novembro 26, 2004

Jacques Moran descreve a terra de Molloy

Por terra de Molloy entendo a região bastante restrita que nunca franqueou, e verosimilmente nunca franqueará os limites administrativos, seja porque lhe esteja interdito, seja porque não tenha vontade de o fazer, seja, naturalmente, pelo efeito de um extraordinário acaso. Esta região estava situada a norte, relativamente àquela mais amena onde eu vivia, e era constituída por um aglomerado que alguns mimoseavam com o nome de vila e onde outros mais não viam do que uma aldeia e campos circunvizinhos. Esta vila, ou aldeia, digamo-lo já, chamava-se Bally, e ocupava, em conjunto com as terras na sua dependência, sensivelmente, uma superfície de cinco a seis milhas quadradas. Nos países evoluídos chama-se a isto uma comuna, creio, ou um cantão, não sei, mas entre nós não existe um termo abstracto e genérico para estas subdivisões do território. E para as expressar temos um outro sistema, de uma beleza e simplicidade excepcionais, e que consiste em dizer Bally (pois que se trata de Bally) quando se pretende dizer Bally e Ballyba quando se pretende dizer Bally mais as terras e aferentes e Ballybaba quando se pretende dizer as terras de Bally exclusivas da própria Bally. Eu, por exemplo, vivia, e, pensando bem, ainda vivo, em Shit, centro principal de Shitba. À tarde, quando ia passear, para apanhar ar fresco, em redor de Shit, era o ar de Shitbaba que apanhava, e não outro.



Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias

Publicado por jm em novembro 26, 2004 02:33 PM
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