vezes — e já não tenho nenhuma ideia dele. Parece que tudo se evaporou. Será que neste mundo já não existe nenhum livro do qual ainda me lembre? Aqueles dois volumes vermelhos ali, grossos e com os marcadores vermelhos, esses conheço-os de certeza, parecem-me familiares como móveis antigos, esses li-os, vivi nesses volumes semanas a fio ainda não há muito tempo, mas, que diabo!, como é que se chama afinal? Os Demónios. Pois é. Pois sim. Interessante. E o autor? F. M. Dostoievski. Hmm. Ora bem. Parece-me que me lembro vagamente: creio que tudo se passa no século XIX, e no segundo volume alguém se mata com uma pistola. Acho que não me lembro de mais nada. Afundo-me na minha cadeira à frente da secretária. É uma vergonha, é um escândalo. Há trinta anos que sei ler e, se não li muito, pelo menos li alguma coisa, e tudo o que me resta disso é a recordação muito ténue de que no segundo volume de um romance com cerca de mil páginas há alguém que se mata com uma pistola. Trinta anos de leitura em vão! Passei milhares de horas da minha infância, juventude e idade adulta a ler sem reter nada a não ser um enorme esquecimento. E este mal não diminui; pelo contrário, agrava--se. Se leio um livro hoje, esqueço-me do início antes de ter chegado ao fim. Por vezes a minha capacidade de memorização nem sequer consegue fixar a leitura de uma página, E assim, de galho em galho, de parágrafo a parágrafo, de uma frase à outra, em breve alcançarei um estado em que só conseguirei captar conscientemente palavras isoladas que afluem da escuridão de um texto sempre desconhecido, que cintilam como estrelas cadentes no momento em que são lidas e que logo voltam a submergir no esquecimento total da escura corrente de Letes. Já há muito tempo que não consigo proferir uma única palavra em debates literários sem me expor terrivelmente ao ridículo, confundindo Mörike com Hoffmannsthal, Rilke com Hölderlin, Beckett com Joyce, Italo Calvi-no com ítalo Svevo, Baudelaire com Chopin, George Sand com Madame de Staél, etc. Se pretendo procurar uma citação da qual tenho uma ideia vaga, passo dias a esquadrinhar livros porque me esqueci do autor e porque, enquanto procuro, me perco em textos desconhecidos de autores que ninguém conhece, até finalmente ter esquecido o que é que procurava inicialmente. Como é que, neste caótico estado de espírito, poderia responder à pergunta: qual foi o livro que mudou a minha vida? Nenhum? Todos? Qualquer um — não sei.
Mas talvez — assim penso para me consolar — talvez que na leitura (tal como na vida) não faça grande sentido pensar em termos de manobras de agulhas e de alterações abruptas. Talvez a leitura seja um acto impregnativo durante o qual a consciência é certamente imbuída por completo, mas de um modo tão imperceptível e osmótico que não toma consciência do processo. O leitor que sofre de amnésia in litteris transforma-se indubitavelmente através da leitura, mas não o nota porque quando lê também se alteraram as tais instâncias críticas do seu cérebro que lhe fariam ver que estava a mudar. E para quem escreve, a doença seria provavelmente até uma bênção, sim, quase uma condição necessária, resgatando-o da veneração paralisante que todas as grandes obras inspiram, podendo assim adoptar uma atitude completamente desinibida perante o plágio, sem a qual não se pode desenvolver nada de original.
Sei que isto é uma consolação indigna e pobre, nascida da necessidade, e eu tento escapar-lhe: não te podes entregar a esta terrível amnésia, tens de resistir com toda a força à corrente do rio Letes, já não podes mergulhar de cabeça num texto, deves agora encará-lo com total objectividade, com consciência crítica e apurada, tens de extrapolar, de memorizar, tens de exercitar a tua memória. Numa palavra: tens... — e aqui cito um célebre poema, cujo título e autor não me ocorrem de momento, mas cujo último verso está gravado na minha memória de modo completamente indelével como um permanente imperativo moral: «Tens de», cito, «tens de... tens de».
Que estupidez! Agora esqueci-me das palavras exactas. Mas não faz mal, porque ainda tenho o sentido bem presente. Era qualquer coisa como: «Tens de mudar a tua vida!».
* No original, Der Geshädigfe - «o sinistrado» ou «o lesado». (N. da T.)
** No original, respectivamente, Ich und Du, Es una Wir e Selbst Ich. (N. da T.)
*** Editores alemães. (N. da T.)
**** «Schõner Apollo».
in Um Combate e outras histórias, Patrick Süskind
Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!
Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!
Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.
Álvaro de Campos
O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na voltade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.
Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.
in Uma Casa na Escuridão, José Luis Peixoto
Memória da margem
Da primeira vez que li o anúncio, até me engasguei; praguejei, cuspi e atirei o jornal ao chão. Como nem isso parecesse bastar, apanhei-o de novo, marchei até à cozinha e enfiei-o no balde do lixo. Feito isto, aproveitei para preparar uma pequena refeição matinal e concedi-me algum tempo para acalmar. Comi e pensei em assuntos inteiramente diversos. Essa é que é essa, De seguida retirei o jornal do lixo e voltei a abri-lo na secção dos classificados pessoais, só para me certificar se o maldito anúncio lá continuava, da forma como eu me lembrava dele. Continuava, sim.
PROFESSOR procura aluno. Deve ter um desejo fervoroso de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.
[...]
"E ensinas o quê?"
Ismael seleccionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o por um momento e começou a mordiscá-lo, olhando-me languidamente. Por fim, respondeu: "Com base na minha história, que matéria dirias estar eu mais qualificado para ensinar?"
Pestanejei e disse-lhe que não sabia.
"Sabes, é claro. A matéria que ensino é: cativeiro".
"Cativeiro".
"Exacto".
Fiquei calado por um minuto, dizendo então: "Estou a tentar imaginar o que tem isto a ver com salvar o mundo".
Ismael pensou um pouco. "Dentre as pessoas da tua cultura, quais são as que querem destruir o mundo?"
"Quais são as que querem destruir o mundo? Tanto quanto sei, ninguém quer especificamente destruir o mundo".
"E no entanto destrui-lo, cada um de vós. Cada um de vós contribui diariamente para a destruição do mundo".
"É verdade, sim".
"E não parais porquê?"
Encolhi os ombros. "Francamente, não sabemos como".
"Sois cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos vos compele a prosseguirem com a destruição do mundo de forma a continuarem a viver".
"É o que parece, sim".
"Sois portanto cativos — e fizestes do próprio mundo um cativo. É isso que está em jogo, não é? — o vosso cativeiro e o cativeiro do mundo".
"É verdade, sim. Só que nunca o pensara desta maneira".
"A teu modo, tu mesmo és um cativo não és?"
"Como assim?"
Ismael sorriu, revelando uma grande parede de dentes brancos como mármore. Até então eu não o sabia capaz de sorrir.
"Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que motivo tenho eu tal impressão," disse eu.
"Faz alguns anos — à época devias ser tu criança, talvez não estejas recordado —, muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingénuo e desorganizado para escaparem do cativeiro, mas acabaram por fracassar, por não terem sido capazes de encontrar as grades da jaula. Se não descobrirmos o que nos está a prender, a vontade de sair em breve se torna confusa e ineficaz".
"Foi essa a sensação que tive, sim"
Ismael assentiu.
"Mas, insisto, como está isto relacionado com a salvação do mundo?"
"O mundo não sobreviverá por muito mais tempo como cativo da humanidade. Carece de explicação, isto?"
"Não. Pelo menos para mim, não".
"Acho que dentre vós muitos existem que gostariam de libertar o mundo do seu cativeiro".
"Concordo".
"O que é que os impede de o fazer?"
"Não sei".
"Eis o que os impede: São incapazes de encontrar as grades da jaula".
in Ishmael, Daniel Quinn
Qual é a razão para a estranha contradição que consiste no facto de o sucesso e a satisfação não se fundirem num sentido apropriado? Não parece prevalecer aqui uma lei inexorável da natureza? O ser humano estabelece objectivos para si próprio, e enquanto os persegue apoia-se na esperança, é verdade, mas ao mesmo tempo vive atormentado pela dor do desejo insatisfeito. Logo que atinge o objectivo, no entanto, depois da primeira sensação de triunfo segue-se inevitavelmente um sentimento de desolação. Permanece um vazio, que aparentemente só pode culminar com a emergência dolorosa de novas ambições, com o estabelecimento de novos objectivos. Assim recomeça o jogo, e a existência parece estar condenada a ser uma oscilação incansável entre dor e aborrecimento que termina com o nada que é a morte. Esta é a célebre linha de pensamento que está na base da visão pessimista da vida de Schopenhauer. Não haverá uma maneira de lhe poder escapar?
Na verdade, nunca encontraremos um sentido último na vida se a virmos apenas sob o aspecto do propósito.
Não sei, no entanto, se o fardo dos propósitos pesou alguma vez mais sobre a humanidade do que no momento presente. O presente idolatra o trabalho. Mas trabalho significa actividade dirigida para objectivos, direcção para um propósito. Supõe que estás no meio da multidão numa rua agitada de uma cidade e imagina-te a parar os transeuntes, um por um, para lhes perguntares: «Onde é que vais tão depressa? Que assunto importante tens de resolver?». E se, depois de conheceres o objectivo imediato, perguntasses depois pelo propósito desse objectivo, e depois pelo propósito desse propósito, acabarias sempre por chegar ao seguinte propósito depois de poucos passos na sequência: manter a vida, ganhar o próprio pão. E manter a vida porquê? Para esta questão dificilmente conseguirias extrair uma resposta inteligível a partir da informação obtida.
Excertos de um texto de Moritz Schlick traduzido por Pedro Galvão
Na Intelectu
Quando, como uma noite de tempestade a que o dia se segue, o cristianismo passou de sobre as almas, viu-se o estrago que, invisivelmente, havia causado; a ruína, que causara, só se viu quando ele passara já. Julgaram uns que era por sua falta que essa ruína viera; mas fora pela sua ida que a ruína se mostrara, não que se causara.
Ficou, então, neste mundo de almas, a ruína visível, a desgraça patente, sem a treva que a cobrisse do seu carinho falso. Ás almas viram-se tais quais eram.
Começou, então, nas almas recentes aquela doença a que se chamou romantismo, aquele cristianismo sem ilusões, aquele cristianismo sem mitos, que é a própria secura da sua essência doentia.
O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos.
É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.
«Não se pode comer um bolo sem o perder.»
