Não, nunca me evadi, e até os limites da minha terra eu ignorava. Mas acreditava-os bastante alargados. Mas esta crença não era baseada em nada de sério, era uma simples crença. Porque, se os limites da minha terra estivessem ao alcance dos meus passos, imagino que uma espécie de gradação mo teria feito pressenti-lo. Porque as terras não acabam bruscamente, que eu saiba, mas fundem-se, insensivelmente, umas nas outras. E eu nunca notei nada do género. Por muito longe que tenha ido, num sentido como noutro, este foi sempre o mesmo céu, a mesma terra, exactamente, dia após dia, e noite após noite. Por outro lado, se as terras se fundem, insensivelmente, umas nas outras, o que está por provar, é possível que tenha saído da minha muitas vezes, julgando estar sempre nela. Mas preferia agarrar-me à minha simples crença, aquela que me dizia, Molloy, a tua terra é de uma grande amplitude, nunca saíste nem nunca sairás dela. E por onde quer que erres, entre os seus longínquos limites, será sempre a mesma, precisamente. O que levava a crer que as minhas deslocações nada deviam aos lugares que elas faziam desaparecer, mas sim a outra coisa, à roda empenada que me conduzia, por imprevisíveis sacões, de fadiga em descanso, e inversamente, por exemplo. Agora já não erro, por lado nenhum, e até quase não me mexo e, no entanto, nada mudou. E os limites do meu quarto, da minha cama, do meu corpo estão tão longe de mim como os da minha terra, no tempo do meu esplendor.
Samuel Beckett, in Molloy
tradução de Dóris Graça Dias
Profundo... shiuuu
Dito por: Neo-normal no dia 23 de novembro 2004, às 00h48Andas em Molloy? Depois d'A Pastoral?!
Dito por: Paulo no dia 23 de novembro 2004, às 02h22"profundo"?!? ... schiuuu. Retira o "neo".
Dito por: Paulo no dia 23 de novembro 2004, às 02h25Ando no Beckett, depois de Como É, agora o Molloy... sem passar pela Pastoral. Quem leu a Pastoral está no Cão Amarelo ;)
Parece um jogo da Glória!
Dito por: jm no dia 23 de novembro 2004, às 11h13eheheheheheh :P
Dito por: dolphin.s no dia 23 de novembro 2004, às 16h34ooops... Eras tu, my darling; não reparei. O Molloy é uma inexistência bestial, não é?
Dito por: Paulo no dia 23 de novembro 2004, às 17h32agora q estou a lê-lo como se fosse o único escritor.. isto é, só leio escritos dele.. confirmei suspeitas de algo que tinha desvendado com o primeiro amor e com o Pioravante marche
e com as peças de teatro.. depois falamos ;)...
se achares o Como É, agarra-o! é um exercício excelente.
Dito por: jm no dia 23 de novembro 2004, às 17h56Órraitezes.
Dito por: Paulo no dia 23 de novembro 2004, às 20h46como se não houvesse evasão ou viagem concretamente possíveis -