janeiro 07, 2005

A Condessa Sanguinária III

Castelo de CséjtheFoi Darvulia quem, logo no ano em que Ferencz Nádasdy morreu, iniciou Erzsébet nos jogos mais cruéis, tendo-lhe ensinado a olhar a morte e o sentido de saber olhar a morte.
A Condessa, até então apenas motivada pelo prazer de fazer sofrer e ver sangrar as suas criadas, refugiou-se sempre na necessidade de punir as faltas cometidas pelas suas vítimas. Agora, o sangue vertido era-o em função de ser sangue e nada mais e a morte era infligida apenas em nome da própria morte. Darvulia descia até às caves para escolher as raparigas que lhe pareciam mais bem alimentadas e resistentes. Ajudada por Dorkó, empurrava-as à sua frente pelas escadas e corredores mal iluminados que iam dar ao lavadouro, onde, muito rígida na sua alta cadeira trabalhada, a senhora se encontrava já, enquanto Ilona Jó e outras mulheres se ocupavam do lume, das ligaduras, das facas e das navalhas. As duas ou três raparigas que haviam sido escolhidas ficavam nuas, de cabelo completamente desgrenhado. Eram muito belas e tinham sempre menos de dezoito anos, algumas pouco mais de doze; Darvulia queria-as muito jovens, porque sabia que, se já tivessem experimentado o amor, o poder mágico do seu sangue ficaria irremediavelmente perdido. Dorkó atava-lhes os braços com muita força e alternava com Ilona Jó nos açoites com uma vara de freixo ainda verde que deixava sulcos profundos e horríveis na carne. Por vezes, era a própria Condessa a encarregar-se de prosseguir. Quando a rapariga já não era senão chaga tumefacta, Dorkó pegava numa navalha e golpeava onde lhe apetecia. O sangue saltava por todo o lado e as mangas brancas de Erzsébet Báthory empapavam-se de todo nesse dilúvio vermelho. Ficava de tal modo coberta de sangue que era obrigada a mudar de roupa. A abóbada e as paredes gotejavam. Quando, finalmente, a rapariga parecia estar prestes a morrer, Dorkó abria com tesouras as veias dos braços onde ainda havia algumas gotas de sangue. Em certos dias, estando farta dos gritos, a Condessa mandava coser as bocas para não ter de ouvir.


Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose

tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim


Publicado por dolphin.s em janeiro 7, 2005 10:12 AM
Comentários

Boas, no meu blog fiz uma pequena surpresa com o link do Silêncio foi com muito prazer e gosto que lá o pus, mas se de alguma forma não for do agrado do dono deste é só me dizer que precederei à sua remoção de imediato. Espero que seja do agrado.
Saudações!!!
Ofeliazinha

Dito por: Ofeliazinha no dia 8 de janeiro 2005, às 21h43

muito obrigada Ofeliazinha :))

Dito por: dolphin.s no dia 10 de janeiro 2005, às 12h41