Na esfera baixa da política, como no íntimo recinto das almas - o mesmo mal.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
A primeira idolatria foi sem dúvida o medo das coisas, mas, em ligação com ele, também medo da necessidade das coisas e, em ligação com este, medo da responsabilidade pelas coisas. Esta responsabilidade parecia tão gigantesca que ninguém se atreveu sequer a atribuí-la a um único ser sobre-humano, porque mesmo através da mediação de um ser a responsabilidade humana não teria sido suficientemente aliviada e o contacto com um único ser ainda estaria demasiado manchado pela responsabilidade. Foi por isso que a cada coisa foi dada a responsabilidade por si mesma; mais ainda, a cada coisa foi também dada uma relativa responsabilidade pelos homens.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
As casas respiram. Podemos ouvi-las durante a noite. Têm um movimento soturno e imperceptível sob a secura da noite. Breves ruídos que despistam, o estalar das madeiras, as horas num relógio escondido. Mas não se trata disso. É a respiração das casas que nos suportam, a nós homens, mas possuem uma vida independente, muito densa. Acendi a luz e pus-me a ler. Um capítulo sobre as estátuas gigantes da Ilha da Páscoa que têm uma pedra vermelha sobre a cabeça. Estas pedras vermelhas parecem significar a cor amarela dos cabelos... Merda. Vou fumar para a janela. Passo a noite assim. Até que a madrugada começa a vir do rio. Sobe devagar pelas coisas como uma grande língua fria. Aparecem as casas, o miradoiro, a torre. Vejo então, muito vivo na palidez da madrugada, o bloco junto à igreja, com as suas escadas incompletas que se interrompem uns três metros abaixo da soleira da porta descolorida, entre os umbrais suspensos no espaço. Que é isto? A escada fica a meio percurso entre uma espécie de pátio, com montículos de arbustos rasteiros, e a porta que não dá entrada para sítio nenhum. E ei-lo, a esse último degrau, insólito, parado no ar: pura alucinação. Não era possível chegar à porta trepando pelas escadas. Mas se lá chegássemos, se nela batêssemos um dia inteiro, ninguém a abriria. Ou se a forçássemos, ficaríamos sob os velhos umbrais de pedra, com a vista para o rio, as casas, a cidade. As mesmas coisas que se vêem daqui, da janela. As mesmas que se veriam de qualquer parte. E o mais perturbante é que nem à porta chegaríamos, pois os degraus ficam muito abaixo da soleira. E, reparo, nem às escadas é possível ter acesso. Não se vê como alcançar o pátio de onde arrancam. Só o vento cego traz para ali a poeira invisível, ao longo dos meses, ano após ano, e nascem então esses arbustos inúteis. Os arbustos que parecem sofrer como um pensamento, sob a luz feroz, entre as cruéis linhas de pedra. Não sei nada. Atrevo-me a acender um novo cigarro. E o terror entra silenciosamente na minha vida.
in Os Passos em Volta - Escadas e Metafísica, Herberto Helder
As dívidas condenam famílias ao cativeiro durante várias gerações.
Por vezes, pensamos que a escravatura é coisa do passado e as magens que dela temos tendem a remontar ao século XIX: trabalhadores rurais negros agrilhoados. "Nessa época, a escravatura prosperava devido à falta de mão de obra", explica Mike Dottridge, antigo director da Anti-Slavery International, fundada em 1839 para dar seguimento à campanha que já abolira a escravatura no Império Britânico. Em 1850, segundo os estudos sobre escravatura feitos pelo especialista Kevin Bales, o preço médio de um escravo elevava-se a cerca de 35.200 euros, em dinheiro actual.
(...)
"Hoje, as pessoas vulneráveis são aliciadas para a escravatura com dívidas, ns esperança de uma vida melhor. Há muitos seres humanos nessas condições, porque há muita gente desesperada no mundo."
(...)
Embora a globalização tenha facilitado a movimentação de bens e dinheiro em todo o mundo, a compra e venda de seres humanos é um negócio rendível porque quem pretende deslocar-se para os locais onde há emprego enfrenta restrições cada vez mais rígidas em matéria de migração.
Quem não consegue migrar legalmente, ou pagar legalmente, ou pagar adiantado o dinheiro exigido para passar a fronteira de forma clandestina, acaba quase sempre nas mãos das máfias de traficantes.
Os pais do rapaz enviaram-no como aprendiz de mecânico para a capital do Benim. Trabalha o dia todo, sem descanso nem salário. Não pode sair à rua sem autorização e a desobediência é punida com pancada.
Fábrica de peles, perto de Florença, Itália
Por vezes, o sacrifício físico apresenta-se num único acto: estas mulheres de Villivakkam, na Índia, cuja alcunha é "aldeia dos rins", torcaram um rim por dinheiro. Com cerca de 20 anos na época em que aceitaram fazê-lo, ansiosas por pagar as sufocantes dívidas familiares, elas foram alvos fáceis para os agentes de transplantes que prometeram cerca de 880 euros por cada orgão. Embora recebessem metade do dinheiro adiantado, não receberam o resto da quantia. A Índia proibiu o comércio de órgãos humanos, mas isso não fez parar o tráfico. Para estas mulheres, a dor não cessou: três foram abandonadas pelos maridos, que as consideraram bens danificados. Nas suas palavras, só lhes restam as cicatrizes.
Surekha passou quase toda a sua vida nesta jaula com 1x2 metros, num bordel em Mumbai, India. Aqui, ela dorme, prepara as suas refeições, guarda os seus poucos objectos - e foi aqui que ela serviu o cliente que a infectou com HIV
in National Geographic, Setembro 2003
Textos de Andrew Cockburn
Fotos de Jodi Cobb
Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)
Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...
Álvaro de Campos
Que era, então, a vida? Era calor, calor produzido por um fenómeno sem substância própria que conservava a forma; era uma febre da matéria que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina de uma estrutura intimamente complicada e infinitamente engenhosa. Era o ser daquilo que na realidade não pode ser, que oscila numa doce e dolorosa suspensão sobre o limite do ser, nesse processo contínuo e febril de decomposição e renovação. Não era matéria nem era espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenómeno sustentado pela matéria, como o arco-íris sobre a queda de água, e semelhante à chama. Mas, se bem que não dependesse da matéria, era sensual até à volúpia e até ao desgosto o impudor da natureza tornada irritável e sensível com respeito a si própria e à forma impudica do ser. Era uma veleidade secreta e sensual no frio casto do universo, uma impureza intimamente voluptuosa composta de nutrição e de excreção, um sopro excretor de ácido carbónico e de substâncias nocivas de procedência e natureza desconhecidas. Era a vegetação, a desenvolução, a proliferação de uma coisa túmida, de água, de albumina, de sal e de gorduras a que se chamava carne e se convertia em forma, imagem e beleza, mas que era o princípio da sensualidade e do desejo. Porque essa forma, essa beleza não eram conduzidas pelo espírito, como nas obras da poesia e da música, nem tão-pouco por uma substância neutra e absorvida pelo espírito, que encarnasse o espírito de uma maneira inocente, como o são a forma e a beleza das obras plásticas. Era, pelo contrário, conduzida e elaborada pela substância, despertada, de modo desconhecido, para a voluptuosidade, pela substância orgânica, pela própria matéria que vive decompondo-se, pela carne perfumada...
in A Montanha Mágica, Thomas Mann
— «Mas que conversa é a sua, sobre ideais mais nobres? Aceitemos os factos: o povo triunfou... Ou "os escravos", ou "a populaça", ou "o rebanho", ou seja qual for o nome que lhes queira dar... Se tal triunfo ocorreu por intermédio dos Judeus, muito bem! A nenhum outro povo coube missão histórica de tamanha importância. "Os senhores" foram abolidos, triunfou a moral do homem comum. Poderá encarar-se tal triunfo como um envenenamento do sangue (já que misturou indiscriminadamente as raças). Não pretendo contradizer essa opinião, mas do que não há dúvida é que essa intoxicação foi bem sucedida. A "redenção" do género humano (relativamente aos "senhores") corre sobre rodas. E, a olhos vistos, tudo se judaíza, ou cristianiza, ou populiza (que importam as palavras?). O avanço deste envenenamento pela totalidade do corpo da humanidade parece imparável e, aliás, a partir de agora o ritmo da progressão pode muito bem ser cada vez mais lento, mais refinado, mais imperceptível e mais ponderado. Tempo não falta... E, neste processo, será que ainda cabe à Igreja alguma tarefa necessária, será que ela ainda tem algum direito à existência? Ou poder-se-ia dispensá-la? Quaerítur. Parece que ela tolhe ou retarda esse avanço em vez de o acelerar? Ora bem, pode dar-se o caso de a sua utilidade ser precisamente essa... É certo que no fundo ela tem sempre uma rudeza, uma rusticidade, que repugnam a uma inteligência delicada, ao gosto propriamente moderno. Não deveria ela, pelo menos, refinar-se um pouco? Porque, nos tempos que correm, em vez de seduzir, afasta... Quantos de nós seríamos livres-pensadores, se não existisse a Igreja? A Igreja repugna-nos, mas o mesmo não sucede com o respectivo veneno... Abstraindo da Igreja, o veneno afinal agrada-nos...» Este o epílogo que um «livre--pensador» acrescentou ao meu discurso..., um animal sério, como amplamente mostra ser, e sobretudo um democrata... Tinha estado a escutar-me com atenção e não se conteve quando me calei. Porque, para mim, neste ponto existe de facto ampla matéria para me calar...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
Talvez possamos comparar o ser humano a uma banheira de faiança branca: durante a infância e a primeira juventude, a banheira enche-se de uma água clara e fresca, que sussurra risonha; depois a água fica morna, cada vez mais quente, é uma água destinada à lavagem das acções, dos pensamentos, das sensações, condenada a perder a sua pureza sem com isso poder ser suja de qualquer maneira, uma água destinada a ser despejada quando quem nela se banha já não tiver forças para continuar a segregar porcaria. Se o ser humano é esta banheira, chega uma momento da vida em que uma mão desconhecida tira o tampão do fundo e em que a água, de novo fria, escorre com a sua porcaria e a sua pureza; o silvo da morte que sai do cano a princípio enche de medo o ser humano, mas este rapidamente se resigna e por fim só deseja que a mão desconhecida que abriu o tampão, limpe depois com uma escova as camadas de sujidade que ficarem dos lados da banheira. Mas com um triste gemido a última água turva é sorvida, também ela, pelo buraco negro, a banheira está vazia e fica silenciosa, está morta e a casa de banho envolta em sombras. Com a porta aferrolhada pelo lado de fora, a casa de banho está fechada para toda a eternidade, nunca mais ninguém ali tomará banho.
in A Ilha dos Condenados, Stig Dagerman
nota: Este excerto já foi lido no Silêncio, mas achamos que vale a pena ressuscitá-lo. Talvez o mesmo venha a suceder com outros. Para estes reavivar de memória criámos o capítulo Reposição
Gosto de toda a espécie de torres. São incompreensíveis. Foram construídas por pura bravata, um lirismo arrebatado e improfícuo. Debaixo delas funciona um motor que nunca pára. De que servem as torres? O motor trabalhava no meio de uma grande poça de silêncio. Não pensem que as torres desaparecem assim, que nos livramos delas. Inquietam-nos. Caem sobre as nossas cabeças ou contemplam-nos, imóveis, implacáveis. E imaginava eu que mal reparara nela. É assim: estamos diante das coisas; não as vemos. Só mais tarde, absurdamente, sabemos que apenas fizemos isso: vê-las e possuí-las. E ser apanhado por elas.
in Os Passos em Volta - Escadas e Metafísica, Herberto Helder
Diego Velazquez, 1656
Joel-Peter Witkin, 1987
Não sei se é a mim que acontece, se a todos os que a civilização fez nascer segunda vez. Mas parece-me que para mim, ou para os que sentem como eu, o artificial passou a ser o natural, e é o natural que é estranho. Não digo bem: o artificial não passou a ser o natural; o natural passou a ser diferente. Dispenso e detesto veículos, dispenso e detesto os produtos da ciência - telefones, telégrafos -que tornam a vida fácil, ou os subprodutos da fantasia - gramofonógrafos, receptores hertzianos - que, aos a quem divertem, a tornam divertida.
Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de São Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadíssimo de Lisboa.
A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensualidade como o obstáculo para a energia.
A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade. O que gozei destes campos vastos, gozei-o porque aqui não vivo. Não sente a liberdade quem nunca viveu constrangido.
A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para uma apreciação do natural.
Ô que é preciso, porém, é que nunca tomemos o artificial por natural.
