janeiro 04, 2005

A Condessa Sanguinária II

Erzsébet BathóryOs banhos, os repastos e os bailes seguiam o seu curso. Não se ia à caça, porque os banhos fatigavam bastante e a tarde era passada a dormir nos quartos, dada a indolência quente e silenciosa que descia sobre o castelo. Mas, lá nos confins das caves, do outro lado das grossas paredes e dos corredores, um grupo de jovens criadas esfomeadas gemia. Desde há oito dias que Dorzó não lhes dava de comer; e, não contente com isso, ainda as arrastava durante as noites já frescas do Outono até ao exterior para lhes lançar água quase gelada sobre os corpos. Algumas morreram; as outras, de olhos esvaídos e já não podendo mover-se, olhavam através da grade da pequena abertura que dava para o jardim as altas coroas dos girassóis, cheias de sementes cujo gosto insípido imaginavam reconfortante. Na apertada divisão onde estavam encerradas, podiam ouvir os gritos da noite de Setembro nos campos e nos jardins; e, vindos de longe, do outro lado do castelo, os sons da música dos bailes. Dorkó colocou as primeiras raparigas mortas debaixo de uma cama e, apesar de ser o mês de Setembro, viu-se obrigada a arranjar peles de animais para poder cobri-las; ao mesmo tempo, para que ninguém desconfiasse, fazia questão em ser vista a transportar comida, como se as prisioneiras ainda estivessem vivas. O cheiro começava a ficar cada vez mais pestilento e Dorkó teve de valer-se de tudo e mais alguma coisa para persuadir um lacaio a enterrar os cadáveres.
Quando chegou o tempo de partir de novo, Erzsébet mandou chamar as criadas; mas as sobreviventes encontravam-se num tal estado de fraqueza que não podiam caminhar. Ficou muito irritada e acusou Dorkó de ter excedido as suas instruções: já não lhe bastava ter de viajar sem séquito e aborrecer-se todo o tempo da viagem até Csejthe? Entretanto, a menos depauperada de todas as raparigas foi empurrada para dentro da carruagem. Morreu na viagem. Com as outras não se preocupou; foram deixadas, moribundas, à guarda de Dorkó, que terá então passado um dos momentos mais desagradáveis da sua vida. Tinha já lançado alguns corpos nas valas em redor do castelo, mas, uma vez que vieram à superfície, teve de recolhê-los outra vez e procurar rapidamente um sítio onde pudessem ficar dissimulados. Acabou por escolher um pedaço de terra branda no quintal, que tinha cenouras plantadas e onde se amontoavam já outras raízes comestíveis destinadas a fazer face aos rigores do Inverno, e conseguiu convencer os lacaios a enterrarem os corpos aí. O cão de Miklós Zrinyi, um enorme galgo de focinho comprido, descobriu-os no decurso de um passeio com o dono, pondo-se aos pulos à sua volta, sabe Deus com que horrível pedaço de carne humana na boca. A partir daí, Zrinyi passou a olhar a sogra possuído de enorme horror, embora tenha permanecido em silêncio acerca da prova que a incriminava. Agora já não era possível procurar qualquer espécie de desculpa. A história desse cão maldito amedrontou os lacaios. Recusaram continuar a ajudar Dorkó, que não se atreveu a enterrar mais cadáveres enquanto os convidados não partissem. Teve de contentar-se em ir jogando cal sobre as mortas, que escondera num sítio de onde saía um cheiro tão horrível que os lacaios recusavam ir a essa zona do castelo. Quando, por fim, ficou só, andou cinco noites a cavar fossas no jardim e a transportar para lá os sinistros fardos.


Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose

tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim


Publicado por dolphin.s em janeiro 4, 2005 10:47 AM
Comentários

weird, pus aqui um comment de manhã, e foi-se

8/

(repare-se que voltei a arregalar os oios)

Dito por: margarete no dia 4 de janeiro 2005, às 16h43

mmmmm.... não recebi nenhum mail... n deve ter chegado a gravar :/

Dito por: dolphin.s no dia 4 de janeiro 2005, às 19h27

anyway, era uma balela acerca da forma como passarei a ver os galgos e as condessas

:P

Dito por: margarete no dia 4 de janeiro 2005, às 21h10

ehehehehe e as jovens virgens ;P

Dito por: dolphin.s no dia 4 de janeiro 2005, às 21h35