Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
Álvaro de Campos
É o começo de uma transformação profunda, o ruir dum mundo mais vasto que o antigo, o início de um daqueles cataclismos donde irrompe sempre uma humanidade nova e outras ideias. Nem as mais miúdas raízes ficarão no solo. O arado romperá até ao fundo. Estas convulsões alimentam-se de gritos. Para a eclosão se fazer em toda a sua beleza precisa dum furacão de sangue — mas a tempestade é sempre salutar.
A derrocada há-se ser monstruosa. Esta sociedade cairá entre gargalhadas e uivos, quando o homem obscuro vier reclamar, de chuço nas mãos, a sua parte no gozo. Que baionetas o impedirão de fartar a matéria, quando ele souber que só a matéria existe? Quem conterá a sua cólera, justa e horrorosa, quando conhecer que, durante séculos, viveu enganado e espoliado, apelando para uma sombra vã, chamando em altos gritos o Vácuo, ensopando de lágrimas o Nada? Hora trágica aquela em que, não eu, nem tu, mas a sua própria alma lhe disser: — Os teus gritos, as tuas súplicas eram pior do que inúteis, eram ridículas, quando, transido de fome e de injustiças, clamavas na sombra por um Deus que não existia!
in O Padre, Raul Brandão, 1901
Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e — no centro — o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado.
— Por quem me tomam? — pode ele perguntar. — O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência.
in Os Passos em Volta - Holanda, Herberto Helder
A man lies in his bed in a room with no door
He waits, hoping for a presence; something, anything to enter
After spending half his life searching, he still felt as blank
As the ceiling at which he stared
He is alive, but feels absolutely nothing
So, is he?
When he was six he believed that the moon overhead followed him
By nine, he had deciphered the illusion, trading magic for fact
No tradebacks...
So this is what it's like to be an adult
If he only knew now what he knew then...
I'm open...
Come on in...
I'm open...
Come on in...
I'm open...
Lying sideways atop crumpled sheets and no covers he decides to dream...
Dream up a new self for himself...
Outra coisa é a guerra. Sou, por natureza, belicoso. Atacar faz parte dos meus instintos. Poder ser inimigo, ser inimigo, isso pressupõe, talvez, uma natureza forte; em todo o caso, está implícito em toda a natureza forte. Esta precisa de deparar com resistências; por conseguinte, procura a resistência: o pathos agressivo faz tanto parte da força como os sentimentos rancorosos e ressentidos fazem parte da fraqueza. [...]
A força do atacante encontra uma espécie de medida na adversidade de que necessita; qualquer acréscimo se traduz pela procura de um adversário mais poderoso — ou de um problema mais difícil, pois um filósofo, que seja aguerrido, também desafia problemas para duelo. A missão não consiste em vencer resistências em geral, mas em impor-se àquelas contra as quais se tem que empenhar toda a energia, toda a destreza e mestria nas armas — em impor-se a adversários iguais... A igualdade perante o inimigo é a primeira condição para um duelo leal. Onde se despreza, não se pode fazer guerra; onde se ordena, onde se vê algo abaixo de si próprio, não se tem de fazer guerra.
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que eu sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu"?
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Oleg Kulik
Galeria Filomena Soares
03 Julho 2003 / 18 Setembro 2003
Para a frente! para a frente! Parar é morrer; parar é a gente sentir-se calcado pelos que vêm atrás, ofegantes, de unhas afiadas, prontos a despedaçar, contanto que cheguem mais depressa aos seus fins. É uma correria de seres borrados de ambição, agatanhando-se, metendo os ombros, com as mãos suadas, cerrados os dentes, prestes a tudo, até a matar, desde que consigam deitar os gadanhos ao que desejam.
in O Padre, Raul Brandão
The sun descending in the west,
The evening star does shine;
The birds are silent in their nest,
And I must seek for mine.
The moon, like a flower
In heaven's high bower,
With silent delight,
Sits and smiles on the night.
Farewell, green fields and happy grove,
Where flocks have ta'en delight.
Where lambs have nibbled, silent move
The feet of angels bright;
Unseen they pour blessing,
And joy without ceasing,
On each bud and blossom,
And each sleeping bosom.
They look in every thoughtless nest
Where birds are covered warm;
They visit caves of every beast,
To keep them all from harm:
If they see any weeping
That should have been sleeping,
They pour sleep on their head,
And sit down by their bed.
When wolves and tigers howl for prey,
They pitying stand and weep;
Seeking to drive their thirst away,
And keep them from the sheep.
But, if they rush dreadful,
The angels, most heedful,
Receive each mild spirit,
New worlds to inherit.
And there the lion's ruddy eyes
Shall flow with tears of gold:
And pitying the tender cries,
And walking round the fold:
Saying: "Wrath by His meekness,
And, by His health, sickness,
Are driven away
From our immortal day.
"And now beside thee, bleating lamb,
I can lie down and sleep,
Or think on Him who bore thy name,
Graze after thee, and weep.
For, washed in life's river,
My bright mane for ever
Shall shine like the gold,
As I guard o'er the fold."
in Songs of Innocence, William Blake
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor — sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
in Os Passos em Volta, Herberto Helder
In my chief work I have explained the only valid reason existing against suicide on the score of morality. It is this: that suicide thwarts the attainment of the highest moral aim by the fact that, for a real release from this world of misery, it substitutes one that is merely apparent. But from a mistake to a crime is a far cry; and it is as a crime that the clergy of Christendom wish us to regard suicide.
The inmost kernel of Christianity is the truth that suffering - the Cross - is the real end and object of life. Hence Christianity condemns suicide as thwarting this end; whilst the ancient world, taking a lower point of view, held it in approval, nay, in honor. But if that is to be accounted a valid reason against suicide it invokes the recognition of asceticism; that is to say, it is valid only from a much higher ethical standpoint than has ever been adopted by moral philosophers in Europe. If we abandon that high standpoint, there is no tenable reason left, on the score of morality, for condemning suicide. The extraordinary energy and zeal with which the clergy of monotheistic religions attack suicide is not supported either by any passages in the Bible or by any considerations of weight; so that it looks as though they must have some secret reason for their contention. May it not be this - that the voluntary surrender of life is a bad compliment for him who said that all things were very good? If this is so, it offers another instance of the crass optimism of these religions - denouncing suicide to escape being denounced by it.
On Suicide, Arthur Schopenhauer
Tal como todo aquele que nunca viveu entre seus iguais e para quem a ideia de «retaliação» é tão inacessível como, por exemplo, a noção de «igualdade de direitos», proíbo a mim próprio, nos casos em que me fazem alguma tolice, quer pequena quer muito grande, qualquer represália, qualquer medida de protecção — e também, logicamente, qualquer defesa, qualquer «justificação». A minha maneira de retaliar consiste em mandar tão depressa quanto possível um gesto inteligente no encalço do gesto estúpido: assim, talvez ainda seja possível apanhá-lo. Falando por metáforas, mando um frasco de compota, para me livrar de uma coisa azeda... Assim que me fazem alguma maldade, eu «retribuo», disso podem estar certos: em breve, encontro uma oportunidade para exprimir a minha gratidão ao «malfeitor» (e, às vezes, até para agradecer a malfeitoria) ou para lhe pedir alguma coisa — o que pode obrigar mais do que dar alguma coisa... Além disso, parece-me que mesmo a palavra mais grosseira, mesmo a carta mais impertinente ainda são mais benévolas, mais honestas, que o silêncio. Nos que se calam, há quase sempre falta de delicadeza e de cortesia sinceras; o silêncio é uma reserva, engolir tudo causa necessariamente mau carácter, e até estraga a digestão. Todos os que se calam são dispépticos.