É na harmonia entre o natural e o artificial que consiste a naturalidade da alma humana superior.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Cozinha de casa pobre. Ao fundo, uma porta. Numa parede, um calendário e uma janela. A MÃE olha para o PAI que lê o jornal
Silêncio.
A MÃE Já sei porque é que ressonas.
O PAI Então?
A MÃE Dormes com a boca aberta.
O PAI Como é que sabes?
A MÃE Vejo.
O PAI Quando eu estou a dormir?
A MÃE Sim.
O PAI Em vez de te pores a olhar para mim, apaga mas é a luz.
A MÃE Não posso apagar a luz. Tenho de ler as orações.
O PAI Não as sabes de cor?
A MÃE Sei.
O PAI Então, apaga a luz.
A MÃE Olho para os santinhos.
O PAI Olha de dia.
A MÃE E à noite, olho para quê?
O PAI Nada. Dorme.
A MÃE Como é que eu posso dormir, se tu ressonas?
Pausa.
O PAI Como é que está o tempo?
A MÃE Está sol.
O PAI Está a chover?
A MÃE Está sol.
O PAI Vai ver se chove.
A MÃE Está sol, como é que queres que chova?
O PAI Também chove quando está sol. Vem aqui escrito que está de chuva.
A MÃE Isso é o jornal de ontem. Ontem choveu.
O PAI Estou a ler as previsões.
A MÃE Não está a chover.
O PAI O tempo enganou-se. Se vires ó jornal de ontem, percebes que o tempo se enganou.
A MÃE Se lês o jornal da véspera, nunca tens as notícias do dia.
O PAI Sei no dia a seguir.
A MÃE E para que é que tu queres as notícias do dia no dia a seguir?
O PAI Para que é que quero as notícias do dia se vêm erradas? Mais vale ler no jornal depois, mas verdadeiras.
Pausa.
in A Festa, Spiro Scimone
Tradução de Jorge Silva Melo
Em cena pelos Artistas Unidos, no Teatro Taborda
Water Serpents, Gustav Klimt, (1904-07)
Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d'água.
O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.
Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.
in O Amor Natural , Carlos Drummond de Andrade
Ilustração de Milton DaCosta
Again, you may look upon life as an unprofitable episode, disturbing the blessed calm on non-existence. And, in any case, even though things have gone with you tolerably well, the longer you live the more clearly you will feel that, on the whole, life is a disappointment, nay, a cheat.
[...]
He who lives to see two or three generations is like a man who sits some time in the conjurer's booth at a fair, and witnesses the performance twice or thrice in succession. The tricks were meant to be seen only once; and when they are no longer a novelty and cease to deceive their effect is gone.
[...]
If children were brought into the world by an act of pure reason alone, would the human race continue to exist? Would not a man rather have so much sympathy with the coming generation as to spare it the burden of existence? or at any rate not take it upon himself to impose that burden upon it in cold blood.
I shall be told, I suppose, that my philosophy is comfortless - because I speak the truth; and people prefer to be assured that everything the Lord has made is good. Go to the priests, then, and leave philosophers in peace! At any rate, do not ask us to accommodate our doctrines to the lessons you have been taught. That is what those rascals of sham philosophers will do for you. Ask them for any doctrine you please, and you will get it. Your University professors are bound to preach optimism; and it is an easy and agreeable task to upset their theories.
On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer
Desde o pecado original que temos praticamente a mesma capacidade para conhecer o bem e o mal. Apesar disso é justamente aqui que temos as nossas preferências. Mas é só para lá deste conhecimento que começam as verdadeiras diferenças. A aparência contraditória é provocada pelo seguinte: ninguém se pode contentar apenas com o conhecimento, mas tem de esforçar-se por agir de acordo com ele. No entanto não nos foi dada a força para tal, e temos que nos destruir, mesmo correndo o risco de nem assim obtermos a força necessária. Mas nada nos resta a não ser esta última tentativa (este é também o sentido da ameaça de morte contida na proibição de se comer da árvore do conhecimento; talvez até seja o sentido original da morte natural). É desta tentativa afinal que temos medo. Preferimos antes desfazer o conhecimento do bem e do mal (a designação «pecado original» refere-se a este medo). Mas o que aconteceu não pode ser invertido, apenas deturpado. Com esta finalidade surgem as chamadas motivações. O mundo está cheio delas, aliás todo o mundo visível talvez não passe da motivação de um homem que por um momento quer repousar. Uma tentativa de falsificar o facto do conhecimento, de transformá-lo em objectivo.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka

Figure at Window, Salvador Dali, 1925
Também a política está ligada à literatura, ou melhor: origina-se na aliança, na fusão da humanidade e da literatura, pois a bela palavra gera a bela acção.—Faz dois séculos — disse Settembrini — vivia no nosso país um velho poeta, um excelente conversador, que atribuía suma importância à beleza da grafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Deveria ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas acções.— Escrever bem já quase é pensar bem, e daí a agir bem não há muita distância. Toda a Civilização e todo o aperfeiçoamento moral derivam do espírito da literatura, que é a alma da dignidade humana e que é idêntico ao espírito da política Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, compunha-se de sílabas familiares e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. O nome era: Civilização!
in Montanha Mágica, Thomas Mann
Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.
A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Nem todos se preocupam com a questão de saber se a vida tem sentido. Alguns - e esses não são os mais infelizes - têm a mente de uma criança, que ainda não questionou tais coisas; outros, tendo desaprendido a questão, já não as questionam. Entre ambos estamos nós próprios, aqueles que procuram. Não conseguimos projectar-nos de novo no nível do inocente, para quem a vida ainda não olhou com os seus olhos escuros e misteriosos, e não nos interessa juntarmo-nos aos saturados e fatigados que já não acreditam em qualquer sentido na existência por não terem conseguido encontrar qualquer sentido na sua própria vida.
Aquele que não conseguiu atingir o objectivo que procurava na sua juventude, e que não encontrou nada que o substituísse, pode lamentar a falta de sentido da sua própria vida, mas pode ainda acreditar que a existência em geral tem sentido e pensar que tal sentido está presente nos casos em que uma pessoa atingiu os seus objectivos. Mas aquele que, depois de muito esforço, conseguiu atingir os seus propósitos, e que depois descobriu que o seu prémio não é tão valioso como parecia, de alguma maneira sente-se enganado - confronta-se abertamente com a questão do valor da vida e diante dele, como um solo sombrio e devastado, permanece o pensamento de que, para além de todas as coisas serem transitórias, em última análise tudo é em vão. . . .
Excertos de um texto de Moritz Schlick traduzido por Pedro Galvão
Na Intelectu
para te manteres vivo -- todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma -- puxas-lhe o brilho
regas o coração e o grande feto verde-granulado
deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio -- uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento
passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar -- crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória
luzeiros marinhos sobre a pele -- peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação
in Horto de Incêndio, Al Berto
O homem tem livre vontade, nomeadamente de três maneiras diferentes. Em primeiro lugar, o homem era livre quando quis esta vida. É certo que já não a pode fazer voltar atrás, porque ele já não é o mesmo que outrora a quisera, a não ser na medida em que executa a sua vontade de então, vivendo.
Em segundo lugar é livre ao poder escolher livremente o caminho desta vida e a forma de o percorrer.
Em terceiro lugar é livre porque, sendo ele aquele, que um dia voltará a ser, tem a vontade de, não importa em que condições, deixar-se ir pela vida e deste modo deixá-la vir ter consigo. E quer fazê-lo por um caminho, que embora seja susceptível de ser escolhido, é em todo o caso de tal maneira labiríntico que não deixa intocado um único pedaço desta vida.
É este o carácter triplo da livre vontade, que, porque os três aspectos são simultâneos, é também unidade. E, no fundo, é de tal maneira unidade que não deixa lugar para uma vontade, exercida livremente ou não.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
— Mas não compreendeis tudo isto? Não tendes olhos para ver uma coisa que demorou dois mil anos a triunfar...? Também não é espantoso que assim seja, porque tudo o que é longo é difícil de ver, de abarcar no seu conjunto. Mas o acontecimento foi este: do tronco dessa árvore da vingança e do ódio, do ódio judaico — o ódio mais profundo e mais sublime, capaz até de criar ideais e de transmutar valores, um ódio sem igual sobre a terra —, cresceu uma outra coisa que também não tinha comparação possível, um novo amor, a mais profunda e a mais sublime espécie de amor... E de que outro tronco poderia ela ter brotado? Mas não se cometa o erro de pensar que um tal amor constituísse de algum modo uma negação daquela sede de vingança, que tivesse nascido como contradição do ódio judaico! Não, bem pelo contrário! Este amor nasceu desse ódio, era a sua coroação, a sua coroa triunfante, despontando mais e mais amplamente na pura claridade, debaixo da plenitude dos raios solares, e que agora, por assim dizer, no reino da luz, no reino das alturas, se lançava de novo em direcção aos objectivos do ódio, em direcção ao triunfo, à conquista, à sedução, com o mesmo impulso com que as raízes desse ódio se iam enterrando cada vez com maior tenacidade e avidez em tudo o que fosse profundo e malvado. Esse Jesus de Nazaré, apresentando-se como evangelho incarnado do amor, como «redentor» capaz de trazer a bem-aventurança e a vitória aos pobres, aos doentes e aos pecadores, não era ele precisamente a sedução, na sua forma mais sinistra e mais irresistível, a sedução que por caminhos desviados conduzia aos valores judaicos e às inovações judaicas em torno do ideal? E não é verdade que o povo de Israel alcançou os últimos objectivos do seu sublime desejo de vingança avançando precisamente pelo desvio que lhe foi mostrado por esse «redentor», esse homem que aparentemente punha em risco a unidade israelita, como se fosse um adversário? Não terá sido parte integrante das artes negras, secretas, de uma grandiosa política de vingança, de uma vingança de visão ampla, subterrânea, premeditada e de acção lenta, o facto de o povo de Israel ter chegado ao ponto de renegar o próprio instrumento da sua vingança e de o pregar na cruz à frente do mundo inteiro, como se de um inimigo mortal se tratasse, para que «todo o mundo», isto é, para que todos os adversários de Israel pudessem morder sem hesitação este engodo? E terá alguma vez o refinamento do espírito sido capaz de inventar um engodo ainda mais perigoso que esse? Qualquer coisa que se parecesse com a força sedutora, embriagante. anestésica e viciante desse símbolo que é a «santa cruz», desse horrível paradoxo de «um deus crucificado», desse mistério de uma crueldade extrema absoluta, inimaginável, a de um deus que se crucifica a si próprio para salvação do homem...? Uma coisa pelo menos é certa: até hoje, sub hoc signo, o povo de Israel, com a sua vingança e a sua transmutação de todos os valores, conseguiu triunfar sempre sobre todos os outros ideais, nomeadamente sobre os ideais mais nobres...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
What's he building in there?
What the hell is he building
In there?
He has subscriptions to those
Magazines... He never
Waves when he goes by
He's hiding something from
The rest of us... He's all
To himself... I think I know
Why... He took down the
Tire swing from the Peppertree
He has no children of his
Own you see... He has no dog
And he has no friends and
His lawn is dying... and
What about all those packages
He sends. What's he building in there?
With that hook light
On the stairs. What's he building
In there... I'll tell you one thing
He's not building a playhouse for
The children what's he building
In there?
Now what's that sound from under the door?
He's pounding nails into a
Hardwood floor... and I
Swear to god I heard someone
Moaning low... and I keep
Seeing the blue light of a
T.V. show...
