Não possuo filosofia em que possa mover-me como o peixe na água ou o pássaro no céu. Tudo em mim é um duelo, uma luta travada a cada minuto da vida entre falsas e verdadeiras formas de consolo. Umas não fazem senão aumentar-me a impotência e tornar-me mais fundo o desespero, outras são fonte de temporária libertação. Falsas e verdadeiras! Deveria antes dizer verdadeira, pois só existe uma consolação verdadeiramente real: a que me diz que sou um homem livre, um indivíduo inviolável, ser soberano no interior dos seus limites.
in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman
Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscrito.
O erro de querer ser igual a alguém
Feliz em suma — quanto a sorte deu
A cada coração o único bem
De ele poder ser seu.
Ricardo Reis
Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
Não vejo contra quê seria dirigida a rebelião de que Jesus foi considerado, com razão ou sem ela, como iniciador, a não ser contra a Igreja Judaica - tomando «Igreja» precisamente no sentido em que nós, hoje, tomamos a palavra. Era uma rebelião contra «os bons e os justos», contra a hierarquia da sociedade - não contra a respectiva corrupção, mas contra a casta, o privilégio, a ordem, a fórmula; era a descrença nos «homens superiores», o não proferido contra tudo o que fosse sacerdote e teólogo. Mas a hierarquia, que assim foi posta em causa, ainda que apenas momentaneamente, era a estacaria sobre a qual o povo judeu, no meio da «água», ainda conseguia subsistir - era a sua derradeira possibilidade, penosamente conquistada, de permanecer, o resíduo da sua existência política peculiar: um ataque contra ela era um ataque contra o mais profundo instinto nacional, contra a vontade de viver de um povo, que é a mais tenaz que jamais houve na Terra. Esse santo anarquista que incitava o povo miúdo, os excluídos e «pecadores», os tchandala no seio do judaísmo, a contradizer a ordem vigente - com uma linguagem que, caso os Evangelhos fossem de fiar, ainda hoje levaria à Sibéria - era um criminoso político, tanto quanto os criminosos políticos eram possíveis numa comunidade absurdamente apolítica. Isso levou-o à cruz. Morreu pela sua própria culpa - não há qualquer razão para se pretender, mesmo que isso tenha sido afirmado muitas vezes, que tivesse morrido pelas culpas dos outros.
in O Anticristo, Nietzsche
Era noite e Ele estava sozinho.
Viu ao longe os muros de uma cidade circular e caminhou na sua direcção.
E quando chegou próximo, ouviu no seu interior o trilho de alegres passadas, riso de bocas alegres e som alto de muitos alaúdes. Bateu e alguns dos guardas abriram-lhe os portões. Só para Ele.
Avistou uma casa de mármore, com sólidos pilares em frente, feitos do mesmo material. Estavam decorados com coroas de flores e por dentro e por fora da casa havia archotes de cedro. E ele entrou.
Quando atravessou o salão de calcedónia e o salão de jaspe e chegou ao grande salão de festas, viu estendido num sofá cor de algas vermelhas alguém cujos cabelo estava coroado por rosas rubras e cujos lábios estavam vermelhos de vinho.
ele foi por detrás, tocou-lhe no ombro e disse-lhe: «Por que vives desta maneira?»
E o jovem virou-se e reconheceu-O. Pensou um pouco e disse-Lhe: «Mas eu estive leproso em tempos e tu curaste-me. De que outra maneira haveria de viver?»
Ele abandonou a casa e voltou novamente para a rua.
Passado um bocado avistou uma mulher cuja face e o vestuário estavam pintados e que trazia nos pés ajaezados e pérolas. E, por detrás dela, vinha furtivo como um caçador, um homem jovem que vestia um manto com duas cores, Nesse preciso instante a face da mulher era clara e honesta, como a de uma deusa, mas os olhos do jovem estavam cobertos de luxúria.
Então Ele correu rapidamente e tocou a mão do jovem e disse-lhe: «Porque estás a olhar para essa mulher dessa maneira?»
O rapaz virou-se e reconheceu-O. E disse: «Mas eu fui cego em tempos e tu deste-me a vista. Para que outra coisa deveria olhar?»
Ele correu para a mulher e tocou-lhe no vestuário pintado e disse-lhe: «Não existe outro caminho que não seja o caminho do pecado?»
A mulher virou-se e reconheceu-O. Riu e disse: «Mas tu perdoaste-me os pecados e este caminho é um caminho agradável.»
Ele saiu da cidade.
E quando saiu de lá, avistou, na beira da estrada, um outro jovem que estava a chorar.
ele caminhou na sua direcção e tocando-lhe nas longas madeixas de cabelo perguntou-lhe: «Porque choras?»
E o rapaz olhou para cima e reconheceu-O. Pensando um instante, respondeu-lhe: «Mas eu estive morto em tempos e tu tiraste-me da morte. Que mais posso eu fazer do que chorar?»
in Poemas em Prosa, Oscar Wilde
Tradução de Possidónio Cachapa

Soldadito de Bolivia, soldadito boliviano
armado vas de tu rifle, que es un rifle americano
que es un rifle americano, soldadito de Bolivia
que es un rifle americano
Te lo dio el señor Barrientos, soldadito boliviano
regalo de Mr. Johnson, para matar a tu hermano
para matar a tu hermano, soldadito de Bolivia
para matar a tu hermano
No sabes quien es el muerto, soldadito boliviano
el muerto es el Che-Guevara, y era argentino y cubano
y era argentino y cubano, soldadito de Bolivia
y era argentino y cubano
El fue tu mejor amigo, soldadito boliviano
el fue el amigo del pobre, del oriente al altiplano
del oriente al altiplano, soldadito de Bolivia
del oriente al altiplano
Está mi guitarra entera, soldadito boliviano
de luto pero no llora, aunque llorar es humano
aunque llorar es humano, soldadito de Bolivia
aunque llorar es humano
No llora por que la hora, soldadito boliviano
no es de lagrima y pañuelo, sino de machete en mano
sino de machete en mano, soldadito de Bolivia
sino de machete en mano
Con el cobre que te paga, soldadito boliviano
que te vendes que te pagas, es lo que piensa el tirano
es lo que piensa el tirano, soldadito de Bolivia
es lo que piensa el tirano
Pero aprenderás seguro, soldadito boliviano
que a un hermano no se mata, que no se mata a un hermano
que no se mata a un hermano, soldadito de Bolivia
que no se mata a un hermano
que no se mata a un hermano
Nicolás Guillen
Pegue-se num inocente, despoje-se, abuse-se dele, dê-se-lhe pontapés, mate-se, corte-se em bocados de igual grossura e meta-se na panela com bastante manteiga, sal, pimenta, especiarias, alhos e salsa picada. Depois de tudo bem refogado, acrescente-se um copo de vinho branco e um pouco de caldo. Quando o inocente começar a ferver, tire-se do lume e sirva-se em maus lençóis. Para comer discretamente enquanto se vai falando de outra pessoa qualquer.
