A primeira vez que viu morrer, Erzsébet teve algum medo e contemplou o cadáver sem compreender muito bem o que estava a acontecer. Mas foi um pequeno sinal de remorso breve e passageiro. A partir daí, ficou mais interessada no longo tempo que demorava o estertor; e também na duração do prazer sexual necromântico.
Com uma espécie de presunção voluptuosa da sua impunidade lá nas profundezas das caves de Csejthe, foi-se entregando de alma e coração aos jogos com fogo, archotes e candelabros que, com os seus reflexos, tornavam ainda mais expressivas as várias fases de tão insano ritual. Uma forma de felicidade. Sob o último degrau do inconsciente batiam já as asas da loucura. Se assim não fosse, como poderia Erzsébet ter perpetrado tais actos?
Pode compreender-se qual a origem deste prazer sexual, enormemente potenciado pela penumbra atravessada pela vaga luz dos archotes, fora do mundo, quase no interior da terra e baseado na convicção de uma secreta impunidade. São inúmeras as seitas que se dedicaram a práticas eróticas em lugares tão inacessíveis que, depois de se entrar, nem sequer se sabia indicar bem a localização das portas.
Quanto ao prazer da feitiçaria propriamente dito, esse prazer que fez cair sobre Gilles de Rais a ira do tribunal eclesiástico, a que Erzsébet Báthory foi poupada, é o mais indestrutível dos dois. Enquanto o corpo pode fatigar-se e, por isso, chegar ao arrependimento, a mente prossegue o caminho que a pouco e pouco foi traçando como seu, dentro de uma lógica feita de fluidos e sangue. Os crimes nascidos das mais terríveis paixões do corpo podem ser absolvidos: durante o julgamento de Gilles de Rais, o crucifixo foi tapado, por razões de decência, e não voltou a ser referido. Mas que dizer desse círculo mágico que em si mesmo se encerra? Que esperança pode haver nesse universo criado a contrapelo dos antigos sinais vitais por assinaturas de carvão que, uma vez após outra, atingem e selam a mente de modo a convertê-la em cunho de natureza, tanto por alienação posterior como por origem inicial? Que dizer de Erzsébet Báthory, supersticiosa e depravada, com o nariz aquilino prolongando a direito a linha da testa e o queixo pesado e ligeiramente recolhido, evocando ao mesmo tempo a ovelha negra e a ave de rapina que a toma nas garras? Que dizer desta mulher cuja companhia, apesar de tudo, era sempre tão desejada? A verdade é que não é o agradável que fascina mas o insondável. Se um dia fosse possível amar esse género de seres com o conhecimento das causas profundas e reais do seu nascimento, sem os temer e sem temer as forças poderosas que decidiram a sua vinda ao mundo, então deixaria de haver lugar para a crueldade e para o medo.
Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose
tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim
Aconselho o Contos Imorais do Walerian Borowczyk, caso ainda não tenhas visto. Tem uma representação da Condessa...
... aconselho, inclusive, todos os seus filmes... (d)(n)o tempo em que o porno era arte...
Dito por: kay no dia 12 de janeiro 2005, às 18h21olá olá!
não, não conheço! mas vou pesquisar! :)
gracias :))
Dito por: dolphin.s no dia 15 de janeiro 2005, às 12h22