março 07, 2005

Cantos

Os Cantos pegam na estética romântica e exploram-lhe todos os clichés, ampliam-lhe todos os tiques, do ênfase ao melancólico, da grandiloquência ao preciosismo, dos sentimentos nobres ao macabro, num desejo de a levarem para lá dos seus limites, o corrosivo humor e a fina ironia dos comentários em permanente minagem da ficção a ser elaborada. Ora as metáforas participam desta vontade de levar o romantismo à auto-destruição, ridicularizando as suas pretensões metafóricas pela introdução de equivalentes estapafúrdios retirados do repertório de lugares comuns da medicina, das ciências naturais ou da quinquilharia doméstica. Isidore Ducasse escarnece assim de uma poesia sempre à procura dos belos efeitos e das comparações floreadas.
Foi também a passagem dos anos e das leituras que me foi dando consciência da fertilidade infinita dos Cantos, dos numerosos procedimentos textuais, visuais e mesmo sonoros que anteciparam, desde a escrita automática, em seguida desenvolvida pelos surrealistas, até ao plágio, que Isidore Ducasse virá mais tarde a defender como necessário (cfr. Poesias II), desde a prática do desvio, retomada depois pelos situacionistas, até à repetição reiterada, modular, circular, como o fazem hoje os samplers. Igualmente a colagem, o ready-made, o cut-up, a apropriação ou a mistura, encontram a sua legitimidade histórica na obra de Isidore Ducasse. E ainda as violências desfigurativas expressionistas, o nihilismo Dada, o No Future punk ou a cultura trash do final do século XX, que tiveram nos Cantos um antecedente em termos de atitude.
Mas mais do que estes ou outros achados formais, o importante é que Os Cantos de Maldoror, passados mais de cem anos da sua primeira edição e quase trinta desde que por eles me aventurei, mantêm intacto o seu poder de atracção. A sua energia continua intocada e com ela o prazer primitivo de derrubar o pai, o mestre, Deus, a autoridade, o prazer físico de transgredir o interdito, de soltar os desejos reprovados, o prazer intelectual de contemplar a escrita, de lhe sentir os avanços, os recuos, os desvios, o humor, o prazer alucinógeno de se deixar levar pelas suas dimensões oníricas, pelos espaços do sonho e da fantasmagoria. E a cada leitura há sempre novos pormenores a descobrir, novas ligações que se estabelecem - que mais podemos ansiar?

Adolfo Luxúria Canibal, in Prefácio para Os Cantos de Maldoror
Edições Quasi

Publicado por dolphin.s em março 7, 2005 08:14 PM
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