in A Cozinha Canibal, Roland Torpor |
Falseado o conceito de Deus, falseada a concepção da moral - o clero judaico não se ficou por aí. Não era possível fazer uso de toda a história de Israel: fora com ela! Esses sacerdotes realizaram aquele prodígio de falsificação de que uma boa parte da Bíblia nos proporciona os respectivos documentos comprovativos: com incomparável desdém por toda a tradição, por toda a realidade histórica, traduziram para linguagem religiosa o seu próprio passado nacional, isto é, fizeram dele um estúpido mecanismo terapêutico de pecado contra Jeová e castigo, de devoção para com Jeová e recompensa. Sentiríamos muito mais dolorosamente este ignominioso acto de falsificação da história se a interpretação histórica eclesiástica, durante milénios, não nos tivesse tornado quase insensíveis às exigências da probidade in historicis*. E que a Igreja foi secundada pelos filósofos: a mentira da «ordem moral universal»? Que existe, de uma vez para sempre, vontade de Deus, a qual dita o que o homem tem de fazer e de não fazer; que o valor de um povo ou de um indivíduo se mede consoante for muito ou pouco obedecida a vontade de Deus; que nos destinos de um povo ou de um indivíduos a vontade de Deus se mostra soberana, ou seja, castigadora e recompensadora, conforme o grau de obediência. A realidade, em lugar desta mentira lastimável, é a seguinte: um género de homem parasítico, que só prospera à custa de todas as formas sãs da vida, o sacerdote, faz um uso abusivo do nome de Deus: chama «Reino de Deus» a uma situação da sociedade, em que o sacerdote determina o valor das coisas; chama «vontade de Deus» aos meios, graças aos quais se alcança ou se mantém uma tal situação; com insensível cinismo, avalia os povos, as épocas, os indivíduos, consoante sejam proveitosos ou avessos à supremacia sacerdotal. Há que vê-los trabalhar: nas mãos dos sacerdotes judeus, a grande época na história de Israel tornou-se uma época de corrupção; o exílio, o longo infortúnio, transformou-se numa eterna punição pela grande época - uma época em que o sacerdote ainda não era nada. Fizeram das figuras poderosas e muito livres da história de Israel, consoante a necessidade, ou míseros sonsos e hipócritas ou «ímpios», simplificaram a psicologia de todos os grandes acontecimentos, reduzindo-a à fórmula idiota da «obediência ou desobediência a Deus». Um passo mais: a «vontade de Deus» (isto é, as condições para a conservação do poders sacerdotal) tem que ser conhecida - ora, para este efeito, fazia falta uma «revelação». Falando sem rodeios: torna-se necessária uma grande falsificação literária, e descobre-se uma «Escritura Sagrada», que é tornada pública com toda a pompa hierática, com dias de penitência e lamentações pela prolongada situação de «pecado». A «vontade de Deus» há muito que estava assente; toda a desgraça consistiu em terem-se afastado da «Escritura Sagrada»... Já a Moisés a «vontade de Deus» havia sido revelada... Que acontecera? O sacerdote havia formulado, de uma vez por todas, com rigor e pedantismo, o que queria ter, «o que é a vontade de Deus», incluindo as grandes e pequenas contribuições que se lhe teria que pagar (sem esquece os pedaços de carne mais saborosos, pois o sacerdote é indispensável em toda a parte; em todas as ocorrências naturais da vida, aquando do nascimento, do casamento, da doença, da morte, para não falar sequer do sacrfício (do «repasto»), aparece o santo parasita para as desnaturar - na sua linguagem: para as «santificar»... Pois há que entender isto: todo o costume natural, toda a instituição natural, (Estado, poder judicial, matrimónio, assistência aos doentes e aos pobres), toda a exigência inspirada pelo instinto de vida, em suma, tudo quanto tenha o seu valor em si, é por princípio desvalorizado, tornado contrário ao seu valor pelo parasitismo do sacerdote (ou da «ordem moral universal»), e carece, posteriormente, de uma sanção - é preciso um poder concessor de valor, o qual, negando ao caso o carácter natural, só por isso mesmo é que cria um valor... O sacerdote desvaloriza, dessacraliza a Natureza: aliás, é a esse preço que ele subsiste, A desobediência a Deus, isto é, ao sacerdote, à «Lei», recebe, então o nome de «pecado»; os remédios para alguém «se reconciliar com Deus» outra vez são, como é próprio, remédios que apenas garantem ainda mais radicalmente a sua sujeição ao sacerdote; só o sacerdote «redime»... Em termos psicológicos, os «pedaços» tornam-se indispensáveis em qualquer sociedade com organização sacerdotal: são eles os verdadeiros pontos de apoio do poder, pois o sacerdote vive dos pecados e necessita que se «peque»... Princípio supremo: «Deus perdoa àquele que faz penitência» - em linguagem clara: àquele que se submete ao sacerdote.
in O Anticristo, Nietzsche
* em questões históricas
Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore--
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visiter," I muttered, "tapping at my chamber door--
Only this and nothing more."
Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;--vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow--sorrow for the lost Lenore--
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore--
Nameless here for evermore.
And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me--filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
"'Tis some visiter entreating entrance at my chamber door--
Some late visiter entreating entrance at my chamber door;
This it is and nothing more."
Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"--here I opened wide the door--
Darkness there and nothing more.
Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore?"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"--
Merely this and nothing more.
Back into the chamber turning, all my sour within me burning,
Soon again I heard a tapping something louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice;
Let me see, then, what thereat is and this mystery explore--
Let my heart be still a moment and this mystery explore;--
'Tis the wind and nothing more.
Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately Raven of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he,
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door--
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door--
Perched, and sat, and nothing more.
Then the ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient Raven wandering from the Nightly shore--
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning--little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door--
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."
But the Raven, sitting lonely on that placid bust, spoke only
That one word, as if its soul in that one word he did outpour
Nothing farther then he uttered; not a feather then he fluttered--
Till I scarcely more than muttered: "Other friends have flown before--
On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before."
Then the bird said "Nevermore."
Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore--
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never--nevermore.'"
But the Raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore--
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."
This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamp-light gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamp-light gloating o'er
She shall press, ah, nevermore!
Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee--by these angels he hath sent thee
Respite--respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
"Prophet!" said I, "thing of evil!--prophet still, if bird or devil!--
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate, yet all undaunted, on this desert land enchanted--
On this home by Horror haunted--tell me truly, I implore--
Is there--is there balm in Gilead?--tell me--tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
"Prophet!" said I, "thing of evil!--prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us--by that God we both adore--
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore--
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."
"Be that our sign of parting, bird or fiend!" I shrieked, upstarting--
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul has spoken!
Leave my loneliness unbroken!--quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadows on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted--nevermore!
Edgar Allan Poe
Decido encher todas as minhas páginas em branco com as mais belas combinações de palavras que seja capaz de engendrar. E depois, porque quero assegurar-me que a vida não é absurda e não me encontro só sobre a terra, reúno-as todas num livro e ofereço-o ao mundo. Este retribui-me com a riqueza, a glória e o silêncio. Mas não sei que fazer com este dinheiro, nem que prazer tirar de contribuir para o progresso da literatura, pois só desejo o que jamais obterei - a certeza de que as minhas palavras tocaram o coração do mundo. É então que me pergunto o que vem a ser o meu talento, e descubro que não passa de uma forma de consolar da solidão. Risível consolo - que apenas me torna cinco vezes mais pesada a solidão.
in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares |
No cristianismo, os instintos dos subjugados e dos oprimidos aparecem em primeiro plano: são as castas mais baixas que procuram nele a sua salvação. Aqui pratica-se como ocupação, como remédio contra o aborrecimento, a casuística do pecado, a autocrítica, a inquisição da consciência; aqui mantém-se constantemente (através da oração) a afeição por um poderoso, chamado «Deus»; aqui, o mais elevado é tido por inacessível, por dádiva, por «graça». Aqui, falta também o que é público; o esconderijo, o sítio escuro são cristãos. Aqui, o corpo é desprezado, a higiene rejeitada como sensualidade; a Igreja opõe-se mesmo ao asseio (a primeira medida cristã, após a expulsão dos Mouros, foi o encerramento dos banhos públicos, dos quais só Córdova possuía duzentos e setenta). Cristão é um certo sentido de crueldade contra si próprio e contra os outros; o ódio contra os que pensam de outra maneira; a vontade de perseguir. Ideias lúgubres e emocionantes encontram-se em primeiro plano; as condições psíquicas mais procuradas, designadas com os nomes mais latos, são epileptóides; a dieta é escolhida de modo a favorecer manifestações mórbidas e sobreexcitar os nervos. Cristã é a hostilidade mortal aos senhores do mundo, aos «nobres» - e, ao mesmo tempo, uma competição indirecta, dissimulada (deixa-se-lhes o «corpo», apenas se quer a «alma»...). Cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a libertinagem do espírito; cristão é o ódio aos sentidos, aos prazeres dos sentidos, ao prazer em geral...
in O Anticristo, Nietzsche
In mah infant years and so through to mah teens - even as a young man ah sat nor in judgement of mah fellow man. But hear this. Even as ah dangled from one pinched empurpled ear, a wincing woeborn puppet surrendered up to the pedophagic freak show which mah mother would so sadistically invoke - even then, no more than a mite, not even a lustrum of life's waters passed - ah, Euchrid Eucrow, harboured such a hate for that sick fucken bitch that ah felt mah glands fill with a deadly venom that polluted mah bodily secretions - it did. Ah emitted a lethal catarrh - black spit, foul and deadly.
Ah was corrupted by hate. Ah was montruous. Ah was diabolical, deadlier than a rattlesnake, and while the sow slept, the snake - it struck! Listen. Once while Her Slutness lay sprawled in her armchair, ah slid up to her and deposited whole mouthfuls of warm, morbid sputum into her bottle. Then ah left the house, making sure ah woke Her Bitchship with a slam of the door. Ah slipped around to the south wall, pulled the spigot from the spy-hole, and put mah eye up to the hole - mah black little heart romping in its cage, happy as hell.
Ah watched her down the killer elixir in one long swig. Mah eye went cold. She belched ominously and shut her eyes like before. She began to snore. A minute passed and ah fell into a sickly sweat. Mah mouth filled with foul and acrid rheum.
Ah slammed the spigot back in its hole and hissed.
The hog was immune.
Utterly shitted ah gobbed at mah shadow and watched an onion-weed curl and die on mah left shoulder. [...]
in And the Ass Saw The Angel, Nick Cave
Somos cinco amigos; uma vez saímos um atrás do outro de uma casa; primeiro veio um e pôs-se junto à entrada, depois veio, ou melhor dito, deslizou-se tão ligeiramente como se desliza uma bolinha de mercúrio, o segundo e pôs-se não distante do primeiro, depois o terceiro, depois o quarto, depois o quinto. Finalmente, estávamos todos de pé, em linha. A gente fixou-se em nós e assinalando-nos, dizia: os cinco acabam de sair desta casa. A partir dessa época vivemos juntos, e teríamos uma existência pacífica se um sexto não viesse sempre intrometer-se. Não nos faz nada, mas incomoda-nos, o que já é bastante; porque é que se introduz à força ali onde não é querido? Não o conhecemos e não queremos aceitá-lo. Nós cinco tampouco nos conhecíamos antes e, se se quer, tampouco nos conhecemos agora, mas aquilo que entre nós cinco é possível e tolerado, não é nem possível nem tolerado com respeito àquele sexto. Além do mais somos cinco e não queremos ser seis. E que sentido, sobretudo, pode ter esta convivência permanente?, se entre nós cinco tampouco tem sentido, mas nós estamos já juntos e continuamos juntos, mas não queremos uma nova união, exatamente em razão das nossas experiências. Mas, como ensinar tudo isto ao sexto, posto que longas explicações implicariam já em uma aceitação no nosso círculo? É preferível não explicar nada e não o aceitar. Por muito que franza os lábios, afastamo-lo, empurrando-o com o cotovelo, mas por mais que o façamos, volta outra vez.