He has a router
And a table saw... and you
Won't believe what Mr. Sticha saw
There's poison underneath the sink
Of course... But there's also
Enough formaldehyde to choke
A horse... What's he building
In there. What the hell is he
Building in there? I heard he
Has an ex-wife in some place
Called Mayors Income, Tennessee
And he used to have a
consulting business in Indonesia...
but what is he building in there?
What the hell is building in there?
He has no friends
But he gets a lot of mail
I'll bet he spent a little
Time in jail...
I heard he was up on the
Roof last night
Signaling with a flashlight
And what's that tune he's
Always whistling...
What's he building in there?
What's he building in there?
We have a right to know...
Tom Waits, in Mule Variations
Um primeiro sinal de que o conhecimento começa é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável, uma outra inalcançável. Já não nos envergonhamos de querer morrer. Pedimos para ser levados da velha cela, que odiamos, para uma nova, que ainda havemos de aprender a odiar.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo — diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. Bom dia, bom dia. E desatavam a correr. É o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. E a gente então comove-se, e apoia, e ama. Está mais gordo, mais magro. E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco — e que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida. E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável. Ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre. Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico — batiam ali e resvalavam. E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano — diziam as pessoas. Temos medo. E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver. E havia o progresso. Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução. Desejam examinar? Por este lado, se fazem favor. Aí à direita. Muito bem. Não é uma boa revolução? Bem, compreende... Claro, é uma belíssima revolução. E é barata? Uma revolução barata?! Não, senhores, esta é uma verdadeira revolução. Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas. Um bocado cara. Mas de boa qualidade, isso. E o rosto que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das mesas, o rosto? Lembras-te? Como foi que ficou assim? Não sei: tinha uma luz. Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente. Era terrível. Boa noite. E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. Não compreendo. E julgas tu que eu compreendo? Quem pode compreender? Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical..., compreendes? Sim, sim. Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se. Para diante, para diante. Não se deve parar. Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros. Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade. Por pouco tempo, julgo eu. Como? Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente. Remodelemos o ensino. Cantemos aquela canção que fala da flor da tília. Bebamos um pouco. E o outro, o outro, o que viu Deus quando ia para o emprego?! Isto, imaginem, às 8 h. e 45 m. de uma tranquila manhã de março. Uma partida. Uma partida de Deus? Boa piada. Não amará Deus essas maliciosas surpresas? Um pequeno Deus folgazão?! Ele ficou doido. Começou a gritar e a fugir. Que Deus vinha atrás dele. E depois? Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar. Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra. É belo. Vamos amar isto? Vamos, é humano, é do homem. E as crianças cresceram todas, e andavam de um lado para outro, e iam fazendo pela vida — como elas próprias diziam. E então as condições sociais? Sim, melhoraram bastante. Mas uma delas começou a beber, e depois o coração estoirou, e ficou apenas para os outros uma memória incómoda. Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou. Era uma criança. Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia. Nada mau, para uma antiga criança. A verdade é que era uma criança, e não se aguentou quando o médico disse: aguente-se. E as ruas são tão tristes.
Precisam de mais luz. Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. É até mais triste que as outras. Estou tão triste. Vamos para férias, para o pequeno paraíso. Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia agarrar num copo: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional. Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. E onde está? Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. Partiu. E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. E depois, e depois? Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. Foi-se embora.
in Os Passos em Volta - Lugar Lugares, Herberto Helder
«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali' estão.
E já agora, consciente de saber ver, olhou vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro - do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a-alma inteira, encosto' a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
A Serra
Caldas de Monchique
perdidos na Serra
lá no topo
A dúvida é permanente em mim. A dúvida estimula-me os sentidos de uma forma que, para mim, se materializa na vontade de aquisição de conhecimentos, tanto empirica como teoricamente. O modo como desenvolvo, na prática, essa aquisição é irrelevante.
Interessa-me, agora, ter um meio em que possa espelhar o que do meu lado me agrada. No meio dos bloggers chama-se a isto umbiguismo. A definição aberta deste carimbo permite-me afirmar que este blogue foi gerado com um olho no umbigo e outro na estante, no chão, nas livrarias, na internet: onde, enfim, estão os livros e os escritos que se lêem.
A concepção deste blogue parte da ideia de solidão, do silêncio reservado a uns e outros que não comunicando - como este que assina - pretendem aprender a comunicar pelas palavras de outros.
Sabendo, como alguns sabem, que a escrita nem sempre é entendida no sentido primeiro da pena do autor, o que aqui se apresenta é um trabalho de recolha, mais do que escolha, de pontos fulcrais das leituras que os autores deste blogue fazem. (A adjectivação que ofereço aos "pontos" é totalmente subjectiva face à leitura individual.) O entendimento que deles o visitante faz é-nos completamente alheia, e muito nos regojizamos nas conversas e debates que estes excertos possam oferecer.
Face ao crescimento do número de visitantes julgo ser útil esclarecer que dolphin.s é gestora e empreendedora do blogue, a ela cabem todos os merecimentos pela capacidade de alimentar a sua mente com leituras completas e recolha dos textos a divulgar; eu lancei uma semente à terra e olho de longe a árvore a crescer - sou um pai distante, que vem a casa aos fins de semana.
Numa altura em que em alguns lugares virtuais se discute este blogue, inclusivé nele mesmo - que considero ser o melhor sítio -, julgo ser útil, ainda, afirmar que o não gostar é uma flama tão possível quanto gostar, sentir sonolência é uma sensação tão natural quanto sentir excitação e que a geração beat compunha originais através de copy&paste (o que não se faz aqui).
Chegou ao fim mais um Anti-Clímax (o anterior está aqui).
Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo - é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?
in O Amor Natural, Carlos Drummond de Andrade
São muitas as sombras de falecidos que apenas se ocupam em lamber as marés do rio dos mortos, porque este vem dos nossos lados e ainda tem o sabor salgado dos nossos mares. O rio crispa-se então enojado, inverte o sentido da corrente e despeja os mortos de novo na vida. E eles contudo são felizes, entoam cânticos de agradecimento e afagam o indignado.
in Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, Franz Kafka
Here they go again,
The Yanks in their armoured parade
Chanting their ballads of joy
As they gallop across the big world
Praising America's God.
The gutters are clogged with the dead
The ones who couldn't join in
The others refusing to sing
The ones who are losing their voice
The ones who've forgotten the tune.
The riders have whips which cut.
Your head rolls onto the sand
Your head is a pool in the dirt
Your head is a stain in the dust
Your eyes have gone out and your nose
Sniffs only the pong of the dead
And all the dead air is alive
With the smell of America's God.
© Harold Pinter, January 2003
publicado no The Guardian dia 22 de Janeiro de 2003
Segundo os pontos de vista de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a Força e o Direito, a Tirania e a Liberdade, a Superstição e a Ciência, o princípio da conservação e o do movimento: o Progresso. Podia chamar-se a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da actividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da Luz, a do aperfeiçoamento guiada pela Razão. Pois a Humanidade arrastava incessantemente novos povos pelo seu caminho brilhante, ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar a Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões, até naqueles países que, na verdade, nunca tinham vivido o seu século xvm nem seu ano de 1789.—Mas esse dia há-de chegar, dizia Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegar pelos pés das pombas, chegará sobre as asas das águias Nascerá com a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da Razão, da Ciência e do Direito. Trará a santa aliança da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal, o inimigo pessoal foi o avô Giuseppe, numa palavra, a República Universal.—Mas, para alcançar esse objectivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, p princípio do servilismo e da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar desforra das suas façanhas do passado, e depois para preparar o caminho, o reino da justiça e da felicidade sobre a Terra.
in Montanha Mágica, Thomas Mann

in Dog Dogs, Elliot Erwitt
JAMES: [Confidentially] When you treat my wife like a whore, then I think I'm entitled to know what you've got to say about it.
BILL: But I don't know your wife.
JAMES: You do. You met her at ten o'clock last Friday in the lounge. You fell into conversation, you bought her a couple of drinks, you went upstairs together in the lift. In the lift you never took your eyes from her, you found you were both on the same floor, you helped her out, by her arm. You stood with her in the corridor, looking at her. You touched her shoulder, said goodnight, went to your room, she went to hers, you changed into your yellow pyjamas and black dressing gown, you went down the passage and knocked on her door, you'd left your toothpaste in town. She opened the door, you went in, she was still dressed. You admired the room, it was so feminine, you felt awake, didn't feel like sleeping, you sat down on the bed. She wanted you to go, you wouldn't. She became upset, you sympathized, away from home, on business, horrible life, especially for a woman, You Comforted her, you gave her solace, you stayed.
[Pause)
BiLL: Look, do you mind... just going off now. You're giving me a bit of a headache.
JAMES: You knew she was married... why did you feel it necessary... to do that?
BILL: She must have known she was married too. Why did she feel it necessary... to do that?
excerto de The Collection, de Harold Pinter
Ora, é sabido que os sacerdotes são os piores inimigos... Mas porquê? Porque são os mais impotentes. Dessa impotência cresce neles um ódio monstruoso e sinistro, um ódio que sendo o mais espiritual é o mais venenoso. Os maiores ódios da história foram sempre da responsabilidade de sacerdotes e os ódios espiritualmente mais elaborados, também... Porque quase não há comparação possível entre o espírito da vingança sacerdotal e tudo o resto a que possa chamar-se espírito... A história humana seria coisa assaz aborrecida se não fosse o espírito que os impotentes nela introduziram. Peguemos desde logo no exemplo maior: tudo o que no mundo foi feito contra «os mais nobres», contra «os mais fortes», contra «os senhores», contra «os detentores do poder», não chega a merecer referência em comparação com o que os Judeus fizeram contra eles: os Judeus, esse povo sacerdotal que, no confronto com os povos inimigos e nomeadamente com aqueles que os submeteram, só conseguia desagravar-se por via de uma radical transmutação dos valores desses povos, ou seja, por intermédio de um acto da mais espiritual das vinganças. E, de facto, só esta atitude se adequava a um povo de padres, a esse povo em que dominava o mais fundo desejo sacerdotal de vingança. Foram os Judeus que, com uma lógica aterrorizante, ousaram substituir a equação aristocrática dos valores (bom = distinto = poderoso = belo = feliz = amado pelos deuses) pela sua inversa, e que conseguiram reter essa inversão, por assim dizer, com a força dos dentes de um ódio abismal (o ódio da impotência), que os levava a dizer nomeadamente que «só os miseráveis são bons, só os pobres, os impotentes, os de baixa condição são bons», e que «só os que sofrem, os necessitados, os doentes e os feios são piedosos, abençoados por Deus e dignos de bem-aventurança»..., e que, «pelo contrário, vós, os homens de distinção e poder, vós sois para toda a eternidade os maus, os cruéis, os lúbricos, os insaciáveis, os ímpios, e sereis também para todo o sempre aqueles para quem não haverá perdão, os malditos, os condenados!...» É sabido quem recebeu a herança desta transmutação judaica dos valores... A propósito da iniciativa monstruosa e desmedidamente nefasta que os Judeus puseram em campo com tais declarações de guerra, cuja intransigência não encontra comparação, quero recordar uma ideia a que cheguei numa outra ocasião (Para além do Bem e do Mal, pág. 118), a saber, que, com os Judeus, começa a revolta dos escravos no âmbito da moral. Essa revolta que tem hoje para trás de si uma história de dois milénios e que só nos não salta aos olhos por um motivo..., porque triunfou...
in Para a Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche
Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento do homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solicitar, inquirir.
— Posso falar? Podemos falar?