Já se vê que eu não gostaria que se menosprezasse a impertinência, que é de longe a forma mais humana de contradição e, no meio da edulcoração moderna, uma das nossas primeiras virtudes. Desde que se seja suficientemente rico para tanto, até é uma felicidade não ter razão. Um Deus, que viesse à Terra, não poderia senão fazer mal: tomar sobre si não o castigo, mas sim a culpa, eis o que seria propriamente divino.
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Álvaro de Campos
Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...
in O Amor Natural, Carlos Drummond de Andrade
Ilustração de Milton DaCosta
Just as, according to the legend Parmeniscus in the Trophonian cave lost his ability to laugh, but recovered it again on the island of Delos at the sight of a shapeless block which was exhibited as the image of the goddess Leto: likewise did it happen to me. When I was very young I forgot in the Trophonian cave how to laugh; but when I grew older and opened my eyes and contemplated the real world, I had to laugh, and have not ceased laughing, ever since. I beheld that the meaning of life was to make a living; its goal, to become Chief Justice; that the delights of love consisted in marrying a woman with ample means; that it was the blessedness of friendship to help one another in financial difficulties; that wisdom was what most people supposed it to be; that it showed enthusiasm to make a speech, and courage, to risk being fined 10 dollars; that it was cordiality to say "may it agree, with you" after a repast; that it showed piety to partake of the communion once a year. saw that and laughed.
in Diapsalmata, Kierkegaard
A esta hora a cidade lá em baixo afunda-se na escuridão — como um poço de gritos. Entre cada quatro paredes há tragédia, catástrofes, cóleras, ambições, remorsos. Todos nós trazemos máscaras, para encobrir o nosso sonho, e a banal aparência desta casaria esconde um brasido de cálculos ou de raivas. É aquele vaso cheio de víboras, de que fala algures Carlyle, cada qual procurando levantar a cabeça mais alto que as outras. A mão que aperta a nossa ressuma muitas vezes ódio.
Mal se come. Vive-se de dívidas, de tonturas, com os credores à porta ameaçando e os trastes de aparato empenhados. Um passo mais e é a catástrofe e a vergonha. No entanto as aflições têm de ser escondidas e surdas, as lágrimas cobertas com pó-de-arroz. O janota, que ali vai na praça, treme de frio; a mulher vestida de seda, que nos olha e foge, sustenta-se um mês a fio de café e morfina — e quantas vezes o riso esconde um grito de aflição...
Este homem tem só um fim: vencer custe o que custar. E esfuranca, cortez e frio, prático como o diabo, sempre correcto, calculando, medindo, pesando as mais pequenas palavras, sem coração e com este único sonho: — arranjar-se!... Dinheiro rapazes!...
in O Padre, Raul Brandão
Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta - o certo é que sinto como se, no fim de um piorar de doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.
Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver. A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Por que o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte, a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.
A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou de levar aquele fato único que vestira.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Minha senhora da solidão
Minha senhora das dores
Quanto tempo falta para te ver sorrir
Quantas misérias ainda vais exibir
Quanto tempo mais vou ter de te ouvir queixar?
Minha senhora da solidão
Vê como o Sol brilha hoje
Odeio ver-te sempre de luto
Gostava de ver o teu olhar enxuto
De descobrir alguma graça no teu andar
O teu crucifixo não me ilumina
E o teu sacrifício não me pode fazer bem
Não é bom para ninguém
Huuum, não ajudas ninguém...
Minha senhora da solidão
Minha senhora dos prantos
Tens um "ai" encravado na boca
Que dia após dia te sufoca
Precisas de bem mais que uma simples oração
Minha senhora da solidão
Minha senhora das culpas
Tenho que evitar o teu contágio
Não quero mais saber do teu naufrágio
A praia esteve sempre ao alcance da tua mão
O teu crucifixo não me ilumina
O teu sacrifício não me pode fazer bem
Não é bom para ninguém
Huuum, não ajudas ninguém...
Jorge Palma
— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
in Os Passos em Volta - Estilo, Herberto Helder
a Parable by James Thurber
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The following is a short story in pictures by the American humorist James Thurber (1894-1961). When you read this piece, "What rib-tickling humor!" you are apt to say; "what jolly fun!" Mr. Thurber wrote this story in the terrible year 1939.
I offer this happy little divertissiment to you on the eve of yet another bombing foray against the Fiend of Baghdad, or rather, against his subjects; alas, you may be certain, as certain as sorrow and sin, that not a hair upon the head of our ex-CIA-employee Saddam Hussein will be mussed, not a one!
I scanned this from a old, broken paperback copy of Alarms and Diversions, which was printed by Harper & Row in 1964. Alarms and Diversions was originally published by Harper & Brothers in 1957. According to Amazon Books, this book is out of print and "hard to find". The copyright page of my edition says:
The Last Flower: Copyright 1939 by James Thurber
Unless I am mistaken, that would indicate that this story presently is out of copyright.
Update (10/23/99): Since I wrote this page in February 1998, I have learned that copyrights go for 75 years now, and probably (thanks to the corporate grip on Congress) will be extended forever. After seven or eight centuries of openness and progress, the Cold War killed science dead (it's still twitching a bit, but dead it is) and now Mickey Mouse is murdering literature too. So much for civilization. Oh well, it was nice while it lasted, I guess.
Thus, most likely The Last Flower is still copyrighted. When I first posted this page, The Last Flower was apparently out of print everywhere. But since then Wooster Book Co. has reprinted it in a handsome hardcover edition (ISBN: 1888683457) so you can now buy a printed copy in a bookstore. This book would make a fine Christmas present, to accompany that copy of Quake III or that Tom Clancy novel you might be buying for some young person - this book, together with Eugene Sledge's superb, nightmarish memoir, With the Old Breed on Peleliu and Okinawa (Oxford University Press, ISBN: 0195067142), is precisely what every Tom Clancy fan needs to read.
NOTE: This page may be much faster and easier to read if you let it load completely when you first load it.
