março 21, 2005

Manhã

Regressado da noite, coroado pela poeira do fumo.
A pele vingou nas sublevações da corrente, mas os olhos
bateram no cascalho: é onde podem notar-se
as devastações, o avesso tenro da carne
exposto às navalhas da consciência.

A manhã recusa o sentido que lhe dão os pássaros,
a luz mansa sobre as telhas, as nuvens da cor do leite e espessas
como nos quadros ao fundo. Tudo o que existe no quarto te fala
com a voz desfigurada do poema, lamento ou sinal de alarme
que rebenta no gosto, no tacto da língua.



Rui Pires Cabral, in Praças e Quintais

Publicado por jm em março 21, 2005 10:57 AM
Comentários

E que manhã!!

;)

Dito por: AmigaTeatro no dia 23 de março 2005, às 15h56