Franz Kafka
Voltamos domingo! :)
Curtain.
Faint diffuse light.
Speaker stands well off centre downstage audience left.
White hairs, white nightgown, white socks.
Two metres to his left, same level, same height, white foot of pallet bed.
Ten seconds before speech begins.
Thirty seconds before end of speech lamplight begins to fail.
Lamp out. Silence. SPEAKER, globe, foot of pallet, barely visible in diffuse light.
Ten seconds. Curtain. |
SPEAKER:
Birth was the death of him. Again. Words are few. Dying too. Birth was the death of him. Ghastly grinning ever since. Up at the lid to come. In cradle and crib. At suck first fiasco. With the first totters. From mammy to nanny and back. All the way. Bandied back and forth. So ghastly grinning on. From funeral to funeral. To now. This night. Two and a half billion seconds. Again. Two and a half billion seconds. Hard to believe so few. From funeral to funeral. Funerals of ... he all but said of loved ones. Thirty thousand nights. Hard to believe so few. Born dead of night. Sun long sunk behind the larches. New needles turning green. In the room dark gaining. Till faint light from standard lamp. Wick turned low. And now. This night. Up at nightfall. Every nightfall. Faint light in room. Whence unknown. None from window. No. Next to none. No such thing as none. Gropes to window and stares out. Stands there staring out. Stock still staring out. Nothing stirring in that black vast. Gropes back in the end to where the lamp is standing. Was standing. When last went out. Loose matches in right-hand pocket. Strikes one on his buttock the way his father taught him. Takes off milk white globe and sets it down. Match goes out. Strikes a second as before. Takes off chimney. Smoke-clouded. Holds it in left hand. Match goes out. Strikes a third as before and sets it to wick. Puts back chimney. Match goes out. Puts back globe. Turns wick low. Backs away to edge of light and turns to face east. Blank wall. So nightly. Up. Socks. Nightgown. Window. Lamp. Backs away to edge of light and stands facing blank wall. Covered with pictures once. Pictures of ... he all but said of loved ones. Unframed. Unglazed. Pinned to wall with drawing-pins. All shapes and sizes. Down one after another. Gone. Torn to shreds and scattered. Strewn all over the floor. Not at one sweep. No sudden fit of ... no word. Ripped from the wall and torn to shreds one by one. Over the years. Years of nights. Nothing on the wall now but the pins. Not all. Some out with the wrench. Some still pinning a shred. So stands there facing blank wall. Dying on. No more no less. No. Less. Less to die. Ever less. Like light at nightfall. Stands there facing east. Blank pinpocked surface once white in shadow. Could once name them all. There was father. That grey void. There mother. That other. There together. Smiling. Wedding day. There all three. That grey blot. There alone. He alone. So on. Not now. Forgotten. All gone so long. Gone. Ripped off and torn to shreds. Scattered all over the floor. Swept out of the way under the bed and left. Thousand shreds under the bed with the dust and spiders. All the ... he all but said the loved ones. Stands there facing the wall staring beyond. Nothing there either. Nothing stirring there either. Nothing stirring anywhere. Nothing to be seen anywhere. Nothing to be heard anywhere. Room once full of sounds. Faint sounds. Whence unknown. Fewer and fainter as time wore on. Nights wore on. None now. No. No such thing as none. Rain some nights still slant against the panes. Or dropping gentle on the place beneath. Even now. Lamp smoking through wick turned low. Strange. Faint smoke issuing through vent in globe. Low ceiling stained by night after night of this. Dark shapeless blot on surface elsewhere white. Once white. Stands facing wall after the various motions described. That is up at nightfall and into gown and socks. No. In them already. In them all night. All day. All day and night. Up at nightfall in gown and socks and after a moment to get his bearings gropes to window. Faint light in room. Unutterably faint. Whence unknown. Stands stock still staring out. Into black vast. Nothing there. Nothing stirring. That he can see. Hear. Dwells thus as if unable to move again. Turns in the end and enough will left to move again. Turns in the end and gropes to where he knows the lamp is standing. Thinks he knows. Was last standing. When last went out. Match one is described for globe. Two for chimney. Three for wick. Chimney and globe back on. Turns wick low. Backs away to edge of light and turns to face wall. East. Still as the lamp by his side. Gown and socks white to take faint light. Once white. Hair white to take faint light. Foot of pallet just visible edge of frame. Once white to take faint light. Stands there staring beyond. Nothing. Empty dark. Till first word always the same. Night after night the same. Birth. Then slow fade up of a faint form. Out of the dark. A window. Looking west. Sun long sunk behind the larches. Light dying. Soon none left to die. No. No such thing as no light. Starless moonless heaven. Dies on to dawn and never dies. There in the dark that window. Night slowly falling. Eyes to the small pane glaze at that first night. Turn from it in the end to face the darkened room. There in the end slowly a faint hand. Holding aloft a lighted spill. In the light of spill faintly the hand and milkwhite globe. Then second hand. In light of spill. Takes of globe and disappears. Reappears empty. Takes off chimney. Two hands and chimney in light of spill. Spill to wick. Chimney back on. Hand with spill disappears. Second hand disappears. Chimney alone in gloom. Glimmer of brass bedrail. Fade. Birth the death of him. That nevoid smile. Thirty thousand nights. Stands at edge of lamplight staring beyond. Into dark whole again. Window gone. Hands gone. Light gone. Gone. Again and again. Again and again gone. Till dark slowly parts again. Grey light. Rain pelting. Umbrellas round a grave. Seen from above. Streaming black canopies. Black ditch beneath. Rain bubbling in the black mud. Empty for the moment. That place beneath. Which ... he all but said which loved one? Thirty seconds. To add to the two and a half billion odd. Then fade. Dark whole again. Blest dark. No. No such thing as whole. Stands staring beyond half hearing what he's saying. He? The words falling from his mouth. Making do with his mouth. Lights lamp as described. Backs away to edge of light and turns to face wall. Stares beyond into dark. Waits for first word always the same. It gathers in his mouth. Parts lips and thrusts tongue forward. Birth. Parts the dark. Slowly the window. That first night. The room. The spill. The hands. The lamp. The gleam of brass. Fade. Gone. Again and again. Again and again gone. Mouth agape. A cry. Stifled by nasal. Dark parts. Grey light. Rain pelting. Streaming umbrellas. Ditch. Bubbling black mud. Coffin out of frame. Whose? Fade. Gone. Move on to other matters. Try to move on. To other matters. How far from wall? Head almost touching. As at window. Eyes glued to pane staring out. Nothing stirring. Black vast. Stands there stock still staring out as if unable to move again. Or gone the will to move again. Gone. Faint cry in his ear. Mouth agape. Closed with hiss of breath. Lips joined. Feel soft touch of lip on lip. Lip lipping lip. Then parted by cry as before. Where is he now? Back at window staring out. Eyes glued to pane. As if looking his last. Turns away at last and gropes through faint unaccountable light to unseen lamp. White gown moving through that gloom. Once white. Lights and moves to face wall as described. Head almost touching. Stands there staring beyond waiting for first word. It gathers in his mouth. Birth. Parts lips and thrusts tongue between them. Tip of tongue. Feel soft touch of tongue on lips. Of lips on tongue. Fade up in outer dark of window. Stare beyond through rift in dark to other dark. Further dark. Sun long sunk behind the larches. Nothing stirring. Nothing faintly stirring. Stock still eyes glued to pane. As if looking his last. At that first night. Of thirty thousand odd. Turn away in the end to darkened room. Where soon to be. This night to be. Spill. Hands. Lamp. Gleam of brass. Pale globe alone in gloom. Brass bedrail catching light. Thirty seconds. To swell the two and a half billion odd. Fade. Gone. Cry. Snuffed with breath of nostrils. Again and again. Again and again gone. Till whose grave? Which ... he all but said which loved one's? He? Black ditch in pelting rain. Way out through the grey rift in dark. Seen from on high. Streaming canopies. Bubbling black mud. Coffin on its way. Loved one ... he all but said loved one on his way. Her way. Thirty seconds. Fade. Gone. Stands there staring beyond. Into dark whole again. No. No such thing as whole. Head almost touching wall. White hair catching light. White gown. White socks. White foot of pallet edge of frame stage left. Once white. Least ... give and head rests on wall. But no. Stock still head haught staring beyond. Nothing stirring. Faintly stirring. Thirty thousand nights of ghosts beyond. Beyond that black beyond. Ghost light. Ghost nights. Ghost rooms. Ghost graves. Ghost ... he all but said ghost loved ones. Waiting on the rip word. Stands there staring beyond at that black veil lips quivering to half-heard words. Treating of other matters. Trying to treat of other matters. Till half hears there are no other matters. Never were other matters. Never two matters. Never but the one matter. The dead and gone. The dying and the going. From the word go. The word begone. Where else? Unnoticed by him staring beyond. The globe alone. Not the other. The unaccountable. From nowhere. On all sides nowhere. Unutterably faint. The globe alone. Alone gone.