O meu único alimento é o desespero. E é do coração estéril que extraio toda a força: tenho confiança em que Deus está neste quarto, está na tão experiente expectativa das tumultuosas passagens dos comboios.
O pensamento alude ao norte, a essa ideia que relaciona o norte com o frio puro e a dramática alegria da neve, das temperaturas muito baixas. Alude também à viagem sem fé, inconsequente, feita com o inexplicável ardor de quem se inicia na eternidade.
Mas nem cigarros tenho. Estou possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar, a fraternidade solitária, o amor sempre em viagem.
O meu gosto pela exactidão já sabe o horário dos comboios que possivelmente (evidentemente) nem vão para lá.
Deus principia a inspirar-me terror. A minha unidade, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que pode alcançar.
Não, não está ninguém junto à porta.
in Os Passos em Volta - Os combóios que vão para a Antuérpia, Herberto Helder

in Dog Dogs, Elliot Erwitt
Almofada de missanga
para deitar a cabeça,
e um fumo negro na manga
antes que alguém adoeça.
Quando saio pró emprego
dizes-me adeus do postigo:
gosto de ti seja cego
fique já aqui tolhido!
Tomo o meu chá de limão
na leitaria da esquina:
ao beber treme-me a mão
se ao meu lado no balcão
se empoleira uma menina.
Almoço um pastel folhado
volto ao escritório a correr
sento-me à mesa apressado
e logo o patrão, zangado,
Antunes não pode ser!
No trinta e oito pra Chelas
leio a Bola ao solavanco
passam postes e janelas
chamam no alto as estrelas
há quem voe para elas
e eu sentado no banco.
Esfrego os pés no capacho
vens de robe dar-me um beijo
que sejas nova não acho
mas calo-me ponho um pacho
e enquanto aqueces o tacho
vai-se-me logo o desejo.
E tu em Marvila: amor
não gostas do meu cozido?
Mas seja lá como for
gosto de ti sim senhor
fique já aqui tolhido!
in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes
Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para: se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Estou dentro das paredes brancas.
Quatro paredes: a minha cela,
O frio, a solidão e o meu catre.
A luz entra sempre de noite.
Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.
Tenho um pequeno sonho de uma janela para abrir:
E que paisagem não seria estar feliz!
in Explicação das Árvores e de Outros Animais, Daniel Faria
Sinto o sangue dar-me a volta
sinto a vida andar à solta
Desdobro o mapa e vejo o tempo em movimento
Descubro o espaço, apago a luz do apartamento
- Deixo a noite nascer...
Eu investigo, não invisto em qualquer estrela
Quem me repara a alma
Se eu der cabo dela
- Solto quem me prender
Lá fora há lugar
À espera de mim
Sereno, sincero
Ninguem me afoga a fonte de cada momento
Ninguem me enterra a raíz do pensamento
Ouço as penas voar...
Sacudo o saco do segundo que demora
Enchi saco, eu só quero é ir-me embora
deixo as asas dançar...
Lá fora um lugar à espera de mim
Despido, desperto
Bebo o fogo, racho tábuas
Furo os ventos, rasgo as águas
Jorge Palma
A descoberta da moral cristã é um acontecimento que não tem equivalente, é uma autêntica catástrofe. Quem elucida a esse respeito é uma force majeure, é um destino — quebra a história da humanidade em duas partes. Vive-se antes dele, vive-se depois dele... O raio da verdade atingiu precisamente aquilo que, até então, se encontrava mais alto: quem compreender o que aí foi aniquilado, que veja se ainda tem mesmo alguma coisa nas mãos. Tudo o que, até então, se chamava «verdade» foi reconhecido como a forma de mentira mais perniciosa, mais pérfida, mais subterrânea; o sagrado pretexto de «emendar» a humanidade foi desmascarado como uma artimanha para esgotar, para tornar anémica a própria vida. A moral como vampirismo... Quem descobrir a moral descobriu ao mesmo tempo o pouco valor de todos os valores, em que se acredita ou se acreditou; já não vê no tipo de homem mais venerado, ou mesmo canonizado, nada de venerável, vê nele a mais funesta casta de abortos, e funesta, porque eles fascinaram... O conceito de «Deus» foi inventado como conceito oposto à vida — dentro dele se juntou numa tremenda unidade tudo o que é nocivo, intoxicante, caluniador, toda a mortal hostilidade contra a vida! A noção de «Além», de «mundo verdadeiro», foi inventada para desvalorizar o único mundo que há — para que não restasse para a nossa realidade terrena nenhum objectivo, nenhum motivo, nenhuma missão! O conceito de «alma», de «espírito», por fim até de «alma imortal», foi inventado para desprezar o corpo, para o tornar doente — «santo» —, para se dedicar uma horripilante leviandade a todas as coisas que merecem seriedade na vida, as questões de alimentação, habitação, dieta espiritual, tratamento dos doentes, asseio, condições climáticas! Em lugar de saúde, a «salvação da alma» — quer dizer, uma folie circulaire entre convulsões da penitência e histeria da redenção! A noção de «pecado» foi inventada, juntamente com o competente instrumento de tortura, o conceito do «livre arbítrio», para confundir os instintos, para fazer da desconfiança ante os instintos uma segunda natureza! Na concepção do «desinteressado», do «que se renega a si próprio», o que constitui o autêntico distintivo da decadência, o ser atraído pelo que é nocivo, o já não poder encontrar o seu proveito, a autodestruição, foram transformados em marcas de valor, em «dever», em «santidade», no que há de «divino» no homem! Finalmente — e isso é o mais terrível —, com a noção do homem bom, tomou-se partido por tudo o que é fraco, doente, falhado, atormentado consigo mesmo, por tudo o que deve perecer — riscou-se a lei da selecção, fez-se um ideal da contradição ao homem orgulhoso e bem sucedido, ao homem afirmativo, consciente e garante do futuro — que passou, desde então, a chamar-se o mau... E acreditou-se em tudo isto como moral! Ecrasez l'infâme!
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
Preparem um bom puré de azedas ligado por três gemas de ovos, um pedaço de manteiga passado por farinha e um pouco de creme. Passem as bochechas pela frigideira na companhia de tiras de toucinho grosseiramente cortadas. Coloquem as bochechas sobre o recheio de azedas disposto em canapé e sirvam quente.
in A Cozinha Canibal, Roland Torpor
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
—Chega tarde ao concerto, sr. Settembrini. Já está quase ao fim, com certeza. Gosta de música?
—Por ordem superior, não — replicou Settembrini.— Não quando é ditada pelo calendário, não muito, quando cheira a farmácia e me é ministrada por razões sanitárias. Estimo um pouco a minha liberdade, ou pelo menos aquele resto de liberdade e dignidade humana que ainda mantemos. Em ocasiões como esta, costumo comparecer como visitante, como o senhor faz aqui em cima: assisto durante um quarto de hora e depois sigo o meu caminho. Isso dá-me uma ilusão de independência. Não digo que seja mais do que ilusão, mas, que quer o senhor, se me causa uma certa satisfação! Com o seu primo, o caso é diferente. Para ele, é serviço. Não é, tenente? O senhor considera isto como parte dos seus deveres. Ah! Sim, eu sei que o senhor conhece o truque de conservar o seu orgulho em plena escravidão. É um truque desconcertante. Não há muita gente na Europa que se entenda com isso. O senhor não me perguntou se eu era amante da música?
Bem, se o senhor disse «amante de música» (Hans Castorp não se lembrava de ter-se exprimido assim) a expressão não está mal escolhida, comporta um resquício de frivolidade afectuosa. Pois bem, estou de acordo. Sim, sou amante da música — o que não significa que a estime particularmente, assim como estimo e amo, por exemplo, a palavra, o veículo do espírito, o utensílio, o resplandecente arado do progresso. A música? Á música representa o não-formulado, o equívoco, o irresponsável, o indiferente. O senhor vai objectar-me talvez que ela pode ser clara, mas a Natureza também pode ser clara, o arroio também o pode ser, e que nos adianta isso ? Não é a verdadeira clareza, é uma clareza sonhadora, despida de significação, uma clareza que a nada obriga, uma clareza sem consequências, e por isso perigosa, porque nos arrasta a contentarmo-nos com ela... Suponhamos que a música toma uma atitude magnânima. Bem. Inflamará os nossos sentimentos. Mas trata-se de inflamar a nossa razão! A música parece ser o próprio movimento, não importa, suspeito nela o quietismo. Permita que leve a minha tese até ao extremo. Tenho contra a música uma antipatia de ordem política.
Aqui, Hans Castorp não pôde deixar de bater com a mão sobre o joelho e de exclamar que nunca na sua vida ouvira coisa semelhante.
—Apesar de tudo, tome a ideia em consideração — disse Settembrini, sorrindo. — A música é inapreciável como meio supremo de provocar o entusiasmo, como força que nos arrasta para a frente e mais alto quando encontra o espírito já preparado para os seus efeitos. Mas a literatura deve tê-la precedido. Sozinha, a música não faz avançar o mundo. Sozinha, a música é perigosa. Para si, pessoalmente meu caro engenheiro, é, indubitavelmente, um perigo. Verifiquei-o logo ao chegar, pela sua fisionomia.
Hans Castorp começou a rir.
—Oh, não olhe para mim, sr. Settembrini! O senhor não imagina até que ponto o ar, aqui em cima, me desfigurou. Aclimatar-me custa-me muito mais do que pensava.
—Receio que o senhor se engane.
—Mas por quê? Continuo a ter calor, que diabo! E sinto-me muito fatigado.
—No entanto, parece-me que devemos ficar gratos à direcção por estes concertos — disse Joachim circunspectamente.—O senhor considera o assunto de um ponto de vista superior, sr. Settembrini, por assim dizer, como escritor, e nesse sentido não quero contradizê-lo. Mas acho que, apesar de tudo, devemos aceitar com gratidão este pouquinho de música. Não sou um entendido em música, e as peças que executam não são especialmente notáveis, nem clássicas nem modernas, é simplesmente música de banda, mas, mesmo assim, representa uma variação agradável. Enche algumas horas de modo muito conveniente; reparte-as e ocupa-as, de modo que elas tenham pelo menos alguma coisa, ao passo que, em geral, se desperdiçam aqui dias e semanas de um modo simplesmente pavoroso. Veja um número deste insignificante concerto. Durante sete minutos, não é? E esses números formam qualquer coisa em si, têm um princípio e um fim, destacam-se e são, de certo modo, preservados da ameaça de se perderem na monotonia geral. Além disso, são ainda divididos, primeiro pelas partes da peça, e depois em compassos, de maneira que acontece sempre alguma coisa e cada instante recebeu um certo sentido, ao qual nos podemos agarrar, ao passo que de outra maneira... Não sei se me exprimi... —Bravo!—gritou Settembrini. — Bravo, tenente! O senhor definiu muito bem um aspecto incontestavelmente moral da música, a saber, que ela empresta ao escoamento do tempo, medindo-o de uma forma particularmente viva, uma realidade, um sentido e um valor. A música desperta o tempo, acorda-nos para um gozo mais refinado do tempo, desperta... e exactamente nesta medida é moral. A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede, quando faz o contrário ? Quando entorpece, adormenta, estorva a actividade e o progresso ? Também a música é capaz disso; sabe exercer, maravilhosamente, a influência dos estupefacientes. Uma influência diabólica, meus senhores! A droga é o diabo, porque causa letargia, estagnação, inactividade, passividade, escravização... Há na música qualquer coisa inquietante, senhores. Insisto no facto da sua natureza ambígua. Não exagero ao declarar que ela é politicamente suspeita.
in Mntanha Mágica, Thomas Mann
Há um cansaço da inteligência abstracta, e é.. o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento pela emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar com a alma.
Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que ternos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado.
O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos - a da incarnação disforme do não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.
Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Certain it is that work, worry, labor and trouble, form the lot of almost all men their whole life long. But if all wishes were fulfilled as soon as they arose, how would men occupy their lives? what would they do with their time? If the world were a paradise of luxury and ease, a land flowing with milk and honey, where every Jack obtained his Jill at once, men would either die of boredom or hang themselves; or there would be wars, massacres and murders; so that in the end mankind would inflict more suffering on itself than it has now to accept at the hands of Nature.
In early youth, as we contemplate our coming life, we are like children in a theater before the curtain is raised, sitting there in high spirits and eagerly waiting for the play to begin. It is a blessing that we do not know what is really going to happen. Could we foresee it, there are times when children might seem like innocent prisoners, condemned, not to death, but to life, and as yet all unconscious of what their sentence means. Nevertheless every man desires to reach old age; in other words, a state of life of which it may be said, "It is bad today, and it will be worse tomorrow; and so on till the worst of all."
On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer
No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. Meu Deus! a minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tornariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raiz. Era uma experiência, um pensamento, um destino — algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila. Podemos sempre beber uma cerveja como se fosse a última.
in Os Passos em Volta - Polícia, Herberto Helder
Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos erróneos. Crê-se em geral que a novidade e o carácter interessante do seu conteúdo "fazem passar" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Mas não é absolutamente verdade. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos "aborrecidos"; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e voam. Portanto, o que se chama de tédio é, na realidade, antes uma simulação mórbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso é de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-se a tal ponto, que assustam mortalmente o coração; quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito é uma sonolência, ou, pelo menos, um enfraquecimento do senso do tempo, e o facto dos anos de infância serem vividos vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa, esse facto também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio de manter a nossa vida, de refrescar a nossa sensação de tempo, de obter um rejuvenescimento, um reforço, um atraso da nossa experiência do tempo, e com isso, a revolução da nossa sensação da vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio: nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo - seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se "aclimata", começa a senti-los abreviarem-se: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de apegar-se à vida nota, com horror, como os dias começam a tornar-se leves e furtivos; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo faz-se sentir para além do interlúdio, e desempenha o seu papel ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois desta variação, afiguram-se-nos também novos, amplos e juvenis, mas sómente uns poucos: porque a gente acostuma-se mais rápidamente à rotina do que à sua suspensão, e quando o nosso senso do tempo está fatigado pela idade, ou nunca o possuímos desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital - volta a adormecer muito depressa, e ao cabo de vinte e quatro horas já é como se a pessoa jamais tivesse partido e a viagem não passasse de um sonho de uma noite.
in A Montanha Mágica, Thomas Mann
Leitura partilhada com o Citador
ARRE, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.
Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!
Álvaro de Campos
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação Com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários que faço a propósito dela. Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Mas foi também num outro sentido que escolhi para mim, como distintivo, como insígnia, a palavra imoralista; orgulho-me de usar este termo, que me põe em contraste com toda a humanidade. Ainda ninguém sentira a moral cristã como estando abaixo de si: para tanto era preciso ter uma elevação, uma visão à distância, uma profundidade e uma insondabilidade psicológicas inteiramente inauditas até hoje. A moral cristã foi, até ao presente, a Circe de todos os pensadores — estes estavam ao seu serviço.
[...]
Compreenderam-me? O que me demarca, o que me coloca à parte de todo o resto da humanidade, é ter descoberto a moral cristã. Por isso, eu carecia de uma palavra que contivesse o sentido de um desafio a toda a gente. Não ter, nesse ponto, aberto os olhos mais cedo representa para mim a maior imundície que a humanidade tem na consciência, equivale a engano de si próprio transformado em instinto, a vontade fundamental de não ver todo o acontecer, toda a causalidade, toda a realidade, o fabrico de moeda falsa in psychologicis levado até ao crime. A cegueira perante o cristianismo é o crime por excelência — o crime contra a vida... Os milénios, os povos, os primeiros e os últimos, os filósofos e as velhas — se exceptuarmos cinco ou seis momentos na história, e a mim como o sétimo — todos eles, nesse ponto, são dignos uns dos outros. Até hoje, o cristão foi o «ser moral», uma curiosidade sem igual — e, enquanto «ser moral», mais absurdo, mais mentiroso, mais vão, mais frívolo, mais prejudicial a si próprio do que mesmo o maior desdenhador da humanidade se poderia permitir sonhar. A moral cristã — a forma mais maligna da vontade de mentira, a autêntica Circe da humanidade —, eis o que a corrompeu. Não é o erro enquanto erro que, perante este espectáculo, me horroriza, não é a milenária falta de «boa vontade», de disciplina, de decência, de valentia no plano espiritual, que se manifesta no seu triunfo — é a falta de natureza, é o facto perfeitamente horripilante de a própria contranatureza, como moral, ter recebido as máximas honras e, como lei, como imperativo categórico, ter ficado suspensa por cima da humanidade!... Enganar-se a tal ponto, não enquanto indivíduo, não enquanto povo, mas sim enquanto humanidade!... Ensinou-se a desprezar os instintos primordiais da vida; inventou-se uma «alma», um «espírito», para frustrar o corpo; ensinou-se a ter a impressão de algo impuro na condição prévia da vida, na sexualidade; procurou-se o princípio do mal no que é mais profundamente necessário para se medrar, no estrito egoísmo (a palavra*, já em si, é caluniosa!); ao invés, é no típico indício do declínio e da contradição dos instintos, no «desinteresse», na perda de centro de gravidade, na «despersonalização» e no «amor ao próximo» (mania do próximo!), que se vê o valor mais alto — que digo eu?, o valor em si!... Como? Estaria a própria humanidade em decadência? Sempre o esteve?
O que é certo é que, como valores supremos, só lhe foram ensinados valores de decadência. A moral da renúncia a si próprio é a moral do declínio por excelência, é o facto «vou perecer» traduzido para o imperativo: «todos vós deveis perecer» — e não só para o imperativo!... Esta moral, a única que foi ensinada até agora, a moral da renúncia a si próprio, é reveladora de uma vontade de fim, porque nega a vida no seu fundamento mais básico. Aqui, permanece em aberto a possibilidade de não ser a humanidade que esteja em degenerescência, mas apenas aquele tipo humano parasitário, o do sacerdote, que, com a moral, se ergueu por aleivosia até à condição de árbitro dos seus valores — que adivinhou na moral cristã o meio de conseguir o poder... E, de facto, é esse o meu ponto de vista: os mestres, os guias da humanidade, todos eles teólogos, eram também todos eles decadentes: daí, a inversão de todos os valores em termos hostis à vida; daí, a moral... Definição da moral: a moral é a idiossincrasia de decadentes com a intenção oculta de se vingarem da vida — e com êxito. Considero importante esta definição.
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
* A palavra alemã correspondente (Selbstsuchi) pode entender-se, à letra, como «mania de si próprio». (N. do T.)
Na primeira exposição dos trabalhos de uma jovem mulher de Estugarda, um crítico que a queria incentivar disse-lhe, sem qualquer má intenção: «O que faz é talentoso e apelativo, mas ainda revela pouca profundidade».
A jovem mulher não entendeu o que o crítico queria dizer e depressa esqueceu a observação. Contudo, dois dias depois encontrava no jornal um comentário do mesmo crítico: «A jovem artista possui muito talento e, à primeira vista, os seus trabalhos agradam bastante; infelizmente falta-lhes profundidade».
Então a jovem mulher começou a pensar. Olhou para os seus desenhos e remexeu em pastas velhas. Olhou para todos os seus de senhos e também para aqueles em que trabalhava actualmente. Depois, pôs a tampa nosfrasquinhos de tinta-da-china, limpou as canetas e foi passear.
Tinha sido convidada para sair nessa noite. As pessoas pareciam ter aprendido a crítica de cor e falavam constantemente do enorme talen to e do grande prazer que os seus quadros suscitavam logo à primeira vista. Mas quando atentava bem nas palavras daqueles que estavam de costas viradas para ela, de entre o ruído de fundo destacava-se nitidamente: «Mas não tem profundidade. Promete bastante, mas infelizmente não tem profundidade».
Na semana que se seguiu a jovem mulher não desenhou nada. Permanecia em casa, sentada e muda, não parando de cismar. Uma única coisa ocupava-lhe a mente, sufocando e engolindo todos os outros pensamentos como um polvo: «Por que razão não tenho profundidade?».
Na segunda semana tentou voltar a desenhar, mas apenas conseguiu esboços desajeitados. As vezes nem um único traço lhe saía bem. Por fim tremia tanto que já nem conseguia mergulhar a caneta no frasquinho de tinta-da-china. Então começou a chorar e exclamou: «Sim, é verdade, não tenho profundidade!».
Na terceira semana começou a debruçar-se sobre livros de arte, a estudar as obras de outros pintores* e a caminhar por galerias e museus. Leu livros sobre Teoria da Arte. Entrou numa livraria e pediu o livro mais profundo que havia. Deram-lhe um livro de um tal Wittgenstein que de nada lhe serviu.
Numa exposição no museu da cidade, intitulada «500 Anos de Desenho Europeu», juntou-se a urna turma de uma escola secundária que era guiada pelo professor de Educação Visual. junto de um desenho de Leonardo da Vinci, deu subitamente um passo em frente e perguntou: «Desculpe, poderia dizer-me se este desenho possui profundidade?». O professor de Educação Visual sorriu-lhe com um ar irónico e disse: «Se quer fazer troça de mim, ainda tem muito que aprender, minha cara senhora! », e a turma riu-se efusivamente. A jovem mulher, porém, foi para casa e chorou amarguradamente.
Estava cada vez mais estranha e quase não saía do atelier, e no entanto não conseguia trabalhar. Tomava comprimidos para ficar acor dada e não sabia por que razão deveria ficar acordada. E quando ficava com sono, dormia ali mesmo na cadeira, pois tinha medo de ir para a cama por temer a profundidade do sono. Também começou a beber e deixava a luz acesa durante toda a noite. já não desenhava. Quando um negociante de objectos de arte de Berlim lhe ligou a pedir alguns desenhos, gritou ao telefone: «Deixe-me em paz! Eu não tenho profundidade! ». Por vezes moldava plasticina, mas nada em concreto. Apenas enterrava as pontas dos dedos na massa ou fazia pequenas bolinhas. Apresentava um aspecto cada vez mais desleixado. já não se importava com a roupa que vestia e descurava completamente a lida da casa.
Os seus amigos estavam preocupados. Diziam: «Temos de tratar dela, está em crise. Uma crise de natureza humana ou de natureza artística - ou talvez uma crise financeira. No primeiro caso não se pode fazer nada; no segundo caso, deve enfrentar e ultrapassar a crise; e no terceiro caso poderíamos organizar um peditório, mas isso provavelmente embaraçá-la-ia». Assim, limitavam-se a convidá-la para almoçar ou jantar ou para festas. Ela recusava sempre, com a justificação de que tinha de trabalhar. Contudo nunca trabalhava, permanecia sentada no seu quarto, olhando para o vazio e moldando plasticina.
Uma vez estava tão desesperada consigo própria que acabou por aceitar um convite. Um homem jovem gostara dela e queria dormir com ela. Ela concordara, pois ele também lhe agradava; todavia tinha de estar preparado para o facto de ela não possuir profundidade. Então o homem jovem afastou-se dela.
