novembro 24, 2004

Jacques Moran, por ter um imenso horror ao incerto

Que um homem como eu, simultaneamente meticuloso e calmo, atento tão pacientemente ao exterior como ao mais pequeno defeito, senhor da sua casa, do seu jardim, Samuel Beckettdas suas algumas pobres posses, executando fielmente e com habilidade um trabalho repugnante, detendo o seu pensamento nos limites do cálculo, por ter um imenso horror ao incerto, que um homem assim fabricado, porque eu era uma fabricação, se deixe assediar e possuir por quimeras, isso ter-me-ia parecido estranho, obrigando-me mesmo a colocar tudo em ordem, no meu próprio interesse. Isto não era nada. Não via nisto senão uma necessidade de eremita, necessidade certamente pouco recomendável, mas que deveria satisfazer, se quisesse manter-me solitário, e eu desejava-o, com tão pouco entusiasmo como às minhas galinhas ou à minha fé, mas com a mesma clarividência. Por outro lado, isso ocupava um espaço muito limitado na inenarrável marcenaria que era a minha existência, apenas a comprometia com os meus sonhos, mas também depressa se esquecia. Isolar o fogo antes da conflagração sempre me pareceu razoável. E eu poderia contar a minha vida que nunca teria feito alusão a estas presenças, e à do infortúnio de Molloy menos ainda que a qualquer outra. Porque havia outras, igualmente possíveis de agarrar.



Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias

Publicado por jm em novembro 24, 2004 11:57 AM
Comentários

Fabuloso.

Dito por: Neo-normal no dia 25 de novembro 2004, às 13h10

Em relação ao cliente anterior: posso retirar o neo sempre que coloque Paulo-normal

Dito por: Neo-normal no dia 25 de novembro 2004, às 13h21

li algumas coisas de Beckett, mas não Molloy. no entanto, esta sensação de que ele (o autor) nunca sai de si mesmo, de que todas as suas personagens são desdobramentos fabricados de um mesmo ser ou uma só realidade; talvez daí o carácter "inenarrável" da sua escrita, porque de deambulações se trata.
pensará Beckett em si também como uma "fabricação"? ou uma "quimera"?

(terei feito algum sentido?)

Dito por: margem no dia 3 de dezembro 2004, às 11h46