Samuel Beckett
Up here in my tree...
Newspapers matter not to me...
No more crowbars to my head...
I'm trading stories with the leaves instead...
Wave to all my friends...
They don't seem to notice me...
All their eyes trained on the street...
Sidewalk cigarettes and scenes...
Up here so high I start to escape
Up here so high, the sky I scrape
I'm so high, I hold just one breath here within my chest
Just like innocence...
I remember him...
I swore I knew everything...
They say knowledge is a dream...
He's growing up just like me...
I'm so light, the wind he shakes
I'm so high, the sky I scrape...
I'm so light I hold just one breath and go back to my nest
Sleep with innocence...
Up here so high, the bars they break...
Up here so high, the sky I scrape...
Had my eyes peeled both wide open, and I got a glimpse...
Of my innocence...
Pearl Jam
Em geral as nossas leis não são conhecidas, senão que constituem um segredo do pequeno grupo de aristocratas que nos governa. Embora estejamos convencidos de que estas antigas leis são cumpridas com exatidão é extremamente mortificante ver-se regido por leis que não se conhecem. Não penso aqui nas diversas possibilidades de interpretação nem nas desvantagens que se derivam de que apenas algumas pessoas, e não todo o povo, possam participar da interpretação. Talvez estas desvantagens não sejam tão grandes. As leis são tão antigas que os séculos contribuíram para sua interpretação e esta interpretação já se tornou lei também, mas as liberdades possíveis a respeito da interpretação, mesmo que ainda subsistam, acham-se muito restringidas. Além do mais a nobreza não tem evidentemente nenhum motivo para deixar-se influir na interpretação por seu interesse pessoal em nosso prejuízo, já que as leis foram estabelecidas desde as suas origens por ela mesma; a qual se acha fora da lei, que, precisamente por isso, parece ter-se pôsto exclusivamente em suas mãos. Isto, naturalmente, encerra uma sabedoria - quem duvida da sabedoria das antigas leis -, mas ao mesmo tempo é-nos mortificante, o que provavelmente é inevitável.
Além do mais, estas aparências de leis apenas podem ser na realidade suspeitadas. Segundo a tradição existem e foram confiadas como segredo à nobreza, mas isto não é mais do que uma velha tradição, digna de crédito pela sua antiguidade, pois o carácter destas leis exigem também manter em segredo a sua existência. Mas se nós, o povo, seguimos atentamente a conduta da nobreza desde os mais remotos tempos, e possuímos anotações dos nossos antepassados referentes a isso, e temo-las prosseguido conscienciosamente até acreditar discernir nos factos inumeráveis certas linhas directrizes que permitem concluir sobre esta ou aquela determinação histórica, e se depois destas deduções finais cuidadosamente peneiradas e ordenadas procuramos adaptar-nos de certo modo ao presente e ao futuro, tudo aparece então como incerto e talvez como simples jogo de inteligência, pois talvez essas leis que aqui procuramos decifrar não existam. Há um pequeno partido que sustenta realmente esta opinião e que procura provar que quando uma lei existe apenas pode rezar: o que a nobreza faz é a lei. Esse partido vê apenas actos arbitrários na actuação da nobreza e rechaça a tradição popular, a qual, seguindo o seu parecer, apenas comporta benefícios casuais e insignificantes, provocando em troca graves danos, ao dar ao povo uma segurança falsa, enganosa e superficial com respeito aos acontecimentos do futuro. Não pode negar-se este dano, mas a maioria esmagadora de nosso povo vê a sua razão de ser no facto de que a tradição não é nem mesmo ainda suficiente, que portanto há ainda muito que investigar nela e que, sem dúvida, o seu material, por enorme que pareça, é ainda demasiado pequeno, pelo que terão que transcorrer séculos antes que se revele como suficiente. O obscuro nesta visão aos olhos do presente apenas está iluminado pela fé de que virá o tempo em que a tradição e sua investigação consequente ressurgirão de certo modo para pôr ponto final, que tudo será aclarado, que a lei apenas pertencerá ao povo e a nobreza terá desaparecido. Isto não é dito por ninguém e de modo algum com ódio contra a nobreza. Melhor, devemos odiar-nos a nós mesmos, por não sermos dignos ainda de ter lei. E por isso, esse partido, na realidade tão atraente sob certo ponto de vista e que não acredita, na verdade, em lei alguma, não aumentou as suas fileiras, e isso porque ele também reconhece a nobreza e o direito da sua existência.
Na realidade, isto apenas pode ser expresso com uma espécie de contradição: um partido que, com a crença nas leis, repudiasse a nobreza, teria imediatamente todo o povo ao seu lado, mas um partido semelhante não pode surgir porque ninguém se atreve a repudiar a nobreza. Vivemos sobre o fio deste cutelo. Um escritor resumiu isto certa vez da seguinte maneira: a única lei, visível e isenta de dúvida, que nos foi imposta, é a nobreza, e desta lei haveríamos de nos privar a nós mesmos?
Franz Kafka
Noites há, em que, sentado à lareira, no quarto mais resguardado de todos, sinto subitamente a morte cercar-me: no fogo, nos objectos ponteagudos que me rodeiam, no peso do tecto e na massa das paredes; na água, na neve, no calor, no meu sangue. Pergunto-me então o que vem a ser a nossa muito humana sensação de segurança, e percebo que não passa de um consolo para o facto de a morte ser o há demais próximo à vida. Pobre consolo que não cessa de nos recordar o que desejaria fazer-nos esquecer!
in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman
Córdoba.
Lejana y sola.
Jaca negra, luna grande,
y aceitunas en mi alforja.
Aunque sepa los caminos
yo nunca llegaré a Córdoba.
Por el llano, por el viento,
jaca negra, luna roja.
La muerte me está mirando
desde las torres de Córdoba.
¡Ay qué camino tan largo!
¡Ay mi jaca valerosa!
¡Ay que la muerte me espera,
antes de llegar a Córdoba!
Córdoba.
Lejana y sola.

Federico García Lorca, 1924
Um idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive. Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que, no oriente, isso se designa por filosofia oriental...A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo.
Albert Cossery |
Não subestimemos isto: nós próprios, que somos espíritos livres, já somos uma «transmutação de todos os valores», uma declaração de guerra e de vitória em pessoa a todos os velhos conceitos de «verdadeiro» e «não verdadeiro». Os conhecimentos mais valiosos são os que mais tardiamente se acham; ora, os conhecimentos mais valiosos são os métodos. Todos os métodos, todas as condições prévias do nosso actual espírito científico tiveram contra si, durante milénios, o mais profundo desprezo: por sua causa, era-se excluído do trato com pessoas «honestas», pois passava-se por «inimigo de Deus», por desprezador da verdade, por «possesso». Enquanto carácter científico, era-se um tchandal*... Tivemos contra nós todo o pathos da humanidade, a sua concepção do que deve ser a verdade, do que deve ser o serviço da verdade: todo o «tu deves» foi, até ao presente, dirigido contra nós... Os nossos objectos, as nossas práticas, a nossa maneira silenciosa, cautelosa, desconfiada - tudo isso lhe parecia perfeitamente indigno e desprezível. Por último, poder-se-ia perguntar com alguma razão, se não foi efectivamente um gosto estético que manteve a humanidade numa tão longa cegueira: ela exigia da verdade um efeito pitoresco, exigia igualmente do homem de ciência que este produzisse um forte efeito sobre os sentidos, Foi a nossa modéstia que, durante mais tempo, lhe desagradou... Oh! Como eles adivinharam isso, esses perus de Deus!...
in O Anticristo, Nietzsche
* membro da classe inferior na sociedade de castas hindu
um pouco menos
no silêncio
a mais
o vento
anuncia-me o fim
balbucio pouco
menos do que uma frase
até um dia
sob o húmus
num choro
Quando Narciso morreu, o seu lago de prazer passou de uma taça de doces águas para um cálice de lágrimas salgadas, e as Ninfas dos Montes lamentaram-se, enquanto atravessavam os bosques, no seu dever de cantar ao lago e reconfortá-lo.
E quando elas viram que o lago tinha mudado de uma taça de doces águas para um cálice de lágrimas salgadas, soltaram as tranças verdes dos seus cabelos e choraram para o lago, dizendo-lhe: «Não estamos admiradas que mergulhes dessa maneira no luto por Narciso, tão belo ele era.»
«Mas, o Narciso era belo?», perguntou o lago.
«Quem o poderá saber melhor do que tu?», responderam as Ninfas. «Por nós passou ele sempre mas foi por ti que procurou e se deitou nas tuas margens e olhou para ti. E foi no espelho das tuas águas que reflectiu a sua própria beleza.»
