Acordas pela noite, estás só.
Gravas na solidão dos quartos uma estrela de lume,
reflectes sobre a mesa os objectos frios dos
invernos.
Algures,
nos becos da infância, celebra-se a primeira fábula.
Já as tuas unhas percorreram os espelhos do ar,
já choraste junto aos umbrais.
Enumera as tábuas onde um destino se inscreve, deslumbra
a raiz da pedra, secretamente.
Não há candelabros para o pranto nos desvãos da capela.
Iluminas como numa tela de excessivo sol os vitrais ao
fundo,
e depois as naves.
Será o mar?
Confessa que dói uma enseada assim. Deserta de mastros,
além,
onde és um peixe, cintilante e cego.
Azul porque é a cor dos teus pincéis.
Veloz como sobre a lua alta correm as nuvens para a
tempestade.
Que procuras aí, que esboço de uma vida que a aguarela
não redime?
Uma flor de água ergue-se à tua volta, ama-te tão
fervorosamente.
Algures se desata o deserto em oásis que enlouquecem a tua
fronte nómada
e
quando abres os diques o coração grita.
Adensam-se as grades,
há uma campânula de corolas líquidas, quentes, um véu que
aperta.
Derrama-te, parte.
Antes que a garganta ameace o silêncio, antes que o silêncio
esmague as cordas
para que não cantes.
Não,
não voltarás a cantar na idade dos lírios.
Lírico partiste,
e as pétalas arderam demoniacamente, ardeu o gladíolo,
ardeu a rosa,
as ociosas plantas do exílio.
Pensa nessa fulgurante desolação à deriva pelos meses,
pelas terras que devastaram uma cabeça arredia.
Negaste a luz e o amor.
Edificaste um lugar de lanças, mansardas que dão para
traseiras de tudo.
Dos jardins outrora belos nada dirás, do que abandonast
nada esperes, ó sonhador.
Derrotado,
a teus pés jaz um povo.
Terá sido a desdita, o fado negro?
Deus mal levanta o seu chicote de fogo e eles tombam à
vista das cidades, velozes ao entardecer.
José Agostinho Baptista, de O Centro do Universo in Biografia
para o Juraan
Publicado por jm em abril 26, 2005 02:57 PMComo agradecer? Momento feliz.
Dito por: Juraan Vink no dia 26 de abril 2005, às 19h31alguém me há-de explicar pq é q o José Agostinho é praticamente ignorado.
http://www.icicom.up.pt/blog/muitaletra/
É incrível como é possivel ver beleza numa junção de simbolos a que chamamos palavras....
é mesmo só sentindo e bebendo o seu significado...!
A minha vizinha tem trutas na cona!
Eu vi!
Estavam com o rabo de fora, a dar, a dar...
Disse-me que lhe davam balanço,
E, de facto, ela estava dançando...