A jovem mulher, que outrora desenhara tão bem, decaía agora visivelmente. já não saía nem recebia ninguém, começava a ficar gorda por falta de exercício físico e envelhecia muito rapidamente devido ao álcool e aos comprimidos. A casa começava a criar mofo e ela própria cheirava a bafio.
Tinha herdado 30 000 marcos e durante três anos viveu desse dinheiro, chegando até a fazer uma viagem a Nápoles, ninguém sabe em que condições. Quem lhe dirigia a palavra obtinha como resposta apenas uma embrulhada incompreensível.
Quando o dinheiro se acabou, cortou e esburacou todos os seus desenhos, foi até à torre da televisão e atirou-se de uma altura de 139 metros. Como, porém, nesse dia soprava um vento forte, não se despedaçou na praça altatroada por baixo da torre, mas foi levada sobre um campo de aveia até à orla do bosque, onde se despenhou no meio dos pinheiros. Apesar disso, morreu imediatamente.
O caso veio mesmo a calhar à imprensa sensacionalista. O suicídio em si, a singular trajectória de voo, o facto de se tratar de uma artista, promissora e bonita, tinham um alto valor informativo. A sua casa apresentava um estado tão catastrófico que até era possível tirar fotografias pitorescas: milhares de garrafas vazias, sinais de destruição por todo o lado, quadros esfarrapados, pedacinhos de plasticina nas paredes, e até excrementos nos cantos dos quartos! Daria para um segundo cabeçalho e ainda um artigo na página três.
No suplemento cultural, o crítico inicialmente mencionado escrevera uma nota expressando a sua perplexidade perante o fim atroz da jovem mulher. «Para nós, os sobreviventes, é sempre uma experiência perturbante assistir à incapacidade de pessoas jovens com talento que não sabem encontrar a força para se afirmarem no meio artístico. O apoio estatal e a iniciativa privada por si sós não bastam, uma vez que se trata prioritariamente de garantir dedicação no plano humano e um acompanhamento competente no plano artístico.
Todavia, e em última análise, parece que o gérmen do tal fim trágico reside no plano individual. Não se prenunciava já nos seus primei ros trabalhos, aparentemente ainda ingénuos, o tal dilaceramento assustador já visível na obstinada técnica mista que veicula convenientemente a mensagem, a tal revolta retorcida e invertida sobre si mesma, enroscando-se de forma espiralada e ao mesmo tempo fortemente carregada de emoções, da criatura contra o próprio Eu, e que é evidentemente vã? Esse fatal ou, quase diria, impiedosa imperativo de profundidade?».
* No original, leia-se Zeichner, desenhador. (N. da T.)
in Um Combate e outras Histórias, Patrick Süskind
... no desalinho triste das minhas emoções confusas...
Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Dar a teta a uma criança
ou dar a teta a um bispo
é como entrar numa dança
em que o corpo não descansa
porque o velho não amansa
e eu mais que a teta não dispo.
E se o bispo é cardeal
e o cardeal é regente?
Dar o peito não faz mal
dar o corpo é natural
pois quem manda em Portugal
mama na teta da gente.
Porém deitada na cama
não sou dele nem de ninguém.
Mesmo se o velho me chama
não me importo de ser ama
se quem a carne me mama
me rói os ossos também.
in Letrinhas de Cantigas, António Lobo Antunes
Unless suffering is the direct and immediate object of life, our existence must entirely fail of its aim. It is absurd to look upon the enormous amount of pain that abounds everywhere in the world, and originates in needs and necessities inseparable from life itself, as serving no purpose at all and the result of mere chance. Each separate misfortune, as it comes, seems, no doubt, to be something exceptional; but misfortune in general is the rule.
I know of no greater absurdity than that propounded by most systems of philosophy in declaring evil to be negative in its character. Evil is just what is positive; it makes its own existence felt. Leibnitz is particularly concerned to defend this absurdity; and he seeks to strengthen his position by using a palpable and paltry sophism. It is the good which is negative; in other words, happiness and satisfaction always imply some desire fulfilled, some state of pain brought to an end.
This explains the fact that we generally find pleasure to be not nearly so pleasant as we expected, and pain very much more painful.
The pleasure in this world, it has been said, outweighs the pain; or, at any rate, there is an even balance between the two. If the reader wishes to see whether this statement is true, let him compare the respective feelings of two animals, one of which is engaged in eating the other.
The best consolation in misfortune or affliction of any kind will be the thought of other people who are in a still worse plight than yourself; and this is a form of consolation open to everyone. But what an awful fate this means for mankind as a whole!
We are like lambs in a field, disporting themselves under the eye of the butcher, who chooses out first one and then another for his prey. So it is that in our good days we are all unconscious of the evil Fate may have presently in store for us - sickness, poverty, mutilation, loss of sight or reason.
No little part of the torment of existence lies in this, that Time is continually pressing upon us, never letting us take breath, but always coming after us like a taskmaster with a whip. If at any moment Time stays his hand, it is only when we are delivered over to the misery of boredom.
But misfortune has its uses; for, as our bodily frame would burst asunder if the pressure of the atmosphere were removed, so, if the lives of great men were relieved of all need, hardship and adversity; if everything they took in hand were successful, they would be so swollen with arrogance that, though they might not burst they would present the spectacle of unbridled folly - nay, they would go mad. And I may say, further, that a certain amount of care or pain or trouble is necessary for every man at all times. A ship without ballast is unstable and will not go straight.
On the Sufferings of the World, Arthur Schopenhauer
rapaz das obras - ... percebes alguma coisa do que estão a dizer?
jovem actor - ...umas coisas sim, outras não...
rapaz das obras - ...e porque é que estão tão tristes?
jovem actor - ...porque perderam...
rapaz das obras - ...perderam o quê?
jovem actor - Não sei. Se queres que te diga não sei.
rapaz das obras - ...mas estão tristes mesmo.
Silêncio
jovem actor -E que não sei mesmo.
rapaz das obras - Dinheiro?
jovem actor - Dinheiro parece que têm. Ou não se importam.
rapaz das obras - ... perderam o quê? O emprego?
ex-capela do rato (mulher) - ... eu acho que eles queriam o poder...
rapaz das obras - ... para mandar?
ex-capela do rato (mulher) - ... para...
jovem actor - ... quem tem o poder manda...
rapaz das obras - ... é por isso que estão tristes?
ex-capela do rato (mulher) - É.
Silêncio
rapaz das obras - Mas a águia, a águia, o que é isso? Estão sempre a dizer a águia...
jovem actor - ... e rosa rosa rosa...
rapaz das obras - ... parecem parvos.
ex-capela do rato (mulher) - Somos parvos, estamos tristes.
Silêncio
rapaz das obras - ... não percebo nada... tão pouca luz.
jovem actor - ... os mortos falam aqui, os que foram mortos... é um enterro...
rapaz das obras - E tu porque é que estás triste?
jovem actor - Eu estou contente. Tenho trabalho.
rapaz das obras - ... mas é fazer de triste o teu trabalho e nem sabes bem porque é que estás triste...
jovem actor - Imagino.
Silêncio
rapaz das obras - E pagam-te para estares triste?
jovem actor - Pouco. Mas pagam. Sou um actor.
rapaz das obras - E se te pagassem para estares alegre também estavas?
jovem actor - Estava.
rapaz das obras - Não tens querer?
jovem actor - Tenho.
rapaz das obras - Mas não é teu.
jovem actor - ... sou a voz dos outros, a tristeza dos outros a alegria dos outros com a minha ninguém tem nada a ver estou escondido atrás do dinheiro que me pagam para estar triste ou alegre conforme a peça e os encontros que eu fizer mas eu ninguém me vê...
rapaz das obras - ... eu vejo-te.
jovem actor - ...é verdade, vês-me, vêem-me... e é sempre minha a tristeza dos outros que eu digo ou que eu invento é sempre minha a alegria ou quando rio quando rio sou eu que rio...
rapaz das obras - É tramado.
Silêncio
rapaz das obras - Mas porque é que estão tão tristes... a mim disseram-me que era uma festa, falaram-me da liberdade, falaram-me do fogo, de roubar o fogo aos deuses... não estou a perceber... é só uma história entre eles?
o actor que faz de prometeu - ...quero ouvir as vozes dos que não conheço, quero ouvir e as palavras que digo são as palavras que ouço, eu... eu não quero falar, eu não existo, só existem as palavras que digo e não escrevi nem me saíram da boca....
rapaz das obras - Mas tinham razão estes gajos?
o actor que faz de prometeu - ... tinham e não tinham, são como toda a gente, sem razão e com razão, e isso é que dói.
rapaz das obras - ... e isso do Prometeu, o que é essa história?
ex-capela do rato (mulher) - ... durante muito tempo, muito tempo, séculos, as pessoas foram colando a esta imagem a imagem da sua própria dor... quem faz o bem é castigado e sofre... para sempre sofre... para sempre a águia...
rapaz das obras - ... mas ele fez o bem?
o actor que faz de prometeu - ... eu aos homens dei o fogo...
jovem actor - ...ninguém te mandou.
o actor que faz de prometeu - ... a consciência.
jovem actor - ... ele é que quis, não se deve queixar...
o actor que faz de prometeu - ... os homens são mais felizes, podem cozer os animais, podem aquecer-se nas noites de vento frio... mas deixam Prometeu no cáucaso deserto a águia a águia eterna... um rochedo.... deixam prender Otelo... deixam morrer Salgueiro Maia... os homens esquecem... passam à frente... passam os dias no hipermercado e à noite vêem televisão para não pensar em si próprios...
Silêncio
rapaz das obras - ... eu não estive nessa história, não era nascido...
jovem actor - ...eu não tenho culpa de não ter nascido antes...
rapaz das obras - ...parece que nós não temos direito a que falem de nós...
jovem actor - ... a falarmos nós... a falar
rapaz das obras - ...o problema é que eu... não sei...
jovem actor - ... falar?
rapaz das obras - ... falar... atropelo as palavras...
jovem actor - ... começo uma frase, não a consigo acabar
rapaz das obras - ...vendo bem, não tenho nada a dizer...
ex-capela do rato (mulher) - ... não tens nada a dizer?
rapaz das obras - Tenho, mas não sei...
ex-capela do rato (mulher) - ... e julgas que eu sei?
rapaz das obras - ... tens as palavras, dizes Prometeu, dizes a águia, eu só sei acordar às cinco e meia e pegar no trabalho às 7, e beber cerveja após cerveja, que não se aguenta o frio em cima do tejo sem a gente beber cerveja após cerveja... trabalho na ponte, pego às 7, e bebo...
jovem actor - ... as palavras são vossas...
rapaz das obras - ... o gajo não roubou o fogo aos deuses?... como é que eu vos roubo as palavras a gramática a retórica para contar o que ali se passa na nova ponte que não é a tristeza de enterro com que vocês tão lindamente tecem as vossas recordações e os vossos lamentos...
jovem actor - ... enquanto vocês estiverem em cena a gente não existe... a gente não existe...
rapaz das obras - ... e eu não estou triste. Para vocês tudo isto é história, palavras. Para mim é o trabalho e vejam as minhas mãos: são grandes.
jovem actor - ... estão sempre a amaldiçoar-me, estão sempre a desprezar-me porque eu não era nascido. E não... não era nascido no 5 de Outubro nem no 25 de Abril nem vivi a Guerra de Espanha nem a Revolução de Outubro e as Amoreiras já estavam construídas quando comecei a ir ao cinema à noite e a comprar roupa de marca...
rapaz das obras - ... eu trabalho na nova ponte...
jovem actor - ...eu ainda não sei, ando a ver os anúncios...
rapaz das obras - ...mas já não temos história?
jovem actor - ... a gente?
rapaz das obras - A gente parece que não pode entrar em cena a não ser pelos olhos destes gajos...
jovem actor - ... são vocês a minha águia, é este o meu rochedo, a ignorância... eu não sou quem sou porque só vocês têm direito à História, só a vossa história pode ser contada mesmo quando ninguém a conta ou ninguém a quer ouvir... não me deixaram História para mim, chamaram-me rasca porque...
rapaz das obras - ... sois vós os donos das palavras... eu fiquei sem nada...só o trabalho. E nas vossas palavras sou uma estatística uma caricatura...
Silêncio
jovem actriz rouca - ... às vezes estou tão tão sozinha... como se não houvesse palavras... como se não existisse... vou ao ginásio, às vezes vou à piscina... mas é como se a história não fosse minha... não sei quem é a Rosa Luxemburgo que agora mesmo eu própria evoquei... não sei quem és tu, nem sei quem é Lénine... sei os nomes, não sei mais... de vez em quando vêm nas revistas e aparecem na televisão e quando chego a casa às vezes levo um livro mas não sou capaz não sou capaz de ler... faço minhas as palavras dos outros, não são as minhas palavras as palavras que agora da boca me saem, falo mas sou muda... a dor que ao cair da tarde às vezes sinto, o meu amor... a dor não sei como dizer... e quando faço de Rosa Rosa Luxemburgo assassinada no landwehrkanal que não sei onde é nem sei bem o que foi esse assassínio nem vejo a diferença entre 1919 e 1933... penso em tristezas minhas, na morte que vai por perto, na vida que prometi, nas noites em que esperámos... penso mas não sei se é disso que estou a falar... sou uma actriz... e uma actriz não tem nada a dizer, é dita pelas palavras... sou dita pelas palavras dos outros, a minha voz é a voz dos outros e eu à noite estou sozinha com o silêncio de uma música... é só estar aqui sentada e a espera das palavras que os outros escrevem... mas a voz é minha, é minha a rouquidão, é minha esta tremura e esta é a tremura que eu vos trago. O teatro havia de ser olharmo-nos nos olhos para não estarmos sozinhos...
rapaz das obras - ... o teatro havia se ser para a gente rir depois de se vir cansado do trabalho...
jovem actriz rouca - ... fazer rir os outros... assim? Fazer uma careta... fazer rir?
rapaz das obras - ... ninguém nos deixa rir , só querem que a gente trabalhe e à noite os risos já estão gravados na tv...
jovem actriz rouca - Se eu fizer uma careta, ris?
rapaz das obras - ... porque é que estás tão triste, rapariga?
jovem actor - Ela não está triste, ela não existe...
ex-capela do rato (mulher) - Ninguém escreve as palavras da sua dor... ninguém escreve as canções do teu trabalho, rapaz... a gente oprime-te com as nossas recordações, as nossas recordações vêm nas páginas dos jornais e temos amigos que estão no governo, tu estás na nova ponte e não sabes o que foi isto...nem vais saber... a minha tristeza impede-te, proibe-te...
rapaz das obras - ... mas um gajo morreu ao meu lado e era preto e não chamaram a ambulância... e não deixaram que esta história passasse para os jornais ... era o que mais faltava... que isto passasse para os jornais... não é esta a história que tu querias contar?
jovem actriz rouca - ... eu conto a história de Rosa Rosa Luxemburgo... não consigo contar todas as histórias ao mesmo tempo...
rapaz das obras - mas um gajo morreu mesmo ao meu lado e era preto caiu do andaime e foi a semana passada ali entre Chelas e Sacavém... e vocês estão tristes tristes mas nem querem saber que um gajo morreu ali ao meu lado.
ex-capela do rato (mulher) - ...eu quero.
companheiro - Havia de ser no teatro que a gente sabia de tudo, das histórias antigas e das histórias de hoje, o teatro havia de ter portas abertas e a gente estava a contar a história de Prometeu e tu entravas aí pela porta e vinhas contar a tua história de hoje e pedias dinheiro para se pagar o enterro desse teu camarada e pagar o envio do corpo para Angola de onde ele veio morrer a construir uma ponte a nova ponte e o Prometeu servia também para tratarmos da nossa vida e da tua, que nem essa história queres ouvir ou vais ouvir. O teatro devia ser o lugar em que todos podiam falar directamente. Não é uma assembleia representativa. Não votamos num actor para ele dizer melhor o que a gente sente. Mas podíamos vir nós todos ouvir o que nos contam e nas palavras que ouvimos nas palavras que ouvimos falamos a nossa dor...
rapaz das obras - ...e a alegria
companheiro - ... a alegria é a gente falar falar a noite inteira num quarto desarrumado com papéis pelo chão e cadeiras velhas a alegria é não estarmos fechados em casa e misturarmo-nos aqui contigo e as palavras que eu digo serão tuas em tu querendo e era assim o teatro um abraço...
jovem actriz rouca - ... uma lágrima.
companheiro - ... era isso.
in Prometeu - rascunhos, Jorge Silva Melo
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
Álvaro de Campos
Para combater este estado de coisas o que era necessário, dirás? Que o padre fosse uma grande figura, que, nesta sociedade borrada de oiro e de gozo, protestasse em nome do espírito contra a matéria. E em lugar disto o que vemos? O padre eleiçoeiro, o padre janota, mamando charutos à porta das tabacarias, o padre intriguista, fazendo cerco às viúvas ricas. Temo-lo de todas as castas, — ignóbil, rindo da religião, pândego de chapéu ao lado. Há-os amigados, criando mulheres e filhos, jogadores correndo as feiras, bêbados e devassos, padres que são a ignomínia, babujem dum mar de beleza e sacrifícios. Serão a excepção? Talvez — mas em que número!... E pior do que estes, há o padre banal e charro, o padre que confessa, absolve e baptiza, como um director de secretaria despacha. O padre é ateu. O padre não compreende a Igreja nem a ama. Para ele o sacerdócio é um ofício. Engorda.
in O Padre, Raul Brandão, 1901
Come to me
For I am a wicked child
I am so confused
I am a wicked child
I am a wicked child
I am the devil's son
And I wish I could be good
Keep you satisfied
Yeah, I wish I could be good
I wish I could be good
Come to me
For I am a wicked child
I am so confused
I am a wicked child
I am a wicked child
I am a wicked child
I want to be dead
I want to be dead
Radiohead
Há qualquer coisa a que eu chamo o rancor da grandeza: tudo o que é grande, uma obra, um feito, volta-se imediatamente, uma vez realizado, contra quem o fez. Este, precisamente porque o fez, encontra-se fraco — já não suporta o seu acto, já não o olha de frente. Ter atrás de si algo que nunca se deveria ter querido, algo em que está atado o nó que há no destino da humanidade — e tê-lo, doravante, sobre si!... É quase esmagador... O rancor do que é grande! Outra coisa é o silêncio horripilante que se ouve à nossa volta. A solidão tem sete peles; nada mais as atravessa. Encontramos pessoas, saudamos os amigos: novo ermo, já nenhum olhar nos saúda. No melhor dos casos, uma espécie de revolta. Uma tal revolta senti-a eu, em graus muito diversos, mas por parte de quase toda a gente que me era próxima; parece que nada ofende mais do que fazer, subitamente, notar uma diferença — as naturezas nobres, que não sabem viver sem venerar, são raras.
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
Serei tudo o que disserem
Por inveja ou negação:
Cabeçudo dromedário
Fogueira de exibição
Teorema corolário
Poema de mão em mão
Lãzudo publicitário
Malabarista cabrão.
Serei tudo o que quiserem:
Poeta castrado, não!
Os que entendem como eu
As linhas com que me escrevo
Reconhecem o que é meu
Em tudo quanto lhes devo:
Ternura como já disse
Sempre que faço um poema;
Saudade que se partisse
Me alagaria de pena;
E também uma alegria
Uma coragem serena
Em renegar a poesia
Quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
A força que tem um verso
Reconhecem o que é seu
Quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
-É tão vulgar que nos cansa-
Mas que dizer de uma bala
Num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
-a morte é branda e letal-
Mas que dizer da memória
De uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
O poema dia a dia?
-Um bisturi a crescer
Nas coxas de uma judia;
Um filho que vai nascer
Parido por asfixia?!
-Ah não me venham dizer
Que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
Por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
Falso médico ladrão
Prostituta proxeneta
Espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado, não!
Ary dos Santos
It will generally be found that, as soon as the terrors of life reach the point at which they outweigh the terrors of death, a man will put an end to his own life. But the terrors of death offer considerable resistance; they stand like a sentinel at the gate leading out of this world. Perhaps there is no man alive who would not have already put an end to his own life, if this end had been of a purely negative character, a sudden stoppage of existence. There is something positive about it; it is the destruction of the body; and a man shrinks from that, because his body is the manifestation of the will to live.
On Suicide, Arthur Schopenhauer
But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose something else. And the reasons? There are no reasons. Who needs reasons when you've got heroin? in Trainspoting |
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda.
in O Amor Natural, Carlos Drummond de Andrade
Ilustração de Milton DaCosta
- O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. B não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.
Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau.
Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas... Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima... Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal... Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...
in o Livro do Desassossego, Bernardo Soares
in Os Passos em Volta - Polícia, Herberto Helder |
A mais comovente velhinha da minha vida, comi-a numa esplanada, à beira de um lago. Carregada d'alho, de hortelã e de café, o vento que soprava da terra não conseguia estragar o sabor daquela velha. Muitos anos se passaram desde essa refeição acompanhada pelas rezas de um jovem abade colérico, mas nunca a esqueci.
in A Cozinha Canibal, Roland Torpor
Espero que o senhor não se oponha à malícia, meu caro engenheiro. A meu ver, é a mais esplêndida arma da Razão contra as potências das Trevas e da fealdade. A malícia, senhor, é o espírito crítico, e a crítica representa a origem do progresso e das lutas da civilização.
in A Montanha Mágica, Thomas Mann
Olho para esta folha branca colocada sobre a mesa; apercebo-me da sua forma, da sua cor, da sua posição. Estas diferentes qualidades têm características comuns: antes de mais, elas entregam-se ao meu olhar como existências que eu posso tão-somente constatar e cujo ser em nada depende do meu capricho. São para mim, não são eu. Mas outrem também não são, isto é, não dependem de qualquer espontaneidade, da minha nem da de qualquer outra consciência. Estão presentes e são ao mesmo tempo inertes. Esta inércia do conteúdo sensível, tantas vezes descrita, é a existência em si. De nada serve discutir se esta folha se reduz a um conjunto de representações, ou se é ou deve ser mais do que isso. Certo é que o branco por mim constatado não pode produzi-lo a minha espontaneidade. Esta forma inerte, que fica aquém de todas as espontaneidades conscientes, que tem de ser por nós observada, aprendida aos poucos, é o que se chama uma coisa. Em caso algum a minha consciência poderia ser uma coisa, pois o seu modo de ser em si é precisamente um ser para si. Existir, para ela, é ter consciência da sua existência. Surge como espontaneidade pura face ao mundo das coisas que é pura inércia. Podemos, pois, desde a origem, supor dois tipos de existência: é, de facto, enquanto inertes, que as coisas escapam ao domínio da consciência; é a sua inércia que as salvaguarda e lhes conserva a autonomia...
in A Imaginação, Jean-Paul Sartre