E o lago respondeu: «Mas eu amei Narciso porque enquanto ele se alongava sobre as minhas margens e olhava para mim, em baixo, no espelho dos seus olhos, eu vi sempre a minha beleza reflectida.»
in Poemas em Prosa, Oscar Wilde
Tradução de Possidónio Cachapa
depois de pensar, raramente falo. antes de falar, penso numa execução sumária do interlocutor, de modo a providenciar assunto bastante para uma morte precoce.
afinal, toda a morte precoce é seguida de uma saudosa ode. tivesse eu visto a luz na lâmina dum sabre em vez de ter envenenado todos os anos de verdadeiro espírito criativo, com a consequente doença crónica, e, hoje, seria recordado em anais jornalísticos lidos nas w.c. dos mercados e usados, em falta de melhor, para limpar rabos sujos de diarreias.
agora, como o doente viciado em ópio, vivo numa letargia solene pensando. quando alguém se me aproxima com um sorriso - qualquer tipo de sorriso -, faço questão de sorrir... mal disfarçando o cansaço da hipocrisia e da vontade de que esse alguém se sumisse no sopro pequeno que me sai da boca a cada saudação.
falo de coisas tão importantes quanto a importância que sinto que têm, invalidando a importância que o outro lhe dá. tento aniquilar o interlocutor no round de mais baixa numeração... cansado de retorquir palavras sobre objecções e abjecções em que não acredito... e quase tudo são objectos e quase todos são abjectos!
falo, objectivamente... dispersando, por vezes, para imagens dos meus sonhos negros e tristes... falo, com o objectivo pensado da morte... qualquer morte serve...
lembro-me muitas vezes dos meus sonhos de planador, de braços abertos a ver o mundo sofrer... nesses sonhos eu não falava: estavam todos mortos... (não eram imagens de filme de terror). eram apenas espíritos: vestidos ou nús... abjecções da vida de todos os dias que eliminamos ao caminhar na rua: olhando.
ocorre-me menos vezes o sonho do lagarto gigante que desenhado de pé no estore do meu quarto, me chamava repetidamente: "vem brincar comigo"... mas eu nunca fui... olhava-o e dormia.
por razões duma vida carcomida como num rendilhado, penso antes de falar.. penso em como é inútil conversar... em como o meu interlocutor, por muito que me ouça e me acene positivamente, não acredita em mim... nem vai mudar uma só vírgula das suas crendices em benefício das minhas palavras.
por tudo isto, todo o interlocutor merece a morte a que me neguei na altura certa... e se encontra adiada até um dia de horrores.
homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias ergueram esta parede
intransponível
caminham vergados no zumbido dos ventos com os braços erguidos - cantam
a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros - corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades
escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios
adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse
no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios
prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de uma fogo lento - uma sarça
que se acende subitamente por dentro
Al Berto
Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo obre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.
in A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Stig Dagerman
não existe nenhuma razão para tentar discernir a importância da carga de realidade do que se escreve. importa, muito mais, a carga de realidade da leitura, que pode não ter nenhuma relação com a escrita.
trincar a maçã, disse Adão, foi culpa dela. apontou-a com o dedo indicador direito e fez beiço de tristeza a tender para um choro oportuno. é claro, que Eva se estava simplesmente a lixar para o que o gajo dizia... afinal, os homens são todos umas crianças que gostam de ver chupar o dedo.
o que Eva só percebeu mais tarde, é que Adão falava para outra entidade masculina, enquanto ela só se tinha entendido bem com uma inferior entidade feminina. fez-se história quando alguém se lembrou desta magnífica história de guerra dos sexos, que se mantém mesmo entre aqueles para quem a religião é tão intensa quanto o esquecimento próprio de quem não lembra o que não interessa.
Adão, o verdadeiro humorista, riu-se a bandeiras despregadas da culpa de Eva e das sentenças proferidas. o que Adão não percebeu é que o seu amiguinho o lixou!
“Não sou o timoneiro?” – exclamei. “Você?” – disse um homem alto e escuro e esfregou as mãos nos olhos como se espantasse um sonho. Eu estive ao leme na noite escura, a lanterna ardendo fraca sobre a minha cabeça e agora vinha este homem e queria pôr-me de lado. E já que eu não me afastava, ele calcou o pé no meu peito e empurrou-me para baixo devagar enquanto eu continuava agarrado aos raios do leme e na queda o tirava completamente do lugar. Mas o homem agarrou-o, colocou-o no lugar e empurrou-me dali com um safanão. Eu porém recompus-me logo, corri até a escotilha que dava para o alojamento da tripulação e gritei: “Tripulantes! Camaradas! Venham logo! Um estranho expulsou-me do leme!” Eles vieram lentamente, subindo pela escada do navio, figuras possantes que cambaleavam de cansaço. “Não sou o timoneiro?” – perguntei. Eles assentiram com a cabeça, mas seus olhares só se dirigiam ao estranho; ficaram em semicírculo ao redor dele e, quando ele disse em voz de comando: “Não me atrapalhem”, eles juntaram-se, acenaram para mim com a cabeça e voltaram a descer pela escada do navio. Que tipo de gente é essa? será que realmente pensam ou só se arrastam sem saber para onde sobre a terra?
Franz Kafka
O cristianismo tem no seu fundo algumas subtilezas que são próprias do Oriente. Antes de mais nada, sabe que é em si inteiramente diferente que uma dada coisa seja verdadeira, mas que esta é da máxima importância contanto que seja tida como verdadeira. A verdade e a crença em que algo seja verdadeiro: dois mundos de interesses completamente divergentes, quase dois universos antagónicos, pois chega-se a um e a outro por caminhos diferentes. Ser sabedor a este respeito... quase basta para ser sábio no Oriente: assim o entendem os brâmanes, assim o entende Platão, bem como todo o discípulo da sapiência esotérica. Se, por exemplo, o facto de alguém se julgar liberto do pecado lhe traz alguma felicidade, pois não é preciso, como condição prévia para tanto, que o homem seja pecador, mas que se sinta pecador. Mas se, em geral, o que é necessário, antes de mais nada, é crença, então há que lançar o descrédito sobre a razão, o conhecimento, a pesquisa: o caminho para a verdade transforma-se em caminho proibido. A forte esperança é um estimulante muito maior da vida de qualquer ventura particular que realmente se concretiza. Tem que se manter de pé aqueles que sofrem, graças a uma esperança que não pode ser contradita por nenhuma realidade - e que não seja suprimida, ao ter cumprimento: uma esperança posta no Além. (Justamente por causa dessa capacidade de entreter o infeliz, era a esperança tida entre os Gregos como o mal dos males, como o mal autenticamente insidioso: foi ele que ficou na caixa de Pandora.) Para que o amor seja possível, Deus tem de ser uma pessoa; para que os instintos mais baixos possam também manifestar-se, Deus tem de ser jovem. Para o fervor das mulheres, há-de pôr-se em primeiro plano um belo santo; para o dos homens, uma Nossa Senhora. Isto, pressupondo que o cristianismo se queira impor num terreno, onde cultos de Afrodite ou de Adónis tenham já definido a concepção do culto. A exigência da castidade reforça a veemência e a interioridade do instinto religioso, tornando o culto mais quente, mais apaixonado, mais inspirado. O amor é aquela condição em que o ser humano mais vê as coisas tal como elas não são. É aí que a capacidade ilusória está no auge, do mesmo modo que a faculdade de edulcorar, de glorificar. Suporta-se no amor mais do que de costume, tolera-se tudo. Tratava-se, pois, de inventar uma religião em que se possa amar: assim, passa-se por cima do que há de pior na vida - até já nem sequer se dá por isso. Basta quanto às três virtudes cristãs: fé, esperança, amor, a que eu chamo as três espertezas cristãs. O budismo é demasiado tardio, demasiado positivista, para ainda ser esperto desta maneira.
in O Anticristo, Nietzsche
esta rosa vermelha
é para ti
junto-lhe três lírios brancos
despeço-me no vazio
nada sei
nada tenho a mais para te dar
agora
nunca soube do tempo
até me ser tirado
Dei ordem para irem buscar o meu cavalo ao estábulo. O criado não me compreendeu. Fui eu mesmo ao estábulo, ensilhei o cavalo e montei. Ao longe ouvi o som de uma trombeta, perguntei o que significava aquilo. Ele de nada sabia, não ouvira nada.
No portão deteve-me, para me perguntar:
- Para onde cavalga o senhor?
- Não o sei - respondi -. Apenas quero ir-me daqui, somente ir-me daqui. Partir sempre, sair daqui, apenas assim posso alcançar minha meta.
- Conheces então, tua meta? - perguntou ele.
- Sim - respondi eu -. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta.
Franz Kafka
I too shall cease and be as when I was not yet, only all over instead of in store. That makes me happy, often now my murmur falters and dies and I weep for happiness as I go along and for love of this old earth
that has carried me so long and whose uncomplainingness will soon be mine. Just under the surface I shall be, all together at first, then separate, and drift through all the earth and perhaps in the end through a cliff into the sea, something of me.
A ton of worms in an acre, that is a wonderful thought,
a ton of worms, I believe it.
in an Abandoned Work, Samuel Beckett
The higher that the monkey can climb
the more he shows his tail
Call no man happy 'til he dies
There's no milk at the bottom of the pail
God builds a church
The devil builds a chapel
Like the thistles that are growing
'round the trunk of a tree
All the good in the world
You can put inside a thimble
And still have room for you and me
If there's one thing you can say
About Mankind
There's nothing kind about man
You can drive out nature with a pitch fork
But it always comes roaring back again
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
The higher that the monkey can climb
The more he shows his tail
Call no man happy till he dies
There's no milk at the bottom of the pail
God tempers all the winds for the new shorn lambs
The devil knows the bible like the back of his hand
All the good in the world
You can put inside a thimble
And still have room for you and me
If there's one thing you can say about Mankind
There's nothing kind about man
You can drive out nature with a pitch fork
But it always comes roaring back again
For want of a bird
The sky was lost
For want of a nail
A shoe was lost
For want of a life
A knife was lost
For want of a toy
A child was lost
And misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Everybody row, everybody row
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Everybody row, everybody row
Everybody row, everybody row
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Everybody row, everybody row
Everybody row, everybody row
Everybody row
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Misery's the river of the world
Everybody row, everybody row
Everybody row!
Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d'Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus?
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Este livro pertence àqueles leitores que são menos numerosos. Talvez até ainda não exista nenhum deles. Podem ser os que compreendem o meu Zaratustra: como me seria possível confundir-me com esses a quem, já hoje, se presta ouvidos? Só o depois de amanhã me pertence. Há alguns homens que nascem postumamente.
As condições em que a gente me entende e, depois, me entende necessariamente, conheço-as eu até com demasiada precisão. Tem de ser-se íntegro nas coisas do espírito até à dureza, só para suportar a minha seriedade, a minha paixão. Há que estar acostumado a viver em montanhas... a ver abaixo de si o deplorável mexerico da política e do egoísmo dos povos próprio da nossa época. É preciso a pessoa ter-se tornado indiferente, não devendo perguntar nunca se a verdade lhe é útil ou se vem a ser o seu fadário... Uma predilecção enérgica por perguntas, para as quais, hoje, ninguém tem coragem; a coragem para o que é proibido; a predestinação para o labirinto. Uma nova consciência para verdades que, até agora, permaneceram mudas. E a vontade de conseguir uma economia de grande estilo, mantendo junto um do outro a sua energia e o seu entusiasmo... O respeito por si, o amor a si, a liberdade incondicional perante si próprio...
Pois bem! Só esses são os meus leitores, os meus leitores adequados, os meus leitores predestinados: que importa o resto? O resto é apenas a humanidade. Há que ser superior à humanidade pela energia, pela elevação da alma... pelo desprezo...
Friedrich Nietzsche
Prefácio para O Anticristo
O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.
in Livro do Desassossego, Bernardo Soares
And I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy's and talk about the day and type your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you're sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the the programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breasts your arse your
and sit on the steps smoking till your neighbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you're late and be amazed when you're early and give you sunflowers and go to your party and dance till I'm black and be sorry when I'm wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I'd known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you're angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you're gorgeous and hug you when you're anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I'm next to you and whimper when I'm not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don't and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I'm rejecting you when I'm not rejecting you and wonder how you could think I'd ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don't believe me and have a feeling so deep I can't find words for it and want to buy you a kitten I'd get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid of the roaches and buy you presents you don't want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don't mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it's empty without you and want want you want and think I'm losing myself but know I'm safe with you and tell you the worst of me and try to give you the best of me because you don't deserve any less and answer your questions when I'd rather not and tell you the truth when I really dont' want to and try to be honest because I know you prefer it and think it's all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it's a beautiful learning to know you and well worth the effort and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overwhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you.
in Crave, Sarah Kane
Have ah told you about the hellish fright of Deadtime? Do you know about the Bloodings? The Chills? Mere fragments of rushing life retained... like handfuls of wind. Time gone haywire. Night and day, the following and the followed, pitch their shining skyglobes from horizon to horizon. Sun serves, moon returns, searing time's cope with their mad flight, back and forth, to and fro, dark and light, like a hypnotist's watch swinging in the fob of heaven - O yes, like the pendular action of a naked bulb, hung and set aswing in an empty room. An hour! A day! Gone! Snuck past! Escaped unsullied, unsalvageable, never to be lived. All in the blinking of an eye. Deadtime! Deadtime! Where do you go?! Who uses you, if not me?! The killers and the killed. Murdering of mah lifetime - mah living-time. The agony-rack of mah day's passing and the slow method of its crank and shaft, the endless chatter of cogs ticking away the minutes, the bonecrack count and seconds of raw pain - the insufferable stretch of Time. Time lived. But what of all the deadtime, all the days unaccounted for? Where do they go?
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ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer -- vai por esse campo
de crateras extintas -- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração -- ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna -- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira -- não esqueças o ouro
o marfim -- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Al Berto
despido do sentido real e intenso dos cheiros, visto-me. saio para buscar cheiros num armazém, entro. o armazém, real e intenso, onde vestido me deleito, salgando a pele nesta humidade caprichosa, é escuro e quente. absorvo algum fresco, tímido, que entra por frestas invisíveis. suspiro. as colunas muito finas de luz, que chegam ao chão vindas do telhado de zinco, revelam o pó vagante neste espaço quase morto, quase vivo.
O «belo em si» é unicamente uma palavra, não um conceito. No belo, o homem põe-se como medida da perfeição; em casos selectos, adora-se a si mesmo. Uma espécie não pode senão deste modo dizer sim apenas a si mesma. O seu instinto mais ínfimo, o de autoconservação e de auto-expansão, irradia ainda mais em tais sublimidades. O homem crê que o próprio mundo está repleto de beleza - esquece-se de si como causa de tal beleza. Unicamente a si se presenteou com a beleza, com uma beleza, ai, muito humana, demasiado humana... No fundo, o homem espelha-se nas coisas, considera belo tudo o que lhe devolve a sua imagem: o juízo «belo» é a vaidade da sua espécie... Ao céptico pode uma pequena suspeita sussurrar ao ouvido a pergunta: embeleza-se realmente o mundo por o homem o tomar como belo? Ele humanizou-o e é tudo. Mas nada, absolutamente nada nos garante que o homem proporcionasse realmente o modelo do belo.
in Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche
Para mim, tudo tinha parado. Mesmo que o dia nascesse, mesmo que as coisas vivas começassem lentamente a acordar. Para mim, tudo tinha parado. O dia podia nascer, os pássaros podiam cantar, que, para mim, o tempo tinha parado num tempo de noite e de morte. Para mim, os pássaros não existiam, porque eu não acreditava nos pássaros a cantarem. Mas os corpos começavam a mexer-se. Os pássaros cantavam. Os dias nasciam. O céu brilhava. Eu sabia tudo aquilo em que não acreditava e estava ainda mais sozinho, ainda mais sozinho por isso. Eu estava tão sozinho que a minha solidão, eu, tinha sido recortada com precisão do mundo. Os meus contornos eram exactos a isolarem-me do mundo. Eu não queria existir. Eu não queria que o meu rosto fizesse parte das coisas que podem ver-se. Eu queria que os espelhos não me reflectissem, que ninguém me ouvisse, que ninguém soubesse da minha voz ou se lembrasse do meu nome, do meu rosto, das minhas memórias. Eu queria não ser sequer algo que se esquece. Lutava sozinho contra as manhãs.
in Uma Casa na Escuridão, José Luis Peixoto
Nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento colectivo é estúpido porque é colectivo: nada passa as barreiras do colectivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo
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Actualmente na nossa sociedade, existe nas pessoas uma tendência, muitas vezes sublinhada pela imprensa e pelos outros meios de comunicação, para procurarem a derrota. A partir do meu próprio campo de actividade, conheço numerosos casos dessa automutilação que faz com que indivíduos de valor reduzam por sua própria escolha as suas possibilidades de evolução. Existe uma categoria inteira de pessoas que ao longo de toda a vida querem tão obstinadamente ser doentes que acabam por já não saber distinguir a doença da saúde. Esta forma de invalidez voluntária é relativamente transparente quanto às suas intenções. A partir da ideia, decerto exacta, de que a nossa sociedade moderna exige uma eficácia a cem por cento dos seus cidadãos, nasce em numerosos membros dessa sociedade, um medo do fracasso perfeitamente compreensível. Pretendendo-se com tantos ou tantos por cento de enfermidade, os cidadãos obtêm uma espécie de seguro contra o fracasso e este seguro, para muitas mais pessoas do que costumamos imaginar, passa a ser a única coisa que torna suportável a vida.
Só que o facto de nos afundarmos não passa de uma etapa, de uma fase de paragem no caminho. O fenómeno mais notável é a vontade crescente de buscarmos a derrota mais total, a enfermidade mais completa, a degradação mais profunda. depois de ter examinado a questão, dando-lhes todas as voltas possíveis, cheguei à seguinte conclusão que não passa de uma série de perguntas: não teremos experimentado demasiadas vezes a miséria da vitória, do sucesso e da glória para continuarmos a ter a força de imaginar atingir a salvação por essas vias? O que é a salvação? É, julgo eu, o processo através do qual conseguirmos de repente suportar a ideia de que esta vida é vazia, fria, indiferente, um nada. Se, como decerto devemos fazer, partirmos da hipótese segundo a qual a faculdade de suportar este conhecimento, precioso entre todos, é indispensável ao homem, então põe-se uma outra questão: Em que momentos seremos mais acessíveis à salvação? Teremos a ousadia de responder: a vitória não nos traz qualquer apoio firme, a glória é para nós um deserto onde nos morre a alma? Todos nos perguntamos: Em que pensam os outros homens quando estão sozinhos? Se pensam como nós, por que é então que nunca o sabemos? Talvez saibamos todos a mesma coisa sem nos atrevermos a revelá-la uns aos outros? Talvez nos perguntemos: Onde está o amigo que procuro em todo o lado? Talvez o encontremos, todos nós, quando amarfanhados e em sangue o descobrirmos deitado, amarfanhado e em sangue, também ele, no fundo desse abismo para onde nos impele o nosso desespero? Mais fundo, mais fundo ainda, grita-nos o nosso desejo e por isso não interrompemos a nossa queda. Não é por amarmos a queda que caímos, não é por gostarmos de rastejar na noite que rastejamos, não é por amarmos a morte que a procuramos, porque a morte, nós sabemo-lo bem, não passa da punição por termos vivido. Talvez, simplesmente, esperemos descobrir nas trevas uma luz que a própria luz nos recusa, talvez esperemos descobrir na solidão um amigo que a comunidade dos outros nos nega.
