março 30, 2005

Venha chuva!

Mal o padre apareceu entre os dois alisares brancos de carvalho, houve um homem que trepou a um dos bancos e, numa voz altissonante, pediu silêncio. Diminuiu o rumor. Reinava agora, por toda a nave, urna calma atenta. Os olhos de Jaimemorto davam-se conta do sem-número de luzes que havia suspensas da abóbada, as quais lhe permitiam apreciar a amálgama de corpos entrelaçados uns nos outros, esculpidos ao longo do travejamento, e o vitral azul do altar.
— Venha chuva, ó padre! — disse o homem. A multidão repetiu em uníssono.
— Venha chuva!...
— O sanfeno está seco! — prosseguiu o homem.
— Venha chuva! — mugiu a multidão.
Jaimemorto, completamente ensurdecido, viu o padre estender o braço a pedir a palavra. Acalmaram-se os murmúrios. O sol matutino flamejava por detrás do vitral azul. Custava a respirar.
— Povo desta aldeia! — disse o padre.
A sua voz, imensa, parecia saída de todos os lados, e Jaimemorto adivinhou que só um sistema de amplificação lhe permitia atingir tal volume. As cabeças voltaram-se para a abóbada, para as paredes. Não havia qualquer aparelho à vista.
— Povo desta aldeia! — disse o padre. — Pedis-me chuva, pois não a tereis. Viestes hoje, altivos e arrogantes como leghornes, confiantes na vossa vida carnal. Viestes, como insolentes pedinchões, exigir o que não mereceis. Não, não choverá. Para o vosso sanfeno, está-se Deus nas tintas! Curvai o corpo, curvai a fronte, humilhai vossa alma e eu vos direi a palavra de Deus. Mas não conteis com uma só gota de água. Isto aqui é uma igreja, e não um chuveiro!
Perpassou pela multidão um murmúrio de protesto. Jaimemorto achava que o padre falava bem.
— Venha chuva — repetiu o homem empoleirado
no banco.
Depois da sonora tempestade da voz do padre, o seu grito pareceu irrisório, e a assistência, consciente da sua inferioridade temporária, calou-se.
— Pretendeis crer em Deus —tonitroou o padre — só porque vindes à igreja aos domingos, porque tratais com dureza o vosso semelhante, porque ignorais o que seja a vergonha, porque a vossa consciência vos não atormenta...
Mal o padre pronunciara a palavra vergonha, ergueram-se protestos daqui e dacolá, a que outros fizeram eco, acabando por rebentar tudo num grito arrastado.
Os homens, de punhos crispados, contorciam-se nos seus lugares. As mulheres, mudas, apertavam os lábios e olhavam para o padre com um olhar pérfido. Jaimemorto começava a perder o pé. Quando o tumulto se acalmou, o padre retomou a palavra.
— Que me importam a mim os vossos campos! Que me importam os vossos animais e os vossos filhos! —berrou ele.— Viveis, todos vós, uma vida material e sórdida. Ignorais o que seja o luxo!... Esse luxo, ofereço-vo-lo eu: ofereço-vos Deus... Mas Deus não gosta da chuva... Deus não gosta do sanfeno. Deus não quer saber do vosso chão, nem das vossas chãs aventuras. Deus, é uma almofada de brocado de oiro, é um diamante engastado no Sol, é Auteil, é Passy, é as sotainas de seda, as peúgas bordadas, os colares e os anéis, o inútil, o maravilhoso, as custódias eléctricas... Não, não choverá!
— Queremos chuva — berrou o orador, desta vez sustentado pela multidão, que desatou a trovejar como um céu tempestuoso.
— Voltem para as vossas quintas! —mugiu a múltipla voz do padre.— Voltem para as vossas quintas! Deus é a volúpia do supérfluo. E vós só pensais no necessário. Sois indivíduos perdidos, a seus olhos.


Boris Vian, in O Arranca Corações

tradução de Luiza Neto Jorge, Editorial Estampa

Publicado por dolphin.s em março 30, 2005 07:37 PM
Comentários

eu já li este excerto, tenho a certeza

foste tu que me mostraste? é que eu nunca li o Boris Vian...

Dito por: margarete no dia 30 de março 2005, às 21h26

carago! acho que não! só se foi a Madama Ali!

Dito por: dolphin.s no dia 30 de março 2005, às 21h46

nope, a madama não foi
vou ter de dar a volat á tola, pq sei que já li isso nalgum sítio..

Dito por: margarete no dia 30 de março 2005, às 23h10