Copy/Paste:http://www.concentric.net/~Wkiernan/text/Thurber/Thurber.html
Pliny says: Life is not so desirable a thing as to be protracted at any cost. Whoever you are, you are sure to die, even though your life has been full of abomination and crime. The chief of all remedies for a troubled mind is the feeling that among the blessings which Nature gives to man there is none greater than an opportune death; and the best of it is that every one of us can avail himself of it. And elsewhere the same writer declares: Not even to God are all things possible; for he could not compass his own death, if he willed to die, and yet in all the miseries of our earthly life this is the best of his gifts to man. Nay, in Massilia and on the isle of Ceos, the man who could give valid reasons for relinquishing his life was handed the cup of hemlock by the magistrate, and that, too, in public. And in ancient times how many heroes and wise men died a voluntary death. Aristotle, it is true, declared suicide to be an offense against the State; but in Stobaeus's exposition of the Peripatetic philosophy there is the following remark: The good man should flee life when his misfortunes become too great; the bad man, also, when he is too prosperous. And similarly: So he will marry and beget children and take part in the affairs of the State, and, generally, practice virtue and continue to live; and then, again, if need be, and at any time necessity compels him, he will depart to his place of refuge in the tomb. And we find that the Stoics actually praised suicide as a noble and heroic action as hundreds of passages show; above all in the works of Seneca, who expresses the strongest approval of it. As is well known, the Hindus look upon suicide as a religious act, especially when it takes the form of self-immolation by widows; but also when it consists in casting oneself under the wheels of the chariot of the god of Juggernaut, or being eaten by crocodiles in the Ganges, or being drowned in the holy tanks in the temples, and so on. The same thing occurs on the stage - that mirror of life. For example, in L'Orphelin de la Chine, a celebrated Chinese play, almost all the characters end by suicide; without the slightest hint anywhere, or any impression being produced on the spectator, that they are committing a crime. And in our own theater it is much the same - Palmira, for example, in Mahomet, or Mortimer in Maria Stuart, Othello, Countess Terzky. Is Hamlet's monologue the meditation of a criminal? He merely declares that if we had any certainty of being annihilated by it, death would be infinitely preferable to the world as it is. But there lies the rub!
On Suicide, Arthur Schopenhauer
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre o tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama
in O Amor Natural, Carlos Drummond de Andrade
Quem for capaz de respirar na atmosfera das minhas obras sabe que se trata de um ar de altitude, de um ar forte. Há que ser feito para ele, de outro modo não será pequeno o perigo de resfriamento. O gelo está próximo, a solidão é enorme, mas como todas as coisas repousam tranquilamente em plena luz! Como se respira livremente! Quanta coisa sentimos estar abaixo de nós! A filosofia, tal como eu, até hoje, a entendi e a vivi, consiste em viver voluntariamente no gelo e na alta montanha, em procurar tudo o que é estranho e problemático na existência, tudo aquilo que, até ao presente, foi anatematizado pela moral. Devido a uma longa experiência, que me foi dada por essa peregrinação através do interdito, aprendi a encarar os motivos pelos quais, até agora, se moralizou e se idealizou, de maneira muito diferente do que pode ser para desejar: a história oculta dos filósofos, a psicologia dos grandes nomes da filosofia apareceram-me à luz do dia. Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais essa se tornou para mim a autêntica escala de aferição. O erro (a crença no ideal) não é cegueira, o erro é cobardia... Cada avanço, cada passo em frente no conhecimento resulta da coragem, da dureza contra si próprio, da limpeza ante si próprio... Eu não refuto os ideais, calço simplesmente luvas perante eles... Nitimur in vetiturn*: sob este signo triunfará um dia a minha filosofia, pois em princípio sempre se proibiu, até hoje, apenas a verdade.
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
* Fazemos finca-pé no que é vedado. (N. do T.)
Accept life, take it as it is? Stupid. The means of doing otherwise? Far from our having to take it, it is life that possesses us and on occasion shuts our mouths.
Accept the human condition? I believe that, on the contrary, revolt is part of human nature.
To pretend to accept what is imposed on us is a sinister comedy. First of all we must live. So many things are capable of being loved that it is ridiculous to seem to desire pain.
Comedy. Pretense. One must be sincere. Sincere at any price, even to our own detriment.
Neither revolt nor despair, moreover. Life with what it has. To accept it or revolt against it is to place oneself in opposition to life. Pure illusion. We are in life. It strikes us, mutilates us, spits in our face. It also illuminates us with crazy and sudden happiness that makes us participants. It is short. This is enough. Still make no mistake: there is pain. Impossible to evade. Perhaps, deep within ourselves, life's essential lot.
Our contradictions. The mystics and Jesus Christ. Love. Communion. Certainly, but why waste words? More later.
Albert Camus
Ah, a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
Álvaro de Campos
He is a man who has lied and dissembled, and a man who has crawled. He knows the taste of the boot-polish. He has suffered kicks in the tonneau of his pantaloons. He has taken orders from his superiors in knavery and he has wooed and flattered his inferiors in sense. His public life is an endless series of evasions and false pretenses. He is willing to embrace any issue, however idiotic, that will get him votes, and he is willing to sacrifice any principle, however sound, that will lose them for him. I do not describe the democratic politician at his inordinate worst; I describe him as he is encountered in the full sunshine of normalcy. He may be, on the one hand, a cross-roads idler striving to get into the State Legislature by grace of the local mortgage-sharks and evangelical clergy, or he may be, on the other hand, the President of the United States.
in The Politician Under Democracy, Henry L. Mencken, 1926
De forma que o homem vive sozinho. O que o obriga a ser justo e grande? A educação? o exemplo? A educação ensina-lhe a guerra; pedaços de ciência fazem-no balofo e seco; e o exemplo mostra-lhe o triunfo dos habilidosos, dos que se curvam e transigem, sabendo ameaçar ou recuar conforme a ocasião; dos que alijando os preconceitos — coração, ilusões, sonho — ficam mais lestos para um combate sem tréguas. A pobreza parece-lhe a desonra, porque vê sempre o pobre desprezado e calcado; o amor uma irrisão e procura um casamento rico; o sacrifício uma tolice. Só teme a valer a cadeia e a pobreza.
Depois a luta pela vida é aspérrima. Este moço aspira a tudo e tem na sua frente uma multidão compacta, que lhe barra os lugares. O triunfo de quem é? Dos que calcam para passar, sem que haja gritos ou blasfémias que os detenham. Os menos audaciosos ou os mais honestos afundam-se. Não há energia que resista à luta miudinha de todos os dias — se se tem coração. Embota-se a vontade, gasta-se a ambição, e em torno os que adularam ou calcaram sobem, trepam, com risos desdenhosos e ares de protectores.
É por isso que quase todos os rapazes, que até aos vinte anos reclamam justiça e se revoltam, começam, depois, curvos e submissos, a entrar no grande rebanho. Soa a hora trágica da vida, Pesam-se as coisas. Começa-se a ver que o que vale na terra não é o talento nem o trabalho. Para se vencer assim era preciso ser-se um herói ou um santo; gastar-se a existência para se conseguir o que um imbecil alcança numa hora, cortejando e dobrando-se. Principia-se então a ser o quê? Charlatão. A vida é uma comédia. Toma-la a sério para quê — se ela é feita de nulidades, de coisas vãs ou ridículas?
in O Padre - 1901, Raul Brandão
Of all ridiculous things the most ridiculous seems to me, to be busy—to be a man who is brisk about his food and his work. Therefore, whenever I see a fly settling, in the decisive moment, on the nose of such a person of affairs; or if he is spattered with mud from a carriage which drives past him in still greater haste; or the drawbridge opens up before him; or a tile falls down and knocks him dead, then I laugh heartily. And who, indeed, could help laughing? What, I wonder, do these busy folks get done? Are they not to be classed with the woman who in her confusion about the house being on fire carried out the firetongs? What things of greater account, do you suppose, will they rescue from life's great conflagration?
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In a soil thick with snails and rich as grease
I've longed to dig myself a good deep grave,
There to stretch my old bones at ease
And sleep in oblivion, like a shark in a wave.
Wills I detest, and tombstones set in rows;
Before I'd beg a tear of anyone,
I'd rather go alive and let the crows
Bleed the last scrap of this old carrion.
