setembro 15, 2004

Taxi blues

para as mulheres que vendem o corpo na rua de Artilharia Um

Também eles as podem ver,
com os cérebros eunucos
que ejacularam de mais
o nada que tinham para dizer.
É ouvi-los a dissertar tão «machos»,
às voltas com um sufixo grego
(elevado vírus) que conhecem
tão bem como o rosto vazio
com bigode à frente que penduram
sobre um volante alarve.

Mas deixemos estar a Artilharia Um,
o filme homónimo e russo,
os soluços que por um acaso qualquer
fugiram ao nosso querer. A noite
em Lisboa, chovida, é epitáfio bastante
para os corpos que perdem e perdem,
esquecidos no lugar de perderem.

A fraca certeza radiofónica
deixa o silêncio crescer desabrido,
ruas sobre ruas a arder.

Também eles as podem ver,
como incinerações descontínuas
que mendigam mais do que dão,
dando embora mais do que têm.



Manuel de Freitas, in Os Infernos Artificiais

Publicado por jm em setembro 15, 2004 05:14 PM
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