A partir de 1604, o ano da morte do conde Nádasdy, uma criatura misteriosa adquirira enorme poder sobre a mente de Erzsébet Báthory. Vinha do coração da floresta e a ela regressava, em certas noites, para uivar à lua; e, sempre seguida pelos seus gatos pretos, voltava novamente ao castelo e coroava-se de ervas escuras e prateadas, de artemísia e meimendro, dançava com a sua própria sombra nas clareiras entre as árvores e esconjurava as antigas divindades.
Ninguém a conhecia. Era a «feiticeira da floresta». Feiticeira desde sempre, vivera em tempos na região de Sárvár, onde tinha por hábito observar Erzsébet de longe, quando esta galopava pelos campos, destruindo as colheitas. Chamava-se Anna, mas por qualquer razão desconhecida tinha escolhido o nome de Darvulia. Era muito velha, colérica e sem coração: um verdadeiro e terrível monstro. Encontrara nos olhos de Erzsébet tudo o que havia de maléfico nos venenos da floresta e na insensibilidade desértica da Lua e adivinhara neles a escravatura psíquica própria de uma terra negra a explorar, disponível para aceitar as suas sementes. Era de húmus assim que extraía os seus poderes, feitos do instinto que liga irrevogavelmente a feitiçaria a tudo quanto é viperino, venenoso e l capaz de morte. Erzsébet, na sua passividade saturnina, abandonou-se a esses poderes; a sua megalomania e o seu gosto pelo vazio deixavam-na sempre disponível para receber e para aceitar tais poderes. E foi Darvulia quem lhe pôs à disposição os frutos maduros da loucura. Fê-lo por efeito da magia, mas também através dos meios mais sórdidos, suprimindo com eficácia todo e qualquer obstáculo exterior que a Condessa pudesse não ser capaz de ultrapassar. A Lua estava em Capricórnio e, por isso, era o momento certo para fazer o banho no meio da noite, enquanto se queimavam acres resinas ao som de um esconjuro interminável e monótono. Darvulia, na sala subterrânea e secreta como uma cripta, traçava, com a paciência própria dos feiticeiros, círculos e signos, ao mesmo tempo que desenrolava todo o seu grimório sem nunca se enganar no intrincado labirinto dos poderes negros. E, dominando-os e fazendo com que voltassem a acordar, vivia a sua própria magia perante a enfeitiçada Erzsébet, comungando com ela o único sacramento que desejava partilhar.
Erzsébet Bathóry, A Condessa Sanguinária
Valentine Penrose
tradução de Helder Moura Pereira
Colecção Beltenebros, Assírio & Alvim