março 21, 2005

Insónia

Laurie Lipton, Of What Will he DieFeliz aquele que dorme pacificamente num leito de penas, arrancadas ao peito do ganso, sem notar que se trai a si mesmo. Há já mais de trinta anos que não durmo. Desde o dia indizível em que nasci, votei às tábuas do sono irreconciliável ódio. Eu o quis; não acusem ninguém. Despojem-se depressa da suspeita abortada. Vedes na minha fronte essa pálida coroa? Foi a tenacidade que a entrançou com seus dedos magros. Enquanto nos meus ossos correr um resto de seiva ardente, como torrente de metal fundido, não dormirei nunca. Todas as noites, forço os olhos lívidos a fitarem as estrelas através dos vidros da minha janela. Para ficar mais seguro de mim, coloco uma lasca de madeira a separar-me as pálpebras inchadas. A aurora, quando surge, encontra-me na mesma posição, com o corpo verticalmente apoiado, de pé, encostado ao gesso da fria parede. No entanto, acontece-me às vezes sonhar, mas sem que por um só instante perca a vivaz sensação da minha personalidade e a livre faculdade de me mexer: sabei que o pesadelo que se oculta nas esquinas fosfóricas da sombra, a febre que me tacteia a face com o coto do braço, cada um dos animais impuros que erguem suas garras sangrentas, sim, é a minha vontade que, para alimentar estavelmente a sua perpétua actividade, os faz andar à minha volta. Na verdade, átomo que se vinga na sua extrema fraqueza, o livre arbítrio não teme afirmar com poderosa autoridade que não conta o embrutecimento no número dos seus filhos: aquele que dorme é menos que um animal castrado de véspera. Embora a insónia arraste para as profundezas da cova estes músculos que exalam já um odor a cipreste, nunca a branca catacumba da minha inteligência abrirá seus santuários aos olhos do Criador. Uma secreta e nobre justiça, para cujos braços estendidos me lanço por instinto, manda-me que persiga sem tréguas esse ignóbil castigo. Temível inimigo da minha alma imprudente, à hora em que se acende uma lanterna na costa não deixo que os meus rins infortunados se deitem sobre o orvalho das relvas. Vencedor, rejeito os embustes da hipócrita dormideira. Por consequência, é coisa certa que o meu coração, por essa luta estranha, ergueu muros aos seus desígnios, como um esfomeado que se come a si mesmo. Impenetrável como os gigantes, eu vivi sempre com a largura dos olhos bem aberta. Pelo menos, está provado que, durante o dia, todos podem opor útil resistência ao Grande Objecto Exterior (quem não sabe o nome dele?); porque, então, a vontade vela pela sua própria defesa com notável afinco. Mas logo que o véu dos vapores nocturnos se estende, até sobre os condenados que vão ser enforcados - oh, então é ver o intelecto nas mãos sacrílegas de um estrangeiro. Um escalpelo implacável esquadrinha os seus densos silvedos. A consciência exala um longo estertor de maldição, pois o véu do seu pudor sofre cruéis rasgões. Humilhação! a nossa porta está aberta à curiosidade feroz do Celeste Bandido. Eu não mereci este suplício infame, ó horrendo espião da minha causalidade! Se existo, é porque não sou outro. Não admito em mim esta equívoca pluralidade. Quero morar sozinho no meu íntimo raciocinar. A autonomia... ou então transformem-me em hipopótamo.

Os Cantos de Maldoror
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont


tradução de Pedro Tamen, Edições Quasi


Publicado por dolphin.s em março 21, 2005 10:44 AM
Comentários

não vou ler o excerto agora
mas fiquei curiosa, estas imagens que têm acompanhado os textos são do livro?
são fantásticas!

Dito por: margarete no dia 21 de março 2005, às 10h58

não são do livro, mas a capa do livro é a 1ª foto que coloquei: Love Bite. E foi por aí que descobri o site da senhora e as restantes imagens :)

se clicares nas imagens, vais lá dar ;)

Dito por: dolphin.s no dia 21 de março 2005, às 12h29

ops! só agora reparei que as imagens estão linkadas


queres saber o mai'lindo lapsus leitura que acabo de cometer?
no fim deste excerto li «ou então transformem-me em»... hipotálamo!

8o

Dito por: margarete no dia 21 de março 2005, às 12h31

lol!!! eu tb fiz essa leitura qdo passei por ele :D

Dito por: dolphin.s no dia 21 de março 2005, às 15h11