O worms! Black comrades without eye or ear,
Here comes a dead man for you, willing and gay;
Feasting philosophers, sons born of decay,
Come burrow through my ruins, shed not a tear;
But tell me if any torture is left to dread
For this old soulless body, dead as the dead?
Baudelaire
De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de
quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.
Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-Ihes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.
Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Suicide, as I have said, is actually accounted a crime; and a crime which, especially under the vulgar bigotry that prevails in England, is followed by an ignominious burial and the seizure of the man's property; and for that reason, in a case of suicide, the jury almost always bring in a verdict of insanity. Now let the reader's own moral feelings decide as to whether suicide is a criminal act. Think of the impression that would be made upon you by the news that someone you know had committed the crime, say, of murder or theft, or been guilty of some act of cruelty or deception; and compare it with your feelings when you hear that he has met a voluntary death. While in the one case a lively sense of indignation and extreme resentment will be aroused, and you will call loudly for punishment or revenge, in the other you will be moved to grief and sympathy; and mingled with your thoughts will be admiration for his courage, rather than the moral disapproval which follows upon a wicked action. Who has not had acquaintances, friends, relations, who of their own free will have left this world; and are these to be thought of with horror as criminals? Most emphatically No! I am rather of the opinion that the clergy should be challenged to explain what right they have to go into the pulpit, or take up their pens, and stamp as a crime an action which many men whom we hold in affection and honor have committed; and to refuse an honorable burial to those who relinquish this world voluntarily. They have no Biblical authority to boast of, as justifying the condemnation of suicide; nay, not even any philosophical arguments that will hold water; and it must be understood that it is arguments we want, and that we will not be put off with mere phrases or words of abuse. If the criminal law forbids suicide, that is not an argument valid in the church; and besides, the prohibition is ridiculous; for what penalty can frighten a man who is not afraid of death itself? If the law punishes people for trying to commit suicide, it is punishing the want of skill that makes the attempt a failure.
On Suicide, Arthur Schopenhauer
Sobretudo, não acredite nos seus amigos, quando lhe pedirem que seja sincero para com eles. Esperam somente que os mantenha na boa ideia que fazem de si próprios, fornecendo-lhes uma certeza suplementar que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como é que a sinceridade poderá ser uma condição da amizade? O gosto da verdade a todo o custo é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, por vezes um conforto, ou um egoísmo. Se, pois, se encontra neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Corresponderá ao profundo desejo deles e provar-lhes-á duplamente a sua afeição.
Tanto isto é verdade que raramente nos abrimos com os que são melhores do que nós. Evitaríamos de preferência o seu convívio. A maior parte das vezes, pelo contrário, confessamo-nos aos que se parecem connosco e que partilham das nossas fraquezas. Não desejamos, pois, corrigir-nos, nem tornar-nos melhores: seria preciso, antes de tudo, que fôssemos considerados fracos. Desejamos apenas ser lastimados e encorajados no nosso caminho. Em suma, desejaríamos, ao mesmo tempo, deixar de ser culpados e não fazer esforços para nos purificarmos. Nem muito cinismo, nem muita virtude. Nem para o mal, nem para o bem temos energia. Conhece Dante? De verdade? Diabo. Sabe, então, que Dante admite anjos neutros na querela entre Deus e Satã. E coloca-os no Limbo, uma espécie de vestíbulo do Inferno. Nós estamos no vestíbulo, caro amigo.
in A Queda, Albert Camus
Por exemplo, não sou de modo nenhum um papão, um monstro da moral — sou mesmo uma natureza oposta àquele tipo de homem que, até hoje, tem sido venerado como virtuoso. Aqui entre nós, parece-me que isso, justamente, faz parte do meu orgulho. Sou um discípulo do filósofo Dioniso, até prefiro ser um sátiro a ser um santo. Mas há que ler esta obra. Talvez nela eu tenha conseguido — talvez esta obra não tenha mesmo mais nenhum outro sentido — exprimir essa antítese de uma maneira serena e afável. A última coisa, que eu prometeria, seria «melhorar» a humanidade. Por mim não serão erguidos novos ídolos: os velhos bastam para nos ensinar o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (o meu sinónimo de «ideais»), isso até já faz parte do meu ofício. Na medida em que se inventou um mundo ideal, privou-se a realidade do seu valor, do seu sentido, da sua veracidade... O «mundo verdadeiro» e o «mundo aparente», ou seja, para falar com clareza: o mundo fictício e a realidade... A mentira do ideal tem sido, até ao presente, a maldição que pesa sobre a realidade; devido a ela, a própria humanidade se tornou mentirosa e falsa até aos seus instintos mais básicos, até adorar os valores inversos daqueles que lhe garantiriam o êxito, o futuro, o solene direito ao porvir.
in Ecce Homo, Friedrich Nietzsche
Num com mais gordura, noutro de magreza à parte Todos têm valor, mas o segredo da arte É saber regular exactamente o bocado. Cortem um, dois, três doidos gordos ou finos Metam na púcara, cheia como uma cratera E sirvam quente, muito quente, para que a fumarada
in A Cozinha Canibal, Roland Torpor |
It is instructive to think that there is not a single person in this room, or for that matter in any room in the world, who, at some nicely chosen point in historical space-time would not be put to death there and then, here and now, by a commonsensical majority in righteous rage. The color of one's creed, neckties, eyes, thoughts, manners, speech, is sure to meet somewhere in time or space with a fatal objection from a mob that hates that particular tone. And the more brilliant, the more unusual the man, the nearer he is to the stake. Stranger always rhymes with danger. The meek prophet, the enchanter in his cave, the indignant artist, the nonconforming little schoolboy, all share in the same sacred danger. And this being so, let us bless them, let us bless the freak; for in the natural evolution of things, the ape would perhaps never have become man had not a freak appeared in the family. Anybody whose mind is proud enough not to breed true, secretly carries a bomb at the back of his brain, and so I suggest, just for the fun of the thing, taking that private bomb and carefully dropping it upon the model city of commonsense. In the brilliant light of the ensuing explosion many curious things will appear...
in Lectures on Literature, Vladimir Nabokov, 1956
Não são as paredes reles do meu quarto vulgar, nem as secretárias velhas do escritório alheio, nem a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual, tantas vezes por mim percorridas que já me parecem ter usurpado a fixidez da irreparabilidade, que formam no meu espírito a náusea, que nele é frequente, da quotidianidade enxovalhante da vida. São as pessoas que habitualmente me cercam, são as almas que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência última de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.
[...]