Será isto o que nos está a acontecer? Não sei, porque se vale deveras a pena sabê-lo, são só suposições o que nos resta.
in As Sete Pragas do Casamento, Stig Dagerman
From childhood's hour I have not been
As others were - I have not seen
As others saw - I could not bring
My passions from a common spring -
From the same source I have not taken
My sorrow - I could not awaken
My heart to joy at the same tone -
And all I lov'd - _I_ lov'd alone -
_Then_ - in my childhood - in the dawn
Of a most stormy life - was drawn
From ev'ry depth of good and ill
The mystery which binds me still -
From the torrent, or the fountain -
From the red cliff of the mountain -
From the sun that 'round me roll'd
In its autumn tint of gold -
From the lightning in the sky
As it pass'd me flying by -
From the thunder, and the storm -
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view -
Edgar Allan Poe
Tenho vergonha pelo senhor Achille. Somos da mesma espécie, devíamos formar bloco contra eles. Mas o senhor Achille deixou-me, passou-se para o outro lado: acredita honestamente na experiência. Não na dele, nem na minha: na do doutor Rogé. Há bocado sentia-se esquisito, tinha a impressão de estar muito só; agora sabe que há outros no seu género, muitos outros: o doutor Rogé encontrou-os, poderia contar-lhe a história de cada um deles, e dizer-lhe como é que ela acabava. O senhor Achille é um caso simplesmente, e que se deixa com facilidade reduzir a algumas noções comuns.
Como gostava de lhe dizer que o estão a enganar, que ele se deixa ir no jogo dos importantes. Profissionais da experiência? Pessoas que levaram a vida num torpor, meio a dormir; que se casaram precipitadamente, por impaciência, e fizeram filhos por acaso. Encontraram os outros homens nos cafés, nos casamentos, nos enterros. De vez em quando, apanhadas por um remoinho, debateram-se sem compreender o que lhes sucedia. Tudo quanto se passou à roda delas começou e acabou fora da sua vista; longas formas escuras, acontecimentos que vinham de longe, roçaram por elas rapidamente e, quando elas quiseram olhar, já tudo acabara. E depois, pelos quarenta anos, baptizam a sua obstinaçõezinhas e alguns provérbios com o nome de experiência, começam a fazer de distribuidores automáticos: dois vinténs na ranhura da esquerda, e saem anedotas embrulhadas em papel de prata; dois vinténs na ranhura da direita, e recebem-se preciosos conselhos, que se pegam aos dentes como pasta de caramelo.[...]
in A Náusea, Jean-Paul Sartre
Talvez possamos comparar o ser humano a uma banheira de faiança branca: durante a infância e a primeira juventude, a banheira enche-se de uma água clara e fresca, que sussurra risonha; depois a água fica morna, cada vez mais quente, é uma água destinada à lavagem das acções, dos pensamentos, das sensações, condenada a perder a sua pureza sem com iss poder ser suja de qualquer maneira, uma água destinada a ser despejada quando quem nela se banha já não tiver forças para continuar a segregar porcaria. Se o ser humano é esta banheira, chega uma momento da vida em que uma mão desconhecida tira o tampão do fundo e em que a água, de novo fria, escorre com a sua porcaria e a sua pureza; o silvo da morte que sai do cano a princípio enche de medo o ser humano, mas este rapidamente se resigna e por fim só deseja que a mão desconhecida que abriu o tampão, limpe depois com uma escova as camadas de sujidade que ficarem dos lados da banheira. Mas com um triste gemido a última água turva é sorvida, também ela, pelo buraco negro, a banheira está vazia e fica silenciosa, está morta e a casa de banho envolta em sombras. Com a porta aferrolhada pelo lado de fora, a casa de banho está fechada para toda a eternidade, nunca mais ninguém ali tomará banho.
in "A Ilha dos Condenados", Stig Dagerman
[...] todos nós perdemos o hábito da vida, todos nós somos mais ou menos coxos. A tal ponto nos desacostumámos dela, até, que chegamos a sentir uma espécie de repulsa pela «vida viva» e odiamos que no-la lembrem. Pouco falta para que a encaremos como um trabalho, quase um serviço, e estamos todos de acordo, no fundo, que é melhor nos livros. E por que nos agitamos às vezes, por que deliramos, o que pedimos? Não o sabemos. Seria pior para nós se as nossas preces fossem satisfeitas. Dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem-nos as mãos a todos, alarguem o campo das nossas actividade, abrandem a vigilância e nós... garanto-vos: a primeira coisa que faríamos seria voltar a pedir que nos vigiassem.
[...]
Somos todos nado-mortos, desde há muito tempo, e os pais que nos engendram, são também mortos, e tudo isso nos agrada cada vez mais. Tomamos-lhe o gosto. Em breve inventaremos o meio de nascermos de uma ideia.
in Cadernos do Subterrâneo, Dostoiévski
E eis-nos de novo sós, mas a solidão é muito pior do que da vez anterior, o espaço não canta de solidão, o espaço não canta seja o que for, o espaço chove, neva, venta - mas isso nada nos diz. Estamos sozinhos de uma maneira acanhada, inestética e pois que seja como for não há salvação (admitindo que escapar à solidão seja salvarmo-nos, não é de admirar que ansiemos pelo grande espaço com a sua música diabólica mas sublime, com o seu isolamento implacável mas higiénico, com a sua ausência total de vida, sem dúvida, mas ao mesmo tempo com uma ausência igualmente absoluta de toda a obrigação de buscar contactos, de toda a necessidade de sorrir quando queremos chorar, de acariciar quando queremos arranhar, de procurar amigos quando acabamos justamente de descobrir que o mundo está cheio de inimigos.
Aspiramos aos instantes de completo abandono, aos instantes de solidão brutal e sublime com toda a intensidade da sua esperança e todo o ardor dos seus olhos, partilhamos um segredo perigoso, fomos iniciados no modo de emprego de um veneno temível chamado solidão e, como morfinómanos, dividimos doravante a vida em dois períodos: a embriaguez e a recuperação. [...]
in "A Ilha dos Condenados", Stig Dagerman
Compreender a escrita de quem escreve e pensa, terá o mesmo grau de dificuldade da compreensão da escrita de quem escreve mas não pensa?
Um escritor pensante, defino-o como alguém que estrutura a sua escrita com o objectivo de que a leitura da mesma seja o meio para o desenvolvimento intelectual do leitor. E não estou a querer ditar termos de comparação, no imediato, face a este desenvolvimento intelectual... este não será mais do que estimular o leitor a entender do que se escreve e a procurar as raízes dessa mesma escrita.
Hão pessoas que lêem e ficam contentes por saberem que a Xixinha foi comida trinta vezes pelo Canudinho antes de se separar, após ter compreendido experimentalmente que o Canudinho nunca lhe daria o prazer que o Vital lhe oferecerá... sempre! Depois replicam qualquer coisa na vida delas... para ver se funciona ou sonham para sempre com um Vital enquanto o seu Canudinho vai tentando fazer o trabalho a que está destinado: aturá-las.
Outras hão, para quem estas histórias não têm significado nenhum, isto é, não são significantes e, enquanto tal, tão importantes quanto qualquer coisa que eu agora não sei.
Portanto, fazer-nos pensar intelectualmente, deverá significar algo construtivo e positivo face à nossa interdependência com o meio e à nossa autonomia interventiva para desenvolver/alterar o meio.
Escrever pensando não será, portanto, tarefa fácil para pessoas a quem a Xixinha e o Canudinho dizem algo.
As citações que têm aparecido neste weblog, pretendem demonstrar que é possível ler pensando sobre coisas que fazem parte do nosso dia-a-dia, consciencializando a necessidade de pensarmos nelas e extrapolarmos os seus significados no meio que nos rodeia.
Are you hungry?
Are you sick?
Are you begging for a break?
Are you sweet?
Are you fresh?
Are you strung up by the wrists?
We want the young blood
Are you fracturing?
Are you torn at the seams?
Would you do anything?
Fleabitten motheaten?
We suck young blood
We suck young blood
Won't let the creeping ivy
Won't let the nervous bury me
Our veins are thin
Our rivers poisoned
We want the sweet meat
We want the young blood
Radiohead
É preciso que a loucura dos massacres seja extraordinariamente imperiosa para se disporem a perdoar o roubo de uma lata de conserva! - que digo eu? - a esquecer! É bem verdade que não estamos habituados a admirar todos os dias uma imensidão de bandidos com opulência que o mundo inteiro, tal como nós, venera, e cuja existência, desde que a examinemos um pouco mais de perto, se revela um longo crime todos os dias renovado; mas essas pessoas desfrutam de glória, honras e poder, as suas perversidades são consagradas pelas leis, ao passo que, tão longe quanto pode levar-nos a História, tudo nos demonstra que um furto venial e sobretudo de alimentos mesquinhos como côdeas, presunto ou queijo, atrai infalivamente sobre o seu autor o opróbio formal, os repúdios categóricos da comunidade, as penas máximas, a desonra automática e a vergonha sem expiação, e isto por duas razões: em primeiro lugar porque o autor de tais perversidades em geral é pobre e em si próprio este estado implica uma indignidade capital, e em seguida porque o seu acto comporta uma espécie de censura tácita à comunidade. O roubo do pobre faz-se uma maliciosa recuperação do poder individual, está a compreender... Aonde iríamos parar? Por isso, repare bem, a repressão dos delitos insignificantes é exercida em todos os climas e com rigor extremo, não só como meio de defesa social mas também, e acima de tudo, como aviso severo a todos os infelizes para continuarem no seu lugar e na sua casta, mansos, resignadamente satisfeitos por morrer ao longo dos séculos, e indefinidademente, de miséria e fome... No entanto, aos pequenos ladrões até agora restava uma vantagem na República, ficarem privados da honra de usar as armas patrióticas.
[...]
Digo-vos, simplórios, vencidos da vida, escorraçados, espoliados, transpirados de sempre, previno-vos: quando os grandes deste mundo resolvem amar-vos é porque vão transformar-vos em carne para canhão... É o sinal... É infalível. É por amizade que a coisa começa. Luís XIV, esse, que nos lembremos marimbava-se por completo para o bom povo. Quanto a Luís XV, é a mesma coisa. Estava-se a cagar. Não se vivia bem nesse tempo, é certo, os pobres nunca viveram bem mas ao estripá-los não havia a teimosia e a obstinação que encontramos nos tiranos dos nossos dias. Para os pequenos, digo-lhe eu, só há descanso com o desprezo dos grandes que apenas podem pensar no povo por interesse ou sadismo... Foram os filósofos, repare ainda a propósito, que começaram por contar histórias ao bom povo. A ele, que só conhecia o catecismo! Empenharam-se, proclamaram eles, em educá-lo... Ah! Que verdades tinham a revelar-lhes! E das boas! E das fresquinhas! Que brilhavam! De se ficar embasbacado! É isto!, começou a dizer o bom povo, é isto mesmo! É precisamente isto! Vamos morrer todos por isto! Nunca quer mais do que morrer, o povo! Tal e qual. «Viva Diderot!», berraram eles, e depois: «Bravo, Voltaire!» Ao menos eram filósofos! E viva tmbém Carnot, que organiza tão bem as vitórias! E viva toda a gente! Ao menos eram gajos que não deixavam o povo morrer na ignorância e no feiticismos! Mostraram-lhe, eles, os caminhos da Liberdade! Emanciparam-no! Mas não durou! Primeiro saibam ler todos os jornais! É a salvação! Caramba! E isso rápido! Basta de analfabetos! Não pode havê-los! Apenas soldados-cidadãos! Que votem! Que leiam! E que se batam! E que marchem! E mandem beijos! Sob este regime, o bom povo acabou por chegar ao ponto certo. O entusiasmo de ter sido libertado não havia de servir para alguma coisa? Danton não era eloquente por tão pouco. Com alguns berros tão sentidos que ainda hoje se ouvem, do pé para a mão mobilizou o bom povo! Foi o ponto de partida dos primeiro batalhões de emancipados frenéticos! Dos primeiros pobres-diabos votantes e baindeirófilos que levariam Dumouriez a fazer-se esburacar na Flandres! Para o próprio Dumouriez que, chegando demasiado tarde a este pequeno jogo idealista inteiramente inédito, e acima de tudo interessado em carcanhóis, desertou. Foi o nosso último mercenário... O soldado gratuito era novidade... Uma novidade tal que Goethe, tão Goethe como era, ao chegar a Valmy ficou pasmado. Perante aqueles magotes esfarrapados e apaixonados que se davam espontanteamente a estripar pelo Rei da Prússia para defesa da inédita ficção patriótica, Goethe sentiu que ainda tinha muitas coisas a aprender. «A partir de hoje», proclamou tão magnificamente como seria de esperar do seu génio, «começa uma nova época!» Tal e qual! Em seguida, como o sistema era excelente puseram-se a fabricar heróis em série e cada vez menos caros devido ao aperfeiçoamenteo do sistema. Toda a gentes se deu bem. Bismarck, os dois Napoleões, e tanto Barrès como a Cavaleira Elsa. A religião bandeirista substituiu prontamente a celeste, velha nuvem já emurchecida pela Reforma e desde há muito condensada em pés-de-meia episcopais. Antigamente, a moda fanática era «Viva Jesus! Fogueira com os heréticos!» Raros e voluntários, porém, os heréticos... Ao passo que, de futuro, aqui onde nos vêem é com hordas imensas que os gritos: «Morte aos que não matam uma mosca! Aos pãezinhos sem sal! Aos inocentes leitores! Milhões de homens de face voltada ao perigo!», despertam vocações. Os homens que não quiserem assassinar nem deitar as mãos a ninguém, os mal cheirosos pacifistas, agarrem-nos e chacinem-nos! Que os trucidem de mil maneiras e feitios bem desarrincados! Para aprenderem, comecem por arrancar-lhes as tripas do corpo e os olhos das órbitas, e acabem-lhes com os anos de vida porca e abjecta que eles têm! Que os façam finar-se legião por legião, saltar na corda bamba, sangrar, fumegar em ácidos, e tudo para a Pártia vir a ser mais amada, mas alegre e amena! E se lá houver imundos que recusem compreender estas coisas sublimes, só há que fazê-los enterrar imediatamente junto dos outros, não digo isto à letra, claro, mas no fim do cemitério e com o desonroso epitáfio de cobardes sem ideal uma vez que perderam, estes ignóbeis, não só o mágnifico direito a um cantinho de sombra no monumento adjudicatário e comunal erigido aos mortos como deve ser, na álea central, mas também o direito de captar um pouco do eco do ministro que, nesse mesmo domingo, vai urinar à casa do prefeito e depois do almoço fazer uma berratina sobre as campas...
in Viagem ao Fim da Noite, Céline
O doente é um parasita da sociedade. Em certas situações é inconveniente viver mais tempo. O vegetar prolongado em cobarde dependência dos médicos e praticantes, depois de se ter perdido o sentido e o direito à vida, deveria arrastar atrás de si, na sociedade, um profundo desprezo. Os médicos, por seu lado, deveriam ser os mediadores de tal desprezo - não receitas, mas, todos os dias, uma nova dose de náusea diante dos seus pacientes... Criar uma nova responsabilidade, a do médico, para todos os casos em que o interesse mais elevado da vida, da vida ascendente, exige a repressão e a rejeição implacáveis da vida degenerada - por exemplo, para o direito da procriação, para o direito de nascer, para o direito de viver... Morrer orgulhosamente quando já não é possível viver com orgulho. A morte, escolhida livremente, a morte no tempo oportuno, com transparência e alegria, no meio das crianças e de testemunhas: de modo que ainda seja possível uma verdadeira despedida, em que aquele, que se despede, ainda ali está, e seja igualmente possível uma autêntica valoração do que se conseguiu e se pretendeu, um resumo da vida - tudo ao contrário da lamentável e atroz comédia que o cristianismo institui para a hora da morte. Jamais se deve esquecer que o cristianismo abusou da fraqueza do moribundo para fazer um estupro da consciência, que abusou igualmente da morte para emitir juízos de valor sobre o homem e o seu passado! - Importa aqui, contra todas as cobardias do preconceito, realçar antes de mais a dignificação correcta, isto é, fisiológica, da chamada morte natural: a qual é, em última análise, também «antinatural», um suicídio. Por mais ninguém se sucumbe a não ser por si mesmo. Só que a morte, nas condições mais desprezíveis, é uma morte não livre, uma morte em tempo inoportuno, uma morte cobarde. Haveria que, por amor à vida, querer a morte de um outro modo, livre, consciente, sem acaso, sem surpresa... Por fim, um conselho para os senhores pessimistas e outros décadents. Não está na nossa mão impedir o termos nascido; mas podemos reparar esse erro - pois, às vezes, é um erro. Quando alguém se suprime, realiza-se a coisa mais digna de consideração que existe: quase merece viver, só por isso... A sociedade, que digo eu!, a própria vida tem aqui mais vantagens do que qualquer «vida» passada na renúncia, na anemia e outras virtudes - os outros livraram-se do seu espectáculo, libertou-se a vida de uma objecção...
in Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche
Hoje, já não temos compaixão alguma pelo conceito de «livre arbítrio»: sabemos demasiado bem o que é - o mais infamante artifício dos teólogos que tem por fim tornar a humanidade «responsável» - à sua maneira, isto é, torná-la deles dependente...
Apresento aqui apenas a psicologia de todo o tornar responsável. Onde quer que se busquem responsabilidades, costuma ser o instinto do querer castigar e julgar que aí campeia. Despojou-se o devir da sua inocência, quando de qualquer modo se reduz à vontade, a intenções, a actos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada para fins de castigo, isto é, do querer-encontrar-culpados. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, pressupõe que os seus autores, os sacerdotes, chefes das antigas comunidades, quiseram arrogar-se o direito de impor penas - ou para Deus quiseram criar esse direito...
Os homens foram imaginados «livres» para poderem ser castigados - a fim de poderem tornar-se culpados[...]
in Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche