abril 10, 2005

Cartas

Escreves-me cartas, sou o destinatário
da tua solidão. E sempre compreendo
tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge
as entrelinhas de um branco desespero

que é tanto teu como meu: não tens
quem te salve, envelheceste, trataste mal
de um jardim que não chegou a vingar.
Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade

entre desconhecidos de toda a sorte, talvez
nos sentássemos a falar da nossa vida, isto é,
de como vamos ficando cada vez mais orfãos
de nós próprios. Ou, pensando bem, talvez não.



Rui Pires Cabral, in Longe da Aldeia

Publicado por jm em abril 10, 2005 09:32 PM
Comentários

Ouve-me!
O importante, aqui
não são as palavras,
mas
o que não te quero
dizer.


Dito por: carlos no dia 11 de abril 2005, às 10h05

talvez sim.

Dito por: margarete no dia 11 de abril 2005, às 11h39

"Ou, pensando bem, talvez não."

Dito por: carlos no dia 11 de abril 2005, às 11h41

afinal amigos, ficamos sempre com a vontade de ter a certeza do que adivinhamos.

Dito por: jm no dia 11 de abril 2005, às 16h55

como me pesa no poema a velhice.

Deve ser da falta de chuva...

Dito por: pés descalços no dia 12 de abril 2005, às 15h59

"Talvez" é uma palavra labirinto, pode-se, a partir dela, ir para qualquer lugar: para as entranhas do Minotauro ou para luz azul da salvação. Se eu te encontrasse na rua, não usaria a palavra talvez.

Dito por: Mourave no dia 13 de abril 2005, às 16h26

bom dia, então! :)

Dito por: jm no dia 14 de abril 2005, às 02h27

Bom dia !

Dito por: mourave no dia 14 de abril 2005, às 15h06

Contudo canto
Contudo abano as orelhas no pestanejar de espanto
No jardim zoológico, o elefante faz cócó
E tu limpas os panos da cozinha da tua avó

Não bebo mágoas no pestanejar ofegante de um citrino
Baixo as calças e masturbo-me quando toca o hino

Um disco voador faz figas em Viana do Castelo
Arrefinfo mais duas punhadas na cabeça do martelo

É o vil trovão na cueca cínica do escriturário
É a casta bravia do arsenal rodoviário

Pestanejo nas entranhas do queijo flamengo
O átrio da estação tresanda a esmegma
Último comboio para o Cacém
Suor proletário
Sulfureto de bário

Esguichos de vinagre e bafos de sumagre
Cabeça na almofada e caspa retardada

É madrugada ou alucinação?
Estrelas de mil cores, ecstasy, ou paixão?

Paixão, paixão...
Não vais fugir de mim
Serás paixão até ao fim!

Dito por: Saramago de Castro no dia 12 de maio 2005, às 00h49

Acho que foi uma boa entrada...
Vamos a ver como será a saída...

Dito por: Berb & Cacho no dia 12 de maio 2005, às 00h52