Sim, a minha virtude íntima de ser frequentemente objectivo, e assim me extraviar de pensar-me, sofre, como todas as virtudes, e até como todos os vícios, decréscimos de afirmação. Então pergunto a mim mesmo como é que me sobrevivo, como é que ouso ter a cobardia de estar aqui, entre esta gente, com esta igualdade certeira com eles, com esta conformação verdadeira com a ilusão de lixo de eles todos? Ocorrem-me com um brilho de farol distante todas as soluções com que a imaginação é mulher - o suicídio, a fuga, a renúncia, os grandes gestos da aristocracia da individualidade, o capa e espada das existências sem balcão.
in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
Álvaro de Campos
We know the commonplace remarks made when this subject (existentialism) comes up, remarks which always add up to the same thing: we shouldn't struggle against the powers that-be; we shouldn't resist authority; we shouldn't try to rise above our station; any action which doesn't conform to authority is romantic; any effort not based on past experience is doomed to failure; experience shows that man's bent is always toward trouble, that there must be a strong hand to hold him in check, if not, there will be anarchy. There are still people who go on mumbling these melancholy old saws, the people who say, "It's only human!" whenever a more or less repugnant act is pointed out to them, the people who glut themselves on chansons realistes; these are the people who accuse existentialism of being too gloomy, and to such an extent that I wonder whether they are complaining about it, not for its pessimism, but much rather its optimism. Can it be that what really scares them in the doctrine I shall try to present here is that it leaves to man a possibility of choice?
in Existentialism and Human Emotions, Jean-Paul Sartre
Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.
É este o meu único consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver.
in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman
"History," says Henry Ford, "is bunk." I inscribe myself among those who dissent from this doctrine; nevertheless, I am often hauled up, in reading history, by a feeling that I am among unrealities. In particular, that feeling comes over me when I read about the religious wars of the past - wars in which thousands of men, women and children were butchered on account of puerile and unintelligible disputes over transubstantiation, the atonement, and other such metaphysical banshees. It does not surprise me that the majority murdered the minority; the majority, even today, does it whenever possible. What I can't understand is that the minority went voluntarily to the slaughter. Even in the worst persecutions known to history - say, for example, those of the Jews in Spain - it was always possible for a given member of the minority to save his hide by giving public assent to the religious notions of the majority. A Jew who was willing to be baptized, in the reign of Ferdinand and Isabella, was practically unmolested; his descendants today are 100% Spaniards. Well, then, who did so many Jews refuse? Why did so many prefer to be robbed, exiled, and sometimes murdered?
The answer given by philosophical historians is that they were a noble people, and preferred death to heresy. But this merely begs the question. Is it actually noble to cling to a religious idea so tenaciously? Certainly it doesn't seem so to me. After all no human being really knows anything about the exalted matters with which all religions deal. The most he can do is to match his private guess against the guesses of his fellow-men. For any man to say absolutely, in such a field, that this or that is wholly and irrefragably true and this or that is utterly false is simply to talk nonsense. Personally, I have never encountered a religious idea - and I do not except even the idea of the existence of God - that was instantly and unchallengeably convincing, as, say, the Copernican astronomy is instantly and unchallengeably convincing. But neither have I ever encountered a religious idea that could be dismissed off-hand as palpably and indubitably false. In even the worst nonsense of such theological mountebanks as Brigham Young and Mrs. Eddy, there is always enough lingering plausibility, or at all events, possibility, to give the judicious pause. Whatever the weight of the probabilities against it, it nevertheless may be true that man, on his decease, turns into a gaseous vertebrate, and that this vertebrate, if its human larva has engaged in embezzlement, bootlegging, profanity or adultery on this earth, will be boiled for a million years in a cauldron of pitch. My private inclination, due to my defective upbringing, is to doubt it, and to set down anyone who believes it as an ass, but it must be plain that I have no means of disproving it.
In view of this uncertainty, it seems to me sheer vanity for any man to hold his religious views too firmly, or to submit to any inconvenience on account of them. It is far better, if they happen to offend, to conceal them discreetly, or to change them amiably as the delusions of the majority change. My own views in this department, being wholly skeptical and tolerant, are obnoxious to the subscribers to practically all other views; even atheists sometimes denounce me. At the moment, by an accident of American political history, these dissenters from my theology are forbidden to punish me for not agreeing with them. But at any succeeding moment some group or other among them may seize such power and proceed against me in the immemorial manner. If it ever happens, I give notice here and now that I shall get converted to their nonsense instantly, and so retire to safety with my right thumb laid against my nose and my fingers waving like wheat in the wind. I'd do it even today, if there were any practical advantage in it. Offer me a box of good Havana cigars, and I engage to submit to baptism by any rite ever heard of, provided it does not expose my gothic nakedness. Make it ten boxes, and I'll agree to be both baptized and confirmed.
H. L. Mencken
First printed in the Smart Set, April, 1922, pp. 45-46
Promulgada no dia da Salvação, no primeiro dia do ano Um
(30 de Setembro de 1888 da falsa cronologia)
Guerra de morte contra o vício:
O vício é o cristianismo
Artigo primeiro. É viciosa qualquer forma de antinatureza. O tipo de homem mais vicioso é o sacerdote: ele ensina a antinatureza. Contra o sacerdote não temos razões, temos a penitenciária.
Artigo segundo. Qualquer participação num serviço religioso é um atentado à moralidade pública. Deve-se ser mais severo com os protestantes do que com os católicos, mais severo com os protestantes liberais do que com os puritanos. Quanto mais alguém se aproxima da ciência, tanto mais criminoso é ser cristão. O criminoso dos criminosos é, por consequência, o filósofo.
Artigo terceiro. O sítio execrável, em que o cristianismo chocou os seus ovos de basilisco, deve ser arrasado e, sendo lugar ímpio na Terra, deve inspirar pavor a toda a posteridade. Deverão ser criadas aí serpentes venenosas.
Artigo quarto. A pregação da castidade é uma pública incitação ao antinatural. Todo o desprezo pela vida sexual, toda a profanação desta através da noção de «impuro» constituem o autêntico pecado contra o espírito santo da Vida.
Artigo quinto. Comer a uma mesma mesa com um sacerdote é motivo de exclusão: quem o fizer excomunga-se da sociedade honrada. O sacerdote é o nosso «tchandala»: há que proscrevê-lo, esfomeá-lo, expulsá-lo para qualquer tipo de deserto.
Artigo sexto. Deve-se chamar a história «sagrada» pelo nome que ela merece, ou seja, história maldita; deve-se empregar as palavras «Deus», «Salvador», «Redentor», «Santo», como injúrias, como designativas de criminosos.
Artigo sétimo. O resto conclui-se daqui.
O ANTICRISTO
in O Anticristo, Nietzsche
La mort m'attend comme une vieille fille
Au rendez-vous de la faucille
Pour mieux cueillir le temps qui passe
La mort m'attend comme une princesse
A l'enterrement de ma jeunesse
Pour mieux pleurer le temps qui passe
La mort m'attend comme Carabosse
A l'incendie de nos noces
Pour mieux rire du temps qui passe
Mais qu'y a-t-il derrière la porte
Et qui m'attend déjà
Ange ou démon qu'importe
Au-devant de la porte il y a toi
La mort attend sous l'oreiller
Que j'oublie de me réveiller
Pour mieux glacer le temps qui passe
La mort attend que mes amis
Me viennent voir en pleine nuit
Pour mieux se dire que le temps passe
La mort m'attend dans tes mains claires
Qui devront fermer mes paupières
Pour mieux quitter le temps qui passe
Mais qu'y a-t-il derrière la porte
Et qui m'attend déjà
Ange ou démon qu'importe
Au-devant de la porte il y a toi
La mort m'attend aux dernières feuilles
De l'arbre qui fera mon cercueil
Pour mieux clouer le temps qui passe
La mort m'attend dans les lilas
Qu'un fossoyeur lancera sur moi
Pour mieux fleurir le temps qui passe
La mort m'attend dans un grand lit
Tendu aux toiles de l'oubli
Pour mieux fermer le temps qui passe.
Mais qu'y a-t-il derrière la porte
Et qui m'attend déjà
Ange ou démon qu'importe
Au-devant de la porte il y a toi
Jacques Brel
Marie Hertzansky dorme no meiple de cretone esmiuçado por enormes esperas, a cabeça pende-lhe para as mamas, os ruídos exteriores parecem limpos por mãos muito rápidas, o papel da parede rasga-se em pequenas farpas, ou então, opado, alberga bolsas de um gás pútrido onde as baratas fazem ninho e remexem patas, a noite crepita dessa fauna minúscula e inquieta sobre o ritmo da respiração de Marie, ou confundindo-se com ela, com os silvos do ar obstruído pelos pulmões cheios de muco e pela traqueia penugenta, uma das mãos assenta no sofá e vê-se a sujidade da velhice: manchas onde nenhuma luz sixtina pulverizara anjos, aqui, sonha a Itália percorrida pelo sopro melancólico dos condottieri ardendo de visões, Marie aposenta a vida no vagar da espera, assim deposta em sólidos interiores, arrumada no cabeção de renda, na saliva que liga a sua boca à mama estéril, parece recusar espaços prematuros, é tão sólida que a vida a julgará morta da vida e a morte a abandonará ainda à vida, dorme nesse espaço onde os deuses passeiam a sua neurastenia, o seu jogo arcaico de se fingirem imortais, expira, inspira: tremem as películas secas dos lábios e o fio de cabelo que lhe atravessa a boca, no hotel concreto de uma cidade com nome, numa rua com nome, Madame tem um nome: Marie: nome de nada, Hertzansky: roubou-o à cor dos espectáculos, ao feérico das vidas inventadas, talvez ouça palmas e lhe dêem flores no mar cilíndrico do sono, o garrote no braço e o braço roxo, o sonho endovenoso.
in O Canto no Ocaso, Rui Nunes
Whirlwind of Lovers, William Blake
Somos todos casos excepcionais. Todos queremos apelar de qualquer coisa! Cada qual exige ser inocente, a todo o custo, mesmo que para isso seja preciso inculpar o género humano e o céu. Contentaremos mediocremente um homem, se lhe dermos parabéns pelos esforços graças aos quais se tornou inteligente ou generoso. Pelo contrário, ele rejubilará, se se admirar a sua generosidade natural. Inversamente, se dissermos a um criminoso que o seu crime nada tem com a sua natureza, nem com o seu carácter, mas com infelizes circunstâncias, ele ficar-nos-á violentamente reconhecido. Durante a defesa, escolherá mesmo este momento para chorar. No entanto, não há mérito nenhum em ser-se honesto, nem inteligente, de nascença! Como se não é certamente mais responsável em ser-se criminoso por natureza que em sê-lo devido às circunstâncias. Mas estes patifes querem a absolvição, isto é, a irresponsabilidade, e tiram, sem vergonha, justificações da natureza ou desculpas das circunstâncias, mesmo que sejam contraditórias. O essencial é que sejam inocentes, que as suas virtudes, pela graça do nascimento, não possam ser postas em dúvida, e que os seus crimes, nascidos de uma infelicidade passageira, nunca sejam senão provisórios. Já lhe disse, trata-se de escapar ao julgamento. Como é difícil escapar e melindroso fazer, ao mesmo tempo, com que se admire e desculpe a própria natureza, todos procuram ser ricos. Porquê? Já o perguntou a si mesmo? Por causa do poder, certamente. Mas sobretudo porque a riqueza nos livra do julgamento imediato, nos retira da turba do metropolitano para nos fechar numa carroçaria niquelada, nos isola em vastos parques guardados, em carruagens-camas, em camarotes de luxo. A riqueza, caro amigo, não é ainda a absolvição, mas a pena suspensa, sempre fácil de conseguir...
in A Queda, Albert Camus
Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!... Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar casto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!... Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de f olhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!... Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeira de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho... O absurdo, a confusão, o apagamento - tudo que não fosse a vida...
E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que Cai se ouve cair. Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece - não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!:
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim, E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto. Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, nao pode autorizar lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde. -"É possivel" - diz o guarda. -"Mas não agora!". O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz. -"Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estao guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim".
O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferenca, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: -"Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste".
Durante anos seguindos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guada durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte esta próxima.
Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeca as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo ja arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferenca de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. -"Que queres tu saber ainda?",pergunta o guarda. -"És insaciável".
-"Se todos aspiram a Lei", disse o homem. -"Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar. O guarda da porta, apercebendo se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte. -"Aqui ninguém mais, senao tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou me embora e fecho-a".
Franz Kafka
Na verdade nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado, uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de uma criança, o frio gume da beleza - nada disso tem horas e minutos. Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos? A felicidade não só se situa à margem do tempo, como nega toda a relação deste com a vida.
Assim, num só movimento, liberto os ombros de dois fardos: o tempo e as tarefas que teimam em me exigir. Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana? - força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz - mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver?
in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
Era assim que, para dar apenas um exemplo, as mulheres, no fim de contas, me ficavam caras. O tempo que lhes consagrava, não o podia dedicar aos homens, que nem sempre mo perdoavam. Como sair disto? Não nos perdoam a nossa felicidade, nem os nossos êxitos, senão no caso de consentirmos generosamente em reparti-los. Mas, para se ser feliz é preciso não nos ocuparmos muito dos outros. As saídas ficam, pois, cortadas. Feliz e julgado ou absolvido, e miserável. Quanto a mim, a injustiça era maior: eu era condenado por causa de felicidades antigas. Tinha vivido durante muito tempo na ilusão de um acordo geral, quando de todos os lados choviam sobre mim, distraído e sorridente, os juízos, as flechas e os remoques. A partir do dia em que fiquei alerta, veio-me a lucidez, recebi todos os ferimentos ao mesmo tempo e perdi de uma só vez as minhas forças. O universo inteiro pôs-se então a rir à minha volta.
Eis o que nenhum homem (salvo os que não vivem, quero dizer os sábios) pode suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam-se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Que quer? A ideia mais natural para o homem, a que lhe surge ingenuamente, como do fundo da sua natureza, é a ideia da sua inocência.
in A Queda, Albert Camus
A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem ria diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Não nos deixemos enganar: os grandes espíritos são cépticos. Zaratustra é um céptico. A força e a liberdade, provenientes do vigor e da exuberância do espírito, demonstram-se através do cepticismo. Os homens de convicção não entram de modo nenhum em linha de conta para tudo quanto seja fundamental em termos de valor e de não valor. As convicções são prisões. Não vêem a distância suficiente, nem vêem debaixo de si; ora, para poder ter uma palavra a dizer acerca de valor e não-valor, há que ver quinhentas convicções abaixo de si, atrás de si... Um espírito que queira coisas grandes, que queira também os meios para tanto, é necessariamente céptico. Estar livre de toda a espécie de convicções faz parte da força, poder olhar livremente... A grande paixão do céptico, fundamento e potência do seu ser, ainda mais esclarecida, mais despótica do que ele próprio o é, põe todo o seu intelecto ao serviço dela; torna-o destemido; dá-lhe até coragem para se servir de meios ímpios; em determinadas circunstâncias, permite-lhe ter convicções. É a convicção como meio: há muita coisa que só se alcança por intermédio de uma convicção. A grande paixão emprega e consome convicções, sem se submeter a elas — sabe-se soberana. Pelo contrário, a necessidade de fé, de alguma coisa que não esteja condicionada pelo sim e pelo não, o carlylismo, se me quiserem perdoar esta expressão, é uma necessidade própria da fraqueza. O homem de fé, o «crente» de qualquer tipo, é necessariamente um homem dependente, alguém que não se afirma como um fim, que, por si próprio, não pode sequer fixar finalidades. O «crente» não pertence a si próprio, só pode ser um meio; tem de ser consumido, precisa de alguém que o consuma. O seu instinto concede a suprema honra a uma moral de despersonalização: a isso tudo o persuade, a sua prudência, a sua experiência, a sua vaidade. Qualquer forma de crença é em si mesma uma expressão de despersonalização, de alienação de si próprio... Se se tiver em conta como é necessário à maioria das pessoas um elemento regulador que as ligue e as fixe a partir do exterior, como a coacção (num sentido mais radical, a escravatura) é a única e derradeira condição que permite prosperar às pessoas de vontade mais fraca, sobretudo à mulher, pois também se compreende a convicção, a «fé». O homem de convicção tem nesta a sua espinha dorsal. Não ver muitas coisas, não ser imparcial em caso algum, tomar partido do princípio ao fim, ter uma óptica estreita e infalível quanto a todos os valores, é só disso que depende a própria existência de um tal tipo humano. Mas, desse modo, ele é o contrário, o antagonista do verídico — da verdade... Ao crente não é dado ter sequer consciência para a questão do «verdadeiro» e do «não verdadeiro»: ser honesto neste ponto seria logo a sua perdição. O condicionalismo patológico da sua óptica faz do convicto o fanático — Savonarola, Lutero, Rousseau, Robespierre, Saint-Simon —, o tipo oposto do espírito forte, que se tornou livre. Mas as grandes atitudes desses espíritos doentes, desses epilépticos do entendimento, agem sobre as grandes massas: os fanáticos são pitorescos, e a humanidade gosta mais de ver gestos que de ouvir razões...
in O Anticristo, Nietzsche
As far as I know, none but the votaries of monotheistic, that is to say, Jewish religions, look upon suicide as a crime. This is all the more striking, inasmuch as neither in the Old or in the New Testament is there to be found any prohibition or positive disapproval of it; so that religious teachers are forced to base their condemnation of suicide on philosophical grounds of their own invention. These are so very bad that writers of this kind endeavor to make up for the weakness of their arguments by the strong terms in which they express their abhorrence of the practice; in other words, they declaim against it. They tell us that suicide is the greatest piece of cowardice; that only a madman could be guilty of it, and other insipidities of the same kind; or else they make the nonsensical remark that suicide is wrong, when it is quite obvious that there is nothing in the world to which every man has a more unassailable title than to his own life and person.
On Suicide, Arthur Schopenhauer
He had alot to say.
He had alot of nothing to say.
We'll miss him.
So long.
We wish you well.
You told us how you weren't afraid to die.
Well then, so long.
Don't cry.
Or feel too down.
Not all martyrs see divinity.
But at least you tried.
Standing above the crowd,
He had a voice that was strong and loud.
We'll miss him.
Ranting and pointing his finger
At everything but his heart.
We'll miss him.
No way to recall
What it was that you had said to me,
Like I care at all.
So loud.
You sure could yell.
You took a stand on every little thing
And so loud.
Standing above the crowd,
He had a voice so strong and loud and I
Swallowed his facade cuz I'm so
Eager to identify with
Someone above the ground,
Someone who seemed to feel the same,
Someone prepared to lead the way, with
Someone who would die for me.
Will you? Will you now?
Would you die for me?
Don't you fuckin lie.
Don't you step out of line.
Don't you fuckin lie.
You've claimed all this time that you would die for me.
Why then are you so surprised to hear your own eulogy?
You had alot to say.
You had alot of nothing to say.
Come down.
Get off your fuckin cross.
We need the fuckin space to nail the next fool martyr.
To ascend you must die.
You must be crucified
For your sins and your lies.
Goodbye...
Tool
Aenima
Dobraram a curva do caminho e eram muitas raparigas. Vinham amando pela estrada, e o som das suas vozes era felizes [sic]. Elas não sei o que seriam. Escutei-as um tempo de longe, sem sentimento próprio. Uma amargura por elas sentiu-me no coração.
Pelo futuro delas? Pela inconsciência delas? Não directamente por elas - ou, quem sabe? talvez apenas por mim.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Sobre a travessa decorada
Com rodelas de limão
A fumegar, bem escaldada
Eis a cabeça do patrão.
Jaz de pálpebras cerradas
Branca em fundo colorido
E pequenas fumaradas
Saem do crânio fendido.
Cruzam-se-lhe na testa alvar
Veiazinhas às dezenas
Que a luz parece tomar
Tal qual pálidas verbenas.
A língua aos poucos inchada
No seu banho de vapor
Parece, azul, granulada
O queixo de um velho actor.
A queixada ainda inteira
Envolta em fumaças finas
Mostra o arroz da mioleira
E as cavidades intestinos.
Duas rosas em poupa
Sobre a âncora do focinho
Parecem a crista ou a roupa
De um fabuloso estorninho.
Sobre a travessa decorada
Com rodelas de limão
A fumegar, bem escaldada
Eis a cabeça do patrão.
Segundo Gabriel Párvulo, poeta contemporâneo.
in A Cozinha Canibal, Roland Topor
Naqueles tempos, em que a escuridão dominava a terra, José de Arimateia, acendeu uma tocha feita de pinho e desceu das colinas até ao vale. Tinha algo que fazer na sua própria casa.
E viu, ajoelhando-se sobre as duras pedras do Vale da Desolação, um jovem nu que se lamentava. Os seus cabelos eram da cor do mel e o seu corpo como uma flor branca, mas tinha-se ferido e colocado cinzas no cabelo, como se de uma coroa se tratasse.
Ele, o que tanto possuía, disse para o jovem que estava nu, a chorar: «Não me surpreendo que o teu desgosto seja tão imenso, pois Ele era certamente um homem justo».
Nesse instante, o rapaz respondeu: «Não é por Ele que choro, mas por mim próprio. Eu também transformei a água em vinho e curei o leproso e dei vista ao cego. Caminhei sobre as águas, e dos túmulos que tinham por esconderijos, expulsei demónios. Alimentei esfomeados em desertos onde nada existia que se pudesse comer, e ressuscitei mortos das suas estreitas habitações, e à minha ordem, diante de uma grande multidão, uma figueira estéril frutificou. Todas as coisas que esse homem fez, também eu as fiz. E, contudo, ninguém me crucificou.»
in Poemas em Prosa, Oscar Wilde
Traduzido por Possidónio Cachapa
in Existentialism and Human Emotions, Jean-Paul Sartre |
What is a poet? An unhappy man who conceals profound anguish in his heart, but whose lips are so fashioned that when sighs and groans pass over them they sound like beautiful music. His fate resembles that of the unhappy men who were slowly roasted by a gentle fire in the tyrant Phalaris' bull—their shrieks could not reach his ear to terrify him, to him they sounded like sweet music. And people flock about the poet and say to him: do sing again; Which means, would that new sufferings tormented your soul, and: would that your lips stayed fashioned as before, for your cries would only terrify us, but your music is delightful. And the critics join them, saying: well done, thus must it be according to the laws of aesthetics. Why, to be sure, a critic resembles a poet as one pea another, the only difference being that he has no anguish in his heart and no music on his lips. Behold, therefore would I rather be a swineherd on Amager, and be understood by the swine than a poet, and misunderstood by men.
in Diapsalmata, Kierkegaard
fotografia de Teresa Belo |
Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ruy Belo
Confesso-lhe que me sinto cansado. Perco o fio do discurso, já não possuo aquela clareza de espírito à qual os meus amigos se compraziam em prestar homenagem. Digo amigos, aliás, por princípio. Já não tenho amigos, não tenho senão cúmplices. Em contrapartida, o seu número aumentou, são o género humano. E, no género humano, é o senhor o primeiro. O que está presente é sempre o primeiro. Como sei que não tenho amigos? É muito simples: descobri-o no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa partida, para os castigar, de certa maneira. Mas castigar quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria castigado. Compreendi que não tinha amigos. De resto, mesmo que os tivesse, não adiantaria nada. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então sim, valeria a pena. Mas a terra é obscura, meu amigo, a madeira espessa, opaca a mortalha. Os olhos da alma, sim, sem dúvida, se há uma alma e se ela tem olhos! Mas aí está, não se sabe ao certo, nunca se sabe ao certo. Senão, haveria uma saída, poderíamos enfim fazer com que nos tomassem a sério. Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas, com a nossa morte. Enquanto vivos, o nosso caso é duvidoso, não temos direito senão ao seu cepticismo. Se houvesse, então, uma única certeza de podermos gozar o espectáculo, valeria a pena provar-lhes o que eles não querem crer e deixá-los pasmados. Mas uma pessoa mata-se e que importa que eles a acreditem ou não? Não estamos presentes para recolher o seu espanto e a sua contrição, aliás efémera, assistir, enfim, segundo o sonho de cada homem, ao nosso próprio funeral. Para deixar de ser duvidoso, é preciso, muito belamente, deixar de ser.
in A Queda, Albert Camus
Já me compreenderam. O começo da Bíblia contém toda a psicologia do sacerdote. O sacerdote só conhece um único grande perigo: é a ciência, a salutar noção de causa e efeito. Mas a ciência só prospera, geralmente, em condições propícias; é preciso ter tempo, é preciso ter espírito de sobra, para se «adquirir conhecimentos»... «Por conseguinte, há que tornar o homem infeliz.» Foi esta, em todas as épocas, a lógica do sacerdote. E já se adivinha o que, em conformidade com esta lógica, veio, pois, ao mundo em primeiro lugar: o «pecado»... A ideia de culpa e castigo, toda a «ordem moral universal» foram inventadas contra a ciência, para que o homem não se desligasse do sacerdote... O homem não deve olhar para fora, deve olhar para dentro de si; não deve observar as coisas com inteligência e prudência, como quem está a aprender; até nem deve ver mesmo nada: deve sofrer... E deve sofrer de tal modo que, a toda a hora, tenha necessidade do sacerdote. Fora com os médicos! Um Salvador é que é preciso. A ideia da culpa e do castigo, incluindo a doutrina da «graça», da «redenção», da «remissão» — mentiras do princípio ao fim e sem qualquer realidade psicológica — foram inventadas para destruir no homem o sentido da causalidade: são o atentado contra a noção de causa e efeito! E não um atentado a soco, à facada, com a franqueza do ódio e do amor! Pelo contrário, procede dos instintos mais cobardes, mais manhosos, mais vis! Um atentado de sacerdotes! Um atentado de parasitas! Um vampirismo de pálidas sanguessugas subterrâneas!... Quando as consequência naturais de um acto já não são «naturais», antes se pensa que são provocadas por fantasmagorias conceptuais da superstição, por «Deus», por «espíritos», por «almas», e entendidas como meras consequências «morais», como recompensa, castigo, aviso, ensinamento, então está aniquilada a condição prévia do conhecimento — então cometeu-se o maior crime contra a humanidade. O pecado, diga-se uma vez mais, essa fornia por excelência de automaculação do homem, foi inventado para tornar impossíveis a ciência, a cultura, toda a elevação e distinção do ser humano; o sacerdote domina, graças à invenção do pecado.
in O Anticristo, Nietzsche
In addition to my numerous other acquaintances I have still one more intimate friend—my melancholy. In the midst of pleasure, in the midst of work, he beckons to me, calls me aside, even though I remain present bodily. My melancholy is the most faithful sweetheart I have had—no wonder that I return the love!
in Diapsalmata, Kierkegaard
Le coeur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l'ami Jojo
Et avec l'ami Pierre
On allait boire nos vingt ans
Jojo se prenait pour Voltaire
Et Pierre pour Casanova
Et moi, moi qui étais le plus fier
Moi, moi je me prenais pour moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans"
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Le coeur bien au chaud
Les yeux dans la bière
Chez la grosse Adrienne de Montalant
Avec l'ami Jojo
Et avec l'ami Pierre
On allait brûler nos vingt ans
Voltaire dansait comme un vicaire
Et Casanova n'osait pas
Et moi, moi qui restait le plus fier
Moi j'étais presque aussi saoul que moi
Et quand vers minuit passaient les notaires
Qui sortaient de l'hôtel des "Trois Faisans"
On leur montrait notre cul et nos bonnes manières
En leur chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Le coeur au repos
Les yeux bien sur terre
Au bar de l'hôtel des "Trois Faisans"
Avec maître Jojo
Et avec maître Pierre
Entre notaires on passe le temps
Jojo parle de Voltaire
Et Pierre de Casanova
Et moi, moi qui suis resté le plus fier
Moi, moi je parle encore de moi
Et c'est en sortant vers minuit Monsieur le Commissaire
Que tous les soirs de chez la Montalant
De jeunes "peigne-culs" montrent nos leur derrière
En nous chantant
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête
Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient c...
Jacques Brel
Tornarmo-nos esfinges, ainda que falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o que somos é esfinges faloas e não sabemos o que somos realmente. O único modo de estarmos de acordo com a vida é estarmos em desacordo com nós próprios. O absurdo é o divino.
Estabelecer teorias, pensando-as paciente e honestamente, só para depois agirmos contra elas - agirmos e justificar as nossas acções com teorias que as condenam. Talhar um caminho na vida, e em seguida agir contrariamente a seguir por esse caminho. Ter todos os gestos e todas as atitudes de qualquer coisa que nem somos, nem pretendemos ser, nem pretendemos ser tomados como sendo.
Comprar livros para não os ler; ir a concertos nem para ouvir a música riem para ver quem lá está; dar longos passeios por estar farto de andar e ir passar dias no campo só porque o campo nos aborrece.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Em que língua se diz, em que nação,Em que outra humanidade se aprendeu A palavra que ordene a confusão Que neste remoinho se teceu? Que murmúrio de vento, que dourados Cantos de ave pousada em altos ramos Dirão, em som, as coisas que, calados, No silêncio dos olhos confessamos? in Os Poemas Possíveis, José Saramago |
Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser infinito, mas tirei-me a ferros de